Quarta-feira, 19.02.14

O futebol não é um mundo estranho. É um espelho. Que nos reflecte a nós, os que dele bebemos com ânsias de emoção a partir de uma existência tranquila. Talvez por isso (também por isso) é impossível ser-se no futebol diferente do que se seria no quotidiano, não preto ou branco mas uma palete de constantes cinzas. Lamentavelmente o poder da opinião pública, a procura constantemente pelo maniqueísmo, levou para os campos os debates ideológicos do bem contra o mal esquecendo-se de que, quando falamos de Humanos, falamos de erros e enganos. Os que o negam rapidamente são apanhados na sua própria rede. São os fariseus do jogo.

Um penalty polémico. Um resultado para alguns, inesperado. Um triunfo por dois golos a zero que deixa praticamente sentenciada uma eliminatória que parecia mais equilibrada à primeira vista. O treinador derrotado, secamente, aproveita a conferência de imprensa para lavar as suas culpas, o seu esquema mais defensivo, especulativo, vitima desse eterno medo ao golo sofrido em casa que vale a dobrar. Culpa o árbitro. Cita teorias da conspiração. Critica a sua nacionalidade, como se houvesse árbitros de primeira e segunda de acordo com a sua competitividade. Talvez até se esqueça que ele próprio vem de um país periférico. Não faz mal. No final do seu discurso repleto de criticas contra a arbitragem diante dos membros da imprensa, provavelmente será punido pela UEFA. Falou demais. Falou sobre aquilo que os códigos de conduta da organização não permitem que se fale. E a história guardará o episódio.

Sem nomes, sem citações concretas de jogos, apenas pela lembrança popular, seria fácil associar o treinador em questão. Há uma corrente de opinião que demoniza os que exprimem a sua opinião sem tentar agradar a todos. Quem está no mundo do futebol quer ganhar. Pode querer algo mais, uma imortalidade que nem sempre a vitória concede, mas o apetite ganhador é o que forja os campeões. Mesmo que morram a tentar cumprir os seus objectivos. Para um treinador, a personagem mais solitária do universo milionário do futebol, as queixas são parte do trabalho. É uma forma de auto-defesa fácil e certeira. Desviar as atenções para fora enquanto se procuram solucionar os problemas dentro. É antiga. Helenio Herrera e Bill Shankly faziam-no nos anos sessenta a nível global, mas desde que o futebol é futebol sempre houve espaço nas crónicas para criticas aos árbitros, aos relvados, ao jogo violento ou ultra-defensivo dos rivais, à falta de atitude, a conspirações. Todos os treinadores passaram por essa porta. Uns mais do que outros. Uns de uma forma mais educada do que outros. Mas há aqueles que o assumem. E os que não. Os primeiros são demonizados, quando dão a cara. Os que utilizam essa ferramenta mais vezes ou de forma mais virulenta, transformam-se no alvo dos puristas, dos românticos (os mesmos, provavelmente, que têm o maravilhoso Red or Dead na sua lista de livros favoritos) que os acusam de sujar a imagem do jogo. Os segundos, alabados pelo seu fair-play, são canonizados no acto. São os que estão acima de qualquer suspeita, os que defendem outro modelo de jogo. Os que se distanciam moralmente dos primeiros para receber o coro de aplausos de quem os eleva às altura. Quando perdem, e todos perdem em algum momento, facilmente se esquecem do seu compromisso ideológico. E são possuídos pelo espírito do mal, o espírito dos demónios das salas de conferência. Esse é o momento em que os eleitos se transformam no que realmente são, fariseus.

 

O primeiro paragrafo do texto podia referir-se a José Mourinho.

Ao seu comportamento pouco edificante no final da meia-final da Champions League, em Abril de 2011, disputada entre o seu Real Madrid e o Barcelona no Santiago Bernabeu. Um jogo equilibrado tacticamente (com um Real Madrid de contenção defensiva frente a um Barça especulativo e paciente) até ao momento em que Pepe é expulso por agredir Dani Alves com uma entrada violenta sobre o joelho. Depois desse momento, com dez (e sem treinador no banco) o Real rendeu-se ao génio de Messi que resolveu o jogo com duas pinceladas de magia. Game over. No final, Mourinho proferiu mais um dos seus célebres discursos citando uma lista de árbitros e as suas "naturais" incompetências e suspeitas. Era uma arma habitual nele nos momentos de fragilidade. Ninguém esperava, sinceramente, outra coisa. Foi genuíno até ao fim. Autodestrutivo, injusto e oportunista (como poderão dizer os adeptos do Manchester United, Deportivo la Coruña ou do próprio Barcelona nas suas duas Champions conquistadas). Mas igual a si mesmo. Mas o mesmo paragrafo também podia referir-se a Manuel Pellegrini. Sim, ao profeta chileno do jogo bonito, dos treinadores silenciosos e pacíficos. Dos homens que nunca se queixam dos senhores do apito. Dos que acreditam que a competição é pura no seu estado natural e que o que se passa no campo deve ficar no campo. Dias antes do jogo contra o Barcelona - aproveitando uma sequência de dois jogos com o Chelsea - Pellegrini conversou amigavelmente com o prestigioso jornalista da Marca, Santiago Segurola. Segurola, amigo pessoal de Valdano, Guardiola, Raúl e Pellegrini, um quarteto nada inocente nisto das ideologias, foi um dos homens responsáveis por queimar a imagem pública de Mourinho desde a sua chegada ao Bernabeu. Estava no seu direito. É um cronista fabuloso e um dos jornalistas que melhor interpreta o futebol. Na sua entrevista, guiada até ao ponto inevitável da comparação estilística e ideológica, Segurola quis traçar a diferença entre Mourinho e Pellegrini nas formas. Conseguiu que este afirmasse, não sem pudor, que tudo aquilo que Mourinho (e os que se comportam como ele) representam o que ele não gosta no futebol. O que seria incapaz de fazer. Os mind games, as queixas arbitrais, as provocações. Tudo isso distrai do que vale a pena. Da "pelota", que nunca se mancha. Soou bem como quase sempre tudo o que Pellegrini diz soa. Mas ontem, no City of Manchester, o chileno transformou-se quando viu uma polémica decisão destroçar o seu próprio plano de contenção defensiva. Frente a um Barcelona que, como em 2011, foi muito superior, o City quis defender primeiro, aguentar depois e procurar levar o jogo para o Camp Nou. O mesmo esquema de Mourinho. No inicio da segunda parte, como em 2011, um erro posicional grave de Demichelis provocou um penalty e uma expulsão que Messi não desaproveitou. Alves marcou perto do fim o 2-0 e fechou praticamente a eliminatória. Como em 2011.

