Segunda-feira, 14.07.14

Prometeu muito, deixou pouco. O Mundial 2014 chega ao fim. Com ele a mais espectacular fase de grupos de que há memoria. E uma ronda a eliminar que foi descrendo de qualidade até alcançar uma final decepcionante. Foi um torneio de oito e oitentas, de guarda-redes fadados a momentos de glória e de estrelas globais abaixo do que prometiam. Um torneio que não deixa uma grande equipa, um grande jogador mas sim uma grande certeza. A queda da Espanha não significou o fim do tiki-taka e a sua Némesis defensiva vai encontrar sempre forma de continuar a morder-lhe os calcanhares.

 

No dia em que os oitavos-de-final arrancaram, com o drama entre Brasil e Chile, os adeptos de futebol estavam no céu. Tinham vivido quinze dias de uma intensidade única. Golos – muitos, de muitas formas e feitios – grandes exibições colectivas e individuais (sobretudo dos guarda-redes) e surpresas. Parecia que o torneio ia igualar as desigualdades sociais do Mundo e que os europeus seriam a chacota. O Brasil avançava a passo tremido para fazer história e o futebol perfumado das caraíbas encandeava mais que o jogo dos europeus. Um mundo ideal quase previa uma final Colômbia vs Costa Rica. Foi um sonho bonito. Mas curto. Quinze dias depois a sensação não podia ser mais distinta.

O torneio abandonou o seu ritmo de samba e entrou num longo e angustioso solo de Bossa Nova, lento e previsível. Os favoritos foram eliminando os rivais sem problemas de maior. As surpresas desapareceram e com elas a magia do momento. Os europeus que sobreviveram à purga inicial (principalmente uma purga de equipas mal preparadas) impuseram-se sobre os rivais sem dificuldades de maior. Pela primeira vez na história dos Mundiais fora da Europa a competição esteve a uma grande penalidade de ter os dois finalistas do “Velho Continente”. Lá se foi a justiça social. Os guarda-redes foram perdendo protagonismo (salvo se entraram para defender penalties) e os nomes do costume foram aparecendo. Mas a anos-luz do que sabem e podem fazer. Não houve uma grande série de exibições mágicas de um jogador nem um futebolista que se impusesse como figura icónica do torneio. O futebol moderno dá cada vez menos liberdade aos Ronaldo, Zidanes ou Romários – para não ir mais atrás no tempo – reclamar o seu lugar na história. A péssima qualidade das arbitragens só encontrou par no péssimo estado táctico e emocional do Brasil. Foi o descalabro numa semana de um espectáculo inesquecível. Depois de uma fase de grupos digna do México 86 ou Espanha 82 a competição a eliminar caiu ao nivel emocional de um Itália 90 ou Coreia do Sul-Japão 2002. E claro, dentro de tantos falsos mitos que fracassaram, um imperou sobre os demais. Sobrava a Alemanha.

 

O futebol germânico teve o merecido premio a oito anos de trabalho.

A aventura que Klinsmann começou mudou o curso quando Low se encontrou com Espanha. Em duas provas seguidas a Mannschaft caiu aos pés do tiki-taka. Foi suficiente para introduzir no seu próprio ADN o código de sobrevivência do futuro. Espanha pode ter sido a selecção mais decepcionante do torneio – continua a ter, quase posição por posição, um dos três melhores do Mundo – mas a sua herança manteve-se viva nos alemães. Uma equipa que teve altos e baixos evidentes no torneio, que sofreu – como os espanhóis – nos jogos contra equipas tacticamente organizadas na defesa, e que não tem um interprete singular mas um rosto coral de maravilhosos músicos capazes de tocar em harmonia absoluta. A Alemanha foi a melhor selecção colectiva do torneio sem ter sido, no entanto, uma selecção para a história. Pode perfeitamente este ter sido o ponto de inicio para uma nova era de hegemonia mundial, que o próximo Europeu confirmará ou não. Há muita juventude e opções de futuro para pensar nisso. Mas este pode ser também o titulo que coroa um trabalho que vem de longe e que merecia este reconhecimento. Os alemães deram um toque vertical ao tiki-taka espanhol (no fundo o mesmo que o modelo tinha na sua primeira encarnação e que Guardiola, um treinador mais vertical do que se pensa, exige no Bayern) e souberam ser eficazes nos momentos certos. Foram protagonistas do jogo mais marcante da competição (o melhor, esse, foi o Itália vs Inglaterra, duas equipas eliminadas o que diz muito da magia da primeira quinzena de torneio) e só esses sete golos ficarão seguramente para a história impressos com mais força que o titulo mundial. Foi a gesta do torneio, mas nem foi brilhante, nem foi a única.

O Mundial foi, sobretudo, um torneio previsível quando os astros se alinharam. Beneficiando de um cruzamento acessível desde a fase de grupos, a Argentina ultrapassou o seu Rubicão e chegou à final com pouco futebol e aplicando a antítese do tiki-taka que deixaria Mourinho orgulhoso. Marcaram poucos golos (nenhum finalista marcou menos na história na fase a eliminar, apenas dois golos em 430 minutos), defenderam bem e tiveram em Mascherano a sua figura. Messi esteve mal acompanhado no ataque e demasiado longe da área para criar perigo real. Lutou com as armas que tinha, manifestamente insuficientes. Na fase a eliminar não marcou nem decidiu nenhum dos jogos a favor da sua equipa e depois de uma boa primeira ronda eclipsou-se progressivamente. Na final passou de uma excelente hora de jogo a uma fantasmagórica exibição no prolongamento, vómito incluído. Não foi o seu Mundial a pesar de ter chegado à final. Olhando para o futebol argentino actual é possível que seja a única da sua carreira. No entanto, continuar a insistir que um jogador do seu calibre precisa de um titulo Mundial para ser grande é não conhecer a história do jogo. Messi é o jogador que define o futebol pós-2008 pelo seu jogo, não pelos títulos que conquistou.

 

Messi foi uma figura decrescente como todas à medida que o torneio avançava. Robben, Muller e James Rodriguez foram os mais constantes no brilho que deram a uma competição onde Neymar, Benzema e Suarez começaram por prometer muito mas, por motivos vários, deixaram de produzir à medida que passavam os dias. No fim da competição foram os Mascherano, Lahm ou Kroos que se fizeram indispensáveis. Os guarda-redes também passaram da magia da primeira ronda à sobriedade dos momentos difíceis.  O torneio foi perdendo a magia à medida que o Brasil deixava a nu todas as deficiências e equipas como a Costa Rica, Colômbia, Bélgica ou França diziam adeus. A Holanda manteve-se em competição mais pelo génio táctico de van Gaal e a excelente forma de Robben do que pelo mérito do seu colectivo. Os europeus, que começaram tão mal – Itália, Inglaterra, Portugal, Croácia e, sobretudo, Espanha – impuseram a sua vontade e pela primeira vez venceram um torneio fora do seu continente. Foi também a terceira vitória consecutiva da Europa deixando claro que se a alma do futebol está na América, a qualidade de jogo está na Europa. Será difícil mudar a tendência enquanto a desorganização nos gigantes continentais americanos, africanos e asiáticos continuar a imperar. No final impôs-se a justiça do campeão, premiou-se o esforço de uma Argentina escassa em talento e do trabalho táctico de um génio como van Gaal no pódio. As lembranças dos primeiros días foram engolidas no tempo, de tal forma que parecem a um Mundial diferente do que acabou. No entanto, um palco mágico como o Brasil seguramente tornará as coisas difíceis para os russos em 2018. Será difícil organizar um torneio com tanto simbolismo num país gigante mas desfasado do Mundo onde não há esse perfume de um futebol que já não existe a cada passadeira numa avenida rodeada de memorias e ilusões.  Porque afinal, mais do que um torneio entre países, o Mundial é precisamente isso, um pretexto, de quatro em quatro anos, para celebrar a essência deste beautiful game.

 

PS:  A polémica levantada pela eleiç4ao de Messi como jogador do torneio espelha bem a diferença do que é o Mundial de futebol, em campo, e o torneio organizado pela FIFA, nos bastidores. A competição deixou claro que a FIFA cometeu erros graves – equipas de arbitragem, política de venda de bilhetes, horários de jogos para beneficiar as televisões europeias, o circo à volta da suspensão de Suarez – à medida que o futebol em campo ia sobrevivendo.  Messi não precisa de um premio destes para se reafirmar pelo que é, um dos melhores jogadores de sempre. Mas este não foi o seu Mundial. Não foi um Mundial decepcionante, como em 2010, mas também não foi o torneio que fez seus. Face à ausencia de uma super-figura (desde Ronaldo que não há ninguém com esse simbolismo) o premio fazia muito mais sentido em James Rodriguez, Arjen Robben, Thomas Muller, Philip Lahm ou Javier Mascherano, cada qual representante perfeito de momentos e estilos próprios. Que o argentino não esteja no onze tipo do torneio de quase nenhum jornalista, técnico ou comentador que tenho lido nos últimos dias não surpreendem em absoluto. Como diz, por uma vez bem, Diego Maradona, o mediatismo da entrega do premio a Messi – prémios que nunca foram entregues desta forma circense – eclipsa cada vez mais a meritocracia que rodeia a essência do jogo. Provavelmente tanto ele como Cristiano Ronaldo, esse sim protagonista de um Mundial penoso, estejam no top 3 do próximo Ballon D´Or. O futebol, se é que alguma vez esteve, não tem nada a ver com estes prémios. Mas é preciso vender jornais e encher redes sociais. É o futuro (triste) do jogo.


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Miguel Lourenço Pereira às 21:37 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 09.07.14

Podem passar os anos. As gerações. Haverá momentos únicos, históricos. Viveremos torneios exibidos em novos suportes digitais. O mundo acabará mas os Mundiais continuarão a disputar-se noutra galáxia. O que nunca irá ser esquecido foi o vivido ontem em Belo Horizonte. Naquele que foi, muito provavelmente, o jogo mais importante da história do futebol desde o Inglaterra vs Hungria, entendemos definitivamente que o passado nunca volta.

 

Billy Wright e Tom Finney olhavam desconfiados para um jogador gorducho, cabelo impecavelmente penteado, meias altas. Não parecia um jogador de futebol profissional. Tinha mais aspecto de dono de bar de má reputação. Para esses dois símbolos do Rule Britannia o futebol consistia numa série de leis não escritas. No topo da lista estava a eterna invencibilidade dos ingleses. Os Pross já tinham perdido internacionais, mas sempre longe de casa. No tapete sagrado de Wembley eram invencíveis. Até àquela tarde. O jogador gorducho provou em campo que o futebol não era uma questão de credo, de raça, de coração. Era um jogo altamente sofisticado, cheio de burocráticos detalhes tácticos mas onde o génio individual tinha sempre de casar com o talento colectivo para forjar o triunfo final. Puskas mostrou aos ingleses que o futebol que eles tinham reinventado e dominado de forma insultante tinha chegado ao fim. Demonstrou-o diante dos seus olhos para não haver mais duvidas. A verdade é que há décadas que os ingleses não eram os melhores do Mundo, per se. Nos anos 30 a escola danubiana e a Itália tinham ocupado o seu lugar e do outro lado do Atlântico o futebol rioplatense tinha demonstrado estar, como mínimo, à altura dos insulares. Mas esses duas décadas tinham passado sempre debaixo de um fantasma de genuína admiração pelos ingleses. Viviam da glória passada, do seu jogo fascinante, das suas velhas lendas, como se bastasse vestir a camisola com os três leões, cantar o God Save the Queen e ganhar por direito divino. Os seis golos dos húngaros em Wembley acabaram com oitenta anos de hegemonia emocional inglesa. O império tinha chegado ao fim.

 

Foi isso que aconteceu em Belo Horizonte.

O mesmo fiel retrato dessa tarde de Londres em que o futebol se despediu entre lágrimas das suas origens e seguiu o seu caminho. Cinco anos depois da hecatombe inglesa, apareceu um novo império. Chegou com o mesmo fascínio original provocado pelos ingleses. O Brasil era tudo aquilo que a Inglaterra já não era mais tinha feito o mundo acreditar que sim. Tinha talento, organização, engenho, velocidade e jogadores capazes de roubar corações para a eternidade. O triunfo no Mundial de 1958 tinha sucedido ao drama do Maracanazo e à brutalização do futebol (já) canarinho em 1954. Nesse torneio, disputado na SUécia, começou a saga memorável dos brasileiros. Quatro anos depois o segundo titulo. Em 1970, debaixo do sol asfixiante do Azteca, o tricampeonato Mundial e a certeza de que não havia ninguém no Mundo que pudesse estar à altura da sua sombra. O Brasil tornou-se na nova Inglaterra. Era a segunda selecção de todos, a equipa que chegava sempre como favorita, mesmo em más horas. A que tinha um jogo inconfundível, aquela cujos adeptos podiam presumir de ser únicos e inimitáveis. A “amarelinha” tornou-se tão grande como os “leões”. O God Save the Queen foi substituído pelos batuques, passos de samba e gritos de ordem tropicais. A dinâmica emocional manteve-se. O Brasil perdeu, mais do que ganhou. Perdeu a jogar bem, perdeu a jogar mal. Chegou ao zénite do seu génio colectivo em Espanha, em 1982, baixou às profundezas oito anos depois com um modelo de jogo atrasado no tempo e desfasado no espaço do ADN brasileiro. Recuperou títulos e prestigio mas, como sucedia com a Inglaterra dos anos 30 e 40, já estava longe da sua insultante hegemonia. Foi-se tornando menos Brasil e o resto do Mundo fingiu que não o sabia e continuou a olhar e a assobiar para o lado por respeito a uma velha glória que sabe que os focos já apontam noutra direcção. Mas todas as velhas glórias mais tarde ou mais cedo se confrontam com a realidade. Em casa, diante dos seus, o golpe é sempre muito mais duro. Os ingleses só entenderam que o mundo tinha realmente mudado quando os húngaros destroçaram o seu lote de estrelas intocáveis em pleno Wembley. A humilhação em 1950 contra espanhóis e americanos passou ao lado da critica dos adeptos porque foi distante. O mesmo foi sucedendo com os dramas vividos pelas sucessivas encarnações de um decrépito Brasil. Até ontem.

