Quarta-feira, 04.12.13

O caso Ghilas nem é novo, nem é mais ou menos grave do que se tem vivido em Portugal. É apenas o sintoma mais claro que a situação não mudou uma só virgula. Portugal continua a ser pasto de corrupção, negócios paralelos, administrações mais interessadas no lucro pessoal que no sucesso colectivo. Um circo controlado por uma oligarquia de poder que arrancou a alma do jogo em Portugal.

 

Ghilas é um avançado muito interessante.

Chegou sem fazer ruído ao modesto Moreirense. Durante dois anos apresentou-se como uma alternativa real aos dianteiros mais populares da liga. Marcava, dava a marcava e fazia trinta por uma linha para evitar o inevitável. Não o conseguiu. O Moreirense acabou despromovido e o argelino, internacional pelo seu país, condenado a continuar a sua carreira no futebol secundário ou noutras paragens. Em Moreira de Cónegos marcou 15 golos em 45 jogos, uma média de 1 golo por cada 3 jogos, nada absolutamente brilhante. Mas o seu nome estava na lista de várias direcções desportivas. Quando chegaram à pequena localidade nortenha, esbarraram com uma cláusula de 3 milhões de euros que o clube não estava disposto a baixar. Curioso. Afinal, o orçamento anual da equipa axadrezada ronda esse valor, o clube ia ser despromovido e precisava de dinheiro como de pão para a boca. Nestes casos negoceia-se, regateia-se. Nunca se paga a cláusula. Nem em Portugal nem em nenhum outro país do Mundo. Mas de certa forma os dirigentes do Moreirense fizeram-se fortes e bateram o pé. Tinham um ás na manga. E que ás.

No Verão apareceu em cena o FC Porto.

A equipa azul-e-branca, com novo treinador e nova filosofia, queria uma alternativa ao colombiano Jackson Martinez. Tinham passado dois anos sem ter um avançado suplente de nível (nem Kléber nem Liedson o foram) e face à tranquila evolução do paraguaio Mauro Caballero e do português André Silva, era preciso ter um nome com alguns créditos firmados para render o "cafetero" e, talvez, preparar a sua sucessão. A escolha parecia perfeita, os adeptos aplaudiram, o negócio concretizou-se. Mas não se falaram em números e todos assumiram que o preço do jogador tinha andado à volta dos valores da sua cláusula. Provavelmente o mastodonte dragão tinha feito os dirigentes do pequeno Moreirense entrar em razão. Estavam tão enganados.

O Relatório de Contas oficial do clube, divulgado esta semana, conta uma história bem diferente. O FC Porto não rebaixou as pretensões do clube nortenho. Ultrapassou-as. Em lugar dos 3 milhões de euros, decidiu pagar 3,8 milhões. Um valor que, como aparece detalhado, nem sequer inclui as famosas comissões e direitos de imagem - esses aparecem num apartado à parte que ronda os 2 milhões, misturados com o negócio de Quintero. O mais grave, talvez, foi que esses 3,8 milhões - que já de por si ultrapassam largamente o máximo legal que o clube teria de pagar - são apenas por metade do passe do franco-argelino. 50% de Ghilas vale 4 milhões de euros. O avançado do modesto Moreirense é o avançado mais caro de todos os tempos do futebol em Portugal num clube fora dos três grandes. Vale 8 milhões de euros. Um valor que empalidece os de Éder, Lima, Hugo Almeida e que se aproxima mais aos de Jackson e Cardozo. Espantoso!

 

Este é o retrato do futebol português.

Parece mais do que evidente - basta ver como está o clube nortenho - que o Moreirense não recebeu 3,8 milhões por Ghilas.

O dinheiro pode nem sequer ter sido movido. Entre agentes, dirigentes e fundos desportivos montou-se nos últimos anos uma teia de negócios onde os números publicados raramente se aproximam dos que estão sobre a mesa. Muito desse dinheiro move-se por debaixo da mesma. Outro, pura e simplesmente, permanece no sitio para maquilhar contas. Os clubes devem-se uns aos outros, os agentes e fundos alimentam o jogo de especulação e os adeptos limitam-se a baixar a cabeça em resignação. No Porto, trinta anos de sucesso desportivo de Pinto da Costa serviu para amordaçar a consciência de muitos adeptos e sócios do clube perante situações como esta. Ghilas nem é o primeiro caso nem será seguramente o último. Faz parte de uma linhagem de negócios tão mal explicados que surpreende como é que há tão pouca gente a colocar o dedo na ferida. Em Lisboa, o cenário não é diferente.

O Benfica tem-se especializado em imitar a gestão do FC Porto nesse sentido e a sua associação com um fundo especial tem ajudado a maquilhar contas com compras e vendas fantásticas, jogadores que aparecem e desaparecem dos quadros do clube conforme dá jeito e compras que se transformam em empréstimos para acabar em dispensas sem que os adeptos encarnados entendam como é que todos os anos o plantel muda, o dinheiro é gasto e a falência técnica ainda não é uma realidade.

Ghilas ou Roberto, nomes próprios para casos concretos mas generalizáveis. Movem-se cifras impossíveis para a realidade social do futebol português. E por jogadores cujo valor em campo está a anos-luz dessa etiqueta que clubes e agentes decidiram colar. Aos adeptos vende-se a obrigatoriedade de ceder moralidade face aos tempos modernos para sobreviver. Mas sobreviver onde?

Nos últimos anos têm sido várias as vozes que sancionam o uso de fundos e de agentes como a única ferramenta que Portugal tem para se manter competitivo na Europa do futebol. Seguramente que essa noção de competitividade é discutível. Afinal as exibições desta temporada (e da do ano passado) na Champions League dão sinal de tudo menos de competitividade. Clubes de ligas periféricas como a Bélgica, Grécia, Áustria, Chipre ou Escócia têm sido capazes de vencer ou roubar pontos aos dois grandes portugueses. Na Europa League a situação é exactamente a mesma. Portanto, seja para o que for, o uso recorrente de fundos para inflacionar transferências, salários e comissões não é o que o futebol português precisa para ser competitivo. Porque o modelo não está a funcionar. Qual é a alternativa se os resultados já são maus suficientes assim?

Para clubes com passivos na ordem dos 200 ou 400 milhões de euros, gastar todos os anos entre 30 a 40 milhões em jogadores é algo incomportável e impossível de entender. A não ser que os dirigentes dos clubes não se preocupem com o futuro e consigam encontrar algo de rentabilidade no momento. Muitos deles podem até estar associados, indirectamente, aos mesmos agentes que movem jogadores a valores que não se praticam em mais nenhuma liga europeia a não ser por clubes que são detidos por grandes fortunas. Herrera, Reyes, Quintero, Ghilas, Markovic, Djuricic, Fejsa e Lisandro só podiam ter sido pagos pelos valores que são pagos em Portugal. Analisando jogadores do mesmo perfil noutras ligas - financeiramente mais fortes, sociedades mais desenvolvidas - e ninguém encontra essa soma de quase 60 milhões de euros em oito jogadores quase adolescentes sem nada demonstrado.

Claro que há outro caminho. Mas os comentadores, dirigentes e alguns opinion-makers colocados pelos clubes em espaços de reflexão dirão que não. Que o futebol português precisa destes fundos, destes agentes e destes jogadores se quer seguir no caminho certo. Fazem lembrar as empresas que nos dizem que sem um GPS não podemos conduzir, esquecendo-se de que o prazer da condução muitas vezes está em seguir pela estrada fora sem ter um "grilo falante" a dizer-nos o que fazer. Esse grilo afastou o futebol português da sua essência e entregou-o a uma meia dúzia de personagens que tem sido responsável directa pela sua decadência e que enquanto se encontrar em situações de poder perpetuará as suas acções. O dinheiro gasto (mal) nestes e noutros negócios (e o que desaparece, sobretudo) poderia ter abatido passivos, reforçado a formação, servido para baixar o preço de entradas para levar adeptos ao estádio ou para pagar museus sem recorrer a financiamentos de empresas estrangeiras. Poderia ter sido utilizado em reduzir o custo do merchandising, para criar iniciativas de conexão com a sociedade local ou para reforçar a massa salarial dos melhores jogadores para evitar a sua venda. Mas sem venda não há comissões. Sem preços de entradas altas os adeptos nos estádios poderiam ser mais humildes e mais exigentes do que os que encaram hoje o futebol como uma ópera a céu aberto. E poderiam começar a fazer-se mais perguntas para as quais as respostas são como as salsichas. O FC Porto gastou 30 milhões em quatro jogadores que não ofereceram nada à equipa mas deram muito a quem a gere. O Benfica e a sua armada sérvia (e algum sul-americano que chega e parte sem dizer olá) está na mesma situação. Começa a ser hora que as rivalidades desportivas entre adeptos sejam postas de parte e que alguém pare o jogo e comece a indagar e a fazer as perguntas que alguns têm medo de ouvir!



Miguel Lourenço Pereira às 11:21 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sexta-feira, 04.01.13

Um clube corre o risco de perder o seu melhor jogador sem receber um só cêntimo em troca no mês de Julho. Recebe uma oferta de 6 milhões de euros para antecipar a saída em meio ano. O jogador não é opção do técnico e recebe mais dinheiro do que qualquer outro jogador fora do leque de futebolistas das duas gigantes multinacionais do pais. E no entanto, não o vende. É isso e muito mais o que lhe passa a Fernando Llorente.

 

Llorente queria sair em Junho. O clube não o deixou.

Tinha uma cláusula de rescisão de 40 milhões. E um ano mais de contrato. O clube ofereceu a renovação fazendo dele o jogador mais bem pago da liga. De todos os que não são do Barcelona ou Real Madrid, claro. Mais bem pago do que Falcao, mais bem pago do que Soldado, do que Isco, Joaquin ou Adrian. E Llorente disse que não. O clube tentou fazer o mesmo com Javi Martinez e este também lhes disse que não. Apareceu o Bayern Munchen com 40 milhões de euros na mão para pagar a cláusula de rescisão e mesmo assim, com o maior encaixe de sempre da história do futebol espanhol (salvo dos grandes), o Bilbao foi queixar-se à UEFA de que as coisas não tinham sido bem feitas. Llorente sabia o que o esperava.

Quando Bielsa soube que o avançado riojano não queria renovar, decidiu mandá-lo ao banco de suplentes.

Ele que tinha sido fundamental na época espantosa dos bascos, com duas finais perdidas em Bucareste e Madrid, mas com performances memoráveis, agora era suplente descartado. O clube voltou a contratar Aduriz - isto de só jogar com bascos obriga a vender e voltar a comprar bastante gente - e Llorente passou a primeira volta mais tempo no banco do que em campo. Em Agosto apresentou ao clube uma oferta de Juventus. Eram 10 milhões de euros em dinheiro vivo pagos imediatamente. O clube disse que não. A honra valia mais do que o dinheiro.

 

Se a postura do Bilbao, reforçado pelo dinheiro para pelo Bayern, podia fazer sentido em Agosto, agora não o faz.

O clube tentou voltar a convencer Llorente a renovar. Mas este recusou-se sempre. Está no seu direito. Os seus argumentos são mais do que lógicos. Conhece as limitações de um clube especial e quer provar outras realidades, ouvir o hino da Champions League, manter-se nas opções de Vicente del Bosque para o Mundial do Brasil. Mas o autoritarismo absoluto do Bilbao transformou-se numa gestão negativa para o próprio clube.