Pellegrini tinha razões para queixar-se. A falta sobre Messi é evidente (e a expulsão também) mas nas camaras percebe-se que é fora da área. Nas camaras. Em campo é impossível apreciar-se qualquer falta e a marcação do penalty tem toda a lógica do mundo. Poderia questionar-se se a jogada era válida, já que a recuperação de bola do Barcelona tinha chegado de uma falta prévia, de Busquets sobre Navas, segundos antes. Mas treinadores como Pellegrini não deviam falar destas coisas. Até que falam. E dizem exactamente o mesmo que os demónios de gabardine. Pep Guardiola, provavelmente o melhor treinador dos últimos vinte anos da história (decididamente o mais apaixonante de seguir) passou pelo mesmo processo de versão imaculada alimentada por uma imprensa sectária até ao momento em que as coisas correram mal. Depois de se ter queixado de um fora-de-jogo (no limite) na final perdida da Copa del Rey de 2011, na temporada seguinte, com o título já perdido, chegaram as suspeitas de que algo não estava bem no mundo arbitral. Como sucede com todos os treinadores - que são humanos, como tu e eu - a derrota traz o nosso lado mais obscuro à superfície. Ninguém está imune.

 

O caso de Pellegrini vs Mourinho tem sido utilizado este ano até à saciedade. Não só porque são os dois grandes rivais pela Premier como também porque o chileno foi despedido do Santiago Bernabeu para ter sido substituído pelo português. Foi para Málaga, um clube que Mourinho disse que nunca treinaria, levantando ondas de polémica sobre os pequenos injustiçados, segundo o próprio chileno. O mesmo que ontem disse que um árbitro sueco não tem validade por não estar habituado à exigência da alta competição. Talvez os argentinos pudessem ter pensado o mesmo de um treinador chileno, há alguns anos atrás. Mourinho já passou por esse caminho. Várias vezes. Consegue ser uma pessoa desprezível em muitos sentidos. A sua agressão a Tito Vilanova não pode ser esquecida. As suas provocações, muitas vezes, roçam o ditatorial. Não é flor que se cheire. Mas é sempre o mesmo. Pertence a esse grande colectivo de treinadores humanos, com falhas e acertos. Pellegrini era, até ontem, o profeta dos surreais, dos homens impolutos que não se deixam tocar mesmo quando lhe apertam o coração. A realidade, na vida como no futebol, é bastante mais complexa. Eriksson nunca se esquecerá de Pellegrini como Frisk se lembrará sempre de Mourinho. E nós, de este lado da vedação, saberemos sempre que nem tudo o que vem na capa dos jornais é certo!



Miguel Lourenço Pereira às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Quarta-feira, 30.10.13

Quem me conhece sabe perfeitamente que não sou um "Ronaldieber", ou lá como se chamam agora os groupies adolescentes. Também não acredito na defesa absoluta de quem quer que seja pela nacionalidade, cor ou credo. Se Blatter tivesse ridicularizado Messi como um "enano hormonado", como lhe chamam por Madrid, teria dito exactamente o mesmo. A FIFA existe apenas e só porque o futebol é um fenómeno global que ultrapassa todo o tipo de fronteiras. É a verdadeira globalização. E deve-o aos seus grandes jogadores por cima de tudo e de todos. E Ronaldo é um desses jogadores e merece o respeito de quem vive, indirectamente, à sua custa!

Hoje cumpre 53 anos Diego Armando Maradona.

El Pibe é provavelmente um dos melhores jogadores de todos os tempos. Vê-lo jogar é o mais próximo que um adepto de futebol pode estar de um orgasmo artístico. Vi Maradona fazer o possível e o impossível milhões de vezes. Desafiava a gravidade, desafiava tudo e desafiava todos. Foi o último grande símbolo do "potrerismo" puro e mágico da escola sul-americana. E foi também um drogado, um putanheiro e um fraudulento fiscal. Começou a consumir cocaína em Barcelona, em Nápoles passou a ser acompanhado por uma corte das mulheres ao serviço dos capos da máfia local e deve, ainda hoje, milhões de euros ao estado italiano. E no entanto, hoje, 30 de Outubro, só nos conseguimos lembrar da "mano" e do "barrillete cósmico". Porque Maradona, o jogador, é muito mais do que Maradona, o homem.

Johan Cruyff cumpriu há dois dias quarenta anos da sua estreia como futebolista do Barcelona.

Foi, talvez, o momento mais marcante da história moderna do futebol europeu. Significou a transição definitiva da escola danubiana do centro da Europa para Barcelona. Está na base do Dream Team e do Pep Team, da cultura de futebol de posse que a muitos nos tem fascinado. Cruyff é, para mim, o melhor jogador europeu de sempre. Se é que algo assim se pode dizer. É também um dos homens mais inteligentes alguma vez associados a este jogo, dentro e fora do campo. No relvado não parava de se mexer, de falar, de dar ordens, de movimentar-se e movimentar os outros. E com um gesto, uma finta de corpo, tal como Diego, desafiava a gravidade e fazia as estrelas sonhar. Cruyff é também um homem obcecado com o dinheiro, um sovina de primeira, um populista capaz de baptizar o filho como Jordi aos seis meses de chegar a Barcelona e, sobretudo, um menino-mimado que abandonou o clube que cuidou da sua família desde que ficou órfão no dia em que os seus colegas não lhe votaram como capitão. Na rua seria conhecido como o mimado dono da bola. No mundo do futebol é um génio superlativo. Para mim, pessoalmente, irrepetível.

