Segunda-feira, 15.07.13

Era o título que faltava ao futebol francês. Nem no apogeu da formação gaulesa, esse processo revolucionário que se começou a gestar na década de noventa, os Bleus conseguiram vencer o Mundial sub20. Com uma geração promissora mas longe de ser espectacular, venceram o mais cinzento torneio da última década. Uma prova que deixou claro que continuava a haver um número de países demasiado grande preocupados com os resultados, esquecendo-se de que a formação é algo para o futuro, não para o presente.

Não houve emoção nem grande futebol.

As suspeitas dos problemas de idades adulteradas foram mais evidentes do que nunca. As equipas africanas continuam a enviar futebolistas que, a todas as evidências, superam bastante o requisito legal. Tem sido assim desde meados da década de noventa e parece que a FIFA continua sem controlar bem este grave assunto. Quando o Gana venceu o torneio há alguns anos, fê-lo com jogadores que hoje estão desaparecidos, precisamente porque não eram quem diziam ser. Adiyah, Inkoom e companhia têm os seus sucessores no futebol actual, dentro da própria equipa ganesa mas também no futebol europeu. Os treinadores das selecções do Velho Continente continuam sem aprender a lição do futebol espanhol. Querem a vitória a qualquer custo, querem títulos e prestigio, não o desenvolvimento dos seus futebolistas com uma ideia de futebol que lhes permita singrar-se nas equipas principais. Olhar para o plantel de França, Portugal ou Inglaterra é reconhecer em vários rostos jogadores que estão ali pelo seu físico, apenas e só. Muitos terão também idades adulteradas, os de ascendência africana. Dificil de provar, fácil de perceber. São os que não vão dar em nada, os que cometem erro atrás erro, de técnica e táctica. Mas os mesmos que continuam a jogar porque a força e resistência que exibem supera, naturalmente, a dos seus rivais adolescentes.

 

A ausência de selecções históricas como a Alemanha, Holanda, Argentina e Brasil abria caminho a um torneio descafeinado.

Esperava-se a consagração da Espanha, depois de mais um período de sonho. Ou a afirmação definitiva do futebol sul-americano, alternativo ao duo Brasil-Argentina, através do talento dos colombianos e da resiliência dos uruguaios. Entre todos, só os "charruas" não desiludiram, mas também eles ficaram a anos luz do que se podia e exigia esperar. Perderam na final, caindo de pé, mas nunca deram a sensação de serem uma selecção que vai deixar marcas nos anos que aí vêm, quando metade destes futebolistas seja promovido à Celeste (e a outra metade desapareça do mapa).

O bom futebol dos colombianos, assente sobretudo no génio de Quintero, o futebolista individual mais marcante do torneio, morreu de forma inglória contra a Coreia do Sul. Os asiáticos foram a revelação do torneio. Por um lado é um sinal evidente de que as coisas estão a mudar no gigante adormecido. O sucesso nos Jogos Olímpicos de Londres, o excelente futebol de coreanos e japoneses no último Mundial abrem as portas a pensar em algo diferente para um futuro não muito distante. Mas se os coreanos estiveram bem, a grande surpresa surgiu da meseta central, onde iraquianos e uzbequistaneses surpreenderam os mais desatentos com bom futebol, audácia e resultados. Os jogadores do Iraque - país sobre o qual também paira a velha suspeita de jogadores com falso passaporte - são uns desconhecidos no Ocidente mas desde o final do conflito armado com os Estados Unidos começa-se a recuperar o tempo perdido em Bagdad. O Uzbequistão também, há muito tempo que tem vindo a desenhar uma estratégia de futuro que lhe permita afirmar-se como a grande potência da Ásia central. As sensações são boas mas o trabalho pela frente imenso.

