Segunda-feira, 25.08.14

Num país onde os jogadores criativos eram olhados com sérias suspeitas, foram heróis sem glória. Durante uma década ofereceram o lado mais irreverente e artístico do futebol alemão mas a história deixou-os para um segundo plano. Assistiram ao final da era dourada do futebol germânico e deixaram no relvado a esperança de uma renovação que demorou uma década a fazer-se realidade.

Os anos 90 foram, talvez, a nível de resultados, uma década inesquecível para a selecção germânica. Igualou o registo de finais e títulos conquistados nos gloriosos anos 70. Começou a década com um Mundial e no meridiano dos anos 90 conquistou o seu terceiro Europeu, deixando para trás uma final inesperadamente perdida contra a Dinamarca. E no entanto, quando a década chegou ao seu final, o futebol alemão preparava-se para despertar de uma longa festa com uma dor de cabeça que nenhuma aspirina, por si só, era capaz de curar.

Os problemas, de natureza diversa, congregaram-se no tempo e no espaço para provocar uma depressão que durou quase uma década. Foi o tempo da Alemanha repensar a sua própria abordagem ao futebol. Devolveu-se o jogo aos adeptos, baixaram os preços, renovaram-se os estádios a pensar no Mundial de 2006, apostou-se na formação definitivamente, com a integração progressiva de minorias étnicas e controlaram-se as contas dos clubes com precisão teutónica. Sobretudo, devolveu-se o protagonismo aos artesãos  aos génios do meio-campo que tinham sido praticamente relegados para um segundo plano emocional nos anos de glória do futebol alemão.

O abandono definitivo do libero, a passagem progressiva do 3-5-2 para um modelo mais adequado às exigências do futebol moderno trouxe consigo uma nova estirpe de jogadores. Mas a sua influência vinha de atrás no tempo. Durante anos eles foram os heróis silenciosos dos triunfos da Mannschafft. Os heróis da imprensa e do público ora manobravam a bola desde a linha mais recuada, ao melhor estilo de Beckenbauer e Mathaus, ora decidiam jogos com golos oportunos e determinantes, de Muller a Rummenigge, de Hrubesch a Klinsmann. Mas era no meio do terreno que se coziam as vitórias, onde habitavam os génios malditos do futebol alemão.

 

Durante pouco mais de uma década, deambularam pelos relvados europeus, jogadores atipicamente germânicos. Capazes de improvisar, de procurar no toque curto a resposta à equação de espaços. Jogadores fisicamente pouco imponentes, tacticamente sábios e filosoficamente rebeldes. Os adeptos europeus tinham na memória, vagamente, as genialidades de Netzer e Schuster, mas em ambos os casos, o seu génio individual tinha sido sacrificado em prole do colectivo e de jogadores capazes de percorrer mais kilómetros sem a bola do que com ela, capazes de ocupar os espaços antes que criá-los. Lothar Mathaus, consagrado definitivamente no Itália 90, foi o exemplo perfeito desse todo terreno alemão que fez escola no futebol continental.

Enquanto isso, ao seu lado, gravitavam ao seu lado actores secundários com um papel fundamental na narrativa. De Thomas Hassler a Andreas Moller, passando por Steffen Effenberg e Mario Basler, o futebol alemão da complexa década de 90 teve os seus idolos quase anónimos para o grande público, o mesmo que aplaudiu a coroação de dois médios como Mathaus e Sammer, com funções primordialmente de contenção, como génios superlativos. Ambos estiveram por detrás dos dois triunfos internacionais alemães da década, mas não estavam sozinhos nessa cruzada. Entre eles somam mais de 220 internacionalizações pela selecção alemã, episódios de uma era de interrogantes. Estiveram nos momentos de consagração mas também (des)apareceram no sol californiano dos Estados Unidos, em 1994, e do França 98. Quando em 2000, a Alemanha acabou o grupo da morte do Euro 2000 em último lugar, por detrás de portugueses, romenos e ingleses, sem pena nem glória, foi sobre eles que caiu o peso da crítica quando nunca antes lhe tinham sido entregues as coroas de flores da glória.

Hassler e Moeller eram os perfeitos estranhos na equipa que Beckenbauer levou ao título mundial, em 1990, e que realizou um excelente Europeu, dois anos depois na Suécia, apenas para cair na final. Jogadores capazes de romper os espaços em velocidade, com uma visão de jogo perfeita, aproveitavam o trabalho e a presença de Mathaus no miolo para mover-se com a liberdade que necessitavam para explorar todo o seu potencial. Tal como a maioria dos grandes jogadores europeus da época, atingiram o pico individual a jogar na exigente liga italiana e demonstraram mais tarde no futebol alemão, o primeiro com o Karlsruher e o segundo com o Dortmund, que eram lideres naturais dentro e fora de campo. Foi sobretudo graças a eles que a Alemanha superou a mediania do Euro 96 para sagrar-se campeão da Europa apesar dos louros terem sido divididos publicamente entre os golos oportunos de Bierofh e o trabalho defensivo de Sammer. Espelho de velhos relatos.

Basler e Effenberg eram jogadores malditos antes da glória ter aparecido à sua porta. Curiosamente, protagonizaram a fábula mais trágica da história do futebol bávaro, no relvado de Camp Nou numa noite de Maio de 1999. Eram os génios que faziam mover a máquina do Bayern Munchen que venceu uma Champions League em 90 minutos para depois perdê-la em 180 segundos. Dois anos mais tarde tiveram direito a desforra, mas foi um prémio de consolação para quem tinha chegado já ao ocaso definitivo da sua carreira. Sem terem sido tão influentes no jogo da Mannschafft como Hassler e Moeller, foram dois elementos importantes na narrativa histórica desse período. Effenberg pagou o preço de ser a reencarnação de Schuster, passando quatro longos anos afastado da selecção pela sua atitude rebelde, enquanto Basler foi forçado a viver na sombra de um Sammer reconvertido em herói depois de um Euro 96 que ninguém esperava.

 

Quando a carreira deste quarteto de ases chegou ao fim, curiosamente o futebol alemão notou-o profundamente. A meados da década de 90 já eram todos veteranos de mais de 30 anos e nos torneios seguintes mostraram-se incapazes de aguentar o ritmo dos seus rivais, mais jovens e ambiciosos. Mas não havia substitutos à altura e o seu mandato prolongou-se no tempo. Quando finalmente pareceu desenhar-se uma dupla de sucessor, o jovem Sebastian Deisler não aguentou a pressão e o promissor Michael Ballack preferiu tornar-se numa réplica de Matthaus abdicando das condições técnicas que o faziam ideal para ser o sucessor moral de Moeller e Hassler.

A Alemanha penou durante quase uma década até que o novo sistema táctico, treinado desde as categorias base, permitiu ao clubes colher uma seiva de novos talentos, os Ozil, Reus, Gotze e Muller que estão chamados a ser os máximos protagonistas desta década. Mas, desta vez, os heróis dos adeptos e da imprensa alemã deixaram de ser Khedira e Gomez, mas sim estes génios individuais, criativos e imprevisíveis  génios que deixaram para trás o rótulo de malditos que a geração magnifica da década de 90 teve de suportar enquanto o futebol alemão pensava que a época de glória ia durar para sempre.


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Miguel Lourenço Pereira às 22:24 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 25.03.14

Em 1976 o Real Madrid foi campeão de Liga perdendo os dois jogos com o Barcelona. A equipa blaugrana, alimentada por um inconstante Cruyff, foi demasiado irregular para capitalizar a sua superioridade em campo. Quase quarenta anos depois a situação pode repetir-se. O Barcelona foi superior ao rival histórico, operando uma das mais memoráveis reviravoltas da história dos Clássicos. A incapacidade preocupante do Real Madrid de Ancelotti em ganhar a rivais directos deixa de ser um problema com um calendário mais acessível que os rivais. Ironias do destino.

Desaparecido à um bom punhado de Clássicos, Lionel Messi montou o seu show pessoal num dos estádios onde é habitual ser mais eficaz.

A exibição galáctica do argentino é uma grande noticia. O "Diez" do Barcelona parece recuperado dos problemas físicos que o mantiveram fora dos relvados nos últimos meses. Sem estar ao seu melhor, Leo foi decisivo. Não tanto pelos golos - dois deles em grandes penalidades marcadas de forma perfeita - mas pelo dinamismo que deu ao ataque blaugrana. Uma brilhante assistência para o golo inaugural. A troca de bola dentro da área com Neymar que permitiu o empate. O passe espantoso para o brasileiro, segundos antes deste chocar contra um Sérgio Ramos anedótico. Tudo isso ajuda a entender bem a sua importância no modelo de jogo do gigante catalão. Sem Messi durante várias semanas, a equipa de Martino ainda assim consegue estar a um ponto do topo da tabela classificativa. Um exercício de colectivismo mais do que interessante. Mais do que esquecido. Messi foi o rei e senhor do Bernabeu com um jogo autoritário e incisivo. Mas salvo Neymar - a anos-luz do seu melhor e titular, no lugar de Pedro, provavelmente mais por questões politicas que desportivas - a exibição colectiva do sector medular e de ataque dos blaugrana foi exemplar. Sobretudo a de Andrés Iniesta.

O manchego foi fundamental na forma como o jogo do Barcelona rompeu as linhas montadas por Ancelloti. Engoliu literalmente o "verde" Carvajal uma e outra vez. Apontou um primeiro golo tremendo e sacou do nada um penalty perfeitamente evitável, especialmente para alguém tão habituado a mil batalhas como Alonso. Durante os restantes minutos o homem que deu aos espanhóis a alegria das suas vidas venceu o seu duelo particular com o jogador mais em forma dos merengues em 2014, o croata Modric. Foi uma luta de titãs. Mais do que um duelo Messi-Ronaldo (desta vez, não chegou a haver realmente duelo) o jogo decidiu-se com a superior influência de Iniesta. O modelo de jogador guardiolano a manter de pé as variantes de Martino e o génio individual de Messi.

 

O Real Madrid conseguiu algo espantoso. Por duas vezes deu a volta a um marcador adverso. E conseguiu perder o jogo.

O que no reinado de Mourinho era impensável, com Ancelotti torna-se habitual. O italiano não ganha ao Barcelona há dez anos. Esta época perdeu ou empatou todos os jogos importantes da liga. Duas derrotas com os catalães, uma derrota e um empate com o vizinho do Manzanares e um empate em San Mamés. Zero vitórias no top four é algo verdadeiramente preocupante. E, ainda assim, os madrilenos dependem de si para ser campeões. A regularidade nos restantes duelos tem servido para a equipa da capital tapar as suas deficiências nos jogos a sério. Ronaldo, depois do mais do que merecido Ballon D´Or (se colocamos a Ribery fora de equação), baixou o seu nível de participação colectiva. Continua a marcar porque não sabe fazer outra coisa. Mas o seu jogo associativo tem decrescido e a equipa ressente-se. Bale, autor de algumas excelentes exibições, foi uma nulidade e notou-se a falta de Jesé, um jogador que podia ter sido fundamental para aproveitar as eternas deficiências defensivas dos blaugrana. Que o Real tenha marcado três golos (podiam ter sido mais) só é possível porque o Barcelona continua a ser uma equipa incapaz de solucionar os seus problemas defensivos. É a grande interrogação para os grandes duelos europeus que se avizinham contra equipas mais organizadas que o Real Madrid.

A péssima exibição de Carvajal (responsável por dois golos) e Marcelo foi coroada com a enésima infantilidade de Sérgio Ramos, que não só cometeu penalty sobre Neymar - independentemente da intensidade do toque e do teatro inevitável do brasileiro - como fê-lo sabendo que a expulsão era a única opção. No final o central (e Ronaldo) queixaram-se amargamente da arbitragem. Não tiveram razão. Se houve algum penalty mal assinalado esse foi o de Ronaldo, uma falta claramente fora da área (isso sim, a Alves faltou o cartão) e que permitiu ao Real colocar-se de novo em vantagem. Undiano Mallenco, errou em várias faltas e na distribuição dos cartões mas nos momentos decisivos não mexeu no resultado. Pelo menos não como Ramos, e o seu erro, e Benzema, a grande sensação da noite.

Se Messi decidiu o jogo, Iniesta pautou o ritmo do encontro, a Benzema ficou o papel de dar emoção à contenda. Apontou dois golos - o segundo a lembrar os dias de glória de Ronaldo Nazário - e foi o dínamo ofensivo mais eficaz do Real Madrid. Quando o retirou, Ancelotti perdeu o jogo. Era questão de minutos. Com Di Maria - o MVP da primeira parte - tinha sido o melhor blanco em campo. Sem ele e com Ronaldo perdido no meio do ataque como falso nove, a equipa perdeu o rumo. O italiano continua a demonstrar lacunas que marcaram toda a sua carreira nos grandes jogos. É um treinador que ganha, começando pelo inevitável caso de orientar equipas que têm essa obrigação. Mas a quantidade de jogos a seu favor que acabaram perdidos dava para escrever um livro. A do passado domingo é apenas mais uma para a lista onde estão o Juventus vs Manchester United de 1999, o Deportivo vs AC Milan de 2004 ou a final de Istambul do ano seguinte. 

 

O Barcelona, numa versão mais pragmática da temporada passada, deu um golpe de autoridade em casa do rival. Colocou-se a um ponto da liderança mas tem pela frente um calendário complicado que inclui um duelo na última ronda com o actual e inesperado líder, o Atletico de Madrid. Será uma reedição dos duelos dos quartos-de-final da Champions League. As duas equipas já se cruzaram três vezes este ano. Nenhuma venceu. Do outro lado da trincheira o Real Madrid assistirá a esse leque de confrontos confiando-se de que a sua maior eficácia com as equipas a quem quintuplica em orçamento seja suficiente para vencer um campeonato que podia ter no bolso mas que não soube ganhar. Ainda.