 

É muito perigoso julgar os jogadores pelo que são fora do campo.

Best era alcoólico e mulherengo. Cantona agredia pessoas quando insultado e saiu chateado de quase todos os clubes por onde passou. Zidane fervia em pouca água como poucos. Garrincha era a versão brasileira de Best mas com um neurónio menos. Meazza tinha simpatias fascistas. Di Stefano era um autêntico ditador moderno dentro e fora do balneário do Real Madrid. Pelé era um fraudulento oportunista e um demagogo que vive há décadas daquilo que representou. A lista é infindável.

Cristiano Ronaldo - como nenhum dos outros nomes citados - é propriamente um exemplo. Pelo menos para mim.

Mas como jogador é irrelevante o que gaste em cabeleireiros. O que gaste em carros desportivos. Com quem dorme à noite, onde passa as férias, de que cor é o bronzeado, de que tamanho são os brincos que leva e quão ridículos são os gestos que faz nas celebrações (ainda que o "calma, calma" tenha sido genial, confesso). Ronaldo é tudo isso como homem. Não como jogador. Como futebolista é um dos melhores da história, seguramente um dos melhores das últimas décadas. É capaz de coisas abrumadoras que a esmagadora maioria dos jogadores nem sonhando poderia repetir. É um jogador totalmente diferente de Messi ou Ronaldinho, por exemplo, mas isso não invalida que em campo seja imenso, que os seus números possam ser impossíveis de bater num futuro próximo e que quando está em campo o rival tenha de se benzer um par de vezes extra para o travar. Ronaldo é um dos maiores futebolistas do Mundo e a FIFA - a organização que deve velar "for the good of the game" devia ter-lhe o mesmo respeito que tem a qualquer outro. Nem menos, nem mais.

O que Sepp Blatter fez - e atenção, o suíço fez coisas muito mais graves e, lamentavelmente, menos mediáticas - é um insulto ao futebol não a Ronaldo. O mesmo seria válido se tivesse dito que preferia o português a Messi porque este é um fraudulento fiscal, vomita recorrentemente no relvado e fala de uma forma que ninguém entende. Messi é um génio (cada um poderá escolher de quem gosta mais) e como futebolista há poucos tão bons. Um deles é Ronaldo. Blatter como amante do jogo - como eu, como vocês - pode ter o seu favorito. Naturalmente. Como presidente da FIFA não o pode ter, muito menos utilizando elementos externos ao jogo como balança de decisão.

 

Inevitavelmente, esta polémica apenas joga a favor de Cristiano Ronaldo. Conseguiu colher simpatia global, unir muitos portugueses a sua polémica figura (continuo sem entender a obrigatoriedade nacional de estar sempre com alguém que é do mesmo país mas também não entendo o oposto, a critica gratuita e invejosa tão habitual dos países do sul da Europa) e reforçar a ideia de que muitos dos prémios do génio argentino dos anos anteriores possam ter sido condicionados. Pelo menos o critério mudou, isso temos todos claro, caso contrário Wesley Sneijder e Andrés Iniesta (e não Ronaldo) também já teriam vencido o tal Ballon D´Or. O que a FIFA acabou de fazer é um verdadeiro insulto ao jogo e não haverá forma de emendar o erro. Ronaldo deveria - ainda que não o vá fazer - renunciar publicamente aos prémios FIFA dando um sinal de maturidade e despreocupação. O seu ego seguramente que não lhe permitirá. E da próxima vez que alguém se lembrar da dança de Blatter e dos seus comentários, lembrem-lhes que tipo de pessoas eram "El Pibe" ou o grande Johan fora dos relvados. Talvez aí o gel no cabelo e o brinco dourado pareça ainda mais inofensivo do que já é. O futuro, esse, é quem tratará de julgar o verdadeiro papel de Cristiano Ronaldo no constelamento das estrelas do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 12:06 | link do post | comentar | ver comentários (23)

Quinta-feira, 10.10.13

Em semana de jogos internacionais de selecções voltou à baila o velho e caduco (ou assim parecia) debate das nacionalizações. Dois frentes abertos, um em Espanha e outro em Inglaterra, colocaram no ponto de mira a história dos jogadores que optam por jogar por nações distintas daquelas de donde nasceram ou com as quais têm ligações familiar. No século XXI esse debate está totalmente fora de ordem na esmagadora maioria dos desportos mas o mediatismo do futebol garante que qualquer acto natural é visto ainda como uma aberração social.

Diego Costa é brasileiro. Quer jogar por Espanha. Adnan Januzaj é belga. E em Inglaterra querem que se torne parte dos Pross.

São dois casos bem diferentes mas que reabrem um debate antigo. É legitima, moral e ético que um jogador que não seja de um país possa representar a sua selecção nacional?

Ao contrário do que muitos querem fazer crer, nacionalizar jogadores não é uma moda do universo global de hoje.

A Itália de Vittorio Pozzo foi duplamente campeã do Mundo com argentinos e uruguaios no onze. Jogadores que tinham disputado a primeira final do Mundial, em 1930, e que foram transformados em italianos por oportunismo político. Eram os "oriundi". Ao mesmo tempo vários filhos da emigração, muitos dos quais nascidos ainda nos países de origem, começaram a jogar regularmente pelos seus novos países, ainda que levantando alguma polémica com os adeptos, como aconteceu em França com Kopa nos anos cinquenta. Alfredo di Stefano, que raramente esteve nos planos das selecções argentinas, disputou em 1962 o Mundial do Chile com Espanha. Na mesma equipa estava o idolo do eterno rival, Ladislao Kubala, um dos maiores jogadores húngaros da história. Mesmo assim a campanha dos espanhóis não passou à história e quando, dois anos depois, venceram o seu primeiro Europeu, o onze era composto por jogadores exclusivamente nascidos em Espanha. O mesmo não se podia dizer das potências coloniais (Portugal, França) e nem sequer dos ingleses que sempre procuraram assediar os melhores jogadores britânicos, na maior parte das vezes sem sucesso. E quando chegaram os anos oitenta, os brasileiros começaram a tomar parte na diáspora que levou vários dos seus atletas a surgirem como internacionais japoneses, de equipas do Médio Oriente, da América central e até da Europa. Donato com Espanha, Cacau com a Alemanha, Eduardo com a Croácia eram apenas alguns dos exemplos mais mediáticos. A Espanha de 2008, na segunda vez que vencerem o Europeu, arrancava para o ataque sabendo que a cobrir as costas estava o experiente brasileiro Marcos Senna. O êxito de Portugal em 2004 deveu-se, e muito, ao brasileiro Deco. Antes dele tinha havido excepções também no futebol português e depois dele veio Pepe, Liedson, Makukula e todos os filhos da comunidade guineense que fazem parte dos escalões internacionais. Olisadebe, nigeriano, jogou pela Polónia. Argentinos e uruguaios voltaram a actuar pela Itália e a diáspora deixou uma Alemanha com jogadores de ascendência turca, tunisina, polaca e checa e uma França com filhos do Império mas também de emigrantes portugueses, arménios e argelinos. No fundo a velha história de que a selecção nacional é exclusiva dos nativos de cada país há muito tempo que deixou de ser uma realidade.