No meio deste circuito de equipas ambiciosas mas sem grandes estrelas individuais e futebol de alto quilate, surgiram os franceses. A equipa gaulesa acabou por ser derrotada na fase de grupos pela Espanha mas dos três países qualificados nesse grupo, os espanhóis acabaram por ser os últimos. Começaram bem o torneio, com a conexão Deulofeu-Jesé a funcionar e o talento de Oliver e Suso a pautar o ritmo de jogo mas à medida que a chama dos dianteiros se apagava, os velhos problemas de eficácia reapareciam. Diferente da sua versão dos sub21 e mais ainda da absoluta, esta Espanha é mais vulgar, previsível e dependente das genialidades das suas figuras. Quando estas se apagaram, prevaleceu a organização dos uruguaios. Os franceses foram o oposto. Não havia estrelas. Pogba, o jogador do torneio para a organização, é um médio forte, com sentido táctico e resistente, mas não é um marechal de campo. Lucas Digne, Zouma, Kondogbia e Thivaut são futebolistas esforçados, com potencial, mas nenhum deles será uma estrela. Sanogo, novo jogador do Arsenal, segue o reconhecível padrão do avançado tipo gaulês. E não há mais. Mas com estes foi suficiente. França soube lamber as feridas da derrota com os franceses e seguiu o seu caminho à espera de uma desforra que não chegou a ter lugar. Nos penalties resolveu a contenda com o Uruguai, atrás tinha ficado o Gana e o sonho africano. O título era a consequência natural de tudo aquilo que foi um torneio que devia ser radicalmente diferente.

 

Bancadas vazios, uma excessiva preocupação táctica, poucos nomes para reter num futuro imediato e alguns jogadores que levam um gigantesco ponto de interrogação que só o tempo pode resolver. Começa a ser cada vez mais evidente que torneios como o Mundial sub20 se afastam do seu modelo original. Sempre tiveram os seus flops, os seus fracassos pontuais, mas a cada edição nascia a sensação de haver pelo menos um onze de jogadores que poderia marcar presença entre a elite a curto espaço de tempo. Hoje é difícil confeccionar esse onze com os jogadores em prova. Os talentos mais inatos estão crus, os jogadores mais trabalhados nunca terão talento e a edição de 2013 da competição dificilmente passará para a história como uma das suas provas vintage.

 

PS: Portugal terá, no final da semana, um artigo à parte!



Miguel Lourenço Pereira às 13:02 | link do post | comentar

Domingo, 02.10.11

Analizando friamente os números é fácil chegar à conclusão que há poucos países capazes de provocar tantas desilusões futebolisticas como o México. E no entanto escasseiam as nações com tanto potencial para aspirar ao ceptro mundial. O futebol azteca vive nesta contradição andante e continua a viver numa eterna depressão entre extasiantes promessas e constantes desilusões. Poderão os heróis de 2005 e 2011 formar a equipa capaz de contrariar as evidências?

Duas vezes o México logrou alcançar os Quartos de Final de um Mundial de Futebol.

As duas foram nas provas que organizou, as duas deixaram poucas saudades nos adeptos. Os mexicanos estão habituados a vir cedo para casa neste tipo de torneios. E isso, num país com 115 milhões de habitantes onde o fanatismo do futebol é uma religião alternativa ao profundo catolicismo e ao misticismo tribal, deixa muito que pensar. Pode um país com tamanhas condições desportivas, com um longo historial, repetir, ano após ano, prova após prova, os mesmos erros? No papel parece impossível. Na realidade está o caso mexicano.

Esquecendo gigantes como China, India ou Estados Unidos, o México é um dos poucos países que superam os 100 milhões de habitantes onde o futebol é sagrado. Desporto nacional quase em estado puro, para os mexicanos a obsessão com uma bola só é comparável à sua paixão pela Coca-Cola ou pelo picante da sua maravilhosa cozinha tradicional. Na rua os miudos mexicanos não se distinguem dos potreros argentinos ou dos malandros brasileiros. Como gotas de água ensaiam regates, experimentam fintas, desafiam a gravidade e viciam-se no golo. Ainda não mergulharam no pecado capital da Europa, esse vicio pelos jogos de consola que transformou o jogador de rua no jogador de comando, e por isso a rua ainda é deles. E para bola qualquer coisa serve.