No Mineirão os brasileiros procuraram sacar das mesmas armas dos ingleses. Houve o hino, o equipamento icónico e o fervor do público que ainda acreditava que existia uma vontade divina que tratava os futebolistas brasileiros como uma raça à parte. Do outro lado um rival que já vinha, como os húngaros, dando sinais nos anos anteriores que o seu caminho era outro. Mas um rival que, ainda assim, sabia que defrontava o Brasil no Brasil. O respeito impunha-se. Tudo isso acabou com o primeiro toque da bola na relva. O Brasil foi atropelado com uma facilidade insultante. Reflexo perfeito daquela tarde em Wembley. Thomas Muller e Toni Kroos reencarnaram em Ferenc Puskas e Nandor Hidgekuti. O Brasil limitou-se a pedir a ajuda dos ausentes, fantasmas antigos e novos criados na psique nacional como canalizador de desculpas. Os golos foram sucedendo-se a um ritmo de jogo de amigos. O estado de estupefacção era mais evidente do desnorte do que o avolumar do marcador. Os brasileiros não acreditavam que mesmo sem futebol, sem jogadores e sem colectivos o facto de ser o Brasil não os deixava isentos de uma noite assim. Os homens que se julgam Deuses olham sempre com descrença para o fatalismo que os espera. A Alemanha foi ela mesma, sem mudar uma vírgula, e bastou-lhe para ganhar. Não quis fazer sangue. O resultado pode enunciar o contrario mas os golos surgiram de forma tão natural que o difícil era não marcá-los. Tivesse a Alemanha jogado ao mesmo ritmo os noventa minutos e o marcador teria colocado o Brasil ao nível futebolístico do Guam. Era ontem o nível onde estava.

 

O fim do império britânico foi confirmado em Londres naquela tarde. Os ingleses ainda assim demoraram a dar-se conta. Meses depois foram a Budapeste perder por sete golos. Nos três Mundiais seguintes perpetuaram a sua fama de decadentes figuras de cera com resultados decepcionantes atrás de resultados decepcionantes. O titulo conquistado em 1966, a hegemonia dos clubes insulares na segunda metade dos anos setenta e o sucesso da Premier League serviram de consolo emocional. O resto do Mundo continua a olhar para a Inglaterra com uma reverência emocional que já não se confunde com respeito desportivo. O processo futuro  do Brasil tem tudo para seguir o mesmo caminho. Os problemas do futebol brasileiro são tão antigos como o tempo. Quando acabou a mágica geração dos anos cinquenta e sessenta, apareceram de novo os treinadores brutalizadores do esférico , os desastrados “cartolas” da CBF e no coração dos clubes. A Globo fez do futebol o aperitivo das novelas. A decadência em campo começou no próprio jardim de casa. Há mais de vinte anos, desde o São Paulo de Telé Santana, que não há uma equipa brasileira de clubes digna desse nome a nível de projecção global. Os jogadores foram sendo vendidos cada vez mais cedo, cada vez mais fora de tempo e o espírito da “ginga” e do “malandro” foi substituída pelo engrossar de legiões de operários made in Europa. A tudo isso a resposta da CBF foi a eleição de treinadores desinspirados ,de Carlos Alberto Parreira a Scolari sem esquecer os Zagallo, Menezes ou Dungas. Sem lideres fora e dentro de campo o futebol brasileiro tornou-se cada vez mais o fiel reflexo dos decadentes ingleses. O jogo de Belo Horizonte abriu definitivamente os olhos aos brasileiros e aos descrentes do Mundo.

O jogo bonito há décadas que não existe, ontem o que caiu ao chão foi a constante sensação de que, do nada, o Brasil pode voltar a ser o velho Brasil pelo simples desejo de sê-lo. Esses dias acabaram para sempre. O novo império está por entregar e será seguramente partilhado pelos herdeiros ideológicos do tiki-taka espanhol , alemão ou quem os queira seguir. O que é certo é que esta história chegou ao fim. E daqui a muitos anos os nossos filhos vão pedir-nos, â hora de ir para a cama, que lhes contemos essa fábula mágica do dia em que a Alemanha acabou com essa Camelot que um dia se chamou Brasil.


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Miguel Lourenço Pereira às 18:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 29.06.14

Convocar jogadores com elevado risco de lesão? Estagiar longe dos paradigmas climáticos com que se iam encontrar os futebolistas? Chegar o mais tarde possível a um centro de estágio que não só era distante dos locais de jogos mas cujo clima era paradigmaticamente diferente? Ignorar o estado físico de jogadores em favor dos serviços prestados? Um desses erros, muitas vezes, é suficiente para causar a eliminação de uma equipa numa grande competição. Portugal, a Federação e o seleccionador, quiseram ir mais longe. Cometeram-nos todos.

 

Em 2010 o arrogante capitão português justificou a derrota contra a Espanha com um lacónico "perguntem ao Carlos Queiroz" aos jornalistas.

Parecia que tudo o que tinha corrido mal na África do Sul - quatro jogos, dois empates, uma derrota e uma goleada a uma das mais fracas selecções do torneio - se devia apenas á má gestão do treinador que perdeu Nani a poucas semanas do arranque da prova e que preferiu a meritocracia sobre o talento colectivo ao não convocar João Moutinho depois de uma temporada para esquecer. Portugal não jogou bem, caiu contra os futuros campeões com um golo no limite do fora-de-jogo, desenhado brilhantemente por Xavi e executado por Villa, num jogo em que os espanhóis tiveram muitos problemas em fazer valer a sua superioridade até á entrada de Llorente. Portugal saiu nos oitavos-de-final do torneio mas a culpa era, exclusivamente do seleccionador. No entanto, a seleção tinha realizado uma preparação física adequada. Havia pouca discussão entre os jogadores convocados, o centro de estágio foi escolhido de forma estratégica e apesar das evidentes limitações tácticas de Queiroz, pouco mais se podia esperar de uma geração que vinha de seis anos de "scolarismo" decadente.

De repente, em 2014, o ano da mais miserável participação portuguesa numa prova internacional, a culpa já não é do "Paulo", as criticas ao centro de estágio, ao estado físico de jogadores e ás omissões dos convocados já não fazem qualquer sentido. Como Cristiano Ronaldo, o mesmo que culpou o homem que tanto o ajudou em Old Trafford, preferiu assumir o complexo de pequenez - que não tem qualquer sentido no quadro competitivo da prova - de capitão das Quinas, instalou-se o silêncio incómodo. Poucos perguntam, poucos criticam, poucos querem saber mais não vão ofender um seleccionador que sabe que tem o lugar garantido apesar de ter tido a pior prestação da história do futebol português numa prova internacional. A cultura do amiguismo na imprensa e a impunidade do circuito Mendes e dos abutres que gerem a Federação sai impune do Brasil.

 

Portugal voltou para casa mais cedo porque tinha de voltar. Era impossível uma selecção que se recusou a assumir o mínimo profissionalismo para embarcar nesta viagem seguir em frente. Como sempre sucede, a incompetência crónica de um jogador acentuou a derrota. Se Ronaldo tivesse sido mais Ronaldo, Portugal podia ter seguido em frente e tudo isto seria escondido debaixo do tapete. Mas os golos falhados, incrivelmente, contra o Gana, foram suficientes para demonstrar que o "melhor do mundo" só o é quando está motivado pelo seu duelo pessoal com Messi lá para alturas da entrega do Ballon D´Or. Ronaldo foi um problema, nunca a solução, mas não foi, de longe, o único nem o mais grave.

A FPF funciona sempre mal em torneios longe da Europa. Foi assim no México 86 e na Coreia do Sul em 2002. É nessas viagens que se põe á prova o grau de incompetência do dirigismo português. O grande jornalista brasileiro Juca Kfouri habitualmente diz que Deus colocou no Brasil os melhores jogadores e os piores dirigentes. Juca conhece pouco Portugal. A FPF cometeu erros que uma federação distrital da Sibéria dificilmente cometeria. Renovou antes do torneio um seleccionador limitado, obstinado e sem nível para estar ao leme do navio. Preferiu uma tour para fazer ingressos nos Estados Unidos - os espanhóis e os ingleses, em 1950, fizeram o mesmo e pagaram o preço - em vez de uma adaptação longa e adequada ao difícil clima brasileiro. Elegeram um centro de estágio longe de todos os estádios onde Portugal jogaria - mesmo qualificando-se para oitavos - e com um clima diametralmente oposto ao que ia encontrar em Brasilia e Manaus. Permitiu um discurso paralelo constantemente entre o ambicioso capitão e o resto do plantel. Não o calou quando este sugeriu que este era o "ano de Portugal" nem o censurou quando o mesmo, quinze dias depois, tentou enganar os adeptos portugueses com um "há equipas muito melhores que nós".

Mas talvez o elemento mais grave de todos tenha sido permitir que a convocatória final fosse a que fosse. Na esclarecedora - para bom entendedor - conferência de Henrique Jones, ficou claro que muitos dos jogadores portugueses não estavam em condições físicas para disputar o torneio e que a propensão para contrair lesões era a mais alta de sempre numa convocatória oficial. Jones, médico da FPF, colocou o dedo na ferida deixando evidente que a FPF era conhecedora dos problemas que viriam caso Bento seguisse em diante com a ideia de enviar o seu pelotão de legionários coxos, cansados e prontos a desertar para a batalha mais importante da sua vida. Bento, sargento pequeno e sem sentido estratégico, caiu na ilusão que um pelotão que dois anos antes - com outra condição física, noutro cenário climatérico, dois anos mais novos - lhe tinha respondido bem em batalha o faria de novo. Porque sim. Sem mais.

Portugal foi a chacota da Europa á medida que as lesões se sucediam. Outros países, com ambições maiores, preferiram não arriscar. Ribery não viajou. Falcao também não. Ronaldo sim. E com ele vieram também Hélder Postiga, Nani, Fábio Coentrão Hugo Almeida, Raul Meireles, André Almeida, Bruno Alves, jogadores fisicamente em estado deplorável. Todos eles titulares, em algum momento. Uns acumulavam lesões da temporada exigente. Outros, pelo motivo oposto, tinham jogado tão pouco que ao minimo sinal de esforço romperam. Ronaldo, em pior estado que todos, insistiu em enganar tudo e todos, desviando a atenção para o penteado. O seu caso é o mais compreensível mas foi também o pior gerido. A FPF permitiu esse esquadrão de lesionados viajar sem forçar a mão do seleccionador. Depois, confirmou-o no posto, dando sinais de apoiar a sua politica de auto-destruição.

 

Bento é o principal responsável por esta lamentável campanha.

Mas ao contrário de António Oliveira em 2002 ou de Carlos Queiroz em 2010 não tem a imprensa a pedir-lhe a cabeça. É tratado com respeito e reverencia apesar de não ter acertado uma só jogada. Só a pressão mediática do grupo Mendes e o medo que grassa nos media portugueses o pode explicar. Poucos estão preparados a exigir uma solução exemplar como a de Prandeli, um treinador com muito maior exigência aos ombros que Bento, e com um resultado igual de decepcionante. Com ele foi também o presidente da federação italiana. Num pais onde a corrupção e o imobilismo é ainda maior que Portugal fica a lição para o futuro.

O seleccionador insistiu numa convocatória envelhecida, sem opções para todas as posições e mantendo o veto a alguns jogadores que lhe podiam ter sido úteis por questões de ego pessoal. Sabedor do estado físico de muitos não se entende a ausência de laterais dos convocados (Antunes, Duda, Eliseu, Cedric), a presença de um central como Ricardo Costa quando se pede sangue novo como Miguel Rodrigues, José Fonte ou Paulo Oliveira, e a sobrecarga de anos no meio-campo onde nem sequer William teve a oportunidade de entrar até ao último hurrah. Que um jogador do estado fisico de Miguel Veloso tenha sido titular em todos os jogos diz tudo o que é preciso saber de Bento. Em casa ficaram Adrien, André Gomes, André Martins, Daniel Carriço, João Mário e até um Tiago que pertence a essa lista de excluídos onde estão também Danny e Quaresma. O seleccionado português - que nem se demiti nem será demitido entre outras coisas porque tem o apuramento para o próximo torneio no bolso antes de começar a jogar já que um Europeu com 23 classificados numa confederação de 52 federações parece mais do que claro - nem sequer equacionou uma mudança táctica. As evidentes limitações de Ronaldo e a fundamental ausência de Coentrão tornaram o lado esquerdo da defesa portuguesa o corredor preferencial de alemães, americanos e ganeses. Uma situação que Ancelooti, em Madrid, resolveu pragmaticamente trocando o 4-3-3 por um 4-4-2 com Ronaldo com verso solto no ataque e um reforço posicional. William em campo (com Meireles escorado para a esquerda) teria resolvido a equação e dado liberdade a Moutinho, como se viu no jogo com o Gana, para pegar no jogo. Uma opção tão elementar que surpreende que não tenha sido sequer equacionada. É o nível de qualificações de uma equipa técnica que beneficiou de dois golos in extremis de Varela - em 2012 e contra os Estados Unidos - para não estar matematicamente eliminado de duas provas á segunda jornada de forma consecutiva.

O futuro da selecção portuguesa depende da vontade de mudar. É evidente que é nula. Não há demissões, nem nos cargos federativos nem no banco. A FPF continua a fazer-se de desentendida aos seus erros de amadorismo puro, encarnados na figura inconsequente de Humberto Coelho, o treinador que nenhum jogador respeitava em 2000. Bento fica e com ele ficam os seus. A entrada de caras novas será lenta, penosa e provavelmente condicionada aos agentes a que pertençam os jogadores como tem sido. Com ele ao leme será difícil ver a necessário mudança de guarda como Holanda, França ou Inglaterra fizeram neste torneio. Há um excelente grupo de jogadores que precisa de minutos como profissionais e internacionalizações para crescer. Um lote de dezenas de futebolistas á espera do seu lugar ao sol. Provavelmente terão de esperar mais dois anos até que alguém se dê conta, finalmente, que o mandato de Paulo Bento foi o mais nefasto da história do futebol internacional português.



Miguel Lourenço Pereira às 12:03 | link do post | comentar | ver comentários (19)

Segunda-feira, 23.06.14

Portugal está a noventa minutos de realizar a sua pior campanha internacional da história. É a primeira que disputa com um Ballon D´Or vigente no onze titular. Essa é a realidade do futebol português. Um génio individual, um pobre colectivo. A equação só poderia funcionar se, a unir os dois extremos, houvesse um treinador competente e uma federação profissional. Sem uma ponte sólida o naufrágio para quem quer atravessar um rio tão largo como o Amazonas é inevitável.

 

Ronaldo é uma bênção para o futebol mundial e um karma para o futebol português.