 

E então, que fazer nestes casos?

Há, como em tudo na vida, uma moralidade no futebol que deveria ser respeitada ainda que não imposta.

O critério base da FIFA parte do principio que um jogador que nunca disputou um jogo oficial com o seu país de origem e vive há cinco anos no país de acolhimento, pode ser internacional por essa nação. Exclui os jogos amigáveis destas contas o que no caso de Diego Costa amplia a discussão. O brasileiro já foi chamado por Scolari e já jogou pelo escrete canarinho. Não renunciou a jogar pelo Brasil. Mas como a selecção está proibida de realizar encontros oficiais até ao Mundial, não há forma de prender oficialmente o jogador. Até Junho de 2014, jogue onde jogue Diego Costa, será sempre de forma temporal porque a Espanha também deixará de ter jogos oficiais a fazer quando se qualifique directamente. O jogador já manifestou vontade em jogar pela selecção espanhola, consciente do seu valor e também da falta de concorrência no ataque da Roja ao contrário do cenário que encontraria num Brasil com Hulk, Neymar, Fred, Leandro Damião, Pato e Jô. A sua escolha parece claramente oportunista (não só por já ter jogado pelo Brasil mas também porque, até há poucas semanas, era fácil encontrar Diego Costa em concentrações oficiais e nas ruas de Madrid com auriculares, indumentária e adereços evocando a bandeira brasileira) e cínica. Mas está no seu legitimo direito.

Já o caso de Adnan Januzaj é distinto.

O belga é filho de uma diáspora tremenda. Nasceu em Bruxelas e aí se criou mas a sua ascendência familiar vem dos Balcãs entre kosovares, albaneses e montenegrinos. Tem ainda uma costela turca na família. Condições suficientes para reclamar jogar com qualquer uma destas selecções. Mas Inglaterra, país onde vive actualmente, também está interessada no seu potencial. O problema é que teria de esperar que se cumprissem cinco anos de vida do jogador no país (acima dos 18 anos) o que alargaria a sua internacionalização até aos 23. Um cenário pouco plausível, deixando evidente que Januzaj provavelmente escolha a Bélgica como o país a representar. O seu caso é distinto ao de Costa. Existem laços familiares com vários países ainda que é difícil entender até que ponto chega a sua identificação. Ozil, por exemplo, manifestou sempre desejo de jogar com a Alemanha, país onde nasceu e cresceu, contra a vontade de uma família exclusivamente turca. Os irmãos Boateng jogam por nações distintas (Alemanha e Gana) porque assim o sentem. Pepe sempre manifestou sentir-se mais português do que brasileiro ao contrário de Deco e Liedson. O avançado do Atlético de Madrid, Diego Costa, é claramente (e sente-se claramente) brasileiro mas entende que o futebol é um negócio e jogar hoje com Espanha quotiza em alta. Ao contrário de Senna (já veterano e sem hipóteses de ser chamado) sabe-se cobiçado por duas potências e pode escolher entre a que quiser. É a versão mais mercantilista das nacionalizações.

 

É difícil definir a lógica por detrás deste processo. Pessoalmente não tenho nada contra que um jogador actue por um país onde não nasceu ou com o qual não tem nenhum laço de sangue sempre e quando sinta esse país como uma segunda pátria. Seja porque cresceu desportivamente aí, porque sente que esse é o país que o valoriza de verdade ou porque futebolisticamente está integrado nessa cultura. Não é preciso fazer provas genéticas e de ADN para entender o compromisso e a entrega que esse jogador terá com a camisola do país que elegeu como seu. Ninguém escolhe onde nasce. É-me mais difícil de aceitar cenários bem diferentes, onde a escolha é arbitrária e oportunista e onde o jogador apenas utiliza a plataforma da selecção como veículo próprio. Em Portugal tivemos casos claramente em ambos os lados da barricada, Pepe no primeiro e Liedson no segundo (Deco poderia considerar-se a meio caminho, mas a pender mais para o primeiro ponto). E ninguém se surpreenderá se a situação se venha a repetir. O que é perigoso é lançar debates demagógicos e populistas sobre nacionalismos e xenofobia quando o futebol continua a ser a melhor forma de unir os povos à volta de uma paixão em comum.  



Miguel Lourenço Pereira às 20:06 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 13.09.13

Diego na Liga. Iker na Champions. O ridículo voltou a tomar conta do Santiago Bernabeu. Durante o defesa a imprensa espanhola - que afiou as espadas e cheirou o sangue do reinado de Mourinho - transformou a Carlo Ancelloti no mais celebrado dos novos treinadores merengues. No primeiro jogo a sério levaram uma decepção. Durou pouco a resistência do italiano. Ao contrário do português, e como tinha feito no passado, Carlo cedeu e deixou-se dobrar pela importância mediática de Casillas e a imprensa de Madrid. O binómio que realmente governa o clube.

Mourinho sempre foi um mal-amado.

