Terça-feira, 01.04.14

Anfield Road não celebra um título de liga desde o ocaso dos anos oitenta. O Calderón está à quinze anos à espera de voltar a Neptuno. Roma e Sporting, flamantes equipas nos princípios do milénio, voltam a sentir-se protagonistas. 2014 pode transformar-se num dos anos mais transcendentes do futebol europeu recente. Enquanto o dinheiro continua a sufragar títulos e transferências milionárias, permanece vivo um espaço emocional para a boa gestão desportiva demonstrar que é uma alternativa real ao mundo dos novos-ricos.

 

O mais provável é que Maio se despeça com os campeões do costume.

Manchester City, Barcelona, Juventus e SL Benfica repetirão títulos recentes. Tèem sido, inevitavelmente, figuras de proa das suas respectivas ligas. São os clubes que mais investem, os que melhor souberam contornar os obstáculos. Serão campeões justos e previsíveis. Mas este ano terão também sobrevivido a uma dura pugna com inusuais suspeitos. Com clubes que, sem as mesmas armas financeiras e argumentos desportivos, encontraram um atalho fundamental para permanecer vivos. A memorável temporada de Reds, Colchoneros, Giallorossos e Leões é a prova de que se pode vencer no mundo do futebol com meia dúzia de tostões e cabeça. Sobretudo, cabeça. A época desastrosa de FC Porto, Real Madrid, Manchester United e AC Milan, os mais lógicos rivais aos mais que possíveis ganhadores do ano, foi reflexo de uma soma de péssimas decisões desportivas. O dinheiro estava lá. Todos eles gastaram e gastaram muito. Mas não gastaram bem. Sobretudo, entregaram as rendas da equipa a homens que não estiveram a altura do desafio. Ao contrario das grandes surpresas do ano que devem o seu sucesso inesperado mais aos seus hábeis treinadores do que, propriamente, ao trabalho dos seus dirigentes. Nos bancos de suplentes o papel do treinador é habitualmente relativizado em prole das estrelas dos relvados. Mas uma constelação de grandes nomes nem sempre faz uma equipa. E muito raramente uma equipa funciona sem um grande treinador. Brendan Rodgers, Diego Simeone, Rudy Garcia e Leonardo Jardim foram, destacadamente, os melhores generais das suas respectivas ligas. Podem ganhar ou perder no final da batalha. Mas isso será um detalhe. Será culpa do abismo financeiro que existe entre os seus clubes e os rivais. Estarem a lutar em Abril por algo que os seus adeptos nem sonhariam, já é mais do que uma vitoria moral.

 

Das quatro equipas que deram cor a temporada europeia, parece mais evidente que Sporting e Roma estão descartados da corrida pelo titulo. No entanto, os seus casos sao os mais impressionantes. No caso dos romanos, a equipa deu um salto de gigante na hierarquia do Calcio. O investimento norte-americano foi ponderado e o clube continua a depender, talvez em excesso, do peso emocional de Francesco Totti, o eterno rei de Roma. Mas á volta do seu herói das arenas, Garcia montou uma equipa jovem, barata e ambiciosa que durante largas jornadas apresentou o melhor futebol do Calcio. Depois de um arranque para os livros de história, a equipa da Loba perdeu o gás e não aguentou a concorrência com uma Juventus que tem um dos melhores meio-campos do Mundo, com Pogba e Vidal como escudeiros de Pirlo. O titulo Bianconeri ja se adivinhava, a oposição romano foi a grande surpresa especialmente com o pedigree dos clubes lombardos e o grande investimento realizado pelo Napoli. Sem tanto dinheiro, sem tantos nomes sonantes, Garcia soube dar a batuta da equipa a quem podia fazer a diferença. E reduziu em campo diferenças abissais fora dele. Leonardo Jardim fez o mesmo. 

O Sporting dos últimos anos foi sempre um pálido reflexo da herança orgulhosa do Leão. Depois de dois títulos em três anos e de uma geração promissora, desmantelada cedo demais, o hara-kiri institucional do clube lisboeta foi assustador. Para muitos a recuperação seria lenta. O sucesso desportivo de 2014 apanhou todos de surpresa inclusive o flamante novo presidente do clube. Sem gastar praticamente nada no defeso, com uma equipa de jovens promessas e segundas filas, o Sporting tem sido o único clube a dar batalha ao Benfica de Jesus, o mesmo que sobreviveu a um annus horribilis para encontrar-se com uma temporada mais plácida do que podia pensar á partida. Eliminados pelos Águias depois de um memorável duelo na Taça de Portugal, os Leões mantiveram-se de pé na luta pelo titulo de liga até ao fim, algo que não acontecia há cinco longos anos. Jardim, de longe o melhor treinador do campeonato, encontrou em William Carvalho e Freddy Montero os seus melhores aliados. O Sporting pode, pela primeira vez em doze anos, acabar a época à frente do FC Porto. Com um orçamento muito inferior, mas com um treinador muito melhor. Os Dragões deitaram por terra o Tetra no dia em que trocaram o pouco espectacular mas fiável Vitor Pereira por Paulo Fonseca. O maior erro de gestão desportiva de um Pinto da Costa cada vez mais ausente e de uma “estrutura” que falhou num momento delicado no processo de escolha e de substituição (tardia) do principal (mas não único) calcanhar de Aquiles do FC Porto 2013/14. O titulo nunca foi real, a temporada do Benfica foi mais tranquila mas o que o coloca no mapa o genuíno fracasso dos azuis da Invicta é a sua incapacidade de ultrapassar uma equipa leonina que foge determinado para um pote de mais de 10 milhões de euros que serão fundamentais para salvar o clube. Contra todas as expectativas.

 

Do outro lado da barricada, o das equipas que sonham até ao fim, estão Atletico de Madrid e Liverpool. 

Os colchoneros, desde que Simeone aterrou no Manzanares, têm recuperado o sabor das vitorias.

Á Liga Europa de 2012, sucedeu-se a Copa del Rey de 2013 em casa do histórico rival, esse que nao batiam à quase quinze anos. Podia ser sonho de curta duração. Mas não foi. O arranque do Atleti na liga foi convincente, vencendo no Bernabeu e empatando em casa com o Barcelona. A caminho do sprint final, os madrilenhos lideram a classificação. Contra o Real dos 100 milhões gastos em Bale, o Real de Ronaldo, Benzema, Modric. E contra o Barcelona dos 100 milhões (e continuem a contar) de Neymar, o Barcelona de Messi, Iniesta e Xavi. Com um orçamento infimo, um plantel de gladiadores e um treinador com alma de potrero, o Calderon sonha. O Atletico está na luta pela Champions League – pela primeira vez desde 1997 – e pelo titulo de liga que não celebra, precisamente, desde essa etapa. Quando Simeone ainda capitaneava em campo o que agora ordena do banco. Não haveria campeão mais justo numa liga de milhões atirados ao lixo do que uma equipa que com negócios oportunos, jogadores da cantera e o símbolo do “Ardaturanismo” bate o pé aos grandes e devolve a ilusão dos días do SuperDepor, do Valencia campeão e da equipa do Doblete.

Em Inglaterra, o Liverpool vive um estado distinto de euforia. Dominadores absolutos do futebol ingles durante tres décadas, os Reds vivem vinte e quatro anos de desespero. Nenhum titulo de liga, dois títulos continentais e muitos sonhos desfeitos pelo caminho. A Kop espera ansiosamente pelo momento em que o Youll Never Walk Alone volte a ser entoado ao som de “We are the Champions”. Mas ao contrario dos espanhóis, o sucesso parece ter caído do céu. Depois de uma época passada sofrível, não muito diferente das anteriores, os homens de Rodgers voltam a ser protagonistas. Devem-no aos golos de Suarez, ao espírito guerreiro de Sturridge, à aparição de Sterling e ao talento de Coutinho. Devem-no à liderança de Gerrard. E a gestão de Rodgers. Aplicando os conceitos defendidos pela filosofía Moneyball, os gestores do Liverpool encontraram o caminho do arco-iris de forma surpreendente, quase como por acaso. Lideram a Premier League em Abril pela primeira vez em duas décadas. E só dependem de si para serem campeões. Nos duelos directos com os milionários de Londres e Manchester vão dar forma ao sonho. Podem ainda acabar fora dos postos Champions. Mas Anfield já so pensa no futuro que lhe relembra o passado. Nesses dias de glória perdidos no tempo em que o rio Mersey adormecia embriagado de euforia. No primeiro ano sem Ferguson no activo – com um Manchester United em autodestruição, um Arsenal eternamente inconstante e um Chelsea em reconstrução -  os Reds podem voltar a ser campeões. O mundo torce por eles.

 

No final os vencedores podem continuar a ser os de sempre e tudo o que se viveu em meses de competição acabar numa mera anedota sem repercussões futuras. Mas a gestão desportiva brilhante destes quatro clubes aponta um caminho que cada vez mais equipas vão ter de seguir para reduzir o fosso das grandes fortunas que assaltaram o futebol e abriram caminho a uma nova hegemonia reduzida a petro-dolares, rublos e velhos nobres com créditos ilimitados na banca. Os que acreditam num futebol diferente vão sempre tomar partido nesta luta. A vitoria de um, nem que seja, será celebrado seguramente em casa dos outros. Todos sabem que não lhes resta mais do que continuar a lutar.



Miguel Lourenço Pereira às 18:32 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 27.02.14

Pinto da Costa é um homem desorientado. O fracasso não é um conceito a que esteja habituado. Depois de mais de trinta anos, o presidente do FC Porto fez dos títulos e do reconhecimento global o seu cartão de visita. Mas o seu egotismo também tem as suas consequências. Para os adeptos dos Dragões a mais recente chama-se Paulo Fonseca. O presidente do clube tricampeão nacional criou um pequeno monstro e agora não sabe o que fazer com ele. Porque todos sabem que a origem de uma época de desnorte recai na mais temerária de todas as suas decisões.

Sempre incisivo com a imprensa, o mito Pinto da Costa forjou-se (também) com tiradas inesquecíveis para os jornalistas sedentos de sangue. Testemunhei em pessoa, trabalhando, como o presidente do FC Porto consegue ser criativo, perspicaz e incisivo com a imprensa. Mas no final do jogo com o Estoril, e a sua subsequente presença à porta do parking interior do estádio do Dragão, esse Pinto da Costa foi substituído por um ogre desorientado e ultrapassado pelas circunstâncias. Era a primeira derrota para o campeonato em casa dos Dragões em cinco anos. Mais um dos muitos recordes negativos estabelecidos esta temporada. Interrogado pelos jornalistas sobre o futuro do treinador, um dos inevitáveis responsáveis pela situação, ao presidente azul-e-branco faltou-lhe o jogo de cintura dos seus tempos áureos. Foi agressivo, mal-educado e ditatorial. Normalmente os grandes homens quando começam a ver o poder (ou a razão) a escapar-se-lhe das mãos transformam-se em algo parecido. E momentos como este são raros na carreira de Pinto da Costa.

Desde que assumiu a presidência do clube, em 1982, apenas por cinco vezes se viu perante esta situação. Nada mal. As duas primeiras soube resolve-las bem. Foram apostas arriscadas e pessoais que saíram mal. Tanto Quinito como o regresso de um sempre contestado Ivic não caíram bem com os adeptos e os jogadores. Duraram pouco. Para o lugar do primeiro, Pinto da Costa conseguiu resgatar Artur Jorge da sua primeira aventura por Paris. A equipa falhou o título nesse ano (apesar de estar só a um ponto da liderança no momento da troca) mas foi campeã no ano seguinte. Quatro anos depois, quando o bicampeão brasileiro Carlos Alberto Silva voltou ao Brasil, o líder dos dragões decidiu recuperar Ivic. O técnico jugoslavo esteve pouco tempo no cargo apesar de uma histórica vitória em Bremen (com uma equipa a jogar com cinco defesas). Bobby Robson, despedido pouco antes por Sousa Cintra enquanto liderava o campeonato, também não conquistou o título mas lançou as bases do Pentacampeonato. Foram dois erros graves sem grandes consequências pelo acerto e o timing na tomada de decisão presidencial. Mas também induziram o líder do FC Porto a crer na sua própria infalibilidade. E a política de riscos foi aumentando e com ela o desnorte.

 

O ponto critico no eterno mandato de Pinto da Costa aconteceu na era pós-Mourinho.

