Terça-feira, 01.04.14

Anfield Road não celebra um título de liga desde o ocaso dos anos oitenta. O Calderón está à quinze anos à espera de voltar a Neptuno. Roma e Sporting, flamantes equipas nos princípios do milénio, voltam a sentir-se protagonistas. 2014 pode transformar-se num dos anos mais transcendentes do futebol europeu recente. Enquanto o dinheiro continua a sufragar títulos e transferências milionárias, permanece vivo um espaço emocional para a boa gestão desportiva demonstrar que é uma alternativa real ao mundo dos novos-ricos.

 

O mais provável é que Maio se despeça com os campeões do costume.

Manchester City, Barcelona, Juventus e SL Benfica repetirão títulos recentes. Tèem sido, inevitavelmente, figuras de proa das suas respectivas ligas. São os clubes que mais investem, os que melhor souberam contornar os obstáculos. Serão campeões justos e previsíveis. Mas este ano terão também sobrevivido a uma dura pugna com inusuais suspeitos. Com clubes que, sem as mesmas armas financeiras e argumentos desportivos, encontraram um atalho fundamental para permanecer vivos. A memorável temporada de Reds, Colchoneros, Giallorossos e Leões é a prova de que se pode vencer no mundo do futebol com meia dúzia de tostões e cabeça. Sobretudo, cabeça. A época desastrosa de FC Porto, Real Madrid, Manchester United e AC Milan, os mais lógicos rivais aos mais que possíveis ganhadores do ano, foi reflexo de uma soma de péssimas decisões desportivas. O dinheiro estava lá. Todos eles gastaram e gastaram muito. Mas não gastaram bem. Sobretudo, entregaram as rendas da equipa a homens que não estiveram a altura do desafio. Ao contrario das grandes surpresas do ano que devem o seu sucesso inesperado mais aos seus hábeis treinadores do que, propriamente, ao trabalho dos seus dirigentes. Nos bancos de suplentes o papel do treinador é habitualmente relativizado em prole das estrelas dos relvados. Mas uma constelação de grandes nomes nem sempre faz uma equipa. E muito raramente uma equipa funciona sem um grande treinador. Brendan Rodgers, Diego Simeone, Rudy Garcia e Leonardo Jardim foram, destacadamente, os melhores generais das suas respectivas ligas. Podem ganhar ou perder no final da batalha. Mas isso será um detalhe. Será culpa do abismo financeiro que existe entre os seus clubes e os rivais. Estarem a lutar em Abril por algo que os seus adeptos nem sonhariam, já é mais do que uma vitoria moral.

 

Das quatro equipas que deram cor a temporada europeia, parece mais evidente que Sporting e Roma estão descartados da corrida pelo titulo. No entanto, os seus casos sao os mais impressionantes. No caso dos romanos, a equipa deu um salto de gigante na hierarquia do Calcio. O investimento norte-americano foi ponderado e o clube continua a depender, talvez em excesso, do peso emocional de Francesco Totti, o eterno rei de Roma. Mas á volta do seu herói das arenas, Garcia montou uma equipa jovem, barata e ambiciosa que durante largas jornadas apresentou o melhor futebol do Calcio. Depois de um arranque para os livros de história, a equipa da Loba perdeu o gás e não aguentou a concorrência com uma Juventus que tem um dos melhores meio-campos do Mundo, com Pogba e Vidal como escudeiros de Pirlo. O titulo Bianconeri ja se adivinhava, a oposição romano foi a grande surpresa especialmente com o pedigree dos clubes lombardos e o grande investimento realizado pelo Napoli. Sem tanto dinheiro, sem tantos nomes sonantes, Garcia soube dar a batuta da equipa a quem podia fazer a diferença. E reduziu em campo diferenças abissais fora dele. Leonardo Jardim fez o mesmo. 

O Sporting dos últimos anos foi sempre um pálido reflexo da herança orgulhosa do Leão. Depois de dois títulos em três anos e de uma geração promissora, desmantelada cedo demais, o hara-kiri institucional do clube lisboeta foi assustador. Para muitos a recuperação seria lenta. O sucesso desportivo de 2014 apanhou todos de surpresa inclusive o flamante novo presidente do clube. Sem gastar praticamente nada no defeso, com uma equipa de jovens promessas e segundas filas, o Sporting tem sido o único clube a dar batalha ao Benfica de Jesus, o mesmo que sobreviveu a um annus horribilis para encontrar-se com uma temporada mais plácida do que podia pensar á partida. Eliminados pelos Águias depois de um memorável duelo na Taça de Portugal, os Leões mantiveram-se de pé na luta pelo titulo de liga até ao fim, algo que não acontecia há cinco longos anos. Jardim, de longe o melhor treinador do campeonato, encontrou em William Carvalho e Freddy Montero os seus melhores aliados. O Sporting pode, pela primeira vez em doze anos, acabar a época à frente do FC Porto. Com um orçamento muito inferior, mas com um treinador muito melhor. Os Dragões deitaram por terra o Tetra no dia em que trocaram o pouco espectacular mas fiável Vitor Pereira por Paulo Fonseca. O maior erro de gestão desportiva de um Pinto da Costa cada vez mais ausente e de uma “estrutura” que falhou num momento delicado no processo de escolha e de substituição (tardia) do principal (mas não único) calcanhar de Aquiles do FC Porto 2013/14. O titulo nunca foi real, a temporada do Benfica foi mais tranquila mas o que o coloca no mapa o genuíno fracasso dos azuis da Invicta é a sua incapacidade de ultrapassar uma equipa leonina que foge determinado para um pote de mais de 10 milhões de euros que serão fundamentais para salvar o clube. Contra todas as expectativas.

 

Do outro lado da barricada, o das equipas que sonham até ao fim, estão Atletico de Madrid e Liverpool. 

Os colchoneros, desde que Simeone aterrou no Manzanares, têm recuperado o sabor das vitorias.

Á Liga Europa de 2012, sucedeu-se a Copa del Rey de 2013 em casa do histórico rival, esse que nao batiam à quase quinze anos. Podia ser sonho de curta duração. Mas não foi. O arranque do Atleti na liga foi convincente, vencendo no Bernabeu e empatando em casa com o Barcelona. A caminho do sprint final, os madrilenhos lideram a classificação. Contra o Real dos 100 milhões gastos em Bale, o Real de Ronaldo, Benzema, Modric. E contra o Barcelona dos 100 milhões (e continuem a contar) de Neymar, o Barcelona de Messi, Iniesta e Xavi. Com um orçamento infimo, um plantel de gladiadores e um treinador com alma de potrero, o Calderon sonha. O Atletico está na luta pela Champions League – pela primeira vez desde 1997 – e pelo titulo de liga que não celebra, precisamente, desde essa etapa. Quando Simeone ainda capitaneava em campo o que agora ordena do banco. Não haveria campeão mais justo numa liga de milhões atirados ao lixo do que uma equipa que com negócios oportunos, jogadores da cantera e o símbolo do “Ardaturanismo” bate o pé aos grandes e devolve a ilusão dos días do SuperDepor, do Valencia campeão e da equipa do Doblete.

Em Inglaterra, o Liverpool vive um estado distinto de euforia. Dominadores absolutos do futebol ingles durante tres décadas, os Reds vivem vinte e quatro anos de desespero. Nenhum titulo de liga, dois títulos continentais e muitos sonhos desfeitos pelo caminho. A Kop espera ansiosamente pelo momento em que o Youll Never Walk Alone volte a ser entoado ao som de “We are the Champions”. Mas ao contrario dos espanhóis, o sucesso parece ter caído do céu. Depois de uma época passada sofrível, não muito diferente das anteriores, os homens de Rodgers voltam a ser protagonistas. Devem-no aos golos de Suarez, ao espírito guerreiro de Sturridge, à aparição de Sterling e ao talento de Coutinho. Devem-no à liderança de Gerrard. E a gestão de Rodgers. Aplicando os conceitos defendidos pela filosofía Moneyball, os gestores do Liverpool encontraram o caminho do arco-iris de forma surpreendente, quase como por acaso. Lideram a Premier League em Abril pela primeira vez em duas décadas. E só dependem de si para serem campeões. Nos duelos directos com os milionários de Londres e Manchester vão dar forma ao sonho. Podem ainda acabar fora dos postos Champions. Mas Anfield já so pensa no futuro que lhe relembra o passado. Nesses dias de glória perdidos no tempo em que o rio Mersey adormecia embriagado de euforia. No primeiro ano sem Ferguson no activo – com um Manchester United em autodestruição, um Arsenal eternamente inconstante e um Chelsea em reconstrução -  os Reds podem voltar a ser campeões. O mundo torce por eles.

 

No final os vencedores podem continuar a ser os de sempre e tudo o que se viveu em meses de competição acabar numa mera anedota sem repercussões futuras. Mas a gestão desportiva brilhante destes quatro clubes aponta um caminho que cada vez mais equipas vão ter de seguir para reduzir o fosso das grandes fortunas que assaltaram o futebol e abriram caminho a uma nova hegemonia reduzida a petro-dolares, rublos e velhos nobres com créditos ilimitados na banca. Os que acreditam num futebol diferente vão sempre tomar partido nesta luta. A vitoria de um, nem que seja, será celebrado seguramente em casa dos outros. Todos sabem que não lhes resta mais do que continuar a lutar.



Miguel Lourenço Pereira às 18:32 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 23.01.14

Se fosse outro clube. Se fosse outra liga. Se fosse outra realidade. Se. Uma palavra que o futebol conjuga vezes sem conta, muitas vezes de forma quase automática. David Moyes vive no seu particular mundo dos "ses". Ser sucessor a um mito é sempre uma tarefa complexa. Mas nem sempre dramática. O anterior técnico do Everton está a viver um autêntico annus horribilis. Não só porque o seu projecto em Old Trafford não arranca mas também porque em Goodison Park ninguém parece lamentar a sua saída. Em terra de ninguém, Moyes tem sido salvo pela legendária fidelidade do Manchester United.

Vir a seguir a um mito, a um génio, é sempre uma missão (quase) impossível.

Ferguson é um dos maiores treinadores da história. Tem um curriculum que provoca o mesmo efeito de contar ovelhas, não tem fim. Os mais novos lembram-se apenas do velho com cara rosada em Old Trafford mas a sua lenda forjou-se primeiro nos anos setenta, na pequena Abardeen. Foram quase 40 anos nos bancos. Tempo suficiente para filhos, pais e avós terem a sua conexão emocional com ele. Muitos dos seus antigos jogadores transformaram-se em treinadores, um sinal normalmente de que Ferguson não foi só um homem do presente, do sucesso em campo. Foi também um inspirador fora dele. A sua liderança não poderia nunca ser substituida. É impossível.

O Manchester United tinha duas opções, igualmente válidas. Aceitar outro tipo de liderança, outra figura icónica. Ou optar pelo modelo low profile, um treinador sem esse peso que se fizesse valer por si mesmo com o tempo. José Mourinho era a primeira opção. David Moyes a segunda. A decisão foi unânime e o homem que transformou o Everton num projecto sólido foi o eleito. Rapidamente se traçaram comparação com a chega de um "desconhecido" Fergie. Artigos escritos e twitteados, naturalmente, por alguém sem formação nenhuma em história do futebol ou acesso a uma wikipédia. Quando o escocês Ferguson aterrou em Old Trafford estava em melhor situação profissional que o clube. Tinha sido o homem capaz de romper o duelo da Old Firm na Escócia, tinha ganho provas europeias, dirigido a selecção escocesa num Mundial e (quase) todos os clubes ingleses o queriam. Por sua vez, o Manchester vinha de década e meia sem títulos, de um longo deserto de ideias pós-Busby e com a era Ron Atkinson em ponto morto. Ferguson teve tempo para desenhar o seu projecto porque tinha mais peso do que a situação dos Red Devils à época. E porque o clube, em si mesmo, era uma soma de problemas e não um conjunto de virtudes. Uma vitória quase desesperada numa FA Cup, uma Taça das Taças e um tal Cantona deram a volta à história. Moyes não vive na mesma realidade mas tem recebido o mesmo tratamento que o clube tem oferecido a quase todos os seus treinadores.

 

Em 1945 acabou a II Guerra Mundial. E Matt Busby foi apresentado como técnico do Manchester United.

Desde esse momento - há precisamente 69 anos - o clube teve apenas sete treinadores. Desses sete (onde já incluimos Moyes) apenas dois estiveram menos de três temporadas no activo. Ambos estiveram envolvidos no complexo processo de sucessão ao único mito maior que Ferguson na história do clube: sir Matt.