Miguel Lourenço Pereira às 12:05 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 19.02.14

O futebol não é um mundo estranho. É um espelho. Que nos reflecte a nós, os que dele bebemos com ânsias de emoção a partir de uma existência tranquila. Talvez por isso (também por isso) é impossível ser-se no futebol diferente do que se seria no quotidiano, não preto ou branco mas uma palete de constantes cinzas. Lamentavelmente o poder da opinião pública, a procura constantemente pelo maniqueísmo, levou para os campos os debates ideológicos do bem contra o mal esquecendo-se de que, quando falamos de Humanos, falamos de erros e enganos. Os que o negam rapidamente são apanhados na sua própria rede. São os fariseus do jogo.

Um penalty polémico. Um resultado para alguns, inesperado. Um triunfo por dois golos a zero que deixa praticamente sentenciada uma eliminatória que parecia mais equilibrada à primeira vista. O treinador derrotado, secamente, aproveita a conferência de imprensa para lavar as suas culpas, o seu esquema mais defensivo, especulativo, vitima desse eterno medo ao golo sofrido em casa que vale a dobrar. Culpa o árbitro. Cita teorias da conspiração. Critica a sua nacionalidade, como se houvesse árbitros de primeira e segunda de acordo com a sua competitividade. Talvez até se esqueça que ele próprio vem de um país periférico. Não faz mal. No final do seu discurso repleto de criticas contra a arbitragem diante dos membros da imprensa, provavelmente será punido pela UEFA. Falou demais. Falou sobre aquilo que os códigos de conduta da organização não permitem que se fale. E a história guardará o episódio.

Sem nomes, sem citações concretas de jogos, apenas pela lembrança popular, seria fácil associar o treinador em questão. Há uma corrente de opinião que demoniza os que exprimem a sua opinião sem tentar agradar a todos. Quem está no mundo do futebol quer ganhar. Pode querer algo mais, uma imortalidade que nem sempre a vitória concede, mas o apetite ganhador é o que forja os campeões. Mesmo que morram a tentar cumprir os seus objectivos. Para um treinador, a personagem mais solitária do universo milionário do futebol, as queixas são parte do trabalho. É uma forma de auto-defesa fácil e certeira. Desviar as atenções para fora enquanto se procuram solucionar os problemas dentro. É antiga. Helenio Herrera e Bill Shankly faziam-no nos anos sessenta a nível global, mas desde que o futebol é futebol sempre houve espaço nas crónicas para criticas aos árbitros, aos relvados, ao jogo violento ou ultra-defensivo dos rivais, à falta de atitude, a conspirações. Todos os treinadores passaram por essa porta. Uns mais do que outros. Uns de uma forma mais educada do que outros. Mas há aqueles que o assumem. E os que não. Os primeiros são demonizados, quando dão a cara. Os que utilizam essa ferramenta mais vezes ou de forma mais virulenta, transformam-se no alvo dos puristas, dos românticos (os mesmos, provavelmente, que têm o maravilhoso Red or Dead na sua lista de livros favoritos) que os acusam de sujar a imagem do jogo. Os segundos, alabados pelo seu fair-play, são canonizados no acto. São os que estão acima de qualquer suspeita, os que defendem outro modelo de jogo. Os que se distanciam moralmente dos primeiros para receber o coro de aplausos de quem os eleva às altura. Quando perdem, e todos perdem em algum momento, facilmente se esquecem do seu compromisso ideológico. E são possuídos pelo espírito do mal, o espírito dos demónios das salas de conferência. Esse é o momento em que os eleitos se transformam no que realmente são, fariseus.

 

O primeiro paragrafo do texto podia referir-se a José Mourinho.

Ao seu comportamento pouco edificante no final da meia-final da Champions League, em Abril de 2011, disputada entre o seu Real Madrid e o Barcelona no Santiago Bernabeu. Um jogo equilibrado tacticamente (com um Real Madrid de contenção defensiva frente a um Barça especulativo e paciente) até ao momento em que Pepe é expulso por agredir Dani Alves com uma entrada violenta sobre o joelho. Depois desse momento, com dez (e sem treinador no banco) o Real rendeu-se ao génio de Messi que resolveu o jogo com duas pinceladas de magia. Game over. No final, Mourinho proferiu mais um dos seus célebres discursos citando uma lista de árbitros e as suas "naturais" incompetências e suspeitas. Era uma arma habitual nele nos momentos de fragilidade. Ninguém esperava, sinceramente, outra coisa. Foi genuíno até ao fim. Autodestrutivo, injusto e oportunista (como poderão dizer os adeptos do Manchester United, Deportivo la Coruña ou do próprio Barcelona nas suas duas Champions conquistadas). Mas igual a si mesmo. Mas o mesmo paragrafo também podia referir-se a Manuel Pellegrini. Sim, ao profeta chileno do jogo bonito, dos treinadores silenciosos e pacíficos. Dos homens que nunca se queixam dos senhores do apito. Dos que acreditam que a competição é pura no seu estado natural e que o que se passa no campo deve ficar no campo. Dias antes do jogo contra o Barcelona - aproveitando uma sequência de dois jogos com o Chelsea - Pellegrini conversou amigavelmente com o prestigioso jornalista da Marca, Santiago Segurola. Segurola, amigo pessoal de Valdano, Guardiola, Raúl e Pellegrini, um quarteto nada inocente nisto das ideologias, foi um dos homens responsáveis por queimar a imagem pública de Mourinho desde a sua chegada ao Bernabeu. Estava no seu direito. É um cronista fabuloso e um dos jornalistas que melhor interpreta o futebol. Na sua entrevista, guiada até ao ponto inevitável da comparação estilística e ideológica, Segurola quis traçar a diferença entre Mourinho e Pellegrini nas formas. Conseguiu que este afirmasse, não sem pudor, que tudo aquilo que Mourinho (e os que se comportam como ele) representam o que ele não gosta no futebol. O que seria incapaz de fazer. Os mind games, as queixas arbitrais, as provocações. Tudo isso distrai do que vale a pena. Da "pelota", que nunca se mancha. Soou bem como quase sempre tudo o que Pellegrini diz soa. Mas ontem, no City of Manchester, o chileno transformou-se quando viu uma polémica decisão destroçar o seu próprio plano de contenção defensiva. Frente a um Barcelona que, como em 2011, foi muito superior, o City quis defender primeiro, aguentar depois e procurar levar o jogo para o Camp Nou. O mesmo esquema de Mourinho. No inicio da segunda parte, como em 2011, um erro posicional grave de Demichelis provocou um penalty e uma expulsão que Messi não desaproveitou. Alves marcou perto do fim o 2-0 e fechou praticamente a eliminatória. Como em 2011.

Pellegrini tinha razões para queixar-se. A falta sobre Messi é evidente (e a expulsão também) mas nas camaras percebe-se que é fora da área. Nas camaras. Em campo é impossível apreciar-se qualquer falta e a marcação do penalty tem toda a lógica do mundo. Poderia questionar-se se a jogada era válida, já que a recuperação de bola do Barcelona tinha chegado de uma falta prévia, de Busquets sobre Navas, segundos antes. Mas treinadores como Pellegrini não deviam falar destas coisas. Até que falam. E dizem exactamente o mesmo que os demónios de gabardine. Pep Guardiola, provavelmente o melhor treinador dos últimos vinte anos da história (decididamente o mais apaixonante de seguir) passou pelo mesmo processo de versão imaculada alimentada por uma imprensa sectária até ao momento em que as coisas correram mal. Depois de se ter queixado de um fora-de-jogo (no limite) na final perdida da Copa del Rey de 2011, na temporada seguinte, com o título já perdido, chegaram as suspeitas de que algo não estava bem no mundo arbitral. Como sucede com todos os treinadores - que são humanos, como tu e eu - a derrota traz o nosso lado mais obscuro à superfície. Ninguém está imune.

 

O caso de Pellegrini vs Mourinho tem sido utilizado este ano até à saciedade. Não só porque são os dois grandes rivais pela Premier como também porque o chileno foi despedido do Santiago Bernabeu para ter sido substituído pelo português. Foi para Málaga, um clube que Mourinho disse que nunca treinaria, levantando ondas de polémica sobre os pequenos injustiçados, segundo o próprio chileno. O mesmo que ontem disse que um árbitro sueco não tem validade por não estar habituado à exigência da alta competição. Talvez os argentinos pudessem ter pensado o mesmo de um treinador chileno, há alguns anos atrás. Mourinho já passou por esse caminho. Várias vezes. Consegue ser uma pessoa desprezível em muitos sentidos. A sua agressão a Tito Vilanova não pode ser esquecida. As suas provocações, muitas vezes, roçam o ditatorial. Não é flor que se cheire. Mas é sempre o mesmo. Pertence a esse grande colectivo de treinadores humanos, com falhas e acertos. Pellegrini era, até ontem, o profeta dos surreais, dos homens impolutos que não se deixam tocar mesmo quando lhe apertam o coração. A realidade, na vida como no futebol, é bastante mais complexa. Eriksson nunca se esquecerá de Pellegrini como Frisk se lembrará sempre de Mourinho. E nós, de este lado da vedação, saberemos sempre que nem tudo o que vem na capa dos jornais é certo!



Miguel Lourenço Pereira às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Sábado, 26.10.13

O futebol, como a vida, faz-se de decisões. No caso dos grandes jogos são os pequenos detalhes que, habitualmente, se revelam decisivos. Depois de um ano com um registo quase imaculado, mesmo no período mais negro da era Mourinho, o Real Madrid de Carlo Ancelotti comportou-se como uma equipa que não conhecia em absoluto a forma correcta de ultrapassar um rival que é cada vez mais uma sombra da imensa equipa que já foi. O suicídio táctico de Carlo Ancelotti, um misto de medo e submissão ao poder presidencial do clube, deu um balão de oxigénio a um Barça decadente mas sempre perigoso.

Bale parecia perdido. Não, Bale estava perdido.

Independentemente da sua questionada condição física, o galês não encontrava uma só combinação colectiva. Olhava com ar surpreendido para tudo e todos. A alta competição é assim e a diferença entre ser a estrela do Tottenham e ver-se como protagonista de um Barça-Madrid é grande. Cada bola que acabava nos seus pés perdia-se para sempre. Nem a sua velocidade ou capacidade física se fizeram notar. As ajudas defensivas do Barcelona anularam todo o seu potencial. A sua incapacidade de combinar com os colegas fez o resto. Tinha Bale condições para ser titular? Naturalmente a resposta é não. E porque jogou?

Fácil. Custou quase 100 milhões de euros, não estava oficialmente lesionado. Se não tivesse jogado muita gente importante se chatearia a sério. E Ancelotti não é treinador de incomodar os seus ricos chefes. Nunca foi.

Para colocar a Bale em campo, Ancelotti aceitou perder o jogo. Perder a herança de um modelo questionado por muitos mas que foi capaz de anular o Barcelona durante mais de um ano com autoridade. O Real Madrid de Mourinho, à medida que ia caindo em picado, mostrava-se, paradoxalmente, mais sagaz nos duelos com o eterno rival. Ganhou a liga no Camp Nou em 2012, venceu a Supertaça em Agosto e eliminou os blaugrana da Copa del Rey com autoridade. Pelo caminho voltou a vencer em casa para a liga e a empatar em Camp Nou. Como?

Aprendendo com os erros e explorando as falhas, cada vez mais evidentes, de um modelo já distante da herança inicial do guardiolismo. Mascherano e Piqué, uma dupla propensa ao erro, pressão alta no meio-campo explorando a dificuldade física de Xavi e Iniesta aguentarem noventa minutos de asfixia do rival e claro, um esquema de ajudas colectivas capazes de travar o génio de Messi. Ancelotti abdicou de todas essas lições. O Barcelona agradeceu.

Com Mascherano e Piqué em péssima forma, Carlo abdicou de jogar com um avançado que os segurasse e de-se espaço ao jogador mais em forma da sua equipa, Cristiano Ronaldo. Com Iniesta discutido e em más condições físicas, colocou Sérgio Ramos como médio defensivo e deu ao manchego todo o espaço do mundo. Com Messi e Neymar abertos nas alas, apostou em laterais ofensivos que foram incapazes de morder por medo a deixar espaços atrás. O seu 4-3-3 foi uma amalgama de jogadores perdidos em campo. Ronaldo não tinha posição. Bale perdia-a constantemente. Di Maria corria, corria e limitava-se a correr e embora Modric tentasse impor critério, não tinha ninguém com quem combinar porque Khedira é Khedira, Ramos é Ramos e os laterais raramente subiam com confiança. Um ano de herança destroçada por uma decisão que Ancelotti não teve a coragem de tomar.

 

Ao contrário do Real Madrid, o mérito do Barça é saber que tem uma ideia e que se se afasta dela sofre em demasia.

Martino, um argentino pragmático, percebeu que contra uma equipa a quem lhe custa ter a bola nos pés a melhor opção é guarda-la e esperar. Colocou Fabregas para forjar um losango com Xavi, Busquets e Iniesta e dar total mobilidade ofensiva para Neymar e Messi nas diagonais. O argentino não apareceu, como não tem aparecido. O brasileiro fez uma excelente primeira hora de jogo e foi decisivo em quebrar a hermética defesa rival, demasiado preocupada com o empalidecido Messi. O seu golo abriu o jogo e confirmou a ideia de Martino. Para o italiano colocar mais defesas e abdicar da sua essência - o ostracismo de Isco é evidente, a falta de confiança em Benzema, Jessé e Morata recorrente - não lhe valeu de nada contra uma equipa que troca a bola como poucas. A velocidade de outros tempos foi-se, mas a classe ficou. Iniesta sentiu-se cómodo, Neymar cumpriu o papel que já foi de Pedro ou Villa e o resultado foi o de quase sempre.

