Quarta-feira, 15.01.14

Acabou a novela do Ballon D´Or. Felizmente. Lembro-me com nostalgia das segundas-feiras em que passava pelo quiosque e via a capa da France Football. Só aí sabia quem era o vencedor. Nos dias da internet era possível na véspera confirmar os rumores dos jogadores que eram apanhados na foto da capa. Nada mais. Agora vivemos um autêntico circo mediático com posturas tão afastadas que o prémio se transformou numa guerra. No meio de tudo isto Platini volta a demonstrar a sua habitual hipocrisia e oportunismo. Um dos melhores jogadores do Mundo, o actual presidente da FIFA é também um demagogo consumado e dono de uma memória muito, muito fraca.

Começamos esta viagem com um disclaimer. O meu Ballon D´Or teria ido para Franck Ribery.

Nem isso signifique que não ache o ano de Cristiano Ronaldo absolutamente brutal. Nem quer dizer que não considere a Lionel Messi um ET do futebol. Na minha cabeça o Ballon D´Or é outra coisa. Nem é um prémio para o maior goleador (para isso há a Bota de Ouro), nem é um prémio para o Melhor Jogador do Mundo (para isso está a História). É um prémio temporal (365 dias, para a FIFA com alguns trocos pelo meio) e reflecte o que um jogador faz num ano num determinado contexto. O contexto colectivo (títulos, exibições) e o contexto individual (a sua importância dentro dessa dinâmica, o seu valor e o que representa). Esse é para mim o que significa o Ballon D´Or. Não significa que eu esteja certo ou errado. Pura e simplesmente, se pudesse votar, fá-lo-ia debaixo desses princípios. E para mim Franck Ribery representa o que de melhor se viu em 2013.

Dito isto, naturalmente, não posso deixar de me alegrar por Cristiano Ronaldo. Apesar de estar numa equipa milionária o abismo que há entre si e os seguintes melhores jogadores é imenso. Por isso - e porque Mourinho e o balneário merengue cortaram relações mal a época começou - o português não ganhou nenhum título em 2013. O que não o impediu de marcar como nunca, assistir como nunca e transformar-se definitivamente na reencarnação de Alfredo di Stefano que o clube necessitava. Ronaldo merece ter dois Ballon D´Ors pelo o que tem feito nos últimos seis anos da sua carreira desportiva. O prémio assenta-lhe bem, como uma luva. Mas chegou um ano mais tarde. Já Messi, imenso como é, conseguiu terminar em segundo lugar num ano em que só jogou seis meses. É um hino à forma como o argentino capturou a imaginação colectiva. Mesmo quando não está ao seu melhor Messi dá a sensação de ser o melhor. Há poucos futebolistas na história que o podem proclamar. Vencer o quinto Ballon D´Or consecutivo num ano como este seria ridículo mas estar aí relembra a todos que será muito difícil que Messi não vença mais dois ou três prémios destes. Basta não estar lesionado e o Mundo votará nele por defeito. Sentem que é o melhor que há e que o prémio representa isso. Michel Platini pensa de outra maneira. De certa forma estou de acordo com as suas declarações. O problema é que Platini funciona por oportunismo. Tem todo o direito a defender o seu "protegée" como qualquer outro adepto, ainda sendo presidente da UEFA. O que não pode é dizer que o modelo mudou precisamente este ano. Porque mudou. E nem foi este ano nem o ano passado.

 

Desde a fusão com o FIFA Award que o Ballon D´Or perdeu a sua inocência.

Nenhum prémio é perfeito mas o modelo histórico do troféu da France Football, confesso, faz para mim mais sentido. A partir do momento em que se abriram as votações ao Mundo, o prémio descaracterizou-se e transfomou-se num concurso de popularidade entre os dois monstros da nossa era. Façam o que fizerem os restantes jogadores sabem que nos próximos cinco ou seis anos será difícil que alguém se intrometa entre Messi e Ronaldo. O brasileiro Neymar - que acabou num surpreendente, ou talvez não, quinto lugar - é o único com o mediatismo suficiente para ambicionar quebrar essa hegemonia. Nesse contexto os jogadores que fazem parte da coluna vertebral do prémio não têm sentido. Ribery, Iniesta, Xavi e Sneijder teriam sido premiados noutro modelo. Com este estão destinados a aplaudir.

Antes deles houve outros que sim foram celebrados. O modelo histórico do Ballon D´Or premiou a Raymond Kopa, a Josef Masopust, a Lev Yashin, a Florian Albert, a Dennis Law, Gerd Muller, Allen Simonsen, Oleg Blokhin, Kevin Keegan, Karl-Heinz Rummenige, Igor Belanov, Lothar Mathaus, Hristo Stoichkov, Pavel Nedved, Andrei Shevchenko ou Fabio Cannavaro. São todos maravilhosos jogadores. Maravilhosos. E em cada ano fizeram méritos para vencer. Mas se o modelo aplicado à época fosse o vigente, nunca teriam vencido e Zinedine Zidane, Ronaldinho, Ronaldo Nazário, Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Eusébio, George Best, Alfredo di Stefano teriam seguramente bastante mais prémios dos que conquistaram. Para que façam uma ideia, em comparação com os quatro de Messi os geniais Zidane e Ronaldinho tiveram apenas um. A diferença não é tão grande, pois não? E aí entra na equação Michel Platini.

O francês foi, provavelmente, o melhor jogador europeu da sua geração. Até 1995 os jornalistas da France Football não podiam votar a não-europeus, mesmo que jogassem na Europa. Em campo, Platoche media-se com Zico, Sócrates, Maradona e Francescoli mas quando chegava a hora de votar, estava só. Em 1983 venceu o seu primeiro de três Ballon´s D´Or consecutivos. Consecutivos. Sob a sua teoria, esses prémios teriam de ter sido referenciado com algo mais do que o seu talento e charme. Títulos. Títulos colectivos imagino porque foi esse o seu argumento de defesa de Ribery. Em 1985, quando venceu o prémio pela última vez, Platini foi campeão europeu com a Juventus. Confirma. No ano anterior, o francês levou o seu país a vencer a sua primeira competição internacional, o Euro 84. Confirma. E em 1983, o seu primeiro ano como premiado, que venceu Platini? Nada.

A memória de Michel é curta mas nós ajudamos. Nessa temporada, ao serviço da Juventus, o francês ganhou a Supertaça italiana. Mas ganhou-a em Agosto de 1982, fora do ano temporal de 1983 a que se correspondia a votação. Nessa temporada o título italiano foi para a AS Roma. E o europeu para o Hamburgo, depois de ter derrotado a sua Juventus na final. A Platini restou a compensação de ter ganho o prémio ao melhor marcador da Serie A com 19 golos. Nada mais. E na votação final, a sua vitória foi esmagadora. E não sobre um jogador do campeão europeu (Hamburgo) ou italiano (Roma). Atrás de si ficou Kenny Dalglish, um dos melhores jogadores que nunca venceu o troféu, e que tinha vencido algo esse ano: o título inglês. Em terceiro ficou Simonsen, que por então já jogava no Vejle dinamarquês. Não foi a primeira nem seria a última vez que um jogador sem títulos ganharia o Ballon D´Or. Sucedeu com Stanley Matthews (aí o prémio foi mais honorifico que real), com Dennis Law, com Luis Figo ou com Kevin Keegan. A fraca (e selectiva) memória de Platini serve para relembrar que o triunfo de Cristiano Ronaldo afinal não é tão atípico como isso. Afinal, em 2012, não foi o argentino Leo Messi que ganhou (de forma surpreendente) o mesmo troféu com "apenas" um novo recorde goleador num ano mas sem títulos colectivos. Um recorde que superou outro, de Gerd Muller que, quando o conseguiu, não foi recompensado com o mesmo prémio. Nessa época, para vencer o Ballon D´Or, era preciso algo distinto!

 

O Ballon D´Or é cada vez mais um circo mediático e um prémio fechado. Impensável o esquecimento a que foi votado o Borussia Dortmund e muitos dos jogadores do próprio Bayern Munchen. É também um prémio que, se fosse votado ainda só pelos jornalistas, teria ido para Ribery como no passado teria ido para Sneijder em 2010, por exemplo. Na votação final nem no pódio ficou. Não é um prémio que respeite, nos moldes actuais. Não é um prémio bem gerido, a variação nas votações este ano, os votos falsos no ano passado, dão bem conta disso. É um prémio binómio que dista muito da sua ideia original. A que sabia premiar a Cruyff, Charlton e van Basten mas também sabia reconhecer que outros grandes jogadores realizavam grandes temporadas. Tenho saudades dessas segundas-feiras de manhã, desse quiosque e de uma capa com a cara de Philip Lahm, mais surpreendido do que eu. Platini seguramente não tem nostalgia desses dias. Se tivesse, um dos seus troféus estaria agora em casa de Dalglish ou Magath. Poderia oferece-lo a Ribery. Em nome da coerência!

 



Miguel Lourenço Pereira às 11:53 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Sexta-feira, 20.09.13

As Taças têm os dias contados? A julgar pela última decisão da UEFA, a tendência é, cada vez mais, para o seu progressivo desaparecimento. Competições sem grande lucro financeiro, as provas a eliminar foram a base da organização do futebol europeu. Hoje são um empecilho para os clubes e o fim da possibilidade de qualificar-se o finalista vencido para a Liga Europa apenas contribuirá a que cada vez menos a taça seja uma forma de celebrar o futebol de cada país.

 

Quando não existiam ainda os meios e as infra-estruturas para alimentar um conceito de liga, a Taça foi a resposta mais eficaz e coerente para os organizadores dos primeiros passos do futebol moderno. A FA Cup não é só a mais antiga competição entre clubes do mundo. É também o espelho dessa era onde jogos a eliminar faziam mais sentido do que rondas intermináveis de todos contra todos. Não é por acaso que muitos dos países europeus onde o futebol se introduziu seguiram esse modelo muito antes de adoptar a ideia de uma liga nacional.

A isso havia que juntar também o facto emoção. Enquanto foi fácil perceber que o modelo de liga iria, inevitavelmente, beneficiar as equipas com maior potencial e recursos, a Taça era uma roleta russa de emoções, sempre aberta a surpresas. A "Festa da Taça" tornou-se num lugar comum com o tempo mas foi, durante décadas, a única forma que muitos adeptos, por toda a Europa, tinham de celebrar um título oficial com o seu modesto clube. Claro que essa cultura mítica permitiu também reforçar a popularidade da Taça dos Vencedores das Taças, uma das mais populares celebrações das noites europeias de futebol. Uma competição que se prolongou durante quatro décadas até que a galinha de ovos de ouro da Champions League acabou de vez com o seu significado. Inicialmente muitos pensaram que deviam ser os vencedores das taças - e não os segundos classificados - a acederem à prova rainha do futebol europeu. Mas essa ideia não acompanha a filosofia do dinheiro e do poder crescente e independente das ligas face às federações. E, inevitavelmente, os vencedores ou finalistas vencidos das taças foram relegados para a futura Europa League. Agora a festa acabou. Se uma equipa, a partir de 2015, ganha a taça e não está no lote de qualificados directos para a "Champions", entra na prova. Mas se a perder, mesmo que o vencedor seja uma equipa da Champions, o lugar passa directamente para o seguinte classificado não apurado via liga. A última réstia de motivação para apostar na Taça para os mais pequenos e modestos, desapareceu.

 

Num calendário cada vez mais congestionado, a Taça é um problema.

Os clubes grandes dão-lhe cada vez menos importância. É um troféu sem prestigio mas inconsequente financeiramente. Nem dá dinheiro que justifique o investimento nem permite aceder à prova rainha da Europa. Portanto os clubes com os maiores orçamentos focam-se em lutar pelo título ou, em último caso, em fechar o lote de lugares de acesso à Champions. Essa realidade podia abrir aos restantes clubes um espaço livre para disputar o troféu. Para eles vencer uma taça significa mais e se essa vitória garantir esse posto na Europa League que tão dificil é de conseguir nas ligas, melhor. Mas sem o atractivo financeiro e com uma exigência maior para sobreviver na dura competição regular - entre esse sonho de entrar em Champions, a prioridade de qualquer clube e a sobrevivência por ficar num lugar de qualificação directa - são cada vez mais os clubes de meio da tabela que confessam o seu desinteresse pela prova. Se até agora algo os motivava era, sem dúvida, o apuramento directo para as provas europeias. Mas que os grandes emblemas não olhem para a Taça como uma prova importante não quer dizer que não a possam ganhar, mesmo ás vezes sem as suas figuras principais. Uma vez alcançadas as meias-finais, pelo menos, não são 180 minutos a mais ou a menos que vão fazer a diferença. Em Espanha isso significa, por exemplo, que nos últimos cinco anos Barcelona ou Real Madrid sempre estiveram na final. Em Inglaterra sucedeu o mesmo com Chelsea, City e United. Em Itália também, com Juventus e Inter, em Portugal com FC Porto e SL Benfica e na Alemanha com Dortmund ou Bayern. Raros são os anos em que nenhuma dessas equipas chega ao derradeiro encontro. E aí, claro, a equipa que perde sabe que o lugar europeu está garantido, jogando sem complexos e muitas vezes, surpreendendo.

