É uma espinha no coração do futebol espanhol. Representa ao mesmo tempo a influência britânica origem do jogo da "Liga de las Estrellas" e o simbolo da identidade do povo basco. San Mamés é uma verdadeira catedral para uma dupla religião. O seu final anunciado é mais um motivo para imortalizar cada segundo que ainda resta ao mais emblemático estádio do futebol espanhol.

A sua construção não engana. Criada à imagem e semelhança dos grandes recintos ingleses, o San Mamés é um palco clássico em toda a linha. Construido bem em cima do relvado, com as bancadas em picado debaixo de uma cobertura rectangular perfeita, é um estádio absolutamente mágico. Cómodo, espaçoso e com uma aura mistica. Transformado na sede do futebol basco - à frente do já desaparecido Anoeta - tornou-se num fortim para o Athletic de Bilbao e no terror de qualquer equipa. Ainda hoje visitar o San Mamés e vencer é um desafio que não está ao alcance de qualquer equipa. A popularidade dos bascos e a sua paixão pelo recinto ficou plasmada no final da época passada. O estádio encheu-se para apoiar a equipa, que tinha sido derrota em Sevilla na meia-final da Taça do Rei. O Athletic deu a volta à eliminatória e voltou a uma final, mais de duas décadas depois. No dia do jogo o relvado encheu-se de adeptos que acompanharam o encontro num ecrã gigante. Apesar da derrota, a festa foi única.

O estádio está prestes a cumprir os 100 anos.
Foi edificado no Verão de 1913 e tinha uma capacidade de 4 mil pessoas então. Inspirado no recinto do Southampton, com quem o clube basco mantinha uma relação cordial, foi construido por um arquitecto anglo-espanhol, Manuel Smith. O jogo inaugural colocou frente a frente o Bilbao e o vizinho, e histórico, Irun. Ganharam os locais com golo de Pichichi, o mesmo que hoje dá nome ao prémio de melhor marcador da liga do país vizinho. Dez anos depois da sua construção já tinha sido ampliado para 15 mil lugares e chegou a um máximo de 47 mil em 1952. A última modificação foi realizada em 1972. A colocação de lugares sentados diminuiu para 40 mil lugares a lotação final, que ainda hoje se utiliza. É o único estádio do futebol espanhol que acompanhou o século desportivo. Recebeu jogos do Mundial de 1982, finais europeis, da Taça do Rei e jogos históricos das melhores formações do Athletic. Por ali passaram Pirri, Zarra, Zubizarreta, Goikotxea, Salinas, Guerrero e afins. O último titulo celebrado no seu relvado remonta a 1984.
Hoje o San Mamés tem data de caducidade
A direcção do clube, que já tinha escandalizado os mais puristas ao permitir o patrocinio de uma empresa basca na última camisola imaculada do futebol, anunciou que no ano do seu centenário o San Mamés sera destruido. Dará lugar a um estádio moderno, mais funcional, mas sim a magia e aura do actual. Aposta forte do clube para o futuro, o novo recinto espera herdar a magia dos "leones" bascos. O peso da sucessão será dificil. Diz quem lá esteve que há jogos de futebol e depois há jogos no San Mamés. A incrivel atmosfera, o publico frenético aquecem as gélidas bancadas e as fracas exibições de um clube repleto de história e tradição. Continua a ser fiel à sua filosofia mas sabe que abdicar de uma casa que o acompanhou desde sempre é renegar também ás suas origens.

Seja como for, o San Mamés já há muito que ganhou o seu lugar na eternidade. Sob as suas bancadas define-se a essência mágica que transforma o mais pequeno inocente num apaixonado para toda a eternidade. Com o San Mames vive-se sempre uma história de amor interminável.

