Não entra nas listas dos grandes treinadores. Nem sequer dos grandes jogadores. Mas foi uma das figuras incontornáveis da história do futebol espanhol dos últimos 60 anos. Faleceu aos 84 anos esse operário que o Santiago Bernabeu nunca esquecerá. Nunca antes, nem depois, houve um homem tão comprometido e dedicado com o clube como ele. Luis Molowny foi, sem dúvida, um homem para todos os oficios.

Saiu dos relvados quando o Real Madrid começava a forjar o seu mágico historial. Deixou saudades num estádio rapidamente rendido às novas estrelas galácticas de Santiago Bernabeu. Mas voltou. Várias vezes. Sempre para servir como bombeiro. Talvez o maior dos apaga-fogos que o futebol espanhol conheceu. Não era fácil ser-se Molowny mas o canário lograva-o com bastante êxito. Soube sempre viver acima das expectativas que criava cada vez que o seu telefone tocava e do outro lado alguém lhe pedia para salvar a casa merengue. Logrou-o sempre e, no entanto, acabou por ser o eterno preterido face a outros nomes de maior prestigio. Se tivesse tido a confiança dos presidentes madridistas, a começar pelo próprio Santiago Bernabeu, talvez tivesse passado duas décadas ao leme do clube espanhol. Mas não. Foi e veio como um fiel ajudante que não sabia dizer que não. E o tempo, o historial, a memória, acabou sempre por falar mais alto. Como treinador principal conquistou três ligas espanholas, duas Taças UEFA e duas Copas del Rey. Tudo isto em apenas cinco anos. Isso, sim, bem espaçados no tempo. Como a sua memória.
Conta a história da eterna guerra entre Real Madrid e Barcelona que Molowny assinou pelos brancos porque Santiago Bernabeu, uma velha raposa, enviou o seu representante de avião até às ilhas Canárias onde o jovem "Mangas", como era conhecido, começava a dar nas vistas como interior direito. Quando o emissario do Barcelona chegou - tinha viajado de barco - já o contrato estava assinado e a caminho de Madrid. A estreia seria semanas depois com um golo de cabeça. Contra o Barcelona.
Como jogador merengue Molowny fez parte de uma geração histórica que fez a ponte entre a equipa do final dos anos 40 e aqueles que viriam a reinar na Europa. Titular absoluto, fez com Di Stefano uma bela dupla que ganharia duas ligas e a primeira Taça dos Campeões da história do futebol. Já internacional pela Espanha - estreou-se numa vitória por 5-1 contra Portugal em 1949 - o médio foi forçado a retirar-se com a chegada à constelação de estrelas no estádio Chamartin de Kopa e Rial. Voltou às suas Canárias e começou a trabalhar na carreira como treinador. Depois de provar as camadas jovens surpreendeu tudo e todos ao assumir o controlo do modesto Las Palmas. Com o conjunto canário fez história no final dos anos 60. Durante dois anos consecutivos lutou até ao fim pelo titulo, algo inédito nos amarelos. Em ambos os casos saiu derrotado no último jogo. A fama de homem justo e sério que tinha no relvado acompanhou-o para o banco e em 1974, com Santiago Bernabeu a viver mais uma crise desportiva, foi chamado ao velho Chamartin para tomar conta da equipa. E começou uma longa história de honesta servidão.
As equipas de Molowny jogavam, acima de tudo, um futebol aberto e ofensivo. Não eram primores da táctica nem maestres técnicos eximios como outras gerações. Mas primavam pela eficácia. No seu primeiro mandato, que durou apenas até ao final da época, Molowny substituiu o consagrado Miguel Muñoz e venceu a Copa del Rey, a primeira da sua carreira. Um triunfo que não foi suficiente para ficar com o posto. Bernabeu - tal como hoje Perez - gostava de treinadores de renome e contratou o sérvio Miljan Miljanic. Três anos depois o sérvio foi despedido e o clube voltou a recorrer a Molowny. Durante dois anos orientou ao chamado "Madrid de los Garcia", vencendo uma liga de Espanha e disputando uma final da Taça dos Campeões que perderia contra o Liverpool. Nessa equipa pontificava Vicente del Bosque, o actual seleccionador espanhol, que sempre lhe chamou "pai espiritual". A trajectória de ambos apresenta curiosas semelhanças. Depois de mais um periodo fora dos bancos acabou por voltar a suceder ao seu substituto, Boskov em Março. Em dois meses minimizou a queda classificativa dos merengues mas voltou a ser preterido, desta feita a favor do seu amigo Di Stefano. Só que o mago dos relvados foi-o menos nos bancos em em 1985 chegou de novo Molowny e com ele começou a formar-se a celebre Quinta del Buitre. Durante dois anos o conjunto conquistou duas Taças UEFA, uma Liga e uma Copa del Rey, um registo que servia de precedente para uma década de sonho (o clube viria a ganhar mais três ligas consecutivas). No final de 1986 o próprio Molowny anunciou que passava a director técnico do clube mas durou pouco nas funções.

Honesto, frontal e dono de um sentido de humor único, Luis Molowny é um dos nomes próprios da história do Real Madrid. Técnico premiado, jogador de elite e um notável descubridor de jovens jogadores (Emilio Butrageño, Michel, Martin Vasquez, Vicente del Bosque foram todos lançados por ele), foi uma figura repleta de carisma sem nunca perder o tom humilde. Sem ter o estatuto de glória que sempre foi vedado aos técnicos do Real Madrid em nome das estrelas em campo, forjou a letras de ouro o seu nome na vida de um clube que continua a ter um historial único. E muito graças a ele, o seu particular homem dos sete instrumentos.

