O futebol não é um circo. Mas ás vezes consegue transformar-se numa boa anedocta. Ontem o estádio do Dragão transformou a sua habitual taciturnidade e riu-se. Como há muito não se via. Culpa dos anfitriões, dos visitados e de um senhor que deveria ser juiz e acaba por ser mestre de cerimónias. A vitória é importante, o espectáculo pouco edificante. No final ficamos com a sensação de assistir a uma edição daqueles livros de auto-ajuda de como não disputar um encontro oficial da Champions League.

Todos os guarda-redes cometem erros. Todos os defesas enganam-se em atrasos precipitados. Todos os árbitros têm falhas. E todos os avançados têm momentos de lucidez e ratice. Juntar tudo isso num só jogo é uma salada explosiva que não fará certamente bem às barrigas mais sensiveis. Ontem o Arsenal provou porque continua a ser uma equipa melhor no papel do que na prática. Fez talvez o seu pior jogo europeu em largas temporadas e comportou-se como uma equipa de juvenis. Sem ideias. Sem cabeça. E totalmente sem concentração. Erros atrás de erros, falta de atitude, e uma ingenuidade que face a outras equipas poderia ter tido outra transcendência. Wenger tem legitimidade para levantar-se do banco e perguntar ao árbitro porque perdeu o controlo da situação. Mas deverá primeiro pensar no onze que alinhou. Na falta de caracter competitivo dos seus jogadores. E na falta de destreza mental de uma equipa que é, no papel, candidata todos os anos a ganhar algo. Mas que desde que perdeu a nata da sua equipa deixou de ser mais do que um bom exemplo de formação de jovens futebolistas. E pouco mais. O Arsenal ontem foi medroso no inicio. Foi inconsequente quando esteve atrás no marcador e só apontou um golo porque a defesa azul e branca continua a ser muito ingenua para grandes provas. Porque o Leixões não marca golos de cantos ensaiados não justifique que a equipa não se saiba posicionar. E Campbell agradeceu. Era o 1-1. Mas a anedocta tinha começado antes.
Silvestre Varela. Foi o nome próprio de um FC Porto que continua a mostrar mais brechas que imaginação. Foi, pela primeira vez em muito tempo, uma equipa com sorte. E procurou-a. Foi também uma equipa esperta. Mas não uma equipa inteligente.
O primeiro erro de Jesualdo Ferreira foi alinhar Hulk. Já não é só pelo facto, de como defendemos há muito, o brasileiro ser um jogador sem nível para jogar uma Champions League. Cada lance de Hulk é um puzzle. O que irá naquela cabeça? Dribles contra os defesas, reclamações a cada queda e falta de destreza mental para procurar o jogo colectivo. Hulk emperrou a máquina ofensiva portista. Varela deu-lhe asas. O extremo mostrou estar em óptima forma e arrancou bem no jogo. À terceira tentou centrar mas a bola saiu-lhe desviada. Fabianski fez o que se espera dele, sendo um guarda-redes sem nível consumado que Wenger só tem porque prefere gastar o orçamento a contratar jovens de 16 anos. Já se sabia que, sem Almunia, o FC Porto partia em vantagem. E confirmou-se. Os azuis e brancos mereciam estar a ganhar. E logo provaram não ser inteligentes a gerir a vantagem. O Arsenal alinhou com um ataque mole. Fabregas demasiado só, Rosicky demasiado parado, Nasri demasiado incosequente e Bendtner sem encontrar o seu sitio. Só nas bolas paradas causaram perigo. E foi assim que Campbell, que não jogava numa Champions desde a final de 2006 em Paris, empatou. O posicionamento portista nesse canto foi uma licção de como não defender. Nada de novo portanto.
A segunda parte mexeu-se entre a esperteza portista e o desnorte do Arsenal. Se o árbitro Martin Hansson tinha há muito perdido o respeito dos jogadores, no minuto 51 pareceu totalmente fora de jogo. Não apitou um penalty claro a favor do Arsenal (ambas as equipas teriam razões de queixas nesse e noutro capitulo) e no seguimento do lance deixou que os jogadores do FC Porto beneficiassem da superioridade númerica e sacassem um livre indirecto dentro da área que o desastrado Fabianski concedeu sem pensar. O golo é legal, mas habitualmente os árbitros gostam de controlar estes lances. Como mais tarde o fez em dois contra-ataques azuis e brancos. Desta feita adormeceu em campo. E percebeu-o senão Wenger teria sido expulso. A licção do professor era merecida. Os dragões foram mais rápidos, mais espertos e mais letais. Campbell preferiu reclamar a defender. Fabianski deu logo a bola a Micael e virou-lhe as costas. Wenger reclamou sem razão. Não havia uma ilegalidade. Havia uma série de infantilidades. Os da casa agradeceram o vinho para a refeição e foram abrir a garrafa.
O FC Porto a partir daí foi mais Porto e o Arsenal menos Arsenal. A saída de Hulk e Raul Meireles ajudou. São o lastre da equipa. Tomas Costa e Mariano Gonzalez trouxeram mais dinâmica e espirito colectivo e em vários contra-golpes, com sucessivos erros de marcação do Arsenal que deixou imensos espaços abertos para os portistas explorarem à sua vontade, o campeão nacional poderia ter ampliado a vantagem. Do outro lado percebia-se as dificuldades defensivas de Fucile e Alvaro Pereira que beneficiavam que apesar de Walcott estar em campo, o Arsenal preferisse afunilar o jogo. Durante vinte minutos os gunners persistiram no erro. O FC Porto na ratice de controlar o jogo no coração do seu meio-campo. O apito final, num lance de claro contra-ataque do Arsenal já no meio-campo do Porto, foi mais uma prova do desastrado ajuizamento arbitral de Hanson. Foi um bom exemplo para os criticos da arbitragem nacional perceberem que a qualidade não conhece nações. A falta dela também não.

O FC Porto foi superior em campo e no jogo mental. Soube controlar o jogo mas nunca o dominou por completo. Preferiu o contra-golpe e a ratice. Saiu-lhe bem a jogada. Numa equipa como o Arsenal esse modelo de jogo funciona. Wenger continua a preferir o futebol champagne sem punch ofensivo e destreza defensiva. E isso justifica as sucessivas eliminações. No entanto a vantagem é reduzida e a eliminatória está longe de estar resolvida. Os azuis e brancos terão de ser mais maturos em Londres. O Arsenal terá de ser, pelo menos, uma equipa. Para eles a anedocta não teve tanta piada.