Llorente sairá, queira o clube ou não.

Pode sair a zero ou pode sair por seis milhões. Dinheiro que podia ser utilizado, entre outras coisas, para pagar o empréstimo para a reconstrução do novo estádio. Para perdoar as quotas aos muitos sócios no desemprego, um mal que afecta o Pais Basco como o resto de Espanha onde há 5 milhões de desempregados. Melhorar a ficha salarial de outros jogadores. Baixar o preço das bebidas no novo estádio. O que quiserem.

Ao rejeitar esses seis milhões agora, o clube quer mostrar que está por cima do bem e do mal, do dinheiro e das comodidades que ele traz. Continuarão a não utilizar Llorente, salvo em momentos pontuais (já só estão na liga, eliminados precocemente de Taça e Europe League), nos vinte e dois jogos que faltam disputar até Junho. A Juventus continuará sem um avançado de referência. E no final os adeptos serão confrontados com uma realidade curiosa. Uma directiva que saca peito de uma negociação que perdeu no primeiro dia, fazendo valer a sua lei autista. E um buraco nas contas que ficou por tapar por pura teimosia. É também assim o futebol quando gerido apenas no coração e não na cabeça. O Bilbao pode dar-se a este tipo de luxos. É um clube que não gasta muito no mercado porque tem um critério exclusivo de profissionais. É um clube que sempre teve as contas mais perto do verde, está no coração da zona mais rica de Espanha depois de Barcelona e Madrid. E está associado ao movimento independentista basco, o que lhe dota de muito prestigio na sociedade local.

 

Llorente tornou-se vitima dessa tripla realidade. Perdeu um ano da sua carreira desportiva por uma birra desportiva. O Athletic Bilbao perdeu entre 10 a 6 milhões de euros. No final de contas, o clube consegue o que quer. Provoca mais dano ao jogador mal amado, à antiga estrela de San Mamés do que a si mesmo. Uma birra infantil que custa dinheiro e momentos de prazer a um profissional que, enquanto lá esteve, deu tudo pela camisola. Quando dizem que aos jogadores lhes falta gratidão com os clubes muitas vezes é verdade. Mas nem sempre é um mal que percorre a auto-estrada do futebol na mesma direcção. Há clubes com muito passado mas com muito pouca memória!


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Miguel Lourenço Pereira às 14:30 | link do post | comentar

Quarta-feira, 26.12.12

A crise transformou o mercado de Inverno naquilo que realmente ele deve ser, um período de ligeiros ajustes a projectos que deveriam ser definidos e preparados nos largos meses de Verão. A falta de dinheiro congelou os grandes negócios e obrigou os clubes a fazer o trabalho de casa com tempo. Ninguém espera nenhuma bomba, até porque de certa forma, as confederações nacionais há muito que transformaram esta janela de transferências mais num fait-divers para a imprensa do que um momento importante para os clubes.

 

Salvo a chegada de Lucas Moura a Paris, num negócio que foi acertado em Agosto mas que só agora se concretiza por exigência do clube vendedor, o São Paulo, ninguém espera que um nome sonante faça mover tanto dinheiro no mercado que abre no dia 1 e se prolonga até ao final de Janeiro.

Os saldos nas lojas transformaram-se de certa forma nos saldos nos escritórios dos clubes onde se contam os tostões de forma muito mais cuidada e racional. 45 milhões de euros pagou o Paris Saint-Germain ao clube paulista. Valores que estão totalmente desfasados do mercado actual e do próprio valor do extremo brasileiro. Haverá sempre clubes que dão cor e vida ao mercado, por situações muito particulares. Mas são cada vez menos.

Os clubes que querem comprar encontram-se, demasiadas vezes, com as respostas negativas dos vendedores, influenciados pela revalorização em baixa do preço dos jogadores e com a falta de opções para o resto do curso. Há uma boa dezenas de jogadores que esperam definir o seu futuro que está longe do clube actual, mas os negócios serão poucos e por valores quase simbólicos. A UEFA e a FIFA, de certa forma, ao permitirem a janela de Janeiro, quando se regularizou de forma definitiva o mercado, abriram um período que foi, no passado, activo e definidor de alguns projectos que pareciam seguir por um caminho negro. Foi o caso do Sporting em 2000, que incorporou três nomes (André Cruz, César Prates e Mpenza) que se revelaram fundamentais para a conquista de um título que escapa há muito. O mesmo passou com o Real Madrid em 2007, que com Higuain, Marcelo e Gago encontrou oxigénio para a reviravolta que impediu o tricampeonato do Barcelona de Rijkaard. Mas esses feitos passarão seguramente para a história como estrelas cadentes, com poucas repercussões futuras. À medida que a UEFA proibiu o uso de jogadores nas provas europeias que já tivessem actuado por outro clube (primeiro em todas as provas, depois apenas dentro das mesmas) o que provocou foi que os grandes clubes deixassem de trocar cromos nesta etapa e se virassem para nomes desconhecidos. Jovens promessas, jogadores para taparem algum ocasional buraco deixado por uma lesão prolongada e pouco mais. Os projectos aprenderam a definir-se no Verão.

 

Apenas dois casos pontuais ajudam a dar alguma cor a este mês de negócios pensados.

Por um lado o mercado sul-americano que ganha cada vez mais peso nas mesas de negociações e que força muitos dos clubes europeus a esperar largos meses entre a compra efectiva e a chegada do jogador. Enquanto a FIFA não regularizar de forma definitivo o calendário competitivo, essa realidade continuará a ser um quebra-cabeças. Danilo, com o FC Porto no ano passado, e Lucas Moura, este ano, são apenas dois dos muitos exemplos que se vêm multiplicando nas últimas temporadas, particularmente com um Brasil rejuvenescido e reforçado com um crescimento económico mais do que evidente.

O outro cenário, mais complexo, aborda os jogadores com problemas internos no balneário e que procuram uma via de escape e aqueles que, rejeitando-se a negociar contratos de renovação, se encontrariam livres em Julho. Problemas muito mais bicudos que os clubes têm tido extremas dificuldades em resolver. São os casos de Fernando Llorente - com o Bilbao - de Wesley Sneijder, que anda em guerra aberta com o Inter, dos ingleses Cole e Lampard e o fim da história de amor com o Chelsea ou de Kaká e Villa, mal amados em Madrid e Barcelona. Jogadores de perfil internacional que olham para o mercado e vêm poucas opções realistas. Ou porque não há dinheiro para pagar as exigências dos clubes (casos de Villa ou Llorente), ou porque a ficha salarial é desproporcional à real valia em campo do jogador (Kaká e Lampard) ou porque o clube comprador por excelência do mês, o PSG, ainda não se decidiu se Sneijder e Cole fazem realmente falta ao seu projecto estelar. 

Num ano que, além do mais, será marcado pela CAN em Fevereiro - outra aberração do calendário internacional - que privará muitos clubes de alguns dos seus melhores jogadores durante um largo mês, os clubes sabem que é de portas para dentro que terão de encontrar soluções e a aposta na formação parece ser uma clara evidência de que há algo que está a mudar na mentalidade das directivas. Um dos poucos sinais realmente positivos da conjuntura económica.

 

Em Portugal a situação assemelha-se à tendência internacional e a maioria dos clubes serão vendedores, sobretudo para ligas marginais, de forma a equilibrar as contas a final do ano. Os projectos de Benfica e Porto, em duelo directo, serão seguramente os mais activos no departamento de aquisições mas com os números financeiros no vermelho, até eles têm de aprender a olhar mais para dentro e menos para um mercado que, nestas alturas, como acontece com os saldos das lojas de roupa, muitas vezes acabam por vender gato por lebre.



Miguel Lourenço Pereira às 13:56 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 17.12.12

A crise desportiva no Sporting é um espelho da sua autodestruição institucional. O histórico clube leonino até há bem pouco tempo era o único clube que ombreava com o FC Porto pelo título nacional mas as consequências do plano Roquette passaram factura como seria de prever. Um clube sem uma liderança e um rumo está condenado ao sofrimento. No relvado e nos gabinetes. O vazio de poder real leva o Sporting à pior etapa da sua história, transformando-o num clube cada vez mais periférico da realidade competitiva nacional.

 

Godinho Lopes foi eleito com polémica. Muita polémica.

Uma eleição que dividiu claramente o núcleo de sócios sportinguistas. De essa eleição era forçoso sair uma política de consensos, necessária sempre que a vitória não é clara nas urnas numa sociedade que se presume democrática. O presidente leonino preferiu ir por outro lado. Caminhou sozinho e foi perdendo, pelo percurso, os seus apoiantes mais directos. Dois anos depois ele é o único sobrevivente da sua direcção original, motivo mais do que suficiente em muitas instituições para provocar novas eleições. Não para ele, orgulhosamente só, timoneiro de um navio sem rumo e perdido, à deriva, em águas profundas.

Os erros de gestão do Sporting nos últimos dois anos têm sido tremendos e repetitivos. Consequência de um plano Roquette mal orquestrado desde o principio que agora começa a passar factura. O Sporting está à beira da falência técnica. Entre os três grandes, é o que vive mais perto do fio da navalha. A situação económica de Porto e Benfica não convida a celebrações, mas entre o sucesso desportivo recente e as mais valias que ambos clubes ainda possuem, a situação é remediável apesar de não ser sustentável. Em Alvalade já não há mais valias. Para manter o pulso com o FC Porto de Jesualdo Ferreira venderam-se os anéis. Começa a ser a hora de vender os próprios dedos. O plante leonino pertence a todos menos ao Sporting. Fundos, empresários, agentes, gestores, bancos. O clube detém percentagens insignificantes da maioria dos seus jogadores e ainda mais ridículas quando se trata dos jogadores que têm um real valor de mercado. Sem poder fazer dinheiro com os seus próprios activos, que solução tem um projecto que acumula dividas atrás de dividas e sem um resultado palpável a que poder agarrar-se. Godinho Lopes é consciente dessa realidade e em vez de parar para pensar, dá um passo em frente, suicida, e multiplica-se em declarações despropositadas e acções que só minam ainda mais a sua frágil liderança. A contratação de Jesualdo Ferreira devia ser, para os sócios, a gota que desborda o copo.

 

Em 2003, quando José Mourinho transformou um FC Porto estilhaçado em rei do futebol europeu, era inequívoca a liderança desportiva nacional do Sporting. Era a geração do título de 2000 de Augusto Inácio, a que se juntava a qualidade individual de João Vieira Pinto, o faro goleador de Mário Jardel e uma geração de talentos tremenda, capaz de emular a de 1992, entre os Hugo Viana, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo. O Sporting parecia afastar-se definitivamente dos fantasmas de 19 anos sem títulos. Duas vitórias em três anos eram prova evidente de que algo se estava a fazer bem nas oficinas de Alvalade. Em quase cinco anos todo esse trabalho foi desperdiçado.

