Terça-feira, 01.04.14

Anfield Road não celebra um título de liga desde o ocaso dos anos oitenta. O Calderón está à quinze anos à espera de voltar a Neptuno. Roma e Sporting, flamantes equipas nos princípios do milénio, voltam a sentir-se protagonistas. 2014 pode transformar-se num dos anos mais transcendentes do futebol europeu recente. Enquanto o dinheiro continua a sufragar títulos e transferências milionárias, permanece vivo um espaço emocional para a boa gestão desportiva demonstrar que é uma alternativa real ao mundo dos novos-ricos.

 

O mais provável é que Maio se despeça com os campeões do costume.

Manchester City, Barcelona, Juventus e SL Benfica repetirão títulos recentes. Tèem sido, inevitavelmente, figuras de proa das suas respectivas ligas. São os clubes que mais investem, os que melhor souberam contornar os obstáculos. Serão campeões justos e previsíveis. Mas este ano terão também sobrevivido a uma dura pugna com inusuais suspeitos. Com clubes que, sem as mesmas armas financeiras e argumentos desportivos, encontraram um atalho fundamental para permanecer vivos. A memorável temporada de Reds, Colchoneros, Giallorossos e Leões é a prova de que se pode vencer no mundo do futebol com meia dúzia de tostões e cabeça. Sobretudo, cabeça. A época desastrosa de FC Porto, Real Madrid, Manchester United e AC Milan, os mais lógicos rivais aos mais que possíveis ganhadores do ano, foi reflexo de uma soma de péssimas decisões desportivas. O dinheiro estava lá. Todos eles gastaram e gastaram muito. Mas não gastaram bem. Sobretudo, entregaram as rendas da equipa a homens que não estiveram a altura do desafio. Ao contrario das grandes surpresas do ano que devem o seu sucesso inesperado mais aos seus hábeis treinadores do que, propriamente, ao trabalho dos seus dirigentes. Nos bancos de suplentes o papel do treinador é habitualmente relativizado em prole das estrelas dos relvados. Mas uma constelação de grandes nomes nem sempre faz uma equipa. E muito raramente uma equipa funciona sem um grande treinador. Brendan Rodgers, Diego Simeone, Rudy Garcia e Leonardo Jardim foram, destacadamente, os melhores generais das suas respectivas ligas. Podem ganhar ou perder no final da batalha. Mas isso será um detalhe. Será culpa do abismo financeiro que existe entre os seus clubes e os rivais. Estarem a lutar em Abril por algo que os seus adeptos nem sonhariam, já é mais do que uma vitoria moral.

 

Das quatro equipas que deram cor a temporada europeia, parece mais evidente que Sporting e Roma estão descartados da corrida pelo titulo. No entanto, os seus casos sao os mais impressionantes. No caso dos romanos, a equipa deu um salto de gigante na hierarquia do Calcio. O investimento norte-americano foi ponderado e o clube continua a depender, talvez em excesso, do peso emocional de Francesco Totti, o eterno rei de Roma. Mas á volta do seu herói das arenas, Garcia montou uma equipa jovem, barata e ambiciosa que durante largas jornadas apresentou o melhor futebol do Calcio. Depois de um arranque para os livros de história, a equipa da Loba perdeu o gás e não aguentou a concorrência com uma Juventus que tem um dos melhores meio-campos do Mundo, com Pogba e Vidal como escudeiros de Pirlo. O titulo Bianconeri ja se adivinhava, a oposição romano foi a grande surpresa especialmente com o pedigree dos clubes lombardos e o grande investimento realizado pelo Napoli. Sem tanto dinheiro, sem tantos nomes sonantes, Garcia soube dar a batuta da equipa a quem podia fazer a diferença. E reduziu em campo diferenças abissais fora dele. Leonardo Jardim fez o mesmo. 

O Sporting dos últimos anos foi sempre um pálido reflexo da herança orgulhosa do Leão. Depois de dois títulos em três anos e de uma geração promissora, desmantelada cedo demais, o hara-kiri institucional do clube lisboeta foi assustador. Para muitos a recuperação seria lenta. O sucesso desportivo de 2014 apanhou todos de surpresa inclusive o flamante novo presidente do clube. Sem gastar praticamente nada no defeso, com uma equipa de jovens promessas e segundas filas, o Sporting tem sido o único clube a dar batalha ao Benfica de Jesus, o mesmo que sobreviveu a um annus horribilis para encontrar-se com uma temporada mais plácida do que podia pensar á partida. Eliminados pelos Águias depois de um memorável duelo na Taça de Portugal, os Leões mantiveram-se de pé na luta pelo titulo de liga até ao fim, algo que não acontecia há cinco longos anos. Jardim, de longe o melhor treinador do campeonato, encontrou em William Carvalho e Freddy Montero os seus melhores aliados. O Sporting pode, pela primeira vez em doze anos, acabar a época à frente do FC Porto. Com um orçamento muito inferior, mas com um treinador muito melhor. Os Dragões deitaram por terra o Tetra no dia em que trocaram o pouco espectacular mas fiável Vitor Pereira por Paulo Fonseca. O maior erro de gestão desportiva de um Pinto da Costa cada vez mais ausente e de uma “estrutura” que falhou num momento delicado no processo de escolha e de substituição (tardia) do principal (mas não único) calcanhar de Aquiles do FC Porto 2013/14. O titulo nunca foi real, a temporada do Benfica foi mais tranquila mas o que o coloca no mapa o genuíno fracasso dos azuis da Invicta é a sua incapacidade de ultrapassar uma equipa leonina que foge determinado para um pote de mais de 10 milhões de euros que serão fundamentais para salvar o clube. Contra todas as expectativas.

 

Do outro lado da barricada, o das equipas que sonham até ao fim, estão Atletico de Madrid e Liverpool. 

Os colchoneros, desde que Simeone aterrou no Manzanares, têm recuperado o sabor das vitorias.

Á Liga Europa de 2012, sucedeu-se a Copa del Rey de 2013 em casa do histórico rival, esse que nao batiam à quase quinze anos. Podia ser sonho de curta duração. Mas não foi. O arranque do Atleti na liga foi convincente, vencendo no Bernabeu e empatando em casa com o Barcelona. A caminho do sprint final, os madrilenhos lideram a classificação. Contra o Real dos 100 milhões gastos em Bale, o Real de Ronaldo, Benzema, Modric. E contra o Barcelona dos 100 milhões (e continuem a contar) de Neymar, o Barcelona de Messi, Iniesta e Xavi. Com um orçamento infimo, um plantel de gladiadores e um treinador com alma de potrero, o Calderon sonha. O Atletico está na luta pela Champions League – pela primeira vez desde 1997 – e pelo titulo de liga que não celebra, precisamente, desde essa etapa. Quando Simeone ainda capitaneava em campo o que agora ordena do banco. Não haveria campeão mais justo numa liga de milhões atirados ao lixo do que uma equipa que com negócios oportunos, jogadores da cantera e o símbolo do “Ardaturanismo” bate o pé aos grandes e devolve a ilusão dos días do SuperDepor, do Valencia campeão e da equipa do Doblete.

Em Inglaterra, o Liverpool vive um estado distinto de euforia. Dominadores absolutos do futebol ingles durante tres décadas, os Reds vivem vinte e quatro anos de desespero. Nenhum titulo de liga, dois títulos continentais e muitos sonhos desfeitos pelo caminho. A Kop espera ansiosamente pelo momento em que o Youll Never Walk Alone volte a ser entoado ao som de “We are the Champions”. Mas ao contrario dos espanhóis, o sucesso parece ter caído do céu. Depois de uma época passada sofrível, não muito diferente das anteriores, os homens de Rodgers voltam a ser protagonistas. Devem-no aos golos de Suarez, ao espírito guerreiro de Sturridge, à aparição de Sterling e ao talento de Coutinho. Devem-no à liderança de Gerrard. E a gestão de Rodgers. Aplicando os conceitos defendidos pela filosofía Moneyball, os gestores do Liverpool encontraram o caminho do arco-iris de forma surpreendente, quase como por acaso. Lideram a Premier League em Abril pela primeira vez em duas décadas. E só dependem de si para serem campeões. Nos duelos directos com os milionários de Londres e Manchester vão dar forma ao sonho. Podem ainda acabar fora dos postos Champions. Mas Anfield já so pensa no futuro que lhe relembra o passado. Nesses dias de glória perdidos no tempo em que o rio Mersey adormecia embriagado de euforia. No primeiro ano sem Ferguson no activo – com um Manchester United em autodestruição, um Arsenal eternamente inconstante e um Chelsea em reconstrução -  os Reds podem voltar a ser campeões. O mundo torce por eles.

 

No final os vencedores podem continuar a ser os de sempre e tudo o que se viveu em meses de competição acabar numa mera anedota sem repercussões futuras. Mas a gestão desportiva brilhante destes quatro clubes aponta um caminho que cada vez mais equipas vão ter de seguir para reduzir o fosso das grandes fortunas que assaltaram o futebol e abriram caminho a uma nova hegemonia reduzida a petro-dolares, rublos e velhos nobres com créditos ilimitados na banca. Os que acreditam num futebol diferente vão sempre tomar partido nesta luta. A vitoria de um, nem que seja, será celebrado seguramente em casa dos outros. Todos sabem que não lhes resta mais do que continuar a lutar.



Miguel Lourenço Pereira às 18:32 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 06.03.14

A Juventus tem um dos melhores meio-campos do Mundo. É lider absoluta da Serie A. Não conseguiu passar da fase de grupos da Champions. O Napoli investiu no mercado como poucos. Tem o terceiro lugar ameaçado pela Fiorentina. Não conseguiu passar da fase de grupos da Champions. O AC Milan titubeou contra o Atlético de Madrid, o arranque brilhante da Roma fez-se pó e o Inter é uma incógnita. A Serie A continua a viver o seu particular karma.

Quando era pequeno apaixonei-me pela Premier League.

Adorava aqueles estádios clássicos, aqueles equipamentos berrantes (sim, foi essa época), os jogadores e aquele ambiente fantástico. Durante temporadas gravei todos os resumos de todos os jogos que passavam no saudoso Domingo Desportivo ou via satélite. Era a minha competição. Mas ao mesmo tempo sabia que não era a melhor. Que a nata do futebol mundial estava noutro lado. Em Itália. Apanhei os primeiros anos de ouro da Serie A, os de van Basten, Maradona, Zico, Laudrup, Mathaus, Klinsmann, Voeller, Elkjaer Larssen, Baggio ou Vialli. Nessa transição do final da década de oitenta aprendi a admirar respeitosamente o que a liga italiana era capaz de fazer. Não me tocava o coração como o futebol inglês mas à medida que ia crescendo, assumia que o Parma, a Lazio, a Fiore ou a Roma provavelmente eram melhores equipas que o Aston Villa, Newcastle, Blakckburn Rovers ou Tottenham. Para não falar dos gigantes europeus da altura. Durante quase vinte anos o Calcio foi a quintessência do futebol europeu. Espanha tinha o glamour do Clássico (e pouco mais). Inglaterra o velho espírito histórico do futebol em casa e uma liga renovada e atractiva depois dos anos negros do hooliganismo. França, Holanda e Alemanha eram produtos periféricos para um adolescente português que sabia mais do Campomaiorense do que do Karslruher. Mas Itália era outra coisa. O santa Graal.

Depois a borbulha estalou. O Dinheiro, sim, com D grande, deixou de jorrar por todos os lados. Os magnates abriram falência e levaram com eles o futebol, as estrelas, as bancadas cheias, os títulos de clubes. Levaram a magia artificial de vinte anos de prazer absoluto. Os casos de doping, corrupção desportiva e violência apenas deram o golpe de misericórdia a uma Serie A que já não era a mesma. Passaram mais de dez anos desde esses anos de ouro. E pouca coisa mudou.

 

Há poucos campeonatos europeus tão decididos como o italiano.

