Terça-feira, 24.09.13

Sou um dos grandes admiradores de Juan Mata. Talvez porque o vejo jogar desde os dias do Castilla. Porque sempre vi nele todas as condições para ser um jogador de elite. José Mourinho pensa de outra forma. Para ele o espanhol está uns furos abaixo do que ele quer como elemento central do seu esquema ofensiva. Entre o espanhol e Óscar, o técnico sadino prefere o brasileiro. A maioria dos treinadores agradeceria ter um dilema destes nas mãos. Afinal, são dois dos melhores jogadores do Mundo na sua posição. E para o "Happy One" só há espaço para um.

Guardiola chegou a Barcelona com uma ideia.

Quando há jogadores top, há sempre espaço para todos.

Sob essa filosofia não se importou de colocar muitas vezes a Iniesta como extremo. De deslocar Messi para o centro. De enquadrar no mesmo onze a Xavi, Iniesta, Cesc e Messi, mesmo sendo consciente que ficaria pouco espaço para a improvisação. Se tivesse tido Neymar, para abrir o campo, seria outra conversa. Essa ideia é antiga. Até aos anos 70 o jogador prevalecia sobre o esquema. Ao técnico competia-lhe encontrar espaço para por os melhores em campo. Depois apareceu Herrera, apareceu Rocco, apareceu Michels e o modelo de jogo passou a ser a prioridade. Ou o jogador se adaptava ou, por muito bom que fosse, estava destinado ao banco. A Itália do Mundial de 70 foi alternando Rivera e Mazzolla porque ninguém pensava que dois génios como esses pudessem jogar juntos sem comprometer a equipa. O Ajax de Michels e Kovacs, repleto de grandes jogadores, funcionava porque todos eles se manejavam bem em distintas posições. Quando saíram do clube foram incapazes - até Cruyff - de reproduzir o mesmo nível de jogo noutras paragens. E quando chegou a década de oitenta o sistema tinha prevalecido. O Brasil de 82 foi um reflexo de uma era perdida, o AC Milan de Sacchi colocou cada um no seu sitio e a goleada dos homens de Capello a um Barcelona de Cruyff que procurou vencer um duelo equilibrado através das estrelas em campo selou o destino de quem acreditava no valor do jogador.

Portugal, em 2000, e a Espanha, em 2008, começaram a mudar a filosofia. Guardiola exprimiu-a ao máximo. De repente os génios individuais voltaram a ser valorizados mesmo que isso significasse problemas. Compaginar a Rooney e van Persie na mesma equipa funciona ou cria mais problemas do que soluções? Podem Ozil, Isco, Bale e Ronaldo jogar juntos? Ancelotti pensava que não e facilitou a saída do alemão. E em Munique, apesar da fama que precede Guardiola, há quem não entenda o seu esquema onde Lahm é médio para que os bons joguem todos à sua frente sem conceder um lugar a um jogador que paute o ritmo e o equilíbrio. Em Londres, onde Mourinho tem tido problemas para impôr a sua ideia de jogo (que ninguém ainda entendeu muito bem qual é) o Chelsea vive um desses dilemas: modelo vs jogadores.

 

Hazard, De Bruyne, Mata e Oscar.

São quatro dos melhores do Mundo. Jovens, ambiciosos, talentosos, jogadores capazes de marcar a diferença. Apesar de algumas diferenças pontuais, não são futebolistas distintos. Uns mais velozes que outros, uns mais cerebrais que outros, mas todos eles com o mesmo principio de jogo na cabeça: o jogo associativo.