Com um golo de vantagem o Barcelona fez o que nunca tinha feito, nem com Guardiola nem com Tito. Recuou. Cedeu a iniciativa, deu um passo atrás e procurou gerir o resultado. Perdeu uma ocasião de morte de ferir um rival que não sabia a que jogava. O Real Madrid, em vez de a aproveitar, continuou a bater com a cabeça na parede. Só as entradas de Illarramendi, Benzema e Jesé devolveram ao clube merengue a sua essência. E foi nessa meia-hora que o jogo esteve, realmente, igualado. Os blaugrana deixaram de criar perigo e passaram a ver como Valdés, o poste e uma mão involuntária de Adriano impediam a igualdade.

A vinte minutos do fim Cristiano Ronaldo foi derrubado na grande área. Penalty claro e evidente por marcar. Na primeira parte Pepe tinha cometido também falta sobre Fabregas na área contrária. Os erros tiveram o mesmo denominador, um árbitro incapaz de controlar bem o jogo. A partir desse momento o Real Madrid desligou emocionalmente e Alexis Sanchez, recém-entrado, com o descaro de um novato, aproveitou o erro de Diego Lopez e a passividade de Varane para marcar um golo digno da noite. Jesé, depois de uma corrida fabulosa de Ronaldo, reduziu no último minuto. Pela primeira vez em cinco anos um Clássico com três golos e nenhum da dupla Ronaldo-Messi. Até nisso este duelo foi atípico. Se o argentino foi empurrado para a ala pela decisão do seu treinador e continua a sofrer problemas físicos, Ronaldo viu o seu técnico abdicar da sua máxima forma em prole de um desenho táctico inconsequente. Merecia mais.

 

A vitória do Barcelona dá três pontos aos lideres da prova mas mantém as duvidas no seu jogo, cada vez mais distante da matriz elogiada universalmente. No entanto um plantel que se permite ter a jogadores como Pedro e Alexis no banco tem sempre condições para resolver problemas mais agudos. No caso do rival a situação é radicalmente diferente. Ancelotti tinha os jogadores que queria (abdicou de Ozil, não exigiu um avançado top, resignou-se ao negócio de Florentino com Bale) mas mesmo assim criou um esquema incapaz de os aproveitar. E pagou o preço. A liga está mais dificil - em Espanha cada vez se perdem menos pontos - e a jogar assim, nem merengues nem blaugranas afastam-se perigosamente da elite europeia. Em Munique os campeões em titulo sorriem. Hoje em dia continuam sem ter rival à sua altura!



Miguel Lourenço Pereira às 19:42 | link do post | comentar | ver comentários (18)

Terça-feira, 24.09.13

Sou um dos grandes admiradores de Juan Mata. Talvez porque o vejo jogar desde os dias do Castilla. Porque sempre vi nele todas as condições para ser um jogador de elite. José Mourinho pensa de outra forma. Para ele o espanhol está uns furos abaixo do que ele quer como elemento central do seu esquema ofensiva. Entre o espanhol e Óscar, o técnico sadino prefere o brasileiro. A maioria dos treinadores agradeceria ter um dilema destes nas mãos. Afinal, são dois dos melhores jogadores do Mundo na sua posição. E para o "Happy One" só há espaço para um.

Guardiola chegou a Barcelona com uma ideia.

Quando há jogadores top, há sempre espaço para todos.

Sob essa filosofia não se importou de colocar muitas vezes a Iniesta como extremo. De deslocar Messi para o centro. De enquadrar no mesmo onze a Xavi, Iniesta, Cesc e Messi, mesmo sendo consciente que ficaria pouco espaço para a improvisação. Se tivesse tido Neymar, para abrir o campo, seria outra conversa. Essa ideia é antiga. Até aos anos 70 o jogador prevalecia sobre o esquema. Ao técnico competia-lhe encontrar espaço para por os melhores em campo. Depois apareceu Herrera, apareceu Rocco, apareceu Michels e o modelo de jogo passou a ser a prioridade. Ou o jogador se adaptava ou, por muito bom que fosse, estava destinado ao banco. A Itália do Mundial de 70 foi alternando Rivera e Mazzolla porque ninguém pensava que dois génios como esses pudessem jogar juntos sem comprometer a equipa. O Ajax de Michels e Kovacs, repleto de grandes jogadores, funcionava porque todos eles se manejavam bem em distintas posições. Quando saíram do clube foram incapazes - até Cruyff - de reproduzir o mesmo nível de jogo noutras paragens. E quando chegou a década de oitenta o sistema tinha prevalecido. O Brasil de 82 foi um reflexo de uma era perdida, o AC Milan de Sacchi colocou cada um no seu sitio e a goleada dos homens de Capello a um Barcelona de Cruyff que procurou vencer um duelo equilibrado através das estrelas em campo selou o destino de quem acreditava no valor do jogador.

Portugal, em 2000, e a Espanha, em 2008, começaram a mudar a filosofia. Guardiola exprimiu-a ao máximo. De repente os génios individuais voltaram a ser valorizados mesmo que isso significasse problemas. Compaginar a Rooney e van Persie na mesma equipa funciona ou cria mais problemas do que soluções? Podem Ozil, Isco, Bale e Ronaldo jogar juntos? Ancelotti pensava que não e facilitou a saída do alemão. E em Munique, apesar da fama que precede Guardiola, há quem não entenda o seu esquema onde Lahm é médio para que os bons joguem todos à sua frente sem conceder um lugar a um jogador que paute o ritmo e o equilíbrio. Em Londres, onde Mourinho tem tido problemas para impôr a sua ideia de jogo (que ninguém ainda entendeu muito bem qual é) o Chelsea vive um desses dilemas: modelo vs jogadores.

 

Hazard, De Bruyne, Mata e Oscar.

São quatro dos melhores do Mundo. Jovens, ambiciosos, talentosos, jogadores capazes de marcar a diferença. Apesar de algumas diferenças pontuais, não são futebolistas distintos. Uns mais velozes que outros, uns mais cerebrais que outros, mas todos eles com o mesmo principio de jogo na cabeça: o jogo associativo.

Para muitos treinadores, ter tanto talento é uma benção. Para alguém como Mourinho, um problema. O técnico português, desde os dias do FC Porto, sempre fez prevalecer o seu sistema aos jogadores. Nas Antas relegou várias vezes o talentoso Alenitchev para o banco porque já contava com Deco no relvado e preferia a consistência defensiva de Tiago/Pedro Mendes ou a abertura de banda que lhe podia dar Capucho (primeiro) e César Peixoto (antes da lesão) depois. Quando chegou Carlos Alberto, e a sua imprevisibilidade, para substituir o trabalhador Derlei, ficou claro que havia num onze uma função para cada jogador e nada mais. O padrão repetiu-se em Londres (entre Robben e Joe Cole) e em Madrid (em Milão faltavam-lhe opções de talento, salvo Sneijder) com Ozil tantas vezes relegado para o banco em jogos importantes. Para ele, jogadores que se decalcam, devem competir entre si por um dos lugares livres no seu esquema, nunca o contrário. Sendo que o belga Hazard é para Mourinho a sua clara coqueluche (com toda a razão do Mundo) e que De Bruyne se revelou uma surpresa (para os mais desatentos), basta olhar para o passado do português para entender que o MVP da temporada passada, Mata, e o talentoso Oscar - que cresceu muito no último ano e meio - teriam de disputar um lugar.

Mourinho gosta de jogadores possantes (de aí a presença de Schurlle), de jogadores rápidos (a primeira razão da contratação de Etoo) e que desequilibrem com o seu talento natural para a finta (de Carlos Alberto a Willian, passando por Robben e Di Maria vai um largo historial). Do que menos gosta são de jogadores que pautam o ritmo do jogo e muitas vezes impedem que se ponha em prática a sua habitual verticalidade e velocidade. Mata é um jogador de pausa, de procurar espaços, de toques decisivos. Óscar também, com a diferença que o faz mais em grandes planícies do que, propriamente, em apertados vales. Mata move-se melhor perto da área, lendo o jogo. Óscar é um jogador (agora), mais rápido e físico, capaz de vir desde o meio-campo para o ataque em condução ou abrindo linhas de passe com lançamentos em profundidade. O brasileiro é um jogador que se enquadra perfeita no ideário de Mourinho. Mata, talvez melhor individualmente, não o é.

Poderia ter-se desprendido do espanhol no mercado mas a opção de reforçar algum rival (seja na Premier, seja na Champions) com um jogador que ele sabe ser de alto nível não lhe agradava. E Mata ficou. Mas terá muitos problemas para ter minutos. Como Torres, que parece incapaz de conseguir repetir a mesma consistência da sua etapa no Liverpool, é uma vitima de uma ideia de jogo que se enquadra pouco com o espírito espanhol. Obi Mikel, Ramires, o eterno Lampard, o esforçado Óscar, o abnegado Schurlle e o esforço físico de Etoo são mais adequados à "Biblia" do português. Para Hazard e, eventualmente, De Bruyne e Willian, sobra o pouco espaço deixado ao talento genuíno e à improvisação, sempre comprometidos ao esforço colectivo. Apesar de ter prometido uma filosofia de estância larga, Mourinho continua a pensar no curto-prazo.

 

Tele Santana não teria problemas em montar um quadrado entre os futebolistas mais talentosos para mandá-los ao campo a jogar. O seu esquema criou escola, na imaginação dos adeptos, mas não tanto nos relvados. Mourinho sempre foi um técnico com fama de resultadista, uma expressão perigosa num meio onde vencer é tudo. O seu problema não está tanto na busca do resultado mas sim no caminho único para o obter. Com o passar dos anos o português foi abdicando de princípios fundamentais nos primeiros anos por abordagens cada vez mais simplistas e herméticas. Quando o guião não funciona, os problemas são evidentes. O Chelsea com a bola é uma equipa que não sabe o que fazer porque o treinador não quer que a tenham muito tempo. Sem ela sofre porque a maioria dos seus jogadores sente-se mais cómoda com ela. Sem um killer de área, como foi Drogba, e sem um Lampard dez anos mais novo, a equipa londrina sofre porque o seu técnico quer repetir uma fórmula impossível. Continuam a ser uma potência do futebol europeu (com essa equipa, é inevitável) mas deixam mais sombras do que luzes neste arranque de uma nova era que pode ser mais curta do que muitos imaginavam à partida...



Miguel Lourenço Pereira às 11:40 | link do post | comentar

Quinta-feira, 05.09.13

"Não se pode ganhar nada com os miudos". O escocês Alan Hansen, estrela do Liverpool, foi o autor da polémica frase no arranque da temporada 1994. Não tinha razão. Nesse ano o campeão inglês apresentava uma média de idades surpreendentemente baixa. Criou-se um novo paradigma. Mas nesta equação o protagonista era Ferguson, não Arsene Wenger. Ao francês criou-se o mito de ser um treinador especializado em vencer com jogadores jovens e promissores mas o seu sucesso nasceu com base em futebolistas no pico da sua forma. Mezut Ozil cumpre a sua velha máxima à perfeição.

 

Quando chegou ao Arsenal, Wenger vinha com o rótulo de ser um treinador capaz de sacar o melhor de jogadores desconhecidos. Independentemente da idade. Em Highbury provou-o. Prolongou em meia década as quase acabadas carreiras da sua linha defensiva (Bould, Keown, Adams, Seaman) e aproveitou os últimos sopros de magia de Ian Wright e Ray Parlour para conseguir a dobradinha em 1998. Sobretudo, contou com Dennis Bergkamp no pico da sua carreira. O holandês tinha-se apresentado ao mundo uma década antes, como um jovem adolescente em quem Johan Cruyff confiava poder utilizar para render o pletórico Marco van Basten. Depois de triunfar no Ajax e de uma passagem complicada pelo Inter dos holandeses (com Jonk e Winter, sucedendo ao trio alemão Mathaus, Bremeh e Klinsmann), o jogador apaixonado pelo Tottenham Hotspurs (graças à qualidade ofensiva da geração de Ardilles e Hoddle) aterrou no campo dos gunners para mudar a história do clube.

Tinha 26 anos. Demorou duas temporadas a adaptar-se e a partir de aí transformou-se no farol ofensivo do melhor futebol praticado nas ilhas. Quando Wenger remodelou a sua equipa, apostando de novo por jogadores na casa dos 23-25 anos quase desconhecidos do grande público (Petit, Viera, Pires, Ljunberg, Edu, Wiltord e o "recuperado" Henry) o seu papel de lider espiritual foi fundamental para recuperar o título e lançar a base dos Invencibles de 2004. Essa equipa era uma soma de grandes individualidades, já consagradas, com muitos anos como gunners nas pernas. Não uma equipa de jovens promessas, como ficou associada a imagem a Wenger, talvez por ter lançado Anelka (logo vendido), recuperado um jovem Henry do exílio em Turim e depois ter apostado em Reyes, Fabregas, Walcott e Nasri, mais por necessidade do que outra coisa. Bergkamp foi sempre o seu olho direito em campo, cumprindo um papel fundamental. Por ele passava todo o jogo do Arsenal. Pautava os ritmos, desbloqueava os jogos mais complicados e dava esse perfume de classe que consumou a transformação moral do clube do "boring, boring" ao "champagne Arsenal". Desde o seu adeus o clube nunca mais voltou a ter um futebolista desse perfil. Até agora.

 

Ozil pode não ser, à partida, o jogador que mais necessitava o Arsenal. Mas é fundamental para o estado emocional em que vive o clube!

Giroud não tem concorrência para a posição de avançado e a defesa continua a ter demasiados buracos por preencher. No caso do avançado, o francês foi batido pela esperteza de Mourinho que simulou deixar Demba Ba fazer a curta viagem pelo Tamisa de Stamford Bridge a Ashburton Grove para cancelar o negócio no último segundo. Na defesa, Wenger já demonstrou confiar no recuperado Mertesacker ao lado de Koscielny, para o bom e para o mau. E com Viviano na baliza a fazer concorrência directa ao intermitente Sczesny, o alsaciano parece estar satisfeito. No meio-campo havia jogadores de qualidade disponíveis. Mas nenhum fora-de-serie. E Ozil é, sobretudo, um jogador estelar.