Falta ainda um terço de competição e ninguém é capaz de apostar contra a Juventus. Os que pensamos (eu também) que este era o ano da Roma tivemos de nos render à evidência. Os homens de Rudi Garcia jogam o melhor futebol do país, conseguiram um arranque histórico mas foram incapazes de aguentar o ritmo de um plantel com o dobro das opções e que conta com um dos melhores meio-campos do Mundo. Uma equipa que pode juntar o génio de Andrea Pirlo, a energia de Paul Pogba e a omnipresença de Arturo Vidal pode aspirar a tudo. Com esses três em campo todos os outros tornam-se quase irrelevantes, seja a brilhante linha defensiva liderada por Chiellini e Buffon ou o ataque onde Tevez e Llorente aprenderam, finalmente, a jogar juntos. A chegada do espectacular Osvaldo apenas contribuiu para aumentar o desequilíbrio na balança. Em contrapartida a Roma depende, ainda, muito de Totti. Um veteraníssimo que não desiste de lutar mas que tem as suas naturais limitações. Será uma época brilhante, a todos os títulos, para um projecto pequeno mas ambicioso. Mas pouco mais. Já o Napoli, depois de tanto dinheiro gasto, tem de ser ver com a sombra de uma bem organizada Fiorentina (Montella, a par de Garcia, é outra vez o treinador do ano) para ocupar esse último posto Champions. Há meia dúzia de anos os transalpinos tinham quatro equipas na grande prova de clubes europeus. Agora têm apenas três. Os resultados não mentem. A Juventus, num grupo claramente acessível, deixou-se ficar pelo caminho, ultrapassada pelo Galatasaray. O Napoli teve a desdita de cruzar-se com o Dortmund e o Arsenal no seu melhor momento do ano. São os grandes favoritos a vencer a Europa League, que se vai disputar em Turim. Mas sabe a pouco.

De todas as equipas italianas, só o suspeito AC Milan sobreviveu. Mas a duras penas, num grupo fraco e contra um rival como o Atlético de Madrid os rossoneri foram outra vez uma sombra do clube histórico que persegue o Real Madrid na luta pela liderança histórica do palmarés da Champions. Os grandes de Milão estão a pagar o preço da crise financeira como nenhum outro polo desportivo do país. Mas também não são os únicos. Projectos estáveis como o da Udinese, pequenos históricos como os clubes de Génova, o Parma, a Lazio ou o Cagliari sofrem para manter-se competitivos. Actualmente há mais espaço para a formação porque há menos dinheiro para gastar e isso pode ser um dos poucos pontos positivos desta crise. Mas é insuficiente. As bancadas continuam vazias, os jogos permanecem pouco atractivos para os espectadores que agora preferem seguir a Bundesliga ou a Ligue 1 em detrimento da Serie A. Da liderança à periferia em dez anos.

 

A hegemonia de uma Juventus cada vez mais forte contribuiu ainda mais para esta crise desportiva. Sem uma grande competição internacional para organizar nos próximos dez anos, não há um estimulo nacional para dar um murro na mesa. A renovação das lideranças nos históricos de Milão anunciam anos negros para os dois clubes e enquanto os melhores jogadores continuarem a preparar para mudar-se para ligas historicamente inferiores à italiana, a situação seguirá como está. O drama do Calcio parece não ter fim!

 


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Miguel Lourenço Pereira às 17:19 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 27.12.13

Com o final do ano de 2013 o Em Jogo publica a sua lista particular dos melhores jogadores do ano natural. Uma eleição condicionada pela performance individual, pelos méritos dentro do colectivo e pelo seu talento particular. Aos onze titulares do ano junta-se um leque de sete suplentes de luxo para forjar o plantel perfeito do ano 2013!

 

Os Melhores do Ano (Titulares)

 

Manuel Neuer

É díficil quantificar quem é o melhor guarda-redes do Mundo. Se os veteranos Cech, Buffon ou Valdés ou o alemão Manuel Neuer. Mas não houve um só título que o germânico não tivesse levantado no último ano e muitas das vitórias dos bávaros deveram-se, também, ás suas espantosas intervenções. Com o passar dos anos o ex-Schalke 04 tomou pulso a um posto onde muitos pensavam que não iria durar e já está à altura dos grandes número 1s alemães da história!

 

Philip Lahm

Talvez o jogador de 2013. Não é o mais rápido, o mais goleador, o que mais assistências dá ou o mais mediático. Não vencerá nunca um Ballon D´Or e a maioria dos adeptos até se esquece que já tem atrás de si uma década ao mais alto nível. Mas Lahm é o capitão desta equipa e um jogador que todos gostariam de ser e de contar com. Foi fundamental no esquema de Heynckhes e Guardiola rendeu-se à sua inteligência de jogo, colocando-o várias vezes no fundamental papel de médio defensivo durante os primeiros meses da temporada. É o líder emocional em campo dos bávaros e já um dos maiores laterais da história.

 

Thiago Silva

O brasileiro esteve perto de abandonar a carreira por uma tuberculose que os médicos do FC Porto não souberam detectar a tempo. Desde esses dias na Rússia e o regresso ao Brasil até à explosão definitiva como o melhor central do mundo, o capitão do Brasil tem protagonizado uma sequência de temporadas inesquecíveis. 2013 foi a melhor. Não só pelo título conquistado pelo PSG mas também pela vitória do Brasil na Taça das Confederações. Títulos onde teve um papel fundamental. A sua liderança e capacidade de controlo da área não encontram impar no futebol actual.

 

David Alaba

A evolução do lateral austríaco nos últimos dois anos tem sido épica. Alaba apareceu em cena como um médio interior formado nas camadas jovens do Bayern e acabou reconvertido num dos melhores e mais incisivos laterais do Mundo. O seu ano 2013 foi memorável, como sucedeu com quase todos os seus colegas de equipa. O seu próximo passo é levar a Áustria de volta a um Campeonato da Europa e manter o pulso com outros laterais da escola sul-americana como Marcelo, Felipe Luis, Dani Alves o protagonismo entre os melhores do Mundo!

 

Paul Pogba

Foi o melhor jogador do Mundial sub-20, a grande revelação do Calcio e a melhor notícia possível para o futebol francês. Descoberto por Ferguson, recusou-se a renovar o contrato com o Man United com medo a não ter o protagonismo que sentia que merecia. Tinha 18 anos. Dois anos depois, em Turim, transformou-se no parceiro perfeito de Pirlo. Os seus disparos de longe, as suas recuperações impossíveis e as assistências perfeitas tornaram-no peça fundamental na conquista da Serie A. Para completar um ano memorável, a vitória no Mundial sub20 e a promoção aos Bleus garantem que vamos ouvir falar dele com regularidade na próxima década.

 

Ilkay Gundogan

Há poucos jogadores tão inteligentes no futebol europeu como Gundogan. O médio turco-alemão do Dortmund soube substituir o seu amigo Nuri Sahin de tal forma que quando o ex-Real Madrid regressou ao Westfallen, foi-lhe impossível recuperar a titularidade. Fundamental na manobra de jogo da equipa de Klopp, o médio foi fundamental para a época memorável dos amarelos de Dortmund e a Alemanha de Low conta com ele para dar cartas no próximo Mundial.

 

Bastian Schweinsteiger

O que seria do futebol sem jogadores como "Schweini". Poucos teriam a fortaleza mental de superar um 2012 horribilis, com o penalty falhado na final da Champions League e a eliminação da Mannschaft nas meias-finais do Europeu, parecia que a carreira do médio tinha atingido o seu apogeu. Com a confiança de Heynckhes, voltou a pegar na equipa e lambeu as feridas com o champagne da glória. Superou a Pirlo num mano a mano, anulou (com a ajuda de Javi Martinez) o meio-campo do Barcelona numa histórica meia-final e em Londres voltou a ser fundamental para manter o jogo equilibrado até a conexão Ribery-Robben mostrar-se superior à dos rivais germânicos. O Mundial e um título com a selecção alemã é tudo o que separa Schweinsteiger de tornar-se num dos mais memoráveis jogadores teutónicos de toda a história!

 

Marco Reus

Os mais mediáticos seguramente citariam a Mario Gotze, mas talvez a mais incisiva e brilhante novidade ofensiva do Dortmund de Klopp no último ano tenha sido Reus. O médio contratado ao Gladbach foi uma verdadeira confirmação de tudo o que se suspeitava que podia ser. Vertical, directo, perfeito nas assistências, seguro frente à baliza, Reus foi o melhor jogador do Dortmund na corrida à final de Londres e com a saída do seu amigo Gotze para o histórico rival deu um passo em frente e reclamou a sua liderança para transformar-se no mais influente jogador do Dortmund actual.

 

 

Frank Ribery

Se os prémios individuais fossem atribuídos com o seu critério histórico, Frank Ribery era o homem prémio 2013. Lamentavelmente, o poder mediático cada vez mais encontrou forma de sobrepôr-se e o francês - tal como Iniesta ou Sneijder - verá a glória desde longe. Foi um ano histórico para o homem que alguém pensou que podia ser o sucessor de Zidane. Não foi nem nunca será mas vencer tudo em 2013 e ajudar a França a não falhar o Mundial é um feito que poucos gauleses podem reclamar para si. Ribery marca, assiste, distribui, lidera e encarna o espirito deste histórico Bayern Munchen. No ponto mais alto da sua carreira é um jogador imparável!

 

Luis Suarez

Se 2013 acabasse daqui a dois meses, talvez o uruguaio fosse o próximo Ballon D´Or. Na realidade, não estará sequer no top 10. No entanto, o que o jogador do Liverpool tem conseguido é impressionante. Não só realizou um excelente final da época 2012-13 - com muita polémica à mistura - como o seu arranque de temporada tem eclipsado as gestas de grandes nomes que podiam estar neste onze como Ibrahimovic, Lewandowski, Muller, van Persie, Falcao ou Diego Costa. Recorde de golos marcados, liderança na Bota de Ouro e um enfant terrible transformado na última esperança da Kop.

 

 

Cristiano Ronaldo

É díficil olhar para 2013 e não pensar num jogador: CR7. E no entanto o português não venceu um só título em 2013. Fora da luta pela liga desde 2012, Ronaldo conseguiu ser o melhor marcador da Champions League mas no jogo decisivo, no Bernabeu, não marcou o golo que carimbaria o passaporte para a final. Marcou no jogo decisivo da Copa del Rey mas acabou expulso e a equipa derrotada. Foi um mês de Maio negro que no entanto escondia um semestre memorável pela frente. Histórico de golos marcados num ano natural, memorável exibição no play-off de apuramento ao Mundial do Brasil, melhor marcador histórico numa fase de grupos da Champions League e o reconhecimento internacional posterior a uma imitação lamentável de Blatter. Ronaldo ganhou dentro e fora de campo todo o protagonismo de 2013 - sobretudo da temporada 2013-14 - e é a figura mediática inquestionável do ano!

 

 

Menções Honrosas (Banco de Suplentes)

 

Victor Valdés

É díficil não olhar para o guarda-redes catalão e não ver nele o melhor número 1 do futebol espanhol da actualidade. Valdés tem-se revelado tão influente como Leo Messi nos momentos decisivos e nos grandes triunfos dos blaugranas. A sua lesão, no final de 2013, deixou a nú muitas das fragilidades defensivas que Valdés tem tapado com brio. Talvez o seu melhor ano.

 

Matt Hummels

Tem um talento pouco habitual para um central e sabe-o. É a sua fortaleza e a sua perdição. Alguns dos golos sofridos pelo Dortmund em 2013 levam o seu selo, o descontrolo do seu imenso know-how. Mas Hummels é, sobretudo, um central imenso com um sentido posicional espantoso e uma leitura de jogo que faz lembrar a velha escola de líberos alemã iniciada por Beckenbauer.