No dia em que se cansou das filtrações e dos comentários de Casillas, relegando-o para o banco em Málaga, o mal-amado transformou-se no odiado. Durou meio ano no cargo. A falta de resultados é o principal motivo da sua saída do Bernabeu. Uma meia-final perdida depois de um jogo em Dortmund penoso. Uma liga que desde Novembro já era impossível com um rival habituado a não perder pontos com regularidade. E uma taça transformada em troféu relevante do nada para depois ser ganha pelo maior rival em plena Castellana. A realidade foi bem diferente. Mourinho saiu de Madrid porque tinha perdido o balneário. Porque a imprensa tinha ganho o braço-de-ferro. Outra vez.

A filtração regular de noticias do balneário tinham provocado já a irritação do português que despediu do cozinheiro a Valdano todos os que considerava que estavam a minar o seu trabalho autoritário. Mas havia noticias que só podiam ter sido filtradas pelos jogadores. Procurou o culpado e ano e meio depois encontrou-o. Era Iker Casillas. E o seu grupo dentro do balneário, composto essencialmente por internacionais espanhóis e alguns jogadores estrangeiros com mais anos de casa. Jogadores que garantiam que jornais como a Marca ou o As podiam citar conversas integras e exactas nos treinos fechados à imprensa em que se tornava palpável que o ambiente distava de ser amigável. Quando os capitães pediram ao presidente para ter uma reunião sem o treinador, exigindo que ou saiam eles ou saia ele, o seu destino estava traçado. Mourinho afastou Casillas, primeiro por Adán e depois por Diego Lopez - contratado em Janeiro. Pelo meio já tinha dado reprimendas públicas a Sérgio Ramos, o outro peso-pesado do balneário com quem não tinha relação nenhuma. A lesão de Casillas facilitou as coisas a Diego Lopez. Quando o titular habitual e campeão do mundo voltou teve de suportar um mês e meio de banco. Mourinho foi inflexível. Mas Casillas sabia que as suas horas estavam contadas e que a partir de Agosto tudo seria como antes.

 

Então chegou Ancelloti.

A imprensa espanhola recebeu-o como o "Pacificador", o homem que ia voltar ao status quo. Trataram-no como um rei, relembrando sobretudo que um homem que tinha colocado em campo onzes escolhidos por Berlusconi e Abramovich não seria difícil de lidar por Florentino Perez - desejoso de impor mais uns galácticos ao treinador de turno, depois de três anos em que Mourinho controlou o mercado de transferências - e com os pesos pesados do balneário. Mas no primeiro jogo a sério, Casillas foi suplente. E Diego Lopez continuou a demonstrar ser um brilhante guarda-redes. Espanha parou. Então não era suposto voltar a ser tudo como antes?

A resistência de Ancelloti, louvável, foi de curta duração. Um mês para ser mais preciso.

O técnico manteve a confiança em Diego Lopez até à paragem para os compromissos internacionais. A imprensa voltou a cumprir o seu papel. Começaram a sair sondagens sobre o apoio dos adeptos a Casillas, a ameaças suas em sair do clube onde se formou para reforçar o Barcelona ou o Manchester United. Os seus jornalistas de bolso, os mesmos que trabalham diariamente com a sua companheira, cumpriram a sua missão e minaram uma vez mais a opinião pública contra o técnico e Diego Lopez. O golpe de misericórdia foi aplicado por Del Bosque. O seleccionador espanhol não convocou Lopez - como tinha sucedido na Taça das Confederações - e colocou Casillas a titular no jogo contra a Finlândia, apesar de levar três meses sem um jogo oficial nas pernas. Mesmo com Valdés numa forma irrepreensível a mensagem ficou. Casillas joga por decreto, seja onde for. Ancelloti percebeu o sinal.

O técnico italiano tinha tido um mês para perceber que arrancar o ano com três vitórias era insuficiente se a imprensa se posicionasse contra a sua gestão. Atacado pela saída polémica de Ozil, com o problema de combinar no mesmo onze Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, juntamente com Isco, Benzema, Modric, Di Maria, Khedira, Xabi Alonso (entretanto lesionado), Illarramendi e Casemiro, o menos que precisava era de um debate diário na baliza. Ancelotti rendeu-se e declarou que Casillas era o guarda-redes para os jogos da Champions League. Uma rotação inédita nas suas opções - e na história do clube e dos principais emblemas europeus - que não é mais que um aquecimento prévio até que Casillas se torne, definitivamente, no guarda-redes titular. Lopez tem a batalha perdida e sabe-o. Mas cairá de pé enquanto a sombra do jogador preferido dos espanhóis o engole.

 

Casillas será o titular e tudo estará bem. Regressarão os artigos elogiosos à gestão de balneário de Ancelotti, os pesos-pesados do balneário deixarão de filtrar histórias comprometidas e Florentino Perez deixará de receber perguntas incómodas sobre um jogador que nunca quis mas que também nunca soube dominar. Casillas, como antes dele Guti e Raúl, foi acusado ao longo dos anos por vários treinadores e ex-jogadores de ser um problema no balneário do Real Madrid pelo seu excessivo peso mediático e contactos com a imprensa. Sobreviveu a Capello - que preferia Lopez - a Mourinho e prepara-se agora para sobreviver a Ancelotti. Demonstrando uma vez mais que em Madrid não manda o presidente, não manda o treinador e não mandam os adeptos. O Real continua a ser um clube governado pelos jogadores e a imprensa. E assim seguirá!



Miguel Lourenço Pereira às 20:12 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 10.08.13

O Benfica contratou Fariña. O Benfica emprestou Fariña. Pelo meio não houve jogos oficiais, não houve o reflexo das entusiasmantes capas dos jornais a promover a nova estrela sul-americana. O dinheiro move-se, os jogadores movem-se, a suspeita permanece. Não é caso único. Portugal passou a ser um país "ponte express" para a movimentação de dinheiro, agentes, futebolistas e fantasmas do mundo do moderno.

 

No Racing de Avellaneda chamavam-lhe estrela, "pibe de oro" e outras pérolas que tais.