O clube entrou numa voragem autodestrutiva inexplicável, abdicou das suas maiores pérolas por preços bastante inferiores à realidade do mercado e começou a abandonar a qualidade em prole da quantidade. A chegada de Paulo Bento, depois da humilhante derrota na final da Taça UEFA em casa, uma semana negra que os adeptos jamais esquecerão, recuperou em parte os princípios da política de Luis Duque do virar do milénio e quatro segundos lugares consecutivos pareciam pressagiar a calma e tranquilidade que não existiam. Bento saiu sem vencer o título (apesar de ter batido de forma directa, por várias vezes, o FC Porto de Jesualdo) e atrás dele deixou uma equipa jovem e cheia de promessas que os seus sucessores nunca puderam aproveitar. Com a nova direcção chegou a política de compra compulsiva. O Sporting, como uma fashion victim com cartão de crédito eliminado no coração dos bairros que congregam as mais emblemáticas lojas de marcas, comprou com o que tinha e com o que não tinha. Mais de duas dezenas de jogadores chegaram em três épocas, empurrando os jogadores da casa para um exílio forçado. E quando os resultados falhavam a culpa, inevitavelmente, seria do treinador. Paulo Sérgio, Domingos, Sá Pinto sabem-no bem.

Curiosamente, em sentido oposto, o trabalho de formação continuava a funcionar, os titulos dos mais novos davam ilusão, e a equipa B, no seu primeiro ano, provava ser a única com estofo competitivo real. Em vez de olhar para dentro o clube voltou a olhar para fora e procurar em Vercautren, técnico belga, a resposta a todos os problemas. A falta de orçamento para algo melhor era evidente mas o desatino presidencial superou todos os limites quando, nem dois meses depois, nomeia Jesualdo Ferreira como Manager. 

Jesualdo, treinador habituado a trabalhar com os mais novos, desde que foi companheiro de Queiroz na forja da Geração de Ouro, poderia ter sido uma boa primeira escolha, mas quando a pressão obrigou Godinho Lopes a destituir Sá Pinto, ainda tinha emprego. Agora será a sombra constante de um belga que sabe que tem as horas contadas ainda antes de ter começado a trabalhar. Tarde ou cedo, Jesualdo passará de Manager a treinador principal confirmando a sensação de que Alvalade se transformou num manicómio profundo. O técnico tricampeão nacional (o único a lográ-lo de forma consecutiva) tem matéria para fazer uma equipa drasticamente diferente da que existe actualmente, especialmente se apostar na formação. Mas não tem margem de manobra para o fazer. Num clube que se tornou na ponte de jogadores para pagar favores aqueles que sustêm a divida da instituição, não há plenos poderes que valham.

 

É difícil um clube com a corda ao pescoço respirar. O Sporting tem uma tradição e um prestigio que distancia, e muito, da sua gestão actual. Financeiramente a sua realidade aproxima-se cada vez mais ao espectro do Boavista com as consequências conhecidas. Tem matéria prima para reerguer-se, uma vez mais, mas falta-lhe a força moral para despir o corset que o impede respirar tranquilamente. Parece evidente que a direcção actual é parte do problema mas não é a única responsável. No estado actual da saúde sportinguista há atrás anos de esquizofrenia absoluta que parece precisar de um verdadeiro tratamento de choque para terminar de forma abrupta. Os adeptos estão condenados a sofrer, os investidores a perder tudo e o clube a afundar-se, um pouco mais, no poço que ajudou a criar e que o afasta dessa imagem de grandeza que o tornou, até aos anos 60, na primeira grande força nacional do futebol português.



Miguel Lourenço Pereira às 10:05 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sexta-feira, 28.09.12

Até aos anos 90 a FIFA tinha claro onde estava o verdadeiro poder nas estruturas directivas do mundo do futebol. Por isso os Mundiais, a sua prova rainha, o evento máximo do beautiful game, oscilava entre Europa e América, sem nenhuma discussão aparente. Mas os tempos mudaram, o dinheiro começou a faltar e Joseph Blatter teve de piscar o olho às restantes confederações e criou o critério de rotação continental. Mas conhecendo os novos horários do próximo Campeonato do Mundo, fica claro que, apesar de minoritário, o mercado europeu continua a ser a grande preocupação dos homens da FIFA.

 

Na África do Sul, a entrar em pleno Outono, os horários dos jogos eram os mesmos do que os espectadores europeus.

A diferença horária de uma hora permitia adequar os horários reais aos horários televisivos do público europeu e não houve demasiada polémica. Todos estavam contentes. Todos menos todos os adeptos fora do Velho Continente, habituados, mas cansados, de ter de ver todos os grandes torneios fora de horas. As polémicas na Europa à volta do conceito de rotação de continentes doeram à FIFA. Durante cinquenta anos a organização sempre teve predilecção pelos palcos e pelo público da Europa, mas a globalização e a necessidade de agradar a asiáticos e africanos como se agradava a europeus e americanos obrigou Blatter a dar o braço a torcer. Com os respectivos efeitos colaterais.

Na Europa não está o principal mercado do Mundial. Está o mais antigo e prestigiado, seja lá o que isso signifique em contexto de mercado de audiências, mas não é difícil ver mais pessoas a seguir o torneio na Ásia, na América Latina e até mesmo em África do que na Europa. E no entanto tudo ainda é feito à sua medida. Depois das criticas dos horários do Mundial de 1994, nos Estados Unidos, com jogos em horários de altas temperaturas para não desagradar os europeus, a FIFA capitulou e o Mundial da Ásia, no Japão e Coreia do Sul, viu-se essencialmente pelas manhãs para respeitar o horário local e a saúde dos jogadores, por muito que os Europeus tenham tido sérios problemas em conciliar a vida laboral e o seguimento da prova. A péssima performance dos países favoritos não ajudou e na Europa o torneio foi um relativo fracasso o que deixou o aviso para edições futuras. Como a do Brasil 2014.

 

A FIFA anunciou hoje os horários do próximo Mundial e assustam.

Num país que em Junho vive um Outono tropical, que oscilará entre uma humidade e calor asfixiante especialmente nos jogos a norte, e chuvas e temporais, nas zonas costeiras, é importante ter em consideração tanto os horários como as condições em que se vão disputar os encontros. Pelos jogadores, pela qualidade do jogo e pelos próprios espectadores que vão estar fisicamente presentes na prova. Mas para a FIFA esses conceitos são superficiais quando se trata de discutir os horários televisivos, a salsa do futebol actual.

A prova arranca a 12 de Junho e o jogo inaugural será disputado às 21h00 portuguesas (mais uma no horário central europeu) - 17h00 - em claro prime time. A final, a 13 de Julho, um mês depois, será uma hora antes, 20h00 horas portuguesas (21h00 europeias) e, inevitavelmente, às 16h00 brasileiras. A final de um Mundial no calor de uma tarde brasileira é um cenário, no mínimo, surrealista. 

Na fase de grupos, onde haverá uma média de três jogos diários, vão-se usar vários cenários, desde jogos às 13h00 da tarde (hora de máximo calor) até às 21h00, também do Brasil, o que permite uma oscilação no mercado europeu das 17h00 e 01h00 da madrugada. No continente asiático, onde está o verdadeiro core de audiências, os jogos serão essencialmente transmitidos durante a madrugada, sem qualquer consideração pelos seus espectadores enquanto que o continente africano seguirá o torneio com horários similares ao Europeu. 

Na fase a eliminar, os jogos serão disputados durante a tarde brasileira e prime-time europeu. Sem qualquer respeito pelos jogadores e pelos adeptos locais. 

Para uma organização que diz que gere o jogo para o seu próprio bem, o Mundial é a verdadeira prova de fogo de como gere os destinos do seu jogo. E este Mundial prova, de uma vez por todas, que há muito que os senhores de Zurique se esqueceram do futebol para concentrar-se nos seus rendimentos. Enquanto se equaciona um Mundial no Inverno europeu para não coincidir com o calor asfixiante dos horários de Junho no Qatar, o último torneio americano nos próximos 14 anos deveria ter em consideração os próprios sul-americanos, que não recebem uma prova desde o longínquo 1978. Em vez disso, a FIFA aposta sobretudo pelo mercado europeu, talvez pensando em contentar os seus associados quando cheguem as próximas eleições - onde a UEFA terá um papel fundamental - e nos contratos com as multinacionais que fazem da Europa o seu mercado preferencial, pelo maior poder de consumo que ainda ostenta. O Brasil, mercado emergente como será a Rússia em 2020, recebe o torneio mas continua a ser forçado a adaptar-se à vida diária dos seus antigos conquistadores.

 

Para um adepto europeu estes horários são boas noticias. Mantém-se a tradição absoluta de seguir a prova rainha na comodidade dos horários pós-laborais, sem grande ginástica logística. Para o resto do mundo a situação continua a parecer-se com a asfixia de longas décadas de autoritarismo eurocêntrico. Os sul-americanos terão de decidir entre trabalhar e ver os jogos no seu torneio. Os asiáticos terão de esquecer-se de dormir durante um mês tudo para que na Europa o jantar seja acompanhado dos pratos fortes da jornada. Sepp Blatter fecha o ciclo que abriu João Havelange. Dar ao Mundo uma mão assegurando-se de que na outra fica com as suas carteiras, a sua moral, o seu futuro!



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Terça-feira, 25.09.12

A lamentável imagem da noite de domingo em Vallecas deixa a nú a realidade do futebol espanhol. O país que conta com a melhor selecção do mundo e as duas equipas com o maior número de estrelas por metro quadrado, é também o país onde clubes de primeiro nível sobrevivem de esmolas, vivem à beira da ilegalidade, pagam tarde e a más horas e deixam as suas instalações definhar progressivamente. Vallecas é o estado real do futebol de um país que se esconde atrás do seu pódio de protagonistas para tapar as suas misérias.

 

Martin Presas não é um presidente qualquer.

O homem responsável pelos destinos do Rayo comprou o clube à familia Ruiz de Mateos, que sempre andou em conflito com a justiça - e segue - para fazer dele a sua coutada pessoal. Mas encontrou-se com uma das massas adeptas mais fanáticas, no bom sentido, de um país onde a maioria dos adeptos preocupa-se primeiro com o resultado de Madrid ou Barcelona, antes de pensar nas suas próprias cores. No decorrer do jogo de ontem, o segundo jogo, o que nunca devia ter sido realizado, foi apupado pelos seus. Não lhe valeu as desculpas de mau pagador, as acusações de sabotagem, de atentado terrorista futebolistico que lançou quando na noite de domingo as luzes do estádio de Vallecas ficaram por acender.

O Real Madrid tinha de jogar nessa noite no campo do pequeno clube de bairro da capital.

Era um jogo fundamental. Em dois jogos fora, o Madrid não tinha vencido nenhum e com quatro pontos caminhava já a onze do líder absoluto da prova, o Barcelona. Um jogo de tensão, especialmente porque Vallecas não é um campo fácil, como se demonstrou pela vitória sofrida do ano anterior. Um jogo de expectativa, para saber se a polémica entre Mourinho e o plantel, em particular Sérgio Ramos, estava definitivamente ultrapassada. Enfim, um jogo debaixo dos focos mediáticos. E um jogo que nunca se disputou.

Uma hora antes do arranque do encontro caiu uma tempestade sobre a capital espanhola. Os jornalistas presentes no estádio viram um clarão de luz e de repente, a escuridão. Quando as luzes voltaram a ser acesas, os interruptores não responderam e o estádio ficou sem iluminação. A uma hora do arranque do encontro os adeptos, cerca de 15 mil, foram deixados à porta, as equipas no relvado, desorientadas, e no telhado das bancadas, operários improvisados, sem condições, tentavam perceber o porquê. À hora oficial do arranque do jogo começou a surgir o rumor de uma sabotagem, entrada a noite o Rayo Vallecano disponibilizou fotos na sua conta de twitter em que mostrava uma caixa de luz com cabos cortados e o jogo foi adiado por 24 horas. Deixando a nú todas as misérias do futebol espanhol.