 

Yaya Touré

Há jogadores que não necessitam de apresentações. São aqueles que qualquer treinador gostaria de ter na sua equipa. Defendem, atacam, distribuem, recuperam, dão calma quando necessário e vertigem se é preciso. E fazem-no quase como vultos fantasmas, deixando o protagonismo a outros. Yaya Touré tem-no feito há vários anos, desde a sua passagem pelo Barcelona até à sua consagração na Premier League. 2013 foi mais um ano de ouro para o marfilense!

 

Koke

O renascimento do Atlético de Madrid sob a mão de Diego Simeone encontrou no talento individual de um jovem produto da cantera colchonera o seu melhor exemplo. Para lá dos golos de Falcao e Diego Costa, do talento de Arda Turan e Mario Suarez, o trabalho incansável do médio espanhol no miolo da equipa de Madrid destacou-se pela sua sobriedade e perfeição. É uma das grandes revelações do ano e um jogador capacitado para liderar o futuro do meio-campo da Roja!

 

Lionel Messi

Há poucos jogadores na história do futebol com o talento de Leo Messi. O jogador argentino estaria em qualquer onze do ano mas 2013 foi o seu annus horribilis. Lesões recorrentes - entre Janeiro e Março e mais tarde, desde Outubro até ao presente - deixaram o génio blaugrana fora de combate em quase metade da temporada. Nos meses que esteve em campo esteve praticamente igual a si mesmo. Mas no duelo directo contra o Real Madrid (Copa del Rey), Atlético de Madrid (Supercopa) e Bayern Munchen (Champions League) não conseguiu ser o elemento desequilibrador a que nos tem tão habituados.

 

Zlatan Ibrahimovic

Igual a si mesmo, "Ibracadraba" é um dos jogadores com mais talento do mundo. Com a vitória na Ligue 1 ampliou a sua lenda. Dez titulos de campeão em doze temporadas é algo a que poucos jogadores podem optar, particularmente se os titulos foram conseguidos em quatro ligas e seis equipas diferentes. Levou os parisinos até um duelo intenso com o Barça na Champions League, rematou o título em Maio e protagonizou um notável arranque de época em 2013, interrompido apenas pela exibição de Ronaldo em Solna. Um craque!

 

Robert Lewandowski

É um exagero dizer que o polaco eliminou só o Real Madrid mas quatro golos numa meia-final da Champions League é algo histórico. O avançado do Dortmund realizou um ano memorável. Levou a sua equipa até à final da Champions, mostrou ser o avançado mais em forma na Bundesliga e tem os adeptos do clube de Dortmund em suspense sobre o seu futuro. É um dos mais letais avançados do futebol mundial e vale o seu peso em ouro!

 

 

Custou deixar de fora (O resto do plantel)

 

Robbie van Persie (decisivo no último ano de Ferguson), Mezut Ozil (mal tratado em Madrid, herói em Highbury), Andrea Pirlo (não é preciso explicar pois não?), Óscar (determinante na era Benitez, fundamental nos meses Mourinho), Mario Gotze (grande até Junho), Andrés Iniesta (um génio indiscutivel), Heines Weidenfeller (o eterno esquecido do futebol alemão), Thomas Muller (outro grande ano do working class heroe bávaro), Diego Costa (uma verdadeira transformação épica), Neymar (tem tudo para ser um mega-top), Arjen Robben (porque nos esquecemos tanto dele?), Marcelo (continua a ser um jogador especial), Raphael Varane (foi a revelação do final da época 2012-13), Eden Hazard (destinado à grandeza com os Diables Rouges)



Miguel Lourenço Pereira às 12:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 11.12.13

Ás vezes o futebol pode ser aborrecido. Não sei quem tem a culpa. Se a Lei Bosman, se a hiper-mercantilização do beautiful game, se os próprios adeptos ou se a culpa é minha. A maioria dos jogos das grandes equipas tornaram-se meros trâmites. Quem marca mais, quando entra o primeiro, quem bate mais recordes. Tudo aquilo que o futebol nunca foi. Felizmente, todos os anos, há projectos desportivos que nos permitem sonhar com um futuro melhor. Equipas que procuram uma via alternativa para fazer-se notar. E que conseguem a sua recompensa.

 

Não sabemos como os campeonatos vão terminar em Maio.

O mais provável é que o cenário repetido dos mesmos protagonistas nos mesmos lugares seja a tónica. Não é dificil hoje adivinhar campeões e vice-campeões, qualificados Champions e remetidos para a Liga Europa. Os orçamentos, a aglomeração de estrelas, o imenso vazio que se criou entre o topo e a classe média fazem isso por nós. Há ligas mais aborrecidas que outras, ligas mais previsiveis que outras. Mas em todas elas há sempre alguém que quer romper com a monotonia. Em Dezembro parecem um projecto de sonho. A maioria delas, em Maio, está onde muitos imaginariam que estaria. O peso do dinheiro acaba quase sempre a falar mais alto. Quase sempre.

Por esta altura, o ano passado, só se falava da espectacular versão de futebol total do Swansea galês em terras inglesas. A luta entre os dois grandes de Manchester e o Chelsea importava muito pouco. O Arsenal, o Liverpool, o Tottenham e o Everton, os seus habituais escudeiros, continuavam na sua versão recente. Mas o Swansea era o flavour of the season. A equipa acabou por conquistar um título - a League Cup, contra um rival de uma divisão inferior e assim marcar o passaporte para a Europa - mas terminou a temporada lá bem no meio da tabela. Melhor sorte teve a Real Sociedad, o seu equivalente espanhol. Os txurri-urdins conseguiram mesmo o impensável, um lugar na Champions League com uma equipa montada à base de trocos e cantera. Hoje estão a pagar o preço da ambição mas o projecto mantém-se de pé. Ainda bem. Um pouco por toda a Europa vivemos essa relação de amor quase juvenil com Paços de Ferreira, Estoril, Eintracht Frankfurt ou Zulte Waregem. Poucos duraram até ao fim. Mas estiveram lá, a acompanhar o modesto e neutral adepto nesta sua eterna luta contra a previsibilidade. Este ano, inevitavelmente, o cenário repete-se. Só mudam os protagonistas.

 

Villareal. Southampton. Lille. Hellas Verona.

Quatro clubes com a sua história, os seus feitos - mais recentes ou não - e ideias desportivas que se assemelham mais ao que o adepto de futebol aprecia. São clubes sem grandes ambições históricas. Entre eles só o Verona e o Lille foram campeões nacionais. Os gialloblu no mágico ano de 1985 e o Lille há quatro temporadas em França, antes da chegada dos milhões dos sheiks qataris e dos russos de férias. Os Saints viveram a sua idade de ouro nos anos 70 e com o mítico Le Tissier tornaram-se numa equipa ideal para os românticos do futebol inglês seguirem. Hoje já não jogam no histórico The Dell e até abdicaram das suas tiras verticais por um equipamento mais neutral. E claro, o Submarino Amarelo, uma equipa que esteve a um penalty de chegar à final da Champions League na sua primeira participação e que representa tudo o que de bom ainda há no futebol espanhol, a começar pela sustentabilidade sem ajudas externas e passivos imensos.

Curiosamente, desta lista, duas equipas são recém-promovidas (Villareal e Verona) e duas vêm de épocas decepcionantes nos seus respectivos campeonatos. E, da noite para o dia, hoje são tudo aquilo que queremos para o nosso clube imaginário. Contrataram bons treinadores, organizaram um plano financeiro sustentável sem gastos loucos e sem comprometer o futuro. Pescaram no mercado óptimos jogadores a preço de custo, sem comissões exageradas pelo caminho. Montaram onzes sem estrelas mas com futebolistas comprometidos e abriram espaço no banco de suplentes a jovens promessas da sua formação. Em ligas onde mandam os milhões, pagam a tempo e horas e fazem-no sem para isso ter de abdicar em ser competitivos. Utilizam modelos de jogo ofensivos, fazem da bola a sua principal arma e são conscientes das suas limitações. Muitos sabem que a posição onde estão hoje acabará sendo ocupada por um gigante quando as contas apertarem. E sobreviverão a isso. O Villareal está no quinto lugar da liga espanhola e tem passado toda a primeira volta em lugares Champions. Com um grande treinador ao leme - Marcelino - e um melhor presidente no palco, a equipa tem jovens promessas (Perez, Pina, Mario), jogadores consagrados (Cani, Bruno) e reconvertidos do esquecimento (Giovanni dos Santos, Kalu Uche, Asenjo). E os pés no chão.

O Verona também já andou pelos lugares Champions e agora fecha a apertada luta pela Europa League. No mitico Bentegodi os golos do eterno Toni e as assistências do jovem Iturbe têm feito as delicias dos que cresceram com Elkjaer Larson e Briegel nos anos 80. Em França o Lille está, surpreendentemente, a ganhar o sprint a Lyon, Marseille e Monaco na perseguição ao PSG com um Vincent Eneyema estelar e uma medular deliciosa. E claro, os Saints de Pochetinno representam o que ainda há de bom na Premier. Excelentes movimentações no mercado, um treinador ambicioso, um público entregado e de repente a equipa da costa sul inglesa aparece nos lugares de topo da classificação. Duas derrotas dolorosas contra Arsenal e Chelsea servirão para colocar água na fervura, mas com alguns dos clubes milionários erráticos, em Southampton sabem que se há um ano para surpreender, é este.

 

Claro que todos sabemos como acaba o filme. Mas o futebol precisa, cada vez mais, destes projectos. Destas equipas. Deste sopro de ar fresco. Precisa sentir-se vivo nos meses em que os clubes milionários olham para tudo e para todos com desdém, preparando-se para meter o acelerador em Março, quando os títulos começam a aparecer ao virar da esquina. É aí que as diferenças dos orçamentos se fazem realmente notar. Ate lá estes projectos, estes adeptos podem sonhar. E nós com eles. Para bem do nosso jogo!



Miguel Lourenço Pereira às 12:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 19.10.13

A transformação não podia ser mais radical. O perfume gaulês do futebol champagne tem embriagados os eufóricos adeptos romanos. Depois da humilhante derrota contra o eterno rival laziale na final da Taça de Itália a AS Roma não voltou a perder um jogo. Uma nova era com um futebol de primeiro quilate a quem os resultados têm acompanhado. Se a história ainda valer alguma coisa, o Scudetto já tem dono.

Por duas vezes uma equipa venceu as primeiras oito jornadas da Serie A italiana. Por duas vezes essa formação ganhou o Scudetto.

Em ambos casos a protagonista, a Juventus, tinha as melhores equipas da temporada. Nos anos 30 estiveram quatro anos seguidos a reinar sobre o Calcio, um recorde até hoje apenas batido por "Il Gran Torino". Cinquenta anos depois, a equipa liderada por Michel Platini e pelos campeões do Mundo de 1982 na linha defensiva arrancaram para uma temporada memorável que acabou com a vitória na Taça das Taças abrindo caminho ao título europeu do ano seguinte, em Heysel. Olhando exclusivamente para os relvados italianos custa imaginar que a AS Roma não acabe por cometer uma proeza similar.

O calendário não foi propriamente amigo dos gialorosso. Dois jogos contra candidatos ao título foram resolvidos com vitórias merecidas e inquestionáveis frente ao renascido Inter de Mazzari e a sua antiga equipa, o Napoli de Benitez. Os napolitanos chegavam a Roma como segundos na tabela classificativa, desejosos de confirmar as boas sensações que foram deixando neste arranque de temporada. Mas revelaram-se incapazes de aproveitar as escassas oportunidades que tiveram e cairam sob o perfume rendilhado do jogo medular dos romanos e a sua eficácia a bola parada. Pjanic foi o herói mas o treinador Rudi Garcia teve o cuidado de referir, no fim do jogo, que esta era a Roma de Totti. A Roma do "capitano" na sua enésima reencarnação.

 

O investimento norte-americano na Roma arrancou há três anos.