Na nomenclatura do jogo argentino, não surpreende. É um país apaixonante, mas habituado à cultura do exagero. Entre Maradona e Messi todos eram os "novos Maradonas" até que apareceu Leo. Uma história contada muitas vezes cansa, e esse discurso cansava. Agora, imaginamos, falaremos dos novos Messis a cada dois por três. Iturbe já o era. Fariña sonhava em sê-lo. A imprensa português, como sempre tão entusiasmada como o mais básico dos adeptos com vulgaridades, fez eco das palavras, dos sonhos e das aspirações. Provavelmente nem o viram jogar. Provavelmente nem sabiam quem era. Mas vendia jornais. E Fariña lá veio, um negócio maravilhoso, espantoso, incomensurável. O novo "Di Maria" talvez. E agora, num avião a caminho de Doha, esse potentado futebolístico, Fariña pergunta-se a si mesmo qual é o futuro. Longe da sua terra, longe da Europa, o sonho de ser o novo (preencher com o nome que quiser) começa a esfumar-se. E os jornais, calados.

É assim que se fazem cada vez mais negócios em Portugal.

O Benfica transformou-se num entreposto de jogadores. Muitos nem chegam sequer a vestir de encarnado em jogos oficiais. Compra-se à discrição. Não há problema com o dinheiro. Em muitos dos casos, ele nem se move. Roberto afinal, era mesmo de quem este tempo todo?

Como Fariña houve outros casos. E continuará a haver. Desde que Jorge Jesus chegou ao Benfica o clube já comprou mais de 50 jogadores.

Leu bem. Mais de 50 jogadores. Em cinco pré-épocas, Jesus - e a direcção do Benfica, já que são unha com carne, até ver - trouxe uma média de 11 jogadores por ano.

Entre esse lote estão os casos paradigmáticos de Patric, Felipe Menezes, Kardec, Schaffer, Éder Luis, Carole, Wass, Hugo Vieira, Michel ou Luisinho. Jogadores com tão poucos minutos (oficiais e em amigáveis), que muitos se perguntam genuinamente se realmente alguém sabia algo deles antes de avançar para o negócio da aquisição. Como Fariña. A maior parte desses jogadores entrou numa espiral de empréstimos que se prolonga até ao fim do contrato (saindo a custo zero) ou com uma venda para maquilhar contas por valores irrisórios. Fariña, seguramente, será mais um desses nomes no amanhã. Dois milhões e uns trocos depois, que talvez o Benfica nunca pagou. Mas pelos quais deu a cara, o símbolo e a história. Entregue aos interesses de fundos de inversão e empresários, o clube tem muito que explicar nos seus negócios com os espanhóis do Granada e do Atlético de Madrid e nas suas operações sul-americanas. Mas, hoje em dia, os adeptos exigem pouco e a situação continua, Verão após Verão, exactamente igual. Resta saber, até Setembro, quantos vão acompanhar a promessa argentina no mesmo destino.

 

O clube encarnado não tem o exclusivo deste tipo de operações.

O Rio Ave tem sido gerido, desde há mais de um ano, por um fundo de empresários apoiado na figura de Jorge Mendes que permite a circulação de jogadores sem a movimentação de dinheiro. Fabinho, emprestado ao Real Madrid, foi agora desviado para o AS Monaco, dois clubes onde o empresário tem interesses. O Rio Ave empresta um jogador que, no fundo, nem é seu. O ridículo absoluto.

Em troca recebe anualmente jogadores descartados, para rodar, e sobrevive. Não cresce. Sobrevive. Que é a nova palavra de ordem no futebol. Não é caso único. A gestão da Traffic no Estoril, mais limpa e transparente, fala a mesma linguagem e move-se nos mesmos campos. Em Espanha há clubes envolvidos nesses esquemas, desde os célebres Atlético Madrid, Deportivo e Zaragoza aos emergentes Granada, Hércules e Rayo. O mesmo sucede em vários clubes da Europa de Leste, da Turquia e no complexo mundo do Calcio. É a novilingua dos relvados.

O caso do Benfica é assumidamente preocupante porque o clube dá a aparência de não precisar destes esquemas. Tem um património sólido, uma divida que pode abater com as suas mais valias reais (e o potencial de algumas vendas, associados aos ingressos da Champions League) e legitimas aspirações a vencer, pelo menos, três competições esta temporada. Não é o Estoril e o Rio Ave. Mas comporta-se como eles.

Se o problema do Sporting é o excesso de erros acumulados de gestões prévias e o FC Porto a sua excessiva dependência do mercado sul-americano (e de alguns fundos e bancos que por lá se movem), o Benfica ultrapassa as fronteiras do lógico com negócios que sujam por completo a imagem do clube.

Enquanto o FC Porto compra jogadores utilizando fundos e relações amigáveis com empresários para depois rentabilizá-los por milhões, o Benfica junta a esse modelo de gestão (que começou a aplicar com sucesso há três anos) um historial de erros de casting que não podem ser inocentes. Dos doze jogadores ao ano que chegam à Luz, metade desaparece cedo do mapa. E ninguém estranha.

 

Pizzi, chamado a ser um jogador de ponta do futebol português, "custou" (é dificil pensar que alguém pagou alguma coisa) 6 milhões de euros, por metade do passe. Que é do Benfica. Mas os seus adeptos vão ter de o ver de "azul e branco". Fariña, esse mito sul-americano, também é das "águias". E ninguém o vai ver porque os jogos dos Emirados Árabes Unidos não se podem seguir, nem via streaming. Entre os dois o clube gastou mais do que a esmagadora maioria dos clubes portugueses em todo o defeso. Nenhum fica no plantel. O entreposto segue aberto. São os negócios à portuguesa!



Miguel Lourenço Pereira às 14:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 20.03.13

José Mourinho quebrou o seu silêncio selectivo para dar uma entrevista à RTP que é como quem dá a possibilidade aos amigos de lucrarem com palavras que semana atrás semana se recusa a prenunciar onde deve, na sala de conferências de imprensa do clube que lhe paga 12 milhões de euros ao ano. E fê-lo para, entre outras coisas, denunciar a corrupção que está por detrás do Ballon D´Or. O mesmo prémio que em 2010, quando venceu a primeira edição, não pareceu ter nenhum problema. O mesmo prémio que, ano após ano, treinadores, jogadores, jornalistas e público em geral se sentem determinados a dar uma importância que, no fundo, não tem.

