Por momentos Kafka vestiu-se de negro e viajou de dimensão. Aterrou num relvado africano e esperou. A lei das probabilidades no futebol não existem. Esfumam-se como a erva mal tratado dos imensos relvados que despertam o adepto do sono profundo. Ou será sonho. Depende para quem. No Gabão ainda ninguém quis despertar do sono confundo. Drama oblige. Na Zâmbia o tempo é de festa. O futebol é assim, mais imprevísivel que a própria vida.

Três equipas, quatro pontos. Três festejos. Que fazer?
Um final de infarto, desses que dá razão de ser àqueles que dizem que na CAN se vive mais perto da essência do jogo. Depois do vergonhoso calculismo dos angolanos e argelinos - que provavelmente pagarão a sua insolência mais cedo do que prevêm - chegou a magia da incerteza. Da dúvida. Do imprevisível. O Grupo D revelou-se o mais democraticamente possível num continente onde esse conceito ainda é desenhado de forma túrbia. Ignorou a condição de favoritismos e virou as contas do avesso dos mais previsiveis. Que se os Camarões eram os favoritos ao titulo. Que a Tunísia queria lavar a má imagem deixada na qualificação para o Mundial. E que no Gabão e Zâmbia nada sabiam de futebol. Enfim, frases feitas como só o futebol domina. No minuto 93 ambos árbitros terminaram os respectivos encontros. E todos se lançaram a festejar. Camaroneses, zambianos e gaboneses. Mas não há só duas vagas para os Quartos? Afinal há metamorfoses que só o beautiful game sabe explorar.
O Gabão foi a sensação da primeira ronda. Chegou ao último jogo lider e com um empate como resultado mais do que suficiente para seguir em frente. E fazer história em largos anos. Os gaboneses nem queriam acreditar depois da vitória frente aos Leões Indomáveis (e adormecidos) e o nem o empate com a Tunísia parecia arrefecer os ânimos. A Zâmbia era um trâmite, e pouco mais. Do outro lado uma formação humilde que empatara a abrir com os debéis tunisinos mas que não resistiram a Etoo e companhia. Um ponto e poucas esperanças. A longos quilómetros da savana angolana Etoo queria ressuscitar - e evitar se possível o Egipto, carrasco há dois anos dos camaroneses - enquanto que o onze tunisino procurava lavar a cara de uma prestação para esquecer. Os dias anteriores tinham confirmado o estatuto dos favoritos. Exceptuando o Mali - que caiu diante de Angola - todos os outros favoritos tinham passado o trâmite inicial. Ninguém esperava grandes mudanças. Mas o futebol continua a ser mais do que um jogo de 90 minutos. E a magia que envolve o jogo move-se entre forças indecifráveis. Aos poucos segundos de jogo a Tunisia marca. Com este resultado está apurada, junto com o Gabão. Sem Geremi e com Etoo adormecido, os Camarões desesperavam. Aos trinta minutos Kalaba, que o Braga emprestou ao Leiria, marca. Silêncio absoluto. A Zâmbia surge na liderança do grupo. Ao intervalo o mundo estava de pernas para o ar. A realidade transformou-se e Etoo empatou, no reatar do desafio. Minutos depois os zambianos voltam a marcar. E subitamente lideravam o grupo em goal-avarege frente aos camaroneses e gaboneses. Até que os tunisinos voltam a marcar e a colocar-se nos Quartos. Um sonho de um minuto até novo empate. Ainda havia folha livre para fechar o capitulo. O golo do Gabão. E a dúvida no ar. Quem se apurava realmente?

A CAF foi obrigada a recorrer ao terceiro critério de desempate. Zâmbia, Gabão e Camarões tinham os mesmos pontos e a mesma série de resultados: vitória, empate e derrota. E o mesmo goal-average. Foi nos golos entre si que se encontraram os felizardos. Mas todos sairam a festejar. Os camaroneses abraçados aos zambianos. Os gaboneses a celebrar solos no relvado. Até que um homem de fato e gravata, como desses que passeavam pelas ruas cinzentas de Praga, lhes disse que era hora de acordar. E voltar a casa. O futebol continua a ser assim, mágico como um continente. À Zâmbia esperam-lhe os nigerianos. Os camaroneses terão de se haver com a sua história mais recente. Os angolanos acreditam no seu poder mistico sobre os ganeses e a Costa do Marfim prepara-se para o embate frente à Argélia. O surrealismo africano é impar. A festa continua até que o último copo se esvazie.