O próprio treinador sadino tinha sido uma correção de um erro inicial (previsível) chamado Octávio Machado. Mas quando o campeão europeu (e de tudo) partiu para Londres, ao presidente do FC Porto não se lhe ocorreu melhor ideia que contratar um italiano sem prestigio, experiência e flexibilidade para o cargo. O disparate Del Neri não sobreviveu à pré-época e o seu sucessor, Victor Fernandez (uma velha paixão) também não aguentou para lá do Natal. Numa espiral autodestrutiva o terceiro acto foi ainda pior. José Couceiro piorou os registos do seu antecessor e os dragões perderam o tricampeonato exclusivamente por culpa próprio. O mesmo é dizer, por consequência da megalomania de Pinto da Costa. Desde então o modelo manteve-se com um parêntesis - Jesualdo Ferreira - mais consequência das circunstâncias (o bater da porta de Co Adriaanse com a época a começar, do que por vontade própria. Tanto o holandês como, mais tarde, Villas-Boas, Vitor Pereira e Paulo Fonseca seguiram o mesmo padrão de treinadores quase desconhecidos, sem experiência e fáceis de controlar por uma direcção cada vez mais preocupada com realidades paralelas do jogo do que, propriamente, com uma filosofia de sucesso a médio prazo. O clube aumentou exponencialmente a sua faceta de emblema vendedor, reduziu ao mínimo os ciclos de treinadores e jogadores, sempre á procura do próximo negócio milionário. O sucesso desportivo deixou de ser a consequência de um bom trabalho feito para ser o oxigénio necessário para manter a escalada de gastos nesta corrida ao El Dorado. Ferido de morte pelas escutas do caso Apito Dourado, Pinto da Costa foi perdendo o fulgor de outrora, retirando-se estrategicamente para a sombra, delegando cada vez mais poder na tribo aduladora que o rodeava e se preparava para colher os despojos. O que antes era uma forte direcção pessoal escondeu-se atrás do manto sagrado da SAD e dos negócios e homens que circulavam à sua volta. Mas para manter essa espiral de contratações, valorizações e vendas era necessário manter a linha de treinadores que pedem pouco e agradecem muito porque, na prática, sabem que sem o clube não são ninguém. Com o dinheiro investido e a qualidade individual ao longo dos anos, um FC Porto liderado por um treinador de prestigio poderia ter ido muito mais longe de onde foi. Mas nas mãos de jovens turcos com vontade de agradar, o desnorte tornou-se inevitável. E o maior desnorte possível chegou com Paulo Fonseca. Em quatro anos o antigo jogador do clube (por um par de jogos, para os mais esquecidos) passou da III Divisão para a Champions League. Rapidamente deu para perceber que era mais uma aposta de risco que saía mal. Corrigido a tempo, corria o risco de tornar-se numa anedota. Mas a Pinto da Costa faltou-lhe a sagacidade e força de outros momentos. Talvez "queimado" pelos seus erros anteriores, preferiu esperar. E à medida que o cenário ia piorando, o divórcio com os adeptos e jogadores confirmando-se, a inactividade do presidente parecia cada vez mais evidente. Paulo Fonseca poderá sair antes da época mas será sempre demasiado tarde. E se o erro na sua escolha podia ser o erro de qualquer um, mantê-lo no cargo durante oito longos meses vai contra todos os instintos de liderança de um presidente sem igual na história do futebol português.

 

Para os adeptos do FC Porto a situação de Paulo Fonseca é nova. Não pela evidente incapacidade do treinador em lidar com a situação e com o cargo. Não é o primeiro nem será o último treinador promissor a falhar o salto a um grande. Acontece em todos os lados. A situação é mais grave porque evidencia a evidente perda de liderança (e de qualidades de liderança) do homem em quem os adeptos sentiam que podiam confiar em todas as circunstâncias. E um sinal, evidente se fazia falta, que todos são finitos e que o futuro do FC Porto pós-Pinto da Costa tem tudo para ser similar ao que sofreu o Benfica e o Sporting no final das suas respectivas épocas douradas. Não será um final abrupto (ambos clubes tiveram quase uma década no topo, partilhando o sucesso com o seu sucessor, antes de cair) mas o ciclo histórico de quase três décadas que Pedroto idealizou e Pinto da Costa concretizou já esteve mais longe. O Império Romano caiu muito depois do seu fim efectivo. Paulo Fonseca, sem o saber, pode ser a primeira pedra num caminho de obstáculos para o futuro. O próximo defeso - e a soma de decisões do presidente dos dragões a vários níveis - poderá ser o mais importante da história moderna do clube que dominou como nenhum outro a história do futebol português.

 

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:14 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Segunda-feira, 20.05.13

Em 2005 o Sporting sonhava com o terceiro título nacional em cinco anos e com a consagração europeia em casa, depois de quatro longas décadas fora de uma final. Perdeu tudo. O título no derby da Luz e a final em Alvalade, contra o CSKA Moscovo. Alguns adeptos tinham feito a festa antes. Arrependeram-se. Oito anos depois o seu eterno rival sofreu o mesmo destino. Celebrar antes do tempo foi uma factura demasiado cara para a moral dos adeptos encarnados, condenados agora a limpar uma época que prometia ser memorável com uma Taça de Portugal. Alheio a tudo isto, o FC Porto sagrou-se tricampeão. É o sétimo título em oito anos. O nono em onze. Nada de novo para os lados do Dragão.

 

As brilhantes épocas do Estoril e Paços de Ferreira, dois clubes bem geridos desde dentro, sem megalomanias nem espirito kamikaze, foram as notas mais brilhantes de uma época cinzenta. De uma época que confirma, de uma vez por todas, a bipolaridade e o abismo que pauta o ritmo do futebol profissional em Portugal. Pela segunda vez em três anos o FC Porto foi campeão nacional sem perder qualquer jogo. Uma derrota em sessenta jogos, contra o Gil Vicente, são números que não encontram paralelo nem na Escócia, nem na Suíça, nem na Áustria, nem no Azerbeijão.

Não se trata, propriamente, de um FC Porto vintage, de uma formação capaz de conquistar a Europa como o faz com o país, tal como sucedeu em 2003 e 2004. É uma equipa moldada para consumo interno e que funciona como um relógio, particularmente quando defronta rivais que repetem o mesmo padrão de jogo semana atrás semana. Nos duelos directos, os que realmente decidem o título, o FC Porto foi fiel a si mesmo, ao seu modelo e à sua filosofia. O Benfica não. Por isso o título dormiu no norte de Portugal.

A equipa encarnada pode atrair com o seu jogo vertical e assumidamente ofensivo. Não é um projecto desportivo tacticamente exigente para os jogadores. O critério de saída da bola é sempre o mesmo, o jogo largo pelas alas e a acumulação de homens à volta da baliza fazem o resto. Jesus não sabe mais, como se tem visto na Champions League, mas o que sabe também basta para a Liga Sagres. Sobretudo porque os rivais não atacam e, portanto, não deixam a nú as fragilidades defensivas da sua ideia e de um plantel construído para ter apenas tracção à frente e onde não há criação pura - Aimar e Carlos Martins foram substituídos por Enzo Perez e Gaitán - só o faro de golo. O técnico encarnado contou com a melhor dupla de ataque do futebol português em largos anos, o eficaz Cardozo com o ágil Lima. Mas nem isso chegou. Na hora da verdade, só jogou um a titular. O modelo inverteu-se e, encostados à sua área durante mais tempo do que é habitual, os erros acumularam-se. No jogo da Luz e nos instantes finais do Dragão. Momentos que decidiram a época.

 

Ao futebol português continua a fazer muita falta alternativas sólidas.

O Sporting voltou a ser igual a si mesmo. Começou o ano de uma forma lamentável e acabou a recuperar o fôlego. Pelo caminho treinadores, jogadores e dirigentes continuaram a jogar com a emoção dos adeptos e o sétimo lugar, pior classificação de sempre, é um castigo justo mas pesado para um emblema fundamental para a competitividade da liga. Há jogadores suficientes para mudar a situação, resta saber se a nova equipa técnica e se uma directiva com um longo defeso pela frente estão à altura das expectativas de um ano sem provas europeias. O Braga, que até agora se tinha beneficiado desta implosão leonina, fez pouco melhor. Perdeu contra um rival muito inferior em tudo o particular assalto à Champions League, um verdadeiro fracasso desportivo por quem tarda em impor-se como alternativa credível. Uma vez mais José Peseiro voltou a demonstrar a incapacidade de lidar com a pressão dos desafios mais exigentes e a reinvenção dos Guerreiros do Minho tornar-se-á numa obrigação para António Salvador, até agora cómodo presidente no papel de triunfador surpresa.

Guimarães, Maritimo, Nacional e Académica realizaram épocas medianas, desportivamente pouco apelativas, com demasiados altos e baixos para terem encontrado uma posição mais alta na tabela classificativa. Aos primeiros os problemas financeiros obrigaram Rui Vitória a sacar da cartola uma geração de belas promessas. Os restantes nem isso ofereceram aos seus adeptos. Foi um ano cinzento, em contraste com a brilhante temporada de Rio Ave, Estoril e Paços. Os primeiros, com a bênção de Jorge Mendes, ganharam o sprint ao Sporting e ficaram a um ponto das provas europeias. Um lugar que pertenceu, com todo o mérito, ao Estoril, ainda há bem pouco tempo na segunda divisão, reflexo de que há uma forma comercialmente sustentável de fazer as coisas bem e ter resultados desportivos que acompanham. Uma lição que o Paços aprendeu há algum tempo. Na Mata Real existe tempo e paciência para os treinadores e faro com os jogadores. Sem um jogo espectacular, a solvência e a crença dos pacenses fez a diferença. Será muito dificil superar a concorrência no play-off da Champions League mas o clube merece pelo menos ouvir durante 180 minutos o hino da elite europeia.

Gil Vicente e Vitória de Setúbal voltaram a repetir o mesmo padrão de épocas recentes, muito sofrimento e uma salvação in extremis, algo que os adeptos do Olhanense, um clube financeiramente em sérios riscos de desaparecer, devem celebrar como um título. Poucos acreditavam na sua salvação, algo que seguramente o Moreirense merecia, particularmente pela aparição de Ghilas, uma das figuras individuais mais sonantes na liga de Jackson, Lima, Cardozo, André Martins, van Wolfswinkel, Josué, Tiago Rodrigues, Carlos Eduardo, Moutinho, Fernando ou Matic. O Beira-Mar, desde cedo, deu sinais de que o destino estava escrito. Há muito que tem de mudar em Aveiro para que o projecto futebolístico de um clube que não sabe muito bem a quem pertence tenha sucesso.

O triunfo do FC Porto foi o triunfo da normalidade. Os empates inesperados, com penaltys falhados na hora decisiva, contra Olhanense e Marítimo, adiaram a celebração de um título que pareceu ameaçado pela euforia encarnada. O tropeção das águias contra o Estoril ajustou quase as contas de falhos menores, mas suficientes para decidir para onde ia o troféu. Em 2010 o Benfica, em vésperas de celebrar o título, não conseguiu fazer a festa no Dragão. No ano seguinte os azuis-e-brancos deixaram a Luz às escuras e desde então recuperaram sempre de uma desvantagem pontual no campeonato para vencer o título depois de atropelar o rival nos duelos directos. É sobretudo aí que tem estado o calcanhar de Aquiles dos encarnados, um problema de mentalidade e de capacidade de jogar com a pressão, algo a que três décadas de sucesso constante tem deixado o FC Porto imune. Vitor Pereira, o treinador mais criticado, igualou o número de ligas dos maiores treinadores da história de Portugal, Cândido de Oliveira, José Maria Pedroto e José Mourinho. Tem uma mais do que Villas-Boas e Jesus e nos últimos trinta anos só segue atrás de Artur Jorge e Jesualdo Ferreira. A sua equipa tem um modelo definido, é lenta nas transições ofensivas e conta, sobretudo, com um plantel muito mal preparado pela SAD. Mas mesmo assim suficiente para conquistar o terceiro Tri da era Pinto da Costa. As anteriores sequências (95-99, 06-09) não se ficaram por aí. Para 2013/14 o FC Porto parte com o escudo de campeão no peito e o favoritismo nas casas de apostas. É a normalidade no futebol português.



Miguel Lourenço Pereira às 10:01 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 17.12.12

A crise desportiva no Sporting é um espelho da sua autodestruição institucional. O histórico clube leonino até há bem pouco tempo era o único clube que ombreava com o FC Porto pelo título nacional mas as consequências do plano Roquette passaram factura como seria de prever. Um clube sem uma liderança e um rumo está condenado ao sofrimento. No relvado e nos gabinetes. O vazio de poder real leva o Sporting à pior etapa da sua história, transformando-o num clube cada vez mais periférico da realidade competitiva nacional.

 

Godinho Lopes foi eleito com polémica. Muita polémica.

Uma eleição que dividiu claramente o núcleo de sócios sportinguistas. De essa eleição era forçoso sair uma política de consensos, necessária sempre que a vitória não é clara nas urnas numa sociedade que se presume democrática. O presidente leonino preferiu ir por outro lado. Caminhou sozinho e foi perdendo, pelo percurso, os seus apoiantes mais directos. Dois anos depois ele é o único sobrevivente da sua direcção original, motivo mais do que suficiente em muitas instituições para provocar novas eleições. Não para ele, orgulhosamente só, timoneiro de um navio sem rumo e perdido, à deriva, em águas profundas.

