Quarta-feira, 15.08.12

Na retina dos adeptos está ainda o espantoso volley que destroçou Zubizarreta e o Dream Team na elétrica final da Champions League de 1994. Atrás ficaram anos de conflitos constantes com os técnicos que o orientaram e a sensação de que Dejan Savicevic tinha passado ao lado de uma grande carreira. Naquele mágico momento "Savi" ajustou as suas contas com o passado e imortalizou-se definitivamente como o "Principe dos Balcâs".

 

Hoje é presidente da Federação de Futebol do Montenegro e continua tão polémico como há vinte anos atrás. Está no seu carácter ser conflituoso e procurar sempre o caminho mais difícil para resolver qualquer problema. Um carácter que também transparecia no seu estilo de jogo. Ao contrário do milimétrico Prosinecki ou do cerebral Boban, a Dejan o mais espantoso era complicar para depois resolver. Provocar o rival para ultrapassá-lo. Superar as expectativas e encarar cada novo jogo como uma batalha a ser ganha, de vida ou de morte.

Uma realidade que já se evidenciava quando surgiu, franzino mas com vontade de engolir o Mundo, no FK Buduconst Podgorica, equipa da sua cidade natal em Montenegro, então mais uma província da Jugoslávia. Com 16 anos arrancou a sua carreira profissional. Começou como ponta-de-lança e rapidamente foi ganhando mobilidade até se tornar um autêntico todo o terreno. Tornou-se na grande estrela do futebol de leste durante os anos 80, rivalizando já com nomes como Hagi e Lacatus, Prosinecki e Boban, Kostanidov e Stoichkov, então todos as dar os primeiros passos desportivos. Em 1988 o Estrela Vermelha de Belgrado não hesitou e juntou-o à já significativa constelação de promessas que tinha no plantel. Começava a sua idade dourada. Mas que não chegaria antes de muitos conflitos.

Em Belgrado Savicevic sofreu os primeiros revezes. Forçado a cumprir o serviço militar obrigatório, foi afastado dos trabalhos da equipa durante toda a época 1988-89 e perdeu o seu posto no onze. Entre os jogos que lhe foi permitido disputar esteve a mítica eliminatória com o AC Milan de Gullit, Rijkaard e van Basten. Fora de forma e já com problemas visíveis com a equipa técnica, Savicevic conseguiu mesmo assim surpreender Baresi e apontar o golo que parecia dar o apuramento aos jugoslavos. Só que um nevoeiro cerrado obrigou o árbitro a parar o jogo e recomeçar o encontro no dia seguinte. Os italianos lograram empatar e nos penaltys apuraram-se para conquistar o primeiro titulo da geração holandesa do Piemonte. No inicio da época seguinte Savicevic incorporou-se definitivamente e o técnico Branko Stankovic, com quem o jogador já nem trocava palavra, foi substituído por Dragoslav Sekularac. A partir daí o dianteiro arrancou para o seu melhor ano, ajudando a vencer três ligas consecutivas e ainda duas taças. O muro tinha caído e a Jugoslávia estava prestes a desmoronar-se. O avançado falhava a presença nos jogos chave da selecção devido à sua relação de amor-ódio com Ivica Osim, o seleccionador nacional. Falhou o apuramento para o Euro 88 e no Mundial de Itália foi deixado sucessivamente no banco. 

Mas se a carreira internacional corria mal, a nível interno o sucesso era absoluto. O momento alto chegou em 1991, em Bari. Numa final histórica contra o Olympique Marseille, o Estrela Vermelha contrariou todos os prognósticos e conquistou o seu único titulo de campeão europeu. A vitória permitiu a Savicevic ser coroado o melhor jovem jogador europeu e ser segundo na disputa pelo Ballon D´Or, atrás de Jean-Pierre Papin.

 

O sucesso desportivo levou rapidamente o AC Milan a apostar no sérvio como o substituto ideal para Marco van Basten, já a conta com várias lesões consecutivas. Com ele chegaram ainda Boban, Eranio, Lentini e Pappin. Uma equipa que Fabio Capello teria dificuldade em contentar com tantas estrelas a treinar diariamente em Millanello. E quando van Basten recuperou do seu primeiro grave problema, Savicevic passou imediatamente para o banco. Fez apenas 10 jogos e apontou 4 golos em 1992/1993 e a sua relação com Cappello (tal como passou com Gullit) começou a deteriorar-se. Além do mais a proibição de apresentar mais de 3 estrangeiros fazia com que uma equipa onde havia 7, o número de insatisfeitos fosse sempre elevado. O grande choque deu-se aquando da convocatória para a final da Champions de Munique, diante do Marseille. Savicevic ficou de fora e nem viajou com os companheiros. A estadia em Milão tornava-se um barril de pólvora mas subitamente Capello mudou. Passou a confiar mais no avançado e deu-lhe a titularidade do ataque na época seguinte. O jugoslavo respondeu com belas exibições e muitos golos. Il Genio, foi assim que o descreveu Berlusconi, satisfeito pela equipa não notar a ausência (definitiva) de van Basten. A noite de luxo chegou a 18 de Maio. Diante do mitico Dream Team de Johan Cruyff, o AC Milan de Berlusconi deu uma lição de futebol.

O avançado montenegrino foi o interprete perfeito e apontou um histórico hat-trick a Zubizarreta, dando ao AC Milan a sua terceira Champions em oito anos.

O ano seguinte foi negro para o Milan. Mau desempenho doméstico e derrota na final da Champions com o Ajax. Savicevic não jogou por estar lesionado, apesar do jogador ter insistido até ao último minuto que podia actuar. A equipa italiana começava a perder protagonismo para a Juventus e a veterania do plantel começava a fazer-se notar. O dianteiro voltou ao banco e deixou de ter as mesmas oportunidades. Era visto como um elemento a substituir e a chegada de George Weah apressou a sua saída. Voltou a casa, ao Estrela Vermelha, mas apenas ficou um ano na equipa que o lançou ao estrelato. Depois de dois anos no Rapid Wien decidiu parar, definitivamente. Mas continuou ligado ao futebol e dois anos depois de retirar-se foi nomeado seleccionador da Sérvia-Montenegro. Falhou a qualificação para o Mundial de 2002 e para o Euro 2004 e acabou por ser substituído. Mas não antes de se envolver em várias disputas politicas, tornando-se num dos rostos da independência montenegrina. Quando o país finalmente conseguiu separar-se da Sérvia, rapidamente Savicevic ocupou o posto de presidente da Federação de futebol, entrando em confronto directo com os dirigentes sérvios. Em Podgorica, continua a ser o filho predilecto de maior renome. Um ídolo.

 

Enquanto Prosinecki preferiu brilhar em Espanha, Savicevic seguiu o rumo da maioria dos jogadores jugoslavos mostrando o perfume do seu futebol na vizinha Itália. No entanto a história do futebol lembrar-se-á sempre primeiro da notável formação do Estrela Vermelha e daquele rebelde irrequieto que durante dez anos foi um dos mais letais executantes da história do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 14:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 12.05.12

Se perguntarem a um argentino de 40 anos este dirá que o melhor jogador de sempre é Diego Maradona. Se encontrar-mos um veterano de mais de 60 anos este orgulhosamente preferirá Alfredo di Stefano. Agora, se tivermos a sorte de falar com alguém ainda mais velho ele não terá a minima dúvida. O homem a quem o mitico "don Alfredo" tratava de maestro foi talvez o argentino mais inimitável da história das magnificas gerações de potreros que nasceramno país das pampas. O impacto que criou na sua época de glória, antes da chegada da televisão, das cores e dos media foi único. Adolfo Pedernera foi inimitável.

