Domingo, 21 de Março de 2010
Também há 40 anos o Chile sofreu um assustador terramoto. O país tinha sido eleito quatro anos antes como a sede do Mundial de 1962, mas o tremor de terra destruiu todas as infra-estruturas. Num acto de heroísmo o país uniu-se para ter tudo a tempo do início da prova. Logrou-o, mas o Mundial de 1962 ficará sempre para a história pela falta de emoção em campo e pela violência, dentro e fora dos relvados.

9,5 na escala de Richter. Números assustadores que levaram a FIFA a ponderar mudar o local da organização de um torneio que voltava, 12 anos depois, à América do Sul. No entanto as autoridades chilenas, lideras pelo incansável Carlos Dittborn, persuadiram Stanley Rous, o novo presidente da FIFA, a garantir que o torneio se realizaria em terras andinas. Durante dois anos o país uniu-se e reconstruiu os cinco estádios destroçados pelo terramoto. E no dia de abertura a gala correu como previsto. O espectáculo, nem por isso. O Mundial de 1962 entrou para os registos históricos como uma das maiores desilusões desportivas de sempre. Estava a nata do futebol Mundial. Mas em figura de corpo-presente. Pelé, lesionado, cedo desapareceu do mapa. O notável Yashin nunca se mostrou à sua altura. A armada inglesa logrou pela primeira vez chegar até às Meias-Finais, mas sempre longe da sua melhor forma. E no meio da contenda, os chilenos conseguiram um histórico terceiro lugar. Graças ao jogo de equipa, erros do arbitro e muita violência à mistura. Inseridos no Grupo 2, junto com Alemanha, Itália e Suiça, os chilenos sabiam que era complicado passar à seguinte fase. No primeiro jogo bateram os suíços por uns claros 3-1 mas o empate entre alemães e italianos obrigava os chilenos a vencer um dos duelos que lhe faltava para seguir em frente. O técnico chileno, Fernando Riera, decidiu motivar os seus jogadores de uma forma particular. Diante dos suíços tinha feito os jogadores comer queijo suíço no balneário. A 2 de Junho os jogadores subiram ao estádio de Santiago para defrontar uma rejuvenescida Itália depois de ter comido um prato de spaghetti.
O jogo entrou para os anais da história como “A Batalha de Santiago”.
Foi provavelmente um dos confrontos mais violentos da história do desporto. Ken Ashton, o árbitro que anos depois inventaria o conceito de cartões amarelos e vermelhos, mandou dois italianos para os balneários não resistindo à pressão do público e do onze chileno. As cenas de violência em campo foram a partir de aí a imagem de marca da selecção da casa, adepta de um jogo extra-defensivo aproveitando os erros dos rivais. Essa foi a tónica desportiva da prova onde nem o Brasil conseguiu deslumbrar. Os chilenos eliminaram a Itália, perdendo o último jogo com a RFA, e nos Quartos de Final defrontaram os favoritos soviéticos. Tal como nos jogos prévios, Riera fez os jogadores beber vodka no balneário e a equipa mostrou-se sempre superior no terreno de jogo. Dois erros de Lev Yashin condenaram os russos e garantiram ao Chile um histórico lugar nas meias-finais. Frente ao Brasil. O jogo, marcado para a pequena localidade costeira de Viña del Mar, foi então transferido para Santiago, como sucederia quatro anos depois com o Inglaterra-Portugal. Os brasileiros queixaram-se mas a decisão estava tomada. O encontro foi disputado, uma vez mais, debaixo de imensa violência física e verbal. Os jogadores brasileiros iam caindo, vítima das brutais entradas dos rivais. O árbitro expulsou Garrincha, por ripostar, e o chileno Landa por palavras. No entanto o mágico extremo já tinha marcado dois golos que, aliados aos dois tentos de Vavá, qualificaram o Brasil para a sua segunda final consecutiva. O Chile acabaria por bater a Jugoslávia no jogo do Terceiro e Quarto Lugar. Um prémio que valeu um Mundial.

Numa prova cinzenta as sucessivas eliminações dos favoritos deixaram uma final surpreendente. A Checoslováquia, que tinha terminado a fase de grupos atrás do Brasil, voltava a encontrar-se com os canarinhos na final. Pelo caminho tinha deixado atrás a modesta Hungria e a Jugoslávia. Liderados por Josef Masopust e com brilhantes actuações do seu número 1, Villian Schrof, os checos ainda conseguiram abrir o marcador na final de Santiago. Mas mesmo sem Garrincha e Pelé o Brasil mostrou-se superior. Os golos de Amarildo, Zito e Vavá – todos com a colaboração do até então imbatível guardião checo – decidiram a prova que nunca deixará grandes saudades.