Quando a proclamada Geração de Ouro – que só o trabalho de Mourinho no FC Porto conseguiu prolongar com a incorporação a uma equipa caduca a jogadores por ele forjados – chegou ao fim, o destino de Portugal parecía traçado. Como nos anos sessenta ou oitenta esperava-se outro oásis. Foi o que passou com belgas, húngaros, austríacos, jugoslavos (na versão sérvia) ou dinamarqueses, países dessa segunda divisão europeia onde, historicamente, podíamos encaixar Portugal. Mas o deserto não apareceu. Fruto de um bom ranking acumulado, do bom envelhecimento de jogadores presentes no Euro 2004, a saga prolongou-se até 2010 com resultados aceitáveis. Portugal não deslumbrava, não ia longe mas, também, não era uma chacota internacional. Conseguiu-se o apuramento (in extremis) para o Euro 2008 e o Mundial 2010 e uma vez lá uma eliminação honrosa contra futuros finalistas de ambos torneios. Nada a dizer para um país pequeno com uma liga a perder qualidade e onde o grosso da cavalaria envelhecia sem opções de futuro à vista. Parte dessa transição deveu-se a Cristiano Ronaldo.

Ícone mediático, melhor jogador do Mundo entre 2007 e 2009 e um digno segundo no anos seguintes, CR7 manteve Portugal no mapa internacional. As suas exibições, golos e influencia foram balizas emocionais importantes enquanto os Rui Costa, Figo, Simão Sabrosa ou Nuno Gomes iam dizendo adeus. À sua volta deixaram de estar as primeiras espadas e começaram a aparecer as suas sombras, os suplentes. Não havia Ricardo Carvalho, passou a haver Bruno Alves. No lugar de Simão, surgiu Nani. No de Deco, Maniche e Costinha apareceram Veloso, Moutinho e Meireles. A qualidade, naturalmente, ia piorando mas Ronaldo ia disfarçando e as segundas filas, numa primeira versão, davam conta do recado tendo em vista as suas naturais limitações. Nem Scolari nem Queiroz eram treinadores de topo mas encontraram um certo equilíbrio emocional entre o passado e o presente. Depois veio Paulo Bento e os velhos fantasmas de desnorte da Federação Portuguesa de Futebol e o fim tornou-se trágico e inevitável. Tal como em Saltillo 86 e a Coreia do Sul em 2002 ficou claro que, fora da Europa, Portugal está condenado a sofrer os favores, tráficos de influencias, a corrupção, amadorismo puro e genuína incompetência dos seus dirigentes desportivos. A necessidade de adaptar-se a outros climas, realidades, a distancia de casa, os compromissos publicitários para encher bolsos alheios primam sobre o trabalho desportivo.

Não é coincidência que nos três casos a prestação portuguesa tenha sido acompanhada dos mesmos males, desde uma má preparação prévia, um penoso estado físico, uma eleição de jogadores desacertada e um treinador que é tudo menos o homem indicado para o lugar. Tropeçar numa pedra passa a todos, em duas aos distraídos, na terceira…já conhecem o refrão…

 

Ronaldo, que é sem duvida um dos mais brilhantes jogadores da história, foi um bálsamo emocional mas também a fonte de novos e perigosos problemas. O seu egoísmo, habitual em estrelas do seu calibre, aliada à gestão de fraca gente e a penosa influencia do seu omnipresente agente, condicionaram os últimos cinco anos da selecção. Portugal joga apenas e só em função de Ronaldo.

Deixou de ser uma equipa – como era nos días de Scolari - para ser um veiculo promocional. Deixou de ter uma ideia de jogo, para actuar sempre na mesma linha. Deixou de ser um espaço onde vêm os melhores e os mais aptos para ser um grupo de amigos que se juntam para uma churrascada em casa do dono da bola. Ronaldo, um génio quase sem precedentes no futebol português, nunca conseguiu ter a humildade de Eusébio, Futre ou Figo e de procurar o melhor para si tendo o melhor dos outros. Ajudou, com a sua influencia (sua, a dos seus melhor dito) perpetuar um estado de coisas em que a função de dirigir se tornou um trabalho fácil e sem exigência porque a margem de escolha era nula. Portugal, o mesmo país que já teve a Ballon D´Or (e outros que o podiam ter sido) no passado, passou a ser o Ronaldo Futebol Clube. Nesse mundo não existiam problemas porque o “melhor do mundo”, como cansativamente os jogadores, técnicos e dirigentes repetem não vá alguém esquecer-se, resolve. E muitas vezes resolveu. Contra a Holanda, em 2012. Contra a Suécia, em 2013, Ronaldo foi de facto o jogador que todos esperam que seja. Mas essas exibições, nos momentos chave, estão condicionadas exclusivamente ao seu estado de forma, física e anímica. E Ronaldo chegou ao Brasil destruído, por culpa própria.

Em ano de Mundial os jogadores de topo sabem o que devem fazer. É uma regra não escrita que Messi, Neymar ou Robben, figuras individuais de destaque até agora, interpretaram bem. Os seus países agradecem. Ronaldo preferiu ir por outro caminho. Conhecedor do estado do seu joelho, preferiu gastar todas as balas cedo. Desgastou-se em jogos intranscendentes na liga espanhola contra os avisos dos médicos do próprio clube. Falhou jogos importantes – Copa del Rey, jogo em Dortmund da segunda-mão dos quartos-de-final – e foi figura de corpo presente na final da Champions League e no final de época. Mas nunca parou para descansar. Forçou e fê-lo com a consciência de quem sabe o que vem depois. Para quê? Uma terceira Bota de Ouro (partilhada com um jogador que jogou menos minutos, jogos e numa equipa inferior à sua) e pouco mais. Quando chegou ao Brasil, Ronaldo vinha destroçado e Portugal não tinha plano B. Teria sido melhor para ele fazer como Falcao e dar um passo ao lado. Teria forçado Paulo Bento a ser treinador, por uma vez na vida, e organizar um sistema colectivo capaz de sacar o melhor de cada jogador para o bem comum. Enquanto mentia ao Mundo (e talvez a ele próprio) sobre a sua condição física, o ego daquele que foi, talvez, o pior capitão que Portugal já teve, fez uma cruz ao destino do seu próprio país. Ele tinha de jogar – num estado físico lamentável por si provocado – e sabendo que a sua presença só ia piorar as coisas, não usou a sua influencia para exigir uma convocatória de jogadores fisicamente preparados para suprir a sua falha. Não, vieram os amigos do costume e com eles jogadores em estado tão mau ou pior que o seu.

Bento, a FPF e Ronaldo alienaram da selecção a vários jogadores (Tiago, Carvalho, Danny, Duda, Antunes) e taparam a porta a novos ao contrário do que fizeram franceses, holandeses e ingleses. Ao Brasil - depois de épocas péssimas na sua esmagadora maioria - vieram futebolistas caducados, como os yogurtes, impróprios para consumo e indigestos. Jogadores que, noutro país, tinham há muito dado o lugar à geração seguinte mas que em Portugal se perpetuam para lá do imaginável. Basta ter um amigo ou o agente certo. Bento preferiu ter a Eder, Postiga, Almeida, Veloso, Meireles, Bruno Alves, Nani e Patricio a contar com os Cavaleiro, Gomes, João Mario, Bruno Fernandes, Adrien e Antunes. Pagou o preço quando os jogadores se foram tornando cadáveres em campo ao menor sopro de vento. Ronaldo tentou ser El Cid mas acabou por transformar-se em zombie durante 180 minutos. Todos os génios individuais que viajaram ao Brasil disseram presente. Todos menos o que vinha com o titulo mais pomposo.

 

Portugal está destinado, naturalmente, a sofrer mais derrotas, não qualificações e eliminações precoces. O sol continuará a nascer. Esse não é o problema num torneio onde até a campeã do Mundo caiu. A questão grave no meio deste drama digno de telenovela é a repetição histórica dos mesmos erros. Era um grupo complicado e cair cedo uma possibilidade. É a forma como Portugal cai, a falta de espírito critico de adeptos, jornalistas e dirigentes e a forma, previsível, como tudo continuará na mesma que preocupa. Daqui a dois anos Paulo Bento ou outro do seu perfil hermético continuará a obedecer a Ronaldo e ao seu agente, a esquecer-se que a selecção é de todos e não de dois e a eleger os nomes errados para o desenho táctico errado nas circunstancias erradas. Portugal dificilmente será campeão mundial alguma vez. No “Sonhos Dourados” explico o porquê. O que podia poupar era a constante humilhação de comportar-se como um clube de bairro quando o dono de bola se chateia com o mundo e decide pegar nela e voltar para casa deixando dez milhões de pessoas a perguntar-se…”e agora quê?”      

 

PS: Depois de escrever este artigo li as declarações dadas pelo capitão da selecção de futebol. Apenas confirmam o que disse antes. Para Ronaldo, a selecção portuguesa é um brinquedo nas suas mãos. Os adeptos portugueses têm de agradecer que não tivesse ido de férias depois de ganhar a Champions (como se calhar devia ter feito), tem de suportar as suas mentiras sobre a sua penosa condição fisica para só no último suspiro se render á realidade e. ainda para mais, têm de ouvir o seu capitão dizer que há equipas melhores (os EUA são mais organizados, não melhores) e que nunca se imaginou a vencer o Mundial. Nós, também não. O que se pedia era uma exibição á altura do escudo. O que Ronaldo entendeu foi um torneio á altura do ego.



Miguel Lourenço Pereira às 18:21 | link do post | comentar | ver comentários (21)

Quarta-feira, 18.06.14

Espanha já pertencia á galeria dos mitos da história do futebol ao lado de Uruguai, Itália, Brasil e Alemanha por mérito próprio. O que lograram jamais será esquecido. Mas depois da progressiva decadência do Barcelona idealizado por Guardiola - cujo ADN se transportou para a selecção - e a dificuldade de Del Bosque em renovar o grupo sem comprometer velhas amizades deixou claro que o fim estava mais perto do que o talento individual da armada espanhola fazia prever. Ninguém seria capaz de adivinhar uma imagem tão lamentável mas o fim do império estava escrito nas estrelas. 

No próximo Europeu será difícil encontrar uma equipa que possa ser tão favorita como esta Espanha.

Vão estar, seguramente, muitos dos convocados para o Brasil a que se juntarão os Thiago, Deulofeu, Jesé, Isco, Iñigo Martinez ou Iturraspe. Jogadores de máximo nível. Jogadores que podem engolir outra vez o Mundo. Mas será já outra história. Dos sobreviventes dos seis anos de domínio absoluto do futebol Mundial sobreviverão poucos mitos. Iniesta, Ramos, Piqué e Fabregas, seguramente. Alguns actores secundários como Silva, Mata, Alba, Busquets, Martinez e pouco mais. Os nomes mais sonantes - Casillas, Xavi, Torres, Villa, Puyol, Alonso - terão dito adeus. É o fim de uma era. De uma era histórica e que dificilmente se poderá repetir nas próximas gerações. A última selecção a lograr uma sensação de hegemonia tão grande foi a Alemanha dos anos 70 e essa não conseguiu ganhar mais do que dois torneios seguidos. Antes, o Brasil de Pelé e Garrincha, a Itália de Pozzo e o Uruguai de Andrade, foram capazes de ter o Mundo a seus pés por um período de tempo similar. Nem a França de Zidane, a Argentina de Maradona ou a Holanda de Cruyff podem presumir do que esta mítica geração espanhola conseguiu. E no entanto, a festa acabou mal.

Não é a eliminação que custa reconhecer. Outros campeões caíram. Mas nunca tão cedo e nunca tão mal. A Espanha que viajou ao Brasil logrou um golo de penalty em 180 minutos e sofreu sete. Deu uma imagem de impotência desoladora, fisica e mentalmente. Ao primeiro sinal de alarme abandonou o tiki-taka, perdeu noção das referências. Os resultados espelharam apenas o que o campo não conseguia esconder. Esta foi, ironicamente, a pior prestação da Espanha num torneio internacional. Impensável.

 

A grande responsabilidade desta hecatombe pertence, naturalmente, a Del Bosque.

O seleccionador herdou uma equipa habilmente montada por Aragonés com um modelo de jogo - 4-5-1, repleto de centro-campistas "bajitos" que privilegiavam o jogo de toque - que Guardiola no Barcelona levou a outra dimensão. Durante quatro anos o destino de clube e selecção seguiram lado a lado. Onde Pep tinha a Messi, o génio que tudo desiquilibrava, Del Bosque contava com a organização defensiva como principal arma. Em 2010 os espanhóis venceram o primeiro Mundial com uma especie de catenaccio com bola. Ganharam todos os jogos a eliminar por um a zero com uma arma tão simples como eficaz, a de defender com a bola nos pés. As longas e eternas possessões desarmavam qualquer ataque do rival, afastavam-se da baliza e desgastavam fisica e mentalmente o oponente até que, como um sniper, chegava o tiro de morte. Não foi espectacular mas foi eficaz. A magia de 2008 tinha-se perdido em grande parte em 2012. Repetiu-se o titulo - com uma final de antologia - mas era evidente que o modelo passava na selecção pelos mesmos problemas existenciais do Barcelona. E Messi continuava ausente da equação. Com a saída de Guardiola a decadência do Barça acentuou-se ainda que com Tito e o hara-kiri de Mourinho em Madrid os blaugrana tivessem ganho mais um titulo. A idade não perdoava a génios como Puyol e Xavi e a cabeça de Piqué estava noutra coisa. Iniesta, só, pouco podia fazer. A diáspora dos Silva, Cazorla, Torres, Llorente, Navas, Martinez exprimia os jogadores mas não trazia nada de novo. E apesar dos êxitos da Rojita, Del Bosque não encontrava espaço para a novidade.

O seleccionador cometeu três erros primários. Convocou os nomes e não os jogadores, favorecendo a futebolistas em clara decadência fisica e competitiva ou colocando-os como titulares quando havia melhor opções. Optou por manter o mesmo estilo de jogo sem verticalidade mas com uma equipa fisicamente menos preparada e com mais anos nas pernas. Sem o oportunismo de Villa e Torres - heróis em 2008 e 2010 - e a mobilidade de Fabregas (zero minutos, fundamental em 2012) não havia perspectiva de organização defensiva. O modelo tornava-se estéril. A chamada de Diego Costa foi, talvez, o maior erro. Jogador moldado por Simeone desde a mediocridade está condenado a voltar a ela por muito que Mourinho se empenhe. Poucos jogadores encaixam pouco num modelo como Costa com Espanha. Ficou evidente durante  todos os minutos que disputou. Mas foi preferido a Llorente - capaz de desbloquear jogos difíceis - e Negredo, um avançado em melhor forma e que encaixa no perfil do colectivo. Sem golo, sem organização, sem pulmão e sem confiança em jogadores chave como Casillas, Pique ou Xavi, parecia evidente que algo trágico se cozia nos fornos da história. A hecatombe foi ainda mais dura.