Os erros de gestão do Sporting nos últimos dois anos têm sido tremendos e repetitivos. Consequência de um plano Roquette mal orquestrado desde o principio que agora começa a passar factura. O Sporting está à beira da falência técnica. Entre os três grandes, é o que vive mais perto do fio da navalha. A situação económica de Porto e Benfica não convida a celebrações, mas entre o sucesso desportivo recente e as mais valias que ambos clubes ainda possuem, a situação é remediável apesar de não ser sustentável. Em Alvalade já não há mais valias. Para manter o pulso com o FC Porto de Jesualdo Ferreira venderam-se os anéis. Começa a ser a hora de vender os próprios dedos. O plante leonino pertence a todos menos ao Sporting. Fundos, empresários, agentes, gestores, bancos. O clube detém percentagens insignificantes da maioria dos seus jogadores e ainda mais ridículas quando se trata dos jogadores que têm um real valor de mercado. Sem poder fazer dinheiro com os seus próprios activos, que solução tem um projecto que acumula dividas atrás de dividas e sem um resultado palpável a que poder agarrar-se. Godinho Lopes é consciente dessa realidade e em vez de parar para pensar, dá um passo em frente, suicida, e multiplica-se em declarações despropositadas e acções que só minam ainda mais a sua frágil liderança. A contratação de Jesualdo Ferreira devia ser, para os sócios, a gota que desborda o copo.

 

Em 2003, quando José Mourinho transformou um FC Porto estilhaçado em rei do futebol europeu, era inequívoca a liderança desportiva nacional do Sporting. Era a geração do título de 2000 de Augusto Inácio, a que se juntava a qualidade individual de João Vieira Pinto, o faro goleador de Mário Jardel e uma geração de talentos tremenda, capaz de emular a de 1992, entre os Hugo Viana, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo. O Sporting parecia afastar-se definitivamente dos fantasmas de 19 anos sem títulos. Duas vitórias em três anos eram prova evidente de que algo se estava a fazer bem nas oficinas de Alvalade. Em quase cinco anos todo esse trabalho foi desperdiçado.

O clube entrou numa voragem autodestrutiva inexplicável, abdicou das suas maiores pérolas por preços bastante inferiores à realidade do mercado e começou a abandonar a qualidade em prole da quantidade. A chegada de Paulo Bento, depois da humilhante derrota na final da Taça UEFA em casa, uma semana negra que os adeptos jamais esquecerão, recuperou em parte os princípios da política de Luis Duque do virar do milénio e quatro segundos lugares consecutivos pareciam pressagiar a calma e tranquilidade que não existiam. Bento saiu sem vencer o título (apesar de ter batido de forma directa, por várias vezes, o FC Porto de Jesualdo) e atrás dele deixou uma equipa jovem e cheia de promessas que os seus sucessores nunca puderam aproveitar. Com a nova direcção chegou a política de compra compulsiva. O Sporting, como uma fashion victim com cartão de crédito eliminado no coração dos bairros que congregam as mais emblemáticas lojas de marcas, comprou com o que tinha e com o que não tinha. Mais de duas dezenas de jogadores chegaram em três épocas, empurrando os jogadores da casa para um exílio forçado. E quando os resultados falhavam a culpa, inevitavelmente, seria do treinador. Paulo Sérgio, Domingos, Sá Pinto sabem-no bem.

Curiosamente, em sentido oposto, o trabalho de formação continuava a funcionar, os titulos dos mais novos davam ilusão, e a equipa B, no seu primeiro ano, provava ser a única com estofo competitivo real. Em vez de olhar para dentro o clube voltou a olhar para fora e procurar em Vercautren, técnico belga, a resposta a todos os problemas. A falta de orçamento para algo melhor era evidente mas o desatino presidencial superou todos os limites quando, nem dois meses depois, nomeia Jesualdo Ferreira como Manager. 

Jesualdo, treinador habituado a trabalhar com os mais novos, desde que foi companheiro de Queiroz na forja da Geração de Ouro, poderia ter sido uma boa primeira escolha, mas quando a pressão obrigou Godinho Lopes a destituir Sá Pinto, ainda tinha emprego. Agora será a sombra constante de um belga que sabe que tem as horas contadas ainda antes de ter começado a trabalhar. Tarde ou cedo, Jesualdo passará de Manager a treinador principal confirmando a sensação de que Alvalade se transformou num manicómio profundo. O técnico tricampeão nacional (o único a lográ-lo de forma consecutiva) tem matéria para fazer uma equipa drasticamente diferente da que existe actualmente, especialmente se apostar na formação. Mas não tem margem de manobra para o fazer. Num clube que se tornou na ponte de jogadores para pagar favores aqueles que sustêm a divida da instituição, não há plenos poderes que valham.

 

É difícil um clube com a corda ao pescoço respirar. O Sporting tem uma tradição e um prestigio que distancia, e muito, da sua gestão actual. Financeiramente a sua realidade aproxima-se cada vez mais ao espectro do Boavista com as consequências conhecidas. Tem matéria prima para reerguer-se, uma vez mais, mas falta-lhe a força moral para despir o corset que o impede respirar tranquilamente. Parece evidente que a direcção actual é parte do problema mas não é a única responsável. No estado actual da saúde sportinguista há atrás anos de esquizofrenia absoluta que parece precisar de um verdadeiro tratamento de choque para terminar de forma abrupta. Os adeptos estão condenados a sofrer, os investidores a perder tudo e o clube a afundar-se, um pouco mais, no poço que ajudou a criar e que o afasta dessa imagem de grandeza que o tornou, até aos anos 60, na primeira grande força nacional do futebol português.



Miguel Lourenço Pereira às 10:05 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Terça-feira, 04.09.12

A realidade de um país em crise - em todos os sentidos - é perceptível na realidade do seu futebol. No caso português não é só a hemorragia de jogadores de qualidade mas, sobretudo, a necessidade dos clubes de vender para tapar os muitos buracos que aparecem nas suas contas. Todos os candidatos ao titulo desprenderam-se de jogadores fundamentais nas suas equipas da época passada. O campeonato nivela-se, uma vez mais, por baixo.

 

O ranking da UEFA diz que a Liga Sagres é a 5º mais bem classificada do continente europeu. 

Mas as finanças dos clubes e a qualidade dos seus plantéis talvez não estejam de acordo. Os clubes portugueses vivem com a corda na garganta. Os grandes porque os orçamentos astronómicos para a realidade portuguesa começam a pagar factura. Há passivos superiores a 400 milhões de euros (caso do SL Benfica) ou de 200 milhões, como acontece com o FC Porto. Empréstimos obrigacionistas que pagar com juros altíssimos, fundos a quem se devem favores e dinheiro e no caso do Sporting, a situação é tão delicada que os próprios dirigentes sabem que caminham bem ao lado de um perigoso precipício. Mesmo o Braga, um caso de sucesso em gestão financeira, não pode resistir a vender quando o dinheiro aparece porque há sempre contas que pagar.

Do top 4 para baixo a realidade é ainda mais asfixiante, negra e sem perspectivas de melhorar no futuro. Um clube histórico e com uma das maiores massas associativas do país como o Vitória de Guimarães está perto da falência. Na Madeira os clubes sobrevivem porque Alberto João Jardim deu volta atrás numa ideia inicial de retirar parte dos fundos do governo regional aos principais clubes da ilha. E de Olhão a Paços de Ferreira, de Aveiro a Coimbra, os tostões contam-se um por um. 

Essa falta crónica de crédito afecta os clubes como a sociedade portuguesa e os problemas de salários em atraso nos grandes, antes uma utopia, tornaram-se reais. Por isso vender, baixar a massa salarial, tornou-se na úncia solução. 

Os valores de algumas transferências roçam o ridiculo mas, neste caso, o ridiculo tornou-se na corda de salvação de alguns clubes. Axel Witsel, contratado há um ano ao Standard Liege, rumou para San Peterburg por 40 milhões, o mesmo valor que o Real Madrid pagou por Luka Modric e mais do que o Chelsea pagou por Eden Hazard, a grande estrela do futebol belga. Hulk saiu do FC Porto por igual valor liquido (depois de pagos os gastos de gestão pelo clube russo, num total de 60 milhões) depois de ter sido comprado em várias etapas por um valor total de 19 milhões. Um valor a que clubes como o Chelsea, PSG e Manchester City não conseguiram chegar. O valor dos rublos num país que quer apostar forte no futebol para a próxima década (e a contratação de Fabio Capello é bom exemplo) salvou, pelo momento, a saúde financeira de FC Porto e Benfica (que ainda contou com a venda de Javi Garcia ao Manchester City) enquanto que o Sporting teve de despreender-se de jogadores com salário elevado, perdendo o influente Matias Fernandez para a liga italiana por valores bem mais modestos. Enquanto a Europa se maneja numa realidade, os mercados emergentes jogam noutra divisão. Para os clubes portugueses é a única opção de sobrevivência.

 

Desportivamente a liga portuguesa baixou uns bons degraus.

Num ano histórico, com as três equipas presentes na fase de grupos da Champions League, o futebol português devia estar de parabéns. Ainda para mais, todas as equipas foram colocadas em grupos acessíveis, com o apuramento para os Oitavos de Final longe de ser uma utopia. Mas isso foi antes de Lima deixar Braga sem um ponta-de-lança, de Jorge Jesus ter perdido o seu meio-campo (não que o Benfica seja uma equipa que perca muito tempo no miolo) e o FC Porto dizer adeus ao seu simbolo dos últimos anos. Agora a realidade vai ser bem mais dolorosa e talvez dragões, águias e arsenalistas tenham de contentar-se com uma luta mais desigual com rivais que não só não perderam jogadores referência como se reforçaram bem como PSG, Dynamo Kiev, Spartak Moscow, Celtic e Galatasaray.

Na Liga Sagres todas as equipas que aspiram ao titulo perderam cartas de luxo. Não só isso piora claramente a qualidade da competição como abre ainda mais a disputa pelo troféu que mora nas vitrinas azuis e brancas pelo segundo ano consecutivo. O Benfica, que apostou forte em recuperar o titulo mantendo Jesus ao leme, preferiu apostar num over-booking de extremos e dianteiros e esqueceu-se de reforçar o eixo medular e defensivo. Se Luisão for suspenso por meio ano, como a sua acção exige, Jesus terá sérios problemas para resolver, sobretudo nos jogos com rivais directos onde a segurança defensiva encarnada vai ser realmente testada.

O Braga já sofreu em Paços o choque de realidade de perder um homem que nos últimos anos era uma garantia de duas dezenas de golo por época. Sem uma referência ofensiva, Peseiro terá de apostar na solidez do bloco bracarense e aproveitar-se dos erros dos rivais para manter as distâncias curtas. O Sporting, que arrancou com o pé esquerdo na temporada, continua a ter de apostar na juventude para resolver os seus problemas financeiros e desequilíbrios no plantel, e Sá Pinto corre contra o relógio para não perder o fundamenta comboio da Liga dos Campeões do próximo ano.

Por fim o FC Porto parte como favorito e apesar de ter perdido Hulk mantém o estatuto. Se o brasileiro era fundamental, sobretudo nos duelos fora de casa em campos de equipas bem organizadas defensivamente, a verdade é que Vitor Pereira tem o plantel mais equilibrado dos quatro candidatos ao título. Uma defesa sólida com Danilo e Alex Sandro definitivamente confirmados como titulares e um meio-campo onde a permanência de Moutinho é a melhor das noticias. Entre James, Varela, Atsu e Jackson a equipa terá de encontrar os golos que dava e marcava o "Incrivel". Esse é o grande desafio do contestado técnico portista.

 

Como o fosso entre os quatro primeiros e as restantes equipas continua tremendo, apesar das baixas nos planteis dos candidatos ao titulo, ninguém espera uma temporada de grandes surpresas. O título começa a ser discutido a quatro mas é previsível que antes de Dezembro um candidato tenha caído da perseguição e no final seja um mano a mano entre FC Porto e SL Benfica a decidir o troféu. Sem as grandes figuras do ano passado, este pode ser uma temporada onde, mais do que nunca, o papel de gestores humanos e analistas tácticos, dos quatro treinadores se revele ainda mais fundamental no jogo do titulo.



Miguel Lourenço Pereira às 19:28 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Terça-feira, 01.05.12

No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro. 

Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.

Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.

O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.

Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.

 

Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.

Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.

Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.

Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.

 

Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Sexta-feira, 13.04.12

Não acreditar no poder psicológico de uma troca de treinador é não conhecer o futebol como um profundo fenómeno humano. O jogo faz-se de rotinas, de estados de ânimo e, sobretudo, de sensações. O tapete verde espelha o trabalho semanal e mescla o talento genuino com a profunda necessidade de dar um sentido grupal ao colectivo. O sucesso desportivo do Sporting de Sá Pinto no final de temporada explica bem essa realidade e deixa igualmente no ar a legitima dúvida sobre o efeito a longo prazo de uma vitamina de sucesso imediato.

