E sucedeu o inevitável. Em ano de Mundial todas as esperanças estavam postas sobre as nações africanas. A CAN, pensava-se, seria o balão de ensaio ideal para o grande torneio de Junho. Mas as indicações que vão ficando desarmam os mais optimistas. A África do Magrebe continua a ditar as cartas na mesa e a África Negra que todos temiam volta a levantar muitas, muitas dúvidas.

A fase de Grupos já tinha deixado no ar que o Egipto - do que falaremos mais em detalhe noutra ocasião porque continua a ser um verdadeiro case-study - era a única selecção ao melhor nível. Os quartos-de-final comprovaram essa ideia. A África Negra até conta com um finalista assegurado. Mas não tem deslumbrado. E a cinco meses do Mundial fica no ar a sensação de que o sonho daqueles que querem ver uma equipa africana a levantar o troféu ficará, uma vez mais, adiado. Pode ser uma conclusão precipitada, mas contra factos dificilmente há argumentos. E o jogo de Camarões, Costa do Marfim - já eliminados - e Gana e Nigéria - semi-finalistas - deixa muito a desejar. A queda ontem dos Leões Indomáveis e a eliminação surpresa da Costa do Marfim, confirmam que o futebol africano continua a estar bem dividido entre os nomes e a força e o talento e a táctica. O futebol magrebino da Argélia e Egipto pode não dispor de estrelas do gabarito de Drogba e Etoo - desaparecidos ao largo de toda a prova - mas há naquelas selecções uma sensação de colectivo e disciplina que o futebol da África central e sul não conhece. Ver a teia montada por egipcios e argelinos é recuar décadas até à época da inocência do jogo. E houve realmente jogadores muito inocentes. Num duelo com uma equipa europeia ou sul-americana, mais matreiros do que qualquer onze africano, esses são erros que se pagam.
Se a Angola já tinha demonstrado que era fogo de vista, a tipica ilusão do anfitrião, já o jovem Gana desiludiu. O seleccionador ganês apostou na equipa que venceu o Mundial de sub20 e vários dos jovens dessa equipa mostraram-se a bom nível. Mas pareceram ainda muito verdes. Os ganeses marcaram e passaram o resto do jogo a defender, num exercicio de calculismo utilizado para esconder as deficiencias gritantes do conjunto que está na lista dos favoritos para o Mundial. A jogar assim é fácil antever que o Gana será uma presa fácil para a Alemanha e Sérvia, muito mais incisivos e metódicos. E letais na hora H. Também a Nigéria, a última a qualificar-se, exibiu o seu pior rosto em largos anos. Depois de uma fase de grupo deprimente, as águias verdes tinham oportunidade de se redimir frente à surpresa chamada Zâmbia. Não conseguiram. Foram lentos, previsiveis e sem chama. A defesa nigeriana errou de forma constante e ao rival faltou aquele sentido de oportunidade que falta às grandes equipas. O apuramento no sofrimento dos penaltys depois de um agonizante empate a 0 em 120 minutos diz muito da inoperância dos nigerianos que no próximo Mundial terão mais sorte que outros. Argentina, Grécia e Coreia do Sul são rivais acessiveis mas o nível futebolistico dos nigerianos terá de subir uns bons degraus.
Para o fim deixamos os casos mais claros. Os favoritos.
Camarões e Costa do Marfim continuam a sua particular via sacra na CAN. As duas formações apresentam-se como as mais emblemáticas do continente e muitos depositam neles grandes esperanças. E o seu jogo também se assemelha. Tal como os seus defeitos. Treinados por europeus experientes, tanto os camaroneses como os marfilenhos vivem da desordem. São equipas que apostam na velocidade e pressão no ataque mas que carecem de miolo, de cultura táctica na defesa. Facilmente surpreendidos no contra-golpe, manobráveis no meio campo e superáveis com uma defesa capaz de anular as suas peças-chave, o futebol de Camarões e Costa do Marfim foi, durante os jogos disputados, absolutamente previsível. A vitória do Egipto ontem, apesar de lograda no prolongamento, resultou de um trabalho de analise metódico pelos egipcios. Os camaroneses nunca estiveram cómodos sobre o relvado. Já a Costa do Marfim mostrou ter um bom ataque mas uma defesa de papel. Em cinco minutos sofreu dois golos impossíveis. Desses que matam. Portugal que tome nota. Defender bem, circular a bola no miolo e ataques incisivos. É só o que é preciso para dobrar uma equipa que teima em não vencer a CAN e que agora se apresenta na mó de baixo para um Mundial que muitos queriam que fosse seu.

O norte de África será representado pela Argélia. Uma equipa muito organizada atrás mas pouco incisiva no ataque. Dos argelinos pouco se espera e agora resta ver como lidarão com a pressão dos egipcios nas meias-finais, onde se discute mais do que um lugar no último desafio. O Egipto quer limpar a honra ferida. Com a África do Sul como organizador-fantoche, as esperanças dos adeptos africanas ficam resumidas a quatro equipas que continuam a anos-luz dos grandes. Apesar dos imensos talentos que vão brotando do continente, o dominio da técnica e táctica continua a ser, em muitos casos, um quebra-cabeças. Resta ver o que nos reserva Junho nesse Inverno africano que a tantos tem deixado com uma interrogação na mente.

