Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2014

Sou um nostálgico. Vivo preso no tempo. Cresci nos anos oitenta. Acho que isso tem grande dose de culpa. A era em que brincar ao futebol significava passar horas na rua. Jogar com peças de legos montadas para fingir equipamentos reais. Ou com os jogadores de Subbuteo, muitos sem cabeça. As consolas eram protótipos do que são hoje, os jogos de gestão desportiva um enigma e o futebol, esse, era outro. Daqui a uns meses vou ter o prazer de rever nostalgicamente as minhas velhas conhecidas Colômbia e Bélgica num Mundial outra vez. Tenho saudades desses tempos. E de todas as outras equipas dessa era que ficaram pelo caminho.

Um dos meus sonhos é ter uma réplica perfeita do equipamento da Dinamarca de 86. Ou da Holanda de 88. (quem os tiver, o email de contacto está abaixo à esquerda)!

Sim, sou assim de estranho. Mas já me contentava com aquela camisola colorida da Colômbia de Asprilla ou da Jugoslávia de Stoijkovic. Sei adivinhar o ano de um jogo só pelo equipamento das respectivas selecções. Vivi a era das três tiras nos ombros da Adidas. Dos desenhos da Nike na camisola do Mundial dos Estados Unidos ou das tiras finas tão popularizadas nos anos oitenta por escoceses, franceses e dinamarqueses. Tenho saudades de ver a Preud´Home fazer defesas impossíveis a Hassler ou de imaginar como um desdentado Jimmy Leighton era capaz de defender sobre a linha um tiro de cabeça de Tore Andre Flo. Durante essa geração o futebol europeu consagrou grandes equipas. A maioria dos adeptos sabem quais são, não é preciso que me repita. Mas houve uma série de actores secundários igualmente brilhantes que me roubaram o coração. É como no cinema, onde tantas vezes prefiro apreciar aquele actor de low profile no fundo do plano em vez de perder-me no grande plano ao protagonista. Essas eram as equipas que me tocavam na alma. Talvez porque, nesses dias, Portugal fosse um desses secundários. Não vivi, de forma consciente, o Mundial de 1986 e por isso tive de esperar até já estar no ciclo para ver a selecção das Quinas jogar uma competição internacional. Quando Portugal disputou o seu primeiro Mundial depois de Saltillo estava a dois meses de entrar na universidade. Toda a adolescência tinha passado a pensar que a selecção que então equipava - que saudades - de vermelho e verde, seria sempre um jogador de segunda numa mesa de especialistas em bluff.

 

Esses eram os dias em que a Europa tinha menos países. Menos estados independentes significava equipas mais fortes e místicas.

Lembro-me da devoção especial que sentia pela Jugoslávia e como rapidamente a emergente Croácia me conquistou o coração. Por razões clubísticas sempre torci pela Eslovénia e pela Sérvia. Mas tudo me levava sempre àquela equipa que mereceu melhor sorte no Itália 90, com a orgulhosa estrela vermelha sobre o centro do equipamento. O mesmo podia dizer da União Soviética e o icónico CCCP. O que me custou aprender a dizer Rússia e a pensar na lógica de existir uma Ucrânia em jogos oficiais quando todas as estrelas soviéticas, de vermelho e branco, eram do Dynamo de Kiev. E que dizer da última época dourada do futebol nórdico. Da Suécia de Dahlin, Anderson, Thern, Brolin e de um adolescente rastafari chamado Henrik Larsson. Ou da reinventada Dinamarca, sempre e quando Michael Laudrup estivesse em campo (as horas que passei a treinar "aquele" passe). Para não esquecer-me, evidentemente, da histórica Noruega que chegou ao topo do ranking FIFA com um estilo de jogo importado directamente da segunda divisão inglesa com os seus gigantes nas duas áreas a impor a sua lei. Nesses tempos, quando Portugal tinha de defrontar este tipo de equipas, não havia Ronaldo que nos salvasse. Era drama assegurado.

Mas o que realmente me produz nostalgia é o desaparecimento progressivo de verdadeiras selecções históricas. Daquelas que durante mais de meio século definiram o que era o futebol europeu. Tenho saudades de um Escócia vs Áustria muito antes de ter sabido que esse foi o duelo estético e ideológico que definiu o modelo de jogo que mais me apaixona. Tenho uma tremenda nostalgia quando vejo as camisolas da Hungria cruzaram-se com as da Bélgica, pensando nesses jogos perdidos no tempo em que os Nealazi e os Scifo se cruzavam com naturalidade. Com o passar dos anos, a Europa reinventou-se e nasceram novas potências como Portugal e várias selecções desapareceram do mapa. Raramente vemos equipas do leste europeu que não estejam suportadas por magnatas do petróleo ou do gás, ou clubes nórdicos e britânicos da velha guarda. Isso provocou a decadência de selecções que na era pré-Bosman estavam sempre lá. Eram os dias em que a França, Itália, Espanha ou a Inglaterra podiam falhar um Mundial ou um Europeu e ninguém punha as mãos na cabeça. No seu lugar havia sempre alguém disposto a aproveitar a ocasião como a Bulgária de 94 ou a Dinamarca de 92.