 

Apesar da polémica poucos acreditam que em poucas horas uma equipa especializada fosse capaz de surgir no coração do estádio de Vallecas, cortar 25 cabos e assim boicotar um jogo de máxima intensidade. O estádio do Rayo Vallecano é reconhecido por ser um desastre de gestão e manutenção e se o clube se apurasse para as provas da UEFA nunca receberia o selo de aprovação para os jogos em casa. 

Mas não é o único. A crise económica espanhola tem levado muitos clubes a baixar a guarda no que diz respeito à manutenção e cuidado com os seus estádios e centros de estágio. Em Valencia e Madrid, tanto o Atlético como o Valencia têm as novas casas paralizadas, à espera de financiamento, e o estado actual do Nuevo Mestalla e do Vicente Calderon deixam muito que desejar. O caso de Vallecas é apenas a ponto do iceberg do que pode surgir no futuro num país onde quase nenhum clube paga os salários a tempo e horas. Um país onde a maioria dos clubes deve dinheiro mais do que é capaz de gerar e é forçado a vender para manter-se vivo. Uma liga das estrelas que vive, sobretudo, do imãn mediático que Real Madrid e Barcelona provocam, e do sucesso de uma política desportiva de formação que garante que a selecção principal continuará a dar cartas no panorama internacional.

Os problemas financeiros de clubes históricos, as acusações de compra e venda de jogos no final da temporada, os horários televisivos escolhidos a dedo por uma empresa de televisão que tem contribuido activamente, em conjunto com os clubes e os seus preços exorbitados de bilhetes, para que a assistência média caia de ano para ano, são apenas alguns dos espinhos da rosa que é o futebol do país vizinho.

 

A crise económica que assola Espanha não deixará, seguramente, que a situação mude nos próximos anos. O fosso entre grandes e pequenos é cada vez maior e só o prestigio das vitórias internacionais mantém a ilusão que a liga espanhola é ainda uma liga de estrelas e campeões. No entanto a gestão dos clubes e dos directivos federativos tem contribuido para piorar a cada temporada que passa o producto final e as consequências no futuro podem ser devastadoras para os que não se prepararam para a tempestade.



Miguel Lourenço Pereira às 16:50 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Terça-feira, 04.09.12

A realidade de um país em crise - em todos os sentidos - é perceptível na realidade do seu futebol. No caso português não é só a hemorragia de jogadores de qualidade mas, sobretudo, a necessidade dos clubes de vender para tapar os muitos buracos que aparecem nas suas contas. Todos os candidatos ao titulo desprenderam-se de jogadores fundamentais nas suas equipas da época passada. O campeonato nivela-se, uma vez mais, por baixo.

 

O ranking da UEFA diz que a Liga Sagres é a 5º mais bem classificada do continente europeu. 

Mas as finanças dos clubes e a qualidade dos seus plantéis talvez não estejam de acordo. Os clubes portugueses vivem com a corda na garganta. Os grandes porque os orçamentos astronómicos para a realidade portuguesa começam a pagar factura. Há passivos superiores a 400 milhões de euros (caso do SL Benfica) ou de 200 milhões, como acontece com o FC Porto. Empréstimos obrigacionistas que pagar com juros altíssimos, fundos a quem se devem favores e dinheiro e no caso do Sporting, a situação é tão delicada que os próprios dirigentes sabem que caminham bem ao lado de um perigoso precipício. Mesmo o Braga, um caso de sucesso em gestão financeira, não pode resistir a vender quando o dinheiro aparece porque há sempre contas que pagar.

Do top 4 para baixo a realidade é ainda mais asfixiante, negra e sem perspectivas de melhorar no futuro. Um clube histórico e com uma das maiores massas associativas do país como o Vitória de Guimarães está perto da falência. Na Madeira os clubes sobrevivem porque Alberto João Jardim deu volta atrás numa ideia inicial de retirar parte dos fundos do governo regional aos principais clubes da ilha. E de Olhão a Paços de Ferreira, de Aveiro a Coimbra, os tostões contam-se um por um. 

Essa falta crónica de crédito afecta os clubes como a sociedade portuguesa e os problemas de salários em atraso nos grandes, antes uma utopia, tornaram-se reais. Por isso vender, baixar a massa salarial, tornou-se na úncia solução. 

Os valores de algumas transferências roçam o ridiculo mas, neste caso, o ridiculo tornou-se na corda de salvação de alguns clubes. Axel Witsel, contratado há um ano ao Standard Liege, rumou para San Peterburg por 40 milhões, o mesmo valor que o Real Madrid pagou por Luka Modric e mais do que o Chelsea pagou por Eden Hazard, a grande estrela do futebol belga. Hulk saiu do FC Porto por igual valor liquido (depois de pagos os gastos de gestão pelo clube russo, num total de 60 milhões) depois de ter sido comprado em várias etapas por um valor total de 19 milhões. Um valor a que clubes como o Chelsea, PSG e Manchester City não conseguiram chegar. O valor dos rublos num país que quer apostar forte no futebol para a próxima década (e a contratação de Fabio Capello é bom exemplo) salvou, pelo momento, a saúde financeira de FC Porto e Benfica (que ainda contou com a venda de Javi Garcia ao Manchester City) enquanto que o Sporting teve de despreender-se de jogadores com salário elevado, perdendo o influente Matias Fernandez para a liga italiana por valores bem mais modestos. Enquanto a Europa se maneja numa realidade, os mercados emergentes jogam noutra divisão. Para os clubes portugueses é a única opção de sobrevivência.

 

Desportivamente a liga portuguesa baixou uns bons degraus.

Num ano histórico, com as três equipas presentes na fase de grupos da Champions League, o futebol português devia estar de parabéns. Ainda para mais, todas as equipas foram colocadas em grupos acessíveis, com o apuramento para os Oitavos de Final longe de ser uma utopia. Mas isso foi antes de Lima deixar Braga sem um ponta-de-lança, de Jorge Jesus ter perdido o seu meio-campo (não que o Benfica seja uma equipa que perca muito tempo no miolo) e o FC Porto dizer adeus ao seu simbolo dos últimos anos. Agora a realidade vai ser bem mais dolorosa e talvez dragões, águias e arsenalistas tenham de contentar-se com uma luta mais desigual com rivais que não só não perderam jogadores referência como se reforçaram bem como PSG, Dynamo Kiev, Spartak Moscow, Celtic e Galatasaray.

Na Liga Sagres todas as equipas que aspiram ao titulo perderam cartas de luxo. Não só isso piora claramente a qualidade da competição como abre ainda mais a disputa pelo troféu que mora nas vitrinas azuis e brancas pelo segundo ano consecutivo. O Benfica, que apostou forte em recuperar o titulo mantendo Jesus ao leme, preferiu apostar num over-booking de extremos e dianteiros e esqueceu-se de reforçar o eixo medular e defensivo. Se Luisão for suspenso por meio ano, como a sua acção exige, Jesus terá sérios problemas para resolver, sobretudo nos jogos com rivais directos onde a segurança defensiva encarnada vai ser realmente testada.

O Braga já sofreu em Paços o choque de realidade de perder um homem que nos últimos anos era uma garantia de duas dezenas de golo por época. Sem uma referência ofensiva, Peseiro terá de apostar na solidez do bloco bracarense e aproveitar-se dos erros dos rivais para manter as distâncias curtas. O Sporting, que arrancou com o pé esquerdo na temporada, continua a ter de apostar na juventude para resolver os seus problemas financeiros e desequilíbrios no plantel, e Sá Pinto corre contra o relógio para não perder o fundamenta comboio da Liga dos Campeões do próximo ano.

Por fim o FC Porto parte como favorito e apesar de ter perdido Hulk mantém o estatuto. Se o brasileiro era fundamental, sobretudo nos duelos fora de casa em campos de equipas bem organizadas defensivamente, a verdade é que Vitor Pereira tem o plantel mais equilibrado dos quatro candidatos ao título. Uma defesa sólida com Danilo e Alex Sandro definitivamente confirmados como titulares e um meio-campo onde a permanência de Moutinho é a melhor das noticias. Entre James, Varela, Atsu e Jackson a equipa terá de encontrar os golos que dava e marcava o "Incrivel". Esse é o grande desafio do contestado técnico portista.

 

Como o fosso entre os quatro primeiros e as restantes equipas continua tremendo, apesar das baixas nos planteis dos candidatos ao titulo, ninguém espera uma temporada de grandes surpresas. O título começa a ser discutido a quatro mas é previsível que antes de Dezembro um candidato tenha caído da perseguição e no final seja um mano a mano entre FC Porto e SL Benfica a decidir o troféu. Sem as grandes figuras do ano passado, este pode ser uma temporada onde, mais do que nunca, o papel de gestores humanos e analistas tácticos, dos quatro treinadores se revele ainda mais fundamental no jogo do titulo.



Miguel Lourenço Pereira às 19:28 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Sábado, 01.09.12

Em dois anos o Atlético de Madrid venceu duas Supertaças Europeias. Com duas equipas totalmente distintas. Só Gonzalo Godin, central uruguaio, participou como titular nos dois jogos. Uma revolução que contrasta com o sucesso europeu do clube. Dois projectos diferentes, duas Europe Leagues e Supertaças Europeias conquistadas com todo o mérito. Como é possível vencer depois de desmantelar uma equipa vencedora? Em Madrid o Atlético tem uma fórmula. Cheia de sombras escuras.

 

Falcao.

Um nome próprio que para os colchoneros vale ouro. E títulos. Mais do que os adeptos do segundo clube da capital espanhola podiam esperar. Especialmente depois da direcção do clube ter desmantelado uma equipa forjada para ganhar e que superou todas as expectativas, apenas dois anos antes. Em 2010, com Espanha ainda a desfrutar do título mundial conquistado em Joannesburgo, a equipa colchonera chegou ao Mónaco para disputar a Supertaça Europeia frente ao campeão europeu em título, o Inter de Milão.

Os homens de Quique Sanchez Flores tinham vencido a Europe League numa final intensa contra o Fulham inglês. Não eram favoritos. Mas venceram. E convenceram. Deixando a ideia de que o projecto forjado anos antes tinha finalmente pernas para andar. Mas a realidade seria bem distinta. Aguero, Forlan, De Gea, Simão, Tiago, Raul Garcia, Perea, Antonio Lopez, Ujfalusi, Dominguez, nomes próprios e titulares indiscutiveis dessa equipa. Nomes ausentes na noite de ontem. No mesmo cenário. Na luta pelo mesmo troféu.

O projecto de Quique terminou de forma abrupta. O treinador saiu em choque com a direcção e atrás dele foram todas as estrelas. Os adeptos não podiam acreditar que, meses depois de atingir a glória do primeiro titulo europeu, o projecto se estivesse a desmantelar de forma tão rápida. Mas não havia volta atrás. Esperavam-se dias sombrias no Manzanares para a paróquia colchonera. Ou talvez não.

Apenas dois anos depois, os adeptos do Atleti voltaram a percorrer os 1300 kms que os separava do Mónaco. Em carro, autocarro ou avião. Para ver Falcao, Adrian, Arda Turan ou Courtois, os novos ídolos do Calderon.