O seu preço - 50 milhões de euros, a mais cara transferência de sempre do clube, segunda maior da Premier - está de acordo com o seu talento. Actualmente, no futebol mundial, não há um jogador do seu perfil. Os seus dados estatisticos em três anos de liga espanhola não têm igual. Supera em golos e assistência a Iniesta e juntando Xavi a essa equação a diferença é mínima. Com Cristiano Ronaldo assinou a mais letal parceria da história do futebol espanhol das últimas duas décadas, forjando entre ambos 33 golos. A chegada de Modric e Isco foram reduzindo a margem de erro a um jogador que, como Bergkamp, tem tanto de genial como de irregular. Ozil pode realizar exibições para o "hall of fame" durante semanas e depois desaparecer durante um mês. Mas nos clubes top, onde há habitualmente soluções para tudo, essa realidade não é um problema sério. Em Londres será diferente. Ozil será a única estrela da companhia.

Ao seu lado Wenger poderá montar finalmente um esquema similar ao que utilizou com os Invencibles e que tem sido forçado a abandonar com o passar dos anos. Naquela que foi talvez a mais brilhante equipa da história do futebol inglês, o francês alinhava dois médios-centro (Vieira e Edu/Gilberto) no apoio a um trio de criativos que podiam ser Bergkamp, Pires, Ljunberg, Reyes e o próprio Henry, quando Wiltord jogava na frente de ataque. Mobilidade total, imprevisibilidade e um ritmo de jogo alto suportado por uma coesão defensiva notável.

Olhando para o plantel actual é fácil perceber que Cazorla, que nunca foi um médio centro, poderá sentir-se cómodo de novo na ala esquerda, com as suas diagonais, e Oxlade-Chamberlain e Walcott abrirão o campo no lado direito permitindo a Ozil bascular livremente à frente de Whilshire, Ramsey ou Arteta, no apoio directo a Giroud. Ozil terá espaço, terá colegas com quem associar-se que entendem o futebol da mesma forma que ele. E, desde o banco, Wenger encontrará o seu alter-ego no relvado.

 

Acusado de não saber gastar dinheiro no mercado, Wenger conseguiu o brinde do ano. Vender Ozil, seja porque motivo for, é mais um dos muitos erros de gestão de um clube como o Real Madrid que pensa primeiro no mercado e só depois no futebol. 50 milhões por Ozil, como poderiam ser por Iniesta, é um investimento destinado ao sucesso. Com um golpe de asa, o Arsenal demonstrou que está preparado para voltar à filosofia original de Wenger. A mesma que transformou para sempre a história do clube!



Miguel Lourenço Pereira às 12:43 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Domingo, 25.08.13

jogadores que superam a sua condição de gladiadores dos relvados para dar outra cara. Futebolistas que ultrapassam a sua própria camisa-de-forças e  falam da mesma forma que jogam, com classe, frieza e muito talento. Xabi Alonso é um dos poucos jogadores da actualidade nesse patamar. Numa era de despropósitos, carros de alta gama, brincos, tatuagens, jogadores incapazes de dizer onde estão e para onde vão, o donostiarra é um farol de integridade da mesma forma que em campo tem sido um futebolista imprescindível na última década.

 

Agora que em San Sebastian se sonha com a Champions League convém recordar que a última vez que a equipa basca sonhou tão alto, havia um jogador no meio-campo a pautar o ritmo do jogo com uma frieza pouco habitual num adolescente. Xabi Alonso era, então, como hoje, uma bússula imprescindível. Com ele - e um punhado de outros grandes jogadores subvalorizados pelo mercado - os "donostiarras" chegaram a colocar em cheque os próprios Galácticos de Del Bosque que tiveram de fazer um esforço quase sobre-humano para não perder aquela liga.

Foi o aviso da chegada de um jogador radicalmente diferente ao protótipo espanhol.

Alonso era um médio de corte clássico. Gostava de ter a bola nos pés mas a sua especialidade estava na forma perfeitamente precisa com que a fazia mover de um lado ao outro do relvado com passes curtos e largos, lançamentos longos e diagonais precisas. Com a bola nos seus pés, o carrossel da Real Sociedade movia-se com maior claridade e precisão que a legião de estrelas do Real Madrid. Inevitavelmente, Rafa Benitez, treinador do Valência, tomou nota. Quando aterrou em Liverpool tinha uma prioridade. Trazer consigo o filho do internacional dos anos 80, Marcos Alonso, antigo jogador dos bascos e do Barcelona. A sua chegada foi fundamental para ultrapassar os problemas de construção da era Houllier. Alonso permitiu a Gerrard mover-se com liberdade, conectando mais vezes com uma frente de ataque em constante movimento. Na caminhada para a épica final de Atenas, o médio espanhol consagrou-se como um dos mais importantes centro-campistas do futebol internacional. Um dos golos - recarga de um penalty - foi seu, um mero detalhe para um ano memorável que não se voltou a repetir. Xabi continuou a jogar como os deuses mas o Liverpool deixou de vencer e quando Benitez começou a pensar que o problema podia estar no seu maestro, o jogador entendeu o toque e partiu para Madrid, um clube a quem faltava um líder como o pão para a boca. Encontrou-o.

 

Alonso tem sido o santo e senha do jogo do Real Madrid dos últimos quatro anos.

Apesar dos golos e das genialidades de Cristiano Ronaldo. Apesar da classe (intermitente) de Ozil, das correrias de Di Maria, do músculo de Khedira, da frieza defensiva ou dos golos (poucos) de Benzema e Higuain, o verdadeiro barómetro dos merengues era Alonso. Ausente ou em más condições físicas, a equipa ressentia-se como com nenhum outro jogador. Alonso era fundamental. Entendeu como poucos a concepção de jogo de Mourinho. Tornou-se no seu homem de confiança.

O jogo passava forçosamente pelas suas botas, era ele quem punha ordem na desorganização ofensiva. Os seus passes a rasgar criavam os desequilíbrios que o talento individual transformava em golo. Com uma equipa com dificuldade para progredir em controlo, com passes curtos, como Alonso demonstrou ser igualmente capaz de dominar, na selecção com que ganhou tudo (ele que começou como suplente com Aragonés para fazer-se imprescindível para Del Bosque), a sua visão de jogo era fundamental. Alonso desenhou os títulos conquistados, as goleadas e quando a sua luz se apagou, a equipa inevitavelmente desligou-se.

A chegada de Modric parecia significar uma nova via para o jogo do clube, mas o croata nunca chegou a captar bem o que Mourinho queria dele, no fundo um Xabi mais novo, mas com a mesma filosofia de jogo. Com Mourinho fora do clube, Alonso mostrou uma vez mais a sua categoria. Ele que já tinha sido respeitoso com um Benitez muito critico da sua etapa final em Liverpool, não alinhou no discurso vingativo da maioria do plantel. Manteve-se fiel ao que tinha sido, do primeiro ao último dia. Coerente com tudo. A chega da de Illarramendi, Casemiro e a boa forma de Modric, aliado à presença de Isco e Ozil, formatará seguramente um novo modelo de jogo para o Real Madrid onde a presença de Xabi já não ser tão fundamental como tem sido. Isso não invalida, no entanto, que a sua aportação não seja necessária.

 

Pode ser o seu último ano no Santiago Bernabeu - há uma renovação pendente de ser assinada que depende, sobretudo, da sua condição física, que actualmente o mantém fora dos relvados por dois meses - e portanto a derradeira oportunidade para os adeptos do clube de presenciarem ao vivo um dos melhores médios da história recente do Real Madrid. O ano mágico para o gentleman por excelência dos relvados espanhóis! Um jogador que merece sempre um tributo especial.



Miguel Lourenço Pereira às 11:46 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 15.08.13

Entrou pelas traseiras. Entre suspeitas de favores e de um rendimento decadente. Era uma promessa máxima que parecia que ia ficar pelo caminho. Num mês, tudo mudou. Autor de uma pré-temporada memorável, capaz de fazer esquecer a dupla ausência de Xabi Alonso e Illarramendi, o brasileiro Casemiro transformou-se em peça fundamental do esquema de Ancelloti. Terá ele as condições necessárias para ser o novo Pirlo do técnico italiano?

Agora está na moda gostar de Pirlo.

Agora, como quem diz. Nos últimos quatro anos, Andrea tonou-se um ícone do que há de cool no futebol.

É cool o penteado de Pirlo. É cool a sua barba. A forma como usa a camisola. O número nas costas. Os penalties que bate. Os livres perfeitos, os passes teleguiados. Até os erros de Pirlo são diferentes dos dos outros. Ao génio italiano passa-lhe como a Xavi Hernandez. São dois dos melhores futebolistas dos últimos vinte anos, nomes fundamentais da história do jogo moderno. E foi preciso os últimos anos para que se lhe desse o verdadeiro reconhecimento. Pirlo já tinha sido campeão europeu em 2003. Em 2007. Já tinha sido a figura fundamental - por cima de Buffon, Cannavaro e Totti - da Itália campeã mundial em 2006. E mesmo assim o Milan achou que estava datado. E mesmo assim muitos adeptos tardaram em entender a magia que dorme nas suas chuteiras em forma de varinha. Xavi foi assobiado no Camp Nou no ocaso da era Rijkaard. Pirlo também recebeu duras criticas nos seus dias derradeiros em San Siro, antes de resetear definitivamente a "Vechia Signora" com o seu bicampeonato. Quando o último moicano dos registas começou as suas andanças no jogo, o seu destino parecia ser radicalmente distinto.

Era o novo Baggio, o novo criativo na estela dos Rivera, Mazzolla, Conti e companhia, um criativo à solta no ataque, pronto a morder com o veneno de uma serpente a mais áspera defesa rival. Mas faltava-lhe algo.

O Inter - clube onde estava então - emprestou-o ao Brescia e foi aí que, ao lado de Baggio, o jovem Andrea percebeu que nunca podia ser igual ao "Codino Divino" mas que tinha condições para afirmar-se como um jogador radicalmente diferentes dando uns passos atrás no relvado. Chegado a Milão, num dos piores negócios da história dos neruazurri, Pirlo encontrou-se com um novo timoneiro, Carlo Ancelotti. O discipulo de Sacchi sabia que tinha na jovem promessa um diamante por trabalhar. Á sua volta montou uma equipa perfeita, com o trabalho físico de Gattuso, a inspiração de Rui Costa, o faro de golo de Shecvhenko e a resistência de Seedorf. Rodeado de jogadores de primeiro nível, Pirlo tomou a batuta, fez-se regista e entrou para a posteridade.

 

Os problemas físicos de Xabi Alonso e a ausência de alternativas levaram o Real Madrid a fixar-se em Illarramendi.

É um jogador fantástico, com um futuro brilhante e um preço talvex exagerado para o que já demonstrou e o que falta por demonstrar. A sua ausência, por lesão, dos principais jogos de pré-temporada vão forçá-lo a recuperar o ritmo e um posto para o qual já há um titular fixo (Alonso) durante a época. O que o basco talvez não contava era ter concorrência inesperada.

Se por um lado Ancelotti provou, com bons resultados, o croata Luka Modric como regista do jogo madrileño, apoiado como sempre em Sami Khedira e na arte da associação Ozil-Isco, a grande sensação da pré-época foi, sem dúvida, Casemiro. Um jogador que tem todas as condições para ser o Pirlo que Ancelotti procura.

Estrela precoce, Casemiro sempre habituou os seus seguidores ao mais extraordinário.

Queimou várias etapas na sua formação, tanto nas selecções jovens brasileiras (onde jogou ao lado de Neymar, Ganso, Óscar e Lucas Moura, ganhando quase tudo o que havia para ganhar), como no São Paulo. No clube paulista foi um dos mais jovens jogadores a alcançar os 100 partidos com a equipa principal, tudo isso antes de cumprir sequer 20 anos. Armador de jogo, recuperador de bolas nato, Casemiro passeava-se pelo meio-campo do "Sampa" com a autoridade de um veterano, lembrando talvez os dias gloriosos de Raí, o artesão dos títulos da era Telé Santana. Problemas num balneário conflituo, salários em atraso e um certo estancamento, como sucedeu a Paulo Henriques "Ganso", deixaram-no num beco sem saída. Para resolver o problema, o clube aceitou emprestá-lo em Janeiro ao Real Madrid com uma opção de compra de seis milhões de euros, bastante baixa para quem prometia tanto. Na segunda equipa dos merengues, o Castilla, o brasileiro entrou a dar cartas e fez-se figura fundamental chegando a ser chamado por José Mourinho para jogar com os titulares em duas ocasiões. Muitos pensavam que em Junho o jogador voltaria ao Brasil mas o Real fez efectiva a cláusula e Casemiro ficou.

E voltou a ser o de antes. O jogador atrevido, o autor de passes teleguiados, o recuperador de bolas cirúrgico, o médio capaz de bascular o campo ao seu ritmo, preciso nos passes, exacto nas antecipações, sempre com uma chispa de perfume e criatividade tão tipicamente sul-americana. Do nada, e com três nomes ilustres para o seu posto preferencial, Casemiro passou a sentir-se protagonista inesperado de uma narrativa que só agora está a começar.

 

É um jogador de um perfil que escasseia no Brasil e a sua afirmação pode ser uma brilhante notícia para Luis Filipe Scolari. Nele pode encontrar um pensador de jogo, um médio com força física para impor a sua presença e claridade mental para pautar o jogo ao seu ritmo. Uma eventual dor de cabeça para Luis Gustavo no meio-campo da canarinha como já é para Asier, Luka e Xabi no coração da cidade desportiva do Real Madrid. Para alegria de Carlo, o homem que vai contar com o meio-campo de artesões que faltou a José Mourinho nos útlimos quatro anos. Isco, Ozil, Casemiro, Modric, Illarramendi, Alonso, um sexteto de luxo para encarar, finalmente, olhos nos olhos, bola no pé, o eterno rival.