Esses miudos são hoje a grande esperança de um país que, juntando tradição com população, pode ser considerado como a maior potência desportiva que não consegue ser potência desportiva. O México conta, até hoje, com um paupérrimo historial. Nos Mundiais eliminações precoces. Na Copa América, onde participa há vinte anos, o segundo lugar, por duas vezes, foi o máximo que conseguiu. Uma Taça das Confederações (em 1999) e nove campeonatos regionais são um balanço humilde para quem pode aspirar a tanto. Afinal não é a liga mexicana uma das mais exitantes do futebol internacional? E não é, sobretudo, o seu sistema de formação, um dos mais elogiados do Mundo?

A resposta é afirmativa em ambos os casos mas o México que se tornou na última década numa potência juvenil comete os mesmos pecados que outros casos pretéritos como Portugal, Gana ou Nigéria, países com bons resultados nas camadas de formação que falham a dar o salto para a equipa principal. Um problema que pode ter fim à vista.

 

Em 2005 o México surpreendeu o mundo ao bater o Brasil na final do Mundial de sub-17 disputado no Peru.

Um torneio a que muito poucos davam real importância até então mas que nos últimos anos tem ganho admiradores incontestáveis, entre os quais homens como Arsene Wenger, Pep Guardiola ou Louis van Gaal. Nessa equipa estavam verdadeiras pérolas aztecas como Giovanni dos Santos, Carlos Vela, Effrain Juarez, Sergio Arias ou Hector Moreno. Jogadores que rapidamente deram o salto para a Europa. Talvez cedo demais. Estrelas locais nos seus clubes, na Europa não aguentaram nem a exigência táctica nem a pressão mediática que se lhes exigia. Vela e dos Santos, os simbolos desta geração, foram o exemplo do salto falhado. Arsenal e Barcelona fizeram-se com os serviços de ambos jogadores e depois de algumas oportunidades na primeira equipa ambos desapareceram do mapa. Dos Santos, a quem muitos comparavam com Messi nos seus principios, perdeu-se entre Tottenham e Galatasaray para despontar no Racing Santander no final da época passada. Vela andou por Salamanca, Osasuna e agora milita, por empréstimo sempre, na Real Sociedad. Na selecção ambos tornaram-se espelho desse falhanço habitual dos nomes mais mediáticos do futebol mexicano.

Carbajal, o guarda-redes com mais torneios da história (cinco) nunca passou da primeira fase. Hugo Sanchez, herói do futebol mexicano dos anos 80, foi uma das grandes desilusões do Mundial de 1986. Chegou como estrela absoluta, marcou um golo e desapareceu do radar durante todo o torneio. Nunca mais voltou a pisar um Mundial na sua carreira. Em 2006 o México, já com alguns nomes da sua formação, a que se aliavam veteranos como Jesus Arellano, Guille Franco, o eterno Cauthemotec Blanco e companhia, caiu vergado pelo portentoso remate de Maxi Rodriguez nos Oitavos de Final. Quatro anos depois, na África do Sul, agora com Vela, dos Santos e Barrera, filhos da geração de 2005 (que no Mundial de sub-20, dois anos depois, ficou-se pelos Quartos) voltaram a ser derrotados pela Argentina de Messi. E a ferida tornou-se mais evidente.

Se a essa geração de 2005, agora na casa dos 20 baixos, se começa a exigir algo mais, que podem pedir os mexicanos aos heróis deste passado Verão. Depois do trabalho fenómenal do seleccionador Jesus Ramirez, o México conseguiu produzir uma nova geração de talentos para não esquecer. A vitória frente ao Uruguai no último torneio - aliada ao terceiro posto no Mundial de sub-20, meses depois - deixa uma vez mais a ideia de que há poucos paises tão bons na actualidade como o México na prospecção de jovens estrelas.