A aposta inicial num modelo de jogo atractivo e ofensivo levou os dirigentes romanos a procurarem uma versão acessível do Barcelona de Guardiola. Escolheram Luis Enrique, até então treinador da equipa B do clube. O espanhol teve meios mas não teve sucesso, talvez porque a sua ambição táctica superou no tempo um projecto ainda em formação. Durante duas temporadas os romanos caíram no fundo, depois de terem sido os principais rivais do Inter de Mourinho. O renascimento prometia ser mais lento do esperado e enquanto isso Totti e De Rossi, a alma e o trabalho desta formação histórica há quase uma década, envelheciam um pouco mais. O processo reverteu-se, definitivamente, neste Verão.

Rudi Garcia, o homem que operou o milagre do Lille, campeão francês contra todas as expectativas, foi recrutado para dar forma aos sonhos romanos. Com ele chegaram também reforços à altura das ambições mas com um valor de mercado controlado pela crise financeira. Não fizeram muito ruido, em comparação com o de alguns rivais - entre os quais o próprio Nápoles - mas rapidamente demonstraram ser escolhas mais do que acertadas. Garcia, treinador da velha escola francesa de um futebol rendilhado e preciso, desenhado no meio-campo com precisão geométrica, recuperou o 4-3-3 e com ele o papel de Totti como figura central do ataque, bem secundado pelo forte Gervinho e os jovens e criativos Marquinhos, Llajic e Florenzi, a grande promessa da cantera romana. Na sala de máquinas colocou ao lado de De Rossi dois jogadores de primeiro nível mas eternamente subvalorizados pelo mercado, o bósnio Pjanic e o holandês Strootman. A equação perfeita.

O trabalho e entrosamento colectivo sucederam quase como um milagre, da noite para o dia. Contra todas as expectativas as peças encaixaram e a máquina começou a funcionar com a perfeição de um relógio roubado a um dos guardas suíços do Vaticano. Os resultados, que ás vezes no futebol não acompanham as metamorfoses das equipas, desta vez não tardaram em aparecer e a Roma surgiu invencível e imparável no arranque da temporada. Enquanto à campeã Juventus custava-lhe recuperar o ritmo perdido e com as equipas de Milão muito mais débeis do que o seu nome podia imaginar, a Roma deu um murro na mesa. Com as atenções viradas para o novo Nápoles ou as promissoras equipas forjadas pela Fiorentina e pelo próprio AS Lazio, foram eles os protagonistas inesperados de dois meses de competição que podem ser decisivos.

 

Se a história valer para algo, o espirito de Falcão, Conti, Emerson e Montella está vivo nesta nova geração romana. Eles demonstram que o Calcio nem sempre é um exercício futebolístico aborrecido. Rompem convenções e convidam a imaginar um futuro melhor para uma liga que sabe que mais baixo não pode cair. Um sopro de ar fresco rompe o futebol europeu a partir do mais inesperado dos coliseus. Na cidade eterna já se sonha com a história!


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Miguel Lourenço Pereira às 18:57 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 10.02.13

agora a nata da Europa se vai começar a reunir para acertar contas com o calendário continental. Os oitavos de final da Champions League arrancam, e com eles os jogos que os adeptos mais esperam. Porque a competição, a nível interno, em 2012-13 não existiu. Pela primeira vez em muitos anos, as principais ligas europeias têm os seus campeões do curso praticamente definidos. São muitos jogos, muitos meses para cumprir calendário, com margens de erro imensas e uma diferença abismal que permite levantar várias questões sobre a realidade actual do futebol do Velho Continente.

Barcelona, Manchester United, Bayern Munchen e Juventus.

Estamos a meados de Fevereiro e desafio alguém a fazer pública a crença, quase sebastiânica, de que alguma destas equipas não vá ser campeã nacional em Maio. Não é uma previsão muito dificil de fazer. Basta olhar para as tabelas classificativas, ver os calendários de jogos pendentes e fazer contas. As grandes ligas europeias já fecharam as portas e agora, até ao final da época, a atenção será progressivamente desviada pela imprensa para disputas secundárias. Importantes, mas longe do sonho de glamour profundo que é sagrar-se campeão. Uma realidade preocupante e que dista bastante do que vimos no ano passado. Só a finais de Abril o Real Madrid deu o golpe definitivo no seu título, ao vencer o rival directo em Camp Nou. O Manchester City precisou do último segundo da época para ganhar um título que lhe escapava há cinco décadas. Em Itália a Juventus nunca se distanciou tanto como para poder celebrar com mais de uma quinzena de distância do final da temporada e só o Borusia Dortmund encontrou o autoritarismo que encontramos este ano!

Nesta temporada tudo se desenrola em moldes muito diferentes. Há uma autoridade inquestionável nas ligas de topo, onde três dos actuais lideres na época anterior ficaram-se pelo segundo lugar no campeonato. Há, sobretudo, uma qualidade de jogo manifestamente inferior na maioria dos casos de quem lidera e persegue. E, sobretudo, uma dependência excessiva do génio individual para compensar os problemas do colectivo. Se em ligas da segunda divisão europeia, como é o caso da francesa, portuguesa e holandesa, há um esboço de equilíbrio, entre os suspeitos do costume, o que se passa nos gigantes europeus para a luta ter acabado tão cedo?

 

O caso mais flagrante é, sem dúvida, o espanhol.

Não surpreende ninguém que o Barcelona seja o líder. A equipa que era orientada por Pep Guardiola partia como favorita, apesar do título perdido, simplesmente porque é um projecto continuista, moldado em princípios assimilados e com um plantel fabuloso. A derrota contra o Real Madrid no ano anterior interrompeu um ciclo de vitórias mas não a percepção do Barcelona ser uma equipa com mais futuro. O problema está que os blaugrana, agora orientados por Tito Vilanova, semi-ausente durante largas semanas pelo seu problema de saúde, nunca tiveram rival. Nas primeiras oito jornadas do campeonato a vantagem já era de oito pontos e quando os dois candidatos se cruzaram para um jogo memorável, no Camp Nou, o empate apenas deixou claro que o título estava praticamente entregue antes da disputa sequer começar. A isso contribuiu o espirito auto-destrutivo de José Mourinho, os péssimos desempenhos do colectivo, com erros individuais grosseiros, e a seca goleadora de Cristiano Ronaldo durante o Outono. Sob essa realidade, esse hara-kiri, o Barça estabeleceu uma liderança cómoda que só o Atlético de Madrid, um surpreendente e merecido segundo, tentou desafiar, sem sucesso como a vitória clara dos catalães no duelo directo deixou evidente. O Barcelona sabe-se e sente-se campeão nacional e agora pode concentrar esforços em recuperar a Champions League (seria a terceira em cinco anos) e manter no bolso a Copa del Rey, as únicas duas competições que interessam, precisamente, ao seu histórico rival. 

Em Inglaterra o Manchester United lidera com 12 pontos de vantagem sobre o campeão. Está em todas as corridas, entre FA Cup e Champions League, e demonstra uma voracidade goleadora inquestionável. Mas como o Barcelona, a vantagem pontual construiu-se, sobretudo, porque o City se mostrou muito mais irregular do que na época passada. E claro, se os catalães contam com o génio e golos (muitos golos) de Messi para fazer a diferença, em Old Trafford a dupla Wayne Rooney e Robie van Persie (e as aparições decisivas de Javier Hernandez) têm escondido muitos problemas na defesa e no meio-campo, que os duelos europeus colocarão à prova. Os homens de Ferguson só por uma vez perderam um título com uma vantagem pontual desta magnitude, precisamente no ano em que a suspensão de Eric Cantona permitiu ao Blackburn Rovers de Shearer recuperar na tabela e vencer o título confortavelmente. Sem esse fantasma presente, ninguém duvida que os mancunianos farão, outra vez, a festa em Maio.

Celebrações que também já estão a ser preparadas na Baviera. Na expectativa da chegada de Guardiola, o Bayern é cada vez mais campeão. O modelo de Heynckhes, profundamente ofensivo e demolidor, beneficiou da aposta clara do campeão em título, o Dortmund, na edição deste ano da Champions League. O atraso pontual dos homens do Rhur é insalvável (15 pontos) e todos, na Bundesliga, estão conscientes de que a luta muda agora para os palcos europeus onde os dois clubes têm boas perspectivas de se cruzarem mais à frente. Em Itália, são conscientes de que a Europa é um sonho quase utópico num campeonato em reconstrução moral e financeira. A Juventus continua a demonstrar ser o mais aplicado dos alunos, e depois de ter vencido a primeira liga em oito anos à base de uma regularidade espantosa (15 empates em 38 jogos), continua a ser um osso duro de roer. Napoli e Lazio são os surpreendentes perseguidores, com os grandes de Milão de novo em modo autodestrutivo, e ninguém imagina, sobretudo depois das vitórias nos duelos directos entre o líder e perseguidores, que a Vechia Signora vá perder um campeonato com uma vantagem pontual de cinco e onze pontos, respectivamente.

 

Talvez o mais grave, neste cenário, não seja a inevitabilidade de ter os campeões das principais ligas do continente decididos a três meses do final da temporada. O problema é mais profundo. A qualidade de jogo dos quatro, a sua excessiva dependência em génios individuais (salvo no caso do Bayern), e a profunda decadência futebolística dos seus mais directos e habituais perseguidores (Real Madrid, Valencia, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Schalke 04, AC Milan, Inter), deixa claro que apesar de se baterem cada vez mais recordes, a qualidade do futebol europeu dista muito de estar a passar pelos melhores momentos. Urge uma mudança de ciclo, clara e evidente, um novo puzzle de sensações, momentos e protagonistas que volte a devolver à Europa os seus grandes clubes nas suas melhores versões.



Miguel Lourenço Pereira às 16:54 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 08.11.12

A vitória categórica do Inter em Turim não se limitou a terminar com um ciclo de 49 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Numa liga cada vez mais nivelada por baixo, esse feito estaria sempre longe do logrado pelo AC Milan de Capello quando o futebol italiano reinava supremo nos palcos europeus. O grande vencedor do duelo foi Stramaccioni, o jovem técnico de 36 anos que logrou o que os seus três antecessores foram incapazes, saber como lidar com a pesada herança de José Mourinho.

 

Mourinho aprendeu cedo que nunca seria um bom jogador e dedicou-se a treinar. Stramaccioni sonhou sê-lo, mas uma lesão no joelho acabou-lhe com as esperanças e abriu-lhe novas portas. Aos 35 anos, o antigo defesa central do Empoli é mais do que o treinador de moda do Calcio. É a esperança de um futuro melhor para o futebol de um país em choque emocional, com uma selecção aplaudida quase tanto como a ganhadora do último Europeu e uma liga que deprime o mais entusiasta. Há serias possibilidades de não existir nenhum clube italiano nos Oitavos de Final da Champions League e essa realidade deixou de surpreender. O dinheiro acabou, a péssima gestão do futebol de formação começa a fazer-se notar e a qualidade do Calcio caiu degrau atrás de degrau a níveis que nos levam aos anos 70. No meio deste cenário, a série de invencibilidade da Juventus de Antonio Conte funciona como espelho fiel da realidade.

A Juventus não joga bem, não entusiasma, não pratica um futebol fascinante, de encher o olho. É tremendamente eficaz no seu 3-5-2 contido que sabe que a velocidade das peças, nesse jogo de xadrez que é o futebol italiano, conta mais do que qualquer coisa. Uma equipa de valores médios, uma equipa sem estrelas nem jogadores fascinantes, onde Pirlo representa o romantismo dos anos 90 e Giovinco a readaptação a uma nova vaga de futebolistas. Pelo meio estão os Vidal, Isla, Asamoah, Quagliarella, Vucinic e companhia, jogadores que não entusiasmam nem o mais fanático dos tiffosi, que se agarram ao espírito de luta de Marchisio e Chielinni e à promessa gualesa, Paul Pogba, que deixou plantado a Alex Ferguson, que via nele o médio defensivo que tanta falta lhe faz, para acreditar num futuro melhor. Esta temporada, depois do título, a realidade europeia deixou a Juve no seu merecido lugar e os campeões italianos podem falhar, outra vez, o apuramento para a próxima fase. Foram superados futebolisticamente por Chelsea e Shaktar e agora é com eles com quem discutirá o apuramento directo. Dois jogos de matar ou morrer, um formato onde os italianos se movem bem mas muito traiçoeiro. Até porque a derrota inesperada em casa contra os neruazurri reabriu a luta pelo scudetto, até agora adormecida pelo soporífero mas tremendo eficaz futebol bianconero.