Inevitavelmente esse cenário vai acabar. Com a nova regra, as equipas sabem que só lhes vale a vitória. Mas, sobretudo, que lhes vale de pouco o esforço. Os adeptos perdem um motivo mais para seguir o seu clube pelo país, os grandes sentem-se mais cómodos e, sobretudo, os clubes de linha média-alta, sabem que contam com mais um lugar de acesso na prova regular para sonhar com a Europa. É o triunfo da influência do dinheiro, uma vez mais.

Sem a participação na Europa League via presença, ainda que com derrota, na final, muitos dos clubes europeus nunca teriam tido o prazer de saborear uma noite europeia na sua história. São milhões de adeptos combinados que encontravam neste antigo mas fascinante modelo competitivo uma forma mais de celebrar a sua modesta existência. Platini e os seus sequazes, uma vez mais, trataram de seguir pela via contrária, reforçando o poder da elite financeira europeia pavimentando cada vez mais o caminho para uma competição única composta exclusivamente pelos clubes mais ricos e poderosos das ligas nacionais.



Miguel Lourenço Pereira às 16:28 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 20.03.13

José Mourinho quebrou o seu silêncio selectivo para dar uma entrevista à RTP que é como quem dá a possibilidade aos amigos de lucrarem com palavras que semana atrás semana se recusa a prenunciar onde deve, na sala de conferências de imprensa do clube que lhe paga 12 milhões de euros ao ano. E fê-lo para, entre outras coisas, denunciar a corrupção que está por detrás do Ballon D´Or. O mesmo prémio que em 2010, quando venceu a primeira edição, não pareceu ter nenhum problema. O mesmo prémio que, ano após ano, treinadores, jogadores, jornalistas e público em geral se sentem determinados a dar uma importância que, no fundo, não tem.

Vicente del Bosque venceu o Ballon D´Or ao Melhor Treinador de 2012.

Ganhou-o com mais de 10% dos votos do segundo, José Mourinho, o vencedor inaugural do prémio e 29% mais do que Josep Guardiola, a quem sucedeu no palmarés. Venceu-o com o voto maioritário de seleccionadores e jornalistas, mas não dos capitães que preferiram a figura de Mourinho. A gala foi a 7 de Janeiro de 2013. Mais de dois meses depois aparece Mourinho, qual vencido despeitado, anunciando que foi o seu conhecimento da existência de fraude nas votações que o levou a não marcar presença na gala (ao contrário de Cristiano Ronaldo, também português, também do Real Madrid, também segundo nas votações). Está no seu direito.

Os factos parecem dar-lhe razão. Paulo Duarte, seu velho amigo e antigo jogador nos seus tempos de técnico da União de Leiria, confessou que não teve oportunidade de votar porque o formulário lhe chegou para lá da data limite de voto. Uma situação comum a países como a Guiné-Bissau ou Costa de Marfim, nações que, a julgar pelo lido, votariam em Mourinho para vencer o prémio. O técnico português fala ainda de personalidades que lhe terão ligado falando na existência de boletins de voto alterados. Uma vez mais, os seleccionadores da Zâmbia e Zimbabwe queixaram-se na imprensa local que os nomes que aparecem na lista oficial da FIFA não se correspondem com as suas votações, um deles referindo até que nunca chegou a ver o formulário de foto e que alguém terá votado por ele.

Curiosamente, os amigos de Mourinho permanecem em silêncio e seguramente continuarão calados porque comprar uma guerra contra a FIFA é, habitualmente, meio caminho para ter uma carreira curta e sem grandes oportunidades. A velha raposa chamada Blatter raramente esquece estes insultos à sua honra, se é que lhe sobra alguma para mostrar ao público depois de todos os escândalos dos últimos quinze anos de presidência. Parece ser perfeitamente possível dizer que houve irregularidades e fraude nas votações do Ballon D´Or. E quê?

 

O que mais supreende - ou talvez não - nas declarações de José Mourinho é a sua percepção que os erros acontecem exclusivamente no ano em que perde.

Em 2010, quando venceu o prémio - também contra Del Bosque, então recém-consagrado campeão do Mundo pela selecção espanhola - o técnico português subiu exaltante ao palco, celebrou, dedicou o prémio e nunca se lembrou de rever a lista de votações para confirmar se faltava algum país, não fossem eles ter votado noutro técnico. Como tantas vezes sucede nas acusações aos comités de arbitragem, as palavras surgiram apenas depois de uma derrota. Não lhe retira a razão mas sim a moral de falar quando, nos momentos de glória, tudo fica guardado num baú e escondido debaixo da cama para não chamar à atenção.

Parece-me claro que um prémio com estas caracteristicas tem tudo para ser alvo de fraude. Nada resta já do velho Ballon D´Or, um prémio de glamour mais do que reconhecimento real de talento. Ao abrir as votações, muito democraticamente, a todos os capitães, seleccionadores e correspondentes da France Football do mundo, a FIFA abre também a caixa de pandora. Em países onde a corrupção está oficialmente instalada, seguramente que os votos podiam ser comprados facilmente. Em estados que seguem apenas os máximos eventos desportivos, naturalmente que a votação está condicionada aos nomes mais emblemáticos. Na Etiópia, onde a Premier é seguida com devoção, Roberto Mancini coleccionou vários pontos que não se repetiram em nenhum outro país. Nos países hispânicos e lusófonos o índice de sucesso de Messi e Ronaldo foi proporcional à influência cultural de cada um e o seleccionador espanhol, perdão, chinês, não teve problemas em votar em dois técnicos e três jogadores do seu país referindo-se ao jornal Marca como algo normal porque há sempre que votar nos seus.

O que nos leva a perguntar sobre o valor real que possa ter um prémio que se transformou num concurso de popularidade nos últimos três anos, um concurso fechado nos nomes mais simbólicos do futebol internacional, distante da ideologia inicial de um prémio que não teve problemas em celebrar os êxitos de Sivori, Masopust, Albert, Blokhin, Simonsen, Belanov, Owen e Cannavaro quando havia jogadores muito mais completos em activo, os mesmos que hoje estão destinados a vencer como condição sine qua non. O Ballon D´Or deixou de ter o prestigio e o respeito de quem via algo original e distinto na atribuição do prémio da France Football, consciente que num desporto colectivo a entronização pessoal faz sempre pouco sentido.

 

As queixas de Mourinho deixam-no, uma vez mais, nú e só ante uma das máximas entidades do jogo. Depois de ter desafiado a UEFA com a sua lista de erros arbitrais, agora o técnico português lança um dardo envenenado à FIFA a propósito do seu prémio mediático comprado a peso de ouro à família L´Equipe-France Football. O treinador do Real Madrid pode perfeitamente queixar-se em ambos os casos, até porque os momentos concretos arbitrais que cita, bem com os erros nas votações, são reais. Mas esquecer-se das mesmas particularidades quando saiu vencedor, tanto em provas europeias (Old Trafford, 2004; San Siro, 2010; quem sabe se Old Trafford, 2013 também) como na atribuição do primeiro Ballon D´Or ao melhor técnico da história apenas deixam reflectida uma pálida e triste imagem de um treinador genial consumido cada vez mais pela sombra da sua própria persona.



Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (22)

Quarta-feira, 06.03.13

Branca. Limpa. Mourinho, no seu célebre discurso arbitral depois da polémica arbitragem de Wolfgang Stark no Real Madrid vs Barcelona de 2011, referiu-se assim à suposta vergonha que Josep Guardiola devia sentir sobre os seus títulos europeus. O técnico português não tinha, atrás de si, precisamente uma carreira imaculada mas a noite de Old Trafford passará para a posteridade como o jogo em que a UEFA calou definitivamente qualquer queixa futura do português. A melhor equipa ficou pelo caminho, a única equipa que quis seguir em frente ficou pelo caminho. E só um árbitro impediu um treble histórico do Manchester United.

 

Nani procura um alivio de Patrice Evra. A sua missão é e foi essa durante todo o jogo.

Receber, parar e ver a movimentação ofensiva de van Persie e Wellbeck, o apoio de Giggs e Cleverley. E passar, romper as linhas inexistentes no meio-camp do rival, criar superioridade. E marcar. O portugês realizou um movimento técnico perfeito para recuperar a bola, era para ela que olhava fixamente. E não viu Alvaro Arbeloa, o sargento preferencial de Mourinho, aparecer nas suas costas, procurando o corte desesperado para matar o contra-golpe desde a raiz. A chuteira chocou com Arbeloa, empurrou-ao ao chão, deixou-lhe uma marca nas costelas. E acabou com o sonho de Old Trafford, o teatro onde ontem se viveu um drama em tons de comédia patrocinado pela UEFA.

A expulsão de Nani - num lance totalmente fortuito que oscila entre a advertência e o amarelo - abriu caminho a um jogo novo. Que durou cinco minutos. Nada mais. Até esse instante, só havia uma equipa no terreno de jogo. No final desses cinco minutos voltou a existir apenas uma equipa em campo. Mas como o Real Madrid é uma equipa letal, quando encontra os espaços, os momentos de desajuste dos ingleses possibilitaram a Modric impor a sua lei, associar-se com Ozil, Higuain e Kaká, desferir um golpe mortal e criar o lance que acabou cirurgicamente nos pés de um Cristiano Ronaldo engolido pela emoção de dar o golpe de misericórdia aos adeptos que mais o admiram em todo o mundo.

Ronaldo fez um jogo fraquissimo, espelho da sua incapacidade emocional se encarar Old Trafford como um estádio rival. Tentou mas não soube ter clarividência mental, rematou demasiadas vezes, passou mal, movimentou-se pior. Mas marcou o golo do apuramento, que provavelmente é o único que as pessoas se irão lembrar em Maio. Não celebrou, pediu desculpa, provando ser um gentleman. Mas ontem não foi ele o elemento diferencial. Foi apenas o carrasco de uma sentença ditada previamente...Ovrebo, De Bleckcerke, Stark...Çakir?

 

O Real Madrid nunca mereceu seguir em frente. Atado totalmente pelo Manchester, foi uma equipa pequena e inofensiva.

Como era previsivel, sem os espaços para explorar, o ataque merengue tornou-se estéril e incapaz de associar-se para procurar espaços. Sem espaço parar correr, a imaginação não triunfou e o Manchester United tomou cedo controlo do jogo. Impôs o seu ritmo, colocou as peças de xadrez no sitio, abdicando da individualidade de Rooney pela velocidade e luta de Wellbeck e Nani, no apoio de um van Persie sempre em movimento. Giggs colocou-se à direita, engoliu Coentrão e assustou com o olhar o seu velho amigo Ronaldo, que desapareceu totalmente do jogo no primeiro-tempo. As oportunidades eram do Manchester, a bola do Madrid, o guião oposto que queria Mourinho que, de mãos sobre o tijolo de Old Trafford, olhava para a forma como Ferguson o ultrapassava outra vez tacticamente.

Mas o golo não apareceu, entre a exibição soberba de Diego Lopez e o génio crescente de Varane, e o segundo tempo parecia ser uma benção para os espanhóis, que já tinham deixado as malas feitas no balneário para voltar de cabeça baixa a casa. O goloo do Manchester, fruto do único erro de Varane e do enésimo disparate de Sérgio Ramos nesta época, deu uma margem de manobra superior aos ingleses que lidaram melhor ainda com a reação do Real. Mourinho já tinha sido forçado a abdicar de Di Maria, mas em vez de procurar ganhar o jogo com Modric, preferiu a vertigem com um Kaká sem forma. Á segunda não repetiu o mesmo erro, abdicou do amarelado Arbeloa e lançou Modric. Mas Nani já tinha recebido a bola, acertado em Arbeloa acabando expulso. E a balança tinha sido propositadamente desequilibrada.