Problemático como jogador, lider como técnico.

Sá Pinto não é o primeiro que, sentado no banco, lê os problemas com a experiência de quem os causou tantas e tantas vezes no passado, para depois analisá-los com a frieza do presente. Johan Cruyff foi talvez um dos jogadores mais conflictivos da história do jogo e o seu papel como treinador espelhou perfeitamente a sua maturidade táctica e humana. Conciliou egos irreconciliáveis e formou uma das melhores e mais bem sucedidas equipas da história. É dificl pensar que este Sporting chegue a esse nível, mas os últimos dois meses com o portuense ao leme de Alvalade têm transformado a equipa verde e branca na revelação da época. Sem ter sequer o quarto lugar assegurado, como se torna isso possível?

Essencialmente o Sporting vive há vários anos a dramática situação de ser um histórico no nome, com as respectivas ambições, mas uma equipa desestruturada da cabeça aos pés para sobreviver num mundo da alta competição onde um rival dá aulas sobre organização desportiva e o outro investe quantidades incomportáveis para manter o ritmo. Ao Sporting desta época, honestamente, não se podia pedir o mesmo que a Benfica e FC Porto porque nem a nova directiva nem a nova equipa técnica, de Domingos Paciência, tinha armas para lutar de igual para igual. 

Um plantel radicalmente novo, um novo lider e uma nova gestão desportiva exigem um pensamento a longo prazo. 

Mas o Sporting é o que é também porque a nivel de gestão tem uma profunda tendência ao desespero imediato e depois de uma série de tropeções que não espelhavam tanto a forma de jogar da equipa mas sim a incapacidade de coordenar tantas caras novas em tão pouco tempo, a Domingos foi-lhe aberta a porta da rua. O enésimo técnico na última década a sofrer do espirito de hara-kiri leonino podia até suspeitar que o final de temporada seria sempre melhor, nem que seja pelo maior entrosamento entre treinador e equipa, e entre os veteranos e as novas incorporações. Mas o papel psicológico da novidade no futebol tem um poder dificil de negligenciar. São raras as vezes que uma troca de técnico empeora uma situação e quando isso sucede, está claro que há problemas tão graves, dentro e fora do balneário, que não há capacidade humana para superar. Domingos podia alegar que sabia perfeitamente o que Schaars, Elias, van Wolfswinkel, Capel ou Izmailov podiam trazer á equipa no final do ano e que as baixas no sector defensivo em jogos importantes não o ajudaram. Mas sofreu o fatalismo do imediatismo futebolistico que talvez para ele seja mais dificil de compreender depois de se ter formado como jogador no clube mais estável do futebol português e ter atingido o zénite como técnico no clube mais paciente da actualidade na Liga Sagres.

 

Sá Pinto não trouxe ao Sporting um radicalismo técnico ou uma profunda remodelação táctica que possa justificar uma alteração tão significativa de comportamento por parte dos jogadores. A antiga glória do velho Alvalade conta praticamente com os mesmos nomes que o seu antecessor e mesmo o dispositivo táctico continua a ser o mais parecido possível a um 4-3-3 que priveligia a velocidade nos flancos e a segurança nas transições no miolo.

A vitória futebolistica, à parte do resultado, frente ao rival da Luz foi um espelho desse ideário, adaptado especialmente ás caracteristicas de jogo de um rival sem alma (sem Aimar) e sem cérebro (Jesus, outra vez). Elias engoliu um Rodrigo que se sente mais cómodo à frente. Schaars e Matias Fernandez, com mais preocupações defensivas, controlaram os tempos e deram, quase sempre em condições, as poucas bolas que tiveram nos pés por mais de dois minutos ao veloz ataque liderado por Izmailov e Capel. O resultado foi curto para as oportunidades mas foi o fiel reflexo do pragmatismo de um Sá Pinto que sabe com que conta e, sobretudo, com quem conta. Trocar André Santos ou Carriço, membros habituais na medular, pelo jogo mais fisico e curtido de Elias foi algo com que um Jorge Jesus mais preocupado em fazer bluff com os centrais disponíveis não conseguiu entender. Talvez o técnico encarnado tenha sofrido do mesmo mal de Roberto Mancini, outro treinador que não pensou ser possível perder em Alvalade e que acabou por não encontrar forma de ganhar face à teia defensiva mas com objectivos claros nas transições que o técnico montou na dupla eliminatória e que repetiu, com mais autoridade, num confronto dificilissimo contra um Metalist que pode, daqui a poucos anos, ser um novo Shaktar Donetsk.

Sá Pinto encontrou a motivação do balneário, talvez espelho do seu caracter bem distinto ao do seu antigo colega de selecção nacional, e as condições ideais para triunfar. Sem a pressão dos resultados, a época está praticamente ganha com uma histórica semi-final, apenas a segunda em vinte anos na história do clube nas provas europeias, e com um quarto lugar que não deve escapar, apesar da notável época de outro velho amigo do ex-jogador do Salgueiros, o técnico Pedro Martins.

Mas da mesma forma que Sá Pinto resultou melhor do que se esperava como solução urgente numa situação caótica é preciso imaginar como será o seu trabalho a médio e longo prazo. Paulo Bento chegou numa situação distinta (no arranque da época) e aguentou-se mais do que seria imaginável mas sempre com serviços minimos numa época em que o Benfica ainda não era um rival à altura do FC Porto de Jesualdo Ferreira. Depois do enorme investimento do último defeso cabe pensar que o plantel do Sporting não pode sofrer muitos ajustes no Verão e que esta será a base de trabalho de Sá Pinto. A diferença de qualidade com os rivais directos continua lá, a profundidade de banco ainda é justa e a formação leonina, sempre capaz de resolver problemas, não parece estar tão fina como em anos anteriores.

 

Ultrapassado o papel emocional do regresso do filho pródigo, agora pede-se a Sá Pinto que seja mais treinador do que apenas gestor humano. O final de temporada será sem dúvida um teste à emocionalidade do clube leonino mas é a preparação para uma nova época sem Champions League e com a expectativa alta que deve preocupar o técnico, dirigentes e adeptos do Sporting. Se o clube de Alvalade souber encontrar a dose certa de paciência que tanto lhe tem faltado, Ricardo Sá Pinto pode encontrar o habitat perfeito para desenvolver-se como técnico. No entanto, se o seu talento se manifestar apenas em situações de alto risco emocional, o futuro leonino continua a ser demasiado cinzento. 



Miguel Lourenço Pereira às 13:42 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 26.03.12

O futebol português continua a trepar postos nos rankings UEFA e FIFA, a ter jogadores e treinadores coroados entre os melhores do Mundo. E, no entanto, quando a bola começa a rolar no tapete verde do rectângulo mais ocidental do velho Continente o futebol peca, demasiadas vezes, pela sua triste ausência. Numa das épocas mais pobres e desesperantes das últimas décadas repete-se um cenário demasiado frequente, demasiado desalentador. Esta Liga, assim parece, ninguém a quer ganhar.

Hoje o Sporting de Braga pode colocar-se como líder isolado da Liga Sagres.

A seis jogos do final da época, 18 pontos e um duelo de 90 minutos contra a Académica separam os bracarenses do topo do pelotão. Provavelmente os arsenalistas falharão. Não porque não mereça, não porque não sejam talvez a equipa que mais méritos recolhe para sagrar-se campeã nacional 2011-12. Simplesmente porque, ao longo deste ano, sempre que uma equipa parece ter na mão ganhar a liga, tropeça.

Essa vertigem á tabela classificativa é aflictiva mas não é nova. Em 2004-05 FC Porto, Sporting e Benfica foram tropeçando entre si até que a sagacidade de Giovani Trapatonni valeu mais que o descalabro emocional de José Peseiro e a natural incompetência de José Couceiro para quebrar com uma fome de dez anos do Benfica. Dois anos depois o cenário voltou a ser similar mas desta vez foi Jesualdo Ferreira a superar a Fernando Santos e Paulo Bento nesse desesperante sprint final. Emoção, seguramente. Qualidade, muito pouca.

O nível exibicional médio das 16 equipas da Liga Sagres, diga o que disser o ranking UEFA que apenas contabiliza o que fazem os quatro europeus habituais nos palcos internacionais, é pobre. Os portugueses exportam os melhores jogadores e técnicos que têm e em troca ficam com jogadores de terceira e quarta linha internacionais, fazem de jogadores de nível médio alto estrelas que nunca o serão e adormecem o mais tenaz dos espectadores com duelos onde os golos, a emoção e o futebol ofensivo primam, habitualmente, pela sua ausência. Os problemas financeiros que destruíram a classe média do futebol nacional e abriram ainda mais o fosso entre os grandes e os pequenos não ajuda seguramente a reequilibrar o cenário. E no entanto nunca como este ano os pequenos roubaram tantos pontos aos chamados grandes onde dá pena incluir um Sporting que, mais uma vez, continua a ser o terceiro clube nacional apenas em adeptos e nada mais. Com uma divida descomunal, um plantel desorganizado, um staff técnico que vai e vem ao sabor do vento e uma directiva incapaz de se fazer respeitar, os leões são o caso mais freudiano que o futebol português já gerou e merecem, como tal, diagnóstico á parte.

 

Nivelada por baixo como nunca a Liga Sagres pode cair nos braços de qualquer um do trio da frente e seguramente que a sensação de mérito e orgulho seja bem diferente a outras conquistas (no caso de Porto e Benfica) do passado. Os campeões nacionais cometeram o logro de destroçar em poucos meses um conjunto que muitos analistas colocavam na segunda linha do futebol europeu, apenas por detrás de United, Real Madrid e Barcelona. Á parte das péssimas performances europeias, o FC Porto de Vitor Pereira não é só o tigre mais domesticado e inofensivo que já passou pelo Dragão, ás vezes quando joga fora transforma-se mesmo num gatinho recém-nascido, presa fácil até de roedores e outros répteis que povoam a parte baixa da tabela. O empate em Paços de Ferreira impediu os dragões de dar um murro na mesa, algo que o clube do Dragão foi incapaz de fazer durante todo o ano. Nem depois de vencer na Luz, nem depois do enésimo tropeção pré-jogo europeu do Benfica em Olhão e, imagina-se, nem nos jogos que faltam. Apesar de liderar se há equipa nesta disputa que mais carece de espírito de liderança esse é, sem dúvida, este FC Porto.

E no entanto, no meio de tudo isto, e com 24 jogos compridos - salvo o duelo de Braga - o campeão é líder. Situação suficiente para embranquecer os cabelos á maioria dos adeptos encarnados, á moda de Jorge Jesus, provavelmente o maior perdedor do ano. Jesus até pode conseguir o seu segundo titulo nacional, sem dúvida, mas depois de o ter á mão de semear, desperdiçar uma vantagem incrível e correr o risco de dormir hoje no terceiro posto é suficiente para que os críticos adeptos do técnico tenham mais argumentos relativos á sua profunda desorganização táctica e incapacidade de gerir os esforços físicos de um plantel onde muitos jogam muito e alguns jogam muito pouco. Com talvez o plantel mais equilibrado dos três em disputa, Jesus tentou equilibrar o meio-campo com a inclusão de Witsel e Bruno César no apoio a Cardozo mas perdeu o efeito surpresa e, sobretudo, a eficácia de outras épocas. Em campo esta é a sua versão mais débil, a mais mentalmente instável e, portanto, a menos apta para sofrer até ao último minuto da liga como os sucessivos empates e derrotas conseguidos este ano têm demonstrado.

Se na Luz ninguém parece estar determinado a ganhar a Liga, pelo menos há uma óptima campanha europeia para justificar a falta de oxigénio e sagacidade mental. Em Braga a Europa este ano não foi empolgante como na época passada mas teve o mérito de permitir a Leonardo Jardim manter a cabeça e os pés bem assentes no chão. O Braga fez um campeonato de trás para a frente, durante algumas jornadas andou atrás do Sporting e depois arrancou num sprint silencioso que seria ineficaz se FC Porto e Benfica fossem tão autoritários como o dinheiro gasto e a qualidade dos dois planteis justificava. Com os tropeções pontuais e as crises mentais dos dois grandes o Braga encontrou preciosos aliados para desafiar a história. Pode acabar campeão ou juiz do campeonato, mas como o Boavista do virar de século, já não pode passar desapercebido. São muitos anos a manter a bitola alta e tarde ou cedo António Salvador pode suspeitar que o percurso similar ao dos axadrezados pode ser emulado. Até porque o nivel dos chamados grandes continua, ano após ano, a baixar assustadoramente.