Wilf McGuiness durou ano e meio no cargo. O United, campeão europeu um ano antes, estava em processo de renovação mas o antigo adjunto de Busby não conseguiu liderar o processo. A situação tornou-se de tal forma dramática que o próprio Busby aceitou voltar da reforma para acabar a temporada. Durante esses meses o clube abordou o irlandês Frank O´Farrell, que estava prestes a conquistar o título de segunda divisão com o Leicester. Finda a época, O´Farrell aceitou o posto de Busby mas durou pouco mais que McGuiness, acabando por estar envolvido na histórica despromoção dos Red Devils. Foi o fim dos pequenos mandatos no clube. Tommy Docherty (que treinou o FC Porto), esteve cinco anos no banco de Old Trafford. O seu sucessor, Dave Sexton, durou um menos e "Big Ron" Atkinson foi treinador durante cinco temporadas. Todos venceram títulos (FA Cup, Taça da Liga, Charity Shield), nenhum venceu a liga ou uma prova europeia. Mas tiveram sempre o apoio da direcção e dos adeptos. O mesmo apoio que teve Ferguson durante quatro anos. E o mesmo que Moyes tem actualmente.

Moyes já foi eliminado da FA Cup e da Taça Liga. Alcançar a Champions League parece missão impossível face à temporada estelar de Arsenal, Chelsea e Manchester City. A quarta vaga parece ser da propriedade do Liverpool mas até o seu antigo clube, Everton, tem mais opções de ouvir o hino da Champions. Uma estranha ironia da vida. Em Goodison Park, onde Moyes se consagrou, todos parecem estar gratos pela mudança. E isso é o pior que pode suceder a um treinador na sua posição. A eventual chegada de Juan Mata dificilmente mudará o cenário actual. O Manchester United tem um plantel extremamente descompensado mas que foi suficientemente bom para ser campeão na temporada passada. Fellaini trouxe pouco a uma equipa que já tinha a Kagawa para a sua posição e o aparecimento de Januzaj foi a única noticia positiva em toda a temporada. Todos os pesos pesados da era Ferguson estão muitos furos abaixo do que sabem fazer, a defesa mancuniana é um desastre e faltam opções, ordem e critério ao meio-campo. Culpa de Moyes, seguramente, incapaz de realizar qualquer negócio em tempo útil no mercado. Mas também uma consequência inevitável da mudança de guarda.

 

Alguns lembram-se das sucessivas heranças deixadas em Liverpool de Shankly para Paisley e de Paisley para Fagan, esquecendo-se de que os três estiveram juntos desde o principio do Boot Room e, portanto, não havia mais do que uma mera sucessão de individuo a realizar. O método permaneceu sempre o mesmo. Com Moyes a situação é distinta e a direcção do clube sabe-o. Os adeptos, habituados a vencer quase por defeito, perderam a noção histórica do clube. Mesmo nos dias de hoje - com donos americanos e uma necessidade constante de fazer dinheiro - parece altamente improvável que Moyes não acabe a temporada. Depois será o treinador quem tenha de avaliar se aguenta o peso do posto. Moyes terá mais algumas vidas para gastar. Resta saber se não é ele quem decide dizer Game Over.



Miguel Lourenço Pereira às 10:58 | link do post | comentar

Sexta-feira, 27.12.13

Com o final do ano de 2013 o Em Jogo publica a sua lista particular dos melhores jogadores do ano natural. Uma eleição condicionada pela performance individual, pelos méritos dentro do colectivo e pelo seu talento particular. Aos onze titulares do ano junta-se um leque de sete suplentes de luxo para forjar o plantel perfeito do ano 2013!

 

Os Melhores do Ano (Titulares)

 

Manuel Neuer

É díficil quantificar quem é o melhor guarda-redes do Mundo. Se os veteranos Cech, Buffon ou Valdés ou o alemão Manuel Neuer. Mas não houve um só título que o germânico não tivesse levantado no último ano e muitas das vitórias dos bávaros deveram-se, também, ás suas espantosas intervenções. Com o passar dos anos o ex-Schalke 04 tomou pulso a um posto onde muitos pensavam que não iria durar e já está à altura dos grandes número 1s alemães da história!

 

Philip Lahm

Talvez o jogador de 2013. Não é o mais rápido, o mais goleador, o que mais assistências dá ou o mais mediático. Não vencerá nunca um Ballon D´Or e a maioria dos adeptos até se esquece que já tem atrás de si uma década ao mais alto nível. Mas Lahm é o capitão desta equipa e um jogador que todos gostariam de ser e de contar com. Foi fundamental no esquema de Heynckhes e Guardiola rendeu-se à sua inteligência de jogo, colocando-o várias vezes no fundamental papel de médio defensivo durante os primeiros meses da temporada. É o líder emocional em campo dos bávaros e já um dos maiores laterais da história.

 

Thiago Silva

O brasileiro esteve perto de abandonar a carreira por uma tuberculose que os médicos do FC Porto não souberam detectar a tempo. Desde esses dias na Rússia e o regresso ao Brasil até à explosão definitiva como o melhor central do mundo, o capitão do Brasil tem protagonizado uma sequência de temporadas inesquecíveis. 2013 foi a melhor. Não só pelo título conquistado pelo PSG mas também pela vitória do Brasil na Taça das Confederações. Títulos onde teve um papel fundamental. A sua liderança e capacidade de controlo da área não encontram impar no futebol actual.

 

David Alaba

A evolução do lateral austríaco nos últimos dois anos tem sido épica. Alaba apareceu em cena como um médio interior formado nas camadas jovens do Bayern e acabou reconvertido num dos melhores e mais incisivos laterais do Mundo. O seu ano 2013 foi memorável, como sucedeu com quase todos os seus colegas de equipa. O seu próximo passo é levar a Áustria de volta a um Campeonato da Europa e manter o pulso com outros laterais da escola sul-americana como Marcelo, Felipe Luis, Dani Alves o protagonismo entre os melhores do Mundo!

 

Paul Pogba

Foi o melhor jogador do Mundial sub-20, a grande revelação do Calcio e a melhor notícia possível para o futebol francês. Descoberto por Ferguson, recusou-se a renovar o contrato com o Man United com medo a não ter o protagonismo que sentia que merecia. Tinha 18 anos. Dois anos depois, em Turim, transformou-se no parceiro perfeito de Pirlo. Os seus disparos de longe, as suas recuperações impossíveis e as assistências perfeitas tornaram-no peça fundamental na conquista da Serie A. Para completar um ano memorável, a vitória no Mundial sub20 e a promoção aos Bleus garantem que vamos ouvir falar dele com regularidade na próxima década.

 

Ilkay Gundogan

Há poucos jogadores tão inteligentes no futebol europeu como Gundogan. O médio turco-alemão do Dortmund soube substituir o seu amigo Nuri Sahin de tal forma que quando o ex-Real Madrid regressou ao Westfallen, foi-lhe impossível recuperar a titularidade. Fundamental na manobra de jogo da equipa de Klopp, o médio foi fundamental para a época memorável dos amarelos de Dortmund e a Alemanha de Low conta com ele para dar cartas no próximo Mundial.

 

Bastian Schweinsteiger

O que seria do futebol sem jogadores como "Schweini". Poucos teriam a fortaleza mental de superar um 2012 horribilis, com o penalty falhado na final da Champions League e a eliminação da Mannschaft nas meias-finais do Europeu, parecia que a carreira do médio tinha atingido o seu apogeu. Com a confiança de Heynckhes, voltou a pegar na equipa e lambeu as feridas com o champagne da glória. Superou a Pirlo num mano a mano, anulou (com a ajuda de Javi Martinez) o meio-campo do Barcelona numa histórica meia-final e em Londres voltou a ser fundamental para manter o jogo equilibrado até a conexão Ribery-Robben mostrar-se superior à dos rivais germânicos. O Mundial e um título com a selecção alemã é tudo o que separa Schweinsteiger de tornar-se num dos mais memoráveis jogadores teutónicos de toda a história!

 

Marco Reus

Os mais mediáticos seguramente citariam a Mario Gotze, mas talvez a mais incisiva e brilhante novidade ofensiva do Dortmund de Klopp no último ano tenha sido Reus. O médio contratado ao Gladbach foi uma verdadeira confirmação de tudo o que se suspeitava que podia ser. Vertical, directo, perfeito nas assistências, seguro frente à baliza, Reus foi o melhor jogador do Dortmund na corrida à final de Londres e com a saída do seu amigo Gotze para o histórico rival deu um passo em frente e reclamou a sua liderança para transformar-se no mais influente jogador do Dortmund actual.

 

 

Frank Ribery

Se os prémios individuais fossem atribuídos com o seu critério histórico, Frank Ribery era o homem prémio 2013. Lamentavelmente, o poder mediático cada vez mais encontrou forma de sobrepôr-se e o francês - tal como Iniesta ou Sneijder - verá a glória desde longe. Foi um ano histórico para o homem que alguém pensou que podia ser o sucessor de Zidane. Não foi nem nunca será mas vencer tudo em 2013 e ajudar a França a não falhar o Mundial é um feito que poucos gauleses podem reclamar para si. Ribery marca, assiste, distribui, lidera e encarna o espirito deste histórico Bayern Munchen. No ponto mais alto da sua carreira é um jogador imparável!

 

Luis Suarez

Se 2013 acabasse daqui a dois meses, talvez o uruguaio fosse o próximo Ballon D´Or. Na realidade, não estará sequer no top 10. No entanto, o que o jogador do Liverpool tem conseguido é impressionante. Não só realizou um excelente final da época 2012-13 - com muita polémica à mistura - como o seu arranque de temporada tem eclipsado as gestas de grandes nomes que podiam estar neste onze como Ibrahimovic, Lewandowski, Muller, van Persie, Falcao ou Diego Costa. Recorde de golos marcados, liderança na Bota de Ouro e um enfant terrible transformado na última esperança da Kop.

 

 

Cristiano Ronaldo

É díficil olhar para 2013 e não pensar num jogador: CR7. E no entanto o português não venceu um só título em 2013. Fora da luta pela liga desde 2012, Ronaldo conseguiu ser o melhor marcador da Champions League mas no jogo decisivo, no Bernabeu, não marcou o golo que carimbaria o passaporte para a final. Marcou no jogo decisivo da Copa del Rey mas acabou expulso e a equipa derrotada. Foi um mês de Maio negro que no entanto escondia um semestre memorável pela frente. Histórico de golos marcados num ano natural, memorável exibição no play-off de apuramento ao Mundial do Brasil, melhor marcador histórico numa fase de grupos da Champions League e o reconhecimento internacional posterior a uma imitação lamentável de Blatter. Ronaldo ganhou dentro e fora de campo todo o protagonismo de 2013 - sobretudo da temporada 2013-14 - e é a figura mediática inquestionável do ano!

 

 

Menções Honrosas (Banco de Suplentes)

 

Victor Valdés

É díficil não olhar para o guarda-redes catalão e não ver nele o melhor número 1 do futebol espanhol da actualidade. Valdés tem-se revelado tão influente como Leo Messi nos momentos decisivos e nos grandes triunfos dos blaugranas. A sua lesão, no final de 2013, deixou a nú muitas das fragilidades defensivas que Valdés tem tapado com brio. Talvez o seu melhor ano.

 

Matt Hummels

Tem um talento pouco habitual para um central e sabe-o. É a sua fortaleza e a sua perdição. Alguns dos golos sofridos pelo Dortmund em 2013 levam o seu selo, o descontrolo do seu imenso know-how. Mas Hummels é, sobretudo, um central imenso com um sentido posicional espantoso e uma leitura de jogo que faz lembrar a velha escola de líberos alemã iniciada por Beckenbauer.

 

Yaya Touré

Há jogadores que não necessitam de apresentações. São aqueles que qualquer treinador gostaria de ter na sua equipa. Defendem, atacam, distribuem, recuperam, dão calma quando necessário e vertigem se é preciso. E fazem-no quase como vultos fantasmas, deixando o protagonismo a outros. Yaya Touré tem-no feito há vários anos, desde a sua passagem pelo Barcelona até à sua consagração na Premier League. 2013 foi mais um ano de ouro para o marfilense!

 

Koke

O renascimento do Atlético de Madrid sob a mão de Diego Simeone encontrou no talento individual de um jovem produto da cantera colchonera o seu melhor exemplo. Para lá dos golos de Falcao e Diego Costa, do talento de Arda Turan e Mario Suarez, o trabalho incansável do médio espanhol no miolo da equipa de Madrid destacou-se pela sua sobriedade e perfeição. É uma das grandes revelações do ano e um jogador capacitado para liderar o futuro do meio-campo da Roja!

 

Lionel Messi

Há poucos jogadores na história do futebol com o talento de Leo Messi. O jogador argentino estaria em qualquer onze do ano mas 2013 foi o seu annus horribilis. Lesões recorrentes - entre Janeiro e Março e mais tarde, desde Outubro até ao presente - deixaram o génio blaugrana fora de combate em quase metade da temporada. Nos meses que esteve em campo esteve praticamente igual a si mesmo. Mas no duelo directo contra o Real Madrid (Copa del Rey), Atlético de Madrid (Supercopa) e Bayern Munchen (Champions League) não conseguiu ser o elemento desequilibrador a que nos tem tão habituados.