Miguel Lourenço Pereira às 15:51 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 11.07.13

Em 2008 Josep Guardiola chegou à primeira equipa do Barcelona depois de realizar um trabalho notável com a equipa B do clube, que promoveu à segunda divisão depois de vários anos. O papel da Masia, a casa onde cresceu como homem e jogador, sempre foi fundamental na sua filosofia. Mas a direcção de Sandro Rossell, homem forte da Nike e com ânsias de protagonismo, sempre preferiu um modelo de "Globetrotters". As personalidades chocaram e foi Guardiola quem saiu. O resultado está à vista. Em pouco mais de um ano, há pouca esperança para a Masia.

 

No último ano de Guardiola, o que lhe custou os títulos com o Chelsea e Real Madrid, forçando-o a abandonar Camp Nou apenas com a Copa del Rey debaixo do braço, o papel da cantera foi tão importante como sempre.

Não só porque Sergio Busquets e Pedro Rodriguez - dois desconhecidos para a maioria dos próprios adeptos blaugranas - se tinham confirmado como titulares indiscutiveis do seu projecto, mas porque continuava a surgir gente nova com vontade de ocupar o seu lugar. O Barcelona chegou a efectuar jogos só com futebolistas formados em casa. Aos históricos Valdés, Puyol, Xavi, Iniesta e Messi, todos eles já em Can Barça quando Guardiola aterrou, juntavam-se Pique, Pedro e Busquets (parte da sua primeira fornada) e também o recuperado Cesc Fabregas e Thiago e Bartra (jogadores utilizados inicialmente nos dois anos seguintes à sua estreia). Onze futebolistas aos que se podiam começar a adicionar os estreantes Montoya, Cuenca e Tello. Todos eles, mais Sergi Robert e, pontualmente, Gerard Deulofeu, passaram pelo onze titular das mãos de Guardiola. Um total dezoito jogadores (se juntamos a Muniesa e Rafinha) que tiveram minutos nesse ano. Um número assombroso para uma equipa de elite mundial. Pep não venceu por pequenos detalhes os dois títulos principais mas não só consolidou o presente do Barça como arrancou o desenho do seu futuro. Os adeptos podiam estar tranquilos. Havia opções para todas as posições e mesmo aquela onde a equipa mais sofria (com os problemas de Abidal), a resposta estava outra vez em casa, no regresso de Jordi Alba ao clube que o formou. Não havia que enganar.

Um ano e alguns meses depois, a situação mudou radicalmente. Os jogadores formados no Barcelona que não eram já titulares indiscutiveis em 2011 parecem ter todas as vias da equipa principal fechadas. A operação saída começou ainda na época passada e prossegue neste Verão. Tito Vilanova, outro filho da Masia, mudou radicalmente a sua política face à do seu antigo amigo e superior. Para ele a cantera conta cada vez menos e a ideia de forjar um "Globetrotter" mundial, como quer o presidente Rossell, parece-lhe muito mais interessante.

 

Cuenca e Muniesa foram os primeiros descartados por Vilanova.

O extremo direito foi utilizado várias vezes por Guardiola em 2011/12 com boa nota mas acabou por ter de seguir a sua carreira no Ajax, enquanto o promissor central, vitima de vários problemas físicos, foi igualmente descartado. Robert e Rafinha, que tanto prometiam nesse último ano da era Pep, jogaram tão pouco que custa associar os seus nomes ao plantel campeão. Bartra só foi realmente opção para Vilanova quando ficou claro que utilizar Song e Adriano a centrais era aumentar os problemas em vez de diminuir os riscos. Fez boas exibições, mesmo nos momentos de maior aperto contra o Bayern Munchen, mas parece que para o clube isso não chega. Com Guardiola teria mais minutos, com Vilanova parece destinado a ser a quarta opção se finalmente chega a Can Barça uma estrela do nível de Thiago Silva ou um jovem com a projecção de Marquinhos. No lado direito, Montoya, que foi utilizado várias vezes pelos problemas físicos de Alves, continua a pedir mais minutos e a ponderar sair para encontrá-los. Com o mesmo problema encontrou-se Thiago.

O seu caso é verdadeiramente paradigmático. Não só porque o médio é o mais promissor futebolista a sair da Masia nos últimos sete anos, como durante anos foi anunciado como sucessor natural de um Xavi Hernandez que já tem 33 anos nas pernas. Thiago demonstrou o seu valor, não só de blaugrana ao peito mas também com a Rojita, e se começava a ganhar o seu espaço com Guardiola, com Tito perdeu-o por completo. A tal ponto que o seu contrato estipulava que, se disputasse x minutos, a cláusula seria de 30 milhões. Menos desse tempo de jogo e baixaria a 18. Com o título no bolso a várias jornadas do fim, Vilanova não teve a inteligência de o colocar a jogar regularmente para segurar o futebolista. Era visivel o seu desinteresse. E assim o mais velho dos irmãos Alcantâra tem a porta aberta com Guardiola em Munique.

O seu irmão Rafinha já tem guia de marcha, com um empréstimo ao Celta de Vigo. Deulofeu, a outra estrela da Masia, jogará com o Everton. Tello terá a concorrência directa de Neymar e Alexis apesar das excelentes exibições das últimas temporadas. Jogará muito pouco se a explosão do brasileiro se converter numa realidade.

Sob os planos de Vilanova, e a julgar pelo onze habitual da última temporada, mais Neymar, os "canteranos" que terão minutos serão os mesmos que já os tinham em 2011, mais Alba. Em 3 anos, todas as promessas da formação catalã foram descartadas. Mas não pela falta de talento. Todos eles têm um nível altíssimo de conhecimento de jogo e poderiam perfeitamente disputar a titularidade no Barça actual e dar a sua contribuição, como sucedia com Guardiola. Mas não será assim. Rossell e Vilanova preferem apostar noutro modelo de negócio, onde se abra espaço para o génio de Neymar, as habilidades de Alexis, as trapalhadas de Song, a frieza de Thiago Silva ou uma utilização excessivo de kms nas pernas de jogadores que têm um ritmo diferente como Puyol ou Xavi. A geração a quem Guardiola tinha deixado o testemunho para começar a ocupar o seu lugar foi convidada a sair. Muitos deles acabarão por regressar da mesma forma que a Xavi, Iniesta e Puyol lhes custou ser titulares. Outros estarão perdidos para sempre. Mas o mito da Masia como fábrica constante de jogadores para a primeira equipa foi desmantelado. Com um plantel curto e muitos jogos pela frente, havia tempo e espaço para todos. Pelo menos, com outro capitão ao leme!



Miguel Lourenço Pereira às 13:53 | link do post | comentar | ver comentários (16)

Segunda-feira, 01.07.13

Não houve duas equipas em campo. Não houve tempo. Uma entrou, empurrada por milhões, e ocupou todo o espaço imaginário do tapete verde do Maracaña para si. Fez a festa sozinha, entre suspiros do carnaval e memórias de outros tempos. Espanha caiu diante de uma selecção que soube ser melhor em todas as facetas do jogo. Uma derrota que pode ser útil para reactivar mecanismos num projecto que está no topo à demasiado tempo para ser julgado por um só jogo. Para os brasileiros, a noite de ontem foi um ajuste de contas moral com aqueles que achavam que era fácil entrar no Maracanã como senhores do jogo bonito e sair com vida. O teste a sério é daqui a um ano mas os sinais, pela primeira vez em muito tempo, são positivos!

Espanha começou a perder final antes da bola rolar.

Quanto soaram os hinos, ao ar sério, de quem está habituado a finais dos espanhóis, seguiu-se uma manifestação do poder emocional que provoca o futebol e só o futebol. Num país em crise consigo mesmo, com pessoas nas ruas a cercar o estádio, a paixão pelo futebol tinha o condão de ser o bálsamo emocional necessário para o brasileiro comum. Os milhares que encheram as bancadas de um estádio construido para ver o Brasil campeão cantaram o hino como se fossem para a batalha. Em campo os jogadores fizeram o mesmo. O velho espirito de família, de alma, de Luis Filipe Scolari ressuscitou na forma como Neymar, Júlio César, Thiago Silva, Fred ou Paulinho cantavam e choravam por dentro esse orgulho brasileiro. Quando o árbitro apitou para o minuto inicial, o escrete canarinho está mentalizado para ganhar. Nenhuma equipa do Mundo poderia fazer nada em relação a isso. Dois minutos depois, a jogada tipo de Scolari. Lançamento largo para o extremo onde a força de Hulk se sobrepôs ao pequeno Alba, centro para o coração da área onde a Espanha sempre sofre. Atrapalhamento e golo. Naquele breve segundo em que a bola pulou, Casillas e Fred lançaram-se pelo esférico. Noutro dia, noutra hora, o guarda-redes espanhol operaria um dos seus milagres. Mas aquilo era o Maracanã, era o Brasil e o uma consequência inevitável de acordar o monstro adormecido.

Nesse momento a comunhão entre adepto e jogador neutralizou qualquer arma futebolística que Espanha tivesse para oferecer. No final, não encontraram forma de sair desse bloqueio mental em que entraram. Sentiram-se intimidados pelas bancadas, pelo jogo duro do meio-campo brasileiro e pela forma como os rivais aplicaram em campo todos os passos necessários para neutralizar o tiki-taka. Pressão alta, à altura da baliza, e asfixiante. Constantes ajudas na marcação, linha defensiva longe da área, espaço de campo reduzido. Procurar o contacto físico, reduzir os espaços por onde a bola se possa mover. E depois, velocidade. Velocidade na movimentação, no lançamento da bola para o ataque, na tomada de decisão. Scolari emulou o que Heynckhes conseguiu com o Bayern. O resultado foi exactamente o mesmo.

Uma equipa com talento e prestigio contra uma equipa com talento e fome. Prevaleceu, em ambos casos, a segunda fórmula. Espanha, tal como o Barcelona, nunca entrou no jogo e foi derrotada de forma clara, concisa e inapelável por um rival que não precisou de recorrer ao anti-jogo, a estratagemas defensivos e à sorte.

 

Depois da exibição memorável contra o Uruguai, essa Espanha desapareceu do mapa.

Contra a Nigéria sofreu muito mais do que se esperava. Frente à Itália beneficiou, como em 2008, do factor sorte depois de ter reequilibrado no prolongamento um jogo que não conseguiu dominar nos noventa minutos. Aos italianos faltou-lhe a coragem e eficácia na tomada de decisão nos metros finais. Mas o Brasil sabia que esse não seria um problema. Neymar, que aos europeus sempre gerou dúvidas, emerge deste torneio como uma figura consensual. Foi a alma e o motor ofensivo do Brasil, movendo-se pelo campo com autoridade, oferecendo golos e disparando sem medo. O Brasil começou a ganhar o jogo no momento em que decidiu não ter medo do rival, uma arma psicológica que os espanhóis utilizam muito bem com alguns rivais que procuram adaptar o seu modelo de jogo ao seu. Paulinho e Luis Gustavo tinham outra missão. Como fizeram em todo o torneio (e como o fazem nos seus clubes), morderam, morderam e morderam. Com eles por perto a bola não durava um segundo no pés dos espanhóis. As subidas dos laterais e a velocidade de acção de Thiago e David Luiz cercava por completo o esquema habitual de Del Bosque.

O seleccionador espanhol não encontrou solução para o problema. Nem a entrada de Navas nem a de Villa resolveram a equação. Foi sempre tudo demasiado lento, impreciso e previsível. Sem tempo para pensar, sem espaços para mover-se, os espanhóis viram-se atados por uma teia da qual têm sempre dificuldade em sair. Do outro lado a velocidade era a principal arma com que o Brasil deixava os rivais em sentido. Arbeloa e Piqué foram admoestados por faltas sobre um supersónico Neymar. O primeiro livrou-se da expulsão e foi substituído porque parecia evidente que não sobreviveria a outra. Piqué não teve melhor sorte. O astro ascendente brasileiro aplicou-lhe a mesma fórmula de Cristiano Ronaldo e o jogador que tanto prometia em 2011 voltou a cair no mesmo erro e a comprometer, ainda mais, as aspirações da sua equipa.

Nessa altura já David Luiz tinha sabido ler a ideia de Pedro e Neymar ampliado a vantagem. Nesse golo colocou-se em prática o verdadeiro perfume canarinho. Oscar, sabedor que precisava de guardar a bola uns segundos para permitir a Neymar sair do fora de jogo, rodou sobre si mesmo em vez de procurar um passe mais fácil. Foi suficiente para romper a linha defensiva espanhola e oferecer ao número 10 o merecido golo. Casillas já tinha impedido por duas vezes a festa brasileira. Mas os milagres não seriam suficientes essa noite.

A partir desse momento Espanha rendeu-se. Sérgio Ramos sacou do coração onde já não havia cabeça para marcar um penalty infantil de Marcelo sobre Navas mas falhou-o. Fred ampliou a vantagem depois de mais uma delicatessen de Neymar (simulando um remate que não existiu) e o Brasil dedicou-se a bailar os campeões do Mundo com uma autoridade impensável. Reduzidos, fisica e psicologicamente, os espanhóis apenas procuraram resistir à goleada que parecia inevitável se, num acto quase de misericórdia, o Brasil não tivesse reduzido as rotações e Scolari tivesse preferido Jadson a Lucas Moura para dar a estocada mortal sobre um rival ferido.