Vicente del Bosque venceu o Ballon D´Or ao Melhor Treinador de 2012.

Ganhou-o com mais de 10% dos votos do segundo, José Mourinho, o vencedor inaugural do prémio e 29% mais do que Josep Guardiola, a quem sucedeu no palmarés. Venceu-o com o voto maioritário de seleccionadores e jornalistas, mas não dos capitães que preferiram a figura de Mourinho. A gala foi a 7 de Janeiro de 2013. Mais de dois meses depois aparece Mourinho, qual vencido despeitado, anunciando que foi o seu conhecimento da existência de fraude nas votações que o levou a não marcar presença na gala (ao contrário de Cristiano Ronaldo, também português, também do Real Madrid, também segundo nas votações). Está no seu direito.

Os factos parecem dar-lhe razão. Paulo Duarte, seu velho amigo e antigo jogador nos seus tempos de técnico da União de Leiria, confessou que não teve oportunidade de votar porque o formulário lhe chegou para lá da data limite de voto. Uma situação comum a países como a Guiné-Bissau ou Costa de Marfim, nações que, a julgar pelo lido, votariam em Mourinho para vencer o prémio. O técnico português fala ainda de personalidades que lhe terão ligado falando na existência de boletins de voto alterados. Uma vez mais, os seleccionadores da Zâmbia e Zimbabwe queixaram-se na imprensa local que os nomes que aparecem na lista oficial da FIFA não se correspondem com as suas votações, um deles referindo até que nunca chegou a ver o formulário de foto e que alguém terá votado por ele.

Curiosamente, os amigos de Mourinho permanecem em silêncio e seguramente continuarão calados porque comprar uma guerra contra a FIFA é, habitualmente, meio caminho para ter uma carreira curta e sem grandes oportunidades. A velha raposa chamada Blatter raramente esquece estes insultos à sua honra, se é que lhe sobra alguma para mostrar ao público depois de todos os escândalos dos últimos quinze anos de presidência. Parece ser perfeitamente possível dizer que houve irregularidades e fraude nas votações do Ballon D´Or. E quê?

 

O que mais supreende - ou talvez não - nas declarações de José Mourinho é a sua percepção que os erros acontecem exclusivamente no ano em que perde.

Em 2010, quando venceu o prémio - também contra Del Bosque, então recém-consagrado campeão do Mundo pela selecção espanhola - o técnico português subiu exaltante ao palco, celebrou, dedicou o prémio e nunca se lembrou de rever a lista de votações para confirmar se faltava algum país, não fossem eles ter votado noutro técnico. Como tantas vezes sucede nas acusações aos comités de arbitragem, as palavras surgiram apenas depois de uma derrota. Não lhe retira a razão mas sim a moral de falar quando, nos momentos de glória, tudo fica guardado num baú e escondido debaixo da cama para não chamar à atenção.

Parece-me claro que um prémio com estas caracteristicas tem tudo para ser alvo de fraude. Nada resta já do velho Ballon D´Or, um prémio de glamour mais do que reconhecimento real de talento. Ao abrir as votações, muito democraticamente, a todos os capitães, seleccionadores e correspondentes da France Football do mundo, a FIFA abre também a caixa de pandora. Em países onde a corrupção está oficialmente instalada, seguramente que os votos podiam ser comprados facilmente. Em estados que seguem apenas os máximos eventos desportivos, naturalmente que a votação está condicionada aos nomes mais emblemáticos. Na Etiópia, onde a Premier é seguida com devoção, Roberto Mancini coleccionou vários pontos que não se repetiram em nenhum outro país. Nos países hispânicos e lusófonos o índice de sucesso de Messi e Ronaldo foi proporcional à influência cultural de cada um e o seleccionador espanhol, perdão, chinês, não teve problemas em votar em dois técnicos e três jogadores do seu país referindo-se ao jornal Marca como algo normal porque há sempre que votar nos seus.

O que nos leva a perguntar sobre o valor real que possa ter um prémio que se transformou num concurso de popularidade nos últimos três anos, um concurso fechado nos nomes mais simbólicos do futebol internacional, distante da ideologia inicial de um prémio que não teve problemas em celebrar os êxitos de Sivori, Masopust, Albert, Blokhin, Simonsen, Belanov, Owen e Cannavaro quando havia jogadores muito mais completos em activo, os mesmos que hoje estão destinados a vencer como condição sine qua non. O Ballon D´Or deixou de ter o prestigio e o respeito de quem via algo original e distinto na atribuição do prémio da France Football, consciente que num desporto colectivo a entronização pessoal faz sempre pouco sentido.

 

As queixas de Mourinho deixam-no, uma vez mais, nú e só ante uma das máximas entidades do jogo. Depois de ter desafiado a UEFA com a sua lista de erros arbitrais, agora o técnico português lança um dardo envenenado à FIFA a propósito do seu prémio mediático comprado a peso de ouro à família L´Equipe-France Football. O treinador do Real Madrid pode perfeitamente queixar-se em ambos os casos, até porque os momentos concretos arbitrais que cita, bem com os erros nas votações, são reais. Mas esquecer-se das mesmas particularidades quando saiu vencedor, tanto em provas europeias (Old Trafford, 2004; San Siro, 2010; quem sabe se Old Trafford, 2013 também) como na atribuição do primeiro Ballon D´Or ao melhor técnico da história apenas deixam reflectida uma pálida e triste imagem de um treinador genial consumido cada vez mais pela sombra da sua própria persona.



Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (22)

Quarta-feira, 06.02.13

Houve uma altura que a imprensa portuguesa tentava vender a ideia de que a selecção portuguesa era a equipa de todos. Dos adeptos de todos os clubes, de todos os movimentos políticos, sociais, de dissidentes e apoiantes do regime, de todos os que sentiam Portugal, por cima das suas convicções pessoais. Nunca funcionou muito bem essa fórmula mas agora vive-se o extremo oposto. De ser uma selecção de 10 milhões, Portugal passou a ser o clube de um só homem.