 

Em Maio o titulo será atribuido ao melhor dos piores e disso poucos duvidam. A distância do primeiro ao quinto (FC Porto a Maritimo) é igual á do sexto (Vitória) com o 14º (Beira-Mar) e isso explica também o imenso buraco pontual, moral, financeiro e desportivo que ano após ano afunda o nivel qualitativo do futebol português. Com uma diferença pontual tão clara surpreende que situações como a de este fim-de-semana se repitam vezes sem fim esta temporada. FC Porto e Benfica venceram apenas 17 vezes numa liga onde só quatro equipas têm um goal-average positivo. Vitor Pereira e Jorge Jesus transformaram-se mais em dores de cabeça do que bálsamos para os seus adeptos e Leonardo Jardim acredita na lei do silencio para evitar construir o seu próprio cadafalso. No final deste sprint onde haverá ainda demasiados tropeções o freudiano Sporting pode ter a chave para medir a resistência futebolistica e moral dos candidatos que teimam em não querer ganhar este campeonato.



Miguel Lourenço Pereira às 16:15 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Quinta-feira, 01.09.11

Fechou o mercado de transferências (até Janeiro) e agora as águas turvas do mundo do futebol vão acalmar por uns tempos. Foi uma azáfama, uma corrida contra o relógio até à meia noite que deixou alguns negócios surpresas e muitas, muitas dúvidas (ou certezas) sobre como anda o desporto-rei. Começa a ser cada vez mais evidente que a total liberalização do mercado de transferências abriu caminho a um amplio submundo de dinheiro negro, sujo, escondido que o grande público não vê por detrás de negócios hilariantes e sem nenhum sentido desportivo. Portugal continua a ser um exemplo perfeito de como mexer no mercado por todos os motivos, menos pelo jogo em si, mas não é caso único. Sob a inoperância das grandes organizações directivas poucos se atrevem a dizer que... o rei vai nu!

Sempre houve negócios sujos e estranhos nos mercados de transferência, com luvas por debaixo da mesa e comissões por declarar.

Mas o que se viveu este Verão, e nos últimos porque isto vai in crescendo, reforça a teoria de muitos de que o mundo do futebol é cada vez mais um mundo tão perigoso e suspeito como o de qualquer actividade ilegal perseguida e vigiada pelas autoridades policiais. No livro Pay as Yoy Play, um grupo de estudiosos ingleses analisa as contratações nos últimos 20 anos da Premier League e chega a essa conclusão: hoje, uma transferência, é cada vez menos um negócio desportivo e, cada vez mais, uma forma hábil de lavar dinheiro, pagar favores e ganhar influência.

Portugal continua a ser um paraíso de corruptos, seguindo a tradição mediterrânica que se estende por Itália, Grécia, Turquia e Espanha, e como paraíso de corruptos que é, de Norte a Sul, o futebol continua a ser uma arena perfeita para negociar por debaixo da mesa o que ainda é ilegal às claras. Só isso pode explicar mais de uma dúzia de negócios realizados à última hora por parte dos grandes clubes lusos - os pequenos limitam-se a copiar, em menor escala, o que vêm funcionar nos graúdos - que encontraram em agentes FIFA - nomeadamente o todo poderoso Jorge Mendes - e em clubes aliados por essa Europa fora, parceiros idóneos para maquilhar contas, pagar velhos favores, ganhar novos amigos e, sobretudo, agradar a quem realmente manda hoje em dia no mundo do futebol: os empresários desportivos.

Granada, Zaragoza e Atlético Madrid representam em Espanha o que de pior se pode imaginar nesse submundo de trocas e baldrocas desportivas, tão putrefacto que nem as autoridades se atrevem realmente a investigar. Não surpreende, portanto, que tenham sido os parceiros perfeitos para os negócios mais surpreendentes dos clubes lusos que têm realmente algo que ganhar com este mercado de três meses que muitos suplicam que se reduza a um e termine a 1 de Agosto esquecendo-se de que isso é tirar o pão da boca a quem paga o desporto, os milionários que movem o dinheiro e os agentes que lhes servem de intermediários.

 

FC Porto, Sporting CP e SL Benfica continuam a ser clubes com gestões pouco transparentes e, sobretudo, repletas de manchas no que ao Fair Play desportivo implica, pelo menos segundo os critérios da UEFA que continua a lavar as mãos e a olhar para o lado enquanto assiste, impassível, a este mercadilho.

Não é assim em todo o lado. Em Itália há uma velha tradição de co-propriedade que permite a dois clubes partilhar o passe de um jogador num prazo máximo de dois anos até que um dos clubes, finalmente, compra a percentagem restante. Uma situação muito mais limpa e transparente que dá pouca margem de manobra para negócios surpresa de última hora (um clube estrangeiro tem de comprar os 50% a ambos os clubes para ficar com a totalidade do passe do jogador). Em Inglaterra houve muita agitação e, salvo o caso de Joe Cole (emprestado ao Lille), muitos negócios entre clubes da Liga. Mas tudo às claras, sem comissões escondidas e, sobretudo, sem fundos porque a Premier não permite que um passe seja detido por alguém que não seja um clube, algo que vem dos dias de Tevez e Mascherano. Mas também é certo que a Premier foi a primeira liga a abrir a borbulha e a permitir a chegada dos milhões do petróleo e gás, que encontraram em clubes de futebol a forma perfeita de lavar o dinheiro ilegal que iam ganhando nos seus países de origem. O caso dos argentinos levou a FA e a Premier a acordar a tempo para a nova realidade negocial e a travar - juntamente com a velha exigência de que os jogadores tenham um minimo de internacionalizações pelo seu país - esta derrapagem financeira. Mas esse negócio abriu precedentes.

Como os de Alex Sandro e Danilo, novos jogadores do FC Porto. Os azuis voltaram a romper o mercado graças a Falcao (e recusaram propostas por Alvaro, Fernando e Moutinho até ao fim) mas acabaram por investir pouco do dinheiro ganho (12 milhões em Defour e Mangala e alguns trocos entre Kelvin, Iturbe e percentagens de passes adquiridos). Essencialmente porque os quase 20 milhões que custam os dois brasileiros são cortesia do fundo que comprou ambos os jogadores e que pretende utilizar o clube das Antas como plataforma na Europa. Os jogadores actuam no FC Porto até que uma proposta maior permita aumentar a rentabilidade do investimento e ninguém se surpreenderá se daqui a um ano nenhum dos dois atletas fique na Invicta. Um negócio obscuro que não é nada novo nas manobras de Pinto da Costa no mercado sul-americano que começou há uns anos com a compra de percentagens de passes (algo que em Inglaterra é ilegal, por exemplo) e nos negócios com empresários de reputação duvidosa que utilizavam os seus próprios clubes plataforma, criados ou reestruturados para potenciar jogadores, para sacar o seu lucro. O negócio mais chamativo dos dragões inclui a venda de Falcao por 45 ao Atlético. Uma surpresa porque ambos os clubes estavam de relações cortadas com o caso Paulo Assunção (que chegou até à UEFA) mas que se explica porque nenhum outro clube estava disposto a pagar tanto pelo colombiano. E porque Jorge Mendes estava envolvido na transferência.

O agente FIFA, que fez de Madrid a sua casa (os seis jogadores que tem no Real Madrid, incluindo um desconhecido Pedro Mendes que já se estreou no troféu Bernabeu para rentabilizar um passe que pertence ao próprio empresário), incluiu Ruben Micael no negócio por valores que vão de zero a cinco milhões, dependendo das versões. Um jogador que o Atlético não queria e que acabou no Zaragoza, clube que está em concurso de credores, mas que pode vender e comprar jogadores porque a lei espanhola é assim, uma lei sem lei. O Deportivo que bem se queixou do trato preferencial dado ao clube aragonês já ameaçou denunciar os "maños" à FIFA e com razão. Um clube sem dinheiro, com dividas astronómicas, que acabou por ser o rei do mercado nos últimos dias graças ao dedo miraculoso de Mendes. Um clube que comprou por uns meros 500 mil euros o passe de Helder Postiga, o avançado titular do Sporting. Um clube que adquiriu o jovem Juan Carlos, promessa da cantera do Real Madrid que foi comprado pelo Braga (com ajuda de Mendes) para acabar junto ao Ebro. Isto claro sem falar do negócio Roberto com o Benfica que levou o clube das águias a justificar à CMVM que a venda de 8 milhões de um guarda-redes que custara...8 milhões (num ano em que o seu passo desportivamente se desvalorizou de forma absoluta e inequivoca aos olhos do Mundo) se devia a que Roberto tinha sido adquirido por um fundo (onde também está Mendes) e que o Zaragoza tinha pago umas migalhas. Zaragoza, clube que adquiriu mais 10 jogadores (entre vários internacionais se inclui Fernando Meira) e que vendeu um dos seus dianteiros, Uche, ao  Villareal curiosamente pelo mesmo valor que era devido ao Getafe, o clube da sua procedência. Claro que Uche não vai jogar no Villareal mas sim no Granada, outro clube desta trilogia à espanhola envolvido intimamente com o futebol português. Detido por investidores italianos, onde se inclui o dono da Udinese, o Granada estreitou ligações com o Benfica, obtendo Jara, Yebda, Júlio César e Carlos Martins por empréstimo. Zaragoza e Granada, clubes sem dinheiro, com um estádio novo por construir, terrenos por alienar e amigos influentes no mundo da construção civil que se tornam alvos apetecíveis para tubarões de águas profundas.

Mas até históricos caem nesta rede de dinheiro que se move à velocidade da luz, aparece e desaparece, e permite a máquina continuar a funcionar. O Atlético de Madrid é o exemplo perfeito nas mãos de Gil Marin, filho do polémico Gil y Gil, e com a colaboração de Mendes. A chegada de Falcao é um exemplo perfeito mas mais interessantes são os casos do esquadrão bracarense e de Julio Alves. O irmão mais novo de Bruno Alves, que apenas jogou na Liga Sagres pelo Rio Ave, foi contratado para ser imediatamente emprestado ao Bessiktas onde, curiosamente (ou não), já jogam Simão, Manuel Fernandes, Bebé, Quaresma e Hugo Almeida. Todos "homens Mendes"!

De Braga chegou Silvio e um contrato de preferência sobre Pizzi, revelação no Paços, que acabou por aterrar no Calderon por um valor que pode chegar aos...15 milhões de euros, impensável para um jogador sem mercado, mais o empréstimo de Fran Merida, revelação espanhola por confirmar desde os dias do Arsenal. Mas se no Manzanares entram jogadores a preço de saldo, tal como sucedeu com Roberto - o Atlético também tem um novo estádio a ser preparado, relembro - saem jogadores com preços de mercado inflacionados. É o caso de Elias, descartado, raramente utilizado desde a sua chegada em Janeiro, que aterra em Alvalade pelos 8,5 milhões que custou. O Sporting, que mudou por completo o plantel de um ano para o outro, gastou pouco em muitos jogadores. Em Elias gastou mais do que arrecadou com todas as vendas e começam a voltar as suspeitas sobre a real saúde das finanças leoninas.

 

Casos graves que passam ao lado de investigações policiais sérias e independentes.

Mas que não são exclusivos de clubes lusos ou pequenas plataformas espanholas. Até um clube como o Real Madrid hoje depende dos empresários para confeccionar o seu plantel. Vejam o caso de Altintop. Um jogador livre, dispensado pelo Bayern Munchen, com uma grave lesão nas costas que acaba no Real Madrid de forma surpreendente. Para muitos talvez o que surpreenda é que o turco provavelmente nunca jogue com os merengues já que está prevista a sua venda ao Galatasaray no próximo Verão depois de um empréstimo de seis meses a começar em Dezembro. E porque chegou Altintop ao Real Madrid?

Porque o seu empresário é o mesmo de Nuri Sahin, a grande promessa turca que o clube merengue contratou ao Dortmund. Uma exigência do empresário (e do jogador, que é o "protegido" do capitão da selecção turca) foi sempre de chegar a Madrid acompanhado por Altintop para valorizar o seu passe de forma a que este pudesse voltar à Turquia sem problemas, já curado da sua lesão que, garantidamente, iria impedir a sua colocação durante o Verão em qualquer clube. O Real Madrid lutou contra a situação mas rendeu-se à evidência. E hoje oficialmente, Altintop é jogador merengue. Como Bebé foi jogador do Manchester United - sem o clube o ter visto sequer jogar - ou como Tevez ainda se move por Inglaterra sem saber-se realmente bem a quem pertence o seu passe.

Essa ditadura dos empresários, aliada à sagacidade de alguns dirigentes, tem condicionado por completo um mercado enlouquecido.