 

Que um clube europeu vença dois titulos europeus num espaço tão curto de tempo não é anormal. 

O Sevilla venceu duas Taças UEFA de forma consecutiva, o domínio do Barcelona no futebol europeu tem existido de forma, quase ininterrupta, desde 2006 e o próprio Real Madrid, entre 1998 e 2002 ganhou três Champions League. Mas em nenhum caso houve um corte tão drástico de um projecto para o outro. 

O Atlético de Madrid vendeu a 15 dos jogadores do plantel da sua equipa campeã em 2010. Godin e Raul Garcia são os únicos nomes que estiveram nas duas finais no espaço de dois anos. O que torna o feito ainda mais difícil de explicar se não se conhece a forma como o clube colchonero se move pelos meandros do futebol.

A herança de Jesus Gil y Gil é pesada. Tanto pelo seu carisma como pelo passivo gigantesco que deixou para o seu filho, Miguel Angel Gil Marin, e o seu braço direito, o productor cinematográfico Enrique Cerezo, gerirem. O clube foi forçado pelas finanças espanholas a assinar um protocolo para abater a dividia gigantesca que ainda mantém com o estado espanhol. E que tardará largos anos em pagar-se na sua totalidade. O acordo prevê que 20% da percentagem de cada venda de um jogador do clube seja directamente remetida para pagar a dívida. Sem sequer entrar nos cofres do clube. Uma realidade que obriga o Atlético a vender sempre que surge uma boa oferta. E que obriga o clube a procurar bons negócios. E a desenhar o seu plantel a baixo custo. A esmagadora maioria dos seus jogadores chegou ao Calderon a custo zero ou por valores ridículos, tendo em conta o mercado actual. Adrian, Arda Turan, Emre, Cebolla Rodriguez, Raul Garcia, Juanfran e Cata Diaz foram todos contratados a custo zero. Courtois está emprestado pelo Chelsea e assim seguirá, fruto de um protocolo de colaboração entre os dois clubes. Desenhado por Jorge Mendes, figura fundamental na vida do clube.

O empresário português é um dos homens fortes do clube desde a sombra. Uma das suas holdings tem fortes interesses no clube, ajuda a gerir os contratos publicitários e utiliza o nome do Atlético para servir de ponte para a maioria dos seus negócios. Pizzi, Julio Alves, Ruben Micael, Diego Costa, Tiago são meros exemplos. Não há homem que entre no clube sem o visto de Mendes, hábil em conseguir dinheiro onde mais ninguém consegue. Foi ele o valedor do negócio de Radamel Falcao. O homem que permitiu que os colchoneros voltassem a viver um dia da marmota.

Depois da perda de Aguero e Forlan, o ataque órfão do Atlético precisava de uma referência. O empresário português persuadiu o colombiano a mudar de homem de confiança, renovou o seu contrato com o FC Porto ampliando a cláusula (e ganhando uma comissão) e depois geriu a sua venda ao Atlético de Madrid (ganhando outra comissão) em moldes muito mais atractivos para os espanhóis. 20 milhões pago a prontos (dos quais os azuis e brancos só viram 10, entre comissões e dividas pendentes) e outros 20 milhões a pagar em dez anos. Ruben Micael, outro dos seus homens, entrou no negócio para maquilhar as contas mas em Madrid ninguém o viu. Acabou em Zaragoza e agora está em Braga. De onde veio Pizzi que está na Corunha, onde Mendes tem mais seis jogadores e de onde veio Adrian. Entendem? 

 

Falcao é o nome próprio deste Atlético. 

Atrás de si, Diego Simeone, velha glória do clube e técnico que fez nome na Argentina antes de dar o salto à Serie A, montou uma equipa repleta de talento mas, sobretudo, de musculo. Um meio campo com o trabalho duro de Mario Suarez, Gabi, Koke e Tiago, que dá asas ao jogo vertical de Adrian, Arda e Falcao. Falta Diego, outro jogador que chegou cedido para ser fundamental no titulo europeu conquistado em Bucareste frente ao Athletic Bilbao, mas cuja massa salarial é incomportável para os colchoneros. É no entanto o colombiano quem faz toda a diferença. Não foi só o terceiro melhor marcador da liga - insuficiente para levar a equipa à Champions League, o grande objectivo - mas também carregou com a equipa durante a Europe League até decidir a final. No Mónaco foi igual a si mesmo. Cinco remates, dois postes, três golos, tudo em 45 minutos. Um fenómeno apenas equiparável, em tempos recentes, ao de Ronaldo Nazário. 

Com o colombiano na equipa, o Atlético sabe que tem um projecto de rentabilidade a curto prazo. A directiva sabe que o objectivo é a Champions League e depois, com 15 milhões garantidos, é certo que Falcao será colocado de novo por Mendes, que muitos dos jogadores que chegaram a zero serão vendidos a peso de ouro e que o processo recomeçará de novo, desde o zero. Pelo caminho estão os jogadores ainda não pagos, como Fórlan, os sucessivos empréstimos conseguidos por Cerezo para pagar os salários a tempo e horas e o fantasma do novo estádio, La Peineta, para que o clube possa realizar o fundamental encaixe da venda dos terrenos do Calderon, numa zona privilegiada de Madrid. Números que, se não se concretizem, deixam o Atlético com a corda ao pescoço. 

 

Ninguém duvida que, com Radamel Falcao, os madrileños são de novo favoritos a vencer a Europe League e têm condições para acabar no pódio da liga espanhola. A segurança defensiva, a grande obsessão do Cholo Simeone, será fundamental bem como a crescente aposta na formação, uma linguagem que os espanhóis aprenderam a saborear com os troféus recentes da sua selecção. Mas os seus adeptos sabem também que enquanto o clube viver entre dividas, nenhuma festa se poderá prolongar no tempo. Talvez por isso cada vitória tenha um sabor ainda mais especial, talvez por isso sentir que Falcao, um jogador por quem se pagou tão pouco e que seguramente renderá tanto, é o exemplo perfeito desta gestão. Com os contactos certos, sem dinheiro fresco na mão e pensando apenas no hoje também se desenha um projecto ganhador.



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Domingo, 19.08.12

O futebol inglês encerrou esta semana um ciclo de 15 anos da sua história. Um ponto final surpreende, pelo simbolismo, mas evidente pela forma como a competição se foi adaptando a uma nova realidade de novo-riquismo que domina a elite da Premier League. A mudança de Robbie van Persie de Londres para Manchester não é apenas uma das transferências do ano. É a primeira mudança de um jogador do Arsenal para o Man United em 25 anos. É a transferência que termina, oficialmente, com uma época em que os gunners olhavam de igual para igual aos red devils. Durante quinze anos dividiram o protagonismo da prova. Agora competem em universos distintos.

 

Alex Ferguson voltou a levar a melhor sobre Arsene Wenger. Mas a vitória tem agora um sabor diferente. 

O francês já não é o seu rival. Já não é o alvo a abater, já não está nas principais da Bwin para o título. E já não é a sua principal preocupação. Quando Wenger chegou a Highbury Park da liga japonesa, em 1996, o Manchester United de Ferguson estava a consolidar o seu dominio na Premier League, conquistando o quarto titulo em cinco edições, apenas suplantado por uma ocasião pelo Blackburn Rovers. Nos 15 anos seguintes o único clube capaz de desafiar de forma regular os homens de Old Trafford eram liderados, precisamente, por Wenger. 

Até à chegada de Abramovich ao Chelsea, dividiram todos os títulos principais do futebol inglês. Depois do hiato de dois anos do Chelsea - liderado por José Mourinho - voltaram a ser os principais rivais na prova. Mas o dinheiro injectado pelo russo nos londrinos de Stanford Bridge e a chegada do sheik Al Mansour ao Manchester City foram acabando com o duopólio. O Big Two passou a Big Four, então com o Liverpool e mais tarde com o City a fechar o poker de clubes que podiam aspirar ao titulo da Premier. Mas sem dinheiro - devido à aposta do clube em fazer do Emirates Stadium uma nova fonte de ingressos a curto prazo - e perdendo as suas estrelas, de alguma forma Wenger conseguia estar sempre aí. O seu Arsenal nunca terminou abaixo do terceiro lugar desde a sua chegada. Nunca falhou a fase de grupos da Champions League, prova maldita para o gaulês. E nunca cedeu à tentação de render-se às investidas de Ferguson.

Wenger preferiu perder Nasri para o Manchester City, Fabregas para o Barcelona e Cole para o Chelsea antes de os vender a Ferguson. Com o escocês travou mais do que batalhas ideológicas e dialécticas. Até à chegada de Mourinho os dois monopolizaram o império mediático da Premier. Depois da saída do português afastaram-se ainda mais. Na hora da verdade Wenger confessou que tentou tudo para não perder o jogador holandês para o Manchester United. Mas desta vez não teve alternativa. E fechou-se um ciclo histórico.

 

Com Van Persie o escocês conseguiu o que queria.

Acabou com um rival directo de forma definitiva. Parece evidente que hoje o titulo inglês é questão de três, de três clubes com poderio financeiro suficiente para aguentar esta corrida ao armamento que terá, mais tarde ou mais cedo, outros danos colaterais. O Liverpool foi o primeiro e agora definha nos últimos postos europeus, depois de ter sonhado alto com Rafa Benitez. O Chelsea sofreu-o na pele e só o triunfo na Champions League despertou a vontade de Abramovich de contrariar uma tendência recente e volta a injectar sangue novo - pago a peso de ouro - no clube.  E agora o Arsenal, vitima de uma politica louvável mas que o está a afastar, progressivamente, dos títulos. O clube é o porta-estandarte do programa Fair Play da UEFA mas no terreno de jogo a sua aposta em manter uma massa salarial controlada e um gasto em transferências que não aumente o passivo do clube teve um duplo efeito negativo. Não só afastou os gunners dos títulos como levou os seus principais jogadores a procurarem o dinheiro e os troféus nos seus rivais mais directos. 

Wenger não joga num jogo limpo e sabe-o. Manter-se fiel à sua filosofia é louvável mas suicida e agora o técnico sabe que o máximo que pode aspirar é repetir a enésima presença na Champions League num duelo quente com Tottenham, Liverpool e Newcastle, equipas cujo o orçamento e gastos em transferências se equipara ao dos londrinos. A anos-luz estão os outros, os homens dos títulos.

O United tem lidado com o grave problema de resolver aos Glazer a sua própria divida e isso tem sido um grave handicaap nos últimos anos para Ferguson. A formação do clube não tem dado os frutos esperados a curto prazo, a maioria dos jogadores contratados são jovens de potencial e a necessidade de recorrer cada vez mais à velha guarda é evidente. Este defeso foi um passo fundamental para mostrar que o clube está ainda no topo. A chegada de Van Persie para unir-se no ataque com Wayne Rooney equivale em importância moral ao "roubo" de Eric Cantona ao Leeds United, então rival directo dos Red Devils na Premier. Com o japonês Kagawa a dar ao meio-campo a classe que faltava, espera-se este ano um Manchester mais agressivo, eficaz e autoritário. Uma equipa montada a longo prazo para aguentar os gastos loucos do Manchester City - que continua a ser o grande favorito - e de um Chelsea rejuvenescido a peso de ouro. 