 

Zlatan Ibrahimovic

Igual a si mesmo, "Ibracadraba" é um dos jogadores com mais talento do mundo. Com a vitória na Ligue 1 ampliou a sua lenda. Dez titulos de campeão em doze temporadas é algo a que poucos jogadores podem optar, particularmente se os titulos foram conseguidos em quatro ligas e seis equipas diferentes. Levou os parisinos até um duelo intenso com o Barça na Champions League, rematou o título em Maio e protagonizou um notável arranque de época em 2013, interrompido apenas pela exibição de Ronaldo em Solna. Um craque!

 

Robert Lewandowski

É um exagero dizer que o polaco eliminou só o Real Madrid mas quatro golos numa meia-final da Champions League é algo histórico. O avançado do Dortmund realizou um ano memorável. Levou a sua equipa até à final da Champions, mostrou ser o avançado mais em forma na Bundesliga e tem os adeptos do clube de Dortmund em suspense sobre o seu futuro. É um dos mais letais avançados do futebol mundial e vale o seu peso em ouro!

 

 

Custou deixar de fora (O resto do plantel)

 

Robbie van Persie (decisivo no último ano de Ferguson), Mezut Ozil (mal tratado em Madrid, herói em Highbury), Andrea Pirlo (não é preciso explicar pois não?), Óscar (determinante na era Benitez, fundamental nos meses Mourinho), Mario Gotze (grande até Junho), Andrés Iniesta (um génio indiscutivel), Heines Weidenfeller (o eterno esquecido do futebol alemão), Thomas Muller (outro grande ano do working class heroe bávaro), Diego Costa (uma verdadeira transformação épica), Neymar (tem tudo para ser um mega-top), Arjen Robben (porque nos esquecemos tanto dele?), Marcelo (continua a ser um jogador especial), Raphael Varane (foi a revelação do final da época 2012-13), Eden Hazard (destinado à grandeza com os Diables Rouges)



Miguel Lourenço Pereira às 12:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 20.12.13

Anfield Road é pasto de mitos únicos e memorias que ultrapassam qualquer dimensão clubística. É também um estádio que vive esfomeado de títulos depois de um banquete que durou sensivelmente mais de duas décadas. De reis do Mundo a eternos perdedores, a saga triste da Kop encontrou em Luis Suarez o antídoto perfeito à indigestão. Há muito mais neste Liverpool - no seu treinador, na sua gestão directiva, no plantel - do que o uruguaio. Mas Suarez é a alma dos Reds e o único jogador que lhes permite sonhar com regressar ao passado onde foram felizes.

Um estádio que viu jogar, entre tantos, a Keegan, Dalglish, Rush, Barnes, Beardsley, Souness, Owen, Fowler, McManaman, Torres, Gerrard, Alonso ou Toshack deveria contemplar as maravilhas de Suarez como algo habitual. Algo parte do seu histórico ADN. Mas a seca de glórias, títulos e euforias é tal que hoje o que vemos o dianteiro uruguaio conseguir parece saído de um conto de fadas. Como se Anfield fosse St. Mary´s, Craven Cottage, Hillsborough ou qualquer outro estádio que não aquele que povoou a ilusão de miúdos e graúdos durante mais de quarenta anos.

Hoje, seguramente, impulsionados pela euforia, ouviríamos muitos adeptos dos encarnados de Liverpool dizer que Suarez não é menos que qualquer um desses jogadores. Os números poderiam dar-lhes a razão. O seu arranque de temporada não tem igual em toda a Europa. Nem os brutais números de Cristiano Ronaldo se podem comparar ao que Suarez tem feito desde que acabou a sua suspensão. É o máximo candidato a vencer o prémio de Melhor Jogador e Goleador da Premier League...e a ainda vamos pelo Boxing Day. Os seus números podem permitir-lhe sonhar com a Bota de Ouro - mesmo que Ronaldo e Messi, se recuperado a tempo, continuem a ser de outro planeta - e ao Liverpool de pensar em algo diferente. A equipa histórica de Anfield não se qualificou para a Europa, o palco onde a lenda se fez real. Para muitos era mais uma oportunidade para fazer reboot e começar do zero. Para a inteligente direcção do clube foi o ponto de partida para um modelo de gestão racional a médio prazo. Brendan Rodgers, um dos melhores treinadores britânicos, já tinha demonstrado com o Swansea daquilo que era capaz. Em Liverpool apenas precisava de duas coisas: tempo e jogadores capazes de entender a sua filosofia. Conjugados os elementos o resultado está à vista.

 

Não, o Liverpool não é - malgrais tout - candidato a vencer a Premier League.

A qualidade dos planteis de Manchester City e Chelsea - os favoritos reais - e o grande momento do Arsenal estão por cima da gesta de Suarez e companhia. Mas voltar à Champions League - com um Tottenham em hara-kiri e um Manchester United a passar a sua própria fase de transição - é algo perfeitamente possível. Rodgers tem o plantel, a carga de jogos adequada e tem Suarez, um diferenciador fundamental.

Actualmente o papel do uruguaio é único em todo o futebol inglês. Nem o génio de Ozil com os gunners, nem a grande época de Óscar com os Blues, o talento de Aguero dos Citizens ou o apetite goleador de van Persie, que no ano passado salvou os Red Devils - estão à sua altura. Suarez tem marcado, assistido e gerado ilusão. A sua associação com Sturridge permite lembrar outras duplas históricas do passado. Os Fowler/Heskey-Owen, Beardsley-Rush, Toshack-Keegan podem dar a sua bênção a uma parceria que tem feito estragos por onde quer que passa. Mas os homens do golo são apenas o culminar da ideia de Rodgers, um manager que sabe investir e trabalhar os seus jogadores. A ponto de forjar um quarteto defensivo replecto de jogadores de low profile num dos mais eficazes da prova. De dar a Gerrard um novo sopro de ar na sua decadente carreira. E de encontrar espaço para ir rodando entre Coutinho, Henderson, Allen, Leiva, Sterling e Moses. Todos jogadores de classe média, salvo talvez o potencial tremendo do brasileiro, mas que aprenderam a jogar em conjunto de uma forma espantosa. O tempo que o técnico precisava em 2012/13 começou a dar os seus frutos. Com alguns tostões e investimentos a médio prazo, o Liverpool está progressivamente a voltar a sentir-se grande numa liga onde todos os seus rivais vivem muito por cima das suas possibilidades.

No meio deste furacão, Suarez é o íman emocional. Marca de todas as formas, assiste com uma frieza que lhe era desconhecida e até a sua natural apetência para as polémicas foi substituída com uma inesperada prova de devoção (bem remunerada) transformada na renovação mais esperada pela Kop desde que Gerrard rejeitou as investidas de Mourinho para juntar-se a Lampard na sua primeira etapa ao serviço do Chelsea. Com o uruguaio num estado de forma absolutamente demolidor, o Liverpool encontrou forma de somar mais de metade dos pontos dos que já tinha a esta altura em toda a época passada. A dois pontos do líder, o Arsenal, os próximos dois meses serão fundamentais para dar forma a um topo de tabela confuso onde a liderança dos gunners se encurtou abrindo a luta real a Chelsea e City e colocando o Pool e Everton como inesperados contenders. 

 

Suarez é provavelmente uma das melhores noticias para o futebol europeu. O jovem que o Ajax descobriu e trabalhou desde a base a ponto de o transformar num dos mais letais avançados do Mundo é um dos protagonistas individuais do ano. Pertence a essa raça de génios, como Ibrahimovic, van Persie, Ribery, Robben, Iniesta ou Falcao que mereciam um reconhecimento suplementar mas que pagam o preço de coincidir no mesmo tempo e espaço que dois extra-terrestres do futebol. Ainda assim, o uruguaio poderá sentir-se recompensado. Esta pode, muito bem, ser a sua temporada de sonho!

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 11.12.13

Ás vezes o futebol pode ser aborrecido. Não sei quem tem a culpa. Se a Lei Bosman, se a hiper-mercantilização do beautiful game, se os próprios adeptos ou se a culpa é minha. A maioria dos jogos das grandes equipas tornaram-se meros trâmites. Quem marca mais, quando entra o primeiro, quem bate mais recordes. Tudo aquilo que o futebol nunca foi. Felizmente, todos os anos, há projectos desportivos que nos permitem sonhar com um futuro melhor. Equipas que procuram uma via alternativa para fazer-se notar. E que conseguem a sua recompensa.

 

Não sabemos como os campeonatos vão terminar em Maio.

O mais provável é que o cenário repetido dos mesmos protagonistas nos mesmos lugares seja a tónica. Não é dificil hoje adivinhar campeões e vice-campeões, qualificados Champions e remetidos para a Liga Europa. Os orçamentos, a aglomeração de estrelas, o imenso vazio que se criou entre o topo e a classe média fazem isso por nós. Há ligas mais aborrecidas que outras, ligas mais previsiveis que outras. Mas em todas elas há sempre alguém que quer romper com a monotonia. Em Dezembro parecem um projecto de sonho. A maioria delas, em Maio, está onde muitos imaginariam que estaria. O peso do dinheiro acaba quase sempre a falar mais alto. Quase sempre.

Por esta altura, o ano passado, só se falava da espectacular versão de futebol total do Swansea galês em terras inglesas. A luta entre os dois grandes de Manchester e o Chelsea importava muito pouco. O Arsenal, o Liverpool, o Tottenham e o Everton, os seus habituais escudeiros, continuavam na sua versão recente. Mas o Swansea era o flavour of the season. A equipa acabou por conquistar um título - a League Cup, contra um rival de uma divisão inferior e assim marcar o passaporte para a Europa - mas terminou a temporada lá bem no meio da tabela. Melhor sorte teve a Real Sociedad, o seu equivalente espanhol. Os txurri-urdins conseguiram mesmo o impensável, um lugar na Champions League com uma equipa montada à base de trocos e cantera. Hoje estão a pagar o preço da ambição mas o projecto mantém-se de pé. Ainda bem. Um pouco por toda a Europa vivemos essa relação de amor quase juvenil com Paços de Ferreira, Estoril, Eintracht Frankfurt ou Zulte Waregem. Poucos duraram até ao fim. Mas estiveram lá, a acompanhar o modesto e neutral adepto nesta sua eterna luta contra a previsibilidade. Este ano, inevitavelmente, o cenário repete-se. Só mudam os protagonistas.

 

Villareal. Southampton. Lille. Hellas Verona.

Quatro clubes com a sua história, os seus feitos - mais recentes ou não - e ideias desportivas que se assemelham mais ao que o adepto de futebol aprecia. São clubes sem grandes ambições históricas. Entre eles só o Verona e o Lille foram campeões nacionais. Os gialloblu no mágico ano de 1985 e o Lille há quatro temporadas em França, antes da chegada dos milhões dos sheiks qataris e dos russos de férias. Os Saints viveram a sua idade de ouro nos anos 70 e com o mítico Le Tissier tornaram-se numa equipa ideal para os românticos do futebol inglês seguirem. Hoje já não jogam no histórico The Dell e até abdicaram das suas tiras verticais por um equipamento mais neutral. E claro, o Submarino Amarelo, uma equipa que esteve a um penalty de chegar à final da Champions League na sua primeira participação e que representa tudo o que de bom ainda há no futebol espanhol, a começar pela sustentabilidade sem ajudas externas e passivos imensos.

Curiosamente, desta lista, duas equipas são recém-promovidas (Villareal e Verona) e duas vêm de épocas decepcionantes nos seus respectivos campeonatos. E, da noite para o dia, hoje são tudo aquilo que queremos para o nosso clube imaginário. Contrataram bons treinadores, organizaram um plano financeiro sustentável sem gastos loucos e sem comprometer o futuro. Pescaram no mercado óptimos jogadores a preço de custo, sem comissões exageradas pelo caminho. Montaram onzes sem estrelas mas com futebolistas comprometidos e abriram espaço no banco de suplentes a jovens promessas da sua formação. Em ligas onde mandam os milhões, pagam a tempo e horas e fazem-no sem para isso ter de abdicar em ser competitivos. Utilizam modelos de jogo ofensivos, fazem da bola a sua principal arma e são conscientes das suas limitações. Muitos sabem que a posição onde estão hoje acabará sendo ocupada por um gigante quando as contas apertarem. E sobreviverão a isso. O Villareal está no quinto lugar da liga espanhola e tem passado toda a primeira volta em lugares Champions. Com um grande treinador ao leme - Marcelino - e um melhor presidente no palco, a equipa tem jovens promessas (Perez, Pina, Mario), jogadores consagrados (Cani, Bruno) e reconvertidos do esquecimento (Giovanni dos Santos, Kalu Uche, Asenjo). E os pés no chão.

O Verona também já andou pelos lugares Champions e agora fecha a apertada luta pela Europa League. No mitico Bentegodi os golos do eterno Toni e as assistências do jovem Iturbe têm feito as delicias dos que cresceram com Elkjaer Larson e Briegel nos anos 80. Em França o Lille está, surpreendentemente, a ganhar o sprint a Lyon, Marseille e Monaco na perseguição ao PSG com um Vincent Eneyema estelar e uma medular deliciosa. E claro, os Saints de Pochetinno representam o que ainda há de bom na Premier. Excelentes movimentações no mercado, um treinador ambicioso, um público entregado e de repente a equipa da costa sul inglesa aparece nos lugares de topo da classificação. Duas derrotas dolorosas contra Arsenal e Chelsea servirão para colocar água na fervura, mas com alguns dos clubes milionários erráticos, em Southampton sabem que se há um ano para surpreender, é este.