Na maioria dos casos os jogadores são conscientes do circulo vicioso em que entram. Aceitam contratos chorudos para paliar o mínimo impacto desportivo nas suas carreiras mas muitos deles voltam rapidamente ao ponto de origem, como virgens arrependidas. Outros deixam-se levar pela conversa de empresários e dirigentes e perdem-se completamente para o futebol, entregues aos excessos do dinheiro e ao mínimo controlo que o clube receptor exerce na sua carreira. A maioria dos casos são jogadores sem futuro a quem lhes custa muito recuperar. O caso de Ricardo Quaresma é, sem dúvida, o mais gritante. Negócio Mendes a três niveis, passou do FC Porto ao Inter, do Inter ao Chelsea por empréstimo e daí para o Bessiktas, desaparecendo a pouco e pouco o destelho de arte que o converteu numa das grandes promessas do futebol mundial. O mesmo se pode dizer de mil e um atletas, carne para canhão neste mundo de milhões que transformam presidentes de clubes em milionários, empresários em semi-deuses e treinadores em cúmplices de projectos desportivos que se desfazem. Manzano, Vitor Pereira, Jorge Jesus, Domingos Paciência, Javier Aguirre ou Leonardo Jardim são treinadores que viram os seus planteis aumentar e diminuir de forma descontrolada durante o último mês, sem saber realmente com quem contavam para trabalhar. Domingos ficou com um plantel praticamente novo. Jesus desmontou, quase definitivamente, a sua equipa campeã. Vitor Pereira ficou sem opções para zonas do terreno onde o FC Porto vive órfão e Leonardo Jardim limitou-se a acenar que sim quando António Salvador apareceu com o dinheiro no bolso. Realidades que os adeptos não entendem e que se estendem em clubes menores com compras em paquetes express a clubes sem expressão ou com o regresso de futebolistas perdidos em ligas como a romena, cipriota, grega, russa ou ucraniana e que tentam recomeçar do zero depois de terem sido abandonados, como cordeiros no altar, ao sacrifício do Dom Dinheiro.

 

O futebol continua a caminhar perigosamente para um túnel sem saída. O dinheiro que se move é cada vez maior e, sobretudo, cada vez mais oculto. Não se pagaram mais de 50 milhões por um jogador - como sucedeu nas últimas épocas - mas pagou-se muito dinheiro que ficou por declarar e justificar tendo em conta o rendimento de mais de um atleta. Projectos como o do Zaragoza sobrevivem com a cumplicidade da legislação, já de si construida para beneficiar quem mais tem a ganhar com ela. Clubes como o Benfica e Sporting entregam-se a negócios obscuros que dificilmente poderiam justificar e entidades como o FC Porto ou Atlético de Madrid continuam a utilizar os empresários e os misteriosos fundos para manter-se na ribalta quando financeiramente vivem na corda bamba do resultadismo. No caso dos portugueses, na constante presença na Champions League, no caso dos espanhóis nos empréstimos bancários e na borbulha imobiliária que definiu a vida de muitos clubes de futebol no país vizinho na última década. Olhando para estes nomes, números, para estas coincidências que não o são, para tantas suspeitas por justificar, é irónico ouvir a UEFA falar de fair play e as autoridades policiais a assobiar para o lado quando um negócio como o futebol, talvez uma das indústrias mais poderosas da actualidade, continua a ser pasto para corruptos e corruptores passearem à vontade sabendo que o risco é minimo e o lucro gigantesco. À medida que esses jogadores se movem, ocupando lugares em plantéis onde muitas vezes nem contam, os clubes abandonam a formação, a aposta em jogadores da casa ou em negócios desportivos realmente relevantes, ideias que se tornaram, na mente dos directivos de SADs quimeras quixotescas quando existe a possibilidade de ganhar milhões. Enquanto o mundo do futebol continuar a vier neste limbo muitos Julio Alves e Bebés acabarão na Turquia depois de sonhar com a glória da Liga Espanhola ou da Premier e muitos veículos desportivos, viagens de luxo, terrenos em zonas privilegiadas ou negócios bem mais perigosos passarão pelas mãos de quem realmente tem a bola debaixo do braço.



Miguel Lourenço Pereira às 08:19 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Quinta-feira, 07.07.11

Depois dos técnicos low-profile e da aposta na formação o Sporting procura uma fórmula mágia que permita recuperar o atraso considerável face aos seus historicais rivais na luta pelo titulo. O leão reinventa-se com os nomes responsáveis pelos últimos titulos de volta aos escritórios de Alvalade e com um técnico que quer vencer o seu primeiro titulo para confirmar-se, também ele, como um dos grandes de Portugal.

A Domingos Pacicência falta um titulo. Ao Sporting também, há muito tempo. Demasiado.

Hoje falar do Sporting é questionar a própria ideia de Três Grandes que fez parte da cultura do futebol português durante 80 anos. Afinal, os leões foram responsáveis pelo delapidar do seu projecto desportivo, pela falência do seu ideário económico e pela falta de ideias e projecção para colmar o imenso buraco que se abriu entre eles, o renascido SL Benfica e o constante FC Porto. Na última década os leões e as águias partilham o mesmo número de titulos (2 contra 7 do FC Porto) mas a distância emocional entre ambos os clubes nunca foi tão grande. Mesmo no largo hiato de 19 anos sem vencer um troféu, nunca o clube de Alvalade deu tantas mostras de impotência e desnorte. A saída de Paulo Bento, responsável em grande parte pelo paliar de uma situação que se agravava às escondidas dos próprios adeptos, precipitou a queda do clube. A ascensão do Braga, a emular o logrado pelo Boavista há dez anos atrás, condenou ainda mais os leões ao exilio de grandeza que sempre almejaram. A situação critica exigia medidas desesperadas. Um murro na mesa. Uma autêntica reinvenção.

Luis Duque, o homem por detrás do sucesso da era Dias da Cunha, tornou-se na aposta pessoal de Godinho Lopes, o presidente eleito em Abril que garantia, de certa forma, uma especie de status quo directivo longe de uma presidencia mais populista (e talvez mais interessada em conhecer o real estado das contas do clube). Num clube com problemas financeiros tão graves como aqueles que vive o clube verdi e branco é surpreendente descobrir que os leões são um dos clubes europeus mais activos no mercado de transferência. Sem os milhões do Málaga ou da Juventus, o Sporting já conseguiu os serviços de onze novos jogadores e esperam-se novidades nos próximos dias. O plantel à disposição de Domingos estará mais perto da casa dos 30 atletas do que dos recomendáveis 20 nomes. Um problema de escoamento que terá, forçosamente, de ser resolvido nos próximos dias e que dará tantas ou mais dores de cabeça à equipa directiva - onde também está Carlos Freitas, que o técnico conhece bem de Braga - do que a chegada de ilustres desconhecidos que o técnico leceiro terá de saber potenciar.

 

Depois de dois anos desportivos para esquecer Domingos Paciência surge como uma lufada de ar fresco.

Não tem o baixo perfil de Carvalhal, Couceiro e Paulo Sérgio e traz consigo a fome do primeiro titulo, algo que lhe escapou nas suas duas notáveis épocas em Braga. Domingos, técnico forjada na escola das Antas, traz também organização defensiva (a sua principal arma no Minho), inteligência de jogo e, sobretudo, a velocidade que tem faltado a um Sporting sempre previsivel, dependente e inofensivo.

Depois de anos e anos a apostar quase exclusivamente na formação (com incursões desastrosas no mercado internacional), o Sporting de Domingos terá pouco impacto do trabalho desenvolvido em Alcochete e será, sobretudo, um work in progress entre o técnico e as jovens promessas contratadas a um preço de mercado acessível (mas mesmo assim incomportável para um clube que, supostamente, vive à beira da bancarrota há largos anos).

Se Turan, Arias e Carrillo são promessas com muito caminho pela frente, já do bulgaro Valeri Bojinov, uma das grandes promessas do futebol europeu desde há vários anos e, sobretudo, de van Wolfswinkel espera-se golos. Especialmente no caso do holandês, que no modesto Utrechet rompeu as estatisticas com um faro de golo apuradíssimo. Poucos dianteiros na Europa se dão tão bem com as balizas contrárias como o dianteiro holandês o que numa equipa onde as restantes opções de ataque são Djaló e Postiga, dois dianteiros reconhecidos pela pouca atracção que têm com o golo, é de se agradecer. Mas se Domingos Paciência foi avançado (e dos bons) e sabe quanto vale um golo, a sua faceta de treinador tem evidenciado mais ainda o quão importante é não sofrê-lo. É na defesa que o nivel do Sporting deverá melhorar a olhos vistos. Evaldo, depois de uma época para esquecer, reencontra-se como o técnico que o potenciou. Onyewu e Rodriguez são duas figuras de peso para dar solvência e segurança defensiva a Rui Patricio (ou a Marcelo Boeck, se se confirmam os rumores da saída do jovem guardião para o Atlético Madrid). E a isso há que juntar ainda Daniel Carriço, capitão e eixo central do projecto leonino, que pode ocupar posições na defesa e meio-campo onde estará acompanhado por André Santos (outro dos poucos sobreviventes de Alcochete) e os recém-chegados Schaars, Rinaudo e Luis Aguiar (outro homem de confiança do técnico).

No processo de chegadas e saídas (que não deve ficar por aqui), a grande jogada da dupla Duque e Freitas está na relação com os elevados salários que alguns dos jogadores do projecto anterior auferiam. Pedro Mendes, Maniche, Abel, Zapater, Grimi e companhia têm guia de marcha e a sua troca por jogadores mais novos (e com salários bem inferiores) têm por objectivo reduzir directamente os gastos do clube com a carga salarial do plantel. Uma ideia que entra no espirito do fair play financeiro da UEFA mas que precisa de sucesso no terreno de jogo para funcionar.

 

O grande trunfo do Sporting está no seu próprio insucesso recente. Dos leões poucos esperam que bata a pé a um Benfica hiper-reforçado e um FC Porto que acaba de coroar-se como um dos reis da Europa. Talvez por isso - e provavelmente pela fortissima aposta na Liga Sagres em detrimento das provas a eliminar - este Sporting seja um sério candidato ao titulo 2011/12. Um projecto que procura reinventar-se entre juventude, velhas amizades e um ideário que se assemelha, mais do que nunca, á equipa que quebrou outro longo jejum, há doze anos atrás!



Miguel Lourenço Pereira às 06:56 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 26.05.11

 

SL Benfica


A época do SL Benfica seria digna de entrar na história do clube não fosse pelo habitual discurso populista e demagogo dos seus dirigentes e equipa técnica que elevou a fasquia de tal forma que destroçou qualquer possibilidade do adepto encarnado se sentir satisfeito com o ano que findou.

 

Nos últimos 10 anos o Benfica venceu apenas dois campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e três Taças da Liga sendo que o máximo que logrou a nivel europeu foi uns Quartos de Final na Champions League de 2006. Face a este registo recente que se pode dizer de um ano que garantiu um vice-campeonato (com pré-eliminatória da Champions League garantida), a terceira melhor classificação da década, uma nova Taça da Liga e uma semi-final europeia, inédita há 20 anos no historial do conjunto encarnado?

 

Os excelentes números entalam-se numa ambição desmedida que acabou por provocar um profundo, e legitimo, sentimento de frustração. Luis Filipe Vieira prometeu a grandeza europeia e o dominio do futebol nacional e Jorge Jesus secundou o presidente tornando-se refém das suas próprias palavras. Depois da euforia do titulo de 2010, o péssimo planteamento de época começou a ditar o final das aspirações encarnadas. Sairam Di Maria e Ramires, peças chave no jogo trepidante de Jesus, e ainda Quim, despedido em directo pelo técnico que queria um guarda-redes que garantisse titulos e pontos. A escolha acabou por se tornar numa cruz para a equipa já que o guardião Roberto esteve directamente ligado à maioria dos fracassos do colectivo ao longo do ano. Jesus não soube aproveitar os seus activos, não encontrou alternativas à baixa de forma de Aimar, Saviola e Cardozo e perdeu dinamismo no meio-campo com a saída, não compensada, de Ramires. As perdas de pontos cruciais nas primeiras jornadas obrigaram a equipa a jogar no seu máximo durante o resto de 2010 para manter-se na perseguição ao FC Porto mas a copiosa derrota no Dragão dictou o fim do campeonato e, mais ainda, significou um profundo desgaste fisico que pagaria factura.

 

Face à debacle europeia na Champions League, com a equipa a cinco minutos de terminar a fase de Grupos no último posto, surgiu a campanha na Europe League para dinamizar os adeptos encarnados mas a derrota frente a um Braga que soube sofrer, tornou ainda mais doloroso os eventos prévios, as duas derrotas caseiras frente ao eterno rival que significaram a perda do titulo diante dos seus (com um lamentável comportamento dos directivos encarnados) e a eliminação nas meias-finais da Taça de Portugal depois de uma vantagem conseguida no Dragão de dois golos (no melhor jogo da época do conjunto da Luz). Derrotas contra os rivais directos nas três competições que dão esse travo amargo a um projecto que viveu mais da garra e da improvisação – com Fábio Coentrão com imagem perfeita desse estado de animo descontrolado e frenético – do que de um planteamento pensado e trabalhado no laborátorio de Jesus. Os erros individuais não escondem a profunda quebra colectiva, nomeadamente nos niveis fisicos, e deixam a reputação do técnico em baixa apesar do titulo de 2010.