 

Em 2002, Scolari foi campeão com uma equipa memorável. O seu esquema táctico em 3-4-3 dava todo o protagonismo a três Ballons D´Or (Ronaldo, Rivaldo e o futuro Ronaldinho) e à velocidade dos seus laterais (Cafú, Roberto Carlos) mas o verdadeiro truque estava na sala de máquinas, uma defesa oleada e um meio-campo de operários. Dez anos depois, o seleccionador repetiu a fórmula. Já não conta com três estrelas mundiais na frente, mas em Neymar, Fred e Hulk encontrou jogadores esfomeados e com sacrifício físico para pressionar até ao suspiro final. Em Marcelo e Dani Alves tem os sósias perfeitos dos seus laterais originais e com Paulinho, Luis Gustavo, Óscar e Hernanes, opções suficientes para aplicar a sua máxima no meio-campo. O triunfo, a todos os títulos inesperado, será um colchão mental importante para enfrentar o ano que falta. Espanha saberá voltar ao seu melhor depois de lamber as feridas. Selecção de jogadores inteligentes e ambiciosos, passará por um processo de selecção inevitável de quem sabe que há muito talento a bater à porta, mas no próximo mês de Junho arrancarão o Mundial como máximos favoritos. Um estatuto que merecem depois de seis anos memoráveis. Mas na noite de 30 de Junho de 2013 o Brasil demonstrou ao resto do Mundo como é possível desbloquear esta máquina de futebol sem recorrer ao lado mais negro do jogo. Resta saber quantos países terão os meios, a fome e o saber de reproduzir esse esquema. No planeta futebol actual não são muitos os países que podem permitir-se com sonhar com uma exibição perfeita como a dos canarinhos. Uma exibição para a posteridade! 



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 28.06.13

Carlo Ancelloti chega ao Santiago Bernabeu com um curriculo profissional que nada deixa a invejar o de José Mourinho. Volta a ser a sua sombra, depois da sua etapa no Chelsea. Com ele traz um novo conceito de jogo, onde a velocidade e a vertigem serão progressivamente substituídas pela pausa e o jogo colectivo. Uma nova etapa para um clube em constante conflito existencial.

Não há treinador italiano que melhor represente a mudança de guarda dos anos dourados da década de noventa.

Nenhum capaz de manter a frescura visual dessa geração nas suas equipas sem demasiados malabarismos tácticos. As equipas de Ancelotti não são nenhum puzzle. Pelo contrário, o seu esquema roça praticamente o básico. Posicionamento horizontal, organização defensiva, trabalho na medular e liberdade para dois ou três homens de ataque. Nada de contra-golpe, nada de velocidade constante. As equipas de Ancelotti movem-se em campo como o dinamo preferido de Arrigo Sacchi fazia em San Siro. Com a tranquilidade de quem sabe que chegará ao seu objectivo.

O técnico italiano popularizou na viragem do século XX o 4-3-1-2. Um modelo que, desde então, tem sido sinal de identidade do Calcio.

Com a Juventus, onde sucedeu à figura imensa de Marcelo Lippi, a jovem promessa dos bancos italianos herdava uma equipa com muito trabalho no meio-campo e pouca criatividade. Ignorando o 3-4-3 da última etapa de Lippi, preferiu reforçar a linha defensiva com o modelo de quatro homens aplicado por Sacchi, o seu grande mentor. Depois colocou Davids, Conte e Tachinardi no apoio a Zidane, Del Piero e Inzaghi, com o francês com liberdade total de movimentos e "Il Pinturrichio" como avançado móvel no ataque. No final do ano mudou-se para Milão onde tomou a decisão mais importante da história recente do futebol italiano. Fiel ao seu 4-3-1-2, Ancelotti manteve Rui Costa como o seu trequartista, atrás da dupla Shevchenko-Inzaghi. Com Ambrosini/Albertini e Gattuso disponíveis para dois lugares, parecia não haver espaço para o promissor Andrea Pirlo. Mas o jovem, que tinha estado emprestado no Brescia, era bom de mais para ser suplente do internacional português e Ancelotti recuou-o para a posição de regista. Uma manobra táctica decisiva que lhe valeu o seu único Scudetto, duas Champions League ganhas e uma final perdida, inesperadamente, em penalties. O seu modelo táctico permaneceu quase inalterado quando se mudou para Londres, depois de quase dois anos calamitosos pós-Mourinho. Aí voltou a fazer uso do seu 4-3-1-2, reconvertendo Malouda como médio interior, ao lado de Lampard e Essien, por detrás de Ballack, Drogba e Kalou na linha de ataque. Com essa equipa conseguiu algo histórico que nem o Special One logrou (vencer liga e taça no mesmo ano) mas na Europa o Chelsea não impressionou e a eliminação aos pés do Inter de Mourinho deixou marca. Despedido por Abramovich, reencontrou-se em Paris com um novo projecto a que voltou a aplicar o seu velho conceito de jogo, desdobrado ocasionalmente num ainda mais clássico 4-4-2, com Ibrahimovic, Lucas e Lavezzi como os três jogadores mais apertados e Pastore, Matuidi e Verrati a fecharam a linha de meio-campo.

 

A chegada de Ancelloti ao Bernabeu é um sonho antigo de Florentino Perez.

O presidente do Real Madrid esteve perto de o contratar em 2009, mas sob indicação de Jorge Valdano, acabou por ser Manuel Pellegrini o escolhido. Cinco anos depois, encerra-se o ciclo. Ancelotti é um ganhador. Tem um currículo que inclui ligas em três paises diferentes (o mesmo número que tinha Mourinho quando chegou a Madrid) duas Champions League (as mesmas que tem Mourinho) e um perfil muito mais apaziguador e silencioso que o português. Com Ancelotti ninguém espera ver uma guerra aberta com a imprensa e com o balneário. Habituado a líder com presidentes com carácter (Agnelli, Berlusconi, Abramovich) e com celebridades do futebol europeu (Zidane, Del Piero, Shevchenko, Rui Costa, Drogba, Lampard, Terry, Ibrahimovic), a "Carletto", não lhe faltará experiência para lidar com a facção rebelde de Iker Casillas e Sérgio Ramos ou os clãs regionais formados à volta dos jogadores portugueses, alemães e espanhóis mais afins a Mourinho. Não será uma missão fácil num clube reconhecido pelo poder excessivo que os jogadores sempre procuraram conquistar à custa do papel do treinador. Mas não existia, no mercado de técnicos, um perfil mais adequado para a missão do que o seu.

Em campo a mudança de Mourinho para Ancelotti será ainda mais evidente. Fiel ao seu desenho táctico, a mutação do 4-2-3-1 habitual de Mourinho para o 4-3-1-2 adequa-se principalmente ao over-booking de jogadores medulares e criativos do plantel merengue. A chegada do genial Isco abre a porta a um duelo apaixonante com Mezul Ozil pela posição de criativo principal desta nova formação blanca. Atrás, os três lugares do meio-campo deverão ser distribuídos entre Xabi Alonso, Modric e Khedira, deixando a Cristiano Ronaldo e Benzema as vagas no ataque. O português como elemento mais livre, móvel, capaz de mover-se entre as alas para aparecer em áreas de finalização e Benzema, peça essencial no jogo combinativo habitual nas equipas de Ancelloti. Um desenho táctico que raramente utiliza extremos puros o que pode ser um problema para o jovem Jesé mas nem tanto para Di Maria, que tanto pode incorporar-se como elemento da linha de ataque como eventualmente recuar para a posição de interior direito graças à sua tremenda capacidade de trabalho. Só a possível - mas complexa - chegada de um jogador como Gareth Bale poderia levar Ancelloti a procurar por um mais clássico 4-3-3 com Ronaldo e Bale nas alas, acompanhados de Benzema e Ozil, Isco, Alonso, Khedira, Di Maria e Modric a competirem por três lugares, um problema sério para qualquer gestor humano resolver.

 

A nova abordagem de Ancelotti, se o italiano se mantiver fiel aos seus princípios tácticos, aportará ao Real Madrid um jogo mais colectivo e elaborado, onde o papel dos laterais (Carvajal e Arbeloa pela direita, Marcelo, Coentrão ou o seu eventual substituto pela esquerda) é fundamental graças ao músculo colocado no meio-campo para tapar qualquer falha de marcação colectiva. Um tridente composto por jogadores como Ozil, Isco, Alonso e Modric pode oferecer uma dinâmica ofensiva apaixonante, particularmente se associada ao apetite goleador de Ronaldo e a um Benzema possivelmente motivado pela presença de Zidane no banco e a ausência de Higuain como competidor directo. Se o Barcelona parte como claro favorito para a próxima época, a escolha de Ancelotti é uma manobra inteligente de Perez para manter o Real Madrid e o seu plantel de sonho perto, muito perto, da máquina ofensiva blaugrana.



Miguel Lourenço Pereira às 22:02 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Terça-feira, 18.06.13

Enquanto os veteranos espalham classe e uma mobilidade que alguns pensavam perdida na memória, os mais jovens demonstram que estão preparados para dar o salto. Não existe na história do futebol uma sucessão de gerações com tanta qualidade em todos os processos do jogo. Nas posições nucleares, o aparecimento a cada nova geração de um jogador de nível máximo é o sinal mais evidente que a hegemonia da Espanha, para lá dos títulos que possa ou não ganhar, não tem fim à vista.

É fácil fazer as contas para perceber que a dupla campeã da Europa e actual campeã Mundial é, por direito próprio, a máxima favorita das próximas competições internacionais. Se alguns dos seus protagonistas principais já falam em reformar-se, eventualmente depois do Mundial do Brasil, os adeptos espanhóis sentem-se tranquilo. Basta olhar para baixo, para os mais novos, para os que vêm a seguir. Duplos campeões da Europa de sub-21, campeões da Europa de sub-19 e flamantes candidatos a vencer o próximo Mundial da categoria sub-20, ninguém questiona o presente de Espanha. Nem o seu futuro.

Essa forma de hegemonia eterna não é fruto do acaso. Há duas décadas os clubes despertaram. O impacto dos Jogos Olimpicos de 1992 foi imenso na mentalidade espanhola. Ao crescimento económico seguiu-se um crescimento emocional de um povo marcado por décadas de ditadura e uma transição desenhada para agradar a gregos e troianos. Durante essa etapa, o futebol espanhol era o dos clubes, o da luta Real Madrid e Barcelona, mas também o dos símbolos regionais. A selecção era uma amálgama de identidades sem ideias próprias que procurava imitar o que estivesse na moda, fosse a dureza alemã ou o cinismo argentino. Eram os dias da Fúria, uma equipa com alma mas sem talento, com garra mas sem ideias. A tal que chegava a cada competição com o rótulo de eventual surpresa para acabar, inevitavelmente, por falhar nos momentos decisivos. Nos momentos onde é preciso ter uma ideia de jogo a que ser fiel.

O futebol espanhol aprendeu a lição. Desde a federação começou a trabalhar-se no futebol de base. Os clubes foram incentivados a seguir pelo mesmo caminho. Uns fizeram-no com mais afinco que outros. O Barcelona e o Athletic Bilbao foram excelentes exemplos de aproveitamento da formação enquanto que os clubes de Madrid preferiram outra abordagem. O tempo demonstraria quem tinha razão. Mas não foi só no treino e formação de jovens jogadores que se desenhou o futuro dourado do futebol espanhol. A nível nacional, de forma quase transversal, adaptou-se um modelo de jogo similar, um estilo de posse comum, de cultura pelo respeito do adversário e pelo conhecimento táctico das matrizes do jogo. Mais do que formar jogadores, em Espanha formaram-se jovens adultos, com capacidade mental para superar qualquer adversidade. Uma capacidade que faltou a tantos dos protagonistas da etapa da fúria e que nos momentos de maior pressão fez a diferença. O clique ganhador, a assunção de sentir-se superiores na sua forma de jogar, passos fundamentais para transformar o sucesso da base no triunfo da cúpula pirâmide.

 

Xavi-Fabregas-Thiago.

Iniesta-Mata-Isco.

Busquets-Martinez-Illarramendi.

A sala de máquinas do futebol espanhol é a melhor do mundo no presente. Mas também já a é no futuro imediato e no futuro mais distante. Não existe, a nível internacional, um tridente de jogadores da mesma geração tão capazes de assumir o controlo de um jogo e de pautar o seu ritmo como sucede com três gerações consecutivas de heróis espanhóis. A titularidade da selecção principal de Del Bosque é intocável. São os jogadores que Guardiola reinventou dentro do modelo desenhado entre Cruyff e Aragonés. Mas quando faltarem, os espanhóis sabem que há dois futebolistas por posição preparados para assumir o seu lugar sem que se note minimamente a diferença. Em qualquer selecção do Mundo actual, Thiago-Illarrramendi-Isco seriam titulares. Fosse o Brasil, Itália, Inglaterra, Holanda, Argentina ou Portugal. E no entanto, são apenas a terceira escolha em Espanha porque o génio de Mata, de Fabregas e de Javi Martinez os antecede, por idade, apenas e só. Não há melhor forma de coroar o sucesso de uma ideia do que sentir que está garantido o seu futuro. No caso da Espanha, a próxima década está entregue a futebolistas desenhados para ganhar, mas ganhar à sua maneira.

A selecção de sub-21 joga ao mesmo jogo que a equipa principal, mas fá-lo melhor. Com mais fome, com mais verticalidade, com mais apetite pelo golo. Eles são o que os principais eram em 2008, quando Aragonés acabou o seu projecto de forma única. Pelo meio, uma série de futebolistas que cresceram com essa fome de afirmarem-se internacionalmente e que se encontram entalados entre duas equipas de sonho. Nove jogadores para três posições que, no fundo, são apenas um curto exemplo da extensão da hegemonia espanhola.

Para cada Sérgio Ramos há um Iñigo Martinez. Para cada Arbeloa há um Carvajal ou Montoya. E um Moreno, um Koke, um Muniain ou Rodrigo. E todos esses trabalhadores talentosos como Nacho, Bartra, Herrera, De Marcos, Camacho, Aguirretxe, Parejo, Michu e os génios precoces de Canales, Jesé, Deulofeu ou Oliver. São tantos os nomes individuais que o problema é eleger. Mas aqui, apesar de tudo, não é a individualidade que faz a diferença. É o facto de todos eles pensarem, agirem e jogarem debaixo de uma ideia comum. O ritmo na equipa principal pode ter baixado, a frieza e o cinismo que foram imagem de marca de Del Bosque quando esteve inicialmente no Real Madrid fez-se sentir na África do Sul e na Polónia e na Ucrânia. Mas a qualidade dos jogadores e o valor desse espírito determinado e ofensivo permite pensar que é praticamente impossível não contar com a Espanha com máximo favorito para os próximos cinco grandes torneios internacionais.