 

Stramaccioni é um sinal de esperança mas não é um revolucionário.

O jovem treinador começou no futebol de base e aí aprendeu a ter paciência, a saber o valor da bola e dos tempos de jogo. Começou na Roma e rapidamente chegou ao Inter pela mão de Ranieri e começou a aplicar o seu método de trabalho, inspirado na sua admiração mútua, apesar de aparentemente contraditória, no jogo de Guardiola e na filosofia de Mourinho. O seu impacto foi imediato e pela sua mão o Inter, a tal equipa envelhecida profundamente nos séniores, venceu categoricamente a NextGen Series, um torneio dedicado às esperanças do Velho Continente, uma espécie de Champions League juvenil. Associado ao título Primavera italiano, o seu trabalho deu imediatamente nas vistas e Massimo Moratti, cansado do futebol especulativo de Ranieri, decidiu arriscar como nunca e apostou tudo no jovem técnico nomeando-o treinador principal dos neruazurri.

O técnico entendeu que a herança de Mourinho ainda estava demasiado presente. Benitez e Ranieri, técnicos com quem o português teve sérios problemas dialécticos, nunca entenderam os jogadores que juraram fidelidade ao português e perderam rapidamente o balneário. Stramaccioni jogou as peças certas. Reconheceu imediatamente o mérito de Mourinho, a sua herança e a qualidade dos jogadores a quem muitos tinham passado um atestado de maioridade. Mas também alertou para o seu trabalho com os mais novos dando a ideia de que havia futuro para lá dos campeões europeus de 2010. Acabou a época "roubando" o título ao eterno rival de Milão, um resultado que lhe deu a oportunidade de começar uma temporada desde zero.

Nessa mistura coerente e profissional, Stramaccioni começou a trabalhar, recuperando o 4-3-2-1 de Mourinho mas com uma vivacidade e mobilidade que tinha desaparecido. Reergueu Diego Milito das sombras e associou-o a Antonio Cassano e Roberto Palacio, no lugar do lesionado Wesley Sneijder, para criar um tridente ofensivo mais talentoso do que obreiro. No meio-campo apostou forte no brasileiro Coutinho, que vinha de um ano superlativo no futebol espanhol, e rodeou-o do músculo de Gargano, Cambiasso e Guarin. Ocasionalmente regressou às origens de Herrera com a aposta num médio mais solto e veloz, o japonês Nagatomo. E, sobretudo, encheu de juventude o balneário, homens da sua confiança como Livaja, Mbaye, Bianchetti, Duncan ou Jonathan. Com essa ideia de futebol rápido mas de linhas compactas, recuperou a eficácia, oscilando entre uma linha de três avançados e um meio campo mais trabalhado, consequência dos problemas físicos de Sneijder, Cassano e Coutinho. Uma aposta que começou cedo a dar frutos. Apesar do enfoque no futebol da Juventus e no desafio do Napoli, o Inter rapidamente se tornou protagonista. Sete vitórias consecutivas depois de uma derrota em Siena colocaram os neruazzuri no segundo lugar da tabela, a apenas um ponto da Juve. Pelo meio duas vitórias chave, contra o Milan e a própria Juventus, que garantem que este projecto sabe ser eficaz com os mais pequenos e tremendamente competitivo com os rivais directos. O modelo Mourinho na sua estância italiana.

 

O potencial de crescimento de este Inter é evidente apesar da espinha dorsal da sua equipa continuar a ser composta por homens que vêm dos dias de Mourinho. A evolução, mais do que a revolução, será tranquila e o técnico italiano, conhecedor dos jovens talentos que aí vêm, sabe que tem armas escondidas que lhe podem ser úteis quando a época começar a apertar. Não é ainda uma equipa feita para desafiar os grandes da Europa mas recuperar o domínio em Itália é só o primeiro passo. Com tempo, Stramaccioni pode lograr construir um projecto com claras ambições europeias. Moratti seguramente terá dificuldade em esperar, está-lhe no sangue, mas até agora o jovem técnico só lhe deu razões para sorrir. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 15.08.12

Na retina dos adeptos está ainda o espantoso volley que destroçou Zubizarreta e o Dream Team na elétrica final da Champions League de 1994. Atrás ficaram anos de conflitos constantes com os técnicos que o orientaram e a sensação de que Dejan Savicevic tinha passado ao lado de uma grande carreira. Naquele mágico momento "Savi" ajustou as suas contas com o passado e imortalizou-se definitivamente como o "Principe dos Balcâs".

 

Hoje é presidente da Federação de Futebol do Montenegro e continua tão polémico como há vinte anos atrás. Está no seu carácter ser conflituoso e procurar sempre o caminho mais difícil para resolver qualquer problema. Um carácter que também transparecia no seu estilo de jogo. Ao contrário do milimétrico Prosinecki ou do cerebral Boban, a Dejan o mais espantoso era complicar para depois resolver. Provocar o rival para ultrapassá-lo. Superar as expectativas e encarar cada novo jogo como uma batalha a ser ganha, de vida ou de morte.

Uma realidade que já se evidenciava quando surgiu, franzino mas com vontade de engolir o Mundo, no FK Buduconst Podgorica, equipa da sua cidade natal em Montenegro, então mais uma província da Jugoslávia. Com 16 anos arrancou a sua carreira profissional. Começou como ponta-de-lança e rapidamente foi ganhando mobilidade até se tornar um autêntico todo o terreno. Tornou-se na grande estrela do futebol de leste durante os anos 80, rivalizando já com nomes como Hagi e Lacatus, Prosinecki e Boban, Kostanidov e Stoichkov, então todos as dar os primeiros passos desportivos. Em 1988 o Estrela Vermelha de Belgrado não hesitou e juntou-o à já significativa constelação de promessas que tinha no plantel. Começava a sua idade dourada. Mas que não chegaria antes de muitos conflitos.

Em Belgrado Savicevic sofreu os primeiros revezes. Forçado a cumprir o serviço militar obrigatório, foi afastado dos trabalhos da equipa durante toda a época 1988-89 e perdeu o seu posto no onze. Entre os jogos que lhe foi permitido disputar esteve a mítica eliminatória com o AC Milan de Gullit, Rijkaard e van Basten. Fora de forma e já com problemas visíveis com a equipa técnica, Savicevic conseguiu mesmo assim surpreender Baresi e apontar o golo que parecia dar o apuramento aos jugoslavos. Só que um nevoeiro cerrado obrigou o árbitro a parar o jogo e recomeçar o encontro no dia seguinte. Os italianos lograram empatar e nos penaltys apuraram-se para conquistar o primeiro titulo da geração holandesa do Piemonte. No inicio da época seguinte Savicevic incorporou-se definitivamente e o técnico Branko Stankovic, com quem o jogador já nem trocava palavra, foi substituído por Dragoslav Sekularac. A partir daí o dianteiro arrancou para o seu melhor ano, ajudando a vencer três ligas consecutivas e ainda duas taças. O muro tinha caído e a Jugoslávia estava prestes a desmoronar-se. O avançado falhava a presença nos jogos chave da selecção devido à sua relação de amor-ódio com Ivica Osim, o seleccionador nacional. Falhou o apuramento para o Euro 88 e no Mundial de Itália foi deixado sucessivamente no banco. 

Mas se a carreira internacional corria mal, a nível interno o sucesso era absoluto. O momento alto chegou em 1991, em Bari. Numa final histórica contra o Olympique Marseille, o Estrela Vermelha contrariou todos os prognósticos e conquistou o seu único titulo de campeão europeu. A vitória permitiu a Savicevic ser coroado o melhor jovem jogador europeu e ser segundo na disputa pelo Ballon D´Or, atrás de Jean-Pierre Papin.

 

O sucesso desportivo levou rapidamente o AC Milan a apostar no sérvio como o substituto ideal para Marco van Basten, já a conta com várias lesões consecutivas. Com ele chegaram ainda Boban, Eranio, Lentini e Pappin. Uma equipa que Fabio Capello teria dificuldade em contentar com tantas estrelas a treinar diariamente em Millanello. E quando van Basten recuperou do seu primeiro grave problema, Savicevic passou imediatamente para o banco. Fez apenas 10 jogos e apontou 4 golos em 1992/1993 e a sua relação com Cappello (tal como passou com Gullit) começou a deteriorar-se. Além do mais a proibição de apresentar mais de 3 estrangeiros fazia com que uma equipa onde havia 7, o número de insatisfeitos fosse sempre elevado. O grande choque deu-se aquando da convocatória para a final da Champions de Munique, diante do Marseille. Savicevic ficou de fora e nem viajou com os companheiros. A estadia em Milão tornava-se um barril de pólvora mas subitamente Capello mudou. Passou a confiar mais no avançado e deu-lhe a titularidade do ataque na época seguinte. O jugoslavo respondeu com belas exibições e muitos golos. Il Genio, foi assim que o descreveu Berlusconi, satisfeito pela equipa não notar a ausência (definitiva) de van Basten. A noite de luxo chegou a 18 de Maio. Diante do mitico Dream Team de Johan Cruyff, o AC Milan de Berlusconi deu uma lição de futebol.

O avançado montenegrino foi o interprete perfeito e apontou um histórico hat-trick a Zubizarreta, dando ao AC Milan a sua terceira Champions em oito anos.

O ano seguinte foi negro para o Milan. Mau desempenho doméstico e derrota na final da Champions com o Ajax. Savicevic não jogou por estar lesionado, apesar do jogador ter insistido até ao último minuto que podia actuar. A equipa italiana começava a perder protagonismo para a Juventus e a veterania do plantel começava a fazer-se notar. O dianteiro voltou ao banco e deixou de ter as mesmas oportunidades. Era visto como um elemento a substituir e a chegada de George Weah apressou a sua saída. Voltou a casa, ao Estrela Vermelha, mas apenas ficou um ano na equipa que o lançou ao estrelato. Depois de dois anos no Rapid Wien decidiu parar, definitivamente. Mas continuou ligado ao futebol e dois anos depois de retirar-se foi nomeado seleccionador da Sérvia-Montenegro. Falhou a qualificação para o Mundial de 2002 e para o Euro 2004 e acabou por ser substituído. Mas não antes de se envolver em várias disputas politicas, tornando-se num dos rostos da independência montenegrina. Quando o país finalmente conseguiu separar-se da Sérvia, rapidamente Savicevic ocupou o posto de presidente da Federação de futebol, entrando em confronto directo com os dirigentes sérvios. Em Podgorica, continua a ser o filho predilecto de maior renome. Um ídolo.

 

Enquanto Prosinecki preferiu brilhar em Espanha, Savicevic seguiu o rumo da maioria dos jogadores jugoslavos mostrando o perfume do seu futebol na vizinha Itália. No entanto a história do futebol lembrar-se-á sempre primeiro da notável formação do Estrela Vermelha e daquele rebelde irrequieto que durante dez anos foi um dos mais letais executantes da história do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 14:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 26.05.12

Depois do purgatório, a glória. A Juventus não é um clube de esquecer. Nem de como voltar do inferno nem de como ganhar. O 28º titulo bianconero, sem os dois polémicos retirados pelo Moggigate, reafirma o conjunto turinês como o maior do país da bota. Mas a forma como Antonio Conte levou os seus ao titulo, num ano em que sumou 15 empates, diz também muito do nivel da Serie A. Durante semanas o AC Milan teve a liga no bolso e deixou-a escapar. O Internazionale continua a viver a sua particular via crucis depois da saída de Mourinho e entre os clubes de Roma, Napoli e Udine estiveram os mais interessantes duelos de um ano onde faltou emoção e grandes jogos. Um ano marcado por muitas despedidas e maiores incógnitas futuras.