 

Para o próximo ano espera-se de novo um Benfica combativo em todas as frentes como aliás sempre soube ser, com a excepção da Champions League, durante 2010/11. Mais do que melhorar o aspecto técnico-táctico aos encarnados pede-se, essencialmente, um pouco mais de honestidade intelectual para com a sua legião de adeptos e um leque de objectivos realistas que não se deixem levar por discursos populistas mas que carregam com um pesado preço na hora do infortunio.

 

 

Sporting CP

 


algo muito podre em Alvalade e começa a levantar legitimas suspeitas aos adeptos leoninos de que se trata de um regresso a um tortuoso passado que significou estar 18 anos a ver os titulos passar. Depois de quatro épocas consecutivas num segundo lugar inexpressivo o Sporting começa a cair cada vez mais fundo. Na tabela classificativa. Junto dos seus próprios adeptos e no respeito do futebol português, ainda aburguesado a velhos ritos sociais para entender que entre passado e futuro há uma grande diferença. O Sporting ainda é um grande, principalmente pela sua herança longinqua. Em 30 anos sumou 3 titulos, menos 5 que o seu rival Benfica e menos 15 que o FC Porto. E a situação parece estar longe de inverter-se.

 

Os graves problemas financeiros do clube na ressaca do plano Roquette continuam sem encontrar fim à vista e a polémica à volta das eleições presidenciais apenas contribuiu para aumentar o pessimismo e descrença dos adeptos. O Sporting navega sem rumo, sem ideias e sem forças. A celebre academia conta cada vez menos na gestão desportiva do clube e muitos dos seus melhores frutos são aproveitados por rivais directos. Chegam jogadores sem nivel, velhas glórias com contractos milinários e despedem-se abonos de familia e maças podres que, resulta, ainda têm muito para dar noutras paragens. Paulo Sérgio foi aposta pessoal da direcção desportiva de Costinha e transformou a sua reputação de técnico com projecção numa caricatura de si mesmo. Sem uma ideia de jogo definida o Sporting não encontrou os golos de Liedson e desesperadamente foi caindo no poço. A Europa virou-lhe as costas, as provas a eliminar também e a Liga Sagres tornou-se um martirio constante. Com as excepções de Rui Patricio e André Santos, recém-internacionais, o plantel nunca ofereceu a sua melhor cara e entre os falhanços de Postiga e Djaló, a inconstância de Valdés, Fernandez e Vukcevic e os problemas fisicos intermináveis de Pedro Mendes e Maniche, deixaram a nu a má planificação do plantel na pré-temporada. Nem o terceiro lugar, resgatado ao Braga no último dia, deixa um bom sabor de boca. Afinal, em termos percentuais, esta é mesmo a pior época do conjunto de Alvalade. O anterior registo negro remonta ao ano passado onde a equipa nem passou do quarto lugar.

 

Sem vencer um trofeu há três anos, sem vencer uma Liga há nove, este Sporting começa a assemelhar-se cada vez mais a uma caricatura caduca de grandeza do que a um projecto ganhador. O problema não está, forçosamente, no técnico ou nos jogadores mas sim na falta de uma coerência desportiva que minou nos últimos anos os projectos de Peseiro e Paulo Bento e atirou para o descrédito total um clube ainda com uma significativa franja de adeptos que cada vez menos tem razões legitimas para sonhar.  



Miguel Lourenço Pereira às 21:52 | link do post | comentar | ver comentários (24)

Sábado, 21.05.11

Nunca uma liga portuguesa tinha sido ganha com tamanha autoridade. A vitória do FC Porto significou um regresso às origens para um clube habituado a mandar com autoridade no torneio. Na sombra do campeão invicto, um Benfica que só tem a si mesmo que culpar-se e um Sporting e Sporting de Braga ziguezagueantes que rapidamente mostraram que a liga deles é outra.

 

O simbolismo do triunfo na escuridão do FC Porto em pleno estádio da Luz resume bem o espirito da temporada.

Depois de uma época em que o Benfica venceu o trofeu e acreditou que podia interromper, de forma definitiva, o dominio autoritário do FC Porto na liga portuguesa (17 titulos em 30 anos), os azuis e brancos restauraram a normalidade com uma superioridade insultante que arrancou no primeiro jogo oficial da época e só terminou com a consagração europeia. Pelo meio a Liga Sagres foi o tapete perfeito para a equipa de André Villas-Boas demonstram que caminhava num mundo à parte. O FC Porto venceu 27 jogos, empatou três, um dos quais já depois de confirmar o titulo de campeão. Numa liga com 30 jornadas, o clube do Dragão foi campeão a cinco jogos do fim e no terreno do eterno rival a quem sacou uma vantagem de 21 pontos. Uma diferença abismal em comparação com o ano anterior em que o Benfica perdeu a hipótese de carimbar o titulo no Dragão e acabou por ter de sofrer até à última jornada para fazer a festa. Benfica que contribuiu, e muito, para que a corrida ao titulo do novo campeão fosse mais fácil. As derrotas surpreendentes nas jornadas inaugurais, o pior arranque de que há memória, deram ao FC Porto um colchão confortável, ampliado pela histórica goleada de 5-0 no Dragão. A partir daí o clube da Invicta geriu a vantagem sem pressão e concentrou-se noutros objectivos. O Benfica passou toda a época num sprint louco e desesperado que arrasou fisicamente com uma equipa já de si mal planificada. Quando as pernas começaram a faltar o rival deu a estocada final. Sem contestação.

 

No meio deste triunfo histórico pouco espaço houve para os outros.

No quadro europeu, Sporting e Braga mantiveram um pulso durante todo o ano pelo último lugar do pódio. O Sporting realizou a sua pior época de sempre em percentagem pontual mas na última jornada venceu o rival directo e evitou o descalabro de terminar dois anos consecutivos no quarto lugar. A instabilidade directiva, a venda de Liedson, o plantel mas planificado e os péssimos registos goleadores da equipa permitiram ao Braga, que arrancou a época com a cabeça na Europa, recuperar um grande atraso pontual para chegar a sonhar com o 3º lugar, perdido quando a equipa já tinha a cabeça na final de Dublin. Não muito longe pontualmente, mas num outro campeonato, o Nacional da Madeira garantiu o regresso à Europa batendo a concorrência directa de Maritimo, Rio Ave e União de Leiria. No entanto a grande sensação da metade de tabela pertenceu ao Paços de Ferreira. Os minhotos nem se inscreveram na Europa mas mereciam ter-se qualificado para a Europe League pela qualidade do seu jogo – muito bem orientado por Rui Vitória, com um grupo de jogadores jovem que foi premiado com a final da Taça da Liga – e pela gestão directiva dos pacenses. No quinto posto, com a tranquilidade de ter carimbado o seu lugar europeu através da Taça de Portugal, o Vitória de Guimarães soltou-se dos fantasmas recentes e realizou um ano sóbrio, sem entusiasmar, mas também sem desiludir o exigente público do D. Afonso Henriques.

 

A diferença abismal entre o FC Porto e os outros acentuou ainda mais o nivelamento por baixo que vai tomando conta do futebol luso.

Naval 1º de Maio e Portimonense foram despromovidos mesmo antes da última ronda, mas o pobre futebol de Olhanense, Académica, Beira-Mar e Vitória de Setubal leva seriamente a questionar a realidade competitiva de um torneio que viveu o seu ano de ouro na Europa mas que continua a ser mal gerido dentro das fronteiras. O fosso entre candidatos ao titulo, candidatos europeus e os demais é cada vez maior e não há nenhuma indicação de que a situação se possa vir a alterar. O FC Porto tem condições para restaurar a sua hegemonia e o Benfica continua a ser o rival a abater. Braga, Sporting e Vitória terão anos complicados pela frente e os demais procurarão sobreviver e recolher as migalhas pelo caminho. Triste sina para uma liga que continua com estádios vazios, preços proibitivos, horários televisivos anedócticos e uma federação que não sabem a que joga.

 

No meio de todo este pesadelo freudiano, o FC Porto foi igual a si próprio, o SL Benfica pagou o preço de uma ambição desmedida e o futebol português ficou pouco a ganhar com o asfixiante dominio dos clubes que mais investem no mercado. A sustentabilidade financeira da Liga Sagres está, cada vez mais, em cheque e a politica quase suicida dos grandes clubes só contribuiu para empequenecer os demais ao mesmo tempo que, lamentavelmente, mata o futebol de formação português. Em 2010/11 voltou a não haver um goleador luso (salvo o veterano João Tomás) nem sequer uma jovem estrela a despontar verdadeiramente (se excluirmos o promissor André Santos). A Liga enfraquece-se ano após ano e continua sem se dar conta. Na Invicta poucos se importam. O clube voltou a impor a sua lei. Com total naturalidade.  



Miguel Lourenço Pereira às 13:04 | link do post | comentar

Quinta-feira, 23.09.10

"Já sou seleccionador!". Uma frase dita, talvez, com o seu quê de incredulidade. Compreensível. Imaginar Paulo Bento como novo seleccionador nacional é um sério exercício à compreensão da estrutura débil que sustenta o periclitante futebol português.

Consumado o golpe de estado, a rei morto, rei posto. Paulo Bento assinou, cobrará bem menos, terá menos responsabilidades e chega quando mais ninguém queria. Melhor inicio, impossível. Certamente.

O antigo internacional regressa à selecção portuguesa, depois de ter saído deixando uma fraca figura na mitica meia-final do Euro 2000 onde acabou por entrar no lote de suspensos pela UEFA (junto com Nuno Gomes e Abel Xavier). Representante menor da "Geração de Ouro", como jogador foi um médio centro útil que vagueou pelo agora agónico Oviedo e que acabou no ressuscitado Sporting. Clube onde ficou, ligado à formação, onde se doutorou com o mérito de vencer com umas condições invejáveis para um país onde formar passou a ser palavra maldita. Promovido de surpresa à equipa principal, depois de um ano em que tudo se pôde ganhar e tudo se perdeu em Alvalade, começou um mandato de quatro anos aliado à supremacia interna do FC Porto. Incapaz de superar Co Adriaanse primeiro e Jesualdo Ferreira depois, contentou-se com quatro vice-campeonatos consecutivos, algo inédito no historial luso. Uma taça aqui, outra acolá, desastres europeus e vários problemas de balneário e com as estruturas arbitrais marcaram profundamente o final da sua passagem por Alvalade. Deixou de ser "forever" para passar a "prescindível", pagando o preço de estar num clube suícida. Saiu pela porta pequena e ficou à espera. Da lotaria. Da inesperada lotaria chamada Selecção.

 

Nem conciliador, nem disciplinador, nem empolgante, nem um génio da táctica.

Paulo Bento não reúne qualquer das caracteristicas fundamentais para suceder a Carlos Queiroz. Nem uma, quanto mais as (desejáveis) quatro.

A sua passagem pelo Sporting mostrou um técnico muito similar ao jogador. Conflictivo, constantemente em guerra contra o comité de arbitragem e a Liga de Futebol, foi suspenso e admoestado mais do que uma vez. Incapaz de deitar água na fervura, levantou os animos dos adeptos leoninos contra os rivais directos. Agora será o seleccionador de 10 milhões de adeptos. Nenhum deles entusiasmado com a sua chegada, conscientes de que foi uma escolha por eliminação. Sem dinheiro para um estrangeiro de renome, sem a possibilidade de usar a carta de efeito chamada Mourinho, a FPF escolheu o "desempregado" com mais reputação, passando ao lado dos veteranos (Manuel José, Jaime Pacheco, Manuel Cajuda) e optando por seguir o modelo, tão em voga nos últimos anos, de eleger como técnico um homem sem experiência. Fê-lo o Brasil com Dunga, a Holanda com van Basten, a Alemanha com Klinsmann e a Argentina com Maradona. Todos eles figuram mediáticas no seu país, ao contrário do português que chega ao cargo mais cobiçado com quatro anos como técnico principal. Nada mais.

Um técnico que traz fama de disciplinador mas que está longe de o ser. Castigar o elo mais fraco não é ser disciplinador, é ser oportunista. Foi esse o tratamento dado por Paulo Bento a Purovic, Vukcevic, Izmailov e Stoikjovic, os recém-chegados, trazidos pela direcção com o seu aval, que competiam directamente com os seus rebentos. Na hora de resolver problemas internos graves, Paulo Bento errou. Mais do que uma vez, como se viu à posteriori com o caso "Sá Pinto vs Liedson" e as acusações à volta de João Moutinho, incompreensiveis no próprio balneário leonino.

O seu perfil como técnico é, além do mais, baixo. Muito baixo. Ridicularizado vezes sem conta pelo seu vocabulário (escasso), Paulo Bento tentou passar a imagem de um técnico que trabalha com tranquilidade, mas o que deixa à mostra é um homem incapaz de lidar com a pressão dos holofotes sem perder o controlo. Não tem o gene motivador que manteve durante tanto tempo a popularidade de Scolari em alta, nem sequer é um homem que provoca a força do balneário como foi António Oliveira. Tem um perfil similar ao de Humberto Coelho, técnico contestado pelos jogadores desde o primeiro dia e que já estava despedido antes do Euro 2000, pela própria Federação que, na altura, não teve de inventar um processo para evitar problemas maiores.