Para muitos treinadores, ter tanto talento é uma benção. Para alguém como Mourinho, um problema. O técnico português, desde os dias do FC Porto, sempre fez prevalecer o seu sistema aos jogadores. Nas Antas relegou várias vezes o talentoso Alenitchev para o banco porque já contava com Deco no relvado e preferia a consistência defensiva de Tiago/Pedro Mendes ou a abertura de banda que lhe podia dar Capucho (primeiro) e César Peixoto (antes da lesão) depois. Quando chegou Carlos Alberto, e a sua imprevisibilidade, para substituir o trabalhador Derlei, ficou claro que havia num onze uma função para cada jogador e nada mais. O padrão repetiu-se em Londres (entre Robben e Joe Cole) e em Madrid (em Milão faltavam-lhe opções de talento, salvo Sneijder) com Ozil tantas vezes relegado para o banco em jogos importantes. Para ele, jogadores que se decalcam, devem competir entre si por um dos lugares livres no seu esquema, nunca o contrário. Sendo que o belga Hazard é para Mourinho a sua clara coqueluche (com toda a razão do Mundo) e que De Bruyne se revelou uma surpresa (para os mais desatentos), basta olhar para o passado do português para entender que o MVP da temporada passada, Mata, e o talentoso Oscar - que cresceu muito no último ano e meio - teriam de disputar um lugar.

Mourinho gosta de jogadores possantes (de aí a presença de Schurlle), de jogadores rápidos (a primeira razão da contratação de Etoo) e que desequilibrem com o seu talento natural para a finta (de Carlos Alberto a Willian, passando por Robben e Di Maria vai um largo historial). Do que menos gosta são de jogadores que pautam o ritmo do jogo e muitas vezes impedem que se ponha em prática a sua habitual verticalidade e velocidade. Mata é um jogador de pausa, de procurar espaços, de toques decisivos. Óscar também, com a diferença que o faz mais em grandes planícies do que, propriamente, em apertados vales. Mata move-se melhor perto da área, lendo o jogo. Óscar é um jogador (agora), mais rápido e físico, capaz de vir desde o meio-campo para o ataque em condução ou abrindo linhas de passe com lançamentos em profundidade. O brasileiro é um jogador que se enquadra perfeita no ideário de Mourinho. Mata, talvez melhor individualmente, não o é.

Poderia ter-se desprendido do espanhol no mercado mas a opção de reforçar algum rival (seja na Premier, seja na Champions) com um jogador que ele sabe ser de alto nível não lhe agradava. E Mata ficou. Mas terá muitos problemas para ter minutos. Como Torres, que parece incapaz de conseguir repetir a mesma consistência da sua etapa no Liverpool, é uma vitima de uma ideia de jogo que se enquadra pouco com o espírito espanhol. Obi Mikel, Ramires, o eterno Lampard, o esforçado Óscar, o abnegado Schurlle e o esforço físico de Etoo são mais adequados à "Biblia" do português. Para Hazard e, eventualmente, De Bruyne e Willian, sobra o pouco espaço deixado ao talento genuíno e à improvisação, sempre comprometidos ao esforço colectivo. Apesar de ter prometido uma filosofia de estância larga, Mourinho continua a pensar no curto-prazo.

 

Tele Santana não teria problemas em montar um quadrado entre os futebolistas mais talentosos para mandá-los ao campo a jogar. O seu esquema criou escola, na imaginação dos adeptos, mas não tanto nos relvados. Mourinho sempre foi um técnico com fama de resultadista, uma expressão perigosa num meio onde vencer é tudo. O seu problema não está tanto na busca do resultado mas sim no caminho único para o obter. Com o passar dos anos o português foi abdicando de princípios fundamentais nos primeiros anos por abordagens cada vez mais simplistas e herméticas. Quando o guião não funciona, os problemas são evidentes. O Chelsea com a bola é uma equipa que não sabe o que fazer porque o treinador não quer que a tenham muito tempo. Sem ela sofre porque a maioria dos seus jogadores sente-se mais cómoda com ela. Sem um killer de área, como foi Drogba, e sem um Lampard dez anos mais novo, a equipa londrina sofre porque o seu técnico quer repetir uma fórmula impossível. Continuam a ser uma potência do futebol europeu (com essa equipa, é inevitável) mas deixam mais sombras do que luzes neste arranque de uma nova era que pode ser mais curta do que muitos imaginavam à partida...