 

Claro que todos sabemos como acaba o filme. Mas o futebol precisa, cada vez mais, destes projectos. Destas equipas. Deste sopro de ar fresco. Precisa sentir-se vivo nos meses em que os clubes milionários olham para tudo e para todos com desdém, preparando-se para meter o acelerador em Março, quando os títulos começam a aparecer ao virar da esquina. É aí que as diferenças dos orçamentos se fazem realmente notar. Ate lá estes projectos, estes adeptos podem sonhar. E nós com eles. Para bem do nosso jogo!



Miguel Lourenço Pereira às 12:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 27.11.13

Na última semana de Agosto de 2012 o Tottenham Hotspurs perdeu o seu melhor jogador. Sem tempo para gastar o dinheiro embolsado num substituto à altura, a equipa penou durante grande parte da Premier League, resolvendo jogos pela mínima e entregando-se de corpo e alma ao galês Bale. O quinto lugar não trazia nada de novo a um dos planteis mais caros da Premier. Um ano depois Villas-Boas fez o oposto. Gastou primeiro o dinheiro que sabia que ia receber pelo galês em Agosto. O resultado é ainda pior. Os Spurs são uma nau à deriva.

Foram cerca de 115 milhões de euros.

Um dos maiores investimentos de toda a temporada. Por um clube que está há mais de meio século sem vencer o título de campeão no futebol inglês. A expectativa estava em alta. Bale, o supersónico galês teria de partir, já todos o tinham como assumido. E iria para fora das ilhas, para não repetir o erro dos gunners com van Persie, que não só desmoralizou profundamente o Arsenal como ajudou a dar o título ao seu histórico rival, o Manchester United. Tudo parecia estar bem. Os reforços de 2012 estavam assimilados e a dezena de jogadores que aterrava em White Hart Lane prometia mundos e fundos para devolver o Tottenham à elite. A Champions League era o primeiro passo. Onde Redknapp já tinha estado, é preciso não esquecer, e onde não conseguiu voltar porque o título europeu do Chelsea surpreendeu tudo e todos no momento errado para o seu rival londrino. Agora a sensação era outra. Com um treinador jovem e ambicioso, um plantel mais equilibrado e algum dos melhores jovens jogadores do Mundo, quem podia parar o Tottenham?

Ás portas do segundo teçro da temporada, as expectativas não poderiam ter sido mais defraudadas. O dinheiro foi gasto mas os resultados não estão à vista. A qualidade de jogo da equipa não variou positivamente em relação ao ano passado e a liderança de Villas-Boas é mais discutida do que nunca. O homem que ganhou tudo o que podia ganhar com o FC Porto está debaixo de mira. Pela segunda vez em Inglaterra corre o risco de não sobreviver ao Natal.

 

AVB apareceu no mapa do nada, como um segundo "Special One".

A grande temporada realizada com o FC Porto deu-lhe uma aura de invencibilidade que o transformou rapidamente no "flavour of the month" do futebol europeu. Abramovich, que não só já o conhecia como já tinha apostado numa ficha similar, anos antes, achou que o português poderia fazer aquilo que Mourinho não conseguiu, trazer um futebol da escola danubiana para o Stanford Bridge. Esqueceu-se de que um treinador sem carisma e sem poder, num balneário de estrelas, é um treinador a prazo. Abramovich prometeu-lhe apoio na renovação da geração de Mourinho mas na hora H mudou de ideias e preferiu sacrificar o homem a crucificar o plantel. Os jogadores responderam com dois títulos europeus consecutivos - Champions e Europa League - com dois treinadores interinos. E Villas-Boas perdeu a oportunidade mais brilhante da sua vida.

Lutador, o técnico portuense não desistiu. Esperou por uma segunda oportunidade que lhe caiu do céu de novo desde Londres. Um dos melhores planteis do futebol britânico e mais tempo e poder para trabalhar. O que poderia correr mal?

Na primeira temporada o Tottenham reforçou-se bem mas a perda de Modric nunca foi, verdadeiramente, colmatada. E foi San Bale o homem que permitiu que o clube aguentasse o ano no top 5, o objectivo mínimo para a directiva de Daniel Levy. Sem golo, sem um médio criativo de primeiro nível e com uma defesa titubeante, muitos pensavam que Villas-Boas tinha-se superado.

A expectativa sobre o que podia fazer começando do zero e com dinheiro era muita. E AVB gastou. Muito. Tudo.

Dos 100 milhões conseguidos por Bale e mais alguns trocos por vendas surpreendentes, o técnico investiu cada cêntimo. Concentrou os seus esforços em jogadores do meio-campo para a frente, deixando outra vez a nú as fragilidades da sua linha defensiva. Que são evidentes. O trabalho de Paulinho, o talento de Lamela, a classe de Eriksen, o faro de golo de Soldado, a promessa belga Chadli ou o gaulês Etienne Capoue chegaram debaixo de muita promessa, ofuscando os já promissores Sandro, Holtby ou Dembelé, todos eles já disponíveis. Durante um mês foi o "rookie" Townsend quem salvou a equipa de resultados comprometedores. As peças não encaixavam no puzzle. E continuam sem encaixar. Depois de várias vitórias pela minima (três delas por um penalty) e de uma derrota surpreendente contra o West Ham, começaram a soar os alarmes. A goleada histórica sofrida contra o Manchester City apenas confirmou as sensações de um projecto que não arranca. E de um líder perdido.

 

No último mês e meio Villas-Boas pareceu um homem dominado pela situação. O caso da utilização de Lloris, o discurso agressivo contra Lukaku e o Everton (rivais directos na tabela), a falta de resposta para os problemas tácticos do seu intermitente 4-3-3 (ora 4-5-1, ora 4-2-3-1) e a incapacidade de dar um murro na mesa, têm desmascarado a imagem que Villas-Boas conseguiu manter em Inglaterra, de técnico frio e de sucesso rápido. O ano dourado na sua cadeira de sonho parece cada vez mais distante. O técnico português corre o risco de ter sido o responsável pelo maior gasto da história de um clube inglês não apoiado por um bilionário árabe ou russo sem que esse gasto se repercuta em campo. É a primeira vez na sua carreira que está mais de um ano com a mesma equipa. E o relógio já corre contra si.



Miguel Lourenço Pereira às 19:24 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Terça-feira, 24.09.13

Sou um dos grandes admiradores de Juan Mata. Talvez porque o vejo jogar desde os dias do Castilla. Porque sempre vi nele todas as condições para ser um jogador de elite. José Mourinho pensa de outra forma. Para ele o espanhol está uns furos abaixo do que ele quer como elemento central do seu esquema ofensiva. Entre o espanhol e Óscar, o técnico sadino prefere o brasileiro. A maioria dos treinadores agradeceria ter um dilema destes nas mãos. Afinal, são dois dos melhores jogadores do Mundo na sua posição. E para o "Happy One" só há espaço para um.

Guardiola chegou a Barcelona com uma ideia.

Quando há jogadores top, há sempre espaço para todos.

Sob essa filosofia não se importou de colocar muitas vezes a Iniesta como extremo. De deslocar Messi para o centro. De enquadrar no mesmo onze a Xavi, Iniesta, Cesc e Messi, mesmo sendo consciente que ficaria pouco espaço para a improvisação. Se tivesse tido Neymar, para abrir o campo, seria outra conversa. Essa ideia é antiga. Até aos anos 70 o jogador prevalecia sobre o esquema. Ao técnico competia-lhe encontrar espaço para por os melhores em campo. Depois apareceu Herrera, apareceu Rocco, apareceu Michels e o modelo de jogo passou a ser a prioridade. Ou o jogador se adaptava ou, por muito bom que fosse, estava destinado ao banco. A Itália do Mundial de 70 foi alternando Rivera e Mazzolla porque ninguém pensava que dois génios como esses pudessem jogar juntos sem comprometer a equipa. O Ajax de Michels e Kovacs, repleto de grandes jogadores, funcionava porque todos eles se manejavam bem em distintas posições. Quando saíram do clube foram incapazes - até Cruyff - de reproduzir o mesmo nível de jogo noutras paragens. E quando chegou a década de oitenta o sistema tinha prevalecido. O Brasil de 82 foi um reflexo de uma era perdida, o AC Milan de Sacchi colocou cada um no seu sitio e a goleada dos homens de Capello a um Barcelona de Cruyff que procurou vencer um duelo equilibrado através das estrelas em campo selou o destino de quem acreditava no valor do jogador.

Portugal, em 2000, e a Espanha, em 2008, começaram a mudar a filosofia. Guardiola exprimiu-a ao máximo. De repente os génios individuais voltaram a ser valorizados mesmo que isso significasse problemas. Compaginar a Rooney e van Persie na mesma equipa funciona ou cria mais problemas do que soluções? Podem Ozil, Isco, Bale e Ronaldo jogar juntos? Ancelotti pensava que não e facilitou a saída do alemão. E em Munique, apesar da fama que precede Guardiola, há quem não entenda o seu esquema onde Lahm é médio para que os bons joguem todos à sua frente sem conceder um lugar a um jogador que paute o ritmo e o equilíbrio. Em Londres, onde Mourinho tem tido problemas para impôr a sua ideia de jogo (que ninguém ainda entendeu muito bem qual é) o Chelsea vive um desses dilemas: modelo vs jogadores.

 

Hazard, De Bruyne, Mata e Oscar.

São quatro dos melhores do Mundo. Jovens, ambiciosos, talentosos, jogadores capazes de marcar a diferença. Apesar de algumas diferenças pontuais, não são futebolistas distintos. Uns mais velozes que outros, uns mais cerebrais que outros, mas todos eles com o mesmo principio de jogo na cabeça: o jogo associativo.

Para muitos treinadores, ter tanto talento é uma benção. Para alguém como Mourinho, um problema. O técnico português, desde os dias do FC Porto, sempre fez prevalecer o seu sistema aos jogadores. Nas Antas relegou várias vezes o talentoso Alenitchev para o banco porque já contava com Deco no relvado e preferia a consistência defensiva de Tiago/Pedro Mendes ou a abertura de banda que lhe podia dar Capucho (primeiro) e César Peixoto (antes da lesão) depois. Quando chegou Carlos Alberto, e a sua imprevisibilidade, para substituir o trabalhador Derlei, ficou claro que havia num onze uma função para cada jogador e nada mais. O padrão repetiu-se em Londres (entre Robben e Joe Cole) e em Madrid (em Milão faltavam-lhe opções de talento, salvo Sneijder) com Ozil tantas vezes relegado para o banco em jogos importantes. Para ele, jogadores que se decalcam, devem competir entre si por um dos lugares livres no seu esquema, nunca o contrário. Sendo que o belga Hazard é para Mourinho a sua clara coqueluche (com toda a razão do Mundo) e que De Bruyne se revelou uma surpresa (para os mais desatentos), basta olhar para o passado do português para entender que o MVP da temporada passada, Mata, e o talentoso Oscar - que cresceu muito no último ano e meio - teriam de disputar um lugar.

Mourinho gosta de jogadores possantes (de aí a presença de Schurlle), de jogadores rápidos (a primeira razão da contratação de Etoo) e que desequilibrem com o seu talento natural para a finta (de Carlos Alberto a Willian, passando por Robben e Di Maria vai um largo historial). Do que menos gosta são de jogadores que pautam o ritmo do jogo e muitas vezes impedem que se ponha em prática a sua habitual verticalidade e velocidade. Mata é um jogador de pausa, de procurar espaços, de toques decisivos. Óscar também, com a diferença que o faz mais em grandes planícies do que, propriamente, em apertados vales. Mata move-se melhor perto da área, lendo o jogo. Óscar é um jogador (agora), mais rápido e físico, capaz de vir desde o meio-campo para o ataque em condução ou abrindo linhas de passe com lançamentos em profundidade. O brasileiro é um jogador que se enquadra perfeita no ideário de Mourinho. Mata, talvez melhor individualmente, não o é.

Poderia ter-se desprendido do espanhol no mercado mas a opção de reforçar algum rival (seja na Premier, seja na Champions) com um jogador que ele sabe ser de alto nível não lhe agradava. E Mata ficou. Mas terá muitos problemas para ter minutos. Como Torres, que parece incapaz de conseguir repetir a mesma consistência da sua etapa no Liverpool, é uma vitima de uma ideia de jogo que se enquadra pouco com o espírito espanhol. Obi Mikel, Ramires, o eterno Lampard, o esforçado Óscar, o abnegado Schurlle e o esforço físico de Etoo são mais adequados à "Biblia" do português. Para Hazard e, eventualmente, De Bruyne e Willian, sobra o pouco espaço deixado ao talento genuíno e à improvisação, sempre comprometidos ao esforço colectivo. Apesar de ter prometido uma filosofia de estância larga, Mourinho continua a pensar no curto-prazo.

