Terça-feira, 07.08.12

Pode sobreviver a liga escocesa sem o Glasgow Rangers? A partir deste Verão saberemos a resposta mas enquanto todos dão por descontado um novo título para o Celtic de Glasgow, aquece a corrida para completar o pódio agora que a hegemonia crónica do Old Firm desaparece por uns bons anos.

 

Desde a década de 80 que nenhum clube escocês conseguir trepar ao segundo lugar da tabela classificativa a não ser que o seu nome fosse Celtic ou Rangers. Nem mesmo na passada época, com os problemas financeiros dos azuis, o terceiro em discórdia, neste caso o Motherwell, logrou superar pontualmente o clube de Glasgow. A realidade do futebol escocês é inegavel. Dois clubes competiam para vencer e os restantes para sobreviver. Mas sem o Glasgow Rangers em prova a emoção está garantida. Os analistas consideram o titulo do Celtic uma das certezas crónicas do ano que aí vem. Mais, muitos insinuam mesmo que, sem concorrência interna, este é o ano em que os católicos têm de apostar seriamente nas provas europeias, apesar de ser evidente que a qualidade do plantel do Celtic não permite grandes sonhos na Champions League. 

Com os verdes ocupados com esse sonho europeu - não participam numa final desde 2003 - e as contas do título fechadas antes da loja abrir, é o segundo lugar, o que dá opções de entrar na febre dos milhões da UEFA que inspira tanto interesse. A eliminação do Motherwell às mãos do Panatinaikhos deixa claro que a realidade dos clubes escoceses dista ainda bastante do nível europeu, mas mesmo assim terminar atrás do futuro campeão é um estimulo que há esmagadora maioria dos clubes de metade da tabela acalenta para as próximas quatro temporadas, ou seja, até ao esperado regresso do Rangers à elite.

 

Nessa conjuntura a disputa parece resumir-se a quatro clubes históricos que têm vivido anos de cinzentismo profundo.

O Dundee United, campeão na década de 80 (quando venceu igualmente uma Taça UEFA), é o mais sério rival do Celtic e lidera o pelotão de favoritos ao campeonato dos "outros". A equipa orientada por Peter Houston esteve perto da despromoção há dois anos atrás mas acabou a última temporada num quinto posto e mantém a estrutura base de uma equipa que pode e deve ambicionar a mais. 

Em concorrência directa com os laranja de Dundee (a despromoção do Rangers permitiu a promoção do Dundee FC, que veste de azul, outro histórico da cidade) estão Hearts, Abardeen e Motherwell.

O clube de Edimburgo, orientado na passada época por Paulo Sérgio, chega à nova temporada com a taça escocesa debaixo do braço, a primeira vitória do clube em largos anos numa prova oficial. O técnico português já não está para liderar a nave, mas o seu sucessor, John McGlynn, conta com a maioria dos jogadores que estiveram por detrás da vitória frente ao Hibernian no passado mês de Maio. Por outro lado, o Motherwell entrou cedo na temporada para preparar a presença europeia e chega ao arranque do torneio em boas condições. Mas começar bem numa competição onde as equipas jogam quatro vezes entre si nem sempre é bom sinal. Os homens de Stuart McCall são, na imensa maioria, os mesmos que terminaram o passada época no terceiro lugar e sem a concorrência directa do Rangers o objectivo natural é subir um degrau no pódio da Scotissh Premier League. Na luta pela prata, o clube de Fir Park vai encontrar-se com o Abardeen.

Desde o mandato de Alex Ferguson, com os seus dois títulos de liga, duas taças da Escócia e uma Taça das Taças, que o clube da cidade portuária vive entre desilusões. O veterano Craig Brown - o último homem que levou a Escócia à fase final de uma competição internacional - quer despedir-se com uma boa temporada e depois de ter manobrado bem o mercado de transferência, garantindo que o grosso dos jogadores do plantel fica ao seu serviço e incorporando vários jogadores de nível a custo zero, há quem considere os encarnados como o outsider por excelência da prova.

 

Uma competição dentro de outra prova com vencedor pré-anunciado é o estimulo que os adeptos e seguidores do futebol escocês vão encontrar. O formato do torneio não permite sonhar com grandes surpresas, como sucede em ligas como a holandesa, belga ou suíça quando os grandes perdem protagonismo, e o título do Celtic parece inquestionável. Mas estes serão anos fundamentais para perceber até que ponto o futebol do país que inventou o passe como principal técnica de jogo é sustentável e pode existir para lá do fantasma do Old Firm.



Miguel Lourenço Pereira às 17:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 17.07.12

Por um lado os clubes da Scotish Premier League fizeram jus à moralidade do futebol escocês ao rejeitar a inclusão do novo Glasgow Rangers na categoria máxima do futebol na Escócia. Por outro, prepara-se um movimento dissidente da liga para criar uma nova competição do zero com as vagas a ser ocupadas por convite. E o Rangers será o convidado principal desta festa. O país que reinventou o futebol há muito que perdeu o conceito de liga de prestigio. Agora tem de decidir entre a sobrevivência financeira e o desastre moral.

Uma liga à escocesa, discutida entre duas equipas anos sem fim, tornou-se parte da terminologia não oficial do jogo.

Exceptuando os anos 80, em que Aberdeen e Dundee United foram realmente equipas capazes de desafiar os dois grandes de Glasgow, o futebol para lá da muralha de Adriano tem sido coto privado do Old Firm. Séries de uma década consecutiva de títulos de um só clube ajudam a explicar bem o fenómeno curioso de um país que recebeu o futebol das planícies inglesas e transformou-o por completo na sua infância. Escócia ensinou o resto do Mundo uma forma de jogar que se afastava do ideário original inglês e na viragem do século XX a cidade de Glasgow não tinha só três dos maiores estádios do Mundo, tinha também três dos maiores clubes.

Mas o Queens Park desapareceu e com o passar dos anos a Celtic e Rangers passou a ser difícil combater o poderio financeiro dos rivais britânicos. A nova Champions League marcou o final da importância da Escócia no futebol europeu, o primeiro país do norte da Europa a vencer a Taça dos Campeões, em 1967, e reduziu a liga escocesa a quatro jogos ao ano, a repetição do Old Firm nesse formato original de todos contra todos quatro vezes ao ano. Os negócios televisivos dependiam sobretudo desses duelos, os sponsors, inversores e o próprio público vivia o ano para poder desfrutar desses 360 minutos de futebol. 