Modric mudou o rosto do Real Madrid durante cinco minutos, tempo suficiente para marcar um golo memorável e organizar o jogo colectivo com a calma necessária para encontrar a circulação que abriu as portas à reviravolta. Depois, animicamente débeis, os espanhóis perderam outra vez o critério e a coragem e esconderam-se na sua área, procurando o seu jogo preferencial. E o Man Utd, mesmo com menos um, já com Rooney, Valencia e Young em campo, voltaram a dominar, a ganhar sempre a superioridade, a bascular o seu jogo à sua vontade. Apertando, tiveram oportunidades, mas falharam. E quando Sérgio Ramos cometeu penalty e Çakir não apitou, ficou claro que o drama tinha-se tornado em comédia, ou melhor, em pesadelo. O Real tinha encontrado a fórmula entre os que criticavam para eliminar uma equipa futebolisticamente muito superior.

 

No final, Ferguson perdeu a oportunidade única de igualar Paisley e um avergonhado Mourinho, tentou pedir desculpa aos adeptos dos quais quer ser treinador. Nenhum jogador espanhol festejou com o orgulho de uma noite histórica, nenhum jogador do Manchester chegou a casa tranquilo e o futebol europeu perdeu um grande espectáculo e ganhou mais uma polémica patrocinada por Platini, Villar e companhia.



Miguel Lourenço Pereira às 12:51 | link do post | comentar | ver comentários (20)

Quarta-feira, 21.11.12

O que significa, no desporto, o fair play. O que significa, realmente, num desporto de competição que move milhões, o conceito quase amador de respeitar o rival acima de todas as coisas? A FIFA e as confederações, com a UEFA à cabeça, defendem o conceito como algo moralmente único mas na prática o fair play vai desaparecendo dos relvados. O acto de Luiz Adriano, pobre reflexo do estado actual do futebol, devia ser para a UEFA a oportunidade de ouro para demonstrar que as palavras também se podem transformar em actos.

 

Se a lógica imperasse, o Shaktar Donetsk teria perdido os três pontos conquistados na Dinamarca.

Mesmo vencendo por 2-5, mesmo tendo sido a melhor equipa no terreno de jogo. Tudo porque cuspiu num dos conceitos mais importantes do futebol como desporto. Do futebol como alma de um espirito competitivo justo e imparcial onde os principios de cavalheirismo ainda fazem sentido. No entanto ninguém espera que isso se torne realidade. Uma multa económica, para engordar o jantar de Michel Platini durante o próximo mês, e pouco mais. Uma reprimenda verbal, um raspanete a meninos mal comportados. A imagem, essa, ficou manchada para a posteridade. Chegue onde chegar o Shaktar Donetsk, que já está matematicamente apurado para os Oitavos de Final, confirmando o que dissemos, todos se vão lembrar antes deste gesto do que da imensa qualidade demonstrada nos cinco jogos pelos homens de Lucescu.

Lucescu, ai Lucescu. O homem que interrompeu a entrevista de Pep Guardiola depois de um 1-2 em que Messi marcou um golo parecido ao de hoje de Adriano, para criticar a falta de desportividade dos blaugrana tem agora um problema nas mãos. Diga o que disser, é fácil perceber que da sua boca não veio nenhuma ordem para permitir o golo dos dinamarqueses. O Nordsjallen vencia por 1-0 e depois do empate de Adriano marcou o 2-1. Mas foi mérito seu, nada mais. Não há nenhum gesto que indique que os ucranianos se deixaram bater. Depois, talvez espicaçados pelas celebrações dos dinamarqueses, marcaram diferenças com a sua superior qualidade. Mas o futebol já tinha perdido.

 

O lance é simples. Fácil de entender e explicar.

Uma bola ao ar no meio-campo que o árbitro indica, como é hábito, ao jogador do Shaktar que devolva à defesa dinamarquesa. Os homens da casa venciam por 1-0, estavam a ser melhores e os ucranianos sentiam-se nervosos. O remate foi sem convicção, é certo, mas Luiz Adriano apanhou a bola em jogo, sem estar em fora de jogo, e correu para a baliza onde o guarda-redes local, incrédulo, nem esboçou uma defesa. Foi o empate e a confusão. O árbitro validou o golo - poderia não fazê-lo? - e os jogadores dinamarqueses cercaram o brasileiro. Os homens de laranja olharam para o banco e encontraram silêncio. Quando a bola arranca, os avançados afastam-se mas o meio-campo fecha a muralha e recupera a bola. Não ia haver devolução de golo concedido, não ia haver desportividade. Muitos milhões em jogo provocam estas atitudes.

E no entanto Arsene Wenger solicitou um jogo repetido numa eliminatória da FA Cup quando Nwanknu Kanu marcou um golo nas mesmas circunstâncias, depois de receber uma bola que não era mais que a devolução desportiva do Arsenal à defesa do Southampton depois de uma bola ao ar. E Paolo di Canio, vendo os rivais no chão, lesionados, não hesitou em atirar a bola para fora e evitar marcar um golo fácil, com a baliza descoberta. Dois gestos que indicam que é possível esquecer que o futebol é uma indústria de milhões e, acima de tudo, um desporto. 

Se o golo pode acontecer, o que é inadmissível é a reacção dos jogadores do Shaktar depois do golo. Essa é a atitude que a UEFA e todos aqueles que acreditam no futebol como algo mais do que uma indústria jamais poderão perdoar. Esquecer e deixar passar.

Os ucranianos deviam ser punidos da forma mais exemplar por representarem, com este gesto, o cúmulo da falta de escrupulos que no futebol tem muitas formas, desde perdas de tempo propositadas, apanha bolas que desaparecem, lesões e expulsões fingidas, agressões imaginárias...

O futebol perde-se um pouco mais em gestos como o de Adriano e dos seus colegas e a UEFA, como organizador do torneio, não pode limitar-se a anúncios televisivos e directivas a adeptos e clubes. A UEFA tem a responsabilidade absoluta de fazer valer o mesmo ideário que está na base do próprio jogo que se chama futebol.

 

Infelizmente este episódio passará os próximos dias por todos os telejornais para acabar no anedoctário do futebol, numa sequência de videos de Youtube e uma piada entre os mais cínicos do jogo contra aqueles que acreditam que o futebol representa realmente algo mais. O Shaktar tem equipa, já o dissemos, para ser uma das surpresas da prova. Adriano, com este hat-trick, pode acabar o torneio como máximo goleador e Lucescu seguramente pensará duas vezes antes de acusar outros técnicos de falta de desportividade. No final, uma modesta equipa dinamarquesa sentirá na pele o cinismo de um jogo que desaparece diante dos nossos olhos e a máquina que é responsável pela sua gestão profissional calará e guardará no bolso o dinheiro pago pelo Shaktar - se é que alguma multa se pagará - para anunciar aos quatro cantos no Mundo a importância do Fair Play. Em vez de Collina no próximo anúncio poderiam colocar Luiz Adriano. Ninguém daria pela diferença!



Miguel Lourenço Pereira às 12:05 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 19.11.12

Platini quer ser presidente da FIFA. Comprou a presidência da UEFA com o apoio dos países pequenos e agora quer comprar a presidência da FIFA com o apoio inquestionável dos clubes de elite. A sua última decisão, levada a estudo pela FIFA, é o golpe de graça definitivo ao futebol europeu tal como o conhecemos e o início de uma nova era, a da Superliga dos grandes do Velho Continente, os senhores do dinheiro e da história. Os seus novos amigos.

 

Imaginem uma edição da Champions League sem clubes portugueses. Sem gregos. Sem turcos.

Imaginem provas europeias sem muitos clubes espanhóis ou italianos, sem espaço para holandeses, austriacos, suiços ou sérvios. Imaginem por isso mesmo não uma Champions League mas uma Superliga europeia. Porque é isso mesmo que Michel Platini quer que vejam daqui a nada. Um torneio de elite onde os demais, os pobres, os pequenos, os periféricos, não têm lugar.

A notícia de que o francês, presidente da UEFA, apresentou à FIFA uma proposta para acabar com a co-propriedade é o primeiro passo real para essa nova ordem futebolística. O mercado actual, com os preços inflacionados pelos milhões das provas europeias e o investimento dos magnatas mundiais nas ligas inglesa, russa, espanhola e agora francesa - aliada à impecável gestão dos clubes alemães - não deixa margem de manobra para clubes como os portugueses, mas também instituições de prestigio em França, Itália, Espanha, Turquia, Holanda ou Grécia. Para sobreviver em provas da UEFA e competir contra clubes que, tantas vezes, têm mais dinheiro no banco de suplentes que o rival em campo, desde há vários anos que o modelo de co-propriedade se tornou fundamental.

Os clubes não podem pagar os salários actuais e os valores de transferência e não viver entre dividas atrás de dividas. Se querem ser competitivos claro. Para aliviar essa carga financeira, negoceiam com fundos, com empresários, com outros clubes. Entre eles criam uma teia de sobrevivência. Comprar parte de um passe, vender pedaços de um jogador para poder mantê-lo na equipa, é o santo e senha de qualquer um desses clubes na situação actual. Vejam o plantel de FC Porto, SL Benfica e Sporting CP. Vejam o do Atlético de Madrid, Valencia, Galatasaray, Bessiktas, o da Lazio ou Udinese. E descubram quem é que pertence, realmente, ao clube e quem não. Verão que a maioria das suas estrelas jogam com uma camisola mas, quando vendidos, entregarão o lucro aqueles que os têm no seu regaço, realmente. Acabar com essa realidade - uma triste realidade, é certo - é acabar com esses clubes e permitir, de uma vez por todas, que o futebol de todos seja de uns poucos.

 

Claro que esta medida de Platini é tudo menos inocente.

O francês quer suceder a Blatter, que o lançou no meio do dirigismo desportivo depois da organização do Mundial de 1998 os ter apresentado, como presidente da FIFA. Quando chegou à UEFA, fê-lo da mão dos pequenos, dos que estavam contra a asfixia do G14, da gestão final de Leonardt Johansson, dessa ameaça de Euroliga. Eram mais países, eram mais votos e foi assim que Platini venceu. Prometeu mais lugares nas provas europeias, renovou a Taça UEFA, levou finais e torneios à Europa dos pequenos e bateu o pé aos grandes. Os membros do G14 tornaram-se personas non gratas, uns mais do que outros, e Platini afirmou-se no primeiro mandato como o presidente dos pobres, do futebol como espectáculo de todos. Assim podia ganhar e manter a UEFA. Mas nunca a FIFA.

Na FIFA as grandes entidades valem muito, o prestigio conta e ninguém é capaz de vencer contra os nomes que sustêm a popularidade mundial do jogo, os clubes ingleses, espanhóis, alemães e italianos. Os senhores do dinheiro russos e ucranianos e os homens dos milhões árabes. Para agradar à elite há que tratá-los como tal. Diferencia-los dos demais, em mais do que uma maneira. Londres recebeu duas finais da Champions em três anos. À Ucrânia perdoou-se tudo para ter o seu Europeu e aos russos deram-se-lhe todos os apoios na candidatura Mundial contra outros projectos europeus. Os votos da UEFA decidiram a favor o Mundial do Médio Oriente e em tudo isso houve dedo de um Platini que sonha com mais. Sonha com o trono mundial e para apaziguar os seus antigos detractores, reverteu a sua politica ao extremo de ser ele o homem que vai eliminar os poucos obstáculos que nos separam da remodelação do futebol europeu de forma definitiva.

O final da co-propriedade é o final dos clubes médios, dos clubes que ainda surpreendem, que ainda fazem sonhar mas que não dão receitas televisivas, não enchem estádios como o Camp Nou, o Bernabeu, Old Trafford ou o Allianz. São os clubes que ocupam essa incómoda fase de grupos da Champions, os que representam o futebol puro, mesmo utilizando meios pouco recomendáveis para se manter vivos. Acabar com a co-propriedade é, no fundo, acabar com o futebol europeu e abrir caminho a uma liga onde o dinheiro não é problema.