 

Há jogadores que marcaram equipas que fizeram história. Mas só um fez parte, com o mesmo destaque, de duas igualmente épicas e históricas. Durante 20 anos Adolfo Pedernera foi a grande estrela do futebol sul-americano e para muitos um dos melhores jogadores de todos os tempos. Numa era onde ainda não havia praticamente imagens televisivas temos de nos contentar com os relatos entusiastas e as reportagens das suas inúmeras conquistas. Mas o seu curriculum e as palavras pausadas de quem o viu e sobreviveu ao tempo para contar falam por si. Com uma finta e técnica fora do vulgar, Pedernera assumiu-se como o primeiro protótipo do futebolista moderno, actuando em vários sectores do terreno com a mesma eficácia. Desde 1935, onde começou a actuar profissionalmente, até à sua retirada em 1956, Pedernera jogou e fez jogar e liderou as duas melhores equipas da época, o River Plate e o Milionarios de Bogota.

Nascido em Avellaneda, bairro operário de Buenos Aires, de familia de classe média baixa, antes dos 15 anos já era uma estrela no futebol argentino, actuando primeiro pelo Cruceros de la Plata e mais tarde pelo popular Huracan. Com 16 anos transferiu-se para o River Plate e rapidamente criou um entrosamento especial com os seus jovens colegas de equipa. Uma formação absolutamente deliciosa onde pontificavam também Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Felix Loustau e o inimitável Angel Labruna. Juntos formaram La Maquina, o melhor conjunto da história do clube de Buenos Aires que, com esta formação, dominou por completo o futebol argentino vencendo cinco campeonatos em 10 anos (1936, 1937, 1941, 1942 e 1945), permitindo também à Argentina, do qual ele era o lider natural, vencer a Copa America em 1941 e 1945. A máxima de La Maquina era atacar. Percursor do futebol total ofensivo, o técnico da equipa, Carlos Paucelle, dizia que jogava com 1-10 tal era o espirito ofensivo do onze. A equipa vivia num constante toque à procura da baliza porque sabia que perder a bola era letal num onze quase sem elementos defensivos. Ao longo dos anos manteve uma altissima média de golos marcados e pouquissimos tentos sofridos. Pedernera era o simbolo de uma geração mas os problemas financeiros de um clube eternamente mal gerido levaram-no para o México onde jogou a contragosto durante uma época no Atlanta. Depois da viagem ao país azteca, as saudades de casa falaram mais alto e o jogador logrou desvincular-se e voltar ao seu Huracan. Também aqui Pedernera ficou pouco tempo. Em 1949 o futebol colombiano decretou guerra à FIFA e começou a coleccionar os cromos mais valiosos do futebol sul-americano. Pedernera era o ás de espadas. Assimou pelo Milionarios e tornou-se no lider da equipa que juntamente com o River Plate e o Santos melhor marcou a evolução do futebol latino até aos anos 70.

 

Na Colombia juntaram-se-lhe alguns dos mais fascinantes desportistas sul-americanos de então e o clube arrancou para uma época gloriosa com quatro titulos em cinco anos e ainda a primeira experiência de um Mundial de Clube em 1953. Pedernera destroçava pelo lado esquerdo, explodia pela faixa direita e pautava o jogo ao centro. Apontou centenas de golos e foi o patrão deste conjunto que ficaria imortalizado pelo sugestivo nome de Ballet Azul. Com a chegada de um então jovem Alfredo di Stefano, com que se cruzara nos últimos meses no River Plate e que se tinha tornado no seu substituto em Buenos Aires, o craque então de 33 anos encontrou o seu sucessor e tornou-se mentor do futuro avançado do Real Madrid. Mais tarde Di Stefano confessaria que nunca vira ninguém como Pedernera em campo e foi graças ao extremo que o jovem argentino conseguiu brilhar no clube colombiano e chegar ao futebol europeu. Depois de abandonar a Colombia voltou à Argentina onde ainda disputou duas épocas com o Huracan, retirando-se definitivamente com 38 anos.

 

Passou imediatamente aos bancos onde treinou equipas de todo o continente, incluindo a selecção colombiana - a que levou ao seu primeiro Mundial em 1962 - e Argentina, com a qual falhou o apuramento ao Mundial de 1970. Nos anos 70 terminou a sua carreira vivendo em retiro até 1995, onde com 78 anos acabaria por falecer tranquilamente na sua cidade natal. Tinha-se terminado uma era mágica da história, não só do futebol argentino mas do belo jogo de uma era onde os craques tinham auras de semi-deuses inalcançáveis para o mais comum dos mortais.



Miguel Lourenço Pereira às 11:01 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 08.01.12

O ultimo suspiro real do poder futebolistico regional espanhol viveu-se na dobragem do cabo da década de 90. Antes do apogeu do projecto que Augusto César Lendoiro preparava na Coruña, o último grito de guerra dos pequenos chegou da Mancha mais profunda, com esse cheiro a pasto queimado pelo sol, a terra pisada com amor, a queijo mecanizado pela vontade indómita...

O sonho terminou em 1992. Mas enquanto durou foi verdadeiramente épico.

Andrés Iniesta, o pequeno Andrés Iniesta, cresceu na modesta Fuentealbilla a admirar profundamente aquela equipa de branco e negro de que hoje é dono. As voltas do destino. Um pequeno filho da terra elevou à glória o destino de uma nação que durante alguns anos viveu apaixonada pela qualidade do futebol que fazia do Carlos Belmonte um destino obrigatório para qualquer peregrino à procura da novidade.

Durante três temporadas o "Queso Mecânico", essa alcunha tão manchega como holandesa, foi o projecto de moda do futebol espanhol. Durou até onde podia durar, até à inevitável saida do seu técnico, ao desmembramento de um plantel sem estrelas mas com um elemento de união irrepetível e, sobretudo, até ao fim do apogeu do futebol regional de um país que em poucos anos deixaria de ouvir a bola rolar em Logroño, Burgos, Compostela, Alicante, Extremadura, Soria ou Albacete. O preço do sucesso da Liga de las Estrellas foi o fim do futebol regional. As equipas com dinheiro, as que podiam entrar a jogo, começaram a despontar nos grandes núcleos urbanos e a incapacidade dessas capitais de provincia de atrairem jogadores e patrocinadores pautou o principio do fim. Hoje, vinte anos depois, o Villareal é de certa forma o espelho rebelde desse mundo mas ninguém esquece que metade das equipas da liga espanhola joga à volta do circulo urbano das quatro cidades principais do país (4 em Madrid, 2 em Barcelona, 2 em Valencia e 2 em Sevilla).

 

A épica do Queso Mecânico arrancou nas divisões inferiores com a chegada de Benito Floro.

O jovem técnico (tinha apenas 29 anos quando pegou na equipa) era um verdadeiro estudioso do jogo, especialista em desbloquear jogos desde o banco, perito em armar golos de lances de bola parada e, sobretudo, com uma concepção atractiva do futebol que encantou a modesta afficion do Alba. Depois de subir em 1992 à Primeira Divisão espanhola, o Albacete surpreendeu tudo e todos ao realizar uma primeira época memorável que os deixou a só a um ponto de marcar presença nas provas europeias.

O Carlos Belmonte viveu noites épicas como a goleada histórica frente ao Athletic Bilbao (4-0 com três golos em cinco minutos antes da primeira parte) e o triunfo frente a um Atlético de Madrid de Paulo Futre que ainda ambicionava ainda disputar o titulo a Barcelona. Floro acreditava piamente na importância do trabalho de laboratório e o resultado era evidente. Um terço dos tentos apontados pelo clube durante a temporada resultaram como consequência de lances estudados onde predominava a figura decisiva de Zalazar.