 

Vai ser muito difícil que a situação mude. A ampliação dos Europeus a vinte e quatro equipas - uma decisão que discordo por completo - poderá permitir um último hurrah a algumas destas selecções. Mas a magia nunca será a mesma. O guarda-redes escocês terá uma dentição perfeita. Os belgas terão afros mas nenhum barbudo. Os carecas búlgaros terão tatuagens no crânio e os avançados noruegueses serão imigrantes perfeitamente integrados na sociedade nórdica e não guerreiros vikings de outros tempos. Tenho saudades desse futebol porque sei que passe o que passar, nunca mais vai voltar. E tenho saudades do Escócia vs Áustria porque quando me sentava a ver estes jogos só tinha de me preocupar por fazer o trabalho de casa no carro, a caminho da escola, sem que se dessem conta.



Miguel Lourenço Pereira às 16:23 | link do post | comentar

11 comentários:
De L a 8 de Fevereiro de 2014 às 08:27
Deixo aqui o meu contributo de algo tão fundamental no futebol de todos os tempos. Eu que comecei com as cautchu, admirava as telstar com gomos pretos e brancos e só abri a boca de espanto verdadeiramente uma vez, quando chegou a tango. De lá para cá bolas de vólei feias. Um abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Fevereiro de 2014 às 13:28
Mitico,

Eu cresci com a Etrusco, acho que é a bola por excelência da minha geração. Sempre tive um carinho especial pela Tricolor mas a partir de aí fui perdendo o interesse à medida que os gomos foram desaparecendo.

Que anos!


De L a 8 de Fevereiro de 2014 às 17:06
Itália 90, que Mundial! O último grande.


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Fevereiro de 2014 às 22:18
Acho que o França 98 ainda teve algo dessa magia!


De L a 8 de Fevereiro de 2014 às 08:29
Lamentavelmente esqueci o link: http://esporte.uol.com.br/infograficos/2013/12/03/conheca-as-bolas-utilizadas-em-copas-do-mundo.htm


De Kafka a 8 de Fevereiro de 2014 às 10:41
Excelente Post, revi-me em muitos dos exemplos dados, pois também nasci na década de 80


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Fevereiro de 2014 às 13:30
Obrigado Kafka,

Acho que é, sem dúvida, algo que nos unirá a todos, os que gostamos de futebol e vivemos essa época. Foi uma transição rápida e abrupta do futebol lento, físico e quase experimental a nível estético dos 80s para a era Bosman, mercantilista dos 90s. Outras gerações tiveram transições mais pacificas mas nós deixamos de ter os legos e subutteos para ter consolas. De bolas pintadas com bandeiras dos países para as bolas oficiais a preços de escândalo. De equipamentos que eram uma raridade e que tentavamos imitar com o que houvesse no armário com réplicas oficiais a torto e a direito.

Grandes tempos.

um abraço


De Kafka a 10 de Fevereiro de 2014 às 20:06
Não podia estar mais de acordo, é um pouco como se tivéssemos crescido num Mundo, e agora estarmos a viver noutro distinto...sou (somos) do tempo em que dar um jogo do Real, do Barça, do Milan, do Liverpool ou do Bayern (entre outros) na televisão, era uma raridade tal que quando dava ficava a semana toda na expectativa para que chegasse a hora de poder ver aqueles mitos e lendas, que basicamente só ouvia falar e lia no jornal (record ou bola) de 2ª feira que o meu pai sempre comprava para ver tudo o que se tinha passado no fim de semana ...hoje em dia tudo está à simples distância de um clique no PC, Tablet, TLM e em segundos tudo se sabe e tudo se vê o que acaba por de certa forma tirar um pouco da magia...não deixando de ser o desporto rei e que adoro e perco horas a fio a ver na mesma, mas sem dúvida que quem viveu o antes e o depois, penso que percebe o que quero dizer...


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Fevereiro de 2014 às 18:39
Totalmente de acordo!


De Pedro Lucas a 8 de Fevereiro de 2014 às 15:05
Miguel,

Comentário rápido só para dizer... equipamentos Hummel... divinos. E normalmente, equipa que vestia Hummel jogava com bola Select (acreditem, o maior calhau com que alguma vez joguei... pedras de calçada abundavam dentro da cãmara de ar daquilo).

PS - "Por razões clubísticas sempre torci pela Eslovénia e pela Sérvia."... portista ahahah (curiosamente, ambos os simbolos portistas destas selecções, mais tarde passaram pelo Benfica.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Fevereiro de 2014 às 22:17
Pedro,

Grande Hummell, marca alemã especializada em equipar selecções que acabavam por ganhar à Alemanha. Sim, o Zlatko e o Ljublinko depois jogaram na Luz mas sempre os recebi de pé e com aplausos quando voltaram ao Porto, mereciam isso e muito mais. Naquele Euro 2000 estiveram imensos os dois!


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Miguel Lourenço Pereira

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