Cumpriu-se o prognóstico do Il Speciale naquele que foi, provavelmente, o seu titulo mais agridoce do seu riquíssimo historial. O Inter de Milano voltou a sagrar-se campeão italiano - é já o quarto consecutivo, três em campo e um na secretaria - e igualou assim no ranking o eterno rival AC Milan, com dezoito ligas. Na frente continua a "Vechia Signora", mas, a este ritmo, tarde ou cedo teremos os nerazurri a lutar pelo primeiro posto. Algo impensável há meia década quando o futebol italiano era governado por Juventus e AC Milan, com os dois clubes da capital a serem os únicos rivais dignos desse nome. O Inter, histórico dos anos 60, tinha caído para o esquecimento e vivia um longo jejum de trofeus. Surgiu então o polémico caso Moggigate, o titulo retirado á Juventus, a descida de divisão dos bianconeri e a retirada de pontos ao AC Milan. Abriu-se a passadeira vermelha e os de Milão agradeceram...até hoje.

Mourinho chegou ao Giuseppe Meazza para fazer algo diferente. O técnico que tinha pegado no moribundo FC Porto e tornou-o em potencia mundial, que tinha dado um murro na mesa no status quo britânico era o homem que Moratti sonhava para tornar o seu Inter o maior clube do Mundo. E isso significava mais do que vencer a Série A.
Agora que a temporada chegou ao fim não se pode dizer que o técnico tenha cumprido. Foi campeão ontem á noite, sem ter de entrar em campo, face á estripitosa derrota do rival directo com a Udinese. Sinal do que se passou ao longo do ano. Este Inter não tem a marca do técnico de português. Nem a sua habitual eficácia. Tropeçou vezes sem conta, teve um balneário aberto e problemático e nunca foi incisivo em campo. Nem os derbys directos venceu com categoria. Mas triunfou, mais pelo demérito de Juventus - o primeiro perseguidor - e do rival da cidade - que ultrapassou a Vechia Signora na recta final - do que por mérito próprio. Este Inter nunca teve um onze definido - as lesões também não ajudaram mas vale a pena pensar que plantel sobrevive a tantas lesões e que departamento médico permite tantas quebras musculares num ano - e viveu do talento de um homem, Zlatan Ibrahimovic, que deve estar mortinho por bater com a porta.

Em Milão o sueco é mais do que o salvador da pátria. É o único jogador que faz a diferença num plantel envelhecido e sem opções. Figo anunciou o fim de carreira e Vieira deve ir pelo mesmo caminho. Stankovic, Julio Cruz, Crespo, Cordoba, Burdisso, Materazzi, Julio César, Nelson Rivas e Cambiasso são jogadores de classe média baixa no mundo do futebol actual. Muntari nunca foi decisivo e percebeu-se que Mourinho não o queria como primeira, segunda ou terceira opção. Quaresma foi o flop do ano, um erro de palmatória de um treinador que devia saber de que matéria é feita o "cigano". E Mancini não é um jogador decisivo nos momentos complicados. Sobrava Zlatan, sempre Zlatan, até porque as alternativas eram uma dor de cabeça diária. Das birras de Adriano, que fugiu com o rabo á seringa e ainda se riu a bom rir, ás birrinhas de Balotelli, que já provou não ser um jogador de nivel e com caracter, Mourinho nunca teve verdadeiras opções de mostrar outro futebol. O técnico trabalhou com remendos e é o primeiro que sabe bem disso. Noutra circunstância teria sido dificil ser campeão. No campeonato mais débil da Europa ocidental - muito por debaixo já de Alemanha, França, Espanha, Inglaterra...e quase ao nivel de Holanda e Portugal - o Inter foi o melhor entre os piores. Um mérito que tem vindo a repetir nos últimos anos e que se reflecte na Europa.

De toda a época nerazurri só se salva um nome. Davide Santone foi lançado pelo técnico português, que vê nele um jogador com o talento necessário para triunfar, em Itália, com tão tenra idade. O jogador, defesa direito de raiz, está tapado no seu flanco por Maicon, o melhor defesa direito do Mundo, e serviu a principio para tapar buracos á esquerda, onde não havia opções. Mas cedo se revelou um verdadeiro craque, capaz de fazer todo o flanco, á italiana, e ajudar sempre a fechar ao centro. Pode estar aqui o próximo Maldini, até porque o jovem Santone tem todas as caracteristicas fisicas e psicológicas para brilhar bem alto. É o úncio grande motivo para Mourinho festejar neste ano tão cinzento que agora termina. Com os cantos de sereia a chegarem de vários pontos do Continente (Londres, Madrid, ...) resta saber se o técnico setubalense resistirá e começará uma verdadeira revolução para o próximo ano ou se 2008/2009 serviu apenas para colocar mais uma liga na bagagem do homem que quer ser o primeiro a vencer em todos os grandes campeonatos da Europa.