O final do conceito é justo, eticamente. Mas também o seria rever a lei Bosman e impedir equipas com 22 estrangeiros. Também o seria criar um tecto salarial como sucede actualmente na NBA e impedir que a massa salarial de um clube seja inferior à de um jogador quando se defrontam. Também seria renovar o futebol de formação e apostar de novo nos jogadores locais. Mas nada disso preocupa realmente a UEFA, disposta a olhar para o lado com os grandes mas sempre preparada para pisar os mais pequenos, principalmente desde que Platini se fartou de Zurique e prepara-se para mudar-se para Genebra.

 

A decisão do presidente da UEFA significará o fim do futebol profissional português. Os clubes, incapazes de suportar a massa salarial e o valor dos passes dos James Rodriguez, Rodrigos, van Wolfswinkel e companhia, fecharão portas, jogarão com atletas sem o mesmo nível e o mesmo potencial de crescimento. Deixarão de poder vender para subsistir e acabarão por definhar. Aqui e em toda a Europa do Sul. Ligas que tomarão o caminho dos países escandinavos e do centro da Europa, com jogadores menores, ligas ainda mais abandonadas pelos adeptos e com menos dinheiro a mover-se. A nível mundial afectará pouco outros campeonatos, salvo os sul-americanos que encontrarão forma de reciclar-se, como sempre têm feito. As estrelas actuais dessas ligas serão os suplentes de outras estrelas nos clubes de elite e asfixiarão, ainda mais, o desenvolvimento do jogo. Claro que ao francês isso interessa pouco. Por essa altura estará na sua cadeira de sonho gerindo um futebol que cada vez mais se parecerá com uma fábrica de Henry Ford do que com o sonho de uns poucos amadores do século XIX.



Miguel Lourenço Pereira às 14:19 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 30.08.12

Os prémios individuais em desportos colectivos são sempre dificeis de justificar. O mediatismo de um individuo supera sempre o trabalho de um todo e o glamour de um troféu ajuda a definir o contorno de uma carreira. No caso de jogadores que jogam debaixo dos focos, surgem sempre como uma curiosa surpresa. Mas nenhum jogador, entre o trio eleito, merecia mais o troféu de jogador europeu do ano do que don Andrés, o malabarista manchego.

Iniesta não tem o perfil de vencedor de prémios.

Vende poucas camisolas, não gera uma especie de palpitação única no coração das mulheres e não inspira, precisamente, os mais novos a ser como ele. Calado, branco como nenhum outro filho do calor de Albacete, cabeça baixa, está para o futebol moderno como outros gentlemans do passado estiveram para os grandes nomes da sua era. Mas por cada Messi, estrela global em todos os sentidos, está sempre um Iniesta. E há quem arrisque, ás vezes como se fosse pecado, a dizer em voz baixa que talvez o lado humilde do espelho seja maior do que o lado mediático. No caso de Iniesta, poucos duvidam.

O médio espanhol é o herdeiro natural de Zinedine Zidane. O francês também demorou largos anos a habituar-se ao protagonismo. Em Bordeaux e Turim já exibia todo o seu talento, já vencia competições nacionais e internacionais, já liderava a sua selecção à glória suprema. Mas, de certa forma, ainda vivia longe da imagem de glamour que herdou com a camisola 5 quando Florentino Perez fez dele o seu segundo Galáctico. Se os melhores anos da sua carreira foram os passados na Juve, a memória colectiva lembra-se dele de branco ao peito, essa associação de um clube e projecto mediático ao seu ser tranquilo e longe de qualquer suspeita. Iniesta seguiu-lhe as pisadas. Começou por baixo e sofreu as duras penas de ser suplente de um Deco estelar na sua chegada ao Camp Nou. Foi encontrando, a pouco e pouco, o seu espaço no projecto de Rijkaard mas, como dizia Guardiola, o manchego estava destinado a outros voos.

Pep tinha dito a Xavi que este seria o responsável pela sua reforma, mas que Iniesta os acabaria por superar aos dois. Partindo do principio que Xavi Hernandez já não voltará a vencer um troféu individual depois de três anos a bater à porta, mediaticamente o Mundo partilha da ideia do ex-técnico blaugrana. Se o AC Milan de Sacchi viu Gullit e van Basten vencerem o Ballon D´Or, agora é o Barcelona do projecto guardilesco que tem em Messi e Iniesta duas estrelas premiadas a ouro.

 

Há quem diga que troféus como este pecam pela dificuldade do adepto em perceber o que realmente se premeia.

Se um ano natural concreto, se uma temporada, se uma carreira, se o talento puro e genuino ou se um evento marcante em que um jogador deixou a sua marca. O desaparecimento do FIFA Award e a posterior fusão com o Ballon D´Or da France Football trouxe ainda mais confusão porque afastou os jornalistas do papel de protagonistas, à hora de votar, e entregou aos capitães e seleccionadores do mundo o poder de decidir. É dificil de compreender a decisão porque a principal consequência, como se viu em 2010 com a ausência de Wesley Sneijder do pódio, centra-se na excessiva mediatização do prémio. Por esse mundo fora serão sempre os jogadores mais mediáticos, leia-se Messi e Ronaldo, a somar mais votos simplesmente porque são aqueles que o Mundo realmente conhece de memória. Votar em Falcao, Drogba, Xavi ou Casillas torna-se num problema quando se pode eleger, ano atrás ano, entre o argentino e o português.

Michel Platini, num gesto oportuno, daqueles que domina bem como fazia com a bola nos pés, aproveitou o vácuo deixado pela publicação francesa e juntou de novo a imprensa que o coroou como o primeiro jogador a vencer 3 Ballon D´Ors consecutivos para um novo prémio. Um prémio que relembra a ideia inicial da France Football, com a introdução de jogadores não-europeus (que impediu Pelé e Maradona de vencer uns quantos troféus), como alternativa lógica. Ainda não tem, se é que alguma vez terá, o peso mediático da Bola de Ouro, mas a ideia é louvável. 

Que o vencedor de este ano seja Andrés Iniesta contribui, ainda mais, para abrir essa terceira via.

Lionel Messi é o jogador mais espectacular do Mundo. Se o talento puro fosse o único condicionante, provavelmente o argentino iria vencer ano sim, ano também. Mas Messi, dentro de toda a sua grandeza, já venceu dois prémios da France Football sem merecê-lo e não viveu em 2011/12 o seu melhor ano individual. Cristiano Ronaldo, que vive amargado na sombra do argentino, ficou duas vezes à porta da glória. Penaltys fatidicos, um falhado e outro que nem se atreveu a marcar, que ditaram o seu destino. Tivesse o Real Madrid vencido a Champions League ou Portugal eliminado Espanha e ninguém questionaria o seu triunfo. Mas a hora de Iniesta tinha de chegar.

Foi o melhor jogador espanhol do Europeu. Foi um dos melhores jogadores do Barcelona durante a época, carregando tantas vezes com a equipa às costas quando o Real Madrid fugia na tabela classificativa e contra o Chelsea o seu desaparecimento condenou os blaugrana a uma derrota inesperado. Podia tê-lo ganho em 2010. Podia tê-lo ganho em 2011. Venceu em 2012 e não há uma voz no mundo que se alce indignada.

 

Iniesta é o herói humilde do jogo de todos. Não tem a preparação fisica de Cristiano Ronaldo e o espirito potrero de Messi. Mas tem a magia do futebolista tranquilo. O conhecimento táctico que lhe permite ler os jogos como nenhum dos outros dois é capaz. Lidera desde o silêncio e decide jogos decisivos com a frieza dos maiores. Desde Zidane que nenhum jogador do seu perfil tinha chamado a atenção do Mundo, nesse imediatismo voraz de procurar o espectáculo pelo espectáculo, o golo pelo golo. O espanhol é filho da escola que, mais do que os artistas individuais, ajudou o mundo do futebol a crescer, a fazer-se popular, a fazer-se arte. Iniesta nasceu para triunfar. Finalmente o Mundo parece ter-se dado conta.



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (27)

Sábado, 07.04.12

Quando Joan Laporta sucedeu a Gaspart como presidente do FC Barcelona a situação politica do futebol europeu vivia numa encruzilhada extremamente complexa. O grupo conhecido como o G14 fazia-se sentir mais influente do que nunca junto de Leonardt Johanssen e a ameaça de uma Superliga europeia era cada vez mais real. Laporta retirou o clube blaugrana da segunda linha desse grupo, liderado por Hoeness, Perez e Galliani, e apostou todas as fichas em Michel Platini, o homem de confiança de Sepp Blatter. O futuro deu-lhe razão e desde então sempre que se vêm em problemas, o clube catalão encontra sempre um amigo!

 

Os corredores do poder na sede da UEFA em Nyon eram estreitos para os emissórios blaugranas.

O clube era visto com maus olhos pela directiva e não passava de uma formação de segundo nivel do grupo G14, fundado por Florentino Perez, Adriano Galliani e Uli Hoeness numa reunião em Milão no ano 2000. Entre AC Milan, Bayern Munchen e Real Madrid, com o fortissimo apoio de Manchester United, Olympique Lyon, FC Porto, Juventus e Arsenal pretendia-se desenhar o futuro do futebol continental.

O papel da UEFA na criação da nova Champions League tinha sido fulcral para por em prática os desejos da elite continental mas o mandato final do presidente sueco tinha deixado demasiadas pontas soltas que os dirigentes pretendiam atar com a criação de uma Superliga europeia ao estilo NBA. O projecto nunca chegou a avançar mas o peso do G14 aumentou de ano para ano e isso reflectia-se no sucesso desportivo dos seus principais integrantes. O Barcelona, em crise depois da venda de Luis Figo e da saída de Louis van Gaal, era um mero actor secundário. E isso notava-se no Camp Nou.

Em 2003 o ambicioso advogado catalão Joan Laporta apontou á sucessão de Joan Gaspart. Prometeu trazer David Beckham, acabou por trazer Ronaldinho mas o mais importante acto de gestão foi criar uma embaixada do clube na UEFA, com Gaspart de emissário, juntando a um grupo de descontentes entre personalidades influentes e clubes insatisfeitos com o rumo económico do G14 original. Uma especie de oposição que começou a fazer-se sentir no último ano de mandato de Johanssen quando o clube apoiou declaradamente o francês Michel Platini na corrida á presidência. Florentino Perez tinha saído do Real Madrid, Silvio Berlusconi estava mais preocupado com o seu papel como primeiro-ministro italiano e o apoio da FIFA e as promessas de maior equilibrio financeiro e competitivo com as pequenas e médias nações europeias deram a Platini uma vitória surpreendente.

O Barcelona tinha acertado e começou a viver uma época de esplendor europeu inigualável no seu mágico historial.

 

Em 2006 Chelsea e AC Milan sofreram na pele a influência blaugrana nos corredores de Nyon.

Os ingleses, orientados por José Mourinho, viram o defesa lateral espanhol Asier del Horno ser expulso por agressão depois de um lance onde um então promissor Leo Messi contribuiu, e muito, na decisão final do árbitro. O génio de Ronaldinho fez o resto. Na semi-final que precedeu a coroação do magnifico conjunto orientado por Frank Rikjaard aos italianos foi anulado um golo fundamental no jogo da segunda mão apontado pelo ucraniano Andrey Shevchenko. Anos mais tarde, na celebre conferência de imprensa que lhe valeu a maior suspensão na história da UEFA a um treinador de futebol, o sadino não se lembrou dos nomes de Terje Hauge e Markus Merk. Não era necessário, o historial dos anos seguintes faria destes dois episódios meras anedotas desportivas, similares ás dos sempre polémicos Mr Leaf e Mr Ellis, os árbitros que garantiram em 1962 que o Real Madrid não pisaria a sua sexta final europeia consecutiva numa meia-final histórica com o eterno rival.

O titulo europeu ganho numa final asfixiante com o melhor Arsenal europeu de sempre foi o primeiro de uma série de três em cinco anos, um feito apenas igualado por Real Madrid, Ajax, Bayern Munchen e Liverpool.

Em 2009, o primeiro ano do glorioso e fantástico Pep Team, os adeptos de futebol renderam-se ao magnifico jogo ofensivo de Xavi, Iniesta, Messi, Etoo e Henry, talvez a equipa mais atrevida e arrojada em largos anos no futebol europeu. Mas nem esse talento inegável e superlativo consegue explicar a anormal arbitragem de Tom Ovrebo, árbitro norueguês que conseguiu aguentar o resultado até ao fantástico remate de Iniesta. Pelo caminho ficaram por assinalar penaltys e expulsões. Apesar do génio desportivo, confirmado com uma grande final em Roma, a imagem desse duelo manchou a vitória mais saborosa de Guardiola. Por essa altura o G14 tinha acabado, reformando-se na ECA, e a amizade entre Laporta e Platini era conhecida, aceite e incontestada por todos os presidentes dos principais clubes europeus, como confessou há semanas um dos vice-presidentes mais influentes do clube, Alfons Godaal,

Olhando para os três anos seguintes tem sido fácil perceber porquê.

