O futebol muitas vezes é um acto de raiva. A conferência de imprensa dos jogadores do Porto - relembrando a injustiça das suspensões aplicadas pelo Conselho Disciplinar da Liga a Hulk e Sapunaru - tiveram o condão de unir uma equipa desencontrada. A goleada imposta ao Braga foi apenas o espelho da raiva que carbura este update portista. Resta saber se a melhoria na versão 2010 será suficiente para tapar buracos antigos.

5-1.
Um resultado esmagador e que espelha, fielmente, o que se viveu no tapete verde do Dragão. Um Braga que nunca foi a equipa organizada e tacticamente exemplar de toda a época. O FC Porto que voltou a ser combustão pura - tal como no duelo contra o Sporting - e tapou as suas deficiências com a raiva de ultrapassar os sucessivos obstáculos extra-desportivos que o ano vai levantando na caminhada do campeão nacional para o seu segundo Pentacampeonato. Ao entrar em campo com camisolas de apoio aos dois colegas suspensos pela Liga, o já ausente Sapunaru e o brasileiro Hulk, a equipa portista provou que mantém o espirito de fazer das fraquezas, forças.
Este não é o melhor Porto. Nem é um grande Porto. Mas é um Porto repleto de raiva e isso, no futebol, é muitas vezes a fórmula necessária para ganhar. No duelo previsivelmente mais complicado dos portistas até ao final de ano, a diferença foi tal que durante segundos ninguém parecia entender bem o porquê destes oito pontos de diferença. Como se atrás não houvesse um Braga disciplinado e tacticamente perfeito e um Porto repleto de defeitos e buracos dificeis de esconder.
A história do jogo podia fazer-se com os golos. Os seis. Ou com o ritmo de jogo que foi demoniaco desde os primeiros instantes. Aos 37 minutos já o Braga estava vergado. Tudo o resto era um mero trâmite porque Domingos sabia que a noite não estava para reviravoltas. A atitude dos comandados de Jesualdo Ferreira, empolgados pela vitória sofrida ante o Arsenal, foi a melhor possível. Ruben Micael continua a mostrar que é a patch certa para este update informático que soltou a burocracia java da linguagem encriptada de Jesualdo. O médio soltou Raul Meireles - numa das melhores exibições da temporada - e mais do que isso, soltou Varela. O extremo tem estado endiabrado e provou-o com mais assistências e bons momentos. Os golos foram entrando sem que Eduardo pudesse fazer algo. Meireles oportuno no primeiro, Alvaro Pereira determinado no segundo e Falcao letal no terceiro.
A segunda parte era, para ambas as equipas, um curioso desafio. O FC Porto tinha a obrigação de controlar sem se desgastar demasiado. O Braga teria de articular uma reacção sabendo, de antemão, que era uma luta perdida. Nesses meios-termos o contra-golpe e a ratice azul e branca puderam com o espirito dos arsenalistas. Os golos de Falcao e Belluschi e os erros de Micael e Mariano deixaram a tónica. Podiam ter sido mais. E a diferença poderia ter sido igualmente menor, não tivesse o Braga apenas incomodado por uma vez pelo ar a defesa portista. Depois do golo do Arsenal, o tento de Alan volta a provar que nos céus este dragão voa baixinho.

O Braga continua a ser a melhor equipa da época mas ontem foi ultrapassado por um conjunto mecanizado e determinado. Ao longe o Benfica assistiu agradado ao duelo que o coloca agora lider solitário. A pressão verdadeira começará a sentir-se agora na Luz quando falta ainda ultrapassar os mais dificeis obstáculos do calendário. Já o Braga tem apenas o duelo da Luz entre os mais dificeis. O Porto sabe que a dificuldade não conta. Seis pontos de atraso não permitem veleidades. Mas a luta pelo título, apesar da decisão prévia nos corredores, continua no campo a três.