Ao futebol mexicano ajudou, sobretudo, a inclusão dos seus clubes nas provas da CONMEBOL. O México tornou-se presença assidua da Copa dos Libertadores e da Copa Sudamericana e por duas vezes equipas mexicanas (Cruz Azul e Chivas Guadalajara) chegaram à final do máximo torneio de clubes do continente. Esse crescimento sustentado e o desafio de competir contra clubes de ligas mais competitivas como a argentina, brasileira, colombiana ou uruguaia desportou ainda mais o México do seu isolamento.

Não estranha portanto que do nada surjam pequenos grandes génios como Enrique Flores, Carlos Fierro, Julio Gomez e, sobretudo, Jorge Espericueta. Ele é, aos seus 17 anos, a máxima promessa de um país que conta já com Javier Hernandez, como principal simbolo desta nova vaga.  A estes heróis, campeões do Mundo depois de dois jogos épicos com Alemanha e Uruguai, há que juntar os homens que viajaram até à Colombia para conquistar o terceiro posto. Erick Torres (também campeão do Mundo), Tauffic Guarch, Ulisses Dávila e Jorge Enriquez são hoje nomes obrigatórios nas listas de futuriveis de qualquer grande clube. E permitem aos mexicanos sonhar com uma possível fusão das gerações de 2005 e 2011 numa selecção que poderia ser verdadeiramente temivel no Mundial do Brasil.

 

No meio de todo este optimismo (e um onze com Torres, Chicharito, Enriquez, Espericueta, Fiero, Dos Santos, Vela, Juarez, Salcido, Moreno ou Ochoa permitem sonhar com isso mesmo) há episódios que nos continuam a relembrar que o México é um verdadeiro quebra-cabeças. A suspensão de vários jogadores da selecção B enviada à Copa América, onde se encontrava outra eterna promessa, Jonathan dos Santos, depois de várias festas organizadas no hotel da concentração permite entender que há ainda uma profunda diferença entre o talento genuino - onde o México tem poucos rivais, talvez nem sequer na Argentina e Brasil - e o profissionalismo exigido para a competição do mais alto nivel. Mesmo assim, tendo em conta o sucesso recente e as licções aprendidas, é fácil entender que há poucos países que possam oferecer tanto ao futebol nos próximos anos como a nação azteca. Conquistar as Américas, sonhar com o Mundo, tarefas hérculeas para um povo habituado às lágrimas da derrota. Mas não impossível, não quando ainda há sitios onde o futebol é um feitiço eterno.



Miguel Lourenço Pereira às 14:09 | link do post | comentar

Sexta-feira, 19.08.11

Nas vésperas de marcar presença na terceira final da sua história, Portugal não sabe bem como lidar com o sucesso da equipa de Ilidio Vale. Sentimentos desencontrados, orgulho escondido, criticas disfarçadas e pouco entusiasmo têm vindo a pautar a campanha da selecção sub-20 portuguesa. Frente ao Brasil a equipa das Quinas pode fazer história e lograr um inesperado tricampeonato mundial mas as sensações de Riade e Lisboa esbateram-se no tempo. Realmente, o que importa mais, vencer o Mundial ou vencer o futuro?

Falou-se durante anos da Geração de Ouro do futebol português, a mesma geração que se sagrou bicampeã mundial de forma consecutiva entre 1989 e 1991. A de Rui Costa, Paulo Sousa, Figo, João Vieira Pinto, Fernando Couto, futuras estrelas mundiais. Mas também a de Jorge Couto, Paulo Madeira, Paulo Alves, Rui Bento, Capucho, Tulipa, Hélio ou Folha, jogadores de nivel médio que tiveram carreiras aceitáveis. E ainda a de Valido, Morgado, Abel Silva, Amaral, Cao, Toni ou Gil, atletas que, pura e simplesmente, nunca conseguiram dar o salto no futebol profissional. Todos eles podem gabar-se de serem campeões do Mundo mas muito poucos contribuiram, eficazmente, para o crescimento desportivo do futebol português.