Em 2009-10 os campeões europeus em titulo defrontaram o Internazionale nas meias-finais. Depois de uma derrota por 3-1 em San Siro, no jogo da segunda volta, o árbitro Frank de Bleckerck conseguiu, como em 2006, ver uma agressão de Thiago Motta a Sergio Busquets e reduziu o conjunto neruazzuri a 10 homens com meia hora de jogo. Foi insuficiente. Não o seria no ano seguinte com Robie van Persie primeiro, expulso cirurgicamente por rematar uma bola depois do árbitro Massimo Busacca ter apitado um fora-de-jogo. Não o seria na meia-final em Madrid com o árbitro Wolfgan Stark a expulsar Pepe depois de um lance dividido com Dani Alves como não seria no jogo da segunda mão quando Gonzalo Higuain marcou para o Real Madrid, apenas para o golo ser anulado por uma falta fantasma de Cristiano Ronaldo sobre Gerard Pique, pelo amigo do costume, o belga De Bleckerck agora elegido pela FIFA para coordenar a sua exclusiva comissão arbitral num braço da organização dirigido pelo espanhol Angel Maria Villar.

A polémica arbitragem no último duelo com o AC Milan foi apenas mais um exemplo para uma longa galeria de amigos que aparecem sempre na hora H. Dois penaltys inexplicáveis, cartões cirúrgicos e um longo sorriso que relembrou aos mais atentos que este mesmo árbitro tinha estado presente no Mónaco, no jogo da Supertaça Europeia frente ao FC Porto para garantir a enésima merecida vitória do Pep Team.

No primeiro lance, Leo Messi sofre falta clarissima de desastrado Antonini mas encontra-se em fora-de-jogo (a bola ressalta no italiano depois de um passe de Xavi o que invalida imediatamente o lance). No segundo, a bola nem sequer está em jogo quando Nesta agarra Busquets sendo depois agarrado por Puyol. O regulamento arbitral obriga o árbitro a interromper o lance e mandar repetir o canto. Kuipers optou pela decisão inédita na história da Champions League de apitar penalty. Um amigo aparece sempre quando é preciso.

 

A indiscutível qualidade futebolistica deste FC Barcelona transforma ainda mais esta profunda relação entre o clube blaugrana e a UEFA numa realidade complexa de analisar e que no futuro marcará seguramente a imagem fantástica de um projecto desportivo unico. Neste periodo de cinco anos sucederam-se duas das cinco melhores equipas da história do Barça. E no entanto, ao contrário dos principais triunfos de alguns dos seus mais simbólicos rivais, a sombra da UEFA nunca se fez sentir tanto por detrás do sucesso de um projecto desportivo como tem sucedido nos últimos cinco anos. Quando a genialidade futebolistica do Barcelona, uma equipa que vence sobretudo porque é a única no panorama internacional que não condiciona o seu jogo ao rival, mantendo-se fiel ao seu ideário, custe o que custar, não chega para resolver os maiores apertos, parece sempre que do outro lado da linha está um amigo pronto a solucionar os problemas. José Mourinho foi punido pela UEFA por denunciar uma realidade que é conhecida por todos os que vivem nos corredores do futebol e que não é inédita nem exclusiva ao FC Barcelona na história do futebol. Mas pensar que a história do futebol europeu dos últimos anos se tem feito apenas com o génio táctico de Josep Guardiola, os passes de régua e esquadro de Xavi e Iniesta e as genialidades de Lionel Messi é, sobretudo, pecar de inocência. E nos corredores do beautiful game a inocência paga-se caro e há muitos clubes da elite europeia que começam a dar-se conta dessa realidade e a sonhar com um projecto antigo.



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (21)

Terça-feira, 03.04.12

Durante a última década a UEFA tem sofrido criticas de todos os quadrantes do futebol europeu relativamente ao formato aplicado á Champions League. Á medida que Leonardt Johanssen foi devolvendo favores ás grandes federações do continente e ampliando o número de clubes dos principais países ás custas dos mais pequenos, o torneio foi-se transformando no protótipo da Euroliga que Platini tem vindo a combater. Paralelamente as criticas á falta de qualidade da edição deste ano, que chegam invariavelmente dos mesmos sectores, deixam claro uma severa contradição. Numa época em que os quartos de final se assemelham, como nunca, ao modelo da antiga Taça dos Campeões, qual é o futuro ideal para o maior torneio de clubes do Mundo?

Perdi a conta ás vezes que ouvi jornalistas, dirigentes e adeptos queixarem-se dos moldes da Champions League.

Inicialmente queixavam-se pelo excesso de equipas das grandes ligas, esse poker de clubes de Espanha, Itália, Inglaterra e agora Alemanha. Depois as queixas passaram a ser a atacar a base da politica de Michel Platini que tem feito de tudo, é preciso dizê-lo, para abrir o torneio aos pequenos países. Claro que o francês não o faz por ser um bom samaritano. Ter clubes como o Basel, APOEL ou BATE Borisov na prova é um dardo envenenado á ECA - a organização dos clubes europeus que antes era conhecida como G-14 - e um piscar de olhos ás dezenas de pequenas federações que foi quem realmente conseguiram a sua eleição e que serão a sua base de apoio no assalto ao trono da FIFA.

Os senhores do futebol que fizeram de tudo para ter uma Champions League para as elites, com Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Arsenal, Chelsea, AC Milan, Inter e Bayern Munchen á cabeça, têm agora de conviver com uma realidade que, nesta época, mais do que nunca faz lembrar a Taça dos Clubes Campeões Europeus.

A imprensa afim a estes clubes sempre criticou o antigo modelo queixando-se de uma falta real de competitividade. Realmente, durante os anos 70 e 80, principalmente, a Taça UEFA parecia mais equilibrada e exigente que a própria Taça dos Campeões. Mas o prestigio desta manteve-se inabalável e mesmo com os triunfos de Aston Villa, Hamburgo, Steaua, FC Porto, PSV e Estrela Vermelha face a rivais de maior prestigio e de países mais poderosos o torneio continuou a ser considerado como a prova de elite do futebol europeu. A jogada de Johanssen, patrocinada pelas grandes federações, quase que matou o futebol europeu e atirou para o esquecimento alguns dos países mais influentes das décadas anteriores ao aparecimento da Champions League. Os rankings UEFA e FIFA, as fase pré-eliminatórias e o reparto de fortunas fizeram da prova um coto privado que só Ajax e FC Porto souberam contornar em 20 anos de existência. Mas que dirão os mesmos que criticaram esse modelo do torneio - e os seus campeões - quando chegue a final do Allianz Arena no próximo mês de Maio?

 

Em oito equipas só um país se repete.

Um cenário que foi a constante em 90% das edições da Taça dos Campeões Europeus entre 1955 e 1991, sendo que habitualmente o país que se repetia apresentava o campeão europeu em titulo e o campeão nacional (ou vice-campeão se fosse o caso). A Espanha, neste caso, conta com o campeão em titulo, FC Barcelona, e o Real Madrid, algo que sucedeu, por exemplo, em 1961-62 quando os merengues foram eliminados pelos blaugrana nas meias-finais, sendo impedidos de defender o titulo que afinal acabou nas mãos, pela primeira vez, do SL Benfica.

Exceptuando o dueto espanhol, máximo favorito em todas as casas de apostas, os restantes seis clubes chegam de seis países diferentes. Pela primeira vez na história da Champions League. Um clube português, um alemão, um francês, um inglês, um italiano e um cipriota que bem podia ser turco, grego, russo ou holandês, para citar apenas ligas de destaque do futebol europeu. O mesmo cenário que se vivia na antiga versão da prova e o mesmo que é agora alvo de criticas sobre a falta de interesse e competitividade de um torneio que se tem habituado a meias-finais com dois ou três clubes do mesmo país - entre ingleses, espanhóis e italianos - e apenas um que outro filtrado de nações com menos poder financeiro e mediático. Em 2003-04, a última vez que um clube fora do top 5 ganhou o torneio, a esta altura da competição ainda havia duas equipas espanholas (Deportivo e Real Madrid), duas equipas inglesas (Arsenal e Chelsea), duas equipas francesas (Monaco e Lyon), uma italiana (AC Milan) e uma portuguesa (FC Porto). E mesmo esse ano foi considerado, pela imprensa em geral, o mais fraco da última década. Talvez, como disse antes, pelo peso mediático da imprensa inglesa, alemã, italiana ou espanhola que não viu nenhum dos seus clubes chegar a uma final inédita entre lusos e gauleses.

Se é provavel que a final de Munique se dispute entre dois potentados do Velho Continente (Barcelona ou Milan, Bayer, Real Madrid ou Chelsea), não menos verdade é que o torneio desta época deixou a nu a hipocrisia da maioria dos analistas que defende um regresso nostálgico ao passado e que, quando deparado com um torneio de características similares, opta pela critica fácil e incoerente. Tanto Benfica como APOEL ou Marselha fizeram méritos mais do que suficientes para chegar tão longe e os erros dos clubes de Manchester, de Valencia e Villareal, de Inter ou Dortmund não podem colocar em questão uma evolução legitima que a Champions tem vivido nos últimos anos. O futebol europeu é, cada vez mais, de todos os países da UEFA e cada vez menos um projecto similar á Euroliga que Florentino Perez e Uli Hoeness imaginaram há mais de dez anos. 

 

O modelo da Taça dos Campeões proporcionou duelos históricos, finais inesquecíveis e impediu grandes equipas de se medirem pelo maior torneio continental com maior regularidade. Mas durante os últimos vinte anos o futebol centralizou-se em demasia em meia dúzia de clubes todo-poderosos e esqueceu-se que é um bem colectivo de um continente que o organizou e apresentou ao Mundo. Com os milhões em jogo que, na realidade, sustêm essas máquinas de gastar dinheiro que são os clubes de top da Europa é inverosímil acreditar que a Champions League vive o seu ocaso desportivo. Mas as cirúrgicas alterações de um Platini oportunista mas equitativo trazem essa mais do que necessária viagem a uma era onde o dinheiro não era tudo e em que grandes equipas de pequenos países podiam sonhar com algo mais do que fazer seis jogos ao ano junto das elites. Esta Champions à moda antiga pode ser um breve parêntesis, mas também é um sinal de esperança.



Miguel Lourenço Pereira às 14:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 09.12.11

Numa semana em que a gestão da UEFA de Platini deveria estar debaixo de um sentido coro de aplausos, o organismo que gere o futebol europeu voltou a demonstrou o seu autismo na relação directa com os escândalos arbitrais que gerem a sua prova rainha. O apuramento "histórico" do Olympique de Lyon abre de novo as portas a todos aqueles que acreditam que a Champions League há muito que deixou de ser uma competição limpa.

No rescaldo da conferência de imprensa, a polémica conferência de imprensa, de José Mourinho depois da derrota por 0-2 diante do Barcelona, nas meias-finais da Champions League, um coro de virgens histéricas condenaram o técnico português por questionar a honestidade da UEFA. Defenderam que a prova europeia por excelência era mais limpa que um lençol por estrear e que só aqueles que viviam em cápsulas submergidas debaixo da terra podiam acreditar que os árbitros nomeados pela UEFA e a direcção do organismo, presidido por Michel Platini, tivessem alguma agenda escura com outros interesses por detrás. Claro que a Mourinho, sancionado por cinco jogos lhe retiraram um depois deste alegar, com provas na mão, toda uma colecção de erros intencionados que tiveram lugar na prova nos últimos cinco anos. O eco foi infinitamente menor mas deixou claro que a própria UEFA sabe com que teia se cose o seu grande troféu.

Esse mesmo coro talvez pense agora duas vezes depois de assistir a um jogo que nos faz voltar atrás no tempo, aos dias difíceis da ditadura militar argentina que, com o apoio de João Havelange, organizaram o Mundial de 1978. Na segunda fase de grupos - passo prévio à final - a equipa da casa, neutralizada pelo Brasil, precisava de vencer por cinco golos ao excelente Peru de Teófilo Cubillas. E venceu por seis. Num dos jogos mais tristes da história dos Mundiais ficou claro que tinha havido mais de uma mão a manobrar o resultado. Poucas duvidas ficaram também ao final dos 90 minutos de Zagreb e Amsterdam, por muito que Platini defende, uma vez mais, o indefensável.