No meio dessa dependência, a falência definitiva dos protestantes da cidade portuária coloca o futebol da Escócia em cheque. O clube desapareceu do mapa e foi refundado, com o mesmo nome, mas forçado a competir a partir da Third Division, o quarto escalão do futebol escocês, o berço do amadorismo das Highlands. A situação do Rangers não é particularmente distinta à do Parma, Fiorentina ou Nápoles, casos similares que nos últimos 10 anos abalaram o futebol italiano. Mas nenhum desses clubes significa o mesmo para o Calcio que o Rangers para a SPL. Num acto de desespero, os novos donos do clube tentaram comprar as acções do antigo Rangers, o que significava ocupar o seu lugar na primeira divisão. Numa reunião dos restantes clubes, a proposta foi vetada. A liga escocesa cometia hara-kiri financeiro mas mantinha os seus padrões morais bem altos.

 

É dificil entender num mundo desportivo a ausência de rivalidades que são, de certa forma, a mecânica do próprio jogo. 

As grandes rivalidades são as que fazem crescer as competições, as que alimentam ilusões, adeptos, imprensa e todo o mundo que se move à volta do futebol. Quando a Juventus voltou do inferno da Serie B, os adeptos do AC Milan, o seu grande rival, receberam-nos com uma tarja que só dizia "Isto não é o mesmo sem vocês!". Em Espanha ninguém pensaria numa liga sem Real Madrid ou Barcelona, em Portugal ninguém se atreveria a despromover SL Benfica ou FC Porto e mesmo em países como Inglaterra, onde há campeões europeus a disputar o Championship, a tradição joga um papel fundamental. Do outro lado do Atlântico, na Argentina, criou-se um sistema rudimentar para evitar a despromoção dos grandes e mesmo quando, nem assim, o River Plate se salvou do abismo, tentou-se tudo até ao último dia para revogar uma decisão estabelecida no próprio tapete verde.

O Rangers acabou porque foi um dos clubes piores geridos da história do futebol. Num país sem mercado, viveu-se acima das expectativas demasiadas vezes e os azuis foram até ao extremo. A mesma situação talvez que o Leeds United, outro grande a passar horas de amargura, mas que não significou a despromoção efectiva no terreno de jogo porque o abismo entre clubes continua a ser imenso. A razão - e por razão entendemos os aspectos financeiros - diz que sem o Glasgow Rangers na elite durante quatro anos, o futebol profissional escocês pode estar perto do fim, tal como o conhecemos. Não apenas porque não haverá discussão pelo titulo mas porque a injecção de dinheiro, já de por si escassa, acabará e a maioria dos clubes poderá ter que fechar portas. Com os dois grandes de Glasgow na liga o dinheiro chega a todos e permite que clubes em situações problemáticas se mantenham vivos. E no entanto foram esses mesmos clubes que votaram contra o regresso do novo Rangers. Uma decisão moralmente perfeita que espelha bem a natureza de uns povos face a outros. Despromovido porque tinha de o ser, de acordo com a legislação em vigor, o Rangers não pode estar acima da lei apenas pelo que representa. Ou então não haveria lei. Por muito que doa ao bolso e às emoções do futebol na Escócia. 

E no entanto, como é previsível, isto não acaba aqui. Aqueles que dependem do dinheiro para manter-se vivos no negócio, aqueles que trocam a moralidade do jogo pela amoralidade do cartão de crédito, procuram agora alternativas. A mais forte seria a da criação de uma nova prova, independente da liga ou da federação, num principio, funcionando por convite. O convite seria enviado a todos os clubes que estão actualmente na SPL, incluindo o Rangers. Inicialmente o grupo por detrás da iniciativa, fortemente ligado ao Celtic Glasgow - o clube que mais tem a perder, paradoxalmente, com esta situação - ponderou não convidar aqueles que vetaram o regresso dos protestantes mas numa medida de conciliação a ideia é, pura e simplesmente, de clonar a Scotish Premier League num novo formato, acima da lei.

 

Esta novela está só nos primeiros capitulos e ninguém é capaz de antever, com claridade, como irá terminar. Se a moral do jogo, que a maioria esmagadora dos adeptos escoceses defende a capa e espada, prevalecer, o novo Rangers terá de cumprir com a sua particular via crucis antes de voltar à elite. Mas com o contrato televisivo com a Sky por assinar e o fantasma da crise internacional sobre as suas cabeças, o dinheiro poderá falar mais alto e a lei talvez acabe por ser guardada numa gaveta de tão incómoda que ás vezes é!



Miguel Lourenço Pereira às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Terça-feira, 13.03.12

No arranque do século XX Glasgow era o centro nevrálgico do universo futebolistico. Hoje, uma das cidades mais decadentes do futebol internacional. A ameaça de desaparecimento paira sobre o Glasgow Rangers, mas os sinais de depressão económica e desportiva vêm de há muito. O futuro é cada vez mais cinzento e parece cada vez mais evidente que os esforços dos grandes da cidade em forçar a sua entrada na Premier League selaram, de certa forma, o seu negro destino.

 

Os ingleses organizaram o futebol e os escoceses dedicaram-se a ensiná-lo.

A importância de Glasgow no virar de século era tal que no mesmo espaço urbano coexistiam os três maiores estádios do Mundo (Hampden, Ibrox e Celtic Park) e três dos maiores clubes da Europa de então (Queens Park, Rangers e Celtic). Durante as décadas seguintes o futebol escocês manteve-se como um dos bastiões fundamentais do jogo e a vitória do Celtic na final de 1967 da Taça dos Campeões marcou também a migração do sucesso desportivo da zona mediterrânica para as fronteiras a norte. A hegemonia asfixiante dos dois clubes da cidade sobre a liga escocesa consolidou o seu papel no panorama internacional, mas, por outro lado, atrasou o seu crescimento desportivo e económico numa liga que perdia, ano após ano, importância e competitividade. Quando o dinheiro começou a jorrar na Premier League a divisão entre as duas ligas tornou-se de tal forma evidente que nunca mais um clube escocês se mostrou capaz de competir com qualquer clube a sul da muralha de Adriano.