 

Tele Santana não teria problemas em montar um quadrado entre os futebolistas mais talentosos para mandá-los ao campo a jogar. O seu esquema criou escola, na imaginação dos adeptos, mas não tanto nos relvados. Mourinho sempre foi um técnico com fama de resultadista, uma expressão perigosa num meio onde vencer é tudo. O seu problema não está tanto na busca do resultado mas sim no caminho único para o obter. Com o passar dos anos o português foi abdicando de princípios fundamentais nos primeiros anos por abordagens cada vez mais simplistas e herméticas. Quando o guião não funciona, os problemas são evidentes. O Chelsea com a bola é uma equipa que não sabe o que fazer porque o treinador não quer que a tenham muito tempo. Sem ela sofre porque a maioria dos seus jogadores sente-se mais cómoda com ela. Sem um killer de área, como foi Drogba, e sem um Lampard dez anos mais novo, a equipa londrina sofre porque o seu técnico quer repetir uma fórmula impossível. Continuam a ser uma potência do futebol europeu (com essa equipa, é inevitável) mas deixam mais sombras do que luzes neste arranque de uma nova era que pode ser mais curta do que muitos imaginavam à partida...



Miguel Lourenço Pereira às 11:40 | link do post | comentar

Quinta-feira, 05.09.13

"Não se pode ganhar nada com os miudos". O escocês Alan Hansen, estrela do Liverpool, foi o autor da polémica frase no arranque da temporada 1994. Não tinha razão. Nesse ano o campeão inglês apresentava uma média de idades surpreendentemente baixa. Criou-se um novo paradigma. Mas nesta equação o protagonista era Ferguson, não Arsene Wenger. Ao francês criou-se o mito de ser um treinador especializado em vencer com jogadores jovens e promissores mas o seu sucesso nasceu com base em futebolistas no pico da sua forma. Mezut Ozil cumpre a sua velha máxima à perfeição.

 

Quando chegou ao Arsenal, Wenger vinha com o rótulo de ser um treinador capaz de sacar o melhor de jogadores desconhecidos. Independentemente da idade. Em Highbury provou-o. Prolongou em meia década as quase acabadas carreiras da sua linha defensiva (Bould, Keown, Adams, Seaman) e aproveitou os últimos sopros de magia de Ian Wright e Ray Parlour para conseguir a dobradinha em 1998. Sobretudo, contou com Dennis Bergkamp no pico da sua carreira. O holandês tinha-se apresentado ao mundo uma década antes, como um jovem adolescente em quem Johan Cruyff confiava poder utilizar para render o pletórico Marco van Basten. Depois de triunfar no Ajax e de uma passagem complicada pelo Inter dos holandeses (com Jonk e Winter, sucedendo ao trio alemão Mathaus, Bremeh e Klinsmann), o jogador apaixonado pelo Tottenham Hotspurs (graças à qualidade ofensiva da geração de Ardilles e Hoddle) aterrou no campo dos gunners para mudar a história do clube.

Tinha 26 anos. Demorou duas temporadas a adaptar-se e a partir de aí transformou-se no farol ofensivo do melhor futebol praticado nas ilhas. Quando Wenger remodelou a sua equipa, apostando de novo por jogadores na casa dos 23-25 anos quase desconhecidos do grande público (Petit, Viera, Pires, Ljunberg, Edu, Wiltord e o "recuperado" Henry) o seu papel de lider espiritual foi fundamental para recuperar o título e lançar a base dos Invencibles de 2004. Essa equipa era uma soma de grandes individualidades, já consagradas, com muitos anos como gunners nas pernas. Não uma equipa de jovens promessas, como ficou associada a imagem a Wenger, talvez por ter lançado Anelka (logo vendido), recuperado um jovem Henry do exílio em Turim e depois ter apostado em Reyes, Fabregas, Walcott e Nasri, mais por necessidade do que outra coisa. Bergkamp foi sempre o seu olho direito em campo, cumprindo um papel fundamental. Por ele passava todo o jogo do Arsenal. Pautava os ritmos, desbloqueava os jogos mais complicados e dava esse perfume de classe que consumou a transformação moral do clube do "boring, boring" ao "champagne Arsenal". Desde o seu adeus o clube nunca mais voltou a ter um futebolista desse perfil. Até agora.

 

Ozil pode não ser, à partida, o jogador que mais necessitava o Arsenal. Mas é fundamental para o estado emocional em que vive o clube!

Giroud não tem concorrência para a posição de avançado e a defesa continua a ter demasiados buracos por preencher. No caso do avançado, o francês foi batido pela esperteza de Mourinho que simulou deixar Demba Ba fazer a curta viagem pelo Tamisa de Stamford Bridge a Ashburton Grove para cancelar o negócio no último segundo. Na defesa, Wenger já demonstrou confiar no recuperado Mertesacker ao lado de Koscielny, para o bom e para o mau. E com Viviano na baliza a fazer concorrência directa ao intermitente Sczesny, o alsaciano parece estar satisfeito. No meio-campo havia jogadores de qualidade disponíveis. Mas nenhum fora-de-serie. E Ozil é, sobretudo, um jogador estelar.

O seu preço - 50 milhões de euros, a mais cara transferência de sempre do clube, segunda maior da Premier - está de acordo com o seu talento. Actualmente, no futebol mundial, não há um jogador do seu perfil. Os seus dados estatisticos em três anos de liga espanhola não têm igual. Supera em golos e assistência a Iniesta e juntando Xavi a essa equação a diferença é mínima. Com Cristiano Ronaldo assinou a mais letal parceria da história do futebol espanhol das últimas duas décadas, forjando entre ambos 33 golos. A chegada de Modric e Isco foram reduzindo a margem de erro a um jogador que, como Bergkamp, tem tanto de genial como de irregular. Ozil pode realizar exibições para o "hall of fame" durante semanas e depois desaparecer durante um mês. Mas nos clubes top, onde há habitualmente soluções para tudo, essa realidade não é um problema sério. Em Londres será diferente. Ozil será a única estrela da companhia.

Ao seu lado Wenger poderá montar finalmente um esquema similar ao que utilizou com os Invencibles e que tem sido forçado a abandonar com o passar dos anos. Naquela que foi talvez a mais brilhante equipa da história do futebol inglês, o francês alinhava dois médios-centro (Vieira e Edu/Gilberto) no apoio a um trio de criativos que podiam ser Bergkamp, Pires, Ljunberg, Reyes e o próprio Henry, quando Wiltord jogava na frente de ataque. Mobilidade total, imprevisibilidade e um ritmo de jogo alto suportado por uma coesão defensiva notável.

Olhando para o plantel actual é fácil perceber que Cazorla, que nunca foi um médio centro, poderá sentir-se cómodo de novo na ala esquerda, com as suas diagonais, e Oxlade-Chamberlain e Walcott abrirão o campo no lado direito permitindo a Ozil bascular livremente à frente de Whilshire, Ramsey ou Arteta, no apoio directo a Giroud. Ozil terá espaço, terá colegas com quem associar-se que entendem o futebol da mesma forma que ele. E, desde o banco, Wenger encontrará o seu alter-ego no relvado.

 

Acusado de não saber gastar dinheiro no mercado, Wenger conseguiu o brinde do ano. Vender Ozil, seja porque motivo for, é mais um dos muitos erros de gestão de um clube como o Real Madrid que pensa primeiro no mercado e só depois no futebol. 50 milhões por Ozil, como poderiam ser por Iniesta, é um investimento destinado ao sucesso. Com um golpe de asa, o Arsenal demonstrou que está preparado para voltar à filosofia original de Wenger. A mesma que transformou para sempre a história do clube!



Miguel Lourenço Pereira às 12:43 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 05.08.13

O Special One transforma-se em Happy One. Mourinho está contente para regressar a um clube que lhe deve muito. O sadino é consciente de que a base do sucesso recente é sua. Que os rostos com que se vai cruzar o conhecem bem. O seu carácter, o seu nível de exigência, a sua filosofia de conflito mas também a sua justiça como profissional. O balneário que encontra é radicalmente diferente daquele de 2004. O investimento realizado também. Mourinho trabalhará com o que há, essencialmente, porque se sente capaz de iniciar uma dinastia no tempo e na memória.

 

Em 2004, minutos antes ou depois da célebre tirado do Special One, Mourinho escreveria num papel os jogadores à sua disposição.

Havia os primeiros resquícios dos investimentos de Abramovich, os jovens que vinham do West Ham United (mas que para muitos parecem "canteranos) e todos os nomes que ele tinha pedido. Os Drogba, Robben, Cech, Tiago, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e companhia. Durante os quatro anos seguintes, Mourinho moldou o presente e o futuro dos Blues.

Fê-lo buscando sempre resultados imediatos. Jogadores preparados para responder logo às suas exigências físicas, tácticas e de atitude. Guerreiros para o seu exército, homens para a refrega contra o Arsenal de Wenger, o Liverpool de Benitez e o United de Ferguson. Foi essa a filosofia que pautou a sua passagem pelo clube e que perpetuou em Milão, onde não teve problemas em entregar-se corpo e alma a uma guarda pretoriana envelhecida mas à procura de um último suspiro de glória. Ironicamente, ao mesmo tempo, os seus homens de confiança no Chelsea seguiam o mesmo caminho, com outros nomes no banco, mas mantendo essa filosofia do choque, do confronto e da batalha. Assim chegaram à final de Moscovo, meses depois da destituição do português. E assim conquistaram o ansiado troféu (para Roman, para Mourinho, para eles), na final contra o Bayern Munchen. Naquela noite encerrou-se um ciclo.

Não necessariamente da presença dos jogadores no plantel. Uns saíram outros ficaram, mas o grau de exigência baixava. Afinal, não havia nada por conquistar. Não havia nada mais porque lutar quando todo o esforço de oito anos tinha sido focalizado no santo Graal, que descansava, são e salvo, em Stamford Bridge. Inevitavelmente, como sucedeu com Villas-Boas, o seu sucessor, Di Matteo, não encontrou forma de motivar os veteranos nem teve poder para os colocar de lado. E Benitez, o homem a prazo, limitou-se a cumprir os serviços mínimos exigidos. Cabia ao seu sucessor dar inicio a uma nova era. Abramovich quis sempre que esse homem fosse Guardiola mas o catalão dá mais importância à história e à estrutura que ao dinheiro. Para isso está Mourinho, um treinador que se move sempre em terrenos onde não se sente atado na carteira e preso a uma história. Em Madrid sentiu-o bem na pele.

 

Mourinho chega assim a Londres com uma equipa brutalmente rejuvenescida.

No entanto, já o era o seu Real Madrid, o seu primeiro Chelsea e o seu FC Porto. A etapa final com os londrinos e em Milão vendeu a história de que o treinador português só gosta de trabalhar com veteranos, mas não é verdade. Gosta de trabalhar com jogadores feitos, táctica e mentalmente, o que é diferente. No plantel actual dos Blues, tem jovens mas que já contam com mil e uma batalhas nos pés. E apesar de contar com um plantel com evidentes desequilíbrios - e é estranho que as incursões no mercado, até ao momento, tenham sido pontuais - Mourinho sabe que há jogadores suficientes para colocar em prática a sua filosofia de jogo.

Numa liga carente de lideres emocionais, o regresso de Mourinho é um bálsamo. Em Manchester a pressão vai estar toda do lado de David Moyes e Manuel Pellegrini. Nomes novos que sucedem a idolos históricos e recentes e a quem os adeptos vão perdoar muito pouco. Wenger é eterno, ou isso parece, mas a sua fórmula está esgotada e salvo uma mudança radical de política, o Arsenal continuará a ser uma equipa limitada na sua ambição. Quanto a Tottenham, Liverpool e Everton, não há nomes, nem no banco nem em campo, nem dinheiro nas contas, para fazer sombra à elite. Só um descalabro desportivo podia permitir uma mudança consciente no circulo de poder.

O técnico português recebe assim um Chelsea nos mesmos moldes que a sua primeira participação. Um título nacional que escapa há quatro anos, mas um plantel de qualidade, um estatuto consolidado e dinheiro para gastar. As vitórias europeias recentes dão-lhe seguramente um descanso nesse capítulo e permitem-lhe comprar tempo para focar-se em recuperar a hegemonia interna que manteve entre 2004 e 2006.

Para essa batalha estão nomes antigos convocados. Cech será titular e Terry, Cole e Lampard também. São homens de confiança, que terão muitos minutos nas pernas e presença assegurada nos dias decisivos. Também estará o tipico modelo de jogador que o técnico tanto aprecia, o futebolista combativo e guerreiro. Os Ivanovic, Cahill, Obi Mikel, Essien, Ramires e Moses, serão parte coral da sua filosofia. O talento está entregue ao quarteto de luxo forjado entre a magia de Hazard, a classe de Óscar, o génio de Mata e a velocidade de De Bruyne. A estes há que juntar mais um legionário, o alemão Andrea Schurlle, e a eterna incógnita do ataque, entre Torres e Lukaku, dois jogadores cujo perfil dista bastante do que quer Mourinho. Sem Cavani, sem Lewandowski e sem Rooney, o português terá de procurar um jogador à altura da sua ideia no mercado para dar a estocada final no seu projecto. É a grande incógnita do seu novo Chelsea.

