Guardiola deixou o aviso. Pode ser uma estratégia de motivação. Mas não deixa de ser verdade. Já não é apenas o facto do campeão europeu nunca renovar o ceptro. É que nos últimos anos os favoritos têm todos caídos sob a maldição dos Oitavos.

Só o Manchester United se salva nesta contagem decrescente.
Nos últimos anos o campeão europeu cai quando menos se espera. No primeiro jogo a eliminar. Ironias do destino provadas com factos inquestionáveis. Em Barcelona, onde a equipa de Pep Guardiola habituou todos aos recordes inigualáveis, há um certo receio. Apesar da natureza acessível do rival. O Stuttgart é uma equipa dificilmente do nivel desta fase da prova, benificiando de um grupo extremamente acessível. Na Bundesliga está na segunda metade da tabela. Mudou de treinador e filosofia. E perdeu o seu omnipresente capitão. Tudo isso deveria tranquilizar Guardiola. Mas não. O técnico catalão sabe que a tradição é algo muito sério no mundo do futebol. E que se vai alimentando dos mais optimistas. Que o digam os antecessores dos blaugranas. Se recuarmos no tempo até 2003 verificamos que só mesmo o Manchester United, que foi derrotado precisamente pelo Barça na final de Roma, salvou-se da temível eliminação precoce. Um clube de sobreviventes no historial de um grupo de equipas de elite.
Foi em 2004 precisamente. O FC Porto, acabava de se sagrar campeão da Europa. José Mourinho partia para Londres e consigo levava metade do eixo defensivo. Mas as saídas foram mais profundas, as entradas mais traumáticas e os portistas acabaram por falhar o Tricampeonato no ano seguinte. E caíram na Champions League logo aos Oitavos de Final. Depois de bater o Chelsea, de Mourinho, na última jornada, lograram a classificação frente ao Inter, actual equipa do técnico português. Num duelo a duas mãos bastante equilibrado, os italianos foram superiores nos momentos decisivos. E a Europa viu o seu campeão em titulo ajoelhar-se bem cedo. Os italianos seguiram em frente mas ficaram longe da final de Istambul onde o Liverpool bateu, de forma frenética, o AC Milan nos penaltys. Mal sabiam em Anfield que a tradição imposta pelos dragões seria aplicada com novo sabor português.
Na época seguinte os Reds qualificaram-se para os Oitavos de Final e tiveram diante de si o insuspeito Benfica, recém-sagrado campeão português pela primeira vez em 10 anos. Orientados por Ronald Koeman, os encarnados foram superiores e um golo de Simão foi suficiente para fazer a diferença. Os campeões voltavam a cair e o Benfica era eliminado, semanas depois, pelo Barcelona de Rikjaard. O mesmo que, em Maio, se sagraria campeão da Europa.

Seguindo o guião de um filme de suspense muitos achavam que esta curta maldição deixava de fazer sentido quando se pensava em Messi, Etoo e Ronaldinho. Mas não, a história voltou a cumprir-se de forma inapelável. Mourinho entrou na equação e o seu Chelsea também. Os Blues eliminaram o super-Barça quando ninguém o esperava e seguiram até às meias-finais, de onde Mourinho nunca conseguia passar. Superados pelo Liverpool. Os Reds voltaram a uma final mas desta feita não superaram o AC Milan de Kaká e Inzaghi. Os italianos voltavam a sagrar-se campeões da Europa. E continuariam, sem o saberem, a cumprir com o destino dos reis. Em 2008 os rossonero, numa fase critica do mandato de Carlo Ancelloti, disputaram os Oitavos de Final contra o Arsenal. Contra as expectativas, cairam diante dos gunners liderados por Cesc Fabregas. Foram os últimos de um historial que se ameaçava eternizar. Foi preciso chegar Cristiano Ronaldo para a história mudar. O extremo português foi o artifice da eliminação do Olympique de Lyon pelos Red Devils, sagrados meses antes campeões da Europa pela terceira vez em Moscovo. Os ingleses eliminaram posteriormente FC Porto e Arsenal e parecia que estavam preparados para quebrar outra malapata. Desde que começou a Champions League que nenhuma equipa repetiu triunfo. Não o lograram e deixaram o ceptro ao Barcelona. E a possibilidade de confirmar o fim da maldição dos Oitavos.

Guardiola é um mestre na estratégia mental e levantar um assunto que parecia enterrado no ano passado é uma jogada hábil. Sabe que a sua equipa é muito superior aos alemães mas também sabe que a equipa está cansada, está repleta de baixas e não exibe o mesmo nível do ano transacto. Espicaçar a equipa com uma lenda urbana pode ser o movimento chave para ganhar esta partida de xadrez. Ainda falta muito para Maio e para a final do Bernabeu. Mas Pep sabe, mais do que ninguém, que as probabilidades de repetir o feito do ano transacto é quase impossível. Mas se alguém percebe de impossíveis, é ele!