Entrar na Premier League transformou-se numa profunda obsessão para os gestores de Rangers e Celtic. Ambos os clubes viviam crises financeiras durante os anos 90 e enquanto o Celtic foi comprado por Fergus McCann que apostou sobretudo na reforma do Celtic Park e no saneamento de contas, o Glasgow Rangers de David Murray apostou sobretudo no reforço do plantel começando pela contratação do primeiro treinador estrangeiro, o holandês Dick Advocaat. Os resultados apareceram, as dividas também. Mas competir na débil SPL impedia as equipas de preparar-se a sério para os duelos europeus e habitualmente as performances dos clubes da cidade na Europa eram, como minimo, confrangedoras. A final de Sevilla de 2003 para o Celtic e a final de Manchester em 2008 para o Rangers foram oásis desportivos no meio de uma tremenda mediania. Entre 2005 e 2008 as equipas escocesas conseguiram superar a barreira dos Oitavos de Final da Champions League. Depois, como diria Luis XV, o diluvio...

 

Rangers e Celtic alternam-se no dominio da prova nacional mas na Europa transformaram-se em pequenos anões. Eliminados sucessivamente nas fases de pré-eliminatórias da Champions League, há três temporadas que não há um clube escocês na fase de grupos do torneio. O país caiu em três anos cinco lugares no ranking da UEFA e se os grandes de Glasgow falham, os restantes clubes nacionais (Abardeen, Dundee, Hearts, Hibernian. Motherwell) são ainda mais decepcionantes.

Desde 2000 que tanto o Celtic como o Rangers apostaram todas as cartas numa viagem a sul. Os clubes contactaram os principais dirigentes da Premier e durante algum tempo estudou-se realmente a possibilidade de que os clubes se unissem à elite do futebol inglês. Mas a proposta, se bem que financeiramente apetecivel para o duo de Glasgow, nunca convenceu os clubes ingleses e foi sendo adiada até que acabou por descartar-se definitivamente. Celtic e Rangers tinham gasto o que tinham e o que não tinham pensando na galinha dos ovos de ouro (e em muitos casos para impressionar os próprios clubes a sul) e viram-se com um sério problema nas mãos. No caso do Rangers os problemas crónicos dos anos 90, nunca resolvidos, foram agravados ao extremo e a situação transformou-se num drama.

O clube foi vendido, as dividas ficaram por pagar, uma nova venda tornou-se inevitável e pela primeira vez na história um clube escocês acolheu-se à lei concursal, o segundo caso nas ilhas britânicas depois do Portsmouth. A liga retirou 10 pontos aos Blues, então a disputar o titulo com um Celtic que se tornou em campeão antecipado, e a UEFA ameaçou negar a licença desportiva para competir na Europa na próxima época. A situação, já dramática o suficiente, piorou quando o staff técnico e o plantel recusou aceitar um corte salarial necessários para o clube pagar a divida fiscal acumulada nos anos anteriores. A genuina ameaça da falência e consequente final da entidade desportiva transformou-se quase num cenário inevitável.

 

Para salvar o pescoço o Rangers precisa de um milagre financeiro e de um profundo renascimento desportivo. Competir numa liga tão inconsequente como a escocesa é um drama para qualquer clube que ambiciona ser algo mais nos palcos europeus. A qualidade média do futebol escocês, no passado um dos faróis do futebol ocidental, hoje não difere muito de ligas anónimas como as dos países nórdicos ou do leste europeu. No entanto o dinheiro que o Glasgow Rangers maneja na gestão desportiva assemelha-se mais ao universo da Premier, realidades incomportáveis mesmo para o maior mago financeiro que Ibrox possa encontrar. O final do Glasgow Rangers seria o golpe de misericórdia para o futebol escocês e um sério aviso ao futebol continental que nos últimos anos foi seguindo, em muitos casos, o caminho do duo de Glasgow. Para os mais nostálgicos seria mais do que isso, a prova viva de que o futebol, na sua imensa magia, também pode morrer.



Miguel Lourenço Pereira às 16:13 | link do post | comentar

Sábado, 17.07.10

A 4 de Agosto o Sporting de Braga já saberá se o sonho europeu ainda faz sentido ou se o peso da realidade continua a ser maior que a ilusão dos sonhos. Um sorteio complicado, prova justa de forças para saber o real potencial de uma equipa que quer transformar o brilharete de um ano na rotina de uma vida.

De todos os rivais em cima da mesa, o Celtic de Glasgow era, certamente, o mais temido. A sorte é assim. Vai e vem quando quer.

A equipa que perdeu a final de Sevilla com o FC Porto em 2003, o conjunto que tem tido dois anos para esquecer na Scotish Premier League, a equipa que é um velho clássico do futebol europeu, com direito a titulo e tudo, será o fiel da balança para o projecto desportivo do clube bracarense pós-Carlos Freitas. O director desportivo abandonou o barco, depois do ano quase perfeito, mas deixou montada a estrutura que tem permitido aos arsenalistas um crescimento sustentado nos últimos anos. A ponto de estar aqui, a sonhar com o hino da Champions League.

Aceder à maior prova de clubes do Mundo é um desafio ao alcance de muito poucos. É talvez o torneio mundial com menor número de equipas participantes. A nata, e só ela, tem direito a entrar. E a sobreviver. O Braga nunca foi uma equipa sonante nos palcos europeus. O seu maior feito, que remonta a dois anos, foi vencer a última edição da Taça Intertoto. Ou, o mesmo é dizer, chegar aos Oitavos de Final da Taça UEFA. Nada mais. Muito pouco comparado com o rival que defrontará no estádio Axa, pela primeira vez, a 28 de Julho. Mas o historial não joga e o Braga é um projecto moderno, que nada tem a ver com o histórico clube da cidade dos Arcebispos. Depois dos mandatos de Manuel Cajuda, Jesualdo Ferreira e Jorge Jesus, o técnico Domingos Paciência logrou o melhor resultado da história arsenalista. Algo para relembrar ou para repetir?

 

A melhor época da história do Sporting de Braga começou com um fracasso europeu estrepitoso.