 

Apesar das chegadas de Giroud, Cazorla e Podolski, o Arsenal sai claramente desfigurado deste negócio. Baixou oficialmente um degrau e deixou de ser uma equipa a contar na luta pelo titulo, mesmo que nos últimos anos isso tenha sido sempre uma miragem. Os próximos anos da Premier vão definir-se sobretudo à volta dos clubes com dinheiro vivo e sobreviverá aquele que melhor aguente a concorrência. O grande trabalho de Wenger será agora evitar que o Arsenal repita o exemplo do Liverpool e se mantenha a uma distância saudável do pódio, esperando algum deslize. Talvez assumindo definitivamente que a Premier é outro cantar possa o técnico finalmente focar-se na Champions League e ganhar o único troféu que lhe falta, aquele que mais tem merecido e que sempre se lhe tem escapado. O Chelsea e o Liverpool lograram-no nas horas mais baixas. Quem impede o Arsenal de seguir pelo mesmo caminho? 



Miguel Lourenço Pereira às 00:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 07.08.12

Pode sobreviver a liga escocesa sem o Glasgow Rangers? A partir deste Verão saberemos a resposta mas enquanto todos dão por descontado um novo título para o Celtic de Glasgow, aquece a corrida para completar o pódio agora que a hegemonia crónica do Old Firm desaparece por uns bons anos.

 

Desde a década de 80 que nenhum clube escocês conseguir trepar ao segundo lugar da tabela classificativa a não ser que o seu nome fosse Celtic ou Rangers. Nem mesmo na passada época, com os problemas financeiros dos azuis, o terceiro em discórdia, neste caso o Motherwell, logrou superar pontualmente o clube de Glasgow. A realidade do futebol escocês é inegavel. Dois clubes competiam para vencer e os restantes para sobreviver. Mas sem o Glasgow Rangers em prova a emoção está garantida. Os analistas consideram o titulo do Celtic uma das certezas crónicas do ano que aí vem. Mais, muitos insinuam mesmo que, sem concorrência interna, este é o ano em que os católicos têm de apostar seriamente nas provas europeias, apesar de ser evidente que a qualidade do plantel do Celtic não permite grandes sonhos na Champions League. 

Com os verdes ocupados com esse sonho europeu - não participam numa final desde 2003 - e as contas do título fechadas antes da loja abrir, é o segundo lugar, o que dá opções de entrar na febre dos milhões da UEFA que inspira tanto interesse. A eliminação do Motherwell às mãos do Panatinaikhos deixa claro que a realidade dos clubes escoceses dista ainda bastante do nível europeu, mas mesmo assim terminar atrás do futuro campeão é um estimulo que há esmagadora maioria dos clubes de metade da tabela acalenta para as próximas quatro temporadas, ou seja, até ao esperado regresso do Rangers à elite.

 

Nessa conjuntura a disputa parece resumir-se a quatro clubes históricos que têm vivido anos de cinzentismo profundo.

O Dundee United, campeão na década de 80 (quando venceu igualmente uma Taça UEFA), é o mais sério rival do Celtic e lidera o pelotão de favoritos ao campeonato dos "outros". A equipa orientada por Peter Houston esteve perto da despromoção há dois anos atrás mas acabou a última temporada num quinto posto e mantém a estrutura base de uma equipa que pode e deve ambicionar a mais. 

Em concorrência directa com os laranja de Dundee (a despromoção do Rangers permitiu a promoção do Dundee FC, que veste de azul, outro histórico da cidade) estão Hearts, Abardeen e Motherwell.

O clube de Edimburgo, orientado na passada época por Paulo Sérgio, chega à nova temporada com a taça escocesa debaixo do braço, a primeira vitória do clube em largos anos numa prova oficial. O técnico português já não está para liderar a nave, mas o seu sucessor, John McGlynn, conta com a maioria dos jogadores que estiveram por detrás da vitória frente ao Hibernian no passado mês de Maio. Por outro lado, o Motherwell entrou cedo na temporada para preparar a presença europeia e chega ao arranque do torneio em boas condições. Mas começar bem numa competição onde as equipas jogam quatro vezes entre si nem sempre é bom sinal. Os homens de Stuart McCall são, na imensa maioria, os mesmos que terminaram o passada época no terceiro lugar e sem a concorrência directa do Rangers o objectivo natural é subir um degrau no pódio da Scotissh Premier League. Na luta pela prata, o clube de Fir Park vai encontrar-se com o Abardeen.

Desde o mandato de Alex Ferguson, com os seus dois títulos de liga, duas taças da Escócia e uma Taça das Taças, que o clube da cidade portuária vive entre desilusões. O veterano Craig Brown - o último homem que levou a Escócia à fase final de uma competição internacional - quer despedir-se com uma boa temporada e depois de ter manobrado bem o mercado de transferência, garantindo que o grosso dos jogadores do plantel fica ao seu serviço e incorporando vários jogadores de nível a custo zero, há quem considere os encarnados como o outsider por excelência da prova.

 

Uma competição dentro de outra prova com vencedor pré-anunciado é o estimulo que os adeptos e seguidores do futebol escocês vão encontrar. O formato do torneio não permite sonhar com grandes surpresas, como sucede em ligas como a holandesa, belga ou suíça quando os grandes perdem protagonismo, e o título do Celtic parece inquestionável. Mas estes serão anos fundamentais para perceber até que ponto o futebol do país que inventou o passe como principal técnica de jogo é sustentável e pode existir para lá do fantasma do Old Firm.



Miguel Lourenço Pereira às 17:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 03.08.12

Acabou o sonho andaluz. O dinheiro, que prometia cair com a mesma velocidade que os termómetros sobem em Málaga, chegou abruptamente ao fim. A história do clube espanhol é igual a tantas outras e volta a demonstrar, se fosse necessário, que os investimentos milionários do Médio Oriente no mundo do futebol aproximam-se mais ao conto do vigário do que ao genuíno planeamento desportivo de futuro. 

 

Al-Thani chegou a Málaga como um herói e no final da época já era um filho predilecto à altura de António Banderas.

O histórico clube andaluz tinha logrado um quarto lugar na liga espanhola e confirmado a sua estreia na Champions League e pelo caminho tinham aterrado no estádio La Rosaleda jogadores do pedigree de Joaquin, Isco, Cazorla, van Nistelrooy, Mathijsen, Toulalan e Buonanotte. Uma equipa paga a peso de ouro e orientada por um técnico talentoso mas que não era, propriamente, acessível para o bolso de uma instituição habituada aos lugares de metade da tabela. Quando Mourinho anunciou que nunca treinaria o Málaga muitos tomaram as palavras como um ataque velado ao seu antecessor em Madrid. Enganaram-se. O luso, que percebe de investidores milionários, já cheirava o que aí vinha.

Depois do quarto posto na liga chegaram os problemas quando muitos imaginavam já mais um vendaval de estrelas, apresentações milionárias e o hino da Champions a ecoar pela costa mediterrânica em Setembro. Primeiro foram os jogadores que se queixaram de não receber partes substanciais dos seus salários e dos prémios de final de temporada. Vários assinaram mesmo uma petição de ajuda ao sindicato para depois retirarem a queixa contra o clube, uma queixa que podia ter levado o Málaga directamente à Segunda B se a liga e a federação espanhola, como instituições, estivessem ao nível da selecção espanhola, como entidade desportiva. 

Nesse habitual caciquismo que faz da liga de Espanha um paradoxo vivo, o Málaga não só fintou a despromoção e a manutenção do posto europeu (ao contrário do que viveu o Mallorca na passada época) como soltou na imprensa noticias sobre novas hipotéticas chegadas para acalmar os adeptos. Mas a verdade vem sempre ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Santi Cazorla, o símbolo do projecto malaguenho, foi o primeiro a dizer adeus com um tremendo buraco no bolso. Mas não será o último.

 

O emir do Qatar que está por detrás da compra do clube decidiu que ser dono de um clube de futebol numa das ligas mais potentes do mundo afinal é um brinquedo demasiado caro. Vender a investidores da Albânia ou abdicar das figuras que levaram o Málaga à Europa são os dois cenários em cima da mesa. Os investidores tardam em aparecer e por isso os jogadores vão saindo. O extremo asturiano assinou pelo Arsenal, que há muito o cobiçava, e Pellegrini foi convidado a deixar o clube depois de ter logrado o melhor resultado da história da instituição. Tudo por culpa do seu salário principesco, problema que afecta também a Toulalan, Joaquin e Mathijsen e que levou Ruud van Nistelrooy a abandonar o futebol no final da passada época por não ter a certeza que o clube podia pagar um ano mais de contrato. 

A brincadeira acabou como seria de esperar. Desde há meia dúzia de anos para cá o dinheiro do Médio Oriente tem tentado entrar na elite do futebol europeu. Mas está comprovado que os investidores milionários são um oásis apetecível mas letal. Roman Abramovich e Al-Mansour foram, até agora, as únicas excepções, aliando investimentos regulares a exercícios de paciência pouco habituais em homens habituados ao lucro imediato. O russo esperou quase uma década pelo titulo europeu que tanto queria para o seu Chelsea e o qatari pegou no clube das mãos de outro milionário falido, o ex-primeiro-ministro tailandês, e aguentou o Manchester City durante cinco anos até conquistar a ansiada Premier League.

Salvo estes dois exemplos, a maioria dos investidores desistem depressa dos seus brinquedos com danos colaterais importantes. Em Santander ainda procuram o milionário Ali Said, um indiano que prometeu o futebol europeu aos cantábros e que depois se esquecer de pagar salários e os gastos assumidos mergulhando o clube numa inevitável despromoção. Ou o caso de Dimitri Pitterman, o homem que levou o modesto Alavés de uma final da Taça UEFA às distritais do futebol espanhol. Em Inglaterra muitos são os milionários que vão e vêm sem deixar saudades (que digam os adeptos do Portsmouth, West Ham United e Leeds United) ou que usam os clubes para limpar dividas como sucede com os Glazer, detentores do futuro e presente do Manchester United. Em Itália os casos das falências das empresas Cirio e Parmalat foram a alavanca que dinamitou os projectos da Lazio e Parma, e as despromoções de Napoli e Fiorentina seguiram pelo mesmo caminho. Mesmo em França, com a injecção inesperada de dinheiro no PSG por parte de um grupo de investidores do Médio Oriente, a suspeita de que o sonho parisiense não dure é imensamente maior do que a sensação de que o PSG europeu veio para ficar. A promessa de dinheiro fácil conquistou os adeptos do Málaga mas a factura a pagar agora pode ser demasiado cara. O clube não tem condições para defrontar a Champions League (será um dos adversários mais apetecíveis do play-off) e numa liga onde o Villareal, um dos poucos clubes cumpridores, foi despromovido depois de lograr o mesmo quarto posto há um ano atrás, tudo pode suceder.

 

No meio de promessas vãs e cheques sem cobertura, os milionários que querem entrar no futebol têm contribuído para a escalada de salários e a inflação de preços no mercado. Que Yaya Touré seja o jogador mais bem pago da Premier League explica bem essa realidade. À medida que mercados paralelos como o russo e chinês chegam a valores incomportáveis para a realidade europeia, sonhar com um dono milionário é uma tentação, e como tal, um risco. Aos azuis da Andaluzia o futuro apresenta-se confuso e cinzento. Dezenas de outros clubes históricos espanhóis passaram pelo mesmo calvário e vivem hoje dias difíceis. Quase todos eles vitimas confessas do conto do vigário.