O capitão uruguaio, antiga estrela do Cádiz (outro projecto heróico regional dos anos 80), era a alma, coração e cerebro de uma equipa sem nomes sonantes mas com várias promessas às quais Benito Floro soube sacar o máximo rendimento. O papel de Zalazar como médio mais ofensivo dava um plus de força e dinamismo à movimentação colectiva e permitia um jogo com dois avançados em constante movimentação (António, o Toro Aquino ou a jovem promessa Ismael Urzuaiz) e um posicionamento defensivo impecável do tridente de médios que actuava atrás do capitão, habitualmente composto por Soler, Menendez e Juarez.

O sucesso da campanha inaugural do Albacete na primeira viu-se interrompido pela surpreendente noticia que marcou o Verão de 1993. O Real Madrid, destroçado pelo Barcelona de Johan Cruyff e pelo Atlético de Gil y Gil, procurava alguém capaz de dar a volta a uma situação complexa que implicava uma profunda regeneração do plantel onde ainda predominava essencialmente a velha guarda da Quinta del Buitre. Floro foi o homem escolhido, na ascensão mais meteórica que o futebol espanhol conheceu, e apesar de ter perdido o titulo na última jornada em Tenerife (e por consequência não ter renovado), venceu a última Copa del Rey até à época passada e bateu o pé àquela que então era considerada, de forma unânime, como a melhor equipa do Mundo. Por outro lado o Albacete manteve-se fiel a si mesmo. Sem o seu timoneiro (com Victor Esparrago no seu lugar) o clube manteve-se cinco épocas mais na elite e em 1993/94 logrou mesmo chegar até às meias-finais da Copa del Rey, perdidas contra o Valencia.

 

O ocaso do Queso Mecânico significou uma profunda mutação do jogo no país vizinho. Se é verdade que durante os anos seguintes continuariam a existir equipas modestas capazes de entusiasmar uma afficion neutral (Deportivo, Celta de Vigo, Deportivo Alavés, Villareal, Getafe), nunca produziu o efeito surpresa de um projecto construido com meia dúzia de pesetas e um visionário capaz de ver um oásis onde outros apenas imaginavam um deserto. O regresso do Albacete à ribalta (por culpa da sua presença nos Oitavos da Copa del Rey, pela primeira vez em 18 anos) dificilmente prenuncia um regresso às origens mas serve para relembrar ao futebol espanhol que há vida (ou havia) para lá do habitual e enebriante duopólio Barça-Madrid, hoje mais sentido do que nunca.


Categorias: , ,

Miguel Lourenço Pereira às 07:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 21.10.11

Entre Baggio e Totti pareceu viver sempre. E nunca se mostrou verdadeiramente incomodado por isso. Mais do que uma lenda viva do Calcio quando este ainda era o Calcio, a verdade é que o génio bianconero nunca deixou de ser para o Mundo o pequeno "Pinturrichio" que durante anos embasbacou aos seguidores do futebol italiano. Como na obra de Dumas, vinte anos depois Alessandro Del Piero já não é o mesmo e o seu adeus talvez não doa tanto. Mas no ar ficou a ágria sensação que houve algo que ficou por fazer nessas décadas de magia. E agora já não há tempo...

 

Quando uma geração diz adeus parece fazê-lo quase de forma instantânea.

Del Piero era um resistente, um dos últimos. Deixará de sê-lo no final desta época e junta-se aos Scholes, Vieira, Ronaldo e outros contemporâneos que decidiram que este desporto não é para velhos. Sobram os Giggs, Raúl e Totti, esses que continuam a resistir à gravidade e ao peso do Mundo transformando o seu jogo e desafiando os tempos. O número 10 da Juventus fartou-se dessa luta porque há muito que deixou de sentir o mesmo apelo, a mesma ilusão. Talvez porque, ao contrário dos recém-citados, deixou de ser importante. Deixou de ser Alex Del Piero e passou a ser apenas isso, uma lenda viva em cera, como uma estátua do Madame Toussaud.

Em 2006, quando a Itália quebrou a malapata de outras duas gerações, Del Piero foi determinante. Na meia-final contra a Alemanha de Klinsmann, rejuvenesceu e destroçou os germânicos como não fora nunca capaz de fazer no passado nos poucos minutos que esteve em campo. Foi o seu jogo mais importante com a Azzura. É significativo que tenha sido assim aos 32 anos apenas. Um espelho de uma carreira confusa e profundamente intrigante. No final desse torneio, que nem foi dele nem de Totti, o seu grande rival, mas sim de Pirlo, Buffon e Cannavaro, os problemas da Juventus anunciaram um fim que se prolongou por meia década.

Del Piero acedeu descer com a equipa aos infernos. Como Buffon e Nedved manteve-se fiel à causa. Confirmou o que todos pensavam dele mas talvez o tenha feito porque, aos 32 anos, sabia que seria incapaz de render de acordo com o seu nome em qualquer outro sitio. Ficar em casa era mais popular mas também mais cómodo para um atleta cuja evolução já tinha estagnado um par de anos antes. A estrela que tinha despontado em 1993, ao lado de um imenso, imenso Roberto Baggio, tinha sido um verdadeiro pesadelo para rivais e próprios durante uma década. Mas depois da saída de Lippi, na sua segunda etapa, começou a perder o seu espaço no onze. O homem que sobreviveu a Baggio, Zidane, Nedved e Ibrahimovic foi perdendo contra ele mesmo. As fracas performances com a selecção tinham criado um sentimento de desconfiança nacional que se juntou rapidamente aos adeptos bianconeros quando souberam que alguns dos seus mais emblemáticos jogadores (incluindo o  Pinturrichio) podiam ter sido cobaias de tratamentos médicos ilegais durante o reinado de Lippi. O reinado do número 10.

 

Del Piero nasceu em Conegliano, uma aldeia perto de Turim, onde passou os primeiros anos de vida.

Com 17 anos a Juventus descubriu-o no Pádova e não hesitou a juntá-lo às filas da primeira equipa onde já militavam Baggio, Ravanelli, Vieri, Vialli e Inzaghi. O impacto do trequartista foi imediato. Estreou-se na segunda jornada contra o Foggia como titular e na seguinte já tinha marcado o seu primeiro golo. Quinze anos depois, em 2008, tornou-se no jogador da Juventus com mais golos e jogos disputados da história, superando a Scirea e Boniperti, dois mitos históricos do clube. No final desse ano a equipa venceu o Scudetto pela primeira vez desde os dias de Platini ao mesmo tempo que batia o AS Parma na final a duas mãos da Taça UEFA. O genial Roberto Baggio levou os prémios individuais mas os jornalistas pareciam realmente encandeados com o talento de um miúdo de 19 anos que nunca ninguém tinha visto. Começou a criar-se uma aura e genialidade que o acompanhou durante toda a carreira. E que nunca foi totalmente preenchida.

