Em 1982 o Mundo ganhou um despeito particular pelas selecções da Áustria e RF Alemanha. Estavamos no quente mês de Junho, sob o sol tórrido de Espanha e os dois países vizinhos combinaram um empate que interessava a ambos. E que ditava a eliminação da Argélia. 28 anos depois as "vitimas" argelinas tornaram-se em carrascos. A história tem destas coisas...

Era triste olhar para dois ecrãs e seguir os esforços de um lado face à tranquilidade de outro. No duelo que os opunha ao Malawi, o Mali dava tudo por tudo para ir desfeiteando o guardião rival. O sonho do apuramento estava vivo para ambos depois de chegarem à última ronda com opções de qualificação. Se o Malawi pontuasse, tanto Angola como Argélia teriam de vencer para garantirem o apuramento. No entanto, se fosse o Mali a vencer o desafio, o empate entre ambas as selecções tornava-se suficiente. E assim foi.Numa das jornadas mais vergonhosas da história da CAN, o Mali arrancou o seu jogo de forma demolidora. Apontou dois golos nos primeiros minutos - dois tentos diabólicos de Kanoute e Keita - e ficou à espera do resultado do campo rival. Alertados para a situação os jogadores argelinos e angolanos puseram em prática o seu pacto particular. As imagens mostravam os jogadores em relaxadas conversas e a bola a deambular pelo meio campo sem que nunca tenha existido uma real clara oportunidade de golo. Nem o ataque do onze comandado por Manuel José nem a equipa que se qualificou para o Mundial. Em campo estavam apenas jogadores mentalizados em não sofrer golos. Manter o status quo.
Do outro lado o Mali desesperava e continuava o seu massacre às redes do Malawi, esperando que, de um momento para o outro, um golo fizesse justiça à sua exibição. O terceiro tento confirmou a vitória dos malianos e deu outro tom ao jogo disputado em Luanda. Se Angola e Argélia ainda tinham esboçado, no final da primeira parte, um simulacro de desafio, na segunda parte nenhum dos ataques se moveu. A bola era trocado no próprio meio-campo de cada equipa face ao claro desconforto dos técnicos nos bancos.
E quando os adeptos argelinos começaram a festejar o apuramento - em casa de empate eram eles os eliminados - o Mundo começou a lembrar-se daquela triste tarde no Mundial de Espanha. Numa era onde a FIFA ainda não tinha criado o conceito da última jornada ser disputada à mesma hora, os argelinos venceram o último jogo face aos chilenos, esperando que uma vitória da Áustria ou da RF Alemanha fizesse história e os tornasse no primeiro onze africano a apurar-se da fase de grupos. Só que a amizade entre austriacos e alemães vinha de longa data. Antes do jogo, como confessaria mais tarde o guardião Harald Schumacher, os jogadores fizeram um pacto de não-agressão. Uma vitória no El Molinon nesse 25 de Junho, garantia o apuramento de ambos, inclusive da Alemanha que tinha perdido o jogo inaugural com os argelinos. Um empate ou vitória austriaca eliminava os germânicos. Aos 10 minutos Hrubesch marcou com a ajuda da defesa rival. E a partir daí o jogo acabou. O espectáculo foi vergonhoso durante 80 minutos e no final o objectivo cumprido. A Áustria caía na fase seguinte mas a Alemanha chegaria até à final.

Á época a reclamação da selecção argelina conquistou a opinião público. O onze liderado por Rabath Madjer entrou para a história por forçar a FIFA a mudar as regras, obrigando todos os seus torneios a serem decididos, na última ronda, à mesma hora. Agora, os mesmos adeptos que queimaram nas ruas de Argel as bandeiras da Austria e Alemanha, voltam para casa satisfeitos depois de aplicar a mesma fórmula. Ironias do futebol, quando o resultado importa os valores ficam fora do relvado. Ontem, como hoje!