Miguel Lourenço Pereira às 00:33 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 01.08.12

Vencer a Champions League muitas vezes é o culminar de uma equipa que entra para a história. No caso do Chelsea não podia ser mais verdade. O onze que logrou em Munique o primeiro troféu de campeão europeu para os londrinos faz parte da história do clube mas não do seu futuro. Foi o último suspiro de uma geração de veteranos que várias vezes bateu à porta sem nunca conseguir entrar. Sem a sua guarda pretoriana o Chelsea tem nas mãos o dificil desafio de reinventar-se com base no talento e na juventude dos jovens leões de Stanford Bridge.

 

Hazard. Oscar. Marin. De Buyne. Lukaku. 

Nomes próprios do futuro azul, nomes próprios de uma nova era. Uma era pós-Champions League.

O clube londrino venceu o troféu em Maio com uma geração perto do seu final. Muitos dos membros do plantel saíram a custo zero. Outros sabem que têm poucos anos pela frente na elite. Terry, Cech, Lampard e Cole são conscientes que alcançaram o pináculo das suas carreiras e que o próximo ano pode bem ser o último no clube onde estiveram a última década. Os homens que Mourinho forjou e que Di Matteo levou ao titulo europeu podem ir com a sensação de missão cumprida. É aos novos que chegam que fica a dura missão de manter o nível bem alto.

O processo de rejuvenescimento do clube arrancou à dois anos. O Fair Play financeiro da UEFA foi o primeiro alerta na gestão de um clube habituado a gastar muito e bem. Antevendo os problemas de futuro os directivos do Chelsea entenderam que era necessário repetir a operação de 2003 e 2004, rejuvenescer ao máximo o plantel para aguentar largos anos e assim evitar as investidas no mercado.

Ramires, Ivanovic, Fernando Torres, Juan Mata, Raul Meireles, David Luiz, Cahill e Thibaut Courtois foram contratações cirúrgicas a pensar no hoje e sobretudo no amanhã. Mas não foram as únicas. Para a cantera Blue foram recrutados jovens dos vários cantos de Inglaterra e do velho Continente para estarem preparados a dar o salto para a equipa principal. Mas por muito lógica que fosse a politica do clube, ela esbarra com a única ambição do seu dono, Roman Abramovich: o titulo europeu.

As saídas de Ancelotti e Villas-Boas, homens que trabalhavam o futuro mas que falharam em cumprir o sonho do seu patrão omnipotente, deixaram também a sua marca na politica do clube. Os pesos pesados eternizavam-se e muitas promessas, como o italiano Borini, perdiam-se definitivamente por valores irrisórios apesar do seu futuro prometedor. A vitória de Di Matteo serve também como ponto de inflexão nesta politica auto-destructiva. Com o objectivo cumprido o Chelsea tem agora tempo para redesenhar-se.

 

As saídas de Bosingwa, Kalou, Drogba, Deco, Anelka, Ballack foram o primeiro passo. 

Em dois anos o plantel emagreceu e rejuvenesceu-se. Agora é a época das contratações definitivas, da mudança táctica que muitos adeptos pedem a gritos rumo a um futebol de posse, de controlo sem esquecer a velocidade como arma preferencial, um regresso ás origens do Special One.

O clube moveu-se bem e rápido no mercado e contratou duas das maiores esperanças do Velho e Novo continente. Do Lille gaulês chega Eden Hazard, o futebolista continental mais similar a Zinedine Zidane que sobrevoa os relvados do futebol europeu. Hazard é um génio longe dos holofotes mediáticos e em Londres assumirá a batuta de liderança de um projecto que tem o seu rosto. Eficaz, dono de uma técnica invulgar, maestro das bolas paradas, fisicamente dotado, o belga tem tudo para ser o futuro dos londrinos. Ao seu lado o brasileiro Óscar, a enésima reencarnação do "malandro" canarinho, maestro da finta e do passe, dono de uma visão de jogo invejável e de um estilo difícil de descrever usando apenas palavras. Entre ambos a bola rolará com a finura e determinação de um primeiro amor. Para meter velocidade ao jogo, as pernas do alemão Marko Marin e do belga Kevin De Bruyne, dois extremos à europeia, fisicos, intensos, velozes e peritos na arte dos cruzamentos, jogadores capazes de abrir o campo ou rasgá-lo em diagonais venenosas. Jogadores capazes de dar o arrojo que o Chelsea não tem desde os dias de Arjen Robben e Damien Duff. 

Na frente de ataque continua o dueto espanhol Torres-Matta, dois jogadores superlativos em estado de graça, agora acompanhados definitivamente pelo belga Romelu Lukaku. Jogador dono de uma força e uma potência fora do normal, Lukaku teve poucos minutos na passada época mas com a saída de Drogba, com quem partilha mais do que semelhanças físicas, pode ser a grande surpresa do ataque londrino.

Di Matteo conta com um arsenal de respeito. Num 4-3-3 esperem ver muitos destes rostos no banco porque não há vagas para todos, numa lista onde se movem ainda Malouda e Sturridge. No meio-campo, ao lado da classe, a força de Ramires, a tenacidade de Meireles e o trabalho de Obi Mikel para dar o equilibrio necessário que a defesa composta por Cahill-David Luiz deverá reforçar ao longo da época. As laterais continuam a ser o calcanhar de aquiles do clube e talvez seja aí onde o mercado volte a funcionar para os Blues que até se dão ao luxo de deixar Courtois em Madrid mais uma época, confiantes que estão na genialidade eterna de Petr Cech

 

Com este cenário - e sonhando ainda com Hulk e Falcao, nomes que sempre rodeiam o futuro dos azuis - o Chelsea apresenta credenciais mais do que suficientes para defender a coroa europeia. Mas que ninguém se engane. Este é um projecto de futuro, desenhado para a próxima década com jogadores extremamente jovens mas com um potencial tremendo. Um projecto que se inspira na brilhante trajectória espanhola, na classe centro-europeia, no músculo africano e no espírito britânico para criar um cocktail de emoções e movimentos capazes de marcar uma geração.



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 29.07.12

Lateral bicampeão europeu sem clube. Podia ser um anúncio num jornal qualquer mas é, sobretudo, um dos enigmas do mercado. Bosingwa, com 29 anos, encontra-se sem clube depois de ter sido dispensado pelo Chelsea. Chegou a Londres da mão de Luis Filipe Scolari e entre lesões e sprints esteve nos pontos altos e baixos do clube londrino da última meia década. Agora procura um novo clube quando o curioso é que não há um só clube que o procure a ele.

 

As más línguas comentaram, depois da final da Champions League, que o gesto de Bosingwa no palco, quase impedindo Terry e Lampard de surgir na fotografia dos vencedores, seria o último prego no seu caixão para sair dos Blues. A verdade é que o seu futuro já estava decidido antes mas esse momento simboliza perfeitamente a relação do internacional português com o clube londrino: descontrolada.

Bosingwa, que nasceu no Congo mas chegou cedo a Portugal e acabou por ser um dos internacionais mais utilizados da época final de Scolari e do mandato de Queirós, começou a carreira debaixo de comentários que não abonavam nada a favor da sua inteligência. Figura criticada no balneário do Boavista pelas suas atitudes, dentro e fora de campo, era um jogador com um perfil complexo de gerir. Mourinho decidiu arriscar, pensando nele como médio defensivo, mas no ano em que estiveram juntos houve pouco tempo para aflorar a ligação e foi nos anos seguintes, sobretudo com Jesualdo Ferreira, que o jogador explodiu finalmente como lateral de excepção. 

Com Scolari no Chelsea o destino de Bosingwa ficou traçado. A saída do brasileiro, o mesmo que o tinha solicitado expressamente a Abramovich, transformou o futuro do lateral no clube. Os técnicos que se seguiram tinham problemas em lidar com ele e encontrar a melhor forma de explorar o seu potencial. Se a Paulo Ferreira lhe faltavam pernas para repetir os anos memoráveis de azul, a Bosingwa faltava-lhe sobretudo inteligência de jogo. As lesões que se seguiram serviram apenas para adiar o inevitável. Suspenso da selecção com a chegada de Paulo Bento - por motivos similares ao de Ricardo Carvalho, outro ex-colega seu no Porto e em Londres - o ano do português salvou-se com o titulo europeu. Com Villas-Boas, Bosingwa ainda sonhou em voltar a ser figura protagonista do clube, mas os problemas físicos e a saída do técnico portuense marcou o seu futuro longe de Stanford Bridge.

 

No mercado actual é dificil encontrar muitos negócios por valores consideráveis. A conjuntura económica tem sido um fantasma que nem os clubes mais folgados tem sabido contrariar e as operações são modestas e escassas. E Bosingwa, com a carta de liberdade na mão, devia ser um dos atractivos do mercado. E até agora, o silêncio.

A única oferta que o jogador recebeu chega do AS Monaco, clube histórico a viver dias complicados na Ligue 2. O técnico, Claudio Ranieri, mostrou interesse em contar com o lateral mas entre a oferta salarial (Bosingwa quer continuar a receber, onde quer que vá, cerca de 3 milhões de euros) e o facto de ser uma liga secundária, o interesse tem-se esfumado. 

E porque nenhum outro clube se move então? 

Os problemas físicos de Bosingwa são um handicap. Como vários jogadores massacrados pela lesão, aos clubes custa-lhes apostar em contratos largos quando há uma séria possibilidade do jogador ficar fora de competição durante largos meses e não rentabilizar o investimento. Por outro lado Bosingwa, com 29 anos, quer assinar o seu último grande contrato, mantendo valores que estão longe do seu valor real de mercado depois de três anos de poucos jogos e muita polémica. A incapacidade do jogador em perceber que as condições do mercado não convidam a valores tão exorbitados tem sido o primeiro problema. As informações, não demasiado abonatórias, sobre o seu carácter, são outro problema com que Bosingwa se tem encontrado. Poucos clubes de topo contam actualmente sem um lateral de referência no seu plantel e poucos são, também, os clubes de perfil médio que se querem arriscar a ter um jogador problemático no plantel, muitas vezes criado à base de pequenos detalhes.

 

Sem ofertas de Portugal devido à ficha salarial e com as portas dos melhores da Europa aparentemente fechadas, Bosingwa tem duas opções. Partir para uma opção monetariamente satisfatória em mercados de países emergentes (Rússia, Brasil, Estados Unidos, Qatar) ou procurar provar nos terrenos europeus que ainda tem o mesmo valor e qualidade que demonstrou ao serviço dos dragões durante largas épocas. 



Miguel Lourenço Pereira às 17:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 27.07.12

Poucos treinadores têm sido tão criticados pelos próprios jogadores nos últimos anos do futebol português como Jorge Jesus. O técnico encarnado tem reconstruído plantel ano atrás anos desde a sua chegada ao SL Benfica mas os resultados apenas têm piorado substancialmente as performances anteriores. Entre os confrontos no balneário e os erros tácticos, o crédito de Jesus esgota-se a pouco e pouco num estádio da Luz que continua sem saber o que é vencer um titulo durante duas épocas consecutivas desde os anos 80.

 

1983/84. 