Fracos desempenhos com a Azzura (45 minutos contra a Rússia em 96, fracos Mundiais em 98 e 02 e muitas oportunidades falhadas nos momentos decisivos do Euro 2000) e a ascensão de Totti na capital começaram a deixar em evidência o jogador em quem todos pensavam depositar o futuro do futebol italiano. Com a Juventus, em contra-partida, Del Piero logrou tudo aquilo que um jogador pode desejar. Uma vitória na Champions League (quando formava o tridente ofensivo com Vialli e Ravanelli) e mais três derrotas, cinco scudettos (e dois retirados à posteriori) e vários prémios pessoais pareciam preencher de números e troféus uma carreira que se ia perdendo. O golo à Del Piero, movimento diagonal interior seguido de um forte remate colocado tornado famoso pela imprensa italiana por representar uma esmagadora percentagem dos seus golos com os bianconeri, espelhava a previsibilidade do seu jogo. Del Piero deixou de lograr surpreender, perdeu a capacidade de controlar as mudanças de velocidade e foi-se, de certa forma, vulgarizando. Ao seu lado passaram Zidane e Nedved, ambos Ballon´s D´Or ao serviço da Vechia Signora, um prémio a que o avançado italiano nunca esteve sequer perto de optar. Ninguém, no futebol europeu, era capaz de dizer mal do jogo de Del Piero. Mas também eram muito poucos os que o consideravam como um génio. Algo similar ao que passou a Raúl, em Espanha e na Europa, foi corroendo a sua carreira. Em 2006, com 33 anos, muitos imaginavam uma retirada imediata. Pouco havia mais por fazer, por ganhar, por surpreender. Capello tinha transformado o ídolo dos adeptos num suplente de luxo e a situação não parecia que se iria alterar. Mas chegou o Calciopolli, a debandada de técnicos e estrelas e a despromoção. Foi uma segunda juventude para o capitão que voltou a transformar-se, de forma insuspeita e inesperada, no líder do projecto da familia Agnelli. Como uma ressurreição, Del Piero voltou às capas de jornais pelo seu jogo mais do que pela falta dele.

 

No entanto o tempo, que em Itália respeita mais os jogadores do que se possa imaginar, passava e o surpreendente (e nefasto) estado físico de Alex continuava a dar azo aos rumores que falavam no seu surpreendentemente rápido desenvolvimento muscular numa era onde a Juve era suspeito de tudo por todos. Incapaz de agradar a Del Neri ou ao seu velho amigo Conte e sabendo-se incapaz de se reinventar no terreno de jogo, Del Piero anunciou o que estava escrito há quase uma década. Espera dizer adeus como disse olá, com um titulo histórico depois de uma longa travessia no deserto. No futuro os seus números continuarão a ser inquestionáveis mas o presente já lhe dictou sentença, uma sentença que será difícil de alterar com o tempo. Aquele que tinha todas as condições para ser o idolo do calcio italiano parece agora, talvez injustamente, como um elo pequeno de ligação entre as genialidades de Baggio e Totti.



Miguel Lourenço Pereira às 08:46 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 19.09.11

Na época onde brilhavam Pelé, Charlton, Eusébio, Kopa ou Suarez, o mundo de futebol vivia uma das eras mais brilhantes. No entanto o Mundo parecia ter-se esquecido que um dos seus mais finos e exímios executantes passou aqueles anos de espectáculo preso num gulag siberiano. Ainda hoje, meio século depois, o mundo do futebol continua sem querer saber de um génio que revolucionou o futebol russo. Chamava-se Eduard Streltsov.

 

Os seguidores do campeonato russo perguntar-se-ão porque será que o Torpedo de Moscovo - um dos clubes mais humildes da capital hoje nas ligas amadoras - tem às portas do seu estádio uma estatua de um jovem jogadores de nome aparentemente desconhecido. Na mágica selecção de 1960 da URSS que venceu o primeiro Europeu em Paris brilhava Yashin nas redes, mas o grande maestro do futebol soviético estava na realidade bem longe dali. Quem o viu jogar nunca duvidou em catalogá-lo como o mais completo futebolista da história do futebol russo. Chamavam-lhe o "Pelé russo" pela forma como irrompeu e rapidamente se afirmou na URSS de então. Tinha 19 anos quando liderou a magistral selecção soviética que venceu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Sydney de 1956. O jovem nascido em 1937 nos arredores de Moscovo tinha-se estreado dois anos antes pelo seu clube de sempre, o Torpedo. No seu primeiro ano como profissional logrou chegar ao sétimo posto na votação do Ballon D´Or. O seu drible vistoso e a eficácia goleadora (apontou 100 golos em 200 jogos disputados na liga) deram rapidamente nas vistas e Streltsov tornou-se rapidamente na estrela do bloco de leste. A fama era tal que ainda hoje o passe de calcanhar tem o seu nome no futebol russo. Símbolo de uma geração que procurava desatar-se das amarras sociais, tornou-se num ícone para os adeptos mais jovens e para os descontentes com o regime. O seu sucesso significava a derrota dos clubes apoiados pelos elementos mais destacados do aparelho politico-social da URSS de então.

 

Nas vésperas do Mundial de 1958, onde a equipa soviética era uma das favoritas, o KGB abordou Streltsov e incitou-o a deixar o modesto Torpedo por um dos dois grandes clubes de então, o Dynamo (do próprio KGB) ou o CSKA (do exército). Reforçando a sua dedicação ao clube de sempre o jogador recusou, mesmo depois de o próprio Yashin ter sido enviado pela Federação a sua casa para demovê-lo. O não teve graves consequências. O jogador foi suspenso da selecção indefinidamente e semanas depois um dirigente do Partido Comunista, cuja filha tinha sido rejeitada pelo então sex-symbol do futebol russo, mandou-o prender sob a acusação de violação. Sem provas o caso arrastou-se pelos tribunais até que o KGB surgiu de novo em cena e na prisão convenceu Streltsov a confessar, prometendo que seria absolvido e que poderia incorporar-se aos colegas da selecção que estavam a poucos dias de partir para a Suécia. O jogador aceitou o pacto mas acabou por ser condenado e enviado para um gulag na Sibéria. Aí passou sete longos anos. A URSS decepcionou no Mundial mas venceu o Europeu de 1960 e o mundo do futebol, então rendido aos grandes craques ibéricos e brasileiros, esqueceu-se do mago russo.

 

Em 1965 acabou o período de cativeiro e um debilitado Streltsov foi solto pela policia. O Torpedo reincorporou-o de imediato ás suas fileiras e apesar de ter perdido a velocidade e poder de explosão que tinha aos 21 anos - quando foi encarcerado - ainda tinha talento nos pés. Nos cinco anos seguintes tornou-se de novo no melhor jogador russo tendo mesmo logrado o feito de levar o pequeno Torpedo ao titulo de campeão em 1965. Foi dois anos consecutivos jogador do ano e voltou à selecção se bem que sem o brilho de antes. Nessa segunda etapa tornou-se ainda mais letal na área marcando uma média de 20 golos por ano. Aos 33 anos, por problemas de saúde, deixou definitivamente os relvados afastando-se imediatamente da ribalta. Faleceria em 1990, vitima de cancro, depois de vários anos onde sofreu o resultado dos dias no campo de concentração onde esteve preso. Nunca falou sobre essa etapa e mais tarde soube-se que continuava vigiado e ameaçado pelo KGB para manter-se na sombra. Após a sua morte tornou-se num símbolo da Rússia pós-URSS e hoje em dia é uma figura reabilitada no futebol russo. No entanto a esmagadora maioria do mundo continua a desconhecer o génio irreverente do herói do gulag.



Miguel Lourenço Pereira às 00:40 | link do post | comentar

Segunda-feira, 16.05.11

Faltavam poucos segundos para acabar. Um livre envenenado de Danny Murphy encontrou a cabeça de Geli, perdido no meio de tantos jogadores. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas mas foi assim que chegou a fim a final europeia mais empolgado da última década. Dez anos depois o Deportivo de Alavés milita na 2º B espanhola. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas. Mas ninguém duvida que a história dos alaveses é digna de uma fábula futebolística.

 

 

A boa noticia para os adeptos do Alavés é que o pior parece ter passado.

