Se alguém ainda tinha dúvidas a noite fria de ontem de Milão resolveu-as por completo. A temporada futebolistica que abre a nova década tem apenas um nome próprio e um apelido. Wayne Rooney voltou a mostrar que é o jogador mais em forma do futebol europeu acabando com uma larga malapata que, se fosse só por Alex Ferguson, assim teria continuado.

É impressionante observar a evolução da carreira de Alex Ferguson.
Depois do triunfo do Manchester United em 1999 com um futebol ofensivo e atractivo, o técnico escocês foi mutando o seu modelo de jogo, passando do clássico 4-4-2 a um mais conservador 4-2-3-1 até jogar ontem em S. Siro num claro 4-5-1. Já tinha sido assim na época passada contra o Inter do seu amigo José Mourinho. Na altura a sorte esteve do lado dos Red Devils. O futebol do lado neruazurri. Ontem poderia ter voltado a repetir-se o mesmo cenário. Um AC Milan diabólico na primeira parte com um notável Ronaldinho e o afortunado joelho de Paul Scholes a adiar tudo para Old Trafford. Mas isso foi antes de surgir Rooney. E de ter deitado por terra o conservadorismo inglês e a ousadia rossenera.
Rooney foi o grande prejudicado com a explosão de Cristiano Ronaldo. Com o extremo português a jogar com falso interior por Ferguson, o avançado inglês foi progressivamente empurrado para os flancos. Rooney não é um killer mas move-se bem na área. Longe dela perde eficácia. A final de Roma, frente ao Barcelona, foi o melhor exemplo de como desaproveitar o seu génio. Sem o seu amigo Cristiano, hoje Rooney é feliz. Porque joga solto, joga com a responsabilidade sobre os ombros (e adora-o) e porque voltou à área. Ontem o seu futebol foi suficiente para anular um jogo cinzento do United e garantir um quase certo apuramento para os Quartos de Final.
O grande mérito de Ferguson foi ter mantido Rooney na frente e ter abdicado de Nani.
O português esteve brilhante frente ao Arsenal mas depois da última expulsão provou que continua a ferver em pouca água e que o ritmo competitivo mental está longe de o tornar num jogador de elite. Usar as mesmas chuteiras de Cristiano Ronaldo não o transforma em CR7 e já o devia saber. Em San Siro foi inexistente e com Park a fechar no outro flanco um meio-campo de combate (Scholes, Carrick e Fletcher) o avançado solitário esteve mais só do que nunca. A entrada de Luis Valencia revolucionou o velocimetro do ataque inglês e deu liberdade a Rooney. E o dianteiro não desaproveitou. Dois golpes letais rasgaram as redes de Dida. Um bom par mais de oportunidades que poderiam ter entrado. E a habitual raça no apoio defensivo a uma equipa encostada às cordas em vários momentos do jogo. Rooney está no melhor momento da sua carreira e é hoje o jogador mais determinante do futebol europeu. Lider da corrida à Bota de Ouro, marca na Champions, assiste os colegas e não deixa de correr. Com ele em campo Ferguson sabe que pode jogar num 4-6-0 se precisar. E mesmo assim arriscar-se a que marca um bom par de golos. Capello esfrega as mãos porque a maturidade do avançado parece estar, finalmente, consumada. Rooney é já um lider natural e não o jovem rebelde associado a gigantes hamburguers e bordeis de segunda que marcaram os primeiros anos em Old Trafford.

Do AC Milan de Leonardo basta lembrar que não deixou o vice-campeão europeu jogar. Um feito, tendo em conta as debilidades do onze milanista que se veio abaixo com o golo afortunado de Scholes. Ronaldinho voltou às suas boas noites mas esteve só. Pato e Huntelaar foram pouco incisivos e não ajudaram a ampliar um resultado que poderia ter deixado tudo em aberto. O golo de Seedorf - uma surpresa de Leonardo - deixa tudo em aberto mas o Milan terá de vencer por dois golos de diferença num Old Trafford onde o United continua a ser rei e senhor. A sorte esteve com Ferguson. O futebol com Rooney. O Manchester United continua de pé. Que ninguém os subestime.