O sucesso mediático de Figo e companhia só sucedeu muito depois, quase uma década, do seu triunfo, no Euro 2000, onde pela primeira vez Portugal deu provas de ter superado os seus complexos de inferioridade e começou a bater-se de igual com as restantes potências do Velho Continente. Um cenário que Espanha também viveu. Em 1999 os espanhóis venceram o troféu pela única vez numa selecção onde Casillas era suplente e Xavi, inevitavelmente, o eixo central do jogo da Rojita. Foram precisos nove anos para nuestros hermanos lograrem com a absoluta o êxito que a mesma geração tinha antecipado no torneio disputado na Nigéria. É muito dificil antecipar se um jogador que funciona bem nos moldes de um torneio etário dá o salto ao futebol profissional. Portugal sabe-o muitissimo bem e o sucesso posterior da geração dourada funcionou também porque houve vários jogadores que não foram campeões do Mundo, por ausência (Vitor Baía, Jorge Costa) ou porque despontaram mais tarde (Dimas, Vidigal, Costinha, Pauleta, Sérgio Conceição, Nuno Gomes), que se revelaram fundamentais no sucesso colectivo luso na última década. Em 2004 a estrutura do meio-campo, acente no jogo do FC Porto, incluia três jogadores que nem sequer tinham passado pelos escalões de formação da Federação. Vencer o Mundial de sub-20 amanhã não garante um futuro radioso ao futebol português. Gabor, Geovani, Bismark, Caio ou Oliveira são nomes de jogadores campeões do Mundo e, como Peixe, consagrados como o melhor do torneio que disputaram e nenhum deles deixou o mais minimo impacto no futebol profissional. Nessas mesmas competições andavam por lá Ronaldinho, van Basten, Protasov, Kostadinov, Boban, Suker, Sammer, ... mas claro, nem todos repararam neles.

 

O caso mais sintomático desta realidade chama-se Espanha.

O país vizinho é, desde há 15 anos, indiscutivelmente a melhor cantera do Mundo. A RFEF apostou forte e bem num sistema de formação nacional, estruturado a nivel federativo e com cumplicidade com os principais clubes. A aposta no producto nacional - apanágio espanhol em tudo - e, sobretudo, num estilo de jogo que explorasse as condições dos jogadores espanhóis (baixos, dotados de técnico individual, jogo mais ritmado sem a constante busca do choque e da verticalidade da Fúria). Essa politica transformou a Espanha numa potência mundial indiscutivel e, no entanto, salvo esse ano de 1999, os espanhóis nunca estiveram perto de vencer o troféu da FIFA.

Parece uma incongruência mas está longe de sê-lo. Os espanhóis preferiram em apostar em formar jogadores para a selecção nacional em vez de conquistar titulos nas categorias amadoras. Desde 1999 para cá tem havido titulos, é certo, mas sobretudo tem havido fornadas e fornadas de jogadores preparados para dar o salto para a elite sem pestanejar. Talentos como Iniesta, Silva, Fabregas, Cazorla, Villa, Pique, Xabi Alonso, Torres, Ramos e companhia são filhos dessa filosofia mas representam a nata. A liga espanhola está repleta de casos de sucesso que só não vão mais longe porque há sempre alguém melhor a ocupar o seu lugar na elite. Essa aposta ficou evidente na qualidade de jogo da Rojita que foi eliminada nos Quartos de Final pelo Brasil. Talvez a melhor selecção do torneio, juntamente com a Nigéria e Colombia, a equipa espanhola não fez o seu melhor jogo mas não é dificil ver o talento de Bartra, Oriol, Rodrigo, Isco e companhia a brilhar na selecção principal espanhola nos próximos anos. O mesmo não se pode dizer do escrete canarinho onde, apesar do talento individual de alguns jogadores, o mais provável é que se repita o mesmo cenário de sempre e a esmagadora maioria daqueles que serão rivais de Portugal amanhã caiam no esquecimento ou numa liga obscura por esse mundo fora. Espanha não venceu o torneio, mas venceu o futuro, conservou o seu espirito, a sua filosofia, os seus automatismos e lançou um aviso aos mais velhos: aqui há gente com fome de mais. O Brasil, que jogou sem Lucas, Neymar e Ganso, as suas principais figuras no Sudamericano do ano transacto, tem em Oscar, Coutinho e Gabriel as suas principais figuras mas o resto é uma imensa incógnita. A este nivel, onde o futuro é o que conta, triunfar é realmente o mais importante?

