De longe vêm os ecos do perfume da Madeira. Quando Artur de Sousa empolgava as gentes da Invicta criou-se uma relação que ficaria para a posteridade. A chegada de Ruben Micael é mais um capitulo na história de amor entre a Invicta e a pérola do Atlântico. Uma história que procura um final desesperadamente feliz com o toque súbtil de qualquer passe teleguiado deste médio cerebral.

Ruben Micael é, já por si, um dos nomes próprios do campeonato.
E logrou-o sem ter de se transferir, o que já de si não deixa de ser um êxito num país asfixiado por uma ditadura a três disfarçada de falsa democracia. A sua primeira volta pelo Nacional da Madeira foi, a todos os titulos, notável e os seus golos na Europe League despertaram a cobiça na Europa. Tranquilamente o médio não se deixou perturbar pela chamada que nunca sucedeu de Carlos Queiroz nem pelas indecisões dos grandes de Lisboa. Quando o telefono do Porto tocou, ele atendeu, conversou e desligou. O negócio estava fechado.
O novo número 28 azul e branco não é a pedra filosofal mas pode muito bem ser uma alavanca útil para os azuis-e-brancos. O deficit do plantel vai muito para além de Micael mas o que parece claro é que não há no clube portista - nem no futebol português - um jogador como o madeirense. Será o elo perfeito na transição defesa-ataque, repetindo a fórmula Lucho que tanto gosto deu a Jesualdo Ferreira. Depois dos falhanços Guarin, Costa, Valeri e Belluschi, é em Portugal que o FC Porto descobre o seu novo pensador. Já era hora!
O negócio foi daqueles que justificaram a fama de Pinto da Costa.
Rápido, concisco e definido sem rodeios. O campeão nacional contratou por 3 milhões de euros - ficou com 60% do passe - um jogador que está destinado a grandes coisas. Médio centro ofensivo - posição em que Portugal não tem nenhum jogador de vulto há largos anos - mais do que substituir Lucho o madeirense terá sobre si o peso de Deco. Torna-se no seu sucessor natural, nas Antas e nas Quinas. Com mais golo que o argentino, o futebol de Micael é vertical e rápido. Resta saber se a sua magia natural encaixará bem na inflexibilidade de Jesualdo Ferreira que teima em ver o jogo como três blocos separados onde a harmonia dificilmente reina. Que o pensador do meio-campo portista para os próximos anos tenha sido contratado em Portugal desperta o FC Porto de uma letargia preocupante. Salvo algumas contratações de futuro (Orlando Sá, Miguel Lopes, Beto, Varela ou Rolando), tem sido sempre no estrangeiro, e particularmente com sul-americanos, que o clube tentou encontrar as soluções do seu problema. O plantel mais português de Portugal, como diria Mourinho, desfez-se de tal forma que hoje apenas três lusos sobrevivem no onze portista com regularidade. Muito pouco. A contratação de uma promessa quase confirmada como Micael pode também fazer com que a direcção azul e branca marque um ponto de inflexão na sua politica desportiva. Porque se há algo que transformou sempre o FC Porto em grande foi saber descobrir as boas pérolas nacionais - e não só - nos clubes chamados pequenos. Assim chegaram Deco, Pepe, Maniche, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Derlei, Zahovic, Drulovic, Artur entre tantos outros.

O primeiro teste de força para o médio poderá ser contra a sua antiga equipa. Ironias da vida que o futebol superlativiza. A expectativa é grande e nem sempre boa conselheira. Mas os mais velhos terão em mento os momentos de magia de Pinga quando se lembrem da Madeira. E para eles, voltar a sentir o perfume do jardim atlântico, é voltar à primeira grande época de glória do clube. Ruben Micael chega para por os pontos nos is. Provavelmente está destinado a muito mais do que isso.