 

Espanha é a primeira selecção eliminada e justamente. A forma como a Holanda e o Chile souberam deixar a nu as suas debilidades foi indigna de uma campeã mundial em titulo. Os espanhóis foram superados em todos os momentos, em todos os sentidos. O renascimento é inevitável e necessário e ninguém voltará a descartar a Espanha como sucedeu durante anos. A saga mágica, essa, acabou. Era uma crónica anunciada. Os espanhóis já têm o seu Maracanazo. A história já os tem guardados na memória.



Miguel Lourenço Pereira às 22:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 16.06.14

Portugal não perdia por mais de três golos há muito, muito tempo. 1983 foi, realmente, noutra vida. Na história, a equipa das Quinas nunca tinha caído por 4-0 em Europeus e Mundiais. Pode juntar o novo recorde á lista na primeira investida em Vera Cruz. Paulo Bento armou uma equipa incapaz de jogar futebol, mentalizada para uma derrota que nasceu de um cúmulo de erros em todas as linhas. A Alemanha nem teve de ser ela mesma para colocar Portugal numa posição humilhante. Se tantas vezes a selecção deu motivos de orgulho a um país cinzento, na Bahia a equipa das quinas envergonhou todos os que gritaram por ela.

Paulo Bento é um seleccionador com tantas limitações que é extremamente difícil partir para cada jogo de Portugal sem temer o pior.

Apesar do brilharete no Euro 2012 - duas derrotas, três vitórias, duas in extremis e uma muito bem lograda - a sua versão de Portugal é talvez a mais triste que alguma vez subiu a um tapete verde. Muitas vezes pré-histórica na forma como entende o jogo, a fase de qualificação num grupo totalmente acessível lançou os velhos sinais de alarme. Se não fosse por um Cristiano Ronaldo em momento estelar - quando ainda sonhava com o Ballon D´Or que acabou por ganhar - contra a Suécia e esta crónica seria apenas fruto da nossa imaginação. Portugal, que durante uma década fez parte da primeira divisão europeia, com Bento transformou-se em chacota internacional. Só faltava um jogo que o confirmasse de forma oficial. Não foi preciso esperar muito. O primeiro desembarque no Brasil chegou em forma de naufrágio.

Bento é limitado como treinador mas é ainda pior como seleccionador. A sua convocatória trazia um cheiro a mofo evidente. Ao contrário de Roy Hogdson, preferiu ignorar a juventude portuguesa para dar minutos e minutos a jogadores que já demonstrarem em inúmeras ocasiões serem verdadeiros yogurtes caducados. Homens da sua confiança - e com o sargento Bento isso é palavra de ordem - e também da mais influente agência de futebolistas do Mundo, os vinte e três resumiam-se a três grupos de jogadores. Os que jamais teriam nível para estar no torneio, a meia dúzia de jogadores de bom nível que Portugal ainda tem e Cristiano Ronaldo.

Se a convocatória já de por si previsível, anunciava que tipo de selecção íamos ver no Brasil, o primeiro onze deixou clara a mensagem final. Miguel Veloso, dono de uma época para esquecer perdida na Ucrânia, foi eleito no lugar de William Carvalho. Bruno Alves suplantou Luis Neto ainda que o seu colega no Zenit tenha sido muito mais eficaz ao longo do ano. Rui Patrício suplantou Beto por capricho puro do seleccionador e tanto Raul Meireles como Nani deixaram claro que nem a forma física nem o estado actual são critérios para o treinador. Portugal estava a caminho de um cabo das tormentas com um capitão com vontade de beijar as rochas.

 

O jogo começou da forma previsível.

Os alemães cómodos com a bola, os portugueses sem saber o que fazer quando algum ressalto lhes fazia cair o esférico nos pés. Ronaldo, dedicado a conquistar a Bota de Ouro, jogava mas visivelmente fora de forma. É o preço de todos os minutos supérfluos acumulados na liga que lhe agravaram uma lesão identificada - mas ignorada pelo jogador - em Janeiro. Do outro lado Nani perdia cada esférico que recebia. Moutinho, em péssima forma física, era engolido pela combinação entre Khedira, Lahm e Kroos. E não havia mais ninguém para jogar á bola com critério. Previa-se um encontro de máximo sofrimento mas esperava-se que a defesa - o baluarte em 2012 - aguentasse a carga de uma equipa teutónica sem avançado fixo mas com um Muller endiabrado. A equação teve resolução rápida.

João Pereira, o perfeito sinal de que o nível de exigência para chegar a internacional A tem recuado aos níveis dos anos setenta, cometeu um penalty infantil que o número 13 alemão não falhou. Foi o primeiro de três golos para Muller, ele que ainda teve tempo de deixar a sua marca no jogo de outra forma. As suas movimentações foram destroçando uma defesa desnorteada onde se notava que nem Pepe nem Alves tinham capacidade para a exigência do momento. De um erro da dupla de centrais surgiu o canto que Hummels aproveitou para ampliar a vantagem. O guião estava lançado. Do outro lado Portugal resumia a sua exibição a dois remates, o primeiro um esforço ridículo de Hugo Almeida - talvez o pior avançado da história da selecção portuguesa - e o segundo um tiro cruzado de Ronaldo que deixou claro que o número 7 não tem capacidade física para cair em cima do rival como é capaz de fazer. Depois apareceu Pepe e o navio afundou.

O central luso-brasileiro é capaz do melhor e do pior. Um dos melhores jogadores a nível mundial na sua posição, Pepe é também dotado de uma capacidade crónica de cometer erros infantis. Num lance com Muller, depois de fazer falta, ignorou o piscar de olhos do árbitro em deixar o jogo seguir e decidiu voltar para trás para encarar o alemão, deitado no chão. Encostou-lhe a cabeça e foi suficiente. Muller não fez teatro, pelo contrário, mas o árbitro, consciente de quem é Pepe num campo de futebol, não teve meias medidas. Podia ter resolvido tudo com um amarelo mas o acto irreflectido e estúpido de um jogador que até então só tinha cometido disparates foi punido merecidamente com o vermelho. Portugal rendeu-se e esperou o pior. Que veio. Dois golos mais de Muller, ambos com a preciosa colaboração de um cumulo de erros defensivos que não deixaram ninguém bem na fotografia. Nem Patricio - autor de passes inexplicáveis e de uma total insegurança nos cruzamentos - nem André Almeida se livraram. O lateral do Benfica rendeu Coentrão, o único que esteve ao seu nível mas que acabou por cair vitima de uma lesão muscular. Como Almeida está fora de combate. Provavelmente até ao fim do torneio, ou melhor dito, da participação portuguesa em prova. Vai fazer falta, até porque Ronaldo continua desinspirado e mais preocupado com o número de golos de Messi - os seus livres a distâncias impossíveis demonstram-no bem - e Nani é uma sombra do que podia ter sido e nunca chegou a ser. A Alemanha podia ter feito mais sangue. Podia até ter lançado Klose. Preferiu guardar energias para duelos mais á frente. Sabem que podem ir longe e que há que ter cabeça fria. Tudo aquilo que faltou a Portugal.

 

Bento podia ter tranquilizado a equipa. Perder com a Alemanha era um cenário previsível e são os duelos com o Gana e os Estados Unidos que vão decidir o futuro de Portugal. Perdeu ele próprio a cabeça, durante o jogo e nas declarações posteriores atirando areia para os olhos como lhe é habitual. A péssima preparação fisica realizada pelos portugueses e uma convocatória repleta de lesionados em vez de jogadores em forma e mais jovens também tem as suas consequências. Em 2012 jogaram apenas quinze dos vinte e três. Essa legião pretoriana tem mais dois anos em cima e dois anos decepcionantes. Mas para o seleccionador essa realidade foi ignorada em prole de outros interesses. Agora, nos 180 minutos mais importantes da história recente de Portugal, é com Ricardo Costa, André Almeida, Éder e Varela que Bento terá de evitar repetir a debacle de 2002. Nesse torneio asiático - onde tantas coisas parecidas com este aconteceram (lesão de Figo/Ronaldo, estágio mal preparado, jogadores em más condições físicas, legião de eleitos preferida a jogadores em forma) - as derrotas com os Estados Unidos e Coreia doeram aos adeptos mas vinham em consonância com o historial recente de Portugal no torneio, onde não participava há dezasseis anos. O desastre de Bahia, contra a Alemanha, é algo pior. Em tempos de crise, em tempos de angústia, o futebol tornou-se numa tábua de salvação emocional para um país que gosta de presumir de algo onde sente que tem alguns dos melhores do Mundo. Perder por 4-0 e a forma como se perdeu foi talvez a maior humilhação possível para os adeptos lusos. As limitações de Bento, do seu modelo e da omnipotência do Ronaldo tiveram finalmente factura a pagar. E não é barata.



Miguel Lourenço Pereira às 21:43 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Quinta-feira, 05.06.14

Hoje é habitual a cada Mundial que apareça um novo videojogo. Nos anos oitenta não havia nada mais original. Antes da Electronic Arts tomar conta do mercado, antes das consolas modernas, World Cup Carnival foi o primeiro videojogo inspirado num Mundial. O México 86 foi um clássico também por culpa deste jogo que se tornou no alvo preferido de critica dos primeiros gamers.

A meados dos anos oitenta as consolas começavam finalmente a encontrar o seu espaço na indústria do entretenimento. A guerra entre Spectrum, Commodoro e Atari estava ao rubro. Nomes como Sega, Nintendo ou Sony ainda estavam a anos-luz de aparecer em disputa e os PC´s de casa eram luxos de poucos. Nessa dimensão, quase paralela, começou a forjar-se a primeira cultura de gamers especializados. E a nascer os primeiros titulos de jogos dedicados a grandes eventos. Nenhum maior que um Mundial de futebol.

Desde 1998 que a Electronic Arts canadiana tem os direitos da FIFA para realizar o seu habitual update da saga FIFA com as selecções oficiais, os estádios, a bola do torneio e toda a parafernália habitual. São quase vinte anos que parecem deixar a entender que não houve passado antes desta era. Mas houve. Uma época em que a US Gold reinava sobre os torneios de selecções. Antes do World Cup Usa 94 e do mitico Itália 90. A época do World Cup Carnival, um dos jogos mais criticados e inovadores da história.

 

Em 1986 a empresa US Gold conseguiu da FIFA os direitos para comercializar um jogo de consola dedicado ao Mundial que se ia disputar no México. O jogo contava com as licenças autorizadas de todas as selecções participantes na competição, algo totalmente inédito. Parecia uma mina de ouro. Ironicamente o projecto foi um fracasso junto dos jogadores.

A empresa foi incapaz de produzir o jogo que tinham pensado em tempo útil. Os sucessivos atrasos e correcção de bugs colocaram a companhia num apuro. A pouco mais de um mês de arrancar o Mundial, a US Gold decidiu recuperar um titulo com mais de um ano, World Cup Football, desenvolvido pela Artic, acrescentando apenas as respectivas autorizadas licenças. Quando o jogo chegou ao mercado foi recebido debaixo de um enorme coro de criticas. A jogabilidade de um produto com mais de um ano e meio no mercado não tinha sido alterada e consoante a consola disponível - Commodore, Spectrum, Atari - os jogadores só podiam utilizar um número restrito de selecções. Lá se ia o sonho de ter um jogo à altura dos acontecimentos.

Durante semanas a produtora do jogo recebeu milhares de cartas de jogadores que tinham pensado que o jogo em que tinham investido era um produto novo no mercado e não uma re-adaptação de um jogo antigo. A indústria de revistas especializadas que começava a nascer utilizou World Cup Carnival como o exemplo perfeito daquilo que o mundo dos videojogos não podia permitir. As vendas caíram em picado e a US Gold esteve perto de perder a licença da FIFA.

Finalmente, depois da promessa de apostar num produto radical para o seguinte torneio, a empresa começou a trabalhar no que seria o Itália 90. O jogo foi um sucesso total nas várias plataformas e entrou de cheio no novo mercado consolas tornando-se num dos produtos mais vendidos com a nova Sega Megadrive. Quatro anos depois a empresa deu outro passo em frente com a produção do popular World Cup 94. Foi a sua última aventura. Em 98 a EA Sports tinha já tomado controlo total do mercado e dado inicio à sua hegemonia.

 

Para a memória fica um dos jogos mais criticados de sempre pela simplicidade da sua jogabilidade, a reutilização de um produto previamente comercializado e até uma capa mal desenhada. Num Campeonato do Mundo disputado no México ninguém imaginaria uma capa com uma foto da claque do Fluminense brasileiro. Uma anedocta, entre tantas outras, que condenaram ao esquecimento um jogo histórico. Pode ter sido um estrepitoso fracasso, mas World Cup Carnival marcou um antes e um depois na indústria dos videojogos.



Miguel Lourenço Pereira às 12:44 | link do post | comentar

Sábado, 07.12.13

Ficar satisfeito com um sorteio meio ano antes de ele ganhar forma no relvado é complicado. A insatisfação é sempre um sentimento mais proclive nestes momentos. Fazem-se contas, julgam-se potenciais, especula-se com a forma alheia e cruzam-se os dedos. Portugal é um puzzle nas grandes competições. Historicamente rende mais em grupos complicados mas cada torneio é algo concreto e no Brasil a equipa das quinas voltará a confrontar-se com fantasmas do seu passado. Todos sabemos que Portugal não é candidata ao título mas, até onde pode ir esta geração?

Na cabeça de Paulo Bento provavelmente não esteja agora mesmo Ozil, Bradley ou Ayew.

O seleccionador português estará, seguramente, a pensar nos mais de 5000 kms que a sua equipa terá de fazer em duas semanas. Talvez o grande inimigo de Portugal seja, a esta altura, o destino a que foi vetado por cair num grupo que se move pelas cidades que a maioria das selecções queria evitar. Portugal não passará pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo, os pontos fortes deste torneio. A equipa lusa jogará na Bahia o primeiro jogo e depois passará por dois infernos particulares, o coração da Amazónia - Manaus - e a capital brasileira, a árida Brasília. Pelo meio três viagens largas desde a base até aos recintos. Cansaço antes e depois dos jogos que pode passar factura. Não é por acaso que as equipas europeias se dão mal nos Mundiais fora do seu continente.

