Domingo, 28 de Março de 2010

A escolha não foi inocente. Desde que Stanley Rous assumiu a presidência da FIFA que tudo estava a ser encaminhado para organizar o primeiro torneio em solo britânico. No ano que comemorava o centenário da instalação definitiva do jogo nas ilhas, a Inglaterra montou um torneio à sua imagem e semelhança. Emotivo, polémico, intenso e com o caminho do título feito à sua medida.

 
Quando ainda não se sabia se o Chile iria organizar o seu torneio já a FIFA anunciava que a Inglaterra organizaria o oitavo Mundial de Futebol. Todos os detalhes estavam a ser cuidados à mínima. A faustuosa cerimónia de abertura, com o discurso real de Isabel II abriu a tónica de uma prova repleta de casos e figuras. E com muita polémica à mistura. Antes do torneio sequer ter arrancado já os africanos se tinham recusado a entrar no esquema de qualificação da FIFA. Rous, um presidente pouco amigo das novas nações africanas, ditou que o vencedor da fase de qualificação africana teria de defrontar um rival asiático. Os africanos recusaram e a Coreia do Norte seguiu assim, pela porta pequena, para a fase final. Dias antes do discurso real o mítico troféu, devolvido pelo Brasil, foi roubado. A Scotland Yard tentou tapar o caso mas foi um cão, Pickles, quem acabou por salvar o organizador do embaraço final. E quando a bola arrancou já ninguém se lembrava do caso mas sim da surpreendente derrota da Itália diante dos norte-coreanos ou de mais uma lesão de Pelé numa fase final. A estrela brasileira lesionou-se no duelo contra a Hungria e só voltou para o jogo final, diante Portugal. O escrete canarinho precisava de vencer para seguir em frente mas encontrou-se com uma marcação defensiva perfeita e um Eusébio inspirado. A vitória por 3-1 dos lusos marcou a primeira fase. A equipa do “Pantera Negra” conquistou o público e tornou-se na grande sensação do torneio, particularmente depois de recuperar de uma desvantagem de 3-0 frente à Coreia do Norte. O duelo das meias-finais, em Liverpool, face à Inglaterra, seria o encontro por excelência do torneio.
 
No entanto tudo mudou rapidamente. A prova tinha sido desenhada a pensar exclusivamente na consagração do futebol britânico. E se Alf Ramsey tinha tido o mérito de montar um notável onze, onde pontificava Bobby Charlton, a verdade é que a selecção Pross não entusiasmava. Enquanto alemães e soviéticos – eliminando húngaros e uruguaios respectivamente – se mediam numa meia-final equilibrada, os ingleses temiam verdadeiramente o rival por quem ninguém dava nada antes do arranque da prova. O polémico jogo dos Quartos de Final, contra a Argentina, tinha levantado algumas dúvidas no jogo inglês. El Robo del Siglo, como apelidaram os argentinos então, marcou claramente a campanha inglesa. Os argentinos dominavam o jogo quando o árbitro, surpreendentemente, expulsou o capitão albiceleste, António Ratin. O jogador recusou-se a abandonar o relvado e durante largos minutos o jogo foi interrompido enquanto os seus colegas protestavam com a polémica decisão. Foi necessário um membro da polícia para escoltar Ratin para os balneários debaixo dos apupos das bancadas. O golo solitário de Geoff Hurst selou o resultado final mas deixou claro que a armada inglesa era menos poderosa do que parecia. E com Eusébio pela frente, muitos julgavam que os ingleses voltariam a falhar o assalto à final. Até que a FIFA entrou em cena. Reuniu-se com as duas federações e tomou a decisão de transferir o jogo de Liverpool – onde estava Portugal instalado – para o Wembley, sede da equipa inglesa. Tal como quatro anos antes. Os portugueses não reclamaram o suficiente e o jogo transferiu-se obrigando o quadro luso a uma longa viagem enquanto Charlotn e companhia tinham um dia de folga. Foi determinante. O cansaço português e o óptimo exercício táctico dos ingleses ditou um jogo onde Eusébio teve nos pés o empate. Falhou e a Inglaterra estreou-se numa final frente ao público eufórico. Portugal teve de se contentar com o terceiro posto e os nove golos de Eusébio, recorde do torneio.
 
Quase 100 mil pessoas se juntaram, três dias depois, para o duelo mais desejado. Os eternos rivais discutiam o título mundial debaixo do atento olhar de Stanley Rous e a rainha Isabel II. Os alemães, capitaneados por Franz Beckambauer – determinante no jogo das meias-finais – começaram por ter o domínio do jogo. Aos 12 minutos Haller gelou o Wembley com um golpe fulminante sem que Banks pudesse sequer reagir. Ramsey pediu calma aos jogadores e a equipa recompôs-se. Hurst e Peters deram a volta ao marcador. Quando parecia que tudo estava terminado, um livro no último instante deu o empate à RF Alemanha. Os ingleses reclamaram mas, pela primeira vez na história, a final ia para tempo extra. A partir daí o mito supera a realidade. A polémica da bola que não entra, os protestos junto ao fiscal-de-linha do Azerbeijão que hoje dá nome ao estádio nacional e que anos mais tarde responderia apenas com um enigmático “Estalingrad”, e a celebração inglesa. O Mundo do futebol pagava a sua divida para com os fundadores. Com as contas saldadas a Inglaterra nunca mais voltou a pisar uma final de um Mundial.


Miguel Lourenço Pereira às 10:24 | link do post | comentar

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