A convocatória de André Gomes por Paulo Bento é apenas mais um prego no caixão dos que acreditam ainda no conceito de meritocracia em Portugal.

Porque se há algo que move as decisões do seleccionador - o trabalho do "treinador" Paulo Bento, deixo para outro momento - é tudo menos o mérito pessoal que estava por detrás da ideia de combinados nacionais. Quando os conjuntos internacionais se começaram a medir, muitas vezes não representavam o melhor de um país. Os problemas de transportes, o amadorismo e os interesses políticos levavam a criar selecções quase plasmadas directamente de clubes ou cidades. Em Portugal e no resto do Mundo, o mal não foi só nosso. Mas com a evolução do jogo, rapidamente ficou claro que a grande vantagem do futebol de selecções face ao futebol de clubes era a possibilidade de ver numa só equipa os melhores, os mais bem preparados ou que mais méritos lograram durante um período desportivo a jogar em conjunto. Durante a década de 60 a melhor defesa de Portugal - a do Sporting - jogava com o melhor ataque - o do Benfica - sem grandes escândalos porque era realmente dificil encontrar individualidades nos restantes clubes capazes de se sobrepor ao génio individual e à harmonia colectiva desses dez jogadores de campo. O resultado foi um terceiro lugar no Mundial de 1966.

A partir dos anos 70 ficou claro que a selecção se tinha transformado em mais um palco de batalha entre os clubes. Da convocatória de oito jogadores do FC Porto para um amigável em Vigo, com manifestação em Campanhã e um "palhaço" metido ao barulho, para acabar no quadrunvirato do Euro 84, onde se rodavam jogadores para agradar a cada cor clubística, acabando em Saltillo, um feito que comprometeu o futuro daquela que talvez foi a mais bem preparada geração de jogadores até à época, o futebol da selecção nacional perdeu essa capacidade de convocação do espírito popular. O despontar da Geração de Ouro - transformada rapidamente numa geração de emigrantes - podia ter invertido essa tendência mas depois apareceu Scolari, o conceito de família, e a selecção nacional transformou-se no clube Portugal. Hoje é o clube Jorge M.

 

Durante os últimos anos é confrangedor ver o lote de convocados de Portugal para jogos amigáveis, jogos de qualificação e torneios internacionais. Nunca vão os melhores, nunca vão os jogadores em melhor forma, vão sempre os catorze que entram na cabeça do treinador da selecção e os outros oito que o seleccionador - um Dr. Jekyll/Mr Hyde com penteado especial - convoca para agradecer a quem o colocou no posto. A quem faz negócio com o futuro de uma selecção que, sem se saber muito bem como, tem-se mantido na elite futebolística. Naturalmente, não são esses seis ou oito jogadores que contribuem para esses resultados. Esses estão lá, sem jogar, sem comprometer, mas com o cachet pessoal a subir, as comissões de venda e renovação a disparar e os milhões a entrarem sempre nos mesmos bolsos.

A prática não é nova e num país tão corrupto como o Brasil levou à demissão de um selecionador. Na Argentina é normal cada seleccionador provar 60 jogadores por mandato, como se houvesse tanto talento nas pampas. O negócio do futebol instalou-se caprichosamente no mundo das selecções e Portugal pode ter poucos jogadores de elites, mas tem o melhor dos negociadores. André Gomes sabe-o bem.

Para o jogo de hoje, o médio do SL Benfica está convocado. Poderá fazer a sua estreia como internacional. Seguramente tem um grande futuro pela frente. Pelo menos enquanto tiver o agente certo. Nem precisa de ter de esforçar-se e jogar. O seu amigo Nélson Oliveira seguramente lhe explicará que ser suplente no último classificado de um campeonato nunca foi impedimento para ir picar o ponto à selecção. Desde que tenha o agente certo. O futebol da selecção portuguesa passou a ser uma questão do agente certo. Nem mais, nem menos.

Na convocatória para um amigável de Paulo Bento - que diz que não existe muita qualidade no futebol português e que por isso convoca sempre os mesmos jogadores...onde a qualidade não é propriamente algo abundante - estão jogadores como os citados André Gomes (oito jogos na época), Nélson Oliveira (suplente raramente utilizado do Depor), Miguel Lopes (recém-aterrado em Alvalade, depois de pouco ter jogado pelo FC Porto), Sereno (o elo fraco da defesa do Valladolid), os poucos utilizados Beto e Eduardo e Bruno Alves e Danny (em plena paragem de campeonato russo). Curiosamente, todos jogadores com laços com uma só empresa de representação, a mesma que - no momento da inoportuna lesão de Micael - ajudou o seleccionador a convencer que era melhor alternativa do que jogadores que têm muitos mais minutos nas pernas como Hugo Viana ou Manuel Fernandes.

A mensagem é clara. Não importa o que vales ou quanto jogas, apenas quem te representa. Ninguém exclui a possibilidade de nas próximas convocatórias jogadores como Tozé, Fábio Martins, João Carlos, Bruma, Diogo Rosado, André Almeida ou Luisinho sejam chamados à selecção se assinarem os contratos certos a tempo. Que mais importa que o rival seja Israel, que está imediatamente à frente de Portugal na corrida ao play-off do Mundial de 2014? Se afinal, convocam-se 22 e jogam catorze, o importante é fazer amigos.

 

E claro, os jogadores do Paços de Ferreira, Estoril Praia, Vitória de Guimarães e apátridas que renegaram da grandeza do maior empresário da história do futebol, podem esquecer as quinas ao peito. Por muitos golos que marquem, assistências que dêem, kilómetros que corram, a selecção é cada vez mais um clube fechado, com quota de membro paga por uma mesma agência. A mesma que ajudou a comprar a nova casa do André Gomes, a mesma que mantém o discurso agradecido da imprensa subserviente sobre o génio ofensivo de Nélson Oliveira (quando quem joga são Pizzi e Bruno Gama) e a mesma que ajudou a transformar a selecção de todos no clube de um só.



Miguel Lourenço Pereira às 15:05 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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