Haverá seguramente minutos para os mais jovens (o promissor Chabolah, mais do que qualquer outro), uma constante rotação de jogadores e um esqueleto fixo à volta do eixo Terry-Ivanovic-Lampard-Oscar-Hazard. Eles são o reeditar do Terry-Carvalho-Lampard-Robben-Drogba da primeira, e mais espectacular, versão do Chelsea de Mou. A partir de aí, e com as alternativas que já existem e as que se podem materializar, que Mourinho pode presumir de dispor de um plantel capaz de recuperar o trono do futebol inglês face a um United e um City em curva descendente na sua relevância de mercado e um Arsenal e Tottenham que não terminam de dar o salto. Todos os elementos estão conjugados para o regresso de Mourinho à elite britânica!



Miguel Lourenço Pereira às 13:55 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sexta-feira, 05.07.13

Não há Ferguson. Há Mourinho. Não há Mancini, há Pellegrini. Wenger sonha com gastar mais num Verão do que nos últimos anos em que sobreviveu ao assalto ao top 4 como um herói. Villas-Boas e Rodgers jogam mais do que o prestígio. Um leque de nomes próprios atrás dos bancos que abrem as portas para a mais interessante e enigmática edição da Premier League da última década.

 

É possível imaginar um jogo da Premier League sem o célebre "Fergie Time"? Sem aquele chiclet mascado vezes sem conta?

Será dificil, mas a realidade do futebol inglês é essa. Acabou a era Ferguson. O mais exitoso treinador da história do futebol britânico não estará em 2013/14 para assombrar os seus rivais. Saiu com mais um título e com o seu Manchester United preparado para liderar um novo assalto ao título. Mas a sua partida deixou um vazio emocional na competição e que pode prejudicar os próprios Red Devils. Os rivais do campeão sabem que essa aura mítica de Old Trafford será eterna mas menos intensa com David Moyes no banco.

Depois de um notável trabalho em Goodison Park, a Moyes espera-lhe um desafio imenso. Não se trata só de ganhar. Nem sequer de jogar bem. Sobreviver a um mito vivo como Ferguson é algo mais profundo do que isso. Só Bob Paisley conseguiu sobreviver num clube à sombra do seu treinador mais simbólico e fê-lo, entre outras coisas, porque Bill Shankly retirou-se voluntariamente cedo demais. Quando morreu, vitima de um ataque cardíaco, o seu Liverpool tinha ganho mais do dobro do que conquistara com ele mas ninguém duvida que com o Napoleão de Anfield no banco, o sucesso teria sido o mesmo ou talvez ainda maior. Moyes sucede a um Ferguson que venceu tudo o que havia para ganhar, mais do que uma vez, e com um método único.

Terá de se afirmar pela diferença mas o tempo corre contra ele. Particularmente porque José Mourinho, o único treinador que venceu mais duelos a Ferguson do que aqueles que perdeu. Na sua primeira etapa com o Chelsea, três anos, Mourinho venceu duas ligas e perdeu uma. Nos duelos directos, em toda a sua carreira, venceu bastante mais vezes do que aquelas que perdeu. E agora de novo em Stanford Bridge, a visita a Old Trafford será mais interessante do que nunca para os Blues. Com um plantel com um potencial imenso, um treinador mitico que conhece os cantos à casa e um Abramovich decidido a criar uma dinastia de sucesso com o regresso do "Happy One", ninguém duvida que a corrida pelo título será coisa de três, independentemente do sofrimento pelo que o clube londrino passou no último ano.

O terceiro em discórdia, o Manchester City, tem os jogadores e o dinheiro necessário para sonhar em recuperar o título que venceu em 2012. Mas o enigma à volta de Pellegrini joga contra os Citizens. Treinador de sucesso em clubes de perfil baixo mas com projectos fascinantes (Villareal, Málaga) a sua etapa em Madrid não foi bem sucedida. O clube azul de Manchester está decidido a emular o modelo de jogo de sucesso da escola espanhola. Conta com muitos homens fortes do Barça na direcção desportiva, um treinador com um gosto pelo jogo de posse e toque curto e um plantel capacitado para sonhar alto. Mas dois anos de falhanços europeus e uma prestação altamente irregular em 2013 permite levantar muitas dúvidas sobre o seu potencial real.

 

2013/14 será uma temporada repleta de momentos memoráveis e surpresas várias.

Um ano de comentário de futebol ao vivo, semana atrás semana, sempre à espera do evento inesperado seguinte.

Pode o Tottenham finalmente fazer valer em campo o que há anos vem anunciando? Será capaz o Liverpool de sentir-se, de novo, um grande no activo? É Roberto Martinez o homem certo para capitalizar a herança de Moyes em Goodison Park? São perguntas que a maioria dos adeptos, concentrado na luta pelo título, não se faz mas que serão parte do atractivo que tem esta edição da Premier League. Questões suficientemente interessantes para apostar online e deixar-se convencer pela imprevisibilidade que será a nota dominante de um torneio sem o fantasma eterno de Alex Ferguson como senhor eterno dos destinos do futebol inglês. Mourinho não é o mesmo treinador (e Abramovich o mesmo presidente). Wenger terá a sua derradeira oportunidade de acabar a carreira em grande e a Pellegrini ninguém dará uma segunda chance depois de ter falhado na sua etapa no Santiago Bernabeu.

Wenger terá neste ano um dos momentos mais importantes da sua carreira. Depois de quase uma década de contenção nos gastos, o Arsenal parece estar desejoso de reforçar o plantel com jogadores importantes, maduros e tacticamente preparados para a exigência do francês. Com poucos tostões, face aos rivais, os Gunners conseguiram o milagre de qualificar-se nos últimos cinco anos de forma consecutiva para a fase de grupos da Champions League. Agora o ataque o título tem de voltar a ser uma realidade. Para o Tottenham de Villas-Boas a Champions é a prioridade mas há dinheiro e jogadores suficientes para acreditar numa gesta histórica. Tudo dependerá de onde acaba Gareth Bale em Agosto.

Ele foi a alma dos Spurs na última época. O seu talento individual solucionou os problemas de jogo do português que necessita de um avançado de topo e um médio como pode ser Paulinho para o seu projecto como de pão para a boca. Sem eles o seu projecto está em risco.

Brendan Rogers e Roberto Martinez têm outros desafios. O primeiro tem de, finalmente, demonstrar que está capacitado para devolver os Reds ao seu lugar histórico, a luta pelos primeiros lugares. O plantel continua com problemas, o dinheiro não aparece por parte dos investidores norte-americanos mas Anfield Road está cansada de ver-se em Maio perdida no meio da tabela. Poucos metros ao lado, o Everton procurará sobreviver à saída do homem que manteve o clube numa linha estável na última década. Para o seu lugar o treinador que venceu a FA Cup com uma equipa que acabou por descer de divisão (mas cujo o milagre foi não ter descido antes) e com uma ideia de futebol que se enquadra na herança de Moyes e no espírito de técnicos que começam a singrar na Premier League como Michael Laudrup e o seu promissor Spanish Swansea.

 

Se a liga espanhola concentra mais estrelas internacionais por metro quadrado e a alemã é, não só a melhor organizada e mais recomendável das ligas (como também a que tem Guardiola e Klopp, o duelo de treinadores mais interessante do ano), a tradição do futebol inglês faz com que esse gigante negócio internacional que é a Premier League nunca perca o seu atractivo. Será um ano histórico, um ano forçosamente de transição e que pode tanto acabar tal como esta época como de uma forma absolutamente inesperada. Imaginam-se a um Manchester United fora da Champions League? A um Arsenal campeão, dez anos depois? Ao Liverpool de volta às noites de Champions? Nunca tantas perguntas fizeram tanto sentido. Falta menos para a bola começar a rolar nos tapetes verdes da memória inglesa.


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Miguel Lourenço Pereira às 11:02 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 26.02.13

Gareth Bale é o melhor jogador que actua fora do circuito de grandes (ou milionárias) equipas. Sê-lo-á, seguramente, por pouco mais do que cinco meses. O seu talento e a forma como se transformou num todo-terreno dos relvados ajuda também a explicar a excelente temporada realizada pelo Tottenham. Em White Hart Lane André Villas-Boas começou a deixar o seu selo mas é habitualmente o génio individual do galês quem resolve os problemas do sistema do técnico portuense.

Caminham no terceiro lugar da Premier League (o último que garante acesso directo à Champions League) e vão agora disputar com o Inter de Milão um lugar nos Quartos de Final da Europe League.

Para um clube que, na elite milionária do futebol britânico é gerido com cabeça e sem cometer loucuras, é sem dúvida um feito. Não é uma novidade, Harry Redknapp já o tinha logrado há três temporadas, exibindo um futebol agressivo, vertical e extremamente ofensivo, onde havia pouco espaço para a pausa. Villas-Boas procura exactamente o oposto, reduzir as velocidades do jogo dos ingleses, transformá-los numa equipa mais continental, capaz de dominar o campo, manter a bola e ser eficazes na área contrária. Não tem sido um processo fácil. Para um treinador a quem o talento criativo é tão importante como contar com jogadores capazes de decifrar os espaços, arrancar a temporada e perder Rafael van der Vaart e Luca Modric é um problema. Especialmente se os seus substitutos, Dembelé e Dempsey, são jogadores de um perfil muito diferente. O antigo jogador do Fulham aporta à equipa londrina o que Villas-Boas exigia a Moutinho na sua etapa no Porto. Contenção, trabalho táctico e precisão na distribuição. No último terço do campo, a eficácia de Dembelé é notável, mais de 90% de acerto nos passes realizados na Premier. Mas é um jogador de trabalho sobretudo, não de criação, de explosão no momento ideal. Dempsey também é um atleta trabalhador mas nem tem o espírito de sacrifício de Dembelé nem a capacidade de marcar diferenças em espaços curtos e acaba por perder-se demasiado no modelo aplicado por Villas-Boas. O 4-3-3 que o técnico defendeu no Porto transformou-se num 4-2-3-1 e apesar da linha defensiva estar começar cada vez mais a assimilar a sua mensagem de linha alta, pressão constante e apoio ao meio-campo, é no ataque que o Tottenham se torna numa equipa diferente.

 

Villas-Boas arrancou o ano com jogadores desequilibrantes nas alas.

Kyle Walker é um lateral veloz, protótipo do defesa que encanta o futebol inglês, mas com um deficiente posicionamento defensivo. Foi responsável de vários golos sofridos pelos Spurs e cada vez que sobe para dobrar o extremo direito, obrigado o meio campo a tapar o seu espaço. Quando Walker não recua, ou o faz lentamente, provoca os desequilíbrios no miolo que tanto desesperam ao português. Do lado esquerdo Assante-Ekkoto e Kyle Naughton seriam o espelho do lateral direito mas com a dupla Dawson-Gallas a encontrar-se com a concorrência de Caulker, muitas vezes é o belga Verthongen quem parte do lado esquerdo, garante uma maior fiabilidade defensiva, reforçada pela incorporação definitiva de Hugo Lloris ao onze. No ataque, Lennon tem confirmado ser um extremo hábil e veloz mas tacticamente pouco consciente do seu papel, sobretudo com as subidas pelo seu corredor de Walker. Permite aos Spurs abrir o campo pela direita mas é pouco incisivo nas diagonais, ao contrário do que Villas-Boas conseguiu com Varela e James Rodriguez, na sua etapa no Dragão. É no lado oposto que está a chave do sucesso do clube: Gareth Bale.

Bale começou com extremo no Southampton e foi progressivamente readaptado a lateral por Redknapp. Foi a partir de trás que destroçou o campeão europeu, Inter, em dois jogos históricos da fase de grupos da Champions League em 2010 e tornou-se num símbolo da nova geração do futebol britânico, com apenas 20 anos. A pouco e pouco foi regressando à sua posição original, mas a sua (omni)presença é cada vez mais evidente. Está em todo o lado. Pela direita, usando do seu pé esquerdo para ganhar espaço na diagonal. Na esquerda, abrindo o campo e arrastando a marcação, cada vez mais implacável, deixando espaços para o meio-campo ocupar. Mas sobretudo pelo centro. Bale reconverteu-se na ponta-de-lança do modelo de Villas-Boas. O técnico português, que não encontra nem em Defoe (actualmente lesionado), nem em Adebayor (recém-chegado da CAN) um avançado matador, colocou Bale virado para a baliza, forçando o islandês Sigurdson a actuar do lado esquerdo. No meio Bale controla o jogo, abre os espaços, remate quando pode e atrai a marcação para si, soltando os seus colegas de ataque. A chegada de Holtby, o genial médio alemão - mais um produto da formação germânica da última década - para render Dempsey e as entradas pontuais no onze de Sandro, Huddlestone e do lesionado Parker, garantem ao meio-campo pulmão para segurar as linhas da equipa e dão a Bale a liberdade com a qual se sente tão cómodo. Dizer hoje em dia que o galês é um extremo é faltar à verdade, Bale, como Messi e Ronaldo, transformou-se num jogador total e é a chave do esquema de sucesso do Tottenham.