A equipa de Vitória, capital do País Vasco, está no pote de clubes que irá lutar pela promoção à Liga Adelante, a segunda divisão do país vizinho. Há muito tempo que os alaveses andam perdidos nessa floresta de equipas caídas em desgraça. O seu caso tem uma explicação muito simples, nefastamente comum. Um pretenso milionário ucraniano, Dimitri Pitterman, comprou o clube e desfez o projecto em fanicos. Ficou apenas a memória do futebol de elite. E daquela noite em Dortmund. A noite de um 16 de Maio. Há dez anos atrás.

Numa equipa sem estrelas, que rapidamente seria desmembrada pelo poder de atracção do dinheiro fácil, ninguém esperava uma noite assim. Os jogadores do Alavés sabiam-se outsiders e apenas queriam dar a cara, responder ao orgulho dos adeptos que os acompanharam na sua caminhada europeia. O grande momento, a grande gesta tinha ficado para trás, numa fria noite de 22 de Fevereiro. O San Siro, cheio, testemunhou como o anónimo Alavés batia por 0-2 o poderoso Internazionale, uma semana depois de aguentar um 3-3 em casa. Jordi Cruyff, ao minuto 78, abriu a contagem que Tomic fechou 10 minutos depois para desespero de Marcello Lippi, Christian Vieri e companhia.

Mané, técnico modesto e com aquele espírito guerreiro de antes quebrar que torcer que moldou a escola vasca, nunca esperou a resposta dos seus jogadores depois do grande jogo do Inter em Vitória. Esta era uma equipa onde a estrela, pelo apelido, era Jordi Cruyff. Muitos jogadores espanhóis com largos anos de futebol secundário nas pernas formavam o esqueleto do conjunto. Num 5-3-2 que apostava profundamente no contragolpe, a segurança defensiva de Karmona e Tellez era fundamental. Os dois centrais, decisivos nos lances de bola parada, formavam o esqueleto. Mas era a velocidade do romeno Contra, a qualidade de passe de Desio e o instinto goleador de Javi Moreno que chamavam à atenção. Antes daquele duelo com o Internazionale a equipa tinha eliminado dois conjuntos noruegueses (Lillestrom e Rosenborg) e nas rondas seguintes bateu o igualmente modesto Rayo Vallecano e o Kaiserlautern alemão. Dois anos depois de ser promovido à Liga espanhola, o Aláves estava numa final europeia.

 

Olhando para trás, é fácil perceber o milagre do conjunto basco.

O espírito de equipa, a natureza dos rivais e a clara aposta do clube na prova da UEFA, o escaparate perfeito para fazer alguns milhões no defeso, funcionou como catalisador. Mané criou um forte sentido colectivo nos jogadores que saiam a jantar juntos com as famílias todas as semanas, comiam “pintxos” tradicionais em pleno balneário e que sentiam que partilhavam tanto as agruras como os elogios. A maioria da equipa tinha subido de divisão dois anos antes, incluindo o técnico. Os poucos que chegavam de forma ao Mendizorrozza integravam-se sem problemas e no final de contas foi esse espírito que permitiu ao clube dar a cara diante do poderoso Liverpool.

A equipa de Gerard Houllier chegava à sua primeira final pós-Heysel com uma das suas mais espantosas gerações. Tinham batido com autoridade o Barcelona, FC Porto e a AS Roma. Contavam com a estrela europeia de moda, Michael Owen, mas também Robbie Fowler, Steven Gerrard, Jamie Carragher, Danny Murphy, Gary MacAllister, Dietmar Hamman e Emile Heskey. Eram favoritos e sabiam-no. Mas não esperavam uma resistência de proporções épicas. Naquela tarde noite no Westfallenstadion a vitória do Liverpool ficou ofuscada pela exibição do modesto Deportivo. Os golos de Babbel, Gerrard, MacAllister, Owen encontravam sempre resposta. Ivan Alonso, Javi Moreno e Jordi Cruyff, no minuto 89, teimavam em amargar a festa dos reds. A tensão começava a tomar conta do banco do Liverpool e os alaveses acreditavam que um milagre, um milagre futebolístico, estava prestes a tornar-se realidade. A três minutos do fim o conto de fadas acabou na cabeça de Geli, nesse desvio para as redes de Herrera e nesse desalento que dura há dez anos. O Alavés esteve perto de fazer história. Sem entender muito bem como, acabou realmente por fazê-la, à sua maneira.

 

 

Depois dessa noite épica o mundo nunca mais se esqueceu dos vitorianos. Mas a sorte abandonou o Deportivo com aquele cabeceamento. Dois anos depois o conjunto foi despromovido à 2º Divisão. Voltaria no ano seguinte mas a gestão criminal do ucraniano Pitterman levou a instituição à falência e ao calabouço da 3º Divisão. A pouco e pouco o modesto clube começa a erguer-se. Mas faça o que fizer, sempre que o nome apareça numa noticia em qualquer recanto do mundo, a única imagem que nos saltará à cabeça é a dessa noite onde o futebol foi mais futebol do que nunca e em que ficou claro que os contos de fadas às vezes não acabam como queremos. Mas nunca deixam de ser mágicos.  



Miguel Lourenço Pereira às 11:31 | link do post | comentar

Terça-feira, 03.05.11

As almas de Carrow Row inspiraram fundo. Olharam para o céu. Olharam para o relógio. Viram como estava o vento desde a portuária e longínqua Portsmouth. E soltaram as asas. Finalmente podiam voar rumo à mítica elite. Em dois anos o milagre devolveu o histórico Norwich City aos grandes do futebol inglês. Uma dupla promoção prodigiosa e que devolve os "Canários" ao confronto directo com a elite britânica. Uma história com um surpreendente mas necessário happy-ending.

 

 

 

 

 

 

Paul Lambert entrou na mitologia "canária". E não é para menos.

Nos inicios de 2010 o Norwich andava pelo meio da tabela da League One, a terceira divisão inglesa. Era muito pouco para um clube com uma história imensa, um clube que fez parte dos fundadores da Premier League. Um clube que representava uma zona geográfica inglesa há muito afastada do resto do país, East Anglia. No meio dos pântanos, do vento e das correntes, os adeptos dos populares "canários", um dos poucos clubes ingleses a equipar de amarelo e verde, pensavam que os dias de glória nunca mais chegariam. E então chegou o escocês Lambert. E com ele um novo espírito. A equipa começou a trepar postos na tabela classificativa e quando a época passada chegou ao fim o Norwich sagrava-se campeão com cinco pontos de avanço. Tinha menos 18 que o líder quando o técnico se apresentou aos adeptos.

Se já essa subida era para recordar, o que se viveria em Carrow Row em 2011 será certamente para entrar nos livros de história. O conjunto chegou ao Championship com objectivos claros de manutenção. Não havia dinheiro nem condições para competir com os despromovidos da Premier League ou os grandes nomes como Leeds, Nottingham e Middlesborough que tinham falhado o assalto final no ano anterior. Talvez por isso o arranque tranquilo, sem demasiados altos e baixos, fosse visto com aprovação. Passo a passo, pensavam, lá chegaremos. Daqui a uns anitos talvez possamos ser nós. Mas Lambert não é homem de conjecturas futuras. E chegado o mês de Dezembro a equipa começou a reagir à pressão psicológica do seu próprio Manager. Os ataques convertiam-se em golos, as defesas multiplicavam-se e os jogos pendiam, cada vez mais, para os amarelo e verdes. O Norwich repetiu a façanha e trepou, trepou e trepou na tabela classificativa. Até que se colou ao líder, o recém-milionário - e igualmente histórico - Queens Park Rangers. E não o largou. Até que a matemática tornou o sonho em realidade.