No Brasil Portugal terá vários rivais. O Outono tropical - húmido, asfixiante, imprevisível - será talvez o maior deles. Ao contrário de outro dos possíveis "Grupos da Morte", o B, onde os jogos serão disputados na costa sul, Portugal jogará a norte. Até aí perde uma das poucas bases de apoio a que podia acudir. As colónias de emigrantes portugueses estão nas grandes urbes. Jogar no meio do Amazonas, no coração de Goiás é jogar longe de qualquer apoio sentimental dos locais. A selecção vai ser estranha num país que viu nascer das suas entranhas. Ironias do destino.

 

No aspecto meramente desportivo, a sorte é um conceito difícil de julgar.

Claro que Portugal não é a França ou a Argentina - com as vantagens que isso habitualmente inclui - e não teve a oportunidade de jogar a meio gás contra rivais como Equador, Suíça, Honduras ou Irão, Nigéria e Bósnia-Herzegovina. São os grupos mais débeis do torneio e propiciaram a criação de três super-grupos. Portugal pode sentir-se parte de um deles. Afinal terá de jogar contra a grande favorita europeia - a Alemanha - a campeã da CONCACAF, os Estados Unidos, e talvez a mais organizada das selecções africanas, o Gana.

São três rivais de respeito, a níveis distintos. Da Alemanha pouco se pode dizer que não se tem visto nos últimos cinco anos. São a sombra dos espanhóis e procuram desesperadamente o momento de tornarem-se protagonistas. Contam com o melhor plantel europeu - entre Bayern e Borussia podiam montar dois onzes ultra-competitivos - têm um excelente treinador e conhecem bem as fraquezas portuguesas, que exploraram no último Europeu. Como aí será o primeiro jogo e não decidirá absolutamente nada. Há margem de manobra para um arranque tremido.

Os jogos a sério vêm depois. Contra o Gana decide-se tudo e a vitória parece ser o único resultado possível equaciando um possível triunfo dos africanos aliado a uma vitória dos germânicos na ronda inaugural. O Gana não tem as figuras individuais de costa-marfilenses e camaroneses, mas prima pela sua excelente organização táctica. Num jogo no meio do Amazonas, com um clima parecido ao que os ganeses têm na "costa do ouro", à uma da tarde, será um choque de titãs. Quando aos Estados Unidos, uma icnógnita constante nestes torneios, nunca se sabe bem o que se esperar. Não têm grandes figuras mas são uma selecção organizada - que para Portugal habitualmente é um problema - e nos últimos três torneios só por uma vez falhou a passagem à fase a eliminar. Sabem competir.

No entanto, como é normal, que se pode esperar de selecções a quem lhes espera meio ano de temporada? Muito pouco. Uma praga de lesões dificilmente faria a Alemanha uma selecção mais acessível mas Low falhou o assalto à final do último Europeu talvez porque confiou em excesso em jogadores fisicamente desgastados por uma época difícil (os do Real Madrid e do Bayern Munchen). Quanto aos africanos e norte-americanos, como vivem mais do colectivo que das individualidades, dificilmente se poderá prever como estão sem saber como a época passará factura aos seus onzes-tipos. Um raciocínio que se pode adaptar perfeitamente à realidade portuguesa, não fosse por Cristiano Ronaldo. O capitão das quinas colocou a selecção no Mundial no play-off e é a única esperança credível de Portugal para dar um salto qualitativo fundamental para não ser outra vez a equipa da fase de apuramento. O desgaste de Ronaldo durante a época - ao contrário de um Messi que chegará muito mais fresco e poupado - pode ser um handicaap difícil de gerir por Paulo Bento. Talvez o maior de todos.

 

Olhando para os restantes grupos, aplica-se o mesmo raciocínio. Até Maio tudo são incógnitas. É certo que entre o grupo B (Espanha, Chile e Holanda) e D (Itália, Uruguai, Inglaterra) um candidato aos quartos-de-final ficará cedo pelo caminho, e que há grupos equilibrados como o C (Costa do Marfim, Colombia e Japão), o H (Bélgica, Rússia, Coreia do Sul) e A (Brasil, Cróacia, Camarões e México) onde tudo pode suceder. Mas nada muito diferente do que se poderia esperar com tantos condicionantes inventados pela FIFA para controlar o sorteio. Isso sim, mais curioso e talvez, mais importante, do que os grupos são, sem dúvidas, os cruzamentos seguintes. Entre Brasil, Espanha e Holanda - três candidatos - pelo menos uma das equipas ficará pelo caminho nos oitavos-de-final. Portugal, se passar em segundo lugar, poderá ter de medir-se aos já conhecidos russos, à sensação Bélgica ou aos imprevisíveis sul-coreanos. E um passo mais, a argentinos primeiro e (hipoteticamente) a brasileiros/holandeses/espanhóis ou italianos/ingleses/colombianos. Ganhando o grupo ganha, portanto, outra importância porque permite desbloquear um caminho mais tranquilo até a umas hipotéticas meias-finais com o Brasil. Mas quem acredita, verdadeiramente, que poderemos lá chegar? O futebol, esse, tratará de nos contar a verdade...daqui a meio-ano!



Miguel Lourenço Pereira às 11:54 | link do post | comentar | ver comentários (29)

Quarta-feira, 20.11.13

Testemunhar a história em primeira-mão é algo que raramente se pode fazer. E talvez, e isto é o mais estranho, é algo que poucos se dão realmente conta. Quem gosta do futebol português gostaria de ter vivido as gestas dos Violinos, a reviravolta contra a Coreia do Norte, o duelo de Eusébio e Di Stefano, o calcanhar do Madjer ou os dribles loucos do Chalana. Eu não tive essa sorte. Mas posso ver a Cristiano Ronaldo fazer o que fez ontem, em Solna. E tenho a certeza que momentos como estes, daqui a alguns anos, terão o mesmo valor que os que eu perdi.

 

O Futebol é uma arte, uma paixão, uma ciência. É tudo, menos um desporto.

E está em perpétuo movimento. Há pessoas que vivem constantemente no passado e outras que teimam a desvalorizar tudo o que é anterior à sua geração, não se dando conta que os que vêm a seguir podem dizer-lhe o mesmo. Conheço pessoas que fecharam-se no mundo de Eusébio, Cruyff e Best e de aí não saem. Outros que falam dos heróis da sua juventude como os grandes e custa-lhes pensar que os deuses actuais estão ao mesmo nível. E aquele que olham para os jogadores de agora como figuras nunca vistas, como se o futebol tivesse sido inventado ontem. Como as cores que há no arco-íris, as opiniões dividem-se uma e outra vez. E ninguém se irá nunca por de acordo.

A história do futebol, essa, não para. E só quem a viveu em primeira mão pode perceber, realmente, a sua importância.

Tenho um respeito tremendo pelos que viram Di Stefano, Pelé, Eusébio e Charlton jogar no seu tempo. Não são condicionados, como eu, por gravações vídeo selectivas. Não são sugestionados, como eu, por páginas e páginas de elogios e gestas. Eles estavam lá e sabem o impacto real que esses deus da bola causaram. Já nem falo dos homens das gerações anteriores porque sobram poucos os que viram a Mathews, Puskas, Meazza, Sindelaar ou Peyroteo. Essa linha de pensamento é válida para tudo. Quem cresceu com Cruyff ou Beckenbauer, Zico ou Platini, Maradona ou van Basten. Pessoas que sentiram a história na carne. Pessoas que sabem realmente, em primeira-mão, como era o antes e o depois.

Por muito que a minha paixão pela história do futebol me tenha feito perder dias e horas a testemunhar os feitos do passado, só posso falar na primeira pessoa a partir da década de noventa. Zidane, Figo, Nedved, Schevchenko, Ronaldo, Guardiola, Romário, Laudrup, Cantona, Ronaldinho, Henry, Rivaldo, Owen, Deco são nomes reais para mim, não lendas de outro tempo. Como são Messi e Ronaldo. Partilho com poucas pessoas o facto de ter presenciado o primeiro jogo profissional do argentino. Nunca o esquecerei. Para mim é como se tivesse tido essa sorte com Di Stefano, Cruyff ou Maradona. Imagino o que essas pessoas possam ter sentido, não nesse momento mas depois. Mas também vi jogar a Cristiano Ronaldo desde que era júnior do Sporting e essa sensação também ficará comigo para sempre. Os dois são e serão sempre parte da minha vida e da minha paixão pelo jogo. Seguiu cada um o seu caminho mas teimam em encontrar-se nesse panteão sagrado que a história do futebol. Eles são os que permitem entender, verdadeiramente, o que se sente quando se presencia História a fazer-se no momento. E ontem, na Suécia, eu senti estar a ver História.

 

Quando Cristiano chegou à selecção esta vivia a sua melhor etapa.

A chamada "Geração de Ouro" podia estar a acabar mas os que sobreviveram à razia emocional da aventura asiática tinham amadurecido. Figo, Fernando Couto, Rui Costa, Pauleta, Nuno Gomes, Rui Jorge eram peças importantes mas já não estavam sós. O trabalho desenvolvido por Mourinho no FC Porto tinha oferecido a Scolari um leque de jogadores na sua melhor etapa profissional (Deco, Costinha, Maniche, Carvalho, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Postiga) e a formação do Sporting abria o caminho para uma nova vaga.

Ronaldo era o seu estandarte e deixou a sua marca. As suas lágrimas, que lembravam as de Eusébio em 66, eram um baptismo de fogo emocional tremendo. Talvez suspeitasse que no futuro ele estaria mais só e mais pressionado para resolver sozinho o que aquela equipa de elite falhou colectivamente. Depois de 2006 assim foi. Portugal passou a ser Ronaldo. A principio a relação começou mal. Nem ele estava preparado para a missão nem o país disposto a encomendar-se a um mal-amado, que não tinha o apoio emocional dos adeptos de Benfica e Porto, depois de ter tido símbolos muito fortes que apoiar na década anterior. Em 2008 e em 2010 Portugal foi uma sombra do que podia ter sido. A culpa, para muitos, era de Ronaldo. Só podia ser.

Afinal, o génio de Manchester era incapaz de fazer com as Quinas o que fazia com os Red Devils: decidir jogos só.

Mas o tempo passou, as limitações das gerações seguintes à de ouro ficou evidente e a pouco e pouco os adeptos começaram a entender que um homem só não faz uma equipa. E depois dos golos decisivos no Euro 2012 houve uma espécie de reencontro emocional, alimentado também por uma poderosa máquina mediática apoiada na maior base de negócio do futebol em Portugal. Ronaldo reencarnou no símbolo nacional de força forçada mas ganhou a pulso o papel. Com gestas como a de ontem.

Na Irlanda do Norte, num dia frio e onde todos falharam, fez-se ouvir como capitão. E no duplo duelo contra os suecos, deu um passo em frente. E fez história. Pela primeira vez a sua brilhante série ao nível de clubes permaneceu na selecção. A braçadeira de capitão podia estar a cair-lhe do braço, mas a ideia de liderar um grupo de homens estava já implementada na mente. Como capitão, Ronaldo comportou-se de forma memorável, finalmente à altura do peso emocional de Figo. Como herói, no relvado, foi igual a si próprio. Um jogador capaz de decidir só, agora sim, uma eliminatória equilibrada em todos os sentidos. Pela primeira vez desde 2004, desde essas lágrimas, Ronaldo percebeu o seu papel dentro do colectivo e encontrou forma de soltar-se desse peso emocional. Graças a isso, à sua paz interior - o fim dos gestos, dos comentários fora de tom, das obsessões com Messi e com prémios - Portugal ganhou um símbolo que vai a caminho de transformar-se no maior da história do país e num dos maiores da história do próprio jogo.

 

A caminho do Brasil, com limitações mais do que evidentes, Portugal estará longe de estar entre os favoritos. Para os que realizam apostas desportivas online, a tentação de eleger a equipa das Quinas como candidata é pequena. É a nossa realidade, apenas é preciso assumi-la e desfrutar do momento. Haverá jogadores que terão no Brasil a sua última oportunidade. Outros que começam a encontrar o seu espaço. Os sub-21 de Rui Jorge dão sensações positivas a cada jogo, e Ronaldo insiste em estar presente. Ele é, finalmente, o Vasco da Gama que a náu lusa necessitava. Ninguém lhe poderá exigir que vença uma competição que parece destinada a ser disputada pelas grandes potências continentais da Europa (Espanha, Alemanha, Itália, equipas colectivas sem grandes individualidades) e América (Brasil e Neymar, Argentina e Messi). O torneio de Junho terá vida própria. Até lá ficamos com a sensação de que jogos como estes, contra os suecos, acontecem uma vez em cada geração. Marcam um antes e um depois. São parte da história. Parte da história que nos foi possível viver e que contaremos no futuro com uma ponta especial de orgulho. Orgulho de ter visto um predestinado pegar num país e atira-lo para o outro lado do oceano!



Miguel Lourenço Pereira às 17:25 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 21.08.13

Está o Brasil preparado realmente para o seu segundo Mundial. Em 1950 o torneio foi o pretexto perfeito para o país reivindicar a sua condição. A organização foi também facilitada pela guerra na Europa que deixou desarmados os países europeus de qualquer tentativa de receber a taça Jules Rimet. Agora, 64 anos depois, o Brasil volta a pretender utilizar o futebol como arma de afirmação política. Os bilhetes já estão à venda mas será o torneio um sucesso nas bancadas?

Estádios por acabar, aeroportos por construir. Hospitais e estradas debaixo de gigantescos pontos de interrogação.

O Brasil está a menos de um ano de receber o maior torneio desportivo mundial, a par dos Jogos Olímpicos (que dois anos depois também serão disputados no Rio de Janeiro). E muitos duvidam do sucesso real do torneio. Fora dos relvados, pelo menos. País em ascensão no panorama política e económico, o Brasil queria demonstrar através do desporto, uma das suas maiores bandeiras, que estava definitivamente inserido na elite dos países do 1º Mundo, uma expressão penosa que desrespeita os cidadãos do planeta. As manifestações na Taça das Confederações, os escândalos de corrupção, os problemas políticos no país e os sucessivos atrasos em obras fundamentais para a organização do torneio permitem levantar a suspeita de que o sucesso está prestar a tornar-se em fracasso.

Se em campo o torneio tem todas as condições para ser um dos melhores de sempre - há a Espanha e a Alemanha, com a nata do futebol europeu, o génio individual de Messi, Ronaldo, Neymar, Balotelli e o perfume do futebol africano, asiático e caribenho - fora dele há perguntas sem resposta e um cronómetro que não para.

Esta semana foram colocados à venda os bilhetes Brasil 2014.

São preços para muitos proibitivos, porque incluem viagens de avião transatlânticas, para destinos cujos aeroportos estão ainda em obras. A distribuição dos jogos do calendário pela FIFA seguramente não ajudará. Num dos maiores países do mundo, quando mais fazia sentido criar regiões fixas para os grupos sorteados - como se procedia antes da chegada de Blatter ao trono da organização - a maior parte dos espectadores terá de fazer centenas e milhares de kms para seguir a sua equipa. Ir ver um só jogo não compensa mas dar a volta ao país para ver 3, 4 ou 5 ainda menos. Não é de estranhar que, tal como em 2002 e 2010, a maioria dos adeptos nas bancadas sejam locais. No Mundial da Coreia e Japão viajaram tão poucos europeus que a organização teve de contratar autóctones para vestir-se com as camisolas das equipas em campo e assim disfarçar, nas televisões, a falta de animação nas bancadas. No Brasil isso não irá suceder. Espanha já sabe que recebimento terá mas argentinos, italianos, portugueses, alemães e ingleses não devem esperar um tratamento diferente. Pela primeira vez desde 2006 um torneio de selecções será disputado num país que opta realmente ao título. E isso conta.

 

A procura inicial dos bilhetes foi elevada, essencialmente porque parte de adeptos brasileiros.

Afinal, estamos a falar de um país com mais de duas centenas de milhões de habitantes, apaixonado pelo "jogo bonito" e saudosos de uma competição de elite. Só com os adeptos locais o Mundial seria um sucesso nas bancadas mas para um torneio criado para o Mundo essa mensagem é pouco convincente. A falta (ou os preços exagerados) de alojamento e meios de transporte coibem os de fora a arriscar tudo, num país marcado profundamente por um sentimento de insegurança e impunidade.

O bilhete final Mundialoscila entre os 330 euros e os 742 euros, preços proibitivos para a maioria dos brasileiros, que mesmo assim esperam ver o escrete canarinho subir ao relvado do Maracaña para ajustar contas com o seu passado. Nesse primeiro Mundial, quando o controlo da FIFA ainda era quase simbólico, estiveram, dizem as más línguas, mais de 200 mil pessoas no estádio carioca. O estádio emudeceu com o golo de Ghighia e desde então procura reabilitar-se aos olhos dos brasileiros. Renovado, terá a sua oportunidade de ouro, seguindo a réplica já deixada por Neymar e companhia na brilhante exibição contra a Espanha, na final da Taça das Confederações.

O Brasil não parte na pole position mas é um rival sério a ter em conta. Scolari prepara bem as suas equipas para torneios curtos, o público será de um fanatismo pouco habitual e as condições climatéricas estarão perfeitas para o seu estilo de jogo, mais físico e agressivo, longe do calor de um torneio disputado na Europa. Espanha e Alemanha, favoritas pelo seu futebol, e Argentina, pela presença de Messi e uma legião de talentosos jogadores ofensivos (na defesa o problema é sério), seguem atrás entre os favoritos deixando os habituais europeus (Itália, Holanda, França, Portugal, Inglaterra...se apurados), sul-americanos (Colômbia e Uruguai), centro-americanos (mexicanos), africanos (Gana e Costa do Marfim, eventualmente) e asiáticos (Japão e Coreia do Sul) como principais oponentes. Os seus respectivos adeptos, salvo por uruguaios, argentinos e colombianos, terão praticamente de contentar-se em seguir pela televisão um torneio que terá sotaque brasileiro a todos os níveis.

 

Pode este ser um grande Mundial se tudo o que rodeia os estádios está envolto em obras? Para o espectador televisivo sim, perfeitamente. Para quem viaja e experimenta a sensação de estar num circo ambulante durante um mês, o Mundial do Brasil pode ser uma sensação agridoce. Os brasileiros têm oito meses para resolver todos os problemas e oferecerem ao mundo o maior espectáculo já visto!



Miguel Lourenço Pereira às 11:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 17.06.13

Xabi Alonso é um notável jogador. Mas foi preciso lesionar-se para que Vicente del Bosque tivesse encontrado a coragem de fazer o mais difícil. Voltar à origem. A exibição memorável da selecção espanhola contra o Uruguai fez o relógio voltar atrás no tempo, aos dias apaixonantes de Luis Aragonés e uma equipa que encantava pela sua capacidade de fazer da posse de bola uma arma de ataque. Pelo seu talento em recuperar a bola tão bem como a movia por um terreno de jogo onde mandava a criatividade e o espírito ofensivo. Um Mundial e um Europeu ganhos sem convencer depois, a Espanha volta a ser ela mesma. E essa é a melhor notícia!

 

Em 2008 o futebol despertou para o fenómeno tiki-taka.

Ainda não tinha chegado Guardiola e o seu projecto de renascimento da filosofia de rondo, pressão asfixiante e precisão ofensiva. A Europa de clubes ainda vivia sob o signo da Premier League, do seu modelo físico, de transições rápidas, de jogo vertical e apoiado e da sua dificuldade em fazer da posse de bola uma arma para defender e atacar porque a sua resistência física estava preparada para esse modelo. E chegou o Europeu. O modelo que a Espanha tinha ensaiado nos meses anteriores funcionou. Era a mesma ideia defendida por Aragonés desde 2004, o mesmo que entusiasmou na fase de grupos do Mundial de 2006 mas que não aguentou com a matreirice de Zidane, desejoso de uma despedida à altura. Aragonés sobreviveu a uma profunda guerra no balneário da selecção. Colocou todo o seu prestigio, que era muito, para vencer o braço de ferro com o que ele considerava como um sério problema. Raul, Michel Salgado e companhia foram afastados da selecção. Começava uma nova era.

Aragonés desenhou uma Espanha de raiz.

Um 4-5-1 (ou 4-3-3, como se queira ver), em que a associação no meio-campo de quatro jogadores imensamente talentosos era compensada defensivamente com o trabalho imenso de um só médio recuperador. O compromisso era conseguido porque todos os restantes elementos da equipa sabiam que, sem bola, deveriam realizar uma pressão constante para fechar espaços, morder os rivais e recuperar o esférico. Com a bola podiam descansar, sim, mas sobretudo atacar. Procurar aproveitar as falhas na movimentação do rival, surpreendido pela perda de bola tão rápida, para criar perigo. Jogar com os olhos postos na baliza contrária. Um modelo vertical, mas apoiado na capacidade de circulação horizontal de uma geração de futebolistas maravilhosos. Um modelo que sabia que tinha pontos fracos mas que os transformava em fortaleza quando tinha a bola nos pés. Dessa forma, Aragonés conseguiu juntar numa mesma equipa a Villa, Xavi, Iniesta, Torres, Cazorla ou Fabregas com Senna como elemento mais recuado. As aparições de Xabi Alonso, David Silva e De la Red confirmavam a excelência de uma geração que merecia acabar com uma série de 44 anos sem títulos. Com Aragonés o título chegou porque Espanha foi uma equipa ofensiva, uma equipa autoritária, uma equipa que sabia defender no campo do rival e fazer da posse de bola uma ferramenta para encontrar o atalho mais rápido para o golo. Essa foi a melhor versão da história do futebol espanhol. A selecção que deixou saudades.

 

Aragonés tinha queimado o seu prestigio na sua luta interna com a influência de Raúl e do grupo de adeptos do Real Madrid.

Na federação, Fernando Hierro, tinha encontrado já o seu substituto antes do torneio sequer ter dado o pontapé de saída. Com a vitória da selecção, houve um momento de embaraço. Finalmente, Del Bosque entrou para comandar uma nau ganhadora. Tinha o duro objectivo de estar à altura do que parecia ser um feito histórico. Mas o trabalho de casa estava feito. Por Aragonés, que tinha deixado um balneário exemplar e uma rotina de jogo reconhecida internacionalmente e admirada. E pelos clubes, que apostando na prata da casa lhe deixaram à disposição uma geração memorável. Particularmente beneficiou-se do génio de Guardiola, que levou a ideia de Aragonés a outro plano, com a ajuda de um tal Messi. O técnico catalão lançou, do nada, as figuras de Busquets e Pedro, futebolistas que Del Bosque rapidamente introduziu no seu modelo. Mas a sua selecção era diferente. O 4-5-1 (ou 4-3-3, sem alas) transformou-se num 4-2-3-1. Alonso, habitual suplente com Aragonés, tornou-se em titular indiscutível ao lado de Busquets, o sucessor de Senna. Essa transformação forçou o treinador a retirar um dos muitos criativos que tinham espalhado magia na Áustria. Xavi e Iniesta eram figuras nucleares, Torres e Villa os goleadores e Pedro um joker precioso.

Inicialmente Del Bosque transformou a Villa em extremo e em Pedro no seu suplente preferencial. Depois abdicou de Torres, colocou Villa no centro e definitivamente entregou a titularidade ao canário. Até que a lesão do asturiano e a má forma do madrilenho lhe permitiu provar a fórmula do falso nove, com Cesc Fabregas ou David Silva no eixo do ataque. Essas mudanças não eram só de cromos.

Geniais, todos, eram jogadores com uma visão de jogo diferente da que tinha Aragonés. Espanha horizontalizou-se. Passou a usar a bola para defender mais do que para atacar. Longos períodos de trocas de bola em posições cómodas permitiam a aproximação da linha defensiva ao ataque, defender mais longe da baliza de Casillas e a incorporação dos laterais ao ataque. Mas também ralentizavam o jogo, davam ao rival a possibilidade de defender ocupando os espaços, procurando a sua oportunidade. Foi assim que a Suíça venceu o primeiro jogo do Mundial que a Espanha ganhou com a pior média de golos marcados da história. Apenas um por jogo na fase a eliminar, sofrendo em todos os jogos por criar perigo real e suportando com sorte e mérito as raras oportunidades dos contrários. As de Ronaldo, Cardozo, Ozil e Robben. Era um modelo mais pragmático, mais italiano, menos ofensivo e estilizado que o de 2008. Mas a vitória escondeu o debate e a renovação de alguns jogadores deu a sensação de um futuro brilhante. Dois anos depois, na Polónia, a equipa abdicou definitivamente do avançado, voltou a oferecer uma versão que até aos próprios espanhóis começava a aborrecer e depois de mais uma série de jogos sem entusiasmar, encontraram-se na final com uma Itália quase infantil a quem deram um impressionante correctivo. A mensagem estava clara. Quando Espanha queria dar uma velocidade mais ao seu jogo, era imbatível. Mas raramente se dava a esse trabalho.

 

No duelo com o Uruguai, o de abertura da Confederações, Del Bosque não tinha Alonso.

Podia ter substituido o basco por Javi Martinez, autor de uma época memorável na mesma posição em Munique. Não o fez. Decidiu aceitar que a sua versão de quatro anos poderia ser mais fácil de controlar, por previsível, por monótona e por horizontal, por uma equipa habituada a defender, esperar e jogar nas costas do rival. O seleccionador espanhol lançou então Fabregas, mas na posição em que jogava com Aragonés, escorado ao lado esquerdo do ataque, mas não como extremo, em sucessivas trocas de posição com Iniesta, abrindo o carril a Jordi Alba. Para fixar os centrais uruguaios e empurrá-los para a sua área, voltou a optar por um avançado puro, Roberto Soldado, mantendo Pedro como falso extremo direito, um jogador especializado em diagonais e remates impossíveis. Atrás, Xavi mantinha a batuta do jogo, com mais jogadores a moverem-se à sua volta e, portanto, mais linhas de passe possíveis e um maior dinamismo ofensivo. Busquets, como Senna, tinha mais do que capacidade para controlar o aspecto defensivo do jogo, apoiado muito de perto por uma linha defensiva alta.

Com essa aposta, esse 4-5-1 tão ofensivo, Espanha voltou a deslumbrar. O seu jogo ofensivo voltou a ser vertical, rápido, incisivo e com a baliza como alvo preferencial. A posse de bola, imensamente superior à do rival, tinha encontrado um sentido pragmático e não apenas o de uma arma física de descanso, à espera que a marcação defensiva do rival cometesse o habitual erro para o golo da praxe. Era, de certa forma, o voltar às origens. Alguns dos nomes próprios tinham mudado mas a essência era definitivamente a mesma. E muito distante do paradigma habitual de Del Bosque. Um modelo que pode voltar a ser colocado de lado quando Alonso esteja em condições de jogar. Ou, e isso seria uma grande notícia, um modelo recuperado para atacar o segundo título mundial consecutivo, transformando a Espanha na terceira selecção da história capaz de manter o troféu em casa. Uma Espanha com o formato de Del Bosque já seria, inevitavelmente, a máxima candidata ao troféu. Com o desenho original de Aragonés o seu favoritismo é ainda maior. E os adeptos que perdeu durante anos com a sua viragem mais conservadores, voltarão de braços abertos. Porque este foi o formato que permitiu um dia pensar que havia realmente algum paralelismo com a mítica camisola amarela do Brasil sob o céu silencioso do México.



Miguel Lourenço Pereira às 00:22 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Terça-feira, 11.06.13

Existem quatro correntes distintas sobre a forma como deve ser desenhada a estrutura de uma selecção nacional. Quatro visões, algumas delas bastantes distanciadas, que contam com as suas virtudes e riscos. São pontos de vista que necessitam também de adaptar-se à realidade local de cada projecto e ás inevitáveis crises geracionais que afectam todas as nações do mundo do futebol. O caso português já viveu em vários desses extremos. Agora continua a subsistir, com Paulo Bento, o mais recente dos modelos, o familiar.

 

Do grupo fechado de Scolari à liderança dividida no Euro 84. Da equipa forjada com base em dois clubes, em 66, à geração dos melhores que navegavam pelo futebol europeu. A história do futebol português é rica nas variantes de como se desenhou o espírito do chamado Clube Portugal. Já foi coisa de dez jogadores de dois clubes só, para potenciar os laços rotineiros e a influência clubística. Já se jogou ao ritmo de interesses pessoais, procurando colocar os melhores em cada momento. Já se confiou nos melhores jogadores, independentemente do seu estado de forma, simplesmente porque eram muito bons. E agora Portugal revisita o conceito de núcleo fechado, de família, inaugurado por Scolari em 2003.

O caso português não é singular. Todos os países de topo do futebol mundial passaram, com os seus mais e os seus menos, por todos estes modelos ao longo da sua história. Em Espanha vive-se actualmente o apogeu da ideia que em Portugal existiu com a Geração Dourada. Os melhores jogam, sempre, independentemente de como estão ou de se há novos futebolistas no horizonte. Mas em Espanha também já se bailou ao som dos interesses dos clubes, também já se tentou criar uma família fechada, com Clemente na década de noventa e houve uma época em que, pura e simplesmente, jogavam os que estavam em melhor forma.

Para um seleccionador - e até o nome tem truque, porque seleccionar e treinar não é mesmo e até aos anos oitenta muitas selecções tinham dois profissionais para dois postos distintos - é complicado eleger o modelo a seguir.

Se convocar sempre os jogadores que estão em melhor forma - algo que muitos defendem - corre-se o risco de não ter nunca um núcleo estável porque a forma é, como já se sabe, volátil. No entanto, ter sempre os jogadores na melhor condição física e psicológica pode garantir que a equipa que sobe ao campo está motivada e preparada para todos os desafios. Montar um combinado nacional à volta dos maiores talentos individuais, também gera um problema. Podem ser os melhores, os que mais aportam e melhor entendem o jogo mas, muitas vezes, não estão nas melhores condições e surge o fantasma de jogar por estatuto. O modelo aproxima-se mais ao de um clube, com um núcleo fechado de estrelas e suplentes de luxo, ignorando muitas vezes a principal vantagem de uma selecção: poder ir mais além nas escolhas. Também há os que preferem montar um esquema baseado no sucesso individual de um ou dois clubes, trazer o máximo número de jogadores desses emblemas e complementar a convocatória com talentos individuais. Ganha-se em estabilidade e rotinas, algo que falta no curto espaço de tempo de preparação para os jogos internacionais, mas perde-se em novidade e inovação. Por fim há o modelo mais recente, o de criar um grupo fechado, com jogadores bons e medianos, conscientes todos do seu lugar, onde a competitividade existe mas parte de bases estabelecidas. Onde o treinador é técnico, pai e sargento. Onde os interesses de um grupo se sobrepõem aos individuais mas onde a porta está quase sempre fechada ao resto do mundo. Esse é o modelo português da última década.

 

Nos anos 60 a selecção das Quinas era formada por jogadores do Benfica e do Sporting, com a ocasional incorporação de futebolistas do Belenenses, FC Porto e Setúbal. De aí passou-se ao período pós-25 de Abril, onde cada clube queria controlar a selecção e para agradar a gregos e troianos convocavam-se individualidades e não se pensava no grupo. Com os meninos de ouro forjou-se um grupo de vinte jogadores que, passasse o que passasse, tinham lugar garantido. Foi esse o cenário que entrou em colapso em 2002, no Mundial do Japão e da Coreia do Sul, quando parte do balneário estalou com o favoritismo atribuído por Oliveira a Baía sobre Ricardo, ao lesionado Figo e a um questionadíssimo Pauleta. Quando chegou Scolari, esse era o monstro que tinha de domar, para triunfar no Europeu.

O brasileiro fez a sua limpeza. Manteve ao seu lado o núcleo duro da selecção dos anos noventa (Figo, Fernando Couto, Rui Costa, Paulo Sousa) mas afastou os mais polémicos Baía, Jorge Costa e o suspenso João Vieira Pinto das suas equações. Com os mais indomáveis Sérgio Conceição e Abel Xavier teve os seus problemas. Para compensar, começou a chamar regularmente jogadores de low profile que fizessem o core da sua família. Chegaram os mais novos (Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Miguel, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo) e os que traziam experiência, como Costinha, Nuno Valente, Maniche. A esses juntou obreiros prontos a obedecer a qualquer ordem mas sem projeção internacional como foram Luis Loureiro e companhia. E chegou Deco, o jogador que quebrou não só o tabu dos naturalizados mas também a ideia de que os jogadores da Geração de Ouro actuavam por decreto. Rui Costa foi a sua vitima colateral.

Scolari criou um núcleo fechado mas aproveitou-se, como Otto Gloria, do trabalho de dois clubes, a juventude das promessas do Sporting e a solidez dos jogadores do FC Porto de Mourinho. Foi essa a sua base durante o seu mandato. Mas sem renovação, sem espaço para a novidade, o grupo estagnou, envelheceu e quando o brasileiro disse adeus, deixou uma equipa sem líder, decadente e com um hábito de trabalho mais similar ao de um exército do que a uma selecção nacional. Queiroz tentou lutar contra esse mundo, abriu a convocatória a outros jogadores, mais jovens, mais promissores, capazes de trazer algo novo, mas nunca conseguiu controlar um balneário saudosista do modelo Scolari, particularmente porque interessava ao homem que representava a maioria dos seus jogadores-chave, Jorge Mendes.

Para isso chegou Paulo Bento. Um treinador razoável, que noutro cenário nunca seria seleccionador e que foi um dos jogadores que sofreu com a nova ordem de Scolari. Mas a quem o papel de sargento assentava bem. Bento herdou uma pool de jogadores muito pior do que a que tinha o brasileiro. Desde o Mundial da Alemanha que a aposta na formação tinha desaparecido, que não havia jogadores para substituir quem tinha partido. Um buraco etário imenso que continua à espera que a geração que actualmente tem entre 17 e 22 anos possa substituir.

Consciente da situação, o seleccionador optou por voltar aos principios mais básicos do scolarismo.

Independentemente da qualidade individual, formou um grupo fechado de vinte jogadores. Boa ou má forma, houvesse ou não melhores jogadores fora do núcleo, esses eram os seus espartanos. Deu o protagonismo mediático à sua estrela individual e rodeou o onze base de suplentes sacados da carteira de Mendes. Muitos deles sem nível para uma selecção, ainda assim decadente, mas que cumpriam os serviços mínimos que se lhes eram exigidos. Isso explica que os Micael, Oliveira, Amorim, Sereno, Zé Castro, Almeida, Eduardo e companhia sejam convocados com regularidade. Os problemas começaram a surgir quando até as opções para o onze se foram reduzindo. Sem jogadores de nível para posições chave como os centrais, médio defensivo, criador de jogo e ataque, o modelo tornou-se obsoleto. Mas nem assim Bento mudou o seu rumo. Manteve-se fiel a um esquema táctico para o qual não tem jogadores e preferiu chamar mais legionários para as posições deficitárias, brutalizando a equipa e tornando-a mais amorfa. Boa para torneios curtos mas um problema sério durante uma temporada onde se exige mais do corpo aos jogadores de topo para estarem frescos nos jogos importantes.

Só nos últimos encontros Bento foi forçado a confrontar-se com a realidade. O seu grupo tinha falhas importantes e escassez de meios. Depois do Euro 2012 começou a aparecer - finalmente - outro perfil de futebolistas. São jogadores que terão de aceitar as regras da família mas que sabem que não têm muita concorrência para o lugar. O descarte de Quaresma, Tiago, Manuel Fernandes, Rolando e Ricardo Carvalho abriu ainda mais as feridas na defesa e no meio-campo. Sereno, Zé Castro, Ricardo Costa, Ruben Micael, Carlos Martins e Varela não são, claramente, a solução. Mas são os homens de confiança. E por isso aparecem em cada lista. O aparecimento progressivo de futebolistas como Vieirinha, Luis Neto, Pizzi ou André Martins é um sinal positivo para o futuro imediato. Pode não ser suficiente para chegar ao Brasil com um plantel coerente e afastado desse espirito autoritário que tão bem caracteriza Bento, um homem que tacticamente é mais um problema que uma solução, mas indica que o futuro tem opções que não podem ser filtradas por não pertencerem a determinado grupo ou agente. Atrás deles vêm os André Almeida, André Gomes, André Santos, Tiago Ilori, Wilson Eduardo, Bruma, Castro, Ricardo, João Mário das selecções jovens mas também outros eternos descartados como Bruno Gama, Paulo Machado, Eliseu, Duda, Antunes ou Vaz Tê, jogadores que podem oferecer mais do que os que vão regularmente à selecção sem pertencer a esse mundo fechado.

 

Com pouco mais de 50 jogadores de nível aceitável por onde escolher - consequência de uma péssima gestão federativa e dos clubes com o qual Scolari pactuou e da qual Paulo Bento não tem culpa imediata - é normal que as opções para os jogos decisivos de qualificação para o Mundial sejam reduzidas. Partindo do principio que, salvo lesão, os nomes fortes estarão presentes, quer tenham condições físicas e psicológicas para os duelos ou não, as vagas diminuem. É fácil perceber que nem há um modelo de clube suficientemente forte para sustentar a selecção, nem uma geração de ouro que permita esquecer a ideia de que não é necessário ter demasiadas opções para resolver os problemas. Bento tem como alternativa forjar uma selecção no Outono com os que estejam realmente bem ou manter-se fiel ao seu espírito de grupo. O ideal seria criar um compromisso entre ambas mas isso exige diplomacia, liderança e saber adaptar o sistema táctico aos recursos disponíveis, algo de que o seleccionador nacional ainda não demonstrou capacidade para ser capaz de realizar.

 

Um possível Portugal 23 para o Outono baseado apenas na qualidade individual, na aportação colectiva e no espírito colectivo (sem ter em conta, naturalmente, lesões e um estado de forma deficiente).

 

Guarda-Redes - Rui Patricio, Beto


Defesas Laterais - João Pereira, Silvio, Fábio Coentrão

Defesas Centrias - Pepe, Luis Neto, Bruno Alves, Tiago Ilori

 

Médio Defensivo - Custódio, Miguel Veloso, André Almeida

Médios Interiores - João Moutinho, André Martins, Paulo Machado, Bruno Gama

 

Extremos - Cristiano Ronaldo, Nani, Vierinha, Bruma

 

Avançados - Hélder Postiga, Pizzi, Edér

 

Alternativas (Raul Meireles, André Santos, Danny, Ricardo, Ruben Amorim, André Gomes, Antunes, Mika, Duda, Eliseu, Josué)



Miguel Lourenço Pereira às 14:11 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Quinta-feira, 29.11.12

O regresso de Luis Filipe Scolari ao banco da selecção brasileira demonstra bem o estado de desorganização absoluto em que vive o futebol brasileiro a um ano e meio do seu Mundial. Tal como em 2002, o "sargentão" chega em cima da hora para resgatar a honra de uma selecção de quem muitos esperam que se torne em campeã mundial. Nunca, na história do futebol, uma equipa que recebeu dois Campeonatos do Mundo, salvo o México, falhou em vencer pelo menos uma dessas edições. Depois da depressão de 1950, o desespero da canarinha já se faz sentir a 18 meses do seu encontro com a história.

 

Quando Ghighia marcou o golo que deu ao Uruguai o seu segundo Mundial, um país inteiro entrou numa profunda depressão que nunca curou verdadeiramente. Sim, o Brasil tem cinco Mundiais, tem algumas das melhores equipas da história do futebol e foi palco de artistas e génios tácticos que ajudaram a mudar a face do jogo para sempre. Mas aquela tarde no Marcanã nunca teve cura.

Perder um Mundial em casa acontece a poucas selecções quando são favoritas. 

Uruguai, Itália, Inglaterra, RF Alemanha, Argentina e França contam-se entre os países que venceram torneios diante dos seus. De todos os vencedores de um Mundial de futebol, só o Brasil e a Espanha não o fizeram em frente dos seus adeptos. O caso espanhol é recente, a sua performance em 1982 foi deprimente em todos os sentidos, mas ninguém duvida que se em 2018 o Mundial fosse em Espanha, que eles seriam candidatos sérios ao titulo. E o Brasil?

A selecção canarinha chega a 2014 sem ser o favorito de ninguém. E isso não só parece algo sui generis em si como também ameaça prolongar a ressaca moral do futebol brasileiro. A FIFA ofereceu ao país uma oportunidade única de desforrar-se de si mesmo e limpar os esqueletos do armário. Mas a direcção sem rumo do futebol canarinho tem-se encarregue de destruir esse projecto. A contratação de Luis Filipe Scolari, um acto de puro desespero, é apenas a ponto do iceberg de um problema bem mais gordo.

 

Ninguém questiona que o favoritismo colectivo do próximo Mundial está nos ombros da selecção espanhola.

Se a Brasil de 1970 foi, provavelmente, a mais entusiasmante selecção da história, esta Espanha pode ser a mais longeva e estender a sua hegemonia a um segundo Mundial consecutivo não é uma ideia descabelada. Individualmente a figura do torneio será Lionel Messi que talvez tenha a última oportunidade de ser campeão com uma Argentina que aprendeu a gravitar à sua volta.

O Brasil não é favorito a não ser no plano emocional. Não possuiu uma geração inesquecível como os espanhóis e é uma equipa com muitos projectos de grandes jogadores mas sem um líder moral como Messi. E é, sobretudo, tacticamente, uma equipa sem rumo, sem um plano definido que ora baila ao som do falso nove ora procura manter-se fiel ao 4-2-3-1 que tem perseguido desde 2006 sem significativo sucesso pelos antecessores de Scolari. 

Num ano em que o técnico viu a equipa que treinou descer pela primeira vez em largos anos - o histórico Palmeiras - e depois da péssima carreira pós-selecção portuguesa, muitos questionam a eleição de Scolari. A verdade é que o homem ideal para o cargo chamava-se Guardiola mas os brasileiros não podiam viver com um treinador estrangeiro no momento mais importante da sua história desde 1970. E que tanto Muricy Ramalho como Tite eram nomes pouco consensuais não só nos corredores da CBF mas, sobretudo, entre os adeptos. A falta de um génio táctico ao futebol brasileiro tem-se notado.

Desde o notável trabalho de Carlos Alberto Parreira em 1994 que a táctica desapareceu do futebol brasileiro e o génio individual tornou-se no protagonista solitário com melhores e piores resultados mas cada vez mais ao som da actualidade e distanciando-se das suas origens. Do Brasil de 1998 de Zagallo ao de Menezes vai muita diferença e talvez o de Scolari tenha sido o mais original de todos. 

O "sargentão" beneficiou de três elementos fundamentais para ganhar o último Mundial canarinho.

O seu 3-4-3, contrário à tendência da época, funcionava porque então o Brasil contava com os dois melhores laterais ofensivos do Mundo (Cafú e Roberto Carlos) e o melhor tridente ofensivo em gerações (Ronaldo-Ronaldinho-Rivaldo). Tudo o resto era composto por operários que faziam o típico trabalho físico que tanto impressionava o técnico. E por fim, uma debacle das equipas europeias, que pagaram o preço da longa época no futebol europeu e a incapacidade de se adaptar ao clima asiático. Portugal, França, Itália, Espanha e Inglaterra foram caindo, por motivos extra-desportivos e por má gestão, e ficou o Brasil para vencer a mais fraca selecção alemã de que há memória. 

