O futebol é um desporto de massas e portanto rende-se facilmente à histeria. São as regras não-escritas do jogo. Num lance de um desafio há muito decidido o cotovelo de Cristiano Ronaldo encontra o nariz de Mtiliga, um defesa da escola antiga do Málaga. O sangue, os protestos, a casmurrice. O português acaba expulso e com a etiqueta de jogador violento sem controlo sobre si próprio. Mas afinal, qual é a verdadeira base do futebol?

Diz Cristiano Ronaldo que não é um jogador violento. É verdade. Que quem está no meio sabe que a expulsão sofrida no passado domingo à noite no frio Santiago Bernabeu é injusta. Também é verdade. E que só quer jogar. Acreditamos. E no entanto o rótulo está colado e será muito dificil de desprender. Em Espanha - e por arrastamento, no resto do Mundo - o extremo português é um jogador irresponsável, violento e egoísta. Todo o contrário do protótipo que a sociedade procura para os seus idolos. Talvez por isso Cristiano viva na corda bamba e saia sempre a perder nas comparações morais com Messi. O argentino é calado, apenas se percebe o que diz e não costuma resmungar. O Mundo toma isso como humildade, essa mesma humildade que a nossa podre sociedade exige aos que sãos melhores para justificar a sua impotência. Ser o melhor e não o dizer para evitar ferir a maioria é o truque. Cristiano Ronaldo ainda não o aprendeu. Dificilmente o fará. Felizmente.
A quem diga que tem de aguentar cada soco e pontapé. Que nunca deve responder. Reagir. Ser inerte, uma estátutua. Que a cada golpe deve parar e não devolver o golpe. O olhar. O gesto trapaceiro. Cristiano Ronaldo não é Gennaro Gattuso, um jogador genial mas que busca o confronto como quem busca o pão de cada dia. Nem é Pepe, que perdeu a cabeça sem qualquer antecedente e pagou caro por isso. É um jogador que quer ganhar e está disposto a tudo para isso. Desde quando isso é criticável? Talvez por isso é que haja tão pouca gente disposta a esse sacrificio.
E no meio de tudo isto a jogada é tão simples que surprende o rebuliço. Cristiano Ronaldo arranca no seu meio-campo para o meio campo quase vazio do Malaga. Um defesa despistado agarra-lhe a camisola para impedir o seu avanço no terreno de jogo. 99% dos jogadores teria parado, esperado pelo cartão e deixado o jogo pausar. O número 9 não é dessa estaleca. Continuou a correr, mesmo agarrado, para soltar-se pelos próprios meios de um lance sujo que os árbitros deviam imeditamente punir e nunca o fazem. Beneficiar o infractor no seu pior registo. É assim a "Liga das Estrelas". O campeonato do futebol espectáculo. Num desses movimentos em que se tenta libertar o cotovelo do possante português encontra o nariz do baixo defesa malagueño. O choque é inevitável e a fúria transforma-se em violência. Cai sangue, cai o vermelho. Anedótico.
Talvez seja mais ainda irrisório o lance se nos lembramos que há uma semana o eterno rival do português, o tal argentino que brilha no Camp Nou, arrancou no meio campo adversário agarrado por um defesa sevillista. Durante segundos Messi debateu-se como um leão para se soltar e prosseguir o lance. Com a diferença de que aqui o possante era o defesa e ele o baixito. Cada gesto de impotência era recebido pelo defesa do Sevilla com naturalidade. Não houve sangue, não houve vermelho. Não houve rótulo de violëncia. É assim o jogo.
Já Ronaldo foi expulso uma vez desde que chegou a Madrid. Num jogo com o Almeria. Onde também marcou dois golos. Recebeu um soco no pescoço, desses que o árbitro nunca vê e que os defesas são peritos em aplicar. Vingou-se com um pontapé que o defesa recebeu com o habitual espectáculo. O resto já se sabe.

O futebol é um desporto leal. Ao contrário do que se possa pensar. E Cristiano Ronaldo é um jogador correcto e sempre o foi. Mas tem caracteristicas que chocam com o socialmente aceite. A sua competitividade leva-o ao extremo facilmente. É daí que saca a sua raça. Mas num mundo de pequenos e pouco ambiciosos seres que se contentam em criticar tudo o que os rodeia, é um alvo fácil. Em Inglaterra começaram por chamá-lo de fiteiro. Com o tempo o extremo ganhou o seu respeito. Odiavam-no porque o respeitavam. Em Espanha, em cada campo que visita, é insultado do principio ao fim pelo público e pelos adversários. Recebe mais golpes do que qualquer outro jogador da liga espanhola. E não desiste. É o estofo de campeão que distinguiu outros enfant-terribles como Garrincha, Maradona ou Cantona. E que fazem dele a estrela que muitos craques tão bem comportados aos olhos dos rivais e dos árbitros nunca conseguirão ser. Uma questão de caracter.