 

Villas-Boas seguramente pensava em aplicar o seu 4-3-3 com o galês emulando a Hulk, Lennon no papel de Varela e Defoe como avançado centro, mas as lesões, suspensões e circunstâncias múltiplas, obrigaram-no a reconsiderar. Foi dando esse passo atrás que o portuense ganhou uma equipa, coesa, sem estrelas individuais, mas capaz de entender que o futebol não é só vertigem. Mesmo assim, futebolisticamente, o Tottenham continua muito mais a parecer-se a uma equipa britânica, ao estilo de Redknapp, do que aquilo que Villas-Boas gostaria de implementar, com um jogo mais rendilhado com Holtby, Dembele e Parker no meio e o uso das alas como elemento diferencial. Na ausência de ponta-de-lança, não surpreende ninguém que Bale comece cada vez mais a aparecer aí. Há muito que o fabuloso jovem de 23 ultrapassou os espartilhos tácticos, demonstrando-se sentir-se cómodo em qualquer posição da linha de ataque. É às suas costas que o Tottenham caminha e Villas-Boas, seguramente consciente de que o perderá em Junho, já pensa num novo modelo, mais ao seu gosto, onde Holtby será, seguramente o actor principal.



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

Domingo, 10.02.13

agora a nata da Europa se vai começar a reunir para acertar contas com o calendário continental. Os oitavos de final da Champions League arrancam, e com eles os jogos que os adeptos mais esperam. Porque a competição, a nível interno, em 2012-13 não existiu. Pela primeira vez em muitos anos, as principais ligas europeias têm os seus campeões do curso praticamente definidos. São muitos jogos, muitos meses para cumprir calendário, com margens de erro imensas e uma diferença abismal que permite levantar várias questões sobre a realidade actual do futebol do Velho Continente.

Barcelona, Manchester United, Bayern Munchen e Juventus.

Estamos a meados de Fevereiro e desafio alguém a fazer pública a crença, quase sebastiânica, de que alguma destas equipas não vá ser campeã nacional em Maio. Não é uma previsão muito dificil de fazer. Basta olhar para as tabelas classificativas, ver os calendários de jogos pendentes e fazer contas. As grandes ligas europeias já fecharam as portas e agora, até ao final da época, a atenção será progressivamente desviada pela imprensa para disputas secundárias. Importantes, mas longe do sonho de glamour profundo que é sagrar-se campeão. Uma realidade preocupante e que dista bastante do que vimos no ano passado. Só a finais de Abril o Real Madrid deu o golpe definitivo no seu título, ao vencer o rival directo em Camp Nou. O Manchester City precisou do último segundo da época para ganhar um título que lhe escapava há cinco décadas. Em Itália a Juventus nunca se distanciou tanto como para poder celebrar com mais de uma quinzena de distância do final da temporada e só o Borusia Dortmund encontrou o autoritarismo que encontramos este ano!

Nesta temporada tudo se desenrola em moldes muito diferentes. Há uma autoridade inquestionável nas ligas de topo, onde três dos actuais lideres na época anterior ficaram-se pelo segundo lugar no campeonato. Há, sobretudo, uma qualidade de jogo manifestamente inferior na maioria dos casos de quem lidera e persegue. E, sobretudo, uma dependência excessiva do génio individual para compensar os problemas do colectivo. Se em ligas da segunda divisão europeia, como é o caso da francesa, portuguesa e holandesa, há um esboço de equilíbrio, entre os suspeitos do costume, o que se passa nos gigantes europeus para a luta ter acabado tão cedo?

 

O caso mais flagrante é, sem dúvida, o espanhol.

Não surpreende ninguém que o Barcelona seja o líder. A equipa que era orientada por Pep Guardiola partia como favorita, apesar do título perdido, simplesmente porque é um projecto continuista, moldado em princípios assimilados e com um plantel fabuloso. A derrota contra o Real Madrid no ano anterior interrompeu um ciclo de vitórias mas não a percepção do Barcelona ser uma equipa com mais futuro. O problema está que os blaugrana, agora orientados por Tito Vilanova, semi-ausente durante largas semanas pelo seu problema de saúde, nunca tiveram rival. Nas primeiras oito jornadas do campeonato a vantagem já era de oito pontos e quando os dois candidatos se cruzaram para um jogo memorável, no Camp Nou, o empate apenas deixou claro que o título estava praticamente entregue antes da disputa sequer começar. A isso contribuiu o espirito auto-destrutivo de José Mourinho, os péssimos desempenhos do colectivo, com erros individuais grosseiros, e a seca goleadora de Cristiano Ronaldo durante o Outono. Sob essa realidade, esse hara-kiri, o Barça estabeleceu uma liderança cómoda que só o Atlético de Madrid, um surpreendente e merecido segundo, tentou desafiar, sem sucesso como a vitória clara dos catalães no duelo directo deixou evidente. O Barcelona sabe-se e sente-se campeão nacional e agora pode concentrar esforços em recuperar a Champions League (seria a terceira em cinco anos) e manter no bolso a Copa del Rey, as únicas duas competições que interessam, precisamente, ao seu histórico rival. 

Em Inglaterra o Manchester United lidera com 12 pontos de vantagem sobre o campeão. Está em todas as corridas, entre FA Cup e Champions League, e demonstra uma voracidade goleadora inquestionável. Mas como o Barcelona, a vantagem pontual construiu-se, sobretudo, porque o City se mostrou muito mais irregular do que na época passada. E claro, se os catalães contam com o génio e golos (muitos golos) de Messi para fazer a diferença, em Old Trafford a dupla Wayne Rooney e Robie van Persie (e as aparições decisivas de Javier Hernandez) têm escondido muitos problemas na defesa e no meio-campo, que os duelos europeus colocarão à prova. Os homens de Ferguson só por uma vez perderam um título com uma vantagem pontual desta magnitude, precisamente no ano em que a suspensão de Eric Cantona permitiu ao Blackburn Rovers de Shearer recuperar na tabela e vencer o título confortavelmente. Sem esse fantasma presente, ninguém duvida que os mancunianos farão, outra vez, a festa em Maio.

Celebrações que também já estão a ser preparadas na Baviera. Na expectativa da chegada de Guardiola, o Bayern é cada vez mais campeão. O modelo de Heynckhes, profundamente ofensivo e demolidor, beneficiou da aposta clara do campeão em título, o Dortmund, na edição deste ano da Champions League. O atraso pontual dos homens do Rhur é insalvável (15 pontos) e todos, na Bundesliga, estão conscientes de que a luta muda agora para os palcos europeus onde os dois clubes têm boas perspectivas de se cruzarem mais à frente. Em Itália, são conscientes de que a Europa é um sonho quase utópico num campeonato em reconstrução moral e financeira. A Juventus continua a demonstrar ser o mais aplicado dos alunos, e depois de ter vencido a primeira liga em oito anos à base de uma regularidade espantosa (15 empates em 38 jogos), continua a ser um osso duro de roer. Napoli e Lazio são os surpreendentes perseguidores, com os grandes de Milão de novo em modo autodestrutivo, e ninguém imagina, sobretudo depois das vitórias nos duelos directos entre o líder e perseguidores, que a Vechia Signora vá perder um campeonato com uma vantagem pontual de cinco e onze pontos, respectivamente.

 

Talvez o mais grave, neste cenário, não seja a inevitabilidade de ter os campeões das principais ligas do continente decididos a três meses do final da temporada. O problema é mais profundo. A qualidade de jogo dos quatro, a sua excessiva dependência em génios individuais (salvo no caso do Bayern), e a profunda decadência futebolística dos seus mais directos e habituais perseguidores (Real Madrid, Valencia, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Schalke 04, AC Milan, Inter), deixa claro que apesar de se baterem cada vez mais recordes, a qualidade do futebol europeu dista muito de estar a passar pelos melhores momentos. Urge uma mudança de ciclo, clara e evidente, um novo puzzle de sensações, momentos e protagonistas que volte a devolver à Europa os seus grandes clubes nas suas melhores versões.



Miguel Lourenço Pereira às 16:54 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 28.01.13

O futebol inglês apaixonou-se pelo modelo de eliminatórias desde a sua génese. A concessão ao formato de liga regular foi uma consequência da abordagem económica ao jogo da qual os britânicos foram pioneiros. Mas o espírito da FA Cup tem sido sempre o resguardo moral do futebol na ilha. É nesses duelos, imprevisíveis e abertos, onde as diferenças de orçamento se diluem e a épica ganha forma. É nesses duelos que o futebol encontrava o caminho das suas próprias origens.

Luton, Bradford, Swansea, Milton Keyne Dons, Olham Athletic, Millwall...

Todos os anos os nomes mudam, a essência permanece a mesma. A FA Cup e a Taça da Liga (ou Capital One Cup como o marketing manda), tornaram-se no motivo de alegria de adeptos em todo o mundo. Não só em Inglaterra. Caíram as seus pés equipas de prestigio, equipas de orçamentos infinitamente superiores, equipas de quem se espera que, pelo menos, marquem presença em Wembley uma vez dada dois anos. Chelsea, Aston Villa, Liverpool, Tottenham, falharam este ano. Dos grandes do futebol inglês, só Arsenal, Manchester United. Chelsea e Manchester City podem percorrer o tapete sagrado do futebol insular. E mesmo assim, ainda faltam jogos suficientes para que o milagre da Taça da Liga se volte a repetir. E o Mundo celebrou. Não porque gosta que os clubes grandes percam, que também é algo inato na vida do adepto, mas sobretudo porque adora ver os clubes pequenos forjarem a sua lenda. Mesmo que percam na ronda seguinte, por um dia são as estrelas. Por um dia são os ídolos. A ordem inverte-se, a moral mantém-se intacta.

O poder dos grandes clubes é menor que as tradições nos países onde estas valem algo. Na Península Ibérica está claro que o peso da tradição é facilmente corrompido e por isso em Espanha a Copa del Rey é disputada a duas mãos e as meias-finais da Taça de Portugal seguiram pelo mesmo caminho. Uma garantia de que os gigantes podem tropeçar uma vez, que têm sempre hipóteses de dar a volta. É uma competição imoral, mais desigual que a própria liga regular e que se transforma, curiosamente, num problema para alguns dos clubes pouco interessados em gastar energias a vencer troféus sem prestigio internacional. Salvam épocas de equipas desesperadas mas não curam as almas dos adeptos. Com o mano a mano entre Guardiola e Mourinho, a Copa del Rey ganhou outra dimensão em Espanha, forçando as duas grandes equipas a lutar pela mais mínima medalha, mas os adeptos são conscientes de que é uma realidade passageira. Em Portugal, é-o ainda mais. Desde 2004 que não se disputa uma final entre FC Porto e SL Benfica e mesmo nesse ano, pela presença dos dragões na final da Champions League, já com o título da liga no bolso, a vitória dos encarnados soube a pouco para quem imaginava um duelo de outro nível.

 

Em Inglaterra tudo é distinto, tudo é orientado para a lembrança do passado e o respeito pela memória.

Todas as equipas que hoje são surpresa foram grandes em algum momento da sua história. Muitos dos jornais portugueses, sem a mais mínima cultura futebolística, falam do Leeds United como tomba-gigantes do Tottenham Hotspurs. É curioso, visto que os homens do Yorkshire jogam por um clube com mais troféus conquistados que os londrinos, mas que penam há alguns anos no Championship pela penosa gestão financeira de Peter Risdale, um homem que sonhou em transformar o clube num novo Manchester United e que não olhou a meios para obter um fim que nunca chegou. Esse mesmo Leeds, que já perdeu uma final europeia, é só o exemplo mais claro, mas tanto Oldham, como o Luton, Millwall ou Bradford foram equipas de prestigio da parte alta da tabela classificativa. E claro, o Milton Keyne Dons, não é mais que o velho Wimbledon, transferido para a cidade suburbana criada a norte de Londres em plena expansão imobiliária.

Cada um desses clubes tem uma história, uma série de adeptos fieis e sabem o que é bater-se de igual com os chamados grandes do futebol inglês. Já o fizeram noutras reencarnações. Mas o que as provas a eliminar em Inglaterra lhes permite, é redescobrir esse velho e inesquecível prazer de os vencer diante dos seus, de sentir nos lábios o sabor da vitória. Esse prazer é algo quase exclusivo de uma cultura que persiste nas ilhas britânicas e que nem os milhões que agitam o jogo, como em nenhum outro lugar, são incapazes de corromper.

Se há tomba-gigantes em várias ligas - e França e Alemanha são talvez o mais democrático dos exemplos - em nenhum outro lugar há esta comunhão do passado e do presente, do dinheiro e da ambição, de jogadores que durante a semana limpam as suas próprias chuteiras com estrelas mundiais. É um universo paralelo à asfixia monetária que obriga a Premier League a endividar-se cada vez e os clubes que nela participam a hipotecar o futuro por mais meia dúzia de pontos no final da temporada.