 

No entanto, longe da ditadura critica em que parece viver o adepto português, o mérito da selecção de Ilidio Vale é inquestionável e deve ser valorizado, por cima de qualquer outra circunstância. Chegar à final de um torneio, seja ele qual seja, quando muitos nem acreditavam que a selecção pudesse passar a fase de grupos é um feito tremendo. Portugal não tem um único jogador de encher o olho, nenhum elemento que deixe antever que poderá tornar-se numa estrela de futuro (ou presente). Mas em 1991 quem imaginaria o futuro de Figo, Rui Costa ou João Pinto num contexto pré-lei Bosman em que jogar no estrangeiro (e brilhar) estava ao alcance de muito poucos?

O problema da selecção nacional está na politica de abandono de formação da FPF - que nem a dignidade de construir uma casa de selecções tem depois de tanto dinheiro embolsado na última década com a absoluta - e dos principais clubes portugueses, aliado ao final dos clubes de nivel médio que antes forneciam o futebol luso de alguns dos seus melhores interpretes. Ilidio Vale, um dos responsáveis pelo abandono da cantera do FC Porto, é o homem perfeito para esta estrutura federativa mas sem ovos não se fazem omeletes e não há em Portugal muitos jogadores com menos de 20 anos que possam ambicionar chegar à selecção. O nivel é baixo e isso não merece discussão. Num contexto individual há pouco que referir, num contexto colectivo o trabalho é espantoso.

Portugal perdeu para a Espanha esse condão de equipa capaz de manejar os tempos, a bola e de jogar bonito com uma vocação ofensiva, precisamente a imagem de marca da "Geração de Ouro". Hoje, sem jogadores com essa técnica, Portugal, como tantos outros, fecha-se na táctica. E nas armas tácticas que um conjunto sólido é capaz de oferecer face a equipas com melhor expressão individual. Viu-se no duelo com a Argentina, voltou a ver-se contra a França. Um por um, Portugal é inferior. Colectivamente soube impor-se com uma excelente noção dos espaços e, sobretudo, muita disciplina defensiva. Se algo deixa o Mundial sub-20 para o futuro do futebol português é a consciência dessa disciplina defensiva que tanto faltou no passado e que agora começa a ser trabalhada. Mika pode ser um novo Bizarro, Cedric e Mário Rui novos Paulo Torres ou Nélson e a dupla Nuno Reis-Roderick não passar de uma nova versão de Gil e Paulo Madeira, mas a forma como encararam o torneio e como chegam ao jogo decisivo sem um golo sofrido (inédito) é um registo espantoso. Portugal soube defender melhor que atacar (aliás, a esmagadora maioria dos golos surge como consequência de lances de bola parada) e olhando para Nélson Oliveira, Rui Caetano ou Sérgio Oliveira é fácil imaginar o porquê. Mas uma das exigências futuras do futebol profissional é precisamente essa mentalidade que tanta falta fez ao futebol luso no passado. Nesse sentido o trabalho da selecção, apesar de estar longe de ser espectacular, será fundamental.

 

Portugal e Brasil reeditam a final mais memorável da nossa história. Naquele fim de tarde no velho estádio da Luz o 0-0 final não fez justiça a um grande jogo. 20 anos depois é o resultado mais expectável face a um encontro disputado entre uma equipa especializada em defender e outra que se sente pouco cómoda em ter a iniciativa. Não se espera um jogo bonito ou espectacular e como sucedeu em 1991 provavelmente só quatro ou cinco dos 22 miudos que subam ao relvado cheguem a ser jogadores de impacto mundial. O trabalho de Nigeria, México, França, Colombia e, sobretudo, Espanha terá consequências evidentes. A Portugal cabe-lhe saborear o raro momento e desfrutar de uma noite histórica. O resultado é o menos importante, o futuro é uma incógnita, mas o mérito, esse é indiscutivel!