 

O voo dos canários custou muito a equipas que apostaram forte na subida à Premier League.

Se o QPR - e o dinheiro investido por Ecclestone e Briatore - era um fortissimo candidato desde o principio, as campanhas de Middlesborough, Portsmouth, Nottingham, Cardiff, Burnley, Hull e Reading pareciam condenar qualquer outro conjunto a aspirar a ter, apenas, um ano tranquilo. Mas o Norwich City - e o mítico Leeds United, de certa forma - nunca se resignaram. E à medida que alguns candidatos mostravam não ter ritmo para lutar pelos primeiros postos, as posições na tabela foram-se invertendo. O Norwich, sem nenhuma estrela a que se agarrar, imitou o modelo do modesto Blackpool, que em 2010 tinha logrado um feito similar. O conjunto, capitaneado magistralmente por um treinador que sabe o que é ganhar. Lambert, internacional escocês de topo nos anos 90, sagrou-se campeão europeu com outra equipa amarela, o Borusia Dortmund, em 1997. Também então os germânicos foram subestimados pela concorrência. E acabaram por sagrar-se justos campeões da Europa.

Esse espírito guerreiro foi inculcado num plantel de nomes aparentemente desconhecidos para a imensa maioria mas que já valem o seu peso em ouro na história do clube. Quando a equipa bateu a 21 de Abril o seu rival regional histórico, o Ipswich Town, por 1-5, tornou-se claro que só uma hecatombe podia acabar com o sonho do Norwich. Para trás tinha ficado uma série de seis jogos seguidos sem perder, todos com rivais directos, todos com superioridade contrastada no terreno de jogo. Que o nome mais sonante da equipa seja Henry Lansbury, um jovem emprestado pelo Arsenal, diz muito da natureza de um projecto sólido que não arrisca sem ter a certeza de que vale a pena. Desde há 20 anos que uma equipa não conseguia duas promoções consecutivas. Isso diz muito do feito logrado pelos homens de Lambert que agora terão de saber sobreviver no meio dos falcões da Premier League.

 

 

 

O titulo pode pertencer ao QPR e há ainda muito drama e emoção à espera na luta dos play-offs onde quatro equipas (Cardiff, Swansea, Reading e Nottingham) ainda sonham com a promoção. Mas ninguém será capaz de roubar o protagonismo mediático a um conjunto histórico que ultrapassou todos os problemas possíveis e imaginários e logrou em 18 meses o que grandes tardaram anos em conseguir. 2011 será sempre um ano doce na história do Norwich City, um ano onde se provou que os Canários podem ser pequenos mas também sabem voar...



Miguel Lourenço Pereira às 11:55 | link do post | comentar

Quinta-feira, 14.04.11

A muitos surpreende a vitoriosa campanha europeia do Schalke 04 de Raul e companhia. Mas apesar de ser a primeira semifinal da Champions League na história do clube, houve uma época em que os mineiros de Gelsenkirchen faziam parte da nata europeia. Nos anos 30 o futebol espectáculo do Schalke ajudou a definir as bases do futebol alemão do pós-guerra e transformou os seus heróis em ícones da resistência do povo germânico.

 

 

 

Chamaram-lhe "Schalker Kreisel".

E definiu o estilo de futebol de toque que começava a ganhar cada vez mais adeptos no centro da Europa. O estilo de jogo de combinação - primitivo comparado com os padrões de hoje mas enormemente avançado para a época - que se foi forjando na equipa do Schalke nos anos 20 marcou um antes e um depois na história do futebol alemão. Até então o país tinha vivida à sombra de um futebol rápido e de contacto, praticado iminentemente pelas equipas do sul.

Kurt Otto moldou uma equipa feita só com jogadores da casa, muitos deles mineiros e filhos de mineiros da cidade industrial de Gelsenkirchen. Uma equipa que procurava a troca de bola em lugar das habituais cavalgadas rumo à área contrária. E que encontrou no talentoso Fritz Szepan e Ernst Kuzorra, os seus grandes interpretes. Filhos de emigrantes polacos, como tantos outros na cidade, as duas grandes estrelas do futebol alemão do pré-guerra, talvez os jogadores europeus mais completos da sua época - a par de Meazza e Sindelaar - Szepan e Kuzorra deram um brilho especial o jogo de toque dos azuis reais. A equipa começou a crescer em meados dos anos 20, com a chancela do presidente Fritz Unkel, um dos grandes impulsionadores do projecto local. Rapidamente passaram a dominar a Gauliga, a liga da zona do Rhur, a mais forte das ligas regionais alemãs. Uma série de contratempos foram adiando o esperado titulo inaugural do Schalke.

Aliado ao sucesso do clube ficou o nascimento do mítico Glückauf-Kampfbahn, um dos estádios mais frenéticos do futebol teutónico durante largas décadas. O público local transformou os jogos em casa do Schalke em meros trâmites (o clube não perdeu um jogo em casa nos 11 anos seguintes até ao irromper da guerra) e rapidamente a equipa começou a disputar as finais nacionais. Em 1929, um ano depois da inauguração do estádio, chegou o primeiro titulo regional. Mas foi preciso esperar cinco anos até o domínio do futebol do oeste se transformasse em domínio nacional.

 

Quando tudo indicava que o maravilhoso futebol do Schalke 04 ia terminar com o a supremacia do Stuttgart e Nuremberga, a liga alemã surgiu em cena e baniu o clube durante um ano. O motivo? O pagamento de salários elevados aos seus melhores jogadores, algo impensável num país que lidava tão mal com o conceito do profissionalismo que só nos anos 60 a Bundesliga foi oficialmente fundada como uma liga profissional. Quase 30 anos depois das restantes grandes competições europeias. Por essa altura a Alemanha já tinha até um titulo mundial ganho por falsos amadores. Como eram todos os elementos do Schalke 04.

Por isso só em 1934 a equipa pode finalmente desfrutar do seu primeiro campeonato. Uma época inesquecivel em que ao génio de Szepan e Kuzorra se juntaram outros elementos chave. A final disputada em Berlim confirmou o génio de Bornemann na defesa, Zajons e Urban nas alas e Rothard no eixo do ataque. O Schalke venceu por 2-1 o Nuremberg mas esteve a perder por 1-0. Parecia que a malapata ia seguir quando Szepan, como só ele sabia fazer, marcou o primeiro e inventou o segundo em apenas dois minutos. Os dois que faltavam para o jogo chegar ao fim.

O triunfo iniciou uma saga de vitórias praticamente incontestáveis até ao arranque da II Guerra Mundial. No ano seguinte a vitima foi o Stuttgart, derrotado num festival de golos por 6-4. Por essa altura o técnico já era Hans Schmidt, sucessor do genial Otto e fiel continuador da sua filosofia de jogo curto de toque e desmarcação, algo que se tornara já na moda europeia graças à popularidade do Wunderteam austríaco de Hugo Meisl. Depois do hiato em 1936, dois novos títulos nacionais consecutivos e um dominio que se prolongou até 1941, ultimo ano das competições oficiais antes da entrada na fase determinante da guerra. Durante toda a década o Schalke manteve-se fiel não só ao seu estilo futebolistico mas também à sua filosofia local. O clube protegeu muitos dos seus jogadores judeus durante a perseguição do regime nazi e ajudou os seus melhores jogadores a evitarem a temida frente oriental ao serviço do exército. Muitos deles serviram em bases aéreas em solo alemão, privilegio de poucos. O final da era de glória do Schalke significou um parêntesis na evolução do próprio futebol alemão. O clube tinha sido a base ideológica do jogo teutónico apesar das reservas do seleccionador Otto Nerz que não apreciava o estilo relaxado e de toque de Szepan e Kuzorra. O segundo foi afastado da selecção sem apelo nem agravo. O primeiro viveu uma década de altos e baixos. Mas estava em campo no dia em que a Alemanha se apaixonou pelo seu jogo. Em Breslau, num desafio contra a Dinamarca, o polémico Nerz finalmente alinhou os seus melhores jogadores, incluindo a espinha dorsal do Schalke 04. A equipa venceu por 8-0 - a sua maior vitória até então - e o onze que marcou o verdadeiro inicio da Mannschaft ficou conhecido como Breslau Elf.