 

Talvez nenhum desses clubes chegue à final da FA Cup, talvez o jogo entre o maravilhoso Swansea, desenhado por um conjunto directivos que teve uma ideia de futebol e não se afastou nem um só milímetro em seis anos, e o Bradford, seja a menos vista da história da Taça da Liga no mercado oriental. Mas são jogos como esse que definem a natureza do futebol britânico e que, através dessa viagem no tempo, nos fazem acreditar que há ainda muito espaço e tempo para o futebol encontrar um meio-termo entre o espírito autodestrutivo dos dias de hoje e o nostálgico passado.



Miguel Lourenço Pereira às 11:56 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sábado, 24.11.12

Era o treinador que ninguém queria e no entanto, aí está ele. Por meio ano ou por uma geração, provavelmente nem Roman Abramovich seria capaz de responder com honestidade. O homem mais perigoso para a carreira de um treinador apostou no mesmo espanhol que há um ano lhe disse que não, suspeitoso do que se vivia no balneário de Stanford Bridge. Rafa Benitez, um dos mais geniais técnicos da década, chega a Londres com a missão de passar para a posteridade. E o peso do cutelo a roçar-lhe a pele do pescoço.

 

Nos fóruns de adeptos a opinião era unânime. Todos, menos Rafa.

Entre alguns dos jogadores e directivos a opinião não variava. O ex-treinador do Liverpool nunca foi uma pessoa querida em Londres. As duas eliminações dos Blues ante os Reds, a luta dialéctica com Mourinho, os comentário de Benitez sobre o novo-riquismo do Chelsea, nada disso ajudou. E que no ano passado, quando Villas-Boas foi despedido sem piedade, o espanhol tenha recusado o convite indicando que gostaria de começar o projecto do zero, num defeso, e não herdar um balneário que cheirava a sangue, também não é propriamente algo que os adeptos e gestores do clube vejam com graça. Mas aí está, oficialmente, Benitez aterrou, finalmente, em Stanford Bridge.

Desde a saída de Mourinho que houve sempre dois nomes que povoaram a cabeça de Abramovich. Um era Guardiola, de quem o russo é um profundo admirador. O outro, Benitez, um espanhol que sabe o que é sofrer na Premier. Nunca venceu uma liga, mas ganhou a Premier que o russo tanto queria no primeiro ano do Special One e levou o Liverpool a outra final, bem como a um segundo lugar em 2008, a melhor classificação do clube desde o último titulo conquistado por Kenny Dalglish.

Benitez é um treinador do futuro. Sempre o foi, desde que treinava as camadas jovens do Real Madrid. 

Em Valencia pegou numa equipa desfigurada pelas duas derrotas consecutivas nas finais europeias de Paris e Milão, e ganhou duas ligas, olhando de tu a Real Madrid e Barcelona. Foi a última vez que uma equipa, fora do duopólio, logrou tal êxito. Pelo caminho ficou uma Taça UEFA, ganha ao Marselha, e um bilhete para a Kop como sucessor do bem amado Houllier. Em Liverpool o seu projecto durou vários anos mas foi de mais a menos. 

A falta de dinheiro do clube, a falta de um plantel com soluções para aguentar o pulso dos milhões do Chelsea, United e City, significaram o principio do fim. Quando abandonou o Liverpool, deixando atrás de si a melhor gestão pós-Boot Room, fê-lo com honestidade e graciosidade. Depois da má experiência com o Inter aprendeu a licção, de mergulhar num balneário minado pelo seu antecessor. E desde então preferiu estar tranquilo, a estudar o jogo, do que aventurar-se no desconhecido. Confessou que só voltaria a trabalhar com um projecto audacioso e à sua altura. Encontrou o desafio certo.

 

O novo Chelsea assenta como uma luva ao espanhol.

Reencontra-se com Torres, o homem que resgatou ao Atlético de Madrid para realizar a sua melhor época doméstica, em 2008, quando El Niño ameaçou o recorde goleador de Cristiano Ronaldo. Tem à sua disposição um leque de jogadores criativos que encaixam perfeitamente na sua filosofia de jogo, a mesma que explora o toque com uma constante pressão alta da linha defensiva e a recuperação rápida para explorar as costas do rival. Mata, Hazard, Oscar, Marin ou Ramires serão os protagonistas desta história como no passado foram Gerrard, Alonso e Mascherano. Talvez seja esse, o posto de numero 5, o médio mais recuado, aquele que sentirá mais falta mas, seguramente, Abramovich já lhe terá prometido uma prenda de reis.

O plantel do Chelsea tem problemas, sobretudo na sua dimensão ofensiva, mas também na outra área.

Benitez conhece bem a Torres mas o avançado espanhol é um jogador diferente daquele que aterrou em Liverpool. Sem alternativas no plantel para a posição de avançado, seguramente que a chegada de Falcao é esperada ansiosamente pelo espanhol mas o mais provável é que até Junho o colombiano fique por Madrid. E Benitez joga contra o relógio. O projecto não é dele mas os resultados têm de ser imediatos.

Como sucedeu em 2010, é-lhe incumbido vencer o Mundial de Clubes. Na altura bateu os congoleses do TP Mazembe. Agora pode conseguir um feito histórico, ser o primeiro treinador a vencer mais vezes o Mundial de Clubes (2) do que Champion Leagues (1). E Abramovich quer mais. Di Matteo começou bem a época e o Chelsea foi líder várias jornadas, mas as recentes derrotas condenaram o clube a um terceiro posto não demasiado distância da cabeça. Benitez parte com um ligeiro atraso mas vencer a Premier é algo com que sonha há oito anos e nunca sentirá que se lhe apresenta uma melhor oportunidade. Terá de ganhar o balneário, onde ainda há fieis ao seu arqui-rival Mourinho (e ele já sabe o que isso é), os adeptos que olham para ele ainda como o homem da desdita e sobretudo os mais cépticos na directiva do clube. Entre os quais está um Abramovich que sabe que esta decisão pode converter-se em temporal, sempre e quando Guardiola se decida em Junho a aceitar o seu cheque em branco. 

 

Contra esta realidade, Rafa Benitez regressa e com ele as lições de um maestro de xadrez que entende o futebol moderno como poucos. Sob o seu leme o Chelsea pode conseguir a frieza e o racionalismo que o condenaram sob a direcção de Di Matteo ao mesmo tempo que explora as potencialidades individuais ofensivas que o plantel lhe deixa ao seu dispor. Benitez era, no mercado actual, o único técnico em que Abramovich sentiu que podia confiar o seu projecto. O Chelsea era, para o espanhol, o único clube capaz de saciar o seu ego. O casamento, ainda que de conveniência, tem tudo para resultar.



Miguel Lourenço Pereira às 11:14 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 22.11.12

Não vai haver City. Outra vez. Não vai haver Chelsea? Seguramente. No meio de tudo isto, uma certeza. O dinheiro é um atalho para o sucesso futebolístico mas nem todos os atalhos terminam bem. A falta de solvência futebolística dos "citizens" e o desnorte de um Chelsea em renovação deixam claro que investir milhões num clube nem sempre é o único caminho para o sucesso.

 

Podem os adeptos do City, com os irmãos Gallager à cabeça, queixar-se de fazer parte, pelo segundo ano consecutivo, do grupo da morte.

É verdade. Mas em ambos os casos, os ingleses chegavam com o maior orçamento, o mais caro plantel e a melhor colectânea de individualidades ofensivas possíveis e imaginárias. E não serviu para nada. A equipa voltou a despedir-se da Champions antes de Janeiro.

Na época passada foi a dupla Bayern Munchen e Napoli que se sentiu e fez sentir superior. O Villareal viveu um annus horribilis - acabou despromovido - e ficou claro que o grupo da morte não o era tanto. Esta época o Ajax medirá o apuramento para a Europe League, pela segunda época consecutiva, com o City. Os ingleses não vencerem nenhum jogo e em casa conseguiram apenas três empates. Nada mais. Muito pouco. Desesperadamente, muito pouco.

A culpa não irá morrer solteira, Mancini é consciente disso mesmo. Nem a vitória na Premier League - a primeira desde 1968 do clube azul de Manchester - será suficiente para aguentar o posto para lá de Junho. Especulam-se em nomes mas vive-se numa certeza. A hora do italiano pode chegar antes, mas nunca passará do defeso. O fracasso europeu a isso condena. Mancini voltou a apostar no seu lado mais conservador. Defesa de cinco, à italiana, com dois laterais que conhecem bem a dinâmica, e confiança num gesto individual capaz de fazer a diferença num leque onde se misturam Dzeko, Aguero, Nasri, Touré e Silva e a que se juntou ainda Tevez. Só Baloteli, incompreensivelmente, continuou de fora.

O sistema foi incapaz de lidar com Di Maria e os centrais e laterais atrapalharam-se no posicionamento na linha defensiva no lance que permitiu a Benzema aparecer, entre Kompany e Maicon, para fazer o golo inaugural do jogo. Ao City valeu-lhe, sobretudo, a incapacidade do clube merengue em fazer sangue com os rivais mais débeis. O 3-5-2 passou a 4-4-2, com Kolarov a subir na ala para encarar-se com Arbeloa, e o tabuleiro reequilibrou-se. Não chegou. O Real Madrid, a quem o empate bastava mas cuja vitória era fundamental se sonhasse com a liderança do grupo da morte, controlou os acontecimentos mas não pode encontrar forma de controlar o árbitro, Rochi, incapaz de ver três faltas consecutivas sobre Cristiano Ronaldo mas hábil o suficiente para encontrar no mergulho de Aguero motivos para um penalty e uma expulsão (já o primeiro cartão de Arbeloa tinha sido um erro, a falta era de Alonso). Com o empate chegou a tensão, o medo aos merengues - Varane e Albiol entraram para os lugares de Benzema e Di Maria - mas o City foi incapaz de transformar a superioridade no terreno em superioridade futebolística. Morreu a ideia, morreu a esperança e um ano mais os milhões investidos pela família do Dubai que revolucionou o clube foram insuficientes para comprar o bilhete mais valioso do ano. 

 

O Chelsea até cumpriu com o sonho do seu dono multimilionário, vencendo a Champions que se lhe tinha escapado tantas vezes.

Mas essa vitória, como ficou claro, pertenceu mais à vontade e garra de uam geração desesperada por justiça poética do que ao trabalho dos dois treinadores que comandaram o clube. Villas-Boas deixou os Blues à borda da eliminação nos oitavos. Di Matteo soube organizar as hostes e dar poder ao balneário para sofrerem o insofrivel no Camp Nou e acabaram por dobrar a vontade dos alemães do Bayern na sua própria casa. Mas a geração de Mourinho sentiu, com esse triunfo, que tinha cumprido a missão. Sem Drogba, com Lampard e Terry como actores cada vez mais secundários, o clube londrino entregou-se à juventude e promessa de Mata, Hazard, Marin, Moses, Sturridge, Oscar e Ramires. 

Uma geração que dará, seguramente, vários títulos aos Blues.

Está composta por alguns dos melhores e futuros melhores do Mundo. Mas é também uma geração sem liderança, sem um ponta-de-lança que trate o golo por tu e sem um médio defensivo que imponha a ordem e o respeito necessário num meio-campo defensivo demasiado débil. Se o grupo do City era o da morte, o do Chelsea não o era menos porque tal como o Dortmund, também o Shaktar Donetsk tem um projecto futebolistico sério e com ambições legitimas a surpreender os mais cépticos. 

Se contra os ucranianos faltou essa acutilância, contra os italianos da Juventus, renascidos para as grandes noites europeias, faltou futebol e liderança. Orfãos de tudo o que fez deles reis da Europa, o Chelsea foi uma sombra do que poderá vir a ser. E Di Matteo, o homem que cumpriu o sonho, não teve direito a reprise. Se os mineiros e os bianconeri pactuarem o previsível empate na última ronda, nem uma goleada histórica poderá salvar os londrinos, culpados dos seus próprios erros. Será a primeira vez que o campeão da Europa cai na fase de grupos, a primeira vez que é eliminado na primeira ronda desde que o Nottingham Forrest bateu, em 1979, o campeão Liverpool. 

 

O Chelsea sabe que tem material para o futuro onde falta apenas uma ideia de futebol e uma coerência na relação entre o campo e o banco. O City vive um problema maior. Um plantel profundamente desequilibrado, uma ausência de futebol colectivo que se vale do oportunismo individual dos seus génios, é um transatlântico governado por um pescador e até a época terminar o navio poderá cruzar-se com algum outro iceberg pelo caminho que deixem o trabalho dos últimos anos pelo chão. No final, Inglaterra, o país que há quatro anos dominava de forma autoritária o futebol europeu, continua em queda livre e só Arsenal e Manchester United parecem seguir em frente. E com uma versão muito menos impressionante em relação ao seu passado recente. Terão de salvar a honra da nação enquanto os seus potentados económicos terão, uma vez mais, de decidir se querem seguir o atalho do dinheiro ou o caminho do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar | ver comentários (8)

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