Não está em causa a debilidade evidente demonstrada pelo Dinamo Zagreb - que contra o Real Madrid efectuou, em casa, um jogo impecável perdendo apenas por 0-1 - que ainda para mais não jogava nada a não ser a sua honra e prestigio. Nem sequer o potencial do Olympique Lyon, uma equipa com um historial europeu imaculado na última década e que, com este apuramento, consegue a sua nona classificação consecutiva para a próxima fase. E no entanto quando uma equipa necessita recuperar uma diferença de sete golos num goal-average para se qualificar e o consegue, o futebol entra numa espécie de twlight zone.

 

Nunca nenhuma equipa tinha marcado sete golos fora num duelo da Champions League.

Aliás, nunca nenhuma equipa tinha recuperado de um goal-averege desfavorável de quatro golos na última ronda, quanto muito sete, quase o dobro. E no entanto, ela move-se, pensaram os jogadores do Ajax quando souberam do que se passava à distância de um pesadelo. Claro que os holandeses sentiram na pele e em primeira pessoa o tratamento de luxo que a UEFA costuma aplicar nestes casos. Numa arbitragem lamentável, dessas que definem uma carreira, o árbitro português Jorge Sousa anulou dois golos perfeitamente válidos ao conjunto ajaccied que teriam significado, primeiro o empate a 1 e depois o 2-1 frente ao Real Madrid, versão low cost, que se apresentou no Arena. Um resultado que podia ter significado muito e que acabou por fazer muito mais sentido quando o outro duelo terminou.

Estes dois golos anulados que garantiram a validez de uma reviravolta a todos os títulos histórica e, sem nenhuma dúvida, suspeita desde o primeiro ao último segundo. O Zagreb, a tal equipa que não jogava nada mais que a honra, até ia a vencer por 1-0 ao intervalo, dando a entender que as contas do apuramento estavam fechadas a favor dos holandeses. Mas um piscar de olhos matreiro e sete golos em vinte e oito minutos (uma média de um golo cada quatro minutos) permitiram aos Gonnes relegar o tetracampeão europeu para a Europe League. Claro que poucos se lembraram que o clube croata já esteve sob suspeita em 2009 por vender o resultado num duelo também na Champions frente ao Arsenal. Ou que o seu presidente, o sempre polémico Zdravko Mamic, seja uma conhecida figura do submundo croata, ligado às máfias de Zagreb e a uma rede de apostadores ilegais que controlam todas as apostas desportivas do país. Talvez isso soe estranho a tantos, menos a Platini que chamado a intervir pelo Ajax se prenunciou, como sempre, a favor de respeitar com o que se passa no terreno de jogo, justificando mesmo a reviravolta dos seus compatriotas como uma consequência natural da imprevisibilidade que faz do futebol um desporto mágico.

E no entanto nunca ninguém logrou sequer algo similar ao conseguido por um Lyon que é, a todos os títulos, o mais fraco da última década. Não se tratam apenas dos sete golos marcados (algo que só o Liverpool, Valencia, Marseille, Arsenal, AS Monaco, Real Madrid e Juventus lograram nesta fase da competição) mas o time frame em que os eventos se desenrolaram. Dos dois golos anulados em Amesterdam ao séptimo, e decisivo tento, apontado em Zagreb vai meia hora. Nunca em tão pouco tempo se decidiu algo tão complexo. A atitude dos franceses lembrou, e muito, a dos alemães naquele mítico acordo de cavalheiros contra a Áustria em 1982. Não se tratou de um ou dois erros pontuais que podem passar em qualquer jogo (mas que nas provas da UEFA curiosamente passam sempre aos mesmos) mas sim de uma clara manipulação de resultados que pelo caminho deve ter feito alguns homens bastante mais ricos. Nas casas de apostas online o apuramento do Lyon era o mais improvável de todos aqueles ainda em disputa à entrada da última ronda. E claro, o que provocou mais dividendos.

 

Conhecendo a UEFA é fácil perceber que o dossier Zagreb-Lyon será guardado habilmente numa caixa de cartão, escondido na arrecadação da sede da organização e atirado para o esquecimento como tantos outros jogos suspeitos nas provas europeias. No final do ano poucos se irão lembrar deste curioso caso que no entanto deixa a nu a relação entre o organismo que gere o futebol europeu e o submundo que rodeia a sua principal prova. Os franceses seguem em frente, os holandeses têm forçosamente de se resignar e os croatas limitam-se a despedir um técnico condenado e a piscar o olho, de bolsos cheios. Ninguém, fora do mundo do futebol, tem legitimas dúvidas de que entre Zagreb e Amsterdam houve mais do que um jogo de futebol. Infelizmente por isso mesmo a UEFA Champions League continua o seu penoso via crucis, um caminho árido, triste e cinzento que desde a chegada de monsieur Platini tem levantado mais do uma boa suspeita.



Miguel Lourenço Pereira às 08:33 | link do post | comentar | ver comentários (12)

Terça-feira, 06.12.11

Seguramente que qualquer leitor do Em Jogo conhece James Will. Seguramente que muitos o viram jogar, a parar remates indefensáveis, a realizar defesas impossíveis no último minuto debaixo de um imenso temporal. Ou a comandar a área com a destreza dos mais hábeis e o espirito dos mais guerreiros. Seguramente que James Will é um nome tão familiar para qualquer um como seria Luis Figo...certo? Errado. James Will é o paradigma do erro, o exemplo da abordagem do futebol profissional ao futebol de formação que tem alimentado e destruido carreiras vorazmente durante os últimos 30 anos. Will é o anonimato da mesma forma que Figo representa o sucesso máximo. Cruzaram-se no caminho e pareciam ir por caminhos similares. Mas um continuou e o outro ficou para trás. E não foi o único.

Poucas pessoas realmente viram jogar James Will.

Uma das razões mais evidentes foi a curtissima carreira do jogador. E Will seria um de muitos anónimos que não singraram no jogo não fosse por um mero detalhe: em 1989 a FIFA achou por bem otorgar-lhe o prémio de Melhor Jogador do Mundial de sub-17, realizado na sua Escócia natal. Torneio que perdeu, na final, contra a Arábia Saudita. Nessa prova brilharam grandes futuros craques do futebol mundial como Fode Camara, Khalid Al Romahi ou Gil. Claro que, no meio deste talento que os olheiros da época se prestaram a encumbrar como estrelas futuras, havia um tal de Luis Figo, então ainda um mero júnior do Sporting CP que anos mais tarde se convertiria no simbolo do futebol mundial, depois de Florentino Perez fazer dele o primeiro "Galáctico". No dia em que assinou o contracto com o Real Madrid é dificil saber se algum dos anteriores jogadores ainda eram futebolistas profissionais. Will desde já não o era.

O guarda-redes escocês foi a grande figura do conjunto da casa e exibiu-se a alto nível. Mas nunca chegou a assinar um contracto profissional. Fartou-se das exigências do futebol de elite e seguiu a sua vida como policia de trânsito na sua pequena localidade. O futebol pode ter perdido um grande guarda-redes - como a FIFA sugeriu e muitos olheiros comprovaram - mas a sua experiência tornou-se no paradigma futuro de uma politica incapaz de entender as gigantescas diferenças entre o futebol de formação e o futebol profissional.

Com a globalização os clubes (e alguma imprensa) dedicam esforços à procura de prodigios cada vez mais precoces. Contratam jogadores imberbes, imaginam que em cada miudo de bairro está o próximo Messi e suspeitam a cada simples demonstração de talento os milhões que podem estar ali no futuro. E no entanto a maioria dos jogadores aos 17 anos (e aos 15 e aos 19) é um potencial Will mais depressa do que um potencial Diego Armando Maradona, que dez anos antes venceu o mesmo troféu que o escocês, mas que precisou de meia dúzia de anos para realmente "explodir" como futebolista.

 

A lista de "Wills" do futebol moderno não tem fim.

A cada torneio UEFA e FIFA surgem nomes que depois caem no esquecimento. Demasiadas expectativas, um torneio bom de um jogador com condições medianas, a performance colectiva capaz de exaltar o individuo, o peso do rival ou, simplesmente, a falta de comportamento profissional de um jogador que é ainda um miudo...tudo são factores que muitos esquecem na ânsia de ser os primeiros a descobrir a grande novidade a seguir. A maioria dos jogadores jovens sucumbem à pressão de serem exibidos como bandeiras. Muitos desistem como James Will. Outros são atraidos pelos milhões dos grandes clubes europeus para acabar por jogar em equipas de escalões inferiores, lamentando-se do que podia ter sido e não foi. E outros, pura e simplesmente, colapsam.

Arsene Wenger inaugurou a corrida às jovens promessas mundiais mas teve o savoir faire suficiente de seleccionar jovens que correspondiam a comportamentos padrão que definiam uma margem de sucesso considerável. Qualquer manager ou olheiro de elite sabe que um torneio curto é a pior forma de conhecer o valor real e potencial de um jogador. Normalmente aqueles que mais brilham neste tipo de competições são os que menos longe chegam como profissionais. Estrelas cadentes de um mundo sem perdão.

É no estudo continuado, na análise estatisticas de comportamentos, exibições e atitudes durante um largo periodo de tempo que se descobrem as verdadeiras pérolas do futuro. Muitos deixam-se levar pelo comportamento mediático das estrelas de domingo. Figo nesse torneio não brilhou talvez ao mesmo nível que Will. Mas profissionalmente a sua carreira foi ascendente, em todos os sentidos e beneficiou, de certa forma, dessa pressão ausente que sofreu o escocês e também nomes tão familiares como Nii Lamptey, Daniel Addo, Mohammed Kathiri ou Sergio Santamaria, todos eles detentores do mesmo troféu. Mesmo as consagrações de Landon Donovan, Sinama-Pongolle ou Anderson acabaram por ser mais prejudiciais do que benéficas para os jogadores e nos tempos recentes talvez só mesmo Cesc Fabregas (já então pupilo de Wenger) tenha escapado a uma maldição repleta de lógica e disfarçada de preconceito. O futebol de formação de hoje é cada vez mais uma escola de resultados e imediatismos. Os clubes e as federações procuram productos para vender agora e não estão dispostos a formar jogadores e profissionais para cinco anos. No último Europeu de sub-20 as selecções mais prometedoras, Espanha e Colombia, ficaram pelo caminho. E no entanto é fácil ver que daquele grupo sairão mais desportistas de elite do que das selecções finalistas, Brasil e Portugal.

 

A abordagem em modelos de jogadores mais fisicos e menos técnicos - e o caso francês é evidente - pode dar resultados no momento mas, a longo prazo, não dá frutos. Por cada Figo haverá sempre 100 James Will, jogadores de consumo imediato e precoce que, como as estrelas pop juvenis, se tornam em one hit artists superados facilmente pela fornada que vem já a seguir. O paradigma do erro, em que Portugal apostou recentemente, acreditando que o futebol de formação se faz de titulos e não da preparação de futebolistas de futuro não é caso único e no entanto não deixa de ser um erro repetido vezes sem conta. O projecto de formação do FC Porto, onde tanto dinheiro se investiu, foi coroado de titulos e no entanto não há a perspectiva de nenhum jogador da cantera estar agora ou no amanhã nos quadros da equipa principal. Se o sucesso espanhol mede hoje tudo, deveria ser óbvio para todos que apostar em futebolistas é mais rentável do que apostar em ganhadores, por muito que demore dez anos até que os génios de Xavi, Xabi Alonso ou Andrés Iniesta sejam devidamente reconhecidos. Pérolas individuais existirão como sempre, jovens potreros de bairro encandilarão olheiros atentos mas essa fome de descobrir the next big thing será sempre mais um handicap do que o caminho a seguir. O futebol de formação, como qualquer projecto educativo, precisa de tempo, espaço e ar para respirar. James Will sentiu na pele a asfixia de ter de ser alguém antes do tempo. Há 22 anos o paradigma do erro estava aí e poucos quiseram ver. Hoje há muitos como ele quando a sua história - e a de tantos outros - devia, a pouco e pouco, converter-se na excepção que faz a regra!