 

Poucas selecções sub-21 jogaram na história como esta versão da selecção espanhola. Capaz, muito provavelmente, de vencer a maioria dos jogos disputados contra selecção principais do planeta futebol. Uma qualidade tal que permite, por momentos, esquecer que a sua antecessora, também campeã europeia, era quase tão boa. E que as suas rivais são a base habitual de projectos desportivos de larga projecção como acontece com Alemanha, Itália ou Holanda. Enquanto em Portugal se descobre, a duras penas, a consequência de abandonar-se o projecto de formação que esteve por base no sucesso dos anos noventa, Espanha demonstra uma vez mais saber qual é o caminho. O do sucesso. Para o qual tem a chave. Uma chave que parece ser de cópia única.



Miguel Lourenço Pereira às 18:26 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Segunda-feira, 17.06.13

Xabi Alonso é um notável jogador. Mas foi preciso lesionar-se para que Vicente del Bosque tivesse encontrado a coragem de fazer o mais difícil. Voltar à origem. A exibição memorável da selecção espanhola contra o Uruguai fez o relógio voltar atrás no tempo, aos dias apaixonantes de Luis Aragonés e uma equipa que encantava pela sua capacidade de fazer da posse de bola uma arma de ataque. Pelo seu talento em recuperar a bola tão bem como a movia por um terreno de jogo onde mandava a criatividade e o espírito ofensivo. Um Mundial e um Europeu ganhos sem convencer depois, a Espanha volta a ser ela mesma. E essa é a melhor notícia!

 

Em 2008 o futebol despertou para o fenómeno tiki-taka.

Ainda não tinha chegado Guardiola e o seu projecto de renascimento da filosofia de rondo, pressão asfixiante e precisão ofensiva. A Europa de clubes ainda vivia sob o signo da Premier League, do seu modelo físico, de transições rápidas, de jogo vertical e apoiado e da sua dificuldade em fazer da posse de bola uma arma para defender e atacar porque a sua resistência física estava preparada para esse modelo. E chegou o Europeu. O modelo que a Espanha tinha ensaiado nos meses anteriores funcionou. Era a mesma ideia defendida por Aragonés desde 2004, o mesmo que entusiasmou na fase de grupos do Mundial de 2006 mas que não aguentou com a matreirice de Zidane, desejoso de uma despedida à altura. Aragonés sobreviveu a uma profunda guerra no balneário da selecção. Colocou todo o seu prestigio, que era muito, para vencer o braço de ferro com o que ele considerava como um sério problema. Raul, Michel Salgado e companhia foram afastados da selecção. Começava uma nova era.

Aragonés desenhou uma Espanha de raiz.

Um 4-5-1 (ou 4-3-3, como se queira ver), em que a associação no meio-campo de quatro jogadores imensamente talentosos era compensada defensivamente com o trabalho imenso de um só médio recuperador. O compromisso era conseguido porque todos os restantes elementos da equipa sabiam que, sem bola, deveriam realizar uma pressão constante para fechar espaços, morder os rivais e recuperar o esférico. Com a bola podiam descansar, sim, mas sobretudo atacar. Procurar aproveitar as falhas na movimentação do rival, surpreendido pela perda de bola tão rápida, para criar perigo. Jogar com os olhos postos na baliza contrária. Um modelo vertical, mas apoiado na capacidade de circulação horizontal de uma geração de futebolistas maravilhosos. Um modelo que sabia que tinha pontos fracos mas que os transformava em fortaleza quando tinha a bola nos pés. Dessa forma, Aragonés conseguiu juntar numa mesma equipa a Villa, Xavi, Iniesta, Torres, Cazorla ou Fabregas com Senna como elemento mais recuado. As aparições de Xabi Alonso, David Silva e De la Red confirmavam a excelência de uma geração que merecia acabar com uma série de 44 anos sem títulos. Com Aragonés o título chegou porque Espanha foi uma equipa ofensiva, uma equipa autoritária, uma equipa que sabia defender no campo do rival e fazer da posse de bola uma ferramenta para encontrar o atalho mais rápido para o golo. Essa foi a melhor versão da história do futebol espanhol. A selecção que deixou saudades.

 

Aragonés tinha queimado o seu prestigio na sua luta interna com a influência de Raúl e do grupo de adeptos do Real Madrid.

Na federação, Fernando Hierro, tinha encontrado já o seu substituto antes do torneio sequer ter dado o pontapé de saída. Com a vitória da selecção, houve um momento de embaraço. Finalmente, Del Bosque entrou para comandar uma nau ganhadora. Tinha o duro objectivo de estar à altura do que parecia ser um feito histórico. Mas o trabalho de casa estava feito. Por Aragonés, que tinha deixado um balneário exemplar e uma rotina de jogo reconhecida internacionalmente e admirada. E pelos clubes, que apostando na prata da casa lhe deixaram à disposição uma geração memorável. Particularmente beneficiou-se do génio de Guardiola, que levou a ideia de Aragonés a outro plano, com a ajuda de um tal Messi. O técnico catalão lançou, do nada, as figuras de Busquets e Pedro, futebolistas que Del Bosque rapidamente introduziu no seu modelo. Mas a sua selecção era diferente. O 4-5-1 (ou 4-3-3, sem alas) transformou-se num 4-2-3-1. Alonso, habitual suplente com Aragonés, tornou-se em titular indiscutível ao lado de Busquets, o sucessor de Senna. Essa transformação forçou o treinador a retirar um dos muitos criativos que tinham espalhado magia na Áustria. Xavi e Iniesta eram figuras nucleares, Torres e Villa os goleadores e Pedro um joker precioso.

Inicialmente Del Bosque transformou a Villa em extremo e em Pedro no seu suplente preferencial. Depois abdicou de Torres, colocou Villa no centro e definitivamente entregou a titularidade ao canário. Até que a lesão do asturiano e a má forma do madrilenho lhe permitiu provar a fórmula do falso nove, com Cesc Fabregas ou David Silva no eixo do ataque. Essas mudanças não eram só de cromos.

Geniais, todos, eram jogadores com uma visão de jogo diferente da que tinha Aragonés. Espanha horizontalizou-se. Passou a usar a bola para defender mais do que para atacar. Longos períodos de trocas de bola em posições cómodas permitiam a aproximação da linha defensiva ao ataque, defender mais longe da baliza de Casillas e a incorporação dos laterais ao ataque. Mas também ralentizavam o jogo, davam ao rival a possibilidade de defender ocupando os espaços, procurando a sua oportunidade. Foi assim que a Suíça venceu o primeiro jogo do Mundial que a Espanha ganhou com a pior média de golos marcados da história. Apenas um por jogo na fase a eliminar, sofrendo em todos os jogos por criar perigo real e suportando com sorte e mérito as raras oportunidades dos contrários. As de Ronaldo, Cardozo, Ozil e Robben. Era um modelo mais pragmático, mais italiano, menos ofensivo e estilizado que o de 2008. Mas a vitória escondeu o debate e a renovação de alguns jogadores deu a sensação de um futuro brilhante. Dois anos depois, na Polónia, a equipa abdicou definitivamente do avançado, voltou a oferecer uma versão que até aos próprios espanhóis começava a aborrecer e depois de mais uma série de jogos sem entusiasmar, encontraram-se na final com uma Itália quase infantil a quem deram um impressionante correctivo. A mensagem estava clara. Quando Espanha queria dar uma velocidade mais ao seu jogo, era imbatível. Mas raramente se dava a esse trabalho.

 

No duelo com o Uruguai, o de abertura da Confederações, Del Bosque não tinha Alonso.

Podia ter substituido o basco por Javi Martinez, autor de uma época memorável na mesma posição em Munique. Não o fez. Decidiu aceitar que a sua versão de quatro anos poderia ser mais fácil de controlar, por previsível, por monótona e por horizontal, por uma equipa habituada a defender, esperar e jogar nas costas do rival. O seleccionador espanhol lançou então Fabregas, mas na posição em que jogava com Aragonés, escorado ao lado esquerdo do ataque, mas não como extremo, em sucessivas trocas de posição com Iniesta, abrindo o carril a Jordi Alba. Para fixar os centrais uruguaios e empurrá-los para a sua área, voltou a optar por um avançado puro, Roberto Soldado, mantendo Pedro como falso extremo direito, um jogador especializado em diagonais e remates impossíveis. Atrás, Xavi mantinha a batuta do jogo, com mais jogadores a moverem-se à sua volta e, portanto, mais linhas de passe possíveis e um maior dinamismo ofensivo. Busquets, como Senna, tinha mais do que capacidade para controlar o aspecto defensivo do jogo, apoiado muito de perto por uma linha defensiva alta.

Com essa aposta, esse 4-5-1 tão ofensivo, Espanha voltou a deslumbrar. O seu jogo ofensivo voltou a ser vertical, rápido, incisivo e com a baliza como alvo preferencial. A posse de bola, imensamente superior à do rival, tinha encontrado um sentido pragmático e não apenas o de uma arma física de descanso, à espera que a marcação defensiva do rival cometesse o habitual erro para o golo da praxe. Era, de certa forma, o voltar às origens. Alguns dos nomes próprios tinham mudado mas a essência era definitivamente a mesma. E muito distante do paradigma habitual de Del Bosque. Um modelo que pode voltar a ser colocado de lado quando Alonso esteja em condições de jogar. Ou, e isso seria uma grande notícia, um modelo recuperado para atacar o segundo título mundial consecutivo, transformando a Espanha na terceira selecção da história capaz de manter o troféu em casa. Uma Espanha com o formato de Del Bosque já seria, inevitavelmente, a máxima candidata ao troféu. Com o desenho original de Aragonés o seu favoritismo é ainda maior. E os adeptos que perdeu durante anos com a sua viragem mais conservadores, voltarão de braços abertos. Porque este foi o formato que permitiu um dia pensar que havia realmente algum paralelismo com a mítica camisola amarela do Brasil sob o céu silencioso do México.



Miguel Lourenço Pereira às 00:22 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Terça-feira, 11.06.13

Existem quatro correntes distintas sobre a forma como deve ser desenhada a estrutura de uma selecção nacional. Quatro visões, algumas delas bastantes distanciadas, que contam com as suas virtudes e riscos. São pontos de vista que necessitam também de adaptar-se à realidade local de cada projecto e ás inevitáveis crises geracionais que afectam todas as nações do mundo do futebol. O caso português já viveu em vários desses extremos. Agora continua a subsistir, com Paulo Bento, o mais recente dos modelos, o familiar.

 

Do grupo fechado de Scolari à liderança dividida no Euro 84. Da equipa forjada com base em dois clubes, em 66, à geração dos melhores que navegavam pelo futebol europeu. A história do futebol português é rica nas variantes de como se desenhou o espírito do chamado Clube Portugal. Já foi coisa de dez jogadores de dois clubes só, para potenciar os laços rotineiros e a influência clubística. Já se jogou ao ritmo de interesses pessoais, procurando colocar os melhores em cada momento. Já se confiou nos melhores jogadores, independentemente do seu estado de forma, simplesmente porque eram muito bons. E agora Portugal revisita o conceito de núcleo fechado, de família, inaugurado por Scolari em 2003.

O caso português não é singular. Todos os países de topo do futebol mundial passaram, com os seus mais e os seus menos, por todos estes modelos ao longo da sua história. Em Espanha vive-se actualmente o apogeu da ideia que em Portugal existiu com a Geração Dourada. Os melhores jogam, sempre, independentemente de como estão ou de se há novos futebolistas no horizonte. Mas em Espanha também já se bailou ao som dos interesses dos clubes, também já se tentou criar uma família fechada, com Clemente na década de noventa e houve uma época em que, pura e simplesmente, jogavam os que estavam em melhor forma.

Para um seleccionador - e até o nome tem truque, porque seleccionar e treinar não é mesmo e até aos anos oitenta muitas selecções tinham dois profissionais para dois postos distintos - é complicado eleger o modelo a seguir.

Se convocar sempre os jogadores que estão em melhor forma - algo que muitos defendem - corre-se o risco de não ter nunca um núcleo estável porque a forma é, como já se sabe, volátil. No entanto, ter sempre os jogadores na melhor condição física e psicológica pode garantir que a equipa que sobe ao campo está motivada e preparada para todos os desafios. Montar um combinado nacional à volta dos maiores talentos individuais, também gera um problema. Podem ser os melhores, os que mais aportam e melhor entendem o jogo mas, muitas vezes, não estão nas melhores condições e surge o fantasma de jogar por estatuto. O modelo aproxima-se mais ao de um clube, com um núcleo fechado de estrelas e suplentes de luxo, ignorando muitas vezes a principal vantagem de uma selecção: poder ir mais além nas escolhas. Também há os que preferem montar um esquema baseado no sucesso individual de um ou dois clubes, trazer o máximo número de jogadores desses emblemas e complementar a convocatória com talentos individuais. Ganha-se em estabilidade e rotinas, algo que falta no curto espaço de tempo de preparação para os jogos internacionais, mas perde-se em novidade e inovação. Por fim há o modelo mais recente, o de criar um grupo fechado, com jogadores bons e medianos, conscientes todos do seu lugar, onde a competitividade existe mas parte de bases estabelecidas. Onde o treinador é técnico, pai e sargento. Onde os interesses de um grupo se sobrepõem aos individuais mas onde a porta está quase sempre fechada ao resto do mundo. Esse é o modelo português da última década.

 

Nos anos 60 a selecção das Quinas era formada por jogadores do Benfica e do Sporting, com a ocasional incorporação de futebolistas do Belenenses, FC Porto e Setúbal. De aí passou-se ao período pós-25 de Abril, onde cada clube queria controlar a selecção e para agradar a gregos e troianos convocavam-se individualidades e não se pensava no grupo. Com os meninos de ouro forjou-se um grupo de vinte jogadores que, passasse o que passasse, tinham lugar garantido. Foi esse o cenário que entrou em colapso em 2002, no Mundial do Japão e da Coreia do Sul, quando parte do balneário estalou com o favoritismo atribuído por Oliveira a Baía sobre Ricardo, ao lesionado Figo e a um questionadíssimo Pauleta. Quando chegou Scolari, esse era o monstro que tinha de domar, para triunfar no Europeu.