 

Um campeão invicto é sempre algo assinalável. Se esse campeão coleciona 15 empates em 38 jogos a sensação muda radicalmente.

A Juventus venceu o seu 28º scudetto num ano em que foi melhor que a concorrência mas onde nunca deu uma clara sensação de superioridade como demonstram os sucessivos tropeções da Vechia Signora. Só com quatro equipas é que o conjunto turinês logrou vencer os dois jogos nas duas voltas do campeonato, a maioria dos rivais do campeão conseguiu, de uma forma ou de outra, roubar-lhe pontos. E nem isso impediu Antonio Conte de fazer história.

O antigo médio do conjunto bianconero encontrou o equilibrio necessário para vencer sem ter uma só estrela no plantel. Montou o onze à volta de Pirlo, colocando Marchisio e Vidal como fieis escudeiros. Funcionou. Pelo ataque passaram muitas alternativas e nenhuma delas totalmente convincente, de tal forma que Del Piero, no seu ultimo ano em casa, continuou a ser uma das referências goleadoras. Atrás a segurança de Buffon e a boa época de Chiellini e Lieschteiner fizeram-se notar e garantiram que nem por uma só vez o clube tivesse de lamentar uma derrota. A verdadeira arma do campeão no seu duelo com o AC Milan.

 

Durante largos meses os rossoneri pareciam ter o titulo à mão de semear mas os tropeções finais dos homens de Allegri tiveram o seu preço. Mais irregular do que nunca o Milan de Ibrahimovic pagou o preço das lesões, da falta de profundidade do plantel e do envelhecimento colectivo dos seus melhores jogadores. Um segundo lugar que soube a pouco, especialmente tendo em conta que nunca foi tão fácil vencer um scudetto em Itália, prova da curta diferença pontual entre os primeiros, comparativamente com outras épocas, e com os erros de Inter, Roma e Lazio que abriaram a porta ao terceiro posto da Udinese e a mais um ano europeu para o Napoli de Mazzari, outros grandes triunfadores do ano.

 

Mas este foi mais um ano de drama.

De adeptos que exigem camisolas a jogadores, de salários por pagar, de mil e uma destituições de técnicos, de poucos jogadores jovens e de muitos veteranos, de estrangeiros sem nível para o historial da prova e de estrelas estrangeiras que continuam a olhar para o outro lado quando se lhes fala na Serie A.

De estádios vazios, problemas com as televisões, de greves anunciadas e polémicas constantes com a arbitragem. Um ano em que, mais uma vez, a Serie A deu um passo descendente face ás suas rivais históricas, aproximando-o cada vez mais do universo francês, a quinta liga europeia actual. Uma realidade problemática para uma liga onde a sua máxima figura é um sueco mal-amado, onde o melhor do ano é um veteranissimo em quem poucos apostariam e onde a melhor revelação é um jovem jogador nigeriano que não se distingue muitos de muitos outros jovens que dão outra cor e vida à Bundesliga, Premier ou La Liga. Esse continua a ser o trabalho de casa do Calcio, um trabalho de casa complicado a cada ano que passa, de sacar nota alta. 

 

 

 

Jogador do Ano

Andrea Pirlo

 

Quando saiu de Milão muitos fizeram o obituário precoce do maior génio italiano da última década. Em Turim, com uma equipa sem grandes talentos mas com muito espirito colectivo à sua volta, Pirlo rejuvenesceu e tornou-se determinante na série de 38 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Foi a bússula em campo e o lider moral fora dele, as suas ausências notavam-se, a sua baixa fisica fazia-se evidente nos jogos que a equipa empatou e claro, no final o titulo pareceu ser mais dele do que nunca uma das suas conquistas prévias ao serviço de um Milan que priveligia sempre mais o glamour ao génio puro.

 

Revelação do Ano

Obi Joel

 

No terrivel ano da Internazionale, com o pior resultado final desde 1997, ano antes da chegada de Ronaldo Nazário, pouco houve que destacar. A boa época realizada pelo jovem nigeriano Obi Joel entraria nesse lote restricto de boas noticias. Um médio possante, rápido e com a garra que faltou a muitos dos veteranos do plantel que continua a viver à sombra dos anos de Mourinho. 

 

Onze do Ano

 

A baliza do onze do ano da Serie A está segura nas mãos de Gianluiggi Buffon que, depois de um ano de muitos problemas fisicos, se reafirmou como o número 1 indiscutível do futebol italiano. À sua frente jogaria um quarteto formado por Chiellini, Danilo, Lieschteiner e Thiago Silva.

 

Andrea Pirlo comanda um meio-campo onde também estão o seu companheiro Claudio Marchisio e ainda o milanês Kevin-Price Boateng.

 

No ataque a figura de Zlatan Ibrahimovic é incontornável, secundada pela eficácia goleadora de Edison Cavani e pelo incombustível Antonio Di Natale.

 

Treinador do Ano

Francesc Guidolin

 

Pelo segundo ano consecutivo a pequena Udinese está em postos de Champions League. Ao contrário do notável Napoli de Mazzari, a Udinese tem mantido um low profile no mercado e uma regularidade tremenda nos postos classificativos. Mérito de Guidolin, técnico hábil a sacar o melhor do seu curto plantel e da sua máxima figura, um veterano como Di Natale. O talento do treinador italiano, aliado à boa gestão desportiva do clube, transforma o projecto dos bianconeri do Friuli em algo a seguir com atenção no próximo ano, onde se espera uma Serie A mais equilibrada que nunca.



Miguel Lourenço Pereira às 01:01 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21.05.12

A partir de hoje e até ao próximo dia 1 de Junho o Em Jogo dedica a sua programação em exclusiva à análise das seis principais ligas do futebol europeu.

 

Um pequeno resumo, eleição do Melhor Jogador, Treinador, Onze e Revelação do Ano e as imagens que marcaram a temporada 2011/12 em Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália e Portugal.

 

Bem vindos, ao Em Jogo!

 




Miguel Lourenço Pereira às 15:29 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14.05.12

Numa mesma semana a liga italiana sofre uma profunda metamorfose moral. Velhos bastiões, simbolos dos anos gloriosos de uma liga que tem vivido a alguma década em profunda decadência, anunciam o seu adeus, ora do clube de largos anos ora do futebol em geral. Muitos rostos que ajudaram a manter o perfil alto da competição que abrem caminho a uma nova geração que terá a dificil missão de superar os simbolos de uma época dourada.

Alessandro Del Piero. Gennaro Gattuso. Alessandro Nesta. Clarence Seedorf. Mark van Bommel. Kakha Kaladze. Filipo Inzaghi.  

A lista parece infindável. Não é habitual no final do mesmo ano tantos nomes ilustres dizerem adeus. Prova de que o Calcio há muito que é uma prova agarrada ao passado. Neste listado de estrelas estão campeões do Mundo, emblemas da equipa que em 2006 venceu, contra todo o prognóstico, o Mundial de Futebol. Estão estrangeiros de renome que deram outro brilho a uma prova que se habituou a perder as suas estrelas mais cintilantes para a Premier e a La Liga. No fim de contas, nomes que definem uma era.

O adeus mais doloroso será, sem dúvida, o de Del Piero.

O avançado nunca jogou noutro clube, caso único no Calcio depois do adeus de Paolo Maldini. Foi campeão de Itália, da Europa e do Mundo com a Juventus. E um dos heróis que aguentaram a descida à Serie B e ganharam direito a celebrar o titulo de campeões este ano com Antonio Conte ao leme. Del Piero já sabia, antes da época começar, que este seria o seu último ano. Muito se especulou sobre o seu destino, nada ficou claro, mas a certeza é que a história de amor de quase 20 anos à Vechia Signora, e ao Calcio, termina aqui. Com a braçadeira e o titulo na mão.

De certa forma a outra despedida que mais doi aos adeptos é a de Filippo Inzaghi. Até à bem pouco tempo era o avançado com mais golos na história das competições europeias. A sua veia goleadora não tem igual no panorama internacional e "Pippo" emergiu para a posteridade como um digno sucessor de Piola ou Rossi como verdadeiro matador de área à italiana. Os problemas fisicos há muito que o atormenteram, mas a poção da eterna juventude que se distribuiu em Milanello sempre permitir sonhar com um ano mais. Inzaghi é da mesma geração de Del Piero e depois da sua passagem por Verona e Atalanta,  ambos foram colegas na Juventus. Quando o clube turinês preferiu apostar numa linha ofensiva rejuvenescida, Inzaghi acabou em Milão ao serviço dos rossoneri. Durante mais de dez anos foi o avançado perfeito, nunca queixando-se do trato preferencial a outros jogadores, sempre pronto a aproveitar todas as oportunidades. Ambos eram o que resta do mágico Calcio dos anos 90, altura em que a prova ainda era a mais admirada do futebol internacional.

 

Mas se Inzaghi e Del Piero são espelhos dessa era, Alessandro Nesta e Gennaro Gattuso são metamorfoses perfeitas do que foi e no que se tornou a Serie A.

O defesa central começou a sua carreira fulgurante na AS Lazio, confirmando-se rapidamente como um dos mais espectaculares centrais do futebol europeu, um titulo dificil de contestar numa era onde os laziale eram um conjunto a temer. O AC Milan apareceu com uma proposta irrecusável e Nesta juntou-se à constelação de estrelas rossoneri mas nunca se exibiu em Milão ao mesmo nivel que logrou no Olimpico. A mudança dos parceiros na defesa e as sucessivas lesões foram lastrando o final de uma carreira que prometia algo mais. Se o curriculum é impressionante e dificil de igualar, a sensação que Nesta dava de há alguns anos era que o final da sua ligação ao Milan era algo mais do que iminente. O defesa não sabe se seguirá em Itália, se procurará o dinheiro fácil do Medio Oriente ou, como é mais provável, se provará a MLS. Uma decisão que contrasta com a do seu, até agora, colega de equipa. Gennaro Gattuso é, para muitos adeptos, o icone perfeito do Calcio do século XXI.

Mais raça do que talento, mais instinto do que criatividade, mais defesa do que ataque, mas sempre a mesma determinação e devoção, Gattuso é um jogador dificil de não se gostar profundamente. Começou por baixo, passou pela Escócia onde se casou e foi feliz e entrou de novo no futebol italiano como baluarte do AC Milan de tracção dianteira de Shevchenko, Inzaghi, Rui Costa e Kaká. Deu o equilibro fundamental ao conjunto milanês que em dez anos chegou a três finais europeias e foi um dos jogadores mais importantes da Azzura que venceu na Alemanha o Mundial. À medida que foi perdendo os companheiros de associação (Kaká primeiro, Pirlo depois), o seu jogo viu-se claramente afectado e Gattuso tornou-se num ente estranho num meio-campo de remendos. O seu problema de visão soava já como despedida, o final da época confirmou as suspeitas. Glasgow seria o seu destino mais do que provável mas os enormes problemas financeiros do Rangers deixa a transferência em suspenso até que se aclare o que vai suceder com o seu antigo clube em terras escocesas. 

Quanto à legião de estrangeiros do Calcio, seguramente a saída mais marcante é a de Seedorf. O holandês van Bommel volta ao PSV Eindhoven, onde para ele tudo começou naquela magnifica geração liderada por van Nistelrooy e Guus Hiddink, e Kaladze troca a bola pelo boletim de voto e mergulha na politica georgiana de corpo e alma. Seedorf, talvez o jogador mais subvalorizado do futebol europeu das últimas duas décadas, tem a palavra. Aquele que foi o único jogador a vencer uma Champions League com três equipas distintas (Ajax, Real Madrid e AC Milan, quatro em total) demonstrou ao longo do ano que tem ainda qualidade suficiente para fazer a diferença onde quer que jogue. Mas as pernas já não são as mesmas, o desgaste fisico da alta roda faz-se notar e o seu caracter exige desafios. Fala-se numa eventual experiência no Brasil, numa viagem aos Estados Unidos ou num regresso ao Ajax. Em qualquer um dos casos, Seedorf continuará a ser um dos grandes.