Miguel Lourenço Pereira às 14:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 15.09.11

O tornozelo a sangrar de Cristiano Ronaldo tornou-se na triste imagem da semana europeia. Traços de um jogo que se metamorfoseou nas últimas duas décadas para acabar com a repetição de imagens como esta mas que, no caminho, se transformou em mais um choque de egos, entidades e maneiras de ver o jogo. Os artistas reclamam mais protecção, os puristas defendem a essência milenar do jogo e Platini falou em proteger, talvez exclusivamente, a Messi. Os protegidos do futebol são, cada vez mais, os alvos a abater.

Ronaldo é um tipo polémico por essência.

Tem esse condão de cair mal a quase toda a gente menos à sua mãe e à namorada de turno.

Acontece. Como ele muitos antes. Como ele muitos depois. Maradona não andou longe, quem aguentava Hugo Sanchez e Romário, que dizer de Oliver Kahn ou Steffen Effenberg e como se lembram hoje as pessoas de figuras como Eric Cantona ou Bernd Schuster?

Para Cristiano Ronaldo isso não seria problema, certamente, não fosse por esse tornozelo sangrento. Um tornozelo cosido no balneário do Dynamo Zagreb com três pontos e que o impedirá de jogar, como mínimo, a próxima semana. Um tornozelo, claro, que sofreu as consequências de um jogo duro e permissivo do meio campo da equipa croata (que fez uma excelente exibição, deixando um superior Real Madrid à beira de um ataque de nervos). E que se tornou a imagem perfeita para esta luta dos protegidos do futebol.

Desde há vários anos para cá que se formou uma corrente pública que defende que os principais artistas do jogo - os que fintam, os que decidem, os mais bem pagos, ou seja, os que vendem - sejam considerados espécie à parte. As televisões, em primeiro lugar, sabem que se um jogador como Ronaldo, como Rooney, como Messi ou como Ribery se lesionam, as audiências baixam. As marcas que os apoiam também sofrem quando o seu producto estrela andante está sentado com o pé, o braço, o tornozelo ou o joelho entre algodões. Da preocupação financeira passou-se à persuasão da opinião pública, habituada a que os grandes sofressem na pele o peso da sua grandeza. A Maradona partiram-lhe a perna sem dó nem piedade. Eusébio, Pelé, Di Stefano, Cruyff, van Basten, Muller, Best, Rummenige, Ronaldo, Platini ou Laudrup sofreram algumas das mais brutais marcações de que há memória. Batistuta mal pode andar como consequência do estado dos seus joelhos depois de tantas lesões. E o público (e os jogadores, e os dirigentes) achavam a situação normal. Nunca ninguém ponderou essa protecção extra que talvez tivesse tido influência em momentos chave na história do jogo.

 

Essa politica de protegidos tem uma inspiração financeira, não cabe dúvida. Mas está respaldada por uma sociedade desportiva diferente há que subsistiu até aos anos 90. Hoje o espectador de estádio é um espectador de sofá e quer ver o melhor sempre. Não tem paciência para os códigos deontológicos de um jogo que começou como um conflicto quase tribal e que se desenvolveu durante o século XX como um desporto duro, mas leal. Hoje a dureza é contestada à mínima e a lealdade questionada em todos os momentos.

A FIFA e a UEFA, atentas à direcção para onde sopra o vento, fizeram eco desta nova dinâmica social e ainda este ano Michel Platini teve a audácia de reclamar aos árbitros protecção especial para Leo Messi. Pensaria só no argentino, reconhecidamente o seu jogador preferido. Pensaria em vários artistas usando o jogador do Barcelona como cabeça de cartaz? As palavras podem ser interpretadas de muitos sentidos mas o que é certo é que para a UEFA e para a FIFA há protegidos e protegidos.

Para muitos é uma questão de compleição física. Jogadores fisicamente mais bem preparados são ignorados pelo árbitro. Para outros é uma questão de carácter de quem sofre a falta e que antes dos lances já tem um historial de polémica com este ou com outro árbitro. A verdade é que o que sucedeu ontem em Zagreb não é novidade nem deixará de o ser. Principalmente porque é evidente que há jogadores (e clubes) cujos problemas institucionais com o organismo máximo do futebol europeu passam factura em momentos escalofriantes como se viveram ontem. O grito de Ronaldo quando sofreu a brutal entrada de Leko ouviu-se nos quatro cantos do Velho Continente. E no entanto o árbitro norueguês Oddvar Moen (que esteve correcto em quase tudo o resto, incluída a expulsão de Marcelo) olhou para o lado mesmo quando o sangue empapava a fita branca que rodeava uma meia vermelha, talvez prenúncio do que se viveria. Como é possível que um jogador a sangrar - prova mais clara, impossível - não suscite o minimo interesse da figura que coordena um jogo de alto nível só é explicável por esse conceito de "protegidos" de diferentes categorias que manejam organizações como a UEFA.

Ronaldo já sofreu na pele, há duas épocas, contra o Olympique Marseille, a dureza dos rivais e a impunidade outorgada pela UEFA. A mesma que apoia expulsões a jogadores que chutam bolas depois do apito, a árbitros que se queixam de situações e até mesmo a jogadores que nem tocam no rival antes mesmo de que qualquer choque se produza. Essa dualidade de critérios pode ser debatida até ao ponto em que um tornozelo a sangrar entra em cena. Ninguém duvidou quando Maradona rebolava pelo Camp Nou depois da brutal entrada de Goikotxea. Ninguém olhou para o lado quando Zidane agrediu Materazzi na final de um Mundial. E ninguém vê um jogador entrar de forma mais dura sobre Messi, Xavi ou Iniesta sem sofrer uma duríssima admoestação. No entanto jogadores como Wayne Rooney, Frank Ribery, Zlatan Ibrahimovic, Hulk, Bastian Schweinsteiger (trucidado por um Marchena expulso (só) à sétima falta consecutiva no duelo de ontem) e o próprio Ronaldo, apesar de artistas da bola, não entram nesse leque eleito pela UEFA e consagrado pelas arbitragens nas provas europeias dos últimos anos. Mais ainda, as palavras do extremo português, de longe o jogador menos querido pela UEFA de Platini,  podem valer-lhe a ele uma suspensão. Enquanto isso Leko, que já foi um bom médio e que agora se arrasta, penosamente, pelo campo, poderá jogar contra o Lyon sem reservas ou recriminações.

 

Quando o futebol se joga na rua não há protegidos. Quando o futebol se joga nos escalões de formação também não. Durante quase um século anónimos gladiadores e estrelas globais sofreram o mesmo trato (que o diga Ronaldo Nazário ou Diego Maradona, por exemplo) e poucas vozes se levantavam em contra. O poder do dinheiro mudou o rosto do jogo de muitas formas e esta politica de protegidos é só mais um espelho desse apetite voraz de espectáculo de elites onde há intocáveis milionários e jogadores de segunda e terceira. Mas essa mutação até podia fazer sentido, no contexto actual, se fosse extensiva a todos os jogadores de elite. E não apenas a uns poucos. A impunidade da acção de Leko sobre Ronaldo além de grave é reincidente e, sobretudo, um convite a que para lá dos gritos, insultos e provocações, o jogador do Real Madrid (como Rooney, como Ribery, como Sneijder...) se torne num alvo claro de jogadores que encontram no golpe a única forma de quebrar o talento. Ronaldo tornou-se no anti-futebol para a esmagadora maioria dos adeptos e das instituições, de árbitros a dirigentes. No lado oposto do espelho Messi continua a ter carta branca, ditada pelo próprio presidente da UEFA e confirmada por três anos de arbitragens europeias de penoso nível, para escapar aos mais duros do jogo. Uma dualidade que só faz sentido num mundo bipolar e profundamente inclinado como o que vive hoje o futebol europeu, um futebol que oscila entre carniceiros da velha escola e génios com escolta policial.



Miguel Lourenço Pereira às 11:13 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Sexta-feira, 09.09.11

Durante largos anos o Europeu de Futebol foi considerado de forma unânime como a mais complexa e dificil competição de selecções. Este Junho isso sucederá pela última vez. As habituais manobras politicas de Michel Platini garantem que a partir de 2016, e do "seu" Europeu, nada voltará a ser como dantes no futebol internacional europeu. Mas é mesmo este tipo de Europeu que queremos?

 

Durante década e meia aos Europeus de futebol iam apenas as selecções de elite, o top 8 que representava la creme de la creme do futebol europeu.

Por isso equipas como Inglaterra, Espanha, França, Itália, Holanda, Portugal ou URSS eram, de tempos a tempos, ausências sonantes. Não havia espaço para todos. A queda do muro de Berlim e o desmantelamento da Europa de Leste quase que duplicou as associações federadas na UEFA e Leonardt Johansson percebeu que era inevitável aumentar o número de equipas na fase final do torneio. Inglaterra 96 abriu as hostilidades e de um total de 52 federações sairam 16 finalistas. Um número que duplicava o modelo anterior mas que, mesmo assim, garantia que o futuro podia albergar sempre uma que outra ausência surpreendente. Que o digam os ingleses (2008) ou os russos (2000).

Este modelo agradou a tudo e todos. As televisões agradeceram o aumento do número de jogos e receitas com a publicidade. Os paises organizadores o número de visitantes e as federações a possibilidade de aceder a uma prova habitualmente exclusiva da máxima elite europeia. Todos estavam de acordo que, num leque de cinco dezenas de países, este era um número que permitia filtrar muitas selecções que não faziam mais do que número na própria fase de qualificação para o torneio.

Mas esse modelo que tanto sucesso logrou nas suas quatro edições (falta a quinta, este Verão) tem as horas contadas. Graças a monsieur Platini, claro. O presidente da UEFA trazia esta ideia no bolso e defendeu-a durante a campanha eleitoral da sua surpreendente vitória há quatro anos atrás. Uma vitória conseguida graças aos votos dos países pequenos e médios que em troca pediam mais protagonismo. A primeira decisão foi ampliar o leque de equipas nas provas europeias para esses países. A segunda foi reformular o aclamado modelo dos Euros.

 

A táctica é velha. Platini aprendeu com Blatter, maestro neste tipo de jogadas.

O suiço era o braço direito de João Havelange quando este precisou dos votos das confederações mais pequenas nas eleições de 1978 para  manter-se no alto cargo da FIFA. A decisão de Havelange foi simples. Ampliar o Mundial de 16 para 24 países, distribuir vagas entre africanos, centro-americanos e asiáticos e reequilibrar a balança de poder das potências europeias, sempre desconfiadas do poder crescente do brasileiro. Em 1994 Josep Blatter repetiu a jogada, com o apoio do presidente ainda em funções, e patrocinou a ampliação do Mundial de França para 32 selecções. Platini, responsável pela organização do evento, passou a ser o homem de confiança do suiço depois do torneio e durante anos prepararam em conjunto o assalto do gaulês à sede da UEFA. A táctica preferida de Platini foi posicionar-se junto das federações sem poder histórico - quase todas apoiavam Johansson de forma categórica - mas cujos votos somados podiam fazer a diferença. E aí se começou a desenhar o novo modelo do torneio.

Depois de vencer as eleições o gaulês conseguiu fazer com o Europeu o mesmo que com a Champions League, agradar a gregos e troianos. Depois de patrocinar um Europeu nos emergentes países do leste, entregou o torneio seguinte de bandeja à sua França natal (contra a candidatura turca, favorita, a quem tinha prometido apoio na sua pré-campanha, e a italiana que apresentava argumentos mais sólidos que os franceses) enquanto piscou o olho aos mais pequenos anunciando a passagem a um modelo de 24 equipas. Um modelo que funcionou em quatro Mundiais e deu mais de um quebra cabeças à FIFA. Implica a criação de seis grupos de quatro em que se apuram para os Oitavos de Final (uma novidade) os primeiros, segundos e os quatro melhores terceiros. Muitas contas, muitos dramas e, sobretudo, muitas jogadas de bastidores (como a do mitico Alemanha-Austria de 1982) esperam os adeptos de futebol daqui a cinco anos. Mas, sobretudo, muda por completo a natureza do torneio.

