Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

países onde a tradição ainda conta. A ponto de levantar uma polémica capaz de mover todo o país. Inglaterra é, por excelência, o país tradicionalista por excelência. E aqueles que inventaram o jogo continuam a defender as mesmas regras de boa conducta dos primeiros dias. A sociedade vai caminhando mas para os ingleses a braçadeira de capitão dos Pross ainda é sagrada. Para azar de John Terry.

O pecado de Terry é grave e tem um longo historial de antecedentes, dentro e fora do mundo do desporto. Digamos que é uma especie de pai nosso de cada dia. Um homem envolve-se emocionalmente com a mulher de outro. Mantém com ela um caso de largos meses. Ao mesmo tempo tenta parecer um pai de familia modelo. Vive das aparências. Vive para as aparências. Até que tudo se descobre. E se a novela lhe soa familiar, se ouviu o mesmo rumor a semana passada a subir o elevador, então limite-se a trascender a narrativa para os campos de futebol. Troque os rostos e substitua-os por John Terry, capitão do Chelsea e Inglaterra, como o homem traidor. E Wayne Bridge, defesa internacional e ex do Chelsea, como o traído. Histórias como esta abundam por todos os corredores de todos os estádios de todos os clubes de todos os países. Mas há braçadeiras que pesam mais do que outras.

A tradição em Inglaterra é uma questão muito séria. Demasiado séria. É herdeira da têmpera de Bobby Moore e da classe de Bryan Robson. Acima de tudo é um cargo de prestigio. De grandeza moral. Ao contrário do resto do Mundo, onde o papel da braçadeira foi evoluindo com a sociedade mediática e perdeu importância, em Inglaterra permaneceu uma aura de pureza à volta da braçadeira. E essa moral, no país das aparências, não admite traições.

Em Portugal lembram-se da polémica de Jorge Costa, que atirou ao chão a braçadeira de capitão do FC Porto numa tarde de sol nas Antas frente ao Setubal. Foi penar para Inglaterra durante meses antes de regressar para a etapa de ouro da sua carreira. No Brasil muitos gritaram em 1970 que Pelé tinha de ser o capitão, por ser a grande estrela da companhia. Manteve-se Carlos Alberto até ao momento final no estádio Azteca, com a taça bem no ar. Mas essas circunstâncias são, hoje, um oásis. A maioria dos clubes gosta de ter as suas estrelas com a braçadeira. Nem que seja como segundo capitão. Os clubes vendem as suas estrelas anualmente e muitas vezes quem tem de levar a braçadeira ao ombro leva poucos meses na casa. Muitas vezes nem a lingua local sabe falar. Porque aí, nessa realidade, a braçadeira perdeu toda a importância. O jogo foi evoluindo mas o conceito de capitão manteve-se inalterado na Old Albion. E esse foi o crime de Terry. 

Fosse o defesa-central mais um do grupo e a polémica nunca teria estalado. Da mesma forma que, quando Beckham foi nomeado capitão - na única ocasião em que Inglaterra se rendeu ao mediatismo do Spice Boy - metade do país assobiou a decisão de Eriksson. Era um estrangeiro, que podia ele saber do valor da braçadeira para eles? Nada. E talvez nisso pensasse Terry quando chegou à reunião com Fabio Capello. Talvez o "estrangeiro" não desse a mesma importância que os outros ao facto de ele, como lider de um balneário, ter falhado moralmente perante um colega de equipa. Perante todos.

 

Mas Capello é sábio como poucos e astuto como nenhum outro.

O técnico italiano sabe que esta Inglaterra pode sonhar com o titulo mundial em Junho. Pela primeira vez em 20 anos está nesse patamar. E qualquer coisa, por minima que seja, poderá distrair e ser utilizada como desculpa. Capello não se importa com as mulheres com quem Terry dorme. É um facto. Mas importa-se com a imagem do grupo. A força do balneário. Bridge é um internacional e pode perfeitamente viajar à África do Sul. E terá de conviver largos dias com Terry. O defesa do Chelsea tem muitos amigos na equipa. Mas Wayne Bridge também. E a última coisa que os Pross precisam é de um tiro no pé. 

John Terry errou, como qualquer homem. Errou, como capitão. Quando se descubriu que Beckham teve um caso com a secretaria ninguém se preocupou. Porque não estava em questão o balneário. E em Inglaterra o capitão é o guardião do balneário. Não pode ser o seu detonador. E foi-o. Por isso a decisão de Capello tornou-se inevitavelmente justa. E Terry sabe-o. 

Rio Ferdinand e Steven Gerrard são os seus sucessores. Atletas responsáveis pelos balneários dos dois grandes clubes ingleses e que sabem bem o que se lhes é exigido. Se Terry já mostrou falhar várias vezes - as polémicas nos últimos dois anos, desde a saída de Mourinho, têm sido recorrentes - estes dois têm um imaculado historial atrás de si. Limpando essa nódoa negra na camisa branca, o seleccionador inglês continua a preparar tranquilamente o assalto à África do Sul. Quanto a  John Terry, que se partou mais como Gascoine do que como Moore, resta-lhe a confiança dos seus em Stanford Bridge e a certeza de ainda existem umas braçadeiras que pesam mais do que outras.   



Miguel Lourenço Pereira às 13:28 | link do post

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