O conjunto foi eliminado pelo Elfsborg, equipa sueca de segunda linha, e lançou vários alertas. Eram as primeiras semanas do consulado Domingos e rapidamente se percebeu que foi uma derrota fundamental para o sucesso posterior. Diminuiu as frentes de combate. E fortaleceu o colectivo. Este ano o Braga foi forçado a arrancar, uma vez mais, cedo para a realidade doméstica. Quase um mês antes do arranque da Liga. E com muitas indecisões num plantel que perdeu o seguro de vida na baliza e vive à volta de um dilema sobre o seu substituto, já que Quim assinou e depois foi forçado a passar pelo pós-operatório. A perda de Evaldo, um seguro de vida constante (Silvio e Antunes parecem ser as opções), e de Hugo Viana, o fiel da balança, são dúvidas para as quais ainda não parece haver resposta clara à vista. Demasiados senões para um clube que almeja a elite. E que terá de se ver já com essa elite antes mesmo do circo começar.

Ao contrário do Braga, o Celtic de Glasgow está habituado a isto. A Escócia é um país com história no futebol mas, actualmente, sem grande cartel. Os seus clubes estão habituados a pré-eliminatórias e a terem de definir o plantel bem mais cedo do que é habitual. A equipa chegará a Braga perto da máxima força, com vários dias de preparação em cima, e com a ambição notória de voltar a um palco onde estão habituados a marcar presença. Têm o estatuto de favoritos e a mentalidade adequada para as grandes noites. Algo que o Braga nunca mostrou verdadeiramente.

O sonho da Champions League pode nascer morto. Terminar no céu cinzento de Glasgow, com um copo de whiskey ao lado para afogar as mágoas. Seria o resultado natural de um duelo entre um velho experimentado e um jovem em crise existencial. Mas também pode ser que toda a lógica e retórica em que consiste o rodopiar da bola sob o tapete verde se rompa definitivamente num golpe do destino, e que Glasgow seja a porta de embarque para um sonho maior. A Europa, afinal, está cheio de sonhos cumpridos.  



Miguel Lourenço Pereira às 14:01 | link do post | comentar

Sexta-feira, 30.04.10

Aterrou este ano na fria Escócia e rapidamente começou a provar que os rumores que vinham do distante oriente tinham fundamento. Desde Park Ji Sung que a Coreia do Sul não produz um jogador tão excitante. Da mesma forma que esse teve de passar por um periodo de adaptação no europeu PSV, o destino de Sun Yong parece ser o mesmo. Os grandes esperam pacientemente a sua "explosão".

Para não complicar, que nisto dos apelidos orientais há sempre mais dúvidas que certezas, há quem o chame em Glasgow David Ki.

Mas o nome Ki Sung Yong começa a ganhar direito próprio de exibir-se nas mais altas esferas do futebol escocês. Foi a grande contratação da Liga Escocesa no último ano e, apesar da debacle dos históricos católicos esta temporada, é uma atractivo mais a um campeonato em constante desiquilibrio. Com 21 anos o jovem extremo nascido em Janeiro de 1989 em Gwanju, é já uma estrela no firmamento. A sua Coreia natal ficou demasiado pequena, demasiado cedo. E levou-o a emigrar em Janeiro. Depois de quatro anos ao mais alto nivel com o FC Seol, onde disputou 64 jogos e apontou 7 golos, a proposta do Celtic tornou-se irrecusável. Como a que, meses antes, tinha levado o seu colega e amigo, Lee Chung Yong até ao Bolton Wanderers. E com quem partilhava a carinhosa alcunha Ssang Yong (Dragão Azul).

 

O seu estilo de jogo, baseado na velocidade e precisão do passe, tornou-se fulcral nas transições ofensivas da mundialista Coreia do Sul - onde muitos esperam vê-lo ao mais alto nível - e também do conjunto escocês. Os 3 milhões pagos no Verão pela equipa de Parkhead revelaram-se uma verdadeira bagatela. Não foi por acaso que em Dezembro foi eleito o Jogador Jovem do Ano de todo o continente asiático. No seu primeiro desafio com o Celtic, a 16 de Janeiro, foi eleito o Melhor em Campo. Repetiu o feito por cinco vezes nas jornadas seguintes assumindo-se como um dos pilares da equipa. A 7 de Junho de 2008 tinha-se estreado pela equipa nacional da Coreia do Sul, depois de dois anos a brilhar na selecção sub-20. Precoce, como sempre, assumiu-se como um dos elementos mais destacados da nova geração coreana, herdeira dos guerreiros de Hiddink que há oito anos surpreenderam o mundo.

Rápido e forte no jogo fisico, tem quase 1m90, é um médio inteligente que descai na banda direita do ataque. O seu futuro, está escrito, é um dos grandes da Europa e no seu país Natal é já uma figura nacional. Tempo ao tempo, o dragão que agora é escocês certamente mudará de ares. E tomará o testemunho do homem que em 2002 silenciou Portugal e elevou à glória um país onde o futebol supera o fanatismo.



Miguel Lourenço Pereira às 12:52 | link do post | comentar

Terça-feira, 20.04.10

vários anos que não se assistia a tantos sprints emocionantes no final de uma larga maratona. Espalham-se pelo mapa deitado do continente com forma de mulher e colocam frente a frente alguns dos colossos desportivos do futebol actual. As principais ligas da Europa vivem em suspenso. O futebol europeu arranca para as últimas quatro semanas sem reis e com muitos pretendentes para as coroas vazias.

Enquanto as pequenas ligas do continente como Portugal, Escócia, Bélgica ou Grécia já têm (ou estão prestes a ter) o campeão consagrado, pela primeira em largas temporadas não há ainda um vencedor anunciado entre o top 5 das principais ligas futebolisticas da Europa. Nem uma tem um rei coroado à falta de um mês para o final oficial de uma temporada que para muitos acaba antes. Entre as 3 jornadas (que faltam em Inglaterra e Alemanha ) e as cinco (casos de Espanha e França), há ainda mais dúvidas do que certezas. Mais candidatos do que coroados. E ao contrário da última temporada, onde só Bordeaux em França, o Wolfsburg alemão e o Manchester United tiveram, efectivamente, de sofrer até ao fim, para já ninguém pode sair à rua para celebrar. Exceptuando o caso francês, as restantes ligas pautam-se por um equilibrio inusual, com vantagens que não ultrapassam os três pontos. Uma jornada, portanto. A emoção está garantida e desmente a teoria daquelas que atacavam os principais campeonatos europeus pela falta de emoção que transpareciam. São as pequenas ligas que, cada vez mais, vivem de vencedores antecipados. Em Portugal o cenário repete-se este ano com o SL Benfica que segue os passos do FC Porto e prepara-se para festejar bem antes do fim da prova. Na Escócia o Glasgow Rangers está a apenas um jogo do titulo, enquanto que Anderlecth na Bélgica e Panatinaikhos na Grécia, já celebram o trofeu conquistado sem grandes problemas. Neste grupo só a Holanda, sempre a contra-corrente, espera uma decisão de última hora. São 90 minutos de infarto que separam os adeptos do Twente da história. E os da Ajax da esperança.

