Não é o mais belo dos estádios apesar dessa escolha ser absolutamente pessoal. Mas depois do final do velho Wembley é o mais emblemático estádio do futebol britânico. Um santuário de ferro e aço que se transformou num palco único. Hoje o Old Trafford cumpre 100 anos. Um século de um sonho sem fim...

Um século de vida é muito para um estádio mas este Old Trafford já não tem qualquer traço de semelhança com o mitico recinto que se tornou num dos maiores de Inglaterra logo no seu primeiro ano de vida. A última remeniscência está no banco de suplentes. Na bancada, o lugar onde se senta Ferguson encontra-se encrustado na antiga porta para os balneários. Tudo o resto é novo. Como a vida do próprio clube. Um clube que é, hoje em dia, o maior do Mundo, mas que até 1952 não tinha ganho uma grande competição.
O estádio nasceu a 19 de Fevereiro de 1910. Tinha 8 mil lugares sentados e 80 mil lugares em total. Mais quatro mil que hoje em dia. Foi imediatamente catalogado como o mais imponente recinto britânico e resultou do trabalho incansável de Archibald Leitch, que anos antes tinha desenhado o Hampden Park, Ibrox Park, Stanford Bridge e o Anfield Road. O recinto custou ao clube 60 mil libras e rapidamente se tornou num ex-libris do clube e da cidade. Recebeu uma final da FA Cup anos antes de nascer o Wembley e tornou-se no estádio com maior assistência média durante os anos 20, época em que, curiosamente, o Manchester United não venceu um único titulo. O recinto continuou a sua história até chegar a II Guerra Mundial. Os bombardeios sucessivos de cidades industriais chave atingiram Manchester e toda a cintura à volta. O mitico Old Trafford não aguentou o peso das bombas nazis e foi desfeito em mil pedaços. Foram precisos cinco anos para se reconstruir todo o recinto que seria re-inaugurado em 1950.

O estádio foi reconstruido de forma a parecer-se o máximo possível com o seu antecessor mais os tempos mudavam e o futebol inglês crescia a olhos vistos com o pós-guerra. Em 1952 a chegada de Sir Matt Busby mudou a vida do clube e a base do próprio recinto que rapidamente ganhou o carinhoso titulo de Theater of Dreams, o Teatro dos Sonhos. Enquanto a equipa ia conquistando os seus primeiros grandes titulos o estádio ia ganhando nova vida. Várias obras foram adaptando o recinto aos tempos modernos o que provocou que se reduzisse a capacidade para 40 mil lugares. Era pouco, muito pouco para uma equipa que vivia a sua idade de ouro. A primeira.
A crise desportiva do Manchester United dos anos 70 e 80 terminou com a chegada de outro escocês, Alex Ferguson. O técnico foi uma das figuras-chave na remodelação do Old Trafford até ganhar a forma que tem hoje. Desde 1986 até 2002 o estádio foi totalmente transformado. Ganhou novos aneis, uma cobertura de aço e ferro imponente e transformou-se no estádio mais cómodo e bem executado da Premier League. Com o novo rosto de um recinto que se tornava no icone do futebol britânico chegou uma nova vaga de sucessos desportivos dos Red Devils. Parecia que a cada etapa de melhoramente no seu estádio o Manchester United se fazia acompanhar com uma mão cheia de trofeus.

Hoje o estádio Old Trafford cumpre um século. Pode não ter nada a ver com o projecto original. É bom que assim seja. Que o seu crescimento e adaptação aos tempos modernos tenha sido bem sucedida. No entanto a atmosfera única de um recinto que fala quando o jogo está em silência continua a ser a mesma de há cinquenta ou cem anos. O Teatro dos Sonhos continua a sê-lo. Hoje, mais do que nunca. O estádio está acompanhado por um belo museu, as estátutas de Busby e do seu trio de ases e do mitico relógio a lembrar o desastre de Munique. Cercado pelo cinzentismo urbano da capital do norte de Inglaterra, o Old Trafford é a história viva de um jogo que ainda não encontrou melhor casa que o silencio ruidoso de um relvado britânico.