O brasileiro fez a sua limpeza. Manteve ao seu lado o núcleo duro da selecção dos anos noventa (Figo, Fernando Couto, Rui Costa, Paulo Sousa) mas afastou os mais polémicos Baía, Jorge Costa e o suspenso João Vieira Pinto das suas equações. Com os mais indomáveis Sérgio Conceição e Abel Xavier teve os seus problemas. Para compensar, começou a chamar regularmente jogadores de low profile que fizessem o core da sua família. Chegaram os mais novos (Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Miguel, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo) e os que traziam experiência, como Costinha, Nuno Valente, Maniche. A esses juntou obreiros prontos a obedecer a qualquer ordem mas sem projeção internacional como foram Luis Loureiro e companhia. E chegou Deco, o jogador que quebrou não só o tabu dos naturalizados mas também a ideia de que os jogadores da Geração de Ouro actuavam por decreto. Rui Costa foi a sua vitima colateral.

Scolari criou um núcleo fechado mas aproveitou-se, como Otto Gloria, do trabalho de dois clubes, a juventude das promessas do Sporting e a solidez dos jogadores do FC Porto de Mourinho. Foi essa a sua base durante o seu mandato. Mas sem renovação, sem espaço para a novidade, o grupo estagnou, envelheceu e quando o brasileiro disse adeus, deixou uma equipa sem líder, decadente e com um hábito de trabalho mais similar ao de um exército do que a uma selecção nacional. Queiroz tentou lutar contra esse mundo, abriu a convocatória a outros jogadores, mais jovens, mais promissores, capazes de trazer algo novo, mas nunca conseguiu controlar um balneário saudosista do modelo Scolari, particularmente porque interessava ao homem que representava a maioria dos seus jogadores-chave, Jorge Mendes.

Para isso chegou Paulo Bento. Um treinador razoável, que noutro cenário nunca seria seleccionador e que foi um dos jogadores que sofreu com a nova ordem de Scolari. Mas a quem o papel de sargento assentava bem. Bento herdou uma pool de jogadores muito pior do que a que tinha o brasileiro. Desde o Mundial da Alemanha que a aposta na formação tinha desaparecido, que não havia jogadores para substituir quem tinha partido. Um buraco etário imenso que continua à espera que a geração que actualmente tem entre 17 e 22 anos possa substituir.

Consciente da situação, o seleccionador optou por voltar aos principios mais básicos do scolarismo.

Independentemente da qualidade individual, formou um grupo fechado de vinte jogadores. Boa ou má forma, houvesse ou não melhores jogadores fora do núcleo, esses eram os seus espartanos. Deu o protagonismo mediático à sua estrela individual e rodeou o onze base de suplentes sacados da carteira de Mendes. Muitos deles sem nível para uma selecção, ainda assim decadente, mas que cumpriam os serviços mínimos que se lhes eram exigidos. Isso explica que os Micael, Oliveira, Amorim, Sereno, Zé Castro, Almeida, Eduardo e companhia sejam convocados com regularidade. Os problemas começaram a surgir quando até as opções para o onze se foram reduzindo. Sem jogadores de nível para posições chave como os centrais, médio defensivo, criador de jogo e ataque, o modelo tornou-se obsoleto. Mas nem assim Bento mudou o seu rumo. Manteve-se fiel a um esquema táctico para o qual não tem jogadores e preferiu chamar mais legionários para as posições deficitárias, brutalizando a equipa e tornando-a mais amorfa. Boa para torneios curtos mas um problema sério durante uma temporada onde se exige mais do corpo aos jogadores de topo para estarem frescos nos jogos importantes.

Só nos últimos encontros Bento foi forçado a confrontar-se com a realidade. O seu grupo tinha falhas importantes e escassez de meios. Depois do Euro 2012 começou a aparecer - finalmente - outro perfil de futebolistas. São jogadores que terão de aceitar as regras da família mas que sabem que não têm muita concorrência para o lugar. O descarte de Quaresma, Tiago, Manuel Fernandes, Rolando e Ricardo Carvalho abriu ainda mais as feridas na defesa e no meio-campo. Sereno, Zé Castro, Ricardo Costa, Ruben Micael, Carlos Martins e Varela não são, claramente, a solução. Mas são os homens de confiança. E por isso aparecem em cada lista. O aparecimento progressivo de futebolistas como Vieirinha, Luis Neto, Pizzi ou André Martins é um sinal positivo para o futuro imediato. Pode não ser suficiente para chegar ao Brasil com um plantel coerente e afastado desse espirito autoritário que tão bem caracteriza Bento, um homem que tacticamente é mais um problema que uma solução, mas indica que o futuro tem opções que não podem ser filtradas por não pertencerem a determinado grupo ou agente. Atrás deles vêm os André Almeida, André Gomes, André Santos, Tiago Ilori, Wilson Eduardo, Bruma, Castro, Ricardo, João Mário das selecções jovens mas também outros eternos descartados como Bruno Gama, Paulo Machado, Eliseu, Duda, Antunes ou Vaz Tê, jogadores que podem oferecer mais do que os que vão regularmente à selecção sem pertencer a esse mundo fechado.

 

Com pouco mais de 50 jogadores de nível aceitável por onde escolher - consequência de uma péssima gestão federativa e dos clubes com o qual Scolari pactuou e da qual Paulo Bento não tem culpa imediata - é normal que as opções para os jogos decisivos de qualificação para o Mundial sejam reduzidas. Partindo do principio que, salvo lesão, os nomes fortes estarão presentes, quer tenham condições físicas e psicológicas para os duelos ou não, as vagas diminuem. É fácil perceber que nem há um modelo de clube suficientemente forte para sustentar a selecção, nem uma geração de ouro que permita esquecer a ideia de que não é necessário ter demasiadas opções para resolver os problemas. Bento tem como alternativa forjar uma selecção no Outono com os que estejam realmente bem ou manter-se fiel ao seu espírito de grupo. O ideal seria criar um compromisso entre ambas mas isso exige diplomacia, liderança e saber adaptar o sistema táctico aos recursos disponíveis, algo de que o seleccionador nacional ainda não demonstrou capacidade para ser capaz de realizar.

 

Um possível Portugal 23 para o Outono baseado apenas na qualidade individual, na aportação colectiva e no espírito colectivo (sem ter em conta, naturalmente, lesões e um estado de forma deficiente).

 

Guarda-Redes - Rui Patricio, Beto


Defesas Laterais - João Pereira, Silvio, Fábio Coentrão

Defesas Centrias - Pepe, Luis Neto, Bruno Alves, Tiago Ilori

 

Médio Defensivo - Custódio, Miguel Veloso, André Almeida

Médios Interiores - João Moutinho, André Martins, Paulo Machado, Bruno Gama

 

Extremos - Cristiano Ronaldo, Nani, Vierinha, Bruma

 

Avançados - Hélder Postiga, Pizzi, Edér

 

Alternativas (Raul Meireles, André Santos, Danny, Ricardo, Ruben Amorim, André Gomes, Antunes, Mika, Duda, Eliseu, Josué)



Miguel Lourenço Pereira às 14:11 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Segunda-feira, 03.06.13

A inclinação brasileira do Barcelona ressuscitou graças ao desejo e influência de um presidente que foi, durante anos, o homem-forte da Nike na Europa. Rossell cumpriu o sonho de trazer Neymar para a Europa e agora cabe ao craque brasileiro demonstrar que pode queimar as etapas que nenhum dos seus predecessores foi capaz, brilhar no seu ano de adaptação numa equipa desenhada para um dos seus rivais pelo trono mediático mundial.

A paixão vem de longe. De Evaristo.

Nos anos cinquenta, o brasileiro foi um dos homens mais influentes na curta passagem de Helenio Herrera pelo Barcelona. Antes de transformar-se no guru do catenaccio, o argentino notabilizou-se em Espanha como um amante do ataque romântico, como provou no Atlético de Madrid e no Barcelona. No Camp Nou contou com os golos de Evaristo para acabar com a hegemonia nacional do Real Madrid. O avançado foi o responsável pela primeira eliminação europeia dos merengues e entrou para a história do clube blaugrana. Durante trinta anos foi a grande estrela brasileira da vida do Barça que tentou com Roberto Dinamite, sem sucesso, repetir a fórmula. Foi Romário, da mão de Cruyff, que reactivou a conexão canarinha no Camp Nou. O primeiro de muitos que se seguiram. Ronaldo Nazário, no seu ano mais brilhante, e Rivaldo culminaram essa paixão. Seguiram-se erros de casting como os avançados Giovanni e Sonny Anderson e os médios Fabio Rochemback, Thiago Motta e Geovanni. Mas com Ronaldinho todos se esqueceram desses pequenos precalços. O brasileiro tinha chegado das mãos de Rossell, quando Laporta queria Beckham. O inglês foi para Madrid, o brasileiro chegou de Paris e ajudou a reescrever a história do clube. Rossell, dirigente da Nike Europa durante largos anos, foi o homem forte dessa operação. Com o génio brasileiro vieram também Beletti e Sylvinho, nomes menores mas reflexo dessa conexão canarinha potenciada por Rossell. Quando a festa acabou, a ressaca brasileira gerou pavor nos adeptos. Henrique e Keirisson, últimos suspiros dessa tentativa de procurar a próxima estrela, foram erros calamitosos. Pelo sim pelo não, Laporta nunca mais voltou a pescar no Brasil. Quando regressou ao poder, Rossell, agora como presidente, alimentava o sonho. De trazer Neymar. Para ele - e para os brasileiros - o extremo até agora do Santos é o sucessor espiritual dessa saga Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Tê-lo em Barcelona era quase obrigatório e depois de dois anos em que Guardiola mediu o impacto da sua chegada num balneário dominado por Messi e enquanto os multiplos patrocinadores do jogadores exploravam a sua imagem, ficou no ar a ideia de que era questão de tempo até Neymar aterrar em Can Barça. Até que finalmente, diante de 45 mil adeptos extasiados, chegou o novo profeta canarinho para ter Barcelona aos seus pés.

 

O grande desafio de Neymar está, precisamente, no passado da história do Barça e dos grandes clubes europeus.

Não é por casualidade que clubes de ligas como a portuguesa, holandesa, francesa ou até italiana servem de porta de entrada para as maiores promessas da América Latina. No cone sul joga-se a um ritmo, a uma velocidade totalmente radical. O espaço tem um valor distinto. As marcações são feitas a outro ritmo e, sobretudo, a outra distância. O jogador tem tempo de receber a bola, cumprimentar a sua própria sombra antes de cruzar-se com a do rival. Nesses segundos mágicos há espaço para o drible, o toque súbtil, o levantar a cabeça. O respirar.

Esse tempo tão habitual nas ligas sul-americanas não existe na Europa, sobretudo no futebol espanhol. Cristiano Ronaldo sentiu essa diferença ao mudar-se da Premier - onde a defesa é mais dura mas menos pressionante - para Madrid. Agora imaginem o choque de o fazer directamente do Brasileirão para o clube mais exigente do mundo. Neymar no Santos brilhou muito mas ganhou pouco. O palmarés do clube santino e do jogador é bastante reduzido para tanto ruído mediático. Esse é também um sinal importante. Numa liga mais fácil e menos exigente, os milagres de Neymar não foram suficientes para manter o Santos constantemente no topo. Um alerta para quem acredita num milagre imediato.

Romário e Ronaldo brilharam durante dois anos no PSV antes de chegar a Barcelona. Ronaldinho passou pela mesma etapa no Paris Saint-Germain e só ao segundo ano começou a fazer valer a sua classe. Kaká chegou novo ao AC Milan e teve tempo de crescer sem pressão, mas precisou de cinco anos para afirmar-se internacionalmente. Outros jogadores promissores, de Denilson a Adriano, ficaram pelo caminho.

Neymar terá menos segundos no seu novo relógio e menos espaço para jogar, para criar. Ele é menos um goleador e mais um assistente. Vai-se posicionar preferencialmente sobre o extremo esquerdo, devolvendo Iniesta ao miolo para colaborar com Xavi na criação. Forçando que Cesc e Villa se tornem supérfluos, que Pedro compita com Alexis e que Messi tenha uma sombra. O brasileiro está habituado a receber e decidir. Agora terá de receber e dar. Com Iniesta pode encontrar um sócio fundamental, particularmente com o apoio de Alba. Mas a sua tendência para a diagonal acabará por levar que choque com Messi no espaço. Mesmo imaginando dois génios da técnica a entenderem-se em centímetros e micro-segundos, é inevitável que o choque fisico que existiu entre Messi e Ibrahimovic se repita, agora com o argentino no meio.

 

Com Neymar o corpo técnico do Barça ganha um reforço ao 4-3-3, ganha um novo goleador para aparecer quando Messi não está. Mas também ganha uma incógnita. Poderá fisicamente manter a exigência de jogar na Europa. Terá rapidez mental e física suficiente para reaprender os seus conceitos de tempo e espaço? Será capaz de colocar o seu ego de lado - como assim tem sido nas declarações realizadas - quando chegar a hora da decisão, e procurar o passe antes do remate? Terá a habilidade suficiente para ser mais um da engrenagem blaugrana e não a ânsia, tão sul-americana, de ser o vértice do modelo? Muitas perguntas que só poderão ser respondidas nos próximos 365. Se triunfar, será o primeiro brasileiro a consegui-lo no seu primeiro ano europeu, algo que nem Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká lograram. Caso contrário, terá seguramente a exigente imprensa atrás da sua sombra e o Brasil pendente do estado moral da sua estrela em ano de Mundial.



Miguel Lourenço Pereira às 17:12 | link do post | comentar | ver comentários (9)

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