Em Espanha o improvável duelo entre Barcelona e Real Madrid continua depois do correctivo aplicado pelos azulgrana ao eterno rival no clasico de há quinze dias. O actual campeão tropeçou no duelo com o rival local, o Espanyol, e viu o clube merengue reduzir a desvantagem com que saiu do clássico para apenas um ponto. Tolerância zero para os comandados de Guardiola, mais pendentes de revalidar o ceptro europeu, e que poderão sofrer como poucos as consequências do vulcão islandês que deixou a Europa em suspenso. Sem pressão e kilometros nas pernas, os jogadores blancos vão atacar até ao final sabendo que o calendários os benificia duplamente. Nos rivais internos e na ausência de Quartas-Feiras europeias. Afinal de contas, Cristiano Ronaldo pode acabar mesmo por ultrapassar Messi.

Se em Espanha a diferença é de um ponto, a situação não é diferente em Itália e Inglaterra. Com a particularidade de que, aqui, os campeões seguem na segunda posição. Na Premier League, quando tudo parecia decidido, o último fim-de-semana voltou a revelar o lado mais emocionante da prova por excelência do Velho Continente. A superioridade do Tottenham (que dias antes tinha também ganho ao Arsenal) frente ao Chelsea, e a sorte dos Red Devils de Ferguson no duelo com o eterno rival reduziram para 1 ponto a diferença de quatro. À falta de três jornadas o clube de Londres tem tudo para vencer e um plantel na máxima força. Só que terá ainda de ir a Anfield Road. E ninguém esquece que o Manchester United já provou várias vezes saber apertar até ao último suspiro e em Old Trafford continuam a sonhar com o histórico Tetra.

No país da bota a situação é bem distinta. A AS Roma fez história ao voltar à liderança de uma prova que desde 2001 tem sido dominado pelas equipas do norte, especialmente de Milão. O Inter de José Mourinho, actual Tetracampeão, tropeçou demasiadas vezes e desperdiçou uma imensa vantagem. Agora tem três encontros para recuperar o ponto de atraso para o conjunto giallorrosso. E um duelo europeu que será a sua máxima prioridade. Todo o país está, indubitavelmente, ao lado do clube da capital. Mas isso nunca foi um problema para o técnico sadino.

 

Se as grandes ligas se decidem por um ponto, as duas provas mais emotivas dos últimos anos continuam a dar um particular ar da sua graça. Alemanha e França, que entre si vão, merecidamente, decidir um dos finalistas da próxima Champions, vivem os seus particulares e confusos duelos. No caso germânico a luta pelo titulo pode reduzir-se a dois, mas realmente há quatro equipas com possibilidades de levar o troféu para casa. O Bayern Munchen lidera a prova com mais três pontos que o Schalke 04, que por sua vez tem Werder Bremen e Bayer Leverkusen muito próximos. Uma luta onde já não entram Wolfsburg e Sttutgart, que por estas alturas na época passada partilhavam a liderança. O conjunto bávaro tem tudo para se sagrar, uma vez mais, campeão. Mas as ambições europeias podem complicar, e muito, a luta pelo titulo da Bundesliga. Situação similar vive o Olympique Lyon, que depois de sete titulos consecutivos, parece de novo afastado da vitória na Ligue 1. O clube lionês segue no terceiro posto mas corre mesmo o risco de estar fora da máxima prova europeia, dez anos depois. Culpa do notável Montpelier, que continua a aguentar o segundo posto e, acima de tudo, da época excepcional do Olympique Marseille de Didier Deschamps. O conjunto da Cote D´Azur está bem perto de voltar a celebrar um título, 17 anos depois do escândalo Tapie. São cinco pontos de avanço para cinco jogos por disputar. Uma luta onde ainda está o actual campeão, o Girondins de Bordeaux, que depois de apostar tudo na prova rainha da Europa percebeu que deixou demasiados pontos pelo caminho. A vitória no jogo em atraso com o Vallenciennes atira o conjunto gascão para o terceiro posto. Mas o Bicampeonato parece já, missão impossível.

As ligas europeias caminham apressadamente para o seu final. A última semana de provas domésticas do Velho Continente é a de 16 de Maio. Mas na semana anterior já se conhecerão vários campeões. Nas próximas quatro semanas vão-se revelar, a pouco e pouco, os novos reis da Europa. Duelos demasiado apertados para deixar pistas sobre os eventuais campeões. E que demonstram que, em ano de Mundial, ninguém quis abdicar de lutar até ao final. Afinal, as grandes Ligas continuam a ser as que deixam o futebol europeu em suspenso até ao final. Como num filme de Alfred Hitchcock.



Miguel Lourenço Pereira às 08:24 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21.12.09

É curioso que o primeiro grande herói do futebol escocês tenha ficado para a posteridade como um "Lisbon Lion". Uma tarde histórica no estádio do Jamor que terminou o dominio do futebol latino na Europa e abriu uma época em que os britânicos se tornaram infaliveis. 29 anos depois, a sofrer no banco como nunca, o seu coração não resistiu a uma nova alegria histórica. E o imortal Stein sofreu o destino que um dia Shankly anunciou como o único digno para um grande Manager: morrer no banco.

 

Que o primeiro conjunto britânico a vencer a Taça dos Campeões Europeus tenha sido escocês é uma alegria que em Glasgow não tem preço. Jock Stein foi o grande responsável por esse feito e por isso mesmo, ainda hoje, o seu nome é reverenciado até mesmo pelos eternos rivais do Rangers. Um feito que poucos podem almejar. Mas a história tem dessas coisas. E é importante que se conte desde o principio.

O principio de Stein remonta a Burnbank, uma pequena localidade do sul da Escócia, onde nasceu em 1922 Jock Stein. Durante a guerra o jovem serviu na RAF e depois de ter sido desmobilizado, como muitos veteranos, optou por seguir uma carreira profissional como futebolista. Mas depois de muitos anos em clubes modestos, só na etapa final da carreira chegou ao clube dos seus sonhos, o Celtic de Glasgow. Em Celtic Park a comunidade irlandesa a viver em Glasgow deslumbrou-se com a qualidade de passe do médio que em cinco anos jogou 150 encontros. A maior parte deles como capitão de equipa. Em 1953 foi o responsável pelo primeiro titulo do clube em 18 anos. No final de 1956 saiu ovacionado. Voltaria, uma década depois, para completar o trabalho.

 

Em 1960 Stein já tinha arrancado a carreira de treinador no Dunfermline onde esteve quatro anos tranquilos. Depois de se retirar do Celtic esteve um ano como treinador das reservas, sagrando-se campeão. Até que decidiu começar a carreira por sua conta e risco. No modesto Dunfermline fez história e em 1961 venceu a primeira Taça da Escócia da história do clube, precisamente diante do Celtic. No ano seguinte a equipa disputou a Taça das Cidades com Feiras onde eliminou o Everton tendo apenas caído diante do Valencia, futuro vencedor, ao terceiro jogo. Daí saiu para o Hibernian depois de ter rejeitado um convite do Glasgow Rangers. Estava à espera da sua oportunidade no seu amado Celtic. As suas inovadoras tácticas, utilizando os alas da mesma forma que Ramsey começava a aplicar em Inglaterra, levaram o seu novo clube a uma das melhores épocas da sua história. No final do ano recebeu um convite do Celtic e não rejeitou. Estava preparado.

Ao chegar a Celtic Park a equipa vinha de 8 anos de seca de titulos. Rapidamente Stein mudou a estrutura da equipa. Promoveu vários jovens dos juniores e aplicou o seu sistema de forte rigor táctico na utilização de falsos extremos. Meses depois bateu o seu antigo clube Dunfermline na final da Taça da Escócia. Compensado estava o triunfo de 61.

 

No ano seguinte Stein foi implacável. Venceu a Liga Escocesa com um dos maiores avanços pontuais da história da prova impondo-se em todos os duelos directos com os principais rivais ao titulo. Na Europa defrontaram vários rivais que iam caindo a cada viagem ao Celtic Park. Nas meias-finais defrontaram o histórico Liverpool de outro intratável escocês, Bill Shankly. A equipa inglesa venceu apenas pela regra dos golos fora e no final do jogo Stein baixou ao balneário para desejar boa sorte ao compatriota. Este disse-lhe que o Celtic era a melhor equipa do Mundo. Ambos tinham razão. O Liverpool venceria a prova e o Celtic faria história no ano seguinte. Pela primeira vez na história do clube a equipa venceu um Treble. No campeonato repetiu o esmagador triunfo da época passada e a isso acrescentou a vitória na Taça da Escócia. O grande êxito acabou por chegar em Maio. A equipa foi eliminando os vários rivais na Taça dos Campeões Europeus e chegou à primeira final da sua história marcada para o Jamor. Era a primeira vez que uma equipa britânica chegava tão longe na prova. E apesar do Inter se ter adiantado de penalty nessa solarenga tarde, os jogadores do Celtic foram verdadeiros fenómenos. Fieis ao desenho táctico do seu mentor, a equipa deu a voltar ao marcador e acabou por vencer por 2-1. A imprensa coroou a sua histórica exibição como a dos "Lisbon Lions": E assim se fez história de um conjunto que só contava com jovens nascidos na comunidade irlandesa de Glasgow.

 

Em 1968 a equipa voltou a vencer a liga - pelo terceiro ano consecutivo - e a Taça da Liga enquanto que 1969 os levou a outro Treble histórico: Liga, Taça e Taça da Liga. Apesar de na Europa o conjunto não ter logrado repetir o nível exibido em 1967, na Escócia o Celtic era intocável. Até que chegou 1970. A equipa voltou a vencer a Liga - um histórico Tetracampeonato decidido no último dia - e a Taça da Liga e apresentou-se para a sua segunda final europeia. O rival era o praticamente desconhecido Feyennord. Mas desta feita a sorte acompanhou os holandeses e o Celtic perdeu a oportunidade de ser o primeiro conjunto do norte da Europa a lograr dois trofeus. Apesar da derrota europeia a equipa continuou uma série histórica. Nove titulos consecutivos que tornaram o conjunto católico no mais bem sucedido do futebol britânico a nivel doméstico. Apesar da velha equipa de Lisboa se ter desmoronado com o tempo, Stein continuava a mostrar-se intratável. Em 1975 salvou-se por milagre de um acidente de carro e esteve meio ano fora dos bancos. Voltou na época seguinte para conseguir a melhor pontuação lograda por uma equipa escocesa no campeonato. Em 1978, ao vencer o seu 14 titulo pelo Celtic a direcção persuadiu-o a abandonar o cargo. O técnico contava então com 56 anos e a sua saúde estava debilitada pelo acidente sofrido anos antes. O técnico aceitou contrariado e assumiu imediatamente outro cargo, o de técnico do Leeds United. Curiosamente, tal como anos antes tinha sucedido a Brian Clough, o técnico apenas ficou 45 dias em Elland Road. Insatisfeito com o nivel de profissionalismo do clube que anos antes era a inveja do mundo, decidiu voltar à sua Escócia natal e assumir um posto há muito sonhado, o de seleccionador nacional.

 

Ao serviço da selecção logrou a qualificação para o Mundial de Espanha de 1982 onde a equipa não passou da primeira fase, fruto de um empate no último jogo com a URSS. Quatro anos depois, a Escócia voltava a lutar pela qualificação. Num play-off contra a Austrália os escoceses lançaram-se ao ataque desde o primeiro instante e rapidamente decidiram o jogo. Mas perto do apito final a emoção apoderou-se do veterano técnico. Com a mão agarrada ao peito, Stein caiu fulminado no relvado. Um ataque cardíaco tinha levada a vida de um dos mais geniais técnicos da história do futebol. O futebol escocês entrou em luto e apesar de apurada, a Escócia nunca mais voltou à sua era de glória que bebeu com Stein ao leme da sua selecção e do seu clube mais emblemático. Isto apesar de Alex Ferguson, que poucos meses antes da morte de Stein tinha já sido nomeado por este como seu sucessor, ter levado a equipa ao Mundial.