 

 

 

Com o pós-guerra o Schalke 04 entrou num periodo de crise da qual nunca recuperou totalmente. Voltou a vencer, uma vez mais, o titulo alemão mas quando a Bundesliga finalmente arrancou o clube começou a perder-se pelos postos do meio da tabela. Depois da surpreendente vitória da Taça UEFA, em 1998, o conjunto alemão volta a estar nas bocas do mundo. Muitos lembram-se já do Bayer Leverkusen. Em 2002 também disputou a meia-final com o Manchester United e do outro lado havia um Barcelona vs Real Madrid. Muita coincidência. Sob o espirito do Schalker Kreisel, sonhar está permitido.



Miguel Lourenço Pereira às 10:39 | link do post | comentar

Sexta-feira, 01.04.11

A improvável vitória da Sampdoria na Serie A de 1991 foi o culminar de uma campanha demoníaca dos legionários de Vujadin Boskov. O Luigi Ferraris transformou-se na caixa de pandora do Calcio e na ressaca mundialista o clube pequeno de Génova tornou-se no clube grande de Itália. Uma história de glória efémera mas com feitos extraordinários que a história jamais apagará.

 

 

 

Pagliuca. Vierchwood. Mannini. Lana. Pellegrini. Toninho. Katanec. Mikaylichenko. Lombardo. Vialli. Mancini.

Onze nomes que a cidade de Génova nunca poderá esquecer. Durante dois anos a cidade portuária da Ligúria, berço da primeira grande equipa italiana da história - o eterno rival Genoa - voltou a ser o coração do Calcio. Um fábula que provou que no futebol - ou pelo menos, no futebol pré-Bosman - tudo era verdadeiramente possível. O conjunto genovês com o equipamento mais belo, quiçá, do futebol europeu, conseguiu em dois anos o que muitos clubes tardam toda a vida em lograr. A vitória na Serie A, a uma jornada do fim, em 1991, foi histórica. A final da Champions League perdida, no ano seguinte, frente ao Barcelona, o principio do fim. Entre esses dois anos os Blucerchiatti puderam sonhar.

A equipa que arrancou a época de 1990 era praticamente a mesma que disputara, na Primavera anterior, a sua segunda final consecutiva da Taça das Taças. Os genoveses tinham perdido contra o Barça, a sua besta negra como se veria, em 1988 mas no ano seguinte bateram o Anderlecth para conquistar o seu primeiro trofeu europeu. Uns meses depois, frente ao todo poderoso AC Milan, Boskov e companhia estiveram perto de vencer, também, a Supertaça Europeia. Era o prenúncio da formação de uma equipa altamente competitiva. A equipa mantinha a estrutura e reforçava-se com o soviético Mikhaylechenko, pedra basilar do Dynamo Kiev de Lobanovsky que finalmente dava o salto rumo ao Ocidente. A equipa arrancou o ano com uma modesta vitória frente ao Cesena mas demorou a arrancar. A 28 de Outubro, em San Siro, uma vitória por 1-0 frente ao AC Milan (golo inesquecível do brasileiro Toninho Cerezo) deu a entender que a dinâmica dos azuis mudava a pouco e pouco. A partir daí a Sampdoria entrou numa serie de jogos decisivos sempre a ganhar (exceptua-se a derrota no derby, por 1-2) em que bateu expressivamente o Napoli de Maradona, a campeã equipa do Inter e a AS Roma de Voeller e companhia. A liderança do campeonato, algo inédito no historial do clube, tardou algumas jornadas em chegar por culpa de tropeços inesperados (derrotas com Torino e Lecce) mas chegou com uma vitória face à Juventus de Baggio. A partir daí os homens de Boskov tornaram-se no alvo a abater.

 

Alinhando num 4-4-2 profundamente dinâmico, com Lombardo e Toninho no apoio directo ao duo de ataque mais celebre do futebol italiano (e com Vierchwood, Katanec e um jovem Pagliuca a comandar, imperialmente, o sector defensivo), o Luigi Ferraris transformou-se com a sua equipa e tornou-se num verdadeiro inferno. A equipa recebeu - e venceu - AC Milan, Napoli e Inter, os três últimos campeões, e a 19 de Maio, a uma jornada do fim da época, confirmou o titulo com uma desforra expressiva face à Lecce. A vitória por 3-0 confirmou o titulo e também o prémio de Capocanonieri, com 19 golos, para o flamante Gianluca Vialli. Era a consagração definitiva de um estilo que tinha abandonado o catenaccio puro para abraçar um jogo ofensivo e dinâmico que teve a sua devida recompensa. A Samp falhou apenas a dobradinha por cair diante da AS Roma na final da Taça de Itália - a sua prova fetiche dos anos anteriores - depois de se revelar incapaz de dar a volta na segunda mão, em Génova, ao mau resultado do primeiro jogo (3-1, derrota no Olimpico da capital).

Com 20 vitórias e 57 golos marcados, a Sampdoria foi a equipa mais ofensiva do último ano da era Sacchi (que se manteve como a melhor defesa da prova). Mas a glória caseira acabaria por revelar-se sol de pouca dura. Na época seguinte Boskov decidiu colocar todas as fichas na ambição europeia do presidente Mantovani e esqueceu-se do dificil que era manter o Scudetto numa liga com tantos pretendentes. Na Europa a missão dos genoveses foi superado contra toda a expectativa. Depois de destroçar Rosenberg e Honved nas fases prévias, os italianos foram colocados no mesmo grupo que Panatinaikhos, Anderlecth e Estrela Vermelha, os campeões europeus em titulo. As duas vitórias no confronto directo com os jugoslavos revelaram-se decisivas para o histórico apuramento de Mancini, Vialli e companhia para a final do Wembley. A noite que consagrou o Dream Team de Cruyff (que em 1988 tinha ganho o seu primeiro trofeu europeu precisamente contra os italianos) podia ter sido a noite da Sampdoria não fossem os pouco habituais erros de Lombardo, Mancini e, sobretudo, Vialli, à frente de Zubizarreta. A amarga derrota, a poucos minutos do fim, culminou um final de ano para esquecer. Na Serie A os genoveses há muito que estavam afastados da rota do titulo (com direito a derrota e goleadas impostas pelo futuro campeão, o AC Milan de Capello) e na Copa de Italia uma eliminação precoz fui tudo o que os adeptos puderam lamentar. A partir desse Verão de 92 a histórica formação, que durante quatro anos tinha levantado a moral dos tiffosi, foi-se desfazendo.