Miguel Lourenço Pereira às 11:40 | link do post | comentar

Terça-feira, 05.07.11

Quando os empresários de jogadores começaram a ganhar o seu espaço no universo futebol poucos imaginariam que alguns anos depois eles seriam os elementos centrais dessa indústria cada vez mais complexa. Um poder que ultrapassa o aspecto meramente financeiro e que agora, mais do que nunca, tem capacidade inclusive para moldar projectos desportivos. A contratação de Fábio Coentrão, à primeira vista absolutamente desnecessária, reforça essa ideia. O Santiago Bernabeu converte-se, a pouco e pouco, na sede do clã Mendes.

Não há um empresário desportivo como Jorge Mendes.

A ascensão do português é um case study desportivo que merece ser visto e revisto. Porque não deixa de ser uma licção para os que não acreditam no fenoméno europeu do self made man. Mas também porque deixa a nu todo o lado negro, esse caminho obscuro, que o futebol tomou quando aceitou entrar nesse rodopio financeiro que os milhões das grandes marcas e da televisão anunciavam com um sorriso de anúncio. Há uns meses atrás um jornalista do jornal britânico The Guardian divulgou, em vários capitulos, a saga da vida empresarial de Mendes no mundo de futebol e como os negócios com o mercado britânico ajudaram a cimentar a sua posição desde a sua primeira transferência, do vimaranese Nuno Espirito Santo para o Deportivo. A relação que establece com Cristiano Ronaldo e José Mourinho, os dois grandes embaixadores portugueses além portas e dois dos icones mundiais que o jogo produziu nos últimos anos, transformaram por completo a sua carreira, então iminentemente local.

Mendes é capaz do impossível. Fez Alex Ferguson, o mais perspicaz dos treinadores, contratar um jogador que nunca tinha visto jogar por um valor astronómico. Em Inglaterra nunca se esquecerão de Bebé. Mendes também não. Foi o negócio que deixou a nu todo o seu poder nos bastidores do jogo. Em Madrid, a sua segunda casa - depois do livre trânsito que fez dele uma das pessoas mais invejadas de Manchester como prova a contratação, mediada por si, de David de Gea - o empresário acaba de assinar outro contrato milionário para um atleta na sua carteira sem fim. Um negócio que não chega ao extremo do caso de Bebé - afinal Fábio Coentrão é um jogador de top - mas que espelha bem a sua influência junto de Mourinho e, directamente, do clube espanhol. Mendes consegue um valor recorde para o SL Benfica, um salário apetecível para o jogador, uma comissão generosa para si, mais um jogador da confiança do seu treinador (mais seu que do próprio presidente do clube) e, sobretudo, cimenta a sua posição no balneário do Real Madrid. Fábio Coentrão será o quinto jogador seu a actuar pelo histórico clube merengue. Em dois anos Mendes conseguiu transformar o seu peso numa instituição de renome de tal forma que ele hoje é uma figura com tanto poder como qualquer directivo do clube. Ser agente de Mourinho e Cristiano Ronaldo ajuda, mas contar com figuras como Pepe, Ricardo Carvalho, Di Maria e agora Coentrão transforma-o numa verdadeira força de pressão. Pelo meio ficaram os negócios frustrados de Hugo Almeida (petição de Mourinho, imagine-se), as declarações do treinador para forçar a renovação de Pepe (inusitadas), as palavras de Angel Di Maria nada mais chegar à Argentina sobre uma eventual renovação de contrato (aparentemente prometida no ano transacto) e a campanha mediática à volta da figura de Cristiano Ronaldo que encontra um forte antagonismo no sector histórico do balneário, onde Iker Casillas ainda é dono e senhor.

 

O poder da Gestifute no clube espanhol é claro e evidente.