Actualmente a UEFA conta com 53 associações onde se incluem países como Lieschenstein, Andorra, San Marino, Malta, Luxemburgo, Azerbeijão.. Isso significa, grosso modo, que metade dos países que hoje disputam as vagas de forma apaixonante até ao fim, estarão na prova. Basta olhar para o quadro actual das equipas que lutam para ainda marcar passagem para o torneio realizado na Ucrânia e Polónia. O sistema de qualificação permitiria a qualificação de todas as equipas em primeiro, segundo e terceiro lugar nas fases de qualificação. Isso incluia Bélgica, Arménia, Estónia, Bósnia Herzegovina, Israel, Hungria, Noruega, Escócia, Montenegro, Irlanda, Sérvia, Dinamarca, Républica Checa, Roménia, Suiça ou Grécia. Países que, agora, entre eles, disputam apenas três vagas.

Se haverá quem defende que uma maior abertura a nações com menos história mas com uma imensa ilusão de marcar presença nestas provas só pode beneficiar o futebol europeu, haverá quem relembre que presenças surpresa como as da Letónia em 2004, Escócia em 1996 ou as anfitriãs Bélgica (2000) e Austria (2008) deixaram evidente que há uma clara diferença entre a primeira e a segunda divisão europeia...quanto mais com a terceira. O torneio passará a sofrer do mesmo estigma dos Mundiais, com uma primeira fase sem grande tensão (mas com muita polémica garantida) e os jogos mais significativos guardados para o final. Platini importa-se pouco com os adeptos e muito com a sua popularidade junto daqueles que garantiram agora a sua renovação. O torneio garantirá mais beneficios às empresas que vivem do futebol, trará mais emoção a países historicamente deslocados do eixo central do futebol europeu e, sobretudo, fará da fase de qualificação um mero trâmite para o top 12 dos países europeus (que também agradecem). No meio quem perde é o futebol. A exigência e paixão de uma competição intensa e imprevisivel desde o primeiro dia desaparece. Algum dia poderá haver um Europeu com 32 equipas, com 20 automaticamente qualificadas por posição no ranking? Não se surpreendam!


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Miguel Lourenço Pereira às 12:04 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 06.08.11

Em Pristina estão cansados de esperar. Mais de dois anos depois continuam num beco sem saída. A bola não rola, espera pacientemente uma decisão. Depois de tantos nãos, esperar é mesmo tudo aquilo que têm. O Kosovo quer ser independente. Os kosovares querem jogar futebol. Com a sua bandeira ao peito. A FIFA e a UEFA dizem que não é a hora mas a bola está farta de esperar...

Em Fevereiro de 2008 o Kosovo declarou unilateralmente a independência da Sérvia.

Foi, talvez, o derradeiro capitulo de um conflicto nos Balcãs com 17 anos de história. A Sérvia, destroçada por dentro depois de tantas guerras e sanções, fez um ultimo esforço diplomático e rejeitou aceitar a existência dessa República do Kosovo. Por uma vez o Mundo teve paciência e decidiu ouvir Belgrado antes de tomar uma decisão. De tanto ouvir as palavras ficaram presas no ar e a rápida decisão prometida pela ONU eternizou-se. E eterniza-se ainda hoje para desespero dos quase dois milhões de kosovares. O país não conseguiu a unanimidade necessária para ser considerado oficialmente um país - que conceito mais repelente esse de depender da vontade alheia para ser alguém - e procurou desfraldar a recém imaginada bandeira por outra via. O futebol, como sempre, era o caminho mais rápido. E eficaz.

Um mês depois da declaração unilateral representantes kosovares apresentaram-se na Suiça para convencer os executivos da FIFA e da UEFA a deixá-los entrar nas suas "célebres" familias. Futebolisticamente o Kosovo pertence à última divisão europeia, a mesma por onde andam as Ilhas Faroe, Malta, Lieschtenstein ou São Marino, por exemplo. Só um clube kosovar, o FC Pristina, passou pela primeira divisão sérvia. A maioria dos jogadores que podiam fazer parte de uma hipótetica equipa nacional kosovar estão divididos entre Albânia, Finlândia ou Suiça. E nenhum deles mostrou um exacerbado patriotismo que os fizesse sequer considerar a possibilidade de abdicar das regalias que têm hoje para cantar o novo hino nacional. A sua estrela mais cintilante, Lorik Cana, jogador da Lazio joga actualmente pela Albânia e não parece ter pressa para mudar. Ele, como muitos, vive também na sua encruzilhada particular.

 

Blatter e Platini foram peremptórios. Enquanto o Kosovo não for reconhecido pela ONU os kosovares têm de pensar noutras opções para jogar futebol. Oficialmente eles são uma não-nação, seja lá o que isso for. Irritar os russos e espanhóis é um preço que os dirigentes desportivos não estão dispostos a pagar. Os kosovares não têm culpa, afinal às restantes repúblicanas balcânicas houve até uma pressa ensurdecedora para dizer que sim antes do tempo. Eles pagam a factura de tempos pretéritos e sensibilidades agudas.

Mas a federação kosovar não desistiu. Os contactos com a Albânia, o país que mais apoiou o recém-constituido estado kosovar, levaram à realização do primeiro jogo amigável - que não oficial - para a selecção do Kosovo. Claro que os albaneses ganharam (3-1) mas isso importava muito pouco. Mas, mesmo assim, o Kosovo continuou a ser visto por tudo e todos como um desses estados malditos condenados a jogar entre si vezes sem conta. Estados como o Chipre do Norte, Monaco, as comunidades autonómicas espanholas, Sapmi, Greenland, Crimeia, Padania, Ocitânia, Gibraltar ou as ilhas de Man e Guernsey.

No último ano e meio os kosovares têm tentado organizar amigáveis com a maioria das federações mas a complexa situação politica tem sido, até a esse nivel, um sério impedimento. O apoio da Arábia Saudita (o Kosovo, como a Albânia, é um país iminentemente muçulmano) e da comunidade emigrante na Suiça deram a possibilidade ao seleccionador Albert Bunjaku de começar a fazer rodar alguns dos jogadores que decidiram assumir a sua condição de kosovares desde o principio. Jogadores como o guardião do Novara, Samir Ujkani, o lateral do Tottenham Ajet Sehu ou o médio do Hannover 96, Valdet Rama, jovens promessas que há dois anos teriam sido repescadas pelas selecções dos países onde cresceram (e o caso albanês continua a ser o mais evidente) e que agora começam a desenhar o futuro do futebol kosovar.

 

Parece impossível que o Kosovo possa estar na linha de partida para a qualificação para o Europeu de 2016 em França. Os timings das principais instituições não facilitam e a burocracia a essas estâncias é ainda mais gritante. Mas o sonho do futebol kosovar está bem vivo. Uma nação que espera por um milagre para não cair no esquecimento a que o futebol internacional muitas vezes devota os países de onde não saem os Messis do futuro.



Miguel Lourenço Pereira às 09:59 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Terça-feira, 21.06.11

Champions League e Europe League, essas são fáceis. Também já devem ter ouvido falar da Supertaça Europeia e dos torneios de selecções, desde o Europeu para graúdos até às provas dos mais pequenos. Mas a UEFA tem uma competição europeia de que poucos ouviram falar. E que vai disputar-se em solo português a partir de hoje no Minho. A Taça Europeia das Regiões permite imaginar o futebol como outrora foi num ano de festa para o futebol minhoto.

Em 1996 a UEFA decidiu criar o primeiro Campeonato da Europa de Futebol Amador.

Desde os anos 70 que não existia um torneio oficial europeu que colocasse frente a frente equipas amadoras. O crescente profissionalismo rasgou por completo o ideário original do jogo e na década de 70 não subsistia na Europa uma liga exclusivamente dedicada a equipas amadoras. O torneio perdeu interesse e assim foi durante os vinte anos seguintes. No entanto, depois do Euro 96, a UEFA foi confrontada com a petição de várias organizações amadoras para potenciar um evento continental que devolvesse um pouco do protagonismo às equipas fora do espectro profissional. O torneio demorou três anos a acontecer. A grande dificuldade que a UEFA encontrou foi o formato a aplicar.

Inicialmente um torneio de clubes amadores, a ideia rapidamente perdeu força porque existia um crescente desequilíbrio entre os inscritos, maioritariamente representantes britânicos. Foi então que alguns dos directivos de Lennardt Johanssen propuseram a criação de um torneio de selecções nacionais, representadas por conjuntos regionais. A ideia foi bem aceite pelas federações nacionais e finalmente em 1999 o torneio teve lugar em Itália. Para representar os transalpinos a Federação Italiana criou um torneio de duas semanas. Saiu vencedora a região de Venetto que organizou e venceu o torneio frente aos espanhóis da Comunidade de Madrid. O sucesso da prova - com mais de 32 inscritos - garantiu que dois anos depois os melhores amadores da Europa se voltassem a encontrar, desta feita em terras checas Por essa altura a UEFA tinha alterado o critério de inscrição. Cada associação apresentava o conjunto que representava a região que tinha ganho o torneio nacional doméstico de futebol amador. No caso de não existir um torneio oficial como tal, era obrigatória uma ronda preliminar, supervisada pela Federação nacional, para dictar o representante oficial na prova. O torneio de 2001 disputou-se na Morávia e uma vez mais a equipa da casa triunfou, desta feita sob o conjunto representante do futebol amador português, a equipa de Braga.

 

Dez anos depois a cidade dos Arcebispos volta a fazer história no historial do torneio amador.

O jogo inaugural da edição 2011 arranca no Estádio 1º de Maio, antigo recinto do Sporting de Braga e hoje utilizado essencialmente por formações amadoras. Mas os jogos serão igualmente disputados noutras cidades minhotas. O Grupo A, que conta, para lá do conjunto bracarense, com os checos de Zlin, os alemães de Wurttemberg e os ucranianos da zona de Yednist, joga igualmente em Barcelos, Vila Verde e Fão. Os portugueses são favoritos para passar, como é habitual entre as equipas da casa, e seguir para a fase seguinte, a antecipada final. Do outro lado da poule de apuramento, o Grupo B inclui uma selecção do sul da Rússia, uma equipa dos arredores de Belgrado, um conjunto exclusivo da capital turca Ancara e um representante da região de Munster na Irlanda.

Se os bracarenses conseguiram o apuramento automático quando a UEFA anunciou, em 2009 o organizador da 7º edição do torneio, as restantes sete equipas tiveram de ultrapassar uma dupla fase de apuramento, resultado da crescente popularidade do torneio no Velho Continente.

Portugal foi inicialmente representado pelo Algarve, em 1999, uma equipa que não passou a fase preliminar, resultado que repetiu em 2003. Depois do brilharete do conjunto colectivo de Braga em 2001 o melhor resultado de um conjunto português foi conseguido pela equipa de Aveiro, terceira no Europeu de 2007. Para trás ficaram as eliminações precoces dos conjuntos de Portalegre e Braga em 2005 e 2009. É a terceira fase final para um conjunto luso e também o regresso do torneio ao sul da Europa desde a edição inaugural.

Desconhecido para o grande público, os organizadores do evento esperam atrair mais público do esperado com o apelo dos sucessos do Sporting de Braga nas últimas épocas para apoiar a equipa local. O conjunto orientado pelo ex-internacional Dito não utilizará o símbolo da FPF, afinal este torneio nacional está disfarçado como um torneio regional, mas certamente que tentará lograr um feito histórico para o futebol português, mesmo que seja ao nível do futebol amador. Afinal a magia do futebol amador tem o seu encanto. Que o diga Tony, que marcou presença na final de 2001 do torneio ao serviço da equipa de Braga para mais tarde ser repescado profissionalmente pelo Desportivo de Chaves. Em 2008, sete anos depois de se ter afirmado como um dos melhores futebolistas amadores europeus, cumpriu o sonho da sua carreira e disputou pela primeira vez a Champions League, ao serviço do Cluj. Foi o fechar de um ciclo perfeito, um ciclo que muitos dos atletas presentes neste torneio sabem que é muito complicado de repetir. Mas às vezes basta deixar cair o muito da frase, para ela ganhar outro sentido. E outra esperança!

 

Até aos anos 50 o futebol amador era, ainda, o motor do futebol europeu. À medida que o profissionalismo se tornou inevitável a atenção e curiosidade à volta dos amadores foi-se esmorecendo a ponto de que muitos nem sequer imaginam que exista uma competição internacional destas características. Certamente que em campo não se verá nenhuma cena que relembre o glamour dos grandes torneios da UEFA, nem os gestos técnicos de Messi, nem os ajustes tácticos de Mourinho. Mas a ilusão e diversão que o futebol amador consegue reproduzir permite-nos embarcar numa cápsula do tempo e contemplar o jogo, tal como era, quando tudo começou.



Miguel Lourenço Pereira às 11:08 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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