 

 

 

Boskov partiu e deixou o posto para Sven-Goren Eriksen, incapaz de devolver o clube ao topo da tabela. Rapidamente as grandes estrelas partiram para outros campeonatos. Mancini para a AS Lazio, Vialli para a Juventus e Mikaylichenko para o Rangers...Nem as chegadas dos promissores Jugovic, Amoruso e Chiesa permitiu ao clube inverter a tendência. Até à histórica campanha de Luigi Del Neri, na passada época, nunca mais o Luigi Ferraris se transformou num recinto demoniaco, capaz de destroçar a mente dos rivais antes de entrar em campo. A Sampdoria passou a década e meia seguinte a lutar por sobreviver na parte baixa da tabela classificativa. As lembranças dos dias de glória ficaram, mas a ascensão do duo romano, da Fiorentina e da AS Parma transformou o fenómeno genovês num episódio de um passado longinquo. Um passado grandioso mas desenhado na pedra, perdido nos confins do tempo. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:11 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 18.03.11

Conta-se que uma vez um reputado jornalista do L´Equipe, de visita ao Rio de Janeiro, viu-se confrontado com a pergunta de quem era, para ele, o melhor jogador do mundo. O homem sorriu e respondeu "Edson Arantes do Nascimento". O brasileiro que lhe fez a pergunta ficou com ar de espanto e não evitou o comentário "Pô, você nunca viu jogar Pelé?". Independentemente de nomes, apelidos, alcunhas e titulos, o mundo do futebol conheceu vários craques e lendas, mas nunca nenhum jogador chegou tão longe, tão perto da eternidade, do que um rapaz que não gostava que lhe chamassem Edson.. A história imortalizou-o com outro nome, mas no meio de tanta genialidade, que importam os nomes? 

A história é feita de episódios curiosos. Como o de Dondinho, jogador fracassado que se dedicou a treinar a equipa onde o filho e os amigos jogavam. Ou o dia em que, então um rapazinho com saudades de casa, se preparava para sair a meio da madrugada do lar do Santos, onde vivia, e abandonar o sonho de ser futebol. Foi apanhado pelo porteiro e voltou atrás, engolindo as saudades e lançando as bases para a era mais memorável de todo o futebol brasileiro. Fez toda a sua carreira desportiva de elite no Santos, clube que o acolheu quando ainda era um miudo de bairro. Foi o primeiro a perceber o potencial mediático da liga americana e durante alguns anos actuou no New York Cosmos. Teve dezenas de jogos de despedidas e recebeu múltiplos galardões como o maior futebolista da história. No Brasil chamam-lhe Rei, para muitos é o Deus do Futebol. Titulos ou episódios, marcos históricos ou galardões. Tudo isso se torna redutor quando o tema em questão se chama Pelé.

 

Avaliar a marca na história de Pelé não se faz apenas pelos três Mundiais que conquistou. Ou pelas vitórias conseguidas pelo Santos no Brasil, América Latina e nas Taças Intercontinentais. A marca de um génio capaz de dominar o jogo do primeiro ao último segundo com a sua capacidade fisica (apesar da sua pequena estatura, 1m70) e garra. Falar de Pelé é falar de poesia, de drama, de tragédia ou épica. Dos dribles fantásticos capazes de eclipsar o próprio Garrincha, rei do regate. Dos seus saltos nas alturas, onde era capaz de ir buscar bolas impossíveis e torna-las em golo. Dos seus malabarismos diante dos guarda-redes. Ou do seu pontape, forte, seco, colocado, indefensável. Falar do futebol de Pelé é redutor porque Pelé é o próprio futebol. Aos 17 anos sagrou-se campeão do Mundo na Suécia, marcando dois golos na final numa equipa onde não estava previsto que fosse titular. E chorou. Como o menino que era. Doze anos depois era o homem na plenitude máxima das suas potencialidades que fez gato sapato de cada equipa que se passava diante do escrete canarinho. Do guardiã checo, impressionado pela ousadia de Pelé em rematar atrás da linha do meio campo. Do "portero" uruguaio que caiu no drible do melhor golo do mundo que não o foi. Ou da defesa italiana que ainda hoje tenta entender como foi possível ao craque brasileiro rasgar por completo uma equipa impenetrável. Falar de Pelé é falar do Santos e do melhor periodo do futebol do Brasil, da forma como esmagou o SL Benfica do amigo Eusébio. Ou o AC Milan de Rivera. Falar de Pelé é falar de magia em estado puro. É falar de futebol! 

Pelé começou a jogar no Santos como falso ponta de lança. Explodiu aos 15 anos na equipa titular e com um golo. A primeira vitima de Pelé chamou-se Cubatao. A primeira de tantas outras (1283 golos oficiais em 1367 jogos disputados) que se habituaram a ter de conformar-se com cair de pé perante a armada santista do Rei. Aos 17 anos fez parte da equipa mágica do Brasil que conquistou o primeiro mundial, oito anos depois do "Maracanazo", apesar da polémica convocatória e da lesão que arrastou no inicio do torneio. Quatro anos depois já era o melhor jogador do mundo, liderando o Santos à conquista de multiplos campeonatos paulistas e torneios Rio-Sao Paulo, as grandes competições brasileiras da época.

As vitórias nas primeiras edições da Copa dos Libertadores levou o Santos a disputar a Taça Intercontinental onde derrotaria tanto o SL Benfica como o AC Milan, consagrando um homem que no entanto teve de sofrer na pele as lesões que quase o afastaram do Mundial de Chile 62 (só jogou os dois primeiros jogos) e que o destroçaram no Inglaterra 66 (com a implacável marcagem dos defesas bulgaros e portugueses a deixarem o craque k.o.) mas que mesmo assim não minimizaram a lenda. Apesar disso este foi o seu periodo aureo no Santos, onde militavam os melhores jogadores brasileiros da época. Uma equipa de sonho que explorou o melhor momento de forma de um Pelé cada vez mais decisivo e goleador.

 

Durante os anos 60 resistiu-se sempre saltar para a Europa, como tantos sul-americanos, e quando chegou o Mundial de 70, então com 29 anos, para muitos era uma estrela em queda livre. Surpreendendo mais de meio mundo, o homem que meses antes estava fora da selecção, liderou a melhor equipa que alguma vez pisou um relvado a conseguir o seu mais brilhante triunfo. No final, em ombros no Azteca, percebeu que tinha logrado a perfeição e farto de tantas digressões e provas secundárias onde alinhava para que o Santos cobrasse o cachet,  começou a preparar a sua saída em alta. Primeiro deixou o escrete pela segunda vez (em 1966 tinha-se retirado e esteve três anos sem jogar pelo Brasil) e quatro anos depois o clube da sua vida. A imagem de Pelé aproveitou o filão televisivo, o potencial mercado norte-americano e o delirio que desatava no Brasil a sua presença. Ao contrário dos seus geniais colegas de equipa (Nilton Santos, Didi, Vavá, Zagallo, Garrinhca, Tostão, Gerson, Rivelino, Jairzinho), Pelé soube manter-se sempre na crista da onda e imortalizou a sua imagem mesmo diante daqueles que nunca o viram jogar de tal forma que até Romário disse um dia que o futebol devia levar o seu nome..

 

Tornou-se no primeiro icone futebolistico mundial. E mais do que Rei, tornou-se em Deus. Um Deus que antes foi um rapazinho de lágrimas nos olhos. O mesmo rapazinho de sotaque mineiro que, quando era pequeno e acompanhava o pai Dondinho aos treinos, ao chamar pelo guarda-redes da equipa e amigo do pai que se chamava Bilé pronunciava mal o nome e acabava por ditar a sentença que marcaria o futuro do jogo...Pelé.



Miguel Lourenço Pereira às 14:10 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14.02.11

O futebol sabe ser ingrato com os seus filhos mais pródigos. Hoje termina um capitulo fundamental, que marcará uma página da história do jogo. Mas parece ser apenas mais uma vírgula no meio de tanto histerismo por assuntos menores. Ronaldo Nazário, