Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

O futebol é, acima de tudo, um jogo de equilibrios. Pode decidir-se com um lance desiquilibrador mas a tónica está sempre na equipa que melhor sabe controlar o jogo. E ter um leque de estrelas que parecem mais um cast de luxo de um blockbuster de Hollywood não é, necessariamente, o caminho mais curto para o controlo de um jogo. O Real Madrid continua a viver na obsessão do nome. O Lyon na perfeição do colectivo. O resultado repetiu-se, as lições também.

É a terceira viagem do Real Madrid ao Stade Gerland. E a terceira derrota. Pela menor diferença. Mas com o mesmo principio de jogo. E a mesma lenga-lenga. Antes do apito inicial o resultado estava feito. A imprensa concedia uma vantagem sobre-humana aos Galácticos e o Lyon, num desanimador quarto posto na Ligue 1, apenas deveria aguentar até onde pudesse. As estrelas subiam ao relvado confiantes. Passou-lhes depressa.

O jogo de ontem em Lyon provou que a base do futebol continua a ser o colectivo. Dispor de individualidades é um luxo que nem todas as equipas têm. Mas cujo o uso deve significar a estocada final do trabalho colectivo. Não a essência do jogo. Guardiola entendeu-o e tornou Messi, Ibrahimovic e Iniesta em jogadores de grupo, utilizando as suas armas em último recurso. Mas trabalhando tanto como Xavi, Busquets ou Pique. A natureza do jogo acenta em onze elementos com funções e papeis establecidos. Ontem parecia que o Real Madrid, eleito o Melhor Clube do Século XX pela FIFA, tinha-se esquecido da regra básica do jogo que tanto gostam de presumir que dominam. Não foi a primeira vez. Não é pura curiosidade que os merengues caiam há cinco anos consecutivos na primeira série de jogos a eliminar. E que a sua última final da Champions League remonte a 2002. Com um treinador que preferia o trabalho colectivo às estrelas individuais. E que hoje é seleccionador da equipa que melhor futebol colectivo pratica no Mundo. O Real Madrid voltou a encomendar-se à sua constelação de estrelas, paga a peso de ouro. O Lyon à disciplina. O jogo estava decidido à partida.

 

Pellegrini, técnico misterioso pelas suas constantes mudanças de humor táctico, manteve-se desta vez fiel ao seu 4-2-2-2. Mesmo sabendo que dispunha de extremos desequilibrantes preferiu afunilar o jogo pelo coração do meio-campo. Precisamente onde os franceses eram mais sólidos. Colocou Mahamadou Diarra - totalmente fora de ritmo competitivo - e Xabi Alonso como duplo-pivot. À sua frente, a dividir funções criativas, o espanhol Granero e o brasileiro Kaká. E Higuain e Ronaldo soltos na frente, à espera da pressão dos seus colegas. Que nunca chegou. Ambos passaram incolumes pelo Gerland porque, pura e simplesmente, estavam sós. Ronaldo nunca procurou os extremos, onde melhor se dá, e no meio perdeu-se numa teia bem montada por Claude Puel. O argentino Higuain foi presa fácil da dupla defensiva do Lyon e só por uma vez teve direito a um duelo cara a cara com Hugo Lloris. O guardão francês foi superior. Como ao largo de toda a noite.

Puel, muito constestado pela fraca campanha doméstica, ganhou o jogo ao garantir um futebol afunilado com uma pressão alta. Makoun e Toulalan controlavam o meio-campo e Pjanic, Govou e Delgado não deixavam respirar os merengues. Marcelo perdeu cedo a cabeça e obrigou a novo ajuste táctico por Pellegrini. Outra falha do técnico e o dominio dos Gonnes aumentou com as constates subidas de Reveillere e Cissokho pelos flancos. Num lance de insistência, já no segundo tempo, Makoun fez um golo de belo efeito. O Lyon já merecia a vantagem e na meia-hora seguinte trucidou o Real Madrid.

 

No meio do desnorte nenhuma das figuras emergiu como salvadora da causa merengue. Se Ronaldo e Higuain - e logo Benzema - estavam atados, o mesmo não se podia dizer de Granero e Kaká. O médio espanhol, producto da cantera merengue, rapidamente foi engolido por Pjanic. Mas foi a estrela brasileira a decepção da noite. O Kaká de Madrid está a milhas do Kaká de Milão. E nota-se a cada jogo. Não está comodo no dispositivo táctico confuso de Pellegrini. Mas mesmo quando se solta das amarras tácticas não desiquilibra. Passado a falso extremo esquerdo, dispôs de três sprins que poderiam ter sido letais nos minutos finais. Em ambos perdeu infantilmente a bola. E limitou-se a por as mãos na cabeça, deixando os colegas desamparados para o contra-golpe. O Lyon poderia ter goleado e fechado a eliminatória. Os avançados estiveram infelizes frente a Casillas. Sete remates que poderiam ter entrado foram esbarrando com uma ineficácia que ditou o ritmo do jogo. No Santiago Bernabeu - o estádio da final - o clube da casa terá de marcar dois golos. Poderia ser pior. Não conta com Marcelo e Xabi Alonso mas terá Garay e Guti. O que não sabe ainda é se terá colectivo para superar a estratégia da aranha de Puel. Os franceses provaram saber defender-se muito bem. E que no contra-ataque são piores que uma cascavel. O acordeão lionês esticou-se bem no Gerland e previsivelmente fará o mesmo no Bernabeu.

O segredo da táctica não está em surpreender o adversário. Está em ser fiel a si mesmo. O Real Madrid nunca o é. A táctica é condicionada pelos elementos em vez de os ditar. Para encaixar todos os jogadores, Pellegrini não sabe como os ordenar em campo. Dispõe de um dos melhores falsos avançados da década (Kaká), o melhor extremo do Mundo (Cristiano Ronaldo) e um excelente central (Sergio Ramos). E no entanto sacrifica o seu talento à necessidade de alinhar cada uma das estrelas num onze desiquilibrado e sem consistência. O Real joga um futebol vertical, pelo coração do meio-campo. Não tem soluções que permitam aos jogadores desdobrar-se. A subida dos laterais é rara e sem o apoio necessário. Os avançados raramente funcionam como o primeiro tampão e a linha defensiva é demasiado baixa para garantir uma pressão eficaz. Face a esses problemas, mais do que uma simples eliminatória, o clube merengue continua a encontrar-se diariamente com um grave problema de personalidade.



Miguel Lourenço Pereira às 15:19 | link do post

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