Esse foi o último ano em que o SL Benfica logrou revalidar o titulo de campeão nacional. Com uma das melhores e mais eficazes formações da sua história, comandadas pelo sueco Sven-Goren Eriksen, o conjunto encarnado confirmou a sua superioridade a nível doméstico batendo pelo segundo ano consecutivo o FC Porto. Uma equipa em que militavam nomes sagrados da história do clube encarnado, de Nené a Chalana sem esquecer Bento, Carlos Manuel, Manniche, Stromberg, Filipovic, Álvaro. Uma equipa desenhada com outra mentalidade e que não encontrou eco nas quase três décadas seguintes. O Benfica voltou a ser campeão - por seis vezes, apenas - mas nunca de forma consecutiva. O saber ganhar e a mentalidade que marcaram a era dourada encarnada tinha desaparecido e sido substituída pela hegemonia do FC Porto a nível interno e externo.

A chegada de Jorge Jesus e o seu título, logrado na primeira época ao serviço do clube, levantou nas hostes encarnadas um profundo desejo de voltar ao passado, a essa filosofia de vitória contra tudo e contra todos. Mas dois anos depois, o legado de Jesus foi desmantelado progressivamente, em parte por culpa da política vendedora obrigatória para qualquer clube português mas, sobretudo, pela gestão do técnico no balneário encarnado. Jesus perdeu Ramires, Di Maria e Coentrão, é certo, mas a essência do plantel do primeiro titulo acompanha-o ainda e pelo caminho na Luz viveu-se uma espiral de contratações e dispensas que relembra mais o desnorte da década de 90, das etapas de Manuel Damásio e Vale e Azevedo, do que de um clube que quer algo mais.

Em 2010 o conjunto encarnado venceu a liga com um bloco forte e um modelo extremamente ofensivo. Mas já então se percebia a falha na estratégia de Jesus. Depois de uma primeira volta intensa, com várias goleadas pelo caminho, a equipa perdeu gasolina. A incapacidade do técnico de dosificar os seus principais jogadores permitiu uma aproximação dos rivais directos. O FC Porto, em modelo auto-destructivo e sem Hulk, afastado da competição durante largos meses, venceu o confronto directo que os distanciava mas então a luta já era com o Sporting de Braga, uma equipa com menor plantel mas que soube administrar bem as pernas e manteve o duelo aceso até ao fim. Na euforia da vitória poucos foram os que viram os sinais que se repetiriam no ambicioso projecto do ano seguinte.

 

Em 2010/11 o Benfica pecou como nunca. Pecou de arrogância e pecou de gula.

Jesus dispensou o guarda-redes do titulo com uma frieza que repetiria no futuro e apostou tudo num espanhol que chegou à Luz num negócio difícil de explicar. Pecou nas contratações - especialmente para tapar as baixas de Di Maria e Ramires - e pecou no esquema que adoptou, partindo literalmente a equipa entre o ataque e a defesa, especialmente a partir do momento em que o homem encarregado de apagar todos os fogos, Ramires, já não estava. E pecou de arrogância quando declarou que ambicionava o titulo europeu e concentrou as suas atenções na prova rainha, desgastando fisicamente os seus jogadores de uma forma demencial. Quando a eliminação precoce na prova dos milhões se confirmou, já o FC Porto levava uma profunda vantagem pontual e emocional - com goleada ao rival directo incluida - e as pernas dos encarnados não permitiam sonhar com uma recuperação. Começaram a sentir-se as primeiras fissuras no balneário e Jesus, em vez de surgir como elemento aglutinador, especializou-se em ser o causante das fricções.

No final do ano desfez-se do útil Carlos Martins, da aposta Roberto e foi afastando dos seus planos os determinantes Saviola e Cardozo apesar deste, inevitavelmente, continuar a disputar a titularidade á base de golos. Na última temporada foram Eduardo e Ruben Amorim a cair em desgraça com um técnico que não os poupou publicamente abrindo ainda mais o fosso entre plantel e corpo técnico. Os resultados, nem assim, chegaram. Não podiam. Tacticamente a equipa continuava perdida, órfã da ideia original, e quando a vantagem pontual parecia ser suficiente, uma vez mais a péssima preparação física dos titulares e os erros tácticos de Jesus entregaram de bandeja o troféu ao rival, o improvável FC Porto de Vitor Pereira. Dois anos depois tudo aquilo que tinha feito de Jesus um treinador popular nas bancadas da Luz começava a virar-se contra ele. A direcção encarnada manteve a aposta no treinador - uma decisão que tem tanto de lógica como de inevitável, depois do discurso presidencial se ter unido de tal forma ao destino do técnico - e a máquina mediática continuou a lançar mensagens de optimismo mesmo quando o clube encarnado passou largos jogos da época 2011/12 sem utilizar um só português (antes um conceito profundamente defendido pela massa adepta encarnada, o último clube a contratar um estrangeiro no futebol português).

Assemelhando-se a técnicos de outro tempo, Jesus tem-se dedicado a comprar e dispensar jogadores com uma voracidade ilógica para quem quer criar um projecto de futuro. Emerson foi o último a sofrer o seu chicote, dispensado sem perdão depois de ter chegado apenas há um ano do campeão francês Lille. Ao espanhol Capdevilla espera-lhe talvez um destino similar. Dos jogadores actualmente no plantel, 21 foram contratados pelo técnico em três anos. Entre 2009 e 2012 chegaram 40 jogadores novos ao clube. Uma média inédita nos clubes de topo europeu e uma lista onde se contam enésimos erros de autor, escolhas pessoais de Jesus como Patrick, Shaffer, Carole, Wass, Jara, Fábio Faria, Roberto, Felipe Menezes, Weldon, Kardec, Airton, Djaló, Emerson ou Perez.

Jogadores que chegaram, não triunfaram e foram dispensados, encostados, emprestados ou inutilizados. Sob a mitologia de técnico de jogadores, técnico capaz de valorizar jogadores de baixo perfil, esconde-se o verdadeiro rosto de um técnico que erra muitíssimo mais do que realmente acerta.

 

Jesus entregou ao Benfica um dos dois títulos da última década, um feito notável tendo em conta as últimas três décadas do clube encarnado no futebol português. Mas há muito tempo que mais um problema do que a solução. A sua actuação no mercado e os problemas tácticos crónicos têm prejudicado claramente a progressão de um clube que gastou o que tinha e o que não tinha para reduzir a distância competitiva com o principal rival nacional. Mais do que erros semânticos e uma politica de comunicação anedóctica, em cinco anos de gestão, não só a diferença se mantém em títulos conquistados como na gestão desportiva. Jesus chegou como o profeta que ia igualar a balança. Com ele ao leme ela parece mais desequilibrada do que nunca. 



Miguel Lourenço Pereira às 17:05 | link do post | comentar | ver comentários (12)

Sábado, 21.07.12

O PSG segue o mesmo caminho que o Manchester City. É o espelho onde se quer ver reflectido. Aos citizens foram precisos quatro anos de sérias inversões para quebrar uma barreira história. O PSG que acelarar os prazos. Depois da derrota mais surpreendente, no sprint final da Ligue 1 do ano passado, o titulo nacional é o objectivo mínimo do clube para esta temporada. Com as novas incorporações a Europa é tudo aquilo que interessa.

 

Zlatan Ibrahimovic é a última estrela da companhia. 

A sua chegada a Paris supõe o consagrar de uma politica de contratações que precisava de um jogador mediático para coroar o seu processo de consolidação internacional. Da mesma forma que as chegadas de Balotelli, Silva e Tevez deram ao Manchester City o pedigree necessário, o projecto pari movia-se na consciência de preencher o seu papel de líder com um jogador que nasceu para ser protagonista. Ibrahimovic era o único no mercado que cumpria esses requisitos. O sueco não traz só glamour e classe ao conjunto da capital gaulesa. Sobretudo traz uma imagem que vender e um bandeira para ondear nos mercados onde o clube se quer mover a partir de agora.

O PSG podia ter adoptado por diversos caminhos no seu sprint rumo ao sucesso imediato, um sucesso pago a peso de ouro. Ancelotti e Leonardo não se contentaram só com comprar muito e depressa. Queriam contratar jogadores contrastados e eficazes. Foi assim com Nené, Gameiro, Menez e Sirigu na época passado e este ano com Lavezzi, Thiago Silva e Ibra. Atletas que terão seguramente dificuldades em associar-se num principio num onze com demasiados nomes próprios mas que acabarão por marcar a diferença, particularmente numa liga como a francesa.

100 milhões de euros gastos mas quase sempre na mesma direcção. Apesar da perda de protagonismo da Serie A, a dupla forjada no AC Milan fez de Itália o seu campo preferencial de recrutamento. Marco Verrati, a grande promessa do meio-campo transalpino, foi a última das sete contratações que chegaram da liga italiana nos últimos dois anos para o clube parisiense.

 

Da mesma forma que o Manchester City começou a sua campanha de aquisição de jogadores com atletas de perfil médio mas atraidos por excelentes propostas salariais, o PSG sabe que não tem ainda o estatuto internacional para trazer os melhores jogadores disponíveis. A previsão do clube está em criar um núcleo base e ir substituindo progressivamente os jogadores contratados agora por estrelas num futuro imediato. 

A ambição do clube é evidente e está muito para lá da Ligue 1. O sonho, tal como do City, é vencer a Champions League mas o (mau) exemplo dos ingleses na passada época levanta vários alertas.

A derrota frente ao modestíssimo Montpellier foi seguramente uma lição difícil de aprender mas extremamente valiosa para os homens da capital. Ninguém espera outro cenário que não seja a vitória do conjunto da capital na próxima edição da Ligue 1. Nem que seja porque Ibrahimovic, se em algo se especializou, foi sagrar-se campeão nacional em todos os clubes onde esteve. Palavra de sueco.

Mas a Champions League hoje tornou-se no alvo de todos os investidores árabes que chegam ao futebol com vontade de triunfar de forma imediata. Face ao nível intocável dos dois grandes espanhóis e a solidez financeira do Bayern Munchen e dos clubes de magnatas de outros países (Chelsea, Arsenal, United), a ambição pode às vezes com a própria realidade.

O facto de nenhuma equipa desde o Olympique Marseille de 1993 ter vencido o torneio é o espelho de uma realidade competitiva com a qual o futebol gaulês não lida bem. A presença na final do AS Monaco em 2004 e do Olympique Lyon nas meias-finais de 2010 foram casos singulares que se deveram mais aos caprichos dos sorteios do que necessariamente a uma tendência que veio para ficar. O PSG, que mais do que representar França representará os petrodolares que deram nova vida a um clube que há anos estava em sarilhos financeiros sérios, quer inverter essa realidade mas para isso precisa mais do que jogadores e técnicos de top. A mentalidade neste tipo de torneios acaba por ser, tantas e tantas vezes, mais importante que os nomes do plantel.

Ninguém duvida que nos próximos anos, se o investimento continuar a este ritmo, possa apresentar uma equipa capaz de tutear os maiores nomes do Velho Continente. Essa é a realidade do peso financeiro que já dictou que o Manchester City vencesse a Premier League depois de 44 anos de fome de títulos. Mas a progressão, por muito que pese a um Zlatan Ibrahimovic, ansioso de levantar o único troféu que lhe falta, tardará e de ser rei da Gália, os parisienses terão de suar muito para proclamarem-se senhores da Europa. 


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Miguel Lourenço Pereira às 15:29 | link do post | comentar | ver comentários (6)

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