Inovador na preparação dos encontros, Jock Stein era um técnico iminentemente ofensivo e as suas equipas sempre se pautaram por um estilo de jogo de puro ataque. Viveu longos anos sem conhecer a derrota. Um treinador verdadeiramente imortal.



Miguel Lourenço Pereira às 15:28 | link do post | comentar

Segunda-feira, 05.10.09

Católicos e protestantes. Pobres e ricos. Operários e patrões. Azuis e verdes. É impossível passear-se por Glasgow e não viver uma eterna dualidade que se transforme em rivalidade quando as quatro linhas ganham vida. Um duelo ancestral e que até tem nome próprio. Contam muito os vencedores e os vencidos mas conta mais o charme da tradição do maior derby do Velho Continente.

 

Não são grandes como um Inter-AC Milan, Liverpool-Everton, Arsenal-Tottenham ou Real-Atlético. Mas é impossível olhar para um Old Firm e duvidar que estamos diante de um duelo inesquecível. Não move milhões e habitualmente repete-se quatro vezes ao ano - na Escócia existem quatro voltas - mas deixa momentos de loucura únicas num desporto que é tudo menos racional. O primeiro Old Firm remonta ao longinquo ano de 1888 e desde então tem definido a própria essência do futebol escocês que salvo raras excepções tem órbitado à volta dos dois grandes clubes da cidade portuária, o Celtic e o Rangers. Os protestantes azuis do Rangers levam vantagem em triunfos (153), incluído o de ontem contra um equipa católica e verde (a cor e a religião vem da origem dos emigrantes irlandeses na cidade) que partia como favorita. O Celtic vive outro período de glória na sua história, depois de uma era onde o Glasgow Rangers dominava a seu belo prazer o futebol escocês. Nas últimas épocas o equilibrio tem sido maior do que nos períodos em que ambos os conjuntos conseguiam estar mais de uma década consecutiva a ganhar. Agora a rivalidade é mais dura.

 

Pedro Mendes, esse incompreendido maestro do meio campo do conjunto protestante, foi o arquitecto de sólida mas sofrida exibição do Rangers. Manteve sob controlo o perigoso meio-campo do Celtic  que liderava a prova com autoridade. Ao contrário do Rangers que vinha de uma humilhação caseira na Champions League - caiu aos pés do Sevilla por 4-1 - e precisava de mostrar aos adeptos que a derrota europeia tinha sido apenas um acidente de percurso. E que melhor rival do que o eterno inimigo para levantar a moral? Os católicos começaram melhor e souberam impor o seu jogo nos primeiros minutos mas depois cometeram dois graves erros defensivos que destruiram as ambições do técnico Tony Mowbray. Coube a um ex dos verdes católicos, o letal Kenny Miller, a honra de abrir a contagem aos 8 minutos e ampliá-la, dez minutos depois. Em quinze minutos o jogo do Rangers destroçava o rival, irrequieto na defesa e ineficaz no ataque. O trio Novo, Mendes e Naismith exibia-se ao seu melhor nível e parecia que os protestantes tinham o jogo controlado.

 

Só que o Celtic renasceu das cinzas. McGedy reduziu de penalty aos 25 minutos e a partir daí a equipa atirou o Rangers às cordas durante uma larga hora massacrando a baliza do guardião uma e outra vez. A equipa azul e branca controlava a exibição mas era incapaz de criar lances de perigo enquanto que os católicos limitavam-se a desperdiçar cada uma das oportunidades que tinha. Uma sessão de tiro ao alvo onde McGregor assumia-se como o homem do jogo parando o impossível. Os adeptos do Celtic ainda se queixaram de um penalty não assinalado mas foi a fraca pontaria da linha ofensiva que custou a vitória aos ainda lideres da SPL. Uma derrota amarga e que relança a luta pelo titulo na Escócia depois dos tropeções do Rangers com três empates consecutivos. Um ponto separa agora o campeão do lider com sete jogos disputados e muitos mais a caminho. As pobres exibições de Hibernians e Dundee, únicos capazes de incomodar os históricos rivais, deixam antever que este primeiro Old Firm do ano volta a evidenciar as imensas disparidades do futebol escocês. E a lançar de novo a questão que mais tem levantado celeuma nas bancadas dos estádios das Highlands.

 

Nos finais do século XIX o duelo apaixonante entre os dois clubes fez história e afirmou a diferença entre o futebol escocês e britânico. Mas muitos dizem que a Premier League só teria a ganhar com a inclusão dos dois gigantes do Old Firm. Um negócio financeiramente apetecível para ambas as partes mas que divide os adeptos locais, já que estes sabem que futebolisticamente estariam condenados a lutar a meio da tabela da liga do país rival. Porque, seja em Ibrox Park ou Celtic Park, é a magia de um duelo ancestral que dá relevância e charme a 90 minutos que são muito mais do que um simples jogo de futebol.


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Miguel Lourenço Pereira às 10:45 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 31.05.09

algo especial nas celebrações de Primavera que consagram os grandes campeões das taças nacionais. Uma festa particular e emotiva que nos afasta muitas vezes da tensão até ao apito final do último segundo do campeonato regular. A Taça é uma festa diferente. Sem favoritos, sem campeões pré-anunciados, sem um palco a pender mais para um lado do que para o outro. Uma festa do futebol. Apesar de haver países que se têm habituado a antecipar a final da Taça para uma quarta-feira no meio das últimas rondas do campeonato, a tradição continua a ser o que é em muitos países que guardam o último fim de semana do ano para consagrar os finalistas de uma prova especial. Ontem e hoje foi o será sempre o seu dia. Pelo menos até para o ano que vem.

