Foi o primeiro campeão nacional do novo milénio. Um feito que nem a mais deprimente das dívidas poderá apagar. Juntou-se ao exclusivo clube de campeões depois de uma vitória categoria sobre o Desportivo das Aves. Um triunfo no seu estádio, reinaugurado pouco tempo antes para o Euro 2004, nascido a tempo de ver a festa axadrezada. Durante anos tinha ameaçado várias vezes os chamados grandes. Em 2001 deu a estocada letal. Hoje está a um pé de cair dos campeonatos profissionais. E muitos continuam sem perceber como pode estar prestes a cair no poço o clube das camisolas esquisitas.
Durante anos viveu à sombra do FC Porto. Clube da zona rica da cidade, sempre foi olhado com despeito pela maioria portista e pelo esquadrão mais popular do Salgueiros. Foi crescendo a pulso e nos anos 70 a chegada de Valentim Loureiro deu uma reviravolta aos destinos do clube do então pequenino campo do Bessa. A contratação de José Maria Pedroto, esse treinador dos milagres impossíveis, fez nascer o primeiro “Boavistão”. Por pouco não arrecadou a liga ao SL Benfica. Mas deixou o aviso. A saída de Pedroto para o rival voltou a mergulhar o Boavista no meio da tabela, mas não voltou a cair de divisão. A pouco e pouco o Bessa tornava-se num forte cada vez mais complicado de conquistar. A começar os anos 90 a chegada de Manuel José renasceu o espírito do “Boavistão”. Dupla presença na final da Taça de Portugal, uma vitória sobre o recém-coroado campeão FC Porto e uma geração de talentos liderada por João Vieira Pinto, Nelo, Rui Bento, Barny, Timofte, Artur e Ricky tornaram na equipa axadrezada no quarto grande do futebol nacional. As primeiras idas à Europa foram marcadas por jogos inesquecíveis, especialmente contra equipas italianas (Inter, Nápoles, Torino), e daí nasceu a alcunha de equipa com camisolas esquisitas. Mas marcantes.
O final dos anos 90, já com João Loureiro a orientar o clube de fora e Jaime Pacheco no banco, voltou a ver a equipa do Bessa disputar o troféu até ao fim. Voltou a cair, após uma noite para esquecer em Faro, mas deixou o aviso. Com Ricardo, Litos, Pedro Emanuel, Martelinho, Sanchez, Douala ou Fary, este Boavista era um misto de raça e atitude com um genuíno talento para vencer no mais complicado dos campos. Aquele golo de Martelinho no Bessa, no virar da primeira volta do campeonato 2000/2001 frente aos azuis e brancos, decidiu o destino final desse campeonato. Nunca mais ninguém conseguiu acompanhar o ritmo demoníaco de um clube a viver uma profunda remodelação, com direito a estádio renovado, equipa de primeiro nível e uma direcção aparentemente sólida. A conquista do campeonato foi o resultado de uma evolução constante, aquilo que exactamente devia passar com mais frequência nos nossos relvados com equipas da mesma dimensão como os Vitórias, Bragas e afins. O Boavista era já um grande de pleno direito e para além das grandes performances na Champions League, logrou ir a uma meia-final da Taça UEFA, onde a amarga derrota frente ao Celtic impediu uma final tripeira em Sevilla. Foi o zénite final do clube da zona nobre da Invicta.
O fantasma do pai Valentim sempre pesou sobre a sombra do filho e não foram poucos os que atribuíram à presidência da Liga do anterior presidente axadrezado os triunfos conquistados em campo. Partidos polémicos, quase sempre decididos a favor da equipa do Bessa, alimentaram a polémica de um país habituado a ver esses roubos de igreja só a azul, vermelho e verde…nunca com marca de xadrez. Surgiram as suspeitas desse pequeno feito grande elevado ao céu e daí, com muita fruta incluída, começou a desenhar-se a base do apito banhado a ouro…falso. A decisão final teve dois pesos e duas medidas, nos que se podem tocar e nos que são intocáveis. Ao FC Porto retiraram-se pontos inofensivos, ao Boavista relegaram para a segunda divisão, depois de em campo ter garantido a custo a manutenção. A saída precipitada do filho Loureiro terminou com uma dinastia de quatro décadas e abriu as arcas deixando a nu o vazio de liquidez e a abundância de dívidas. De um momento para o outro o exemplo Boavista desapareceu e ficaram só os milhões por pagar. A equipa foi impedida de inscrever jogadores, envoltos em múltiplos pagos pendentes, e teve de arrancar para a época com uma equipa treinada por um antigo veterano e uma série de miúdos inexperientes. A falta de salários, as bancadas vazias, um plantel sem capacidade de encarar uma subida de divisão a pulso foi arrastando os axadrezados para o abismo.
Depois de anos a serem acusados de serem favorecidos pelos árbitros, a campanha deste ano ficou marcada por acusações de uma equipa que não quer ser cabeça de turco. Em dúvida, agora, os árbitros apitam contra. Para não haver confusões com um passado ainda sem esclarecer bem. A dois pontos da salvação a equipa ameaça agora não voltar ao relvado. E assim consumar-se-ia a descida de divisão. O que significava abandonar os campeonatos profissionais e seguir o rumo de outros históricos agonizantes. Ou pior, o fim…para sempre…dessa pantera que soube bater o pé ao tridente antropófago do nosso futebol. Mas isso era se no futebol existisse o fado das inevitabilidades.