 

Sem o peso dos velhos nomes surge a hora das novas gerações do futebol italiano darem um passo em frente. Montolivo chega a Milão para ser o novo Pirlo. Marchisio começa a dar cartas em Turim. O talento de Giovinco, Motta, Bonucci, Nocerino, Lazzari, Balzaretti, Pepe, Chiellini, Marilungo, Schelloto é suficiente para rearmar uma nova vaga. E com ela lançar as bases de um renascimento profundo do futebol italiano.  



Miguel Lourenço Pereira às 18:39 | link do post | comentar

Domingo, 29.04.12

poucos paises no Mundo como a Itália. Uma mistura sublime de beleza natural, humana, de gentes afáveis e história a cada pedra que se calca. É também um dos países mais sujos, desorganizados, inseguros e irrespiráveis que conheço. O Calcio italiano não dista, como tudo no "belle paise", desde o seu capuccino ás suas voluptuosas mulheres, dessa realidade bipolar. Mas como a politica, a justiça e a económia, o futebol italiano também há muito que vive numa terra de ninguém, anárquica, corrupta e sem amor próprio. A decadência da Serie A é evidente e já não apenas nos números. O triste número montado pelos Ultras do Genoa exemplifica perfeitamente o estado de sitio moral em que senta o futebol no país da bota.

 

Os jogadores choram. De vergonha, de medo. Sabem o que lhes irá acontecer. Em Itália ninguém, nem mesmo o mais carismático idolo, se atreve a contrariar os Ultra.

É uma triste realidade que se vive em poucos países, talvez só a italianizada Argentina sinta a mesma dor, o mesmo buraco na alma, com o triste mas real fenómeno dos Barras Bravas. A violência no Calcio não é tão evidente, não é tão intensa, mas está lá, no mais brutal dos gestos, no mais ensurdecedor dos silencios. Os jogadores sabem-no, os directivos sabem-no e os adeptos neutrais também. Mas como sempre o italiano assobia para o lado, lança um piropo e continua a sua vida. Aqui não passa nada, nada que seja com ele.

Imagino os adeptos neutrais, pelo menos os adeptos que não roçam a loucura facciosa e suicida que compõe o complexo fenómeno dos Ultra. Quando os anos 80 radicalizou a figura dos grupos de apoio organizados, quando o dinheiro das mafias locais e o compadrio das directivas familiares lhes deram uma fatia do poder, o Ultra deixou de ser um sinónimo de apoio incondicional à inglesa para passar a ser mais um braço armado e corrupto, pronto a ficar com uma fatia do bolo em nome do amor ao clube. Em Roma a Lázio há anos que não consegue um acordo publicitário digno do seu valor de mercado porque preferiu entregar o monopólio da comercialização do seu merchandising à directiva dos seus temidos Ultras. Todos sabem isso, poucos querem falar disso e ninguém se queixa. Porque, caso contrário, há muito que os péssimos resultados desportivos da era pós-Cragnotti teriam provocado lutas, invasões de campo e ataques directivos aos directivos e jogadores. O dinheiro paga o silêncio. Em Roma, em Milão, em Turim, em Napoles, em Palermo, de norte a sul o futebol italiano há muito que se tornou alvo de escárnio. A péssima qualidade de jogo, as fracas performances das equipas, a falta de estrelas e os problemas relacionados com o doping e as apostas são apenas a ponta de um iceberg muito mais profundo e assustador. Há largos anos que o Calcio sobrevive na anarquia. Como a que levou à suspensão do Genoa-Siena.

 

Os homens da Toscânia venciam por 0-4, um triunfo categórico, indiscutivel e perfeitamente evitável tal era a superioridade teórica inicial do onze genovês. Mas o futebol é assim, cheio de rasteiras e tardes de bruxas e num duelo de rivais directos tudo pode suceder. Tudo ocorreu depressa demais para a habitual lentidão italiana. Ao minuto 54 Alberto Malesani lançou o georgiano Kaladze para o relvado. Um defesa por um avançado, com um 0-4 no marcador e a linha de água no pescoço. O grupo de Ultras sentiu que tinha a legitimidade moral para fazer-se ouvir mais do que manifestar-se nas bancadas. À boa maneira italiana, pressentiu correctamente que, fizessem o que fizessem, sairiam impunes. Lembrando-me de um Roma-Lazio de há largos anos, onde o rumor falso da morte de um adepto levou o próprio Totti a servir de correio com o árbitro face às exigências dos Ultras da AS Roma, é fácil perceber porquê.

Os lideres do movimento, os que mais lucram com os negócios paralelos feitos ás escondidas com a directiva, entraram no relvado e num gesto de humilhação moral exigiram a camisola dos jogadores. Estes sabiam a que se arriscavam se negassem. Provavelmente ataques ás suas casas, ás suas familias, aos seus carros, uma transferência apressada e pela porta pequena em Junho e o medo no corpo para sempre. É assim que funciona o Calcio e foi esse fantasma bem real que levou a que o capitão genovês, Marco Rossi, a recolher as camisolas e entregá-las como despojos. Claro que as barreiras das bancadas foram abertas com a autorização da directiva e que a pantomina montada entre lágrimas e suspiros pareceu mais assustadora para fora do que realmente foi dentro do relvado. Os jogadores do Siena sairam imaculados do relvado, tal como a equipa arbitral e o jogo prosseguiu, 40 minutos depois, com os Ultras, esses apoiantes incondicionais, de costas para o relvado. O resultado, 1-4, condenou o Genoa a cair mais dois postos na tabela, a ser ultrapassado pelo próprio Siena e a dormir no 17º lugar, apenas dois pontos à frente do Lecce com cinco jogos para o final. Foi o pretexto ideal para Alberto Malesani ser despedido, de novo, nesse habitual circo italiano de treinadores que orientam a equipa mais do que uma vez ao ano. Na Serie A os casos como o de Malesani são o pão nosso de cada dia do norte ao sul e ninguém acredita que o homem que os Ultras juraram expulsar do clube não volte algum dia a sentir-se no Luigi Ferrari. Noutro tempo, noutra época, na mesma crua e triste realidade.

O fenómeno Ultra em Itália é mais perigoso que alguma vez foi o hooliganismo em Inglaterra. Os mais selvagens e animalesco adeptos ingleses formavam-se fora do circulo do clube, existiam á sua margem e acabaram por ser facilmente domados porque nunca exerceram posições de poder real. Em Itália a situação é bem mais complexa. Não há tanta violência exterior mas por dentro os grupos Ultras minam os seus clubes, a liga e o futebol italiano em geral. Estão por detrás do fenómeno das apostas ilegais, alguns são os principais fornecedores de drogas aos jogadores e fazem cair técnicos e estrelas com um estalar de dedos. São eles quem melhor sabe manejar estes dias crueis de anarquia e também são eles em grande parte os responsáveis pelo atraso desportivo e moral em que vive aquela que foi, não há tanto tempo assim, a melhor liga do Mundo. A impunidade dos adeptos do Genoa não é nova nem sequer um exclusivo do clube. Funciona melhor como um espelho da arrogância e da impotência, da impunidade e da injustiça, da falta de escrupulos e do interesse financeiro, nomes dignos dos muitos coveiros que atiram a terra para cima do caixão podre da Serie A.



Miguel Lourenço Pereira às 00:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 11.04.12

jogadores, por muito talento que tenham nos pés, que não entendem o que é o futebol. O rotinário acto de pontapear uma bola não faz de um homem futebolistica. Há códigos de conduta, emoções e atitudes que definem um futebolista da mesma forma que definiam, em tempos pretéritos, um cavaleiro. Mario Balotelli nunca será um futebolista por saber manejar muito bem uma bola de futebol. Ele encarna, como ninguém, a negação do jogo e o seu futuro será tão negro como o seu triste presente, longe da grandeza de um espectáculo que comove povos e nações.

As enésimas agressões de Mario Balotelli aos jogadores do Arsenal foram suficientes para Roberto Mancini fartar-se do jogador que lançou para a ribalta em Milão. Mas o mundo do futebol há muito que virou as costas ao temperamento e rudeza de um jogador que não sabe ser futebolista. Balotteli continua a representar o seu papel na perfeição, vendendo uma imagem que lhe conseguirá seguramente alguns fãs hardcore e muito dinheiro fora do tapete verde. Mas o futebol que alguma vez teve nas veias vai-se evaporando a uma velocidade espantosa. Até não ficar uma só gota na pele.

Depois de tornar-se persona non grata no Calcio pelos seus erros, actos e pecados, agora é a Premier que se lhe fecha, com a dureza de um golpe seco e justo, uma decisão sem apelo e que explica que no futebol inglês, por onde passaram alguns dos mais duros jogadores que há memória, há um sentimento de despeito profundo com o italiano. Desde a sua chegada ao City que o fenómeno Balotelli fez-se sentir em quase todos os lados menos no campo de jogo. A sua aportação, salvo ocasionais e sentidas excepções, nunca esteve á altura da sua performance fora. A sua faceta insurrecta com o técnico e colegas tornou-se ridicula em comparação com a agressividade gratuita com que tem brindado rivais. Sagna e Song foram apenas as últimas vitimas numa colecção de agressões e actos de indisciplina que espelham tudo aquilo que não se pode esperar de um jogador que é, a todos os efeitos, uma das estrelas do futebol mundial contemporâneo. Mancini prometeu - e o italiano também não era flor que se cheirasse - que não volta a contar com ele para o final de uma liga que Balotelli ajudou a perder. A pressão mediática está agora do lado de Cesare Prandelli. Levar um jogador como Balotelli ao próximo Europeu pode ser o maior erro cometido por um técnico italiano na história. Se a Squadra Azurra sempre se vangloriou foi de sentir o colectivo como algo muito mais profundo que o individuo. Está claro que o avançado citizen não conhece a palavra "nós" e será mais um problema do que a solução para o ataque italiano.

 

Balotteli perdeu o controlo sob a sua persona.

O jogador deixou de o ser no relvado, a fama deixou de fazer sentido fora dele e o dinheiro, as mulheres e as capas de jornais que criaram a sua aura de "bad boy" hoje perdem-se na rotina que dista muito da originalidade que fez dele, efectivamente, um jogador diferente. Mourinho foi o primeiro a entendê-lo, Mancini acreditou que o seu passado como jogador conflictivo podia ser um trunfo da mesma maneira que a cavalaria polaca tentou carregar os tanques alemães em Setembro de 1939. O jogador nunca saiu verdadeiramente de Itália, o icone mediático aproveitou o mercado paralelo do futebol inglês para crescer e descontrolar-se.

Quando um jogador, como qualquer profissional, se esquece do seu mister, mau assunto. Balloteli e o futebol caminham há demasiados meses em sentido oposto. Neste Manchester City o seu jogo explosivo fez mais falta que nunca quando outro "bad boy", Carlitos Tevez, decidiu embirrar e fazer beicinho. Com Touré, Silva e Nasri por detrás, estavam reunidas todas as condições para o italiano se afirmar como elemento fundamental de uma equipa que gastou demasiado dinheiro para a época que está a realizar. Mas raramente ele foi a solução aos problemas de eficácia de equipa em jogos complicados. Dzeko ou Aguero conseguiram ser mais eficazes em menos tempo de jogo que Baloteli e isso explica-se, sobretudo, porque são jogadores colectivos, capazes de potenciar o espaço e tempo precisos para que a segunda linha rompa a resistência contrária. Ao italiano falta-lhe essa inteligência de jogo que faz parte do ADN de um jogador de topo. E sobra-lhe a tentação de decidir um jogo de futebol real como um duelo de Playstation, com um sprint em linha recta usando a força do corpo em vez da destreza da mente.

Balotelli é um jogador de Playstation, não um dos que maravilham com os seus regates mas sim um jogador, comando na mão, que acredita que correndo em frente e rematando com mais força que alma se resolvem todos os problemas. A bola é um ser estranho, um objecto pontapeável e o futebol que tanto prometia nas suas botas, um primo distante.

