Quando se olha para trás a selecção do Egipto desta década entrará nos registos como um dos maiores case-studies da história do jogo. Dominadora absoluta do continente africano sem nunca ter pisado os pés de um Mundial. Os que pensavam que a eliminação diante da Argélia tinha terminado com o reino dos faraós estavam bem enganados. O implacável Egipto voltou a mostrar o seu rosto mais temível e trucidou a Argélia. A coroa de África espera-os. Outra vez...

Será a terceira final consecutiva dos egipcios. Pode significar também um tri histórico. Nunca nenhuma equipa venceu tantas vezes seguidas a prova. E merecidamente. Ainda falta um jogo mas parece um trâmite. Nenhuma equipa se exibiu ao nivel do Egipto neste torneio angolano. Nenhuma equipa esteve perto, sequer, de roçar o nível dos Faraós. Seguros a defender, controladores a meio-campo, letais no ataque. Frente à Árgelia voltaram a ser iguais a si próprios e libertos de velhos fantasmas fizeram o que em três jogos não lograram na fase de qualificação: impor-se claramente diante dos Fenecs.
É extremamente curioso que o onze argelino, que voltou a mostrar todas as suas debilidades, tenha garantido precisamente o passaporte mundialista à custa dos egipcios. Como sucedeu há quatro anos com a Costa do Marfim e há oito com o onze do Senegal. Equipas mais débeis que na hora da verdade deram a estocada final. E sempre que cairam os egipcios ergueram-se. E fizeram do torneio continental o seu feudo inexpugnável.
Sem Aboutrika e Mido, duas figuras nucleares da selecção egipcio dos últimos dez anos, o Egipto manteve-se fiel à sua filosofia. Rápidos laterais - o genial Moawab é, claramente, um dos melhores laterais-esquerdos do futebol mundial - e avançados móveis e contundentes. Se os Quartos-de-Final foram totalmente de Hassan, hoje o jogador mais internacional da história, as Meias-Finais pertenceram a Zidan. O médio O jogo arrancou extremamente equilibrado, com El Hadary a voltar a brilhar para a história. Os remates venenosos dos argelinos não perturbaram os egipcios que continuaram a sua série de ataques à área argelina. Num desses lançamentos rápidos o demoniaco Motaeb isolou-se diante de Chaouchi antes de ser derrubado por trás por Halliche. O central do Nacional viu o segundo amarelo e acabou expulso. O penalty de Hosny fez justiça ao marcador e a primeira-parte acabava com a superioridade egipcia no terreno e no marcador.
O quadrado mágico egipcio a meio campo de Hassan Shehata, o grande maestro dos bancos africanos, voltou a encantar. A rápida circulação de bola e o apoio dos laterais-ofensivos desnorteou por completo os dez argelinos que começaram a perder a cabeça. Zidan pautou o jogo ofensivo do Egipto e pouco passados os 60 minutos matou o jogo com um golo repleto de oportunismo e talento. Um golo que matou o jogo e levou a Argélia a actuar, precisamente, como queriam os egipcios. Em vez de tentarem reduzir os argelinos passaram a última meia-hora em entradas violentas que levou o árbitro a expulsar mais dois jogadores. O Egipto agradeceu, marcou mais dois tentos, e consumou a doce humilhação. Nunca numa meia-final da CAN os egipcios tinham sentido tantas facilidades para marcar o bilhete da final. E se o Gana se está a revelar uma equipa mais europeizada - com um sólido sector defensivo e um bom aproveitamento do contra-golpe - a verdade é que a CAN 2010 voltou a provar que em África quem continua a mandar são os egipcios. Por muito que estranhe ao mundo.

A selecção dos Faraós é, provavelmente, junto com a Rússia, a melhor selecção que não irá ao Mundial da África do Sul. Duas selecções magnificas e eliminadas num duro play-off que explica muito a incerteza mágica de que se reveste o jogo. Mas um dominio como o que têm imposto os egipcios ao longo da última década não é habitual. E para a história ficarão sempre Hassan, Zidan, Aboutricka, Motaeb, Moawab, El Hadady, Abdelshafi, Gedo, Hosny e companhia. Uma geração magica que por razões que a própria razão desconhece nunca conhecerá o palco de um Mundial.