Lembrar 2002 é importante para perceber que a escolha de Scolari é, sobretudo, uma escolha desesperada num homem que vendeu um perfil ganhador, mas que depois dessa gesta particular nunca mais voltou a saborear o triunfo. Há dez anos que a sua aura se foi perdendo e o futebol evoluiu. Scolari poderá tentar recuperar esse modelo táctico (tem Alves e Marcelo mas na frente não há Ronaldo e Rivaldo e Neymar ainda não está à altura de Ronaldinho) mas sobretudo o que terá de criar é um bloco emocionalmente forte para superar a pressão emocional tremenda que significa jogar um Mundial em Copacabana.

 

Scolari é o homem do aparelho, o homem dos escritórios. A sua relação com a Nike e a CBF manteve-se viva durante largos anos. Mesmo com a uma directiva progressivamente afastada da herança de Ricardo Teixeira, os velhos contactos continuam a gravitar na mesma órbitra. O Brasil sabe que, tacticamente, não superará o modelo espanhol e individualmente não encontrará um rival à altura de Messi. Essa foi a base da sua grandeza histórica (o 4-2-4 e 4-3-3 e o génio de Pelé e Garrincha). Terá de recorrer, como em 2002, à épica emocional e ao trabalho colectivo como arma de fogo para não entrar na galeria negra da história da única grande selecção que nunca soube o que era festejar um Mundial com os seus. 



Miguel Lourenço Pereira às 13:32 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Quinta-feira, 18.10.12

De Portugal já ninguém se surpreende no "planeta futebol" que acabe tropeçando nos jogos de qualificação mais fáceis. Não é uma sina, como os mais supersticiosos podem pensar, mas sim reflexo de uma selecção que funciona melhor como "underdog", em elemento de bunker mental e num futebol de reacção. Os resultados superlativos do último Europeu deixam claro que o problema de jogo continua a agravar-se nos jogos mais menosprezados na mente de técnicos e jogadores pela absoluta falta de mentalidade competitiva que está por detrás do sucesso de qualquer equipa ganhadora.

 

Se perder em Moscovo é um mau resultado, porque uma qualificação num grupo destas características quase sempre é um mano a mano, empatar em casa com a Irlanda do Norte é voltar às calculadoras precoces, ao sentimento de pequenez que transmite a selecção portuguesa longe dos grandes palcos. Empatar num jogo de qualificação não é um fenómeno anormal. Mas o empate de Portugal tem pouco a ver com o épico 4-4 do Alemanha e Suécia ou o agónico 1-1 do Espanha vs França.

Primeiro porque estes foram duelos entre rivais directos, algo que a Irlanda do Norte jamais será. E depois porque, sobretudo, não é novidade. Qualificação atrás de qualificação, desde 2004, que Portugal tropeça com os mais inesperados rivais e obriga-se a si mesma a fazer cálculos com os dedos, como um miúdo da primária, para sonhar com grandes gestas. Há três anos um jornal português publicou na capa, depois de um resultado similar, "Adeus África". Portugal acabou por se qualificar. Tem-no feito de forma consecutiva desde 2000 para todos os grandes torneios, um feito histórico. Mas sempre com essa dose de sofrimento que nos reduz à condição de pequenez futebolística aos olhos do Mundo.

A presença de Cristiano Ronaldo, como antes de Luis Figo, Deco e Rui Costa, dá a Portugal uma aura de importância aos olhos do Mundo mas quem está dentro do Mundo do futebol sabe que, em fases de qualificação, o comportamento da equipa das Quinas assemelha-se sempre mais ao de uma selecção de segundo nível a quem o cartaz de cabeça de série nunca funciona muito bem. 

Portugal não sabe competir como favorito. Não sabe pensar e organizar o jogo, ditar os tempos e os modos em que o rival é forçado a jogar. Deixa-se levar sempre pela corrente, pelos humores do adversário e acaba sempre por ter de reagir quando se lhe exige controlo e acção. Esteve a perder com o modesto Luxemburgo, com a Rússia e com a Irlanda do Norte e na soma dos três jogos conseguiu quatro pontos contra os nove dos russos. Não que a equipa de leste seja uma superpotência, apesar de ter todas as condições para vir a sê-lo nos próximos anos, a começar pelo seleccionador, um competitivo nato chamado Fabio Capello. Mas nestes duelos a condição de superioridade técnica, evidente, conta menos que a vontade de vencer e o savoir faire que sempre faltou a Portugal. Nos sprints finais a mentalidade dos jogadores e técnicos é alterada pelas urgências e os play-offs transformam-se numa cruzada de sofrimento rumo à glória. Fica bem à selecção esse espírito épico mas desnecessário se as coisas fossem bem feitas desde a raiz. Ninguém dúvida agora que recuperar seis pontos a esta Rússia é missão quase impossível e que os duelos contra Israel serão fundamentais para garantir o lugar no terceiro play-off consecutivo.

 

O fenómeno é extensível a vários mandatos de seleccionadores e a vários jogadores que é difícil repartir culpas com facilidade.

Trata-se, sobretudo, da falta de gene ganhador da selecção lusa, aquela que pior ratio histórico tem em grandes provas internacionais, a única que nunca venceu um torneio apesar de quatro semi-finais e uma final disputadas. Num país de 10 milhões isso poderia até ser um êxito, e de certa forma é-o, se não se desse o facto de países mais pequenos tivessem ultrapassado essa realidade sócio-económica precisamente por possuir o killer-instinct que sempre falha quando Portugal sobe ao terreno de jogo.

A equipa das Quinas jogou com a Irlanda do Norte da mesma forma que joga sempre quando não tem de temer o rival.

Desconcentrada, tímida, sem vontade de competir. Uma sensação de falsa superioridade moral que acredita que a bola acabará por entrar porque nós somos quem somos e eles só são quem são. A história está cheia de exemplos de rivais como os irlandeses que fizeram a Portugal o que a equipa lusa costuma fazer às selecções grandes nos torneios onde realmente brilha. Nessas provas, o espirito de bunker formado nas concentrações, a sensação de nunca ser favorito e partir sem pressão, é suficiente para deixar ver outro rosto de Portugal. Em 2004 os nervos puderam com a estreia num Europeu que estávamos fadados a ganhar. Em 2006, num dos grupos mais acessiveis da história, ninguém deslumbrou nos jogos iniciais e quatro anos depois Portugal voltou a ter dificuldades em afirmar-se como uma selecção a respeitar. Para não falar no medo com que se jogou com Brasil, Espanha e Alemanha nos torneios seguintes. Mudam os técnicos, mantêm-se os problemas emocionais.

Tacticamente este Portugal é igual ao do último Europeu, mas sem a pressão e critério que desaparecem quando a cabeça não acompanha. Ronaldo não brilha tanto nestes jogos talvez porque sabe que não há tantos olhos em cima, tantos votos por contar. Nani desaparece ainda mais no buraco negro em que se está a transformar a sua carreira e a defesa desliga de forma colectiva abrindo espaços e deixando Patricio exposto ao mais inesperado dos rivais. O golo irlandês não foi muito diferente do golo russo e a falta de reacção foi idêntico. Num país sem um lote de jogadores de qualidade para escolher até as baixas de Coentrão e Meireles se notam, especialmente quando o seleccionador aposta na versão de "sargentão" e na sua família e prefere excluir Eliseu e Paulo Machado, jogadores que aportariam muito mais do que Miguel Lopes e Ruben Micael. Sem um goleador, especialmente porque o jogador das 100 internacionalizações tem um ratio goleador monumentalmente inferior com a sua selecção do que com os seus clubes, e sem um pensador de jogo, que João Moutinho voltou a provar ser incapaz de ser, a coluna vertebral da selecção desfaz-se com tremenda facilidade e deixa as suas fragilidades expostas á mais cínica e oportunista das selecções. 

 

Esse velho fado dificilmente mudará no futuro se não houver uma profunda mudança de mentalidade a nível geral no futebol português, similar às produzidas em França, Espanha e Alemanha, países que estão agora a capitalizar as metamorfoses internas da última década ao nível de todos os escalões do seu futebol. Portugal terá de jogar contra o tempo e provavelmente vencerá com solvência os duelos com Israel e numa boa noite pode até mesmo bater os russos em casa, particularmente se jogar com a mesma atitude que tanta falta lhe faz nos jogos que realmente importam. Mas dificilmente se livrará de um novo play-off para chegar de novo ao Brasil sem a aura de favorita como tanto gosta. Depois, será a altura dos seleccionadores e jogadores que se mostraram incapazes de competir contra selecções dos últimos escalões do futebol europeu reclamar o protagonismo e grandeza nos resultados. Ídolos de pés de barro.



Miguel Lourenço Pereira às 13:02 | link do post | comentar | ver comentários (17)

Sexta-feira, 28.09.12

Até aos anos 90 a FIFA tinha claro onde estava o verdadeiro poder nas estruturas directivas do mundo do futebol. Por isso os Mundiais, a sua prova rainha, o evento máximo do beautiful game, oscilava entre Europa e América, sem nenhuma discussão aparente. Mas os tempos mudaram, o dinheiro começou a faltar e Joseph Blatter teve de piscar o olho às restantes confederações e criou o critério de rotação continental. Mas conhecendo os novos horários do próximo Campeonato do Mundo, fica claro que, apesar de minoritário, o mercado europeu continua a ser a grande preocupação dos homens da FIFA.

 

Na África do Sul, a entrar em pleno Outono, os horários dos jogos eram os mesmos do que os espectadores europeus.

A diferença horária de uma hora permitia adequar os horários reais aos horários televisivos do público europeu e não houve demasiada polémica. Todos estavam contentes. Todos menos todos os adeptos fora do Velho Continente, habituados, mas cansados, de ter de ver todos os grandes torneios fora de horas. As polémicas na Europa à volta do conceito de rotação de continentes doeram à FIFA. Durante cinquenta anos a organização sempre teve predilecção pelos palcos e pelo público da Europa, mas a globalização e a necessidade de agradar a asiáticos e africanos como se agradava a europeus e americanos obrigou Blatter a dar o braço a torcer. Com os respectivos efeitos colaterais.

Na Europa não está o principal mercado do Mundial. Está o mais antigo e prestigiado, seja lá o que isso signifique em contexto de mercado de audiências, mas não é difícil ver mais pessoas a seguir o torneio na Ásia, na América Latina e até mesmo em África do que na Europa. E no entanto tudo ainda é feito à sua medida. Depois das criticas dos horários do Mundial de 1994, nos Estados Unidos, com jogos em horários de altas temperaturas para não desagradar os europeus, a FIFA capitulou e o Mundial da Ásia, no Japão e Coreia do Sul, viu-se essencialmente pelas manhãs para respeitar o horário local e a saúde dos jogadores, por muito que os Europeus tenham tido sérios problemas em conciliar a vida laboral e o seguimento da prova. A péssima performance dos países favoritos não ajudou e na Europa o torneio foi um relativo fracasso o que deixou o aviso para edições futuras. Como a do Brasil 2014.

 

A FIFA anunciou hoje os horários do próximo Mundial e assustam.

Num país que em Junho vive um Outono tropical, que oscilará entre uma humidade e calor asfixiante especialmente nos jogos a norte, e chuvas e temporais, nas zonas costeiras, é importante ter em consideração tanto os horários como as condições em que se vão disputar os encontros. Pelos jogadores, pela qualidade do jogo e pelos próprios espectadores que vão estar fisicamente presentes na prova. Mas para a FIFA esses conceitos são superficiais quando se trata de discutir os horários televisivos, a salsa do futebol actual.

A prova arranca a 12 de Junho e o jogo inaugural será disputado às 21h00 portuguesas (mais uma no horário central europeu) - 17h00 - em claro prime time. A final, a 13 de Julho, um mês depois, será uma hora antes, 20h00 horas portuguesas (21h00 europeias) e, inevitavelmente, às 16h00 brasileiras. A final de um Mundial no calor de uma tarde brasileira é um cenário, no mínimo, surrealista. 

Na fase de grupos, onde haverá uma média de três jogos diários, vão-se usar vários cenários, desde jogos às 13h00 da tarde (hora de máximo calor) até às 21h00, também do Brasil, o que permite uma oscilação no mercado europeu das 17h00 e 01h00 da madrugada. No continente asiático, onde está o verdadeiro core de audiências, os jogos serão essencialmente transmitidos durante a madrugada, sem qualquer consideração pelos seus espectadores enquanto que o continente africano seguirá o torneio com horários similares ao Europeu. 

Na fase a eliminar, os jogos serão disputados durante a tarde brasileira e prime-time europeu. Sem qualquer respeito pelos jogadores e pelos adeptos locais. 

Para uma organização que diz que gere o jogo para o seu próprio bem, o Mundial é a verdadeira prova de fogo de como gere os destinos do seu jogo. E este Mundial prova, de uma vez por todas, que há muito que os senhores de Zurique se esqueceram do futebol para concentrar-se nos seus rendimentos. Enquanto se equaciona um Mundial no Inverno europeu para não coincidir com o calor asfixiante dos horários de Junho no Qatar, o último torneio americano nos próximos 14 anos deveria ter em consideração os próprios sul-americanos, que não recebem uma prova desde o longínquo 1978. Em vez disso, a FIFA aposta sobretudo pelo mercado europeu, talvez pensando em contentar os seus associados quando cheguem as próximas eleições - onde a UEFA terá um papel fundamental - e nos contratos com as multinacionais que fazem da Europa o seu mercado preferencial, pelo maior poder de consumo que ainda ostenta. O Brasil, mercado emergente como será a Rússia em 2020, recebe o torneio mas continua a ser forçado a adaptar-se à vida diária dos seus antigos conquistadores.

 

Para um adepto europeu estes horários são boas noticias. Mantém-se a tradição absoluta de seguir a prova rainha na comodidade dos horários pós-laborais, sem grande ginástica logística. Para o resto do mundo a situação continua a parecer-se com a asfixia de longas décadas de autoritarismo eurocêntrico. Os sul-americanos terão de decidir entre trabalhar e ver os jogos no seu torneio. Os asiáticos terão de esquecer-se de dormir durante um mês tudo para que na Europa o jantar seja acompanhado dos pratos fortes da jornada. Sepp Blatter fecha o ciclo que abriu João Havelange. Dar ao Mundo uma mão assegurando-se de que na outra fica com as suas carteiras, a sua moral, o seu futuro!



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (6)

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