 

A Tevez o City junta agora dois problemas. Livrar-se de Roberto Mancini, está claro, e colocar Balotelli longe do City of Manchester. Como se viu com o argentino, o resto do futebol europeu tem um sério desprezo pelo dinheiro gasto pelo sheik árabe que tentou revolucionar a Premier e nenhum clube está disposto a pagar pelo erro alheio. Se o City não logrou colocar Tevez será dificil que o consiga com um Balotelli que tem o Europeu como boia de salvação. Se Prandelli rasgar o historial italiano definido desde os dias de Pozzo e arriscar-se a levar na bagagem, ao lado do spaghetti e do limoncello uma bomba pronta a explodir.  



Miguel Lourenço Pereira às 03:25 | link do post | comentar

Domingo, 01.04.12

Num desses gestos de genuina indignação que tantas vezes dão verdadeiro sentido ao universo das claques organizadas, um grupo de adeptos do Schalke 04 mostrou o seu estupor com a politica de preços da directiva do Athletic Bilbao para o jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Europe League. Um cartaz gigante comparou o preço de um jogo de futebol com o de uma chamada de sexo telefónico e não esteve nada longe da verdade. Hoje em dia o preço de um bilhete de um jogo de futebol é uma verdadeira prostituição imoral dos ideais de um jogo que já foi de todos e que agora é de muito poucos.

90 euros. 1 euro por minuto. 

Este é o preço para os adeptos alemães que queiram ir a San Mamés na próxima quinta-feira ver a sua equipa sonhar com uma reviravolta no marcador frente ao magico Bilbao. 1 euro por minuto assemelha-se muito ás chamadas eróticas que enchem os canais televisivos pela noite e as páginas interiores dos jornais. Assemelha-se também a todas as promoções de sms´s que invadem os nossos telemóveis ou o roubo á mão armada em Portugal que são as SCUTS. É o preço de um bilhete de metro em Madrid e de uma garrafa de água em Londres. E no entanto é também o habitual na maioria dos estádio europeus. O futebol que já foi de todos, que se afirmou como fenómeno social e politico por ser de todos, é hoje de uma imensa minoria, aquela que tem dinheiro suficiente para desafiar as razões que a própria razão desconhece.

A indignação veio de um grupo de adeptos alemães talvez porque a Bundesliga é a única, a única, liga europeia que ainda respeita os adeptos. Os preços de um bilhete médio para assistir a um jogo no campeonato alemão anda entre os 10 e os 20 euros e pode custar a sócios menos de essa quantia em variadas ocasiões. É uma liga onde o lugar anual não pode ocupar mais do que 55% dos estádios para garantir que há sempre espaço para os adeptos em geral do clube e para os clubes rivais que costumam deslocar grupos de fãs de mais de 2 mil pessoas todos os fins-de-semana. O lugar anual mais caro num estádio como o Allianz Arena ou o Westfallenstadion pode ser mais barato que o mais barato dos lugares anuais no Camp Nou, Old Trafford, San Siro ou Santiago Bernabeu. Talvez por isso a percentagem mais elevada de lotações esgotadas esteja na Bundesliga. Talvez por isso o futebol alemão viva um novo esplendor, dentro e fora do campo. Talvez por isso, como em tantas outras coisas, os alemães sigam por um caminho racional enquanto o resto da Europa se empenha a utilizar o público em geral para pagar as loucuras de uns poucos. Os adeptos do Schalke 04 conhecem bem os estádios europeus, são presença assídua nas provas da UEFA, mas segundo o porta-voz dos adeptos do clube nunca tiveram de pagar tanto por tão pouco, nem mesmo quando viajaram a Old Trafford nas meias-finais da Champions League da época passada onde o preço mais caro de um bilhete era de 60 euros.

 

Espanha, como em muitas outras coisas, vive no extremo do descontrolo financeiro.

Os clubes da "Liga de las Estrellas" devem mais de 1500 milhões de euros ao estado e a maioria deles está (ou se não está pouco falta) perto da falência técnica. Os novos estádios do Valencia e Atlético de Madrid estão há anos parados. O Deportivo, histórico galego, afundou-se na segunda depois de destroçar todo o rendimento acumulado desde o inicio dos anos 90. O mesmo sucede com Villareal, Mallorca, Bétis ou Real Sociedad. O dinheiro estrangeiro salvou o Málaga da asfixia e uma profunda reestruturação financeira permitiu a sobrevivência ao Espanyol. O Rayo e o Levante, sensações no campo, foram protagonistas nos últimos anos de tristes episódios onde ninguém, excepto o presidente, recebia o seu vencimento a final do mês.

Num pais com quase 6 milhões de desempregados, onde a crise financeira mundial se encontrou com uma borbulha imobiliária suicida e onde há cada vez mais familia completas no desemprego, praticam-se os preços mais altos da Europa. Quando o Real Madrid ou Barcelona viajam pelo país fora os preços sobem aos 80 euros para o público em geral. Em Vallecas, um estádio minúsculo e com poucas condições, não há bilhetes mais baratos para o público que os 40 euros anuais. Este fim-de-semana quem quiser ver o Atlético de Madrid - Getafe, sem dúvida um clássico do futebol espanhol, terá de pagar entre 30 e 120 euros, dependendo de onde se quiser sentar no Calderon. No Bernabeu o preçário é ainda mais elevado, rondando os 45 e 150 euros de média. Por menos de 25 euros é impossível ver um jogo de futebol em Espanha e os estádios começam a esvaziar-se paulatinamente. As boas épocas desportivas de alguns clubes compensam o afastamento do público mas as transmissões televisivas não enganam e hoje ver um jogo da La Liga é cada vez mais parecido a seguir um jogo da Serie A ou da Liga Sagres. Duas ligas onde a politica de preços é igualmente desproporcional face ao estado económico de ambos os países e da qualidade de jogo oferecida e onde, habitualmente, mais de metade do estádio está vazio.

Mesmo na Premier League os elevadíssimos preços praticados começam a fazer-se sentir em clubes da parte baixa da tabela. Os mesmos que nasceram, cresceram e fizeram-se com base no forte apoio popular local, em classes operárias e classes médias baixas que hoje, simplesmente, não podem pagar um bilhete para ir ao futebol. Nos anos 80 por 1 libra era possível ver-se um jogo de pé (uma politica que a Bundesliga já recuperou) e por 5 libras sentado nas secções centrais de Anfield, Old Trafford ou Highbury. Hoje por menos de 40 libras é impossível. Os estádios, habitualmente recheados de famílias, jovens que aprendiam a adorar os seus ídolos de perto, são hoje palco de classes médias altas de meia idade endinheiradas ou, no caso dos grandes clubes, turistas que querem presenciar a história de perto e estão dispostos a pagar o que for preciso para dizer que estiveram no "Teatro dos Sonhos" ou na Kop. Para esses adeptos de ocasião ou para aqueles que pagam hoje o mesmo por um jogo retransmitido pela televisão que os seus antepassados pagavam por um espectáculo no Royal Albert Hall, o futebol continua a ser possível. Para todos os outros é algo proibitivo.

 

Da mesma forma que a televisão (ainda que de pago) trouxe o futebol a todas as casas e a todos os continentes, ir ao estádio, esse ritual primário e fundamental para qualquer amante do beautiful game, tornou-se num pesadelo. Adeptos entusiastas abdicam de muito para poder seguir a sua equipa, pais vêm-se impossibilitados de partilhar com os filhos o que os seus pais partilharam com eles e a massa de adeptos começa a desprender-se do vocabulário sagrado que constituiu uma verdadeira massa adepta de um clube. Aos que pensam que esse cenário exclusivo, como se de um torneio de golf se tratasse, é inevitável basta olhar para o caso da Alemanha (ou da Holanda, ali ao lado) e ver quem preenche as bancadas cheias, semana atrás semanas. Mulheres, crianças, famílias, idosos, todos encontram forma de comungar da sua imensa paixão. Fora esse paraíso para o adepto o futebol vivido, cheirado e sentido há muito que deixou de ser para mim e para ti.



Miguel Lourenço Pereira às 10:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 20.02.12

As lágrimas de Angelo Palombo no final do último jogo da Sampdoria da passada temporada foram um dos momentos icónicos do ano desportivo. Meio ano depois o capitão da Samp deixou o clube que jurou defender até ao fim e voltou à ribalta. É a ultima oportunidade para um dos melhores médios italianos da última década, o último comboio rumo ao estrelato que nunca encontrou no mitico Luigi Ferraris.

 

Viajou à África do Sul e sofreu na pele a paupérrima imagem deixada pela Azurra no Mundial de 2010. Podia ter sido o seu torneio, mas não havia condições para que um jogador italiano tivesse sucesso numa espiral assumidamente destructiva. O annus horribilis que se seguiu em Genova pareceu dictar sentença sobre o destino de Palombo.

Em 2002 a jovem promessa que a Fiorentina tinha contratado em idade de juvenil foi vendido por uma módica quantia a uma Sampdoria que militava então na Serie B. O destino quis que uma década depois fosse nessa divisão que Palombo se despedisse do seu clube do coração. Durante  esse imenso periodo de tempo foi a alma mater de um projecto de altos e baixos que quase logrou o céu, leia-se Champions League, e acabou por cair nas trevas inesperadamente depois de um péssima acto de gestão desportiva do presidente, Ricardo Del Ara, ao dispensar Antonio Cassano quando o clube ainda não militava nos postos de despromoção. Palombo transformou-se no tipico médio italiano de baixo perfil mediáticomas profundamente influencial na manobra de jogo da equipa. Os anos transformaram-no num inteligente box-to-box, poderoso remate, excelente controlo de bola e acima de tudo, um espirito de liderança inimitável. Cresceu ao lado de Volpi no coração do Luigi Ferraris e ganhou o carinho dos adeptos e o respeito de cada corpo técnico que chegava e partia. 

 

Em 2005 ajudou a Samp a chegar às provas europeias pela primeira vez numa década, capitaneando o conjunto numa impecável temporada na Serie A. Começou a ser convocado por Roberto Donadoni para a Squadra Azurra e foi elemento integrante da equipa que se apurou para o Euro 2008 e o Mundial de 2010, mas sem conseguir establecer-se como titular ao lado de Gennaro Gattuso e Andrea Pirlo, elementos nucleares da então campeã do Mundo.

Durante vários anos foi tentado pelos grandes de Milão, mas manteve-se fiel ao projecto da Samp, sendo recompensado em 2008 com a braçadeira de capitão, titulo que manteve durante quatro anos. Ao lado de Andrea Poli, em 2010, realizou a sua melhor temporada, um ano de pura épica que entrou para a história do clube. Aos 29 anos parecia que, finalmente, o destino lhe ia proporcionar um bilhete dourado para os grandes palcos da Europa. Os seus golos e assistências de última hora foram os catalizadores de uma parceria letal com o duo de ataque Cassano-Pazzini no 4-3-3 desenhado por Del Neri. Um ano e meio depois de realizar a melhor época desde o titulo de 1991 nenhum dos três continua em Genova. Palombo manteve-se ao leme do navio durante o inicio desta temporada, mas no último dia de Janeiro chegou uma oferta irrecusável do Inter, um empréstimo de meio ano com opção de compra. Uma última oportunidade de brilhar.

 

Palombo representa o perfil exacto e certeiro do jogador low profile que contraria a tese de que o Calcio é um ninho de jogadores sem classe e técnica. O actual médio neruazurri viveu a última década a reinvindicar o perfil do tuttocampista, capaz de defender e atacar como o melhor defesa e o melhor atacante, nunca desistindo de uma bola, nunca resistindo ao mais intenso cansaço. O Luigi Ferraris sente-se hoje mais orfão que nunca.  Jogadores como Palombo podem vender poucas camisolas mas cosem muitas almas!


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Miguel Lourenço Pereira às 18:19 | link do post | comentar

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