Domingo, 14 de Março de 2010

 Depois de ter dado a volta ao Mundo para escrever o seu primeiro livro, Simon Kuper é hoje um dos mais capazes analistas da realidade do futebol africano. E num ano de Mundial a expectativa à volta do beautiful game no Continente Negro é alta. Mas o jornalista avisa para a decadência das ligas locais e para a realidade de um jogo que abandonou o processo revolucionário para se instalar numa tranquila e rápida evolução. Segunda parte da conversa do Em Jogo com Simon Kuper.

 

Há ainda pessoas que acreditam que esta pode ser o “Mundial de África”. No entanto as fracas exibições da maioria das selecções africanas na última CAN parecem um aviso claro. Acha que há realmente a possibilidade de uma equipa africana chegar aos, digamos, Quartos de Final?
Qualquer equipa pode chegar aos Quartos de Final mas eu não apostava em nenhuma equipa africana. No livro Football Against the Enemy, em 1993, previ que o futebol africano iria entrar em declínio. O rendimento per capita de um pais prediz, infelizmente, o seu sucesso futebolístico. E o centro do futebol é a Europa ocidental e África está-se a afastar cada vez mais desse eixo e isso vai-se reflectir no jogo das suas equipas.
 
O futebol sempre foi uma das principais formas dos africanos reforçarem a sua identidade nacional. Mas na sua coluna habitual no Financial Times declara que as pessoas em África estão a desligar-se do seu próprio futebol. Num ano histórico para o futebol africano como é possível que se verifique essa tendência?
Muitos africanos não são tão nacionalistas como nos querem fazer crer. Sofreram também com o processo de globalização. Se estamos na Nigéria e a nossa liga nacional é fraca e a nossa selecção medíocre, e o melhor futebol está na Premier League, é natural que desviemos a nossa atenção para lá. Não acredito que o facto do Mundial ser em África irá mudar algo na forma de vida ou de pensar dos africanos. Se vivêssemos na Nigéria, por exemplo, estaríamos emocionalmente mais ligados aos ingleses ou americanos do que à África do Sul.
 
Hoje em dia os estádios de futebol tornaram-se grande centros comerciais, repletos de anúncios, com bancadas com nomes de empresas e várias lojas dentro a vender de tudo menos futebol. Com o preço dos bilhetes pelas nuvens, os lugares anuais reservados à classe média-alta, como é que ainda se pode acreditar na história de um adepto que nasce e morre defendendo à morte um clube que muitas vezes nunca viu sequer jogar ao vivo?
Essa é uma ideia que defendemos no nosso último livro. O mito do adepto e do seu amor eterno a um clube foi exagerado. A maioria dos adeptos de futebol sempre foi menos leal do que se diz. Mais consumidores do que a retórica futebolística nos quer vender. Não é só que os adeptos sigam o sucesso. É que procuram clubes onde ir ao estádio é seguro, onde se joga bem, e o mais provável é que sigam mais de um clube. Essa é a verdade. A noção do adepto indefectível de classe operaria não é real. Além do mais é preciso recordar que nos últimos 50 anos a Europa cresceu economicamente e hoje há cada vez mais classe média e cada vez menos classes operárias. E o futebol muda também porque a sociedade está em constante mutação.
 
“O futebol reforça os esteriótipos raciais.”
 
Actualmente o futebol pertence aos adeptos ou às empresas?
A ambos!
Quando a FIFA tem vários acordos de longa duração com grandes multinacionais, muitas delas promovendo produtos que não têm nada a ver com o jogo, e com milhões em questão, como se pode ainda acreditar piamente no conceito de “verdade desportiva”. Casos como o da Nike em 1998 são apenas teorias da conspiração ou parte do sub mundo do jogo?
Não sou adepto de teorias da conspiração. No meu ponto de vista, Ronaldo teve um ataque de pânico na véspera da final de 98. Não acho que exista uma conspiração por parte da Nike. Mas o futebol não é “verdade”. É tudo, desde miúdos a jogar no bairro ao Cristiano Ronaldo a marcar em Moscovo para um reclame da Nike. Tudo faz parte do jogo e tudo encontra forma de coexistir.
 
Noutro do seus livros, Football Agains the Enemy, desenvolve um estudo antropológico da forma como o jogo evoluiu no ultimo século e não relação entre o futebol e a sociedade. As pessoas ainda se lembram de imagem como a da Junta argentina no Mundial de 78. Aceitaria a sociedade, a dia de hoje, organizar provas da importância de um Mundial num país que vivesse uma situação similar?
Claro, basta olhar para as últimas Olimpíadas em Pequim.
 
Temos por um lado a selecção da Holanda ou da França e vemos o espelho de um mundo globalizado, um verdadeiro melting pot. No entanto, são dois países onde existem mais movimentos sociais contra as minorias étnicas. Como pode um adepto gritar uma vitória da França com um golo de Henry e depois associar-se a esse tipo de movimentos?
As pessoas conseguem sempre diferenciar. Zidane é quase sempre eleito como o homem mais popular de França, e muitos dos que votam nele também são apoiantes de Le Pen. Eu acho que é um truque psicológico. As pessoas pensam “Eu odeio Árabes em geral, mas o árabe que tem uma loja na minha rua e o Zidane parecem ser bons rapazes”. Isso é uma realidade também porque os estereótipos dos europeus em relação aos imigrantes costumam ser as suas apetências naturais para música e desportos, por isso quando têm sucesso nessas áreas não contradizem o que pensam deles. Reforçam a sua ideia pura e simplesmente.
 
“Hoje em dia há evolução, não revolução.”
 
Hoje em dia o jogo é mais táctico do que nunca. Jogadores como Mathews, Garrincha ou os “Registas” italianos estão quase extintos. Os treinadores preferem jogadores musculados capazes de correr quilómetros. Está o jogo a perder a sua magia ou tudo isto é apenas uma evolução natural como foi o WM para os adeptos dos anos 30 e o Futebol Total para os dos anos 70?
Ainda temos Messi, Ronaldinho, Cristiano Ronaldo não? Sim, o jogo está a ficar mais rápido e táctico, mas ao mesmo tempo também se tornou mais técnico.
 
Valery Lobanovsky disse, poucos anos antes de morrer, que já não havia nada de novo no futebol desde o Futebol Total. Concorda ou acha que o jogo se vai refrescando regularmente?
Refresca-se mas de forma muito lenta. Em 1974 a Holanda surpreendeu o mundo com o Futebol Total. Hoje todos vêm jogos na televisão assim que as inovações tácticas são copiadas muito depressa. Por isso hoje há mais evoluções que revoluções.
 
Se tiver de explicar aos seus filhos as mudanças da sociedade nas últimas décadas através do futebol, que exemplos escolheria?
Uma pergunta imensa. Dir-lhes-ia que o futebol é o perfeito exemplo da globalização. A grande tendência do futebol da última década é afirmar-se em zonas onde ainda não domina como o Japão, Austrália, Estados Unidos, Canada, China e até mais lentamente, na Índia. A TV por cabo e a Internet juntam as pessoas e estas encontram o futebol. Quando o fazem têm tendência a abraça-lo e fazer dele seu. É esse o futuro.

 

 

Simon Kuper "O verdadeiro critério de sucesso é a massa salarial!"



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar

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