A imprensa madrileña começa já a referir a possibilidade de José Mourinho retirar a braçadeira de capitão ao histórico Iker Casillas e entregá-la a Cristiano Ronaldo. Uma jogada que já foi planejada por Mendes com Florentino Perez quando o jogador português aterrou em Madrid, depois de uma transferência milionária que fez de Mendes um homem ainda mais rico (e lhe valeu no Dubai o prémio ao melhor empresário desportivo do ano) e que ficou em banho maria. É provável que o plano dos homens fortes da Gestifute fique no papel mas só a ideia deixa antever o peso real que esta estrutura parelela tem no clube. José Mourinho tem reestruturado o Real Madrid de uma ponta à outra, especialmente depois de vencer o braço de ferro que culminou com a saída de Jorge Valdano. Desde então o sadino rodeou-se no clube de homens de confiança e pretende fazer o mesmo com o plantel onde entende que há posições que devem ser reforçadas, sim ou sim.

No entanto olhando clinicamente para o plantel do clube merengue é dificil encontrar uma necessidade real de contratar por 30 milhões de euros (mais 50% do passe do central Ezequiel Garay) um jogador das caracteristicas de Fábio Coentrão. Não que o português não seja um dos melhores do Mundo na sua posição actual, lateral esquerdo. Mas porque nesse top três ideal estariam Gareth Bale e... Marcelo.

O brasileiro foi um dos melhores e mais regulares jogadores merengues do último ano. O seu posicionamento permitiu uma fluidez de jogo ofensivo ao Real Madrid em tudo similar ao que Dani Alves proporciona, no flanco oposto, ao seu grande rival. Marcelo emulou mesmo, em várias ocasiões, o papel do histórico Roberto Carlos. Não contente com isso, o clube merengue dispõe igualmente do versátil Alvaro Arbeloa, um desses cães para toda a refrega que tanto agradam ao treinador e cuja polivalência lhe permite jogar em ambos os lados da defesa. Tal como o turco Hamit Altintop, de fora até Outubro por uma lesão que traz dos seus dias de Munique. Três jogadores para um lugar onde Coentrão se distingue por ter, precisamente, as mesmas caracteristicas de jogo de Marcelo. E no entanto ela move-se, pensarão, e Coentrão pode chegar para actuar mais à frente no terreno de jogo. Uma vez mais, as posições que o esperam estão, desde já, bastante cobertas. No ataque tanto Angel Di Maria como Cristiano Ronaldo e até Mezut Ozil podem actuar no lado esquerdo do ataque com total solvência (para não falar do próprio Marcelo). Excluindo de antemão a propalada chegada do brasileiro Neymar claro. No miolo, onde Coentrão nunca actuou ao mesmo nivel que na ala, o Madrid conta com o talento de Xabi Alonso e Sahin, outra incorporação de classe para povoar o miolo. Ficamos, no fim de contas, sem entender onde cabe Fábio Coentrão no esquema de Mourinho. Mas temos a certeza que a sua chegada acontece, essencialmente, porque pertence à grande familia do clã Mendes. 

 

Com a cantera de Valdebebas mais um ano abandonada à sua sorte e com muito melhores (e mais baratas) soluções no mercado interno (leia-se Canella ou José Angel, por exemplo), a chegada de Coentrão (que passou sem pena nem glória pelo Zaragoza onde era mais habitual vê-lo nas discotecas aragonesas do que no terreno de jogo) é mais um prego no caixão do projecto de espanholização do clube propagado pelo seu presidente, Florentino Perez, aquando da sua reeleição. É também mais um triunfo pessoal para José Mourinho, reconvertido em dono e senhor da parte desportiva do clube mas, sobretudo, uma vitória de Jorge Mendes. O representante amplia a sua fortuna e influência e torna-se, a pouco e pouco, também ele dono de um clube que até há bem pouco tempo era visto como um cemitério para os empresários mais ambiciosos. O clã Mendes fará de tudo para marcar presença na Cibeles em Maio do próximo ano. Florentino Perez já entregou, definitivamente, a parcela desportiva à dupla Mourinho e Mendes e agora resta-lhe esperar e rezar. Mais um ano de fracasso pode significar o desmoronar de mais um projecto em Madrid que começa a construir-se pelo telhado. De vidro neste caso.



Miguel Lourenço Pereira às 19:21 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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