Por fim, Paulo Bento é, acima de tudo, um técnico limitado. Tacticamente. Durante o seu mandato de quatro anos em Alvalade nunca se soltou do eterno 4-4-2 em forma de losango, mesmo quando o sistema táctico estava ultrapassado, por demais conhecido dos rivais e quando o plantel sugeria outras opções. Num país habituado em excesso ao 4-3-3 (extremos como Varela, agora no FC Porto, não cabiam nas contas de Bento), a sua obsessão pelo 4-4-2 será um dilema de dificil resolução. Um verdadeiro, ou vai ou racha.

Paulo Bento sabe que é a última escolha. Sabe que é impopular. E sabe que não é um grande treinador. Tem consciência de que é preciso algo similar a um milagre para Portugal evitar cair no play-off, onde tudo pode passar. E que corre o risco de ser o treinador associado ao primeiro falhanço desportivo de Portugal desde 1998. Mesmo assim aceitou capitanear um navio cheio de buracos. A ânsia superou a razão. O navio é seu. Mas poucos acreditam que chegue a terra firme.



Miguel Lourenço Pereira às 00:00 | link do post | comentar | ver comentários (26)

Sexta-feira, 27.08.10

Confirmados os sorteios das provas europeias, os aristocratos do futebol do Velho Continente sabem já o percurso das longas caminhadas que os esperam antes do seu inevitável destino. As ilhas britânicas só poderão receber quatro equipas, pelo que 76 lá ficarão pelo caminho. Portugal teve direito a um percurso menos espinhoso do que se antecipava, mas neste mundo de reis, duques e condes europeus o estatuto é um erro recorrente. E impiedoso.

SL Benfica, SC Braga, FC Porto e Sporting CP esfregam as mãos.

As graças da fortuna foram gentis para as quatro equipas portuguesas que superaram "cum laude", os primeiros precalços na rota europeia. Se o Benfica é o grande beneficiado (o Olympique de Lyon era o cabeça-de-serie perfeito e o Schalke 04 um adversário do mesmo nível), face aos rivais que poderia ter diante, nenhum dos outros três conjuntos tem realmente sérias razões de queixa.

O Braga, essa grande surpresa da primeira fase a eliminar das provas europeias, terá de olhar para o espelho e medir-se com o seu alter ego, o Arsenal de Londres. Um duelo de iguais nas cores e bem diferente no estatuto que deverá pender, com naturalidade, para os comandados por Arsene Wenger, equipa que habitualmente se apresenta em forma na fase de grupos para depois ir tropeçando antes de tempo quando é a doer. Já Shaktar Donetsk e Partizan Belgrado são equipas acessiveis para os minhotos. Os ucranianos, campeões em titulo e uma das equipas com mais rondas europeias na prova rainha nos últimos cinco anos, têm-se deparado com os conjuntos portugueses, com vantagem claramente para os lusos. É uma equipa bem estruturada e repleto de criativos brasileiros, tal como o Braga. Já o Partizan conta com uma excelente formação e um ambiente demoníaco no seu estádio. E pouco mais. Rivais acessíveis que permitem sonhar com a segunda fase mas que pode terminar em desastre.

Já as equipas presentes na Europe League não podem ter razões de queixa. Ambos cabeças de série, FC Porto e Sporting têm um adversário de bom nível (Bessiktas e o regressado Quaresma e o Lille do génio Hazard), e duas equipas tremendamente acessíveis como são Rapid Wien e CSKA Sofia (para os dragões) e Levski Sofia e Gent (para os leões). Os grandes tubarões ficam adiados para uma próxima vez. Para todos.

 

À parte do caso luso, a Europa mantem o seu status quo. A UEFA sabe fazer bem as contas e coordena as suas provas ao mais minimo detalhe.

A forma como os clubes são distribuidos nos potes já garante um equilibrio forçado que mantém a ordem imperial dos gigantes europeus. Na Champions League deste curso há apenas dois grupos tremendamente competitivos. Na Europe League, onde são doze os agrupamentos, não existe sequer um "grupo da morte". Esperam-nos quatro meses de tédio e alguma inevitável surpresa. Os jogos a doer ficam reservados para depois.

Só os colossos de Milão e o Real Madrid podem ter de suar mais do que previsto. Mourinho mantém a sua malapata e o seu novo projecto merengue volta a repetir duelo contra o AC Milan (rival da passada época, que levou vantagem sob os comandados de Pellegrini) agora treinado por Massimo Allegri e eventualmente com Ibrahimovic (por confirmar), Pato e Ronaldinho como tridente de luxo. Tão brilhante como intermitente, um perigo que não sofre o Ajax Amesterdam, de volta a estas lides depois de cinco anos no purgatório. A equipa de Jol, com Suarez, Eriksen, Verthoghen, Hamdouid e van der Wiel é uma faca de dois gumes. Um perigo que não deverá repetir-se no duelo dos espanhóis com o modesto Auxerre, uma equipa que sabe que o seu objectivo real está na Ligue 1 e não nos palcos europeus. Já o Inter, agora treinado por Rafa Benitez, tem um arranque dificil para a improvável defesa da sua coroa. Twente (sem o nível da época passada), o regressado Tottenham e o épico Werder Bremen serão rivais de luxo. Já Manchester United (contra Valencia, Rangers e Bursaspor), Barcelona (Rubin, Panatinaikhos e Kovenaghen), Chelsea (Spartak Moscow, Marseille e Zilina) e Bayern Munchen (AS Roma, Cluj e Basel), os grandes candidatos à final do Wembley, têm o caminho aberto para uns meses de grande tranquilidade.

Na Europe League a presença de 48 equipas abre as portas a um imenso desiquilibrio. O duelo entre uma renascida Juventus e o milionário Manchester City, ou o embate que coloca frente a frente Sevilla e Dortmund são dos poucos aperitivos apetecíveis. Os favoritos seguirão em frente, com maior ou menor dificuldade. A UEFA garante-o. 

Portugal tem portanto todas as condições de manter-se na elite europeia a médio prazo. Os conjuntos na Champions League deverão, pelo menos, atingir o terceiro lugar (que abre as portas da segunda prova da UEFA), enquanto que FC Porto e Sporting são fortes candidatos a vencer o seu grupo e assim manter o estatuto de cabeça de série quando for a doer. Dublin e Wembley são miragens no meio de tantos tubarões, mas os pontos que se vão sumando podem permitir já para o ano a entrada de uma terceira equipa na Champions. O truque é saber estar, segurar bem na chávena de chá, sair com um vénia e de cabeça alta. É assim que funciona a aristocracia europeia. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:00 | link do post | comentar | ver comentários (11)

Segunda-feira, 10.05.10

30 jogos depois o sofrimento dos encarnados chegou ao final. É paradoxal que a equipa que se via como campeã numa pré-época feita à medida para entusiasmar os adeptos tivesse de sofrer até aos minutos finais para saborear o segundo título da década. Ou primeiro da próximo, como se queira ver. O Benfica venceu com naturalidade uma liga repleta de nódoas dificeis de esquecer. Foi uma equipa ofensiva que soube utilizar todas as armas ao seu alcance. Uma equipa bem montada por Jorge Jesus, com um colectivo que espelhou, finalmente, os muitos milhões gastos nos últimos anos. E que, paradoxalmente, teve de esperar até ao fim para ver claudicar o Braga dos pobres. É assim o futebol em Portugal, repleto de circunstâncias inevitáveis!

 

Carlos Brito preferiu não utilizar Fábio Faria, central com contrato com o Benfica que não teve problemas em assumir as suas preferências para o duelo entre as suas equipas. Essa sombra de suspeição grassou ao longo do ano e marcou um triunfo que, de outra forma, teria sido justo. Mas os condicionantes à portuguesa, um problema constante num país corrupto por definição, independentemente do campeão, foram reduzindo as variantes da corrida ao título. Se o Sporting se auto-excluiu da corrida com uma politica de hara-kiris constante, já o FC Porto demonstrou ter feito mal os deveres. Vendeu dois jogadores chaves, comprou um lote de dez novos atletas, e sobreviveu à custa dos golos de Falcao, o jogador do ano da prova. Os tropeções de uma equipa que até fez mais golos e mais pontos do que em qualquer outra época com Jesualdo Ferreira ao leme, foram uma constante da primeira volta. Até ao jogo da Luz. Ao contrário do Braga, a grande surpresa do ano. Domingos fez má figura na Europe League e passou com nota de distinção a prova caseira. Manteve um pulso até ao final com Jesus - um estratega de primeira, personagem de segunda - e só pecou pelo mau perder. O que disse no final do jogo de ontem deveria ter sido o seu discurso de há vários meses. Porque nesse Dezembro quente definiu-se a liga como aqui escrevemos. O túnel da Luz causou a um demasiado inocente FC Porto a baixa "sine die" de Hulk. E deu a entender que a prova se ia discutir a dois. Até à suspensão de Vandinho e Mossoró, elementos chave na estratégia bracarense. Suspensões inexplicáveis que deram ao conjunto encarnado, já lider, uma confortável vantagem psicologica. Porque a fisica surgia, semana após semana, com duelos pautados por uma imensa desiguladade. De golos. E de homens em campo. O último jogo foi apenas mais um exemplo de uma realidade constante, inédita no futebol europeu.

 

Por tudo isso o 32 título encarnado ficou ensombrado quando poderia, perfeitamente, ter sido uma festa do futebol.

O onze ofensivo das primeiras jornadas, com um diabólico Saviola, um letal Cardozo e dois artistas como Aimar e Di Maria, era realmente um conjunto impressionante. Por essa altura os encarnados eram os melhores da prova, face a um Braga regular e um Porto despistado. Mas a gasolina foi falhando. Saviola desapareceu do radar, Aimar também. Começou a surgir o músculo, onde antes havia a magia. Surgiram os primeiros tropeções, as primeiras dúvidas. Jesus reagiu bem e montou um onze mais cinico para a segunda volta. Especializou a equipa nas bolas paradas confiando no excessivo número de faltas do futebol português. Saiu-lhe perfeito o lance e assim se foram superando obstáculos. O Braga, sem o seu fiel de balança, foi mantendo o pulso mas a goleada no Dragão tirou-lhe força moral. O ressuscitado FC Porto, também deitou a toalha ao chão em Alvalade de forma inexplicável, quando se pensava que poderia voltar a entrar na luta. Mais com o regresso de Hulk. Com o brasileiro, uma nódoa na primeira volta, a equipa não voltou a perder. E fez um final de época de campeão. Já nem chegava para o segundo lugar tal a regularidade eficaz do Braga e os apertos de coração dos encarnados. O titulo, anunciado desde o principio, demorou a chegar. A derrota no Dragão demonstrou a debilidade do novo campeão. O sofrimento com o Rio Ave, ouvidos postos na Madeira, pareceu um cenário surreal face à euforia do inicio da prova. Mesmo assim, foi suficiente. Para estrear-se a receber o troféu no acto, uma costume habitual noutras ligas que se estreia em Portugal. Um toque de cinismo subtil de uma Liga que passou os últimos quatro anos a entregar taças com uma época de atraso. Pela primeira vez uma liga europeia viu dois clubes receber o trofeu de campeão no espaço de um mês. Palavras para quê.

Nesta liga a três, o quarto em discórdia foi o fantasma da prova. Para muitos favorito ao titulo, face às boas sensações das quatro épocas anteriores, o Sporting desapareceu cedo do mapa. A saída do eterno Paulo Bento e o mandato cinzento de Carvalhal ficaram apenas marcados pela vitória frente ao FC Porto e pelo empate contra o Benfica. Muito pouco para um projecto tão ambicioso. Decepcionante acabou igualmente por ser o ano de Vitória de Guimarães e Nacional. Ambos pareciam disputar o último posto europeu até ao fim, mas resultados comprometedores nas últimas rondas ofereceram de bandeja ao Maritimo a possibilidade de voltar à Europa. Atrás a imensa classe pobre do futebol português. Leixões e Belenenses foram justos despromovidos, equipas sem pontos fortes e demasiada apatia para justificar algo que não seja disputar a Liga de Honra. O problema é que Olhanense, Vitória de Setúbal ou Académica poderiam ter sofrido o mesmo destino. E o futebol português pouco perdia. Acabaram por salvar-se, com os mais tranquilos Naval, Paços de Ferreira, Rio Ave e União de Leiria. Equipas que jogam sem sonhos ambiciosos e pesadelos angustiantes. Equipas sem chama nem dor. Equipas perfeitas para uma Liga apática que acabou por ir para o mais esperto da aula.



Miguel Lourenço Pereira às 09:15 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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