 

Nas ilhas britânicas a Taça é mais respeitada que a própria liga, competição com mais de uma centena de anos de história capaz de levar os adeptos á loucura. Estar em Wembley ou Hampden Park é para ingleses e escoceses o ponto mais alto do ano. Ainda se lembram muitos da blasfémia daquele Manchester de 2000 que rejeitou participar na F.A para ir ao Brasil jogar o Mundial de Clubes. Ninguém percebeu quem poderia trocar o novo pelo velho. Este ano os Devils não estão em Wembley, ainda devem lamber pelos cantos as estocadas do super Barcelona. No seu lugar o Chelsea de Guus Hiddink e o Everton de David Moyes. O bombeiro azul contra o Coach of the Year. Duelo apaixonante. Estádio repleto, calor infernal para um Maio londrino e um golo a abrir, o mais rápido de sempre, cortesia do francês Louis Saha. O Everton, que conseguiu o quinto posto na prova regular, tinha baixas importantes e esse golo soube-lhes a ouro. Durou pouco. No dia da despedida do técnico holandês os jogadores deram-lhe a merecida homenagem e arrasaram, futebolisticamente falando os de Liverpool. O notável golo de Drogba, o tiro monumental de Lampard e até um golo fantasma que acabou por não ser necessário. O Chelsea não fecha o ano a zero, o Everton continua á procura de um titulo que consagre um técnico tão arrojado como Moyes.

Centenas de quilómetros a norte, os protestantes de Glasgow sonhavam com conseguir a dobradinha. O rival não era o histórico Celtic, eliminado bem cedo, mas sim o pequeno Falkirk, equipa da zona norte das Highlands, complicada como qualquer outra. Pedro Mendes, o patrão invisivel, comandou a armada do Rangers mas foi outro ibérico, o espanhol Nacho Novo, quem apontou o golo solitário que permitiu á equipa azul e branca comemorar um ano inesquecivel quando parecia há uns meses que tudo estava perdido. Como é o futebol.

 

Na Alemanha, a  viver a ressaca da vitória doméstica do Wolfsburg e agitada pelas transferencias por confirmar e confirmadas, juntaram-se em Berlim o ferido Werder Bremen e o ambicioso Bayer Leverkusen. O primeiro já sabia este ano o que era perder uma final e queria limpar a face e marcar de novo presença na Europa. Os segundos tiveram, o que se pode chamar de, ano tranquilo, e queriam um rebuçado bem mais doce do que os esperava a principio do ano. O jogo foi largo e sem grande história, com Diego a pautar, pela ultima vez, o jogo com o equipamento verde e branco. Ao seu lado Hugo Almeida, também ausente em Istambul, e o jovem turco-alemão Ozil. Era sobre ele quem se pôs todo o peso nos ombros na final da UEFA. Mais relaxado, sem ter de fazer de Diego, o jovem soltou o seu melhor jogo e deu a estocada final aos de Leverkusen, que defenderam bem mas atacaram mal. Pagaram o preço e a festa da taça alemã celebrou-se nas ruas de Bremen, numa quente noite de sábado de Maio onde o futebol deu o último verdadeiro suspiro do ano.



Miguel Lourenço Pereira às 14:37 | link do post | comentar

Terça-feira, 26.05.09

 

cinco anos que não celebrava um título. Ontem, depois de um largo interregno, voltou a celebrar. E com direito a golo. Um remate potente, marca da casa. A imprensa lembrou-se agora que existia, mas ele sempre esteve ali. Sangue, suor e lágrimas é com ele. Desta vez as lágrimas foram de alegria.
 
É um dos mais completos médios centros do nosso futebol. E também dos menos mediáticos. Campeão da Europa com o FC Porto de Mourinho, sempre foi um dos pilares da variação táctica do técnico setubalense que abandonou o 4-3-3 de Sevilla eplo 4-4-2 de Gelsenkirchen. Ao lado de Maniche, Costinha e Deco, ali estava o sucessor do russo Alenitchev. Tudo indicava que seria o patrão do Porto do futuro. Até que de Londres acenaram com um cheque e o presidente portista nem hesitou. Para que arriscar num português de talento se tenho aqui preparado um lote de argentinos e brasileiros? A ideia de um FC Porto português de Mourinho saiu com o técnico.
Para Londres, para norte de Londres foi esse craque. Pedro Mendes, nome próprio com direito a referencia. No Tottenham não foi feliz. É difícil se-lo num clube há anos perdido no seu próprio historial, com mil e um projectos aventureiros de final infeliz. O centro campista vimaranense era um deles. E depois de se comprovar o erro de casting – do clube, não do jogador – o herdeiro de Afonso Henriques marchou rumo ao sul, onde em Portsmouth o receberam de braços abertos. Com Muntari formou um meio campo de sonho que permitiu aos “pompeys” o milagre de estrear-se em provas europeias. Golos, desmarcações e desarmes invisíveis. Como aquele golo do meio campo que marcou um dia em Old Trafford e que só o arbitro não viu. Esse é Pedro Mendes. 

Mais uma vez os negócios entorpeceram a carreira e o recém-europeu Portsmouth teve de vender peças valiosas para manter-se de pé. Mourinho foi lá pescar mas trouxe o guerreiro negro e deixou que o rebelde Pedro rumasse a Norte, às Higlhands. Tal e qual novo William Wallace, cabelo largo ao vento, Pedro Mendes entrou de rompante em Ibrox Park e reinou de imediato sobre o condado protestante de Glasgow. A ferida da equipa, bem fundo no orgulho, depois de anos de derrotas diante dos católicos de verde, estava bem marcada. A derrota, meses antes, no City of Manchester frente aos russos de Arshavin e companhia ainda não sarara. Tranquilizar o mítico Ibrox era tarefa difícil. Mas Pedro Mendes logrou-o. Tornou-se na bússola deste Glasgow implacável que soube trepar pela classificação até se colar aos verdes católicos. Venceu e passou para o primeiro posto. Era esperar pela consagração. Em casa. Diante dos seus. Com um golo de Pedro Mendes. Levantou-se o estádio, levantaram-se os guerreiros. Com Queiroz a inventar em mil e uma convocatórias, Pedro continua a sonhar. O lugar de soldado invisível impediu-o de entrar na “família de Scolari” quando por lá andavam outros guerreiros bem menos valentes. 

 

Para o futuro resta a esperança de que Portugal saiba que ainda há guerreiros nacionais por aí fora, escondidos. Mesmo que não vendam capas de jornais e apareçam numa pequena nota de rodapé, eles estão aí, à espera da hora em que serão chamados para cantar o hino bem alto, desembainhar espadas e partir para a luta…como fez Pedro Mendes uma vez mais neste domingo de festa protestante escocesa.


Miguel Lourenço Pereira às 14:20 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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