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:09 | link do post | comentar | ver comentários (23)

Quinta-feira, 24.09.09

A partir de hoje o Egipto recebe a nata do futuro do futebol mundial. Bem, é verdade que as habituais jogadas entre clubes e federações deixam de fora a muito boa gente. Mas o Mundial de sub-20 arranca hoje na máxima força e promete confirmar jovens promessas debaixo de olho de muitos clubes e revelar ilustres desconhecidos que farão no futuro as delicias de muito boa gente.

São seis grupos, vinte e quatro equipas equipas e mais de 500 jovens promessas à procura de um lugar ao sol. A história diz-nos que o nome do país vencedor afinal conta pouco. São as individualidades que destacam quem fica para a história. Basta ver as últimas edições e comprovar que em a prova revelou ao Mundo nomes até então desconhecidos como Maradona (1977), Prosinecki (1987), Xavi (1999), Saviola (2001), e Leonel Messi (2005).

 

A prova desenrola-se no Egitpo mas a selecção dos faraós não parte como favorita. Os grandes candidatos chegam - uma vez mais - da América do Sul, esperando-se que Brasil, Uruguai e especialmente o Paraguai, voltem a exibir o seu melhor rosto, depois do Campeonato Sul-Americano da época transacta. Os brasileiros apresentam um conjunto fortíssimo liderado por Giuliano, um médio centro bem ao gosto de Dunga. Os grandes favoritos africanos são o Gana de Ransford Osei e a Nigéria de Rabiu Ibrahim e Lukman Haruna. Duas equipas poderosissimas que querem quebrar a maldição. Afinal esta é a única prova de formação de cariz mundial que nunca foi ganha por uma nação do Continente Negro. Neste ano "africano" da FIFA - com o Mundial FIFA a desenrolar-se na África do Sul - não há melhor momento para quebrar a malapata.

 

A Europa envia um contigente de respeito mas sem grandes favoritos. Itália (que disputará o grupo A com os anfitriões, o Paraguai e Trinidade e Tobago) e Alemanha no B (frente a frente terá os Estados Unidos, Coreia do Sul e os Camarões), são as equipas melhor posicionadas. Mas atenção à sempre fiável Espanha (sem Bojan e Asenjo) e à Inglaterra (numa versão B) que medirá forças com os favoritos Gana e Uruguai.

Portugal, naturalmente, está fora de uma prova que venceu já por duas vezes (1989 e 1991), espelhando bem as gritantes diferenças entre o futebol de formação luso e o que se pode seguir no resto do Mundo. O primeiro Mundial Jovem foi disputado em 1977 e conta com dezasseis edições. O trofeu foi ganho apenas por sete países sendo que a Argentina é detentora de seis edições, o Brasil de quatro e Portugal surge no terceiro posto com duas vitórias, à frente de nações como Espanha, URSS Alemanha e Jugoslávia. Os argentinos são igualmente os detentores dos dois últimos titulos mas não estará presente para renovar o trofeu depois da desilusão no último campeonato sul-americano.

 

A partir de hoje a elite jovem do Mundo reune-se para vencer um troféu que levanta sempre polémica junto dos grandes clubes, que se queixam de que a prova retira-lhes alguns jogadores chaves nos seus planos. Basta ver as razias nas equipas europeias para perceber que muitos craques ainda preferem ficar em casa a exibir-se diante do Mundo. No entanto a moeda tem sempre dois versos e muitas das ausências de cracks já consagrados abre a porta a novas promessas que têm aqui a oportunidade de ouro para que o Mundo conheça o seu nome por direito próprio. Ao largo do próximo mês vamos ver quem mostra ter valor para fazer história...num futuro próximo!



Miguel Lourenço Pereira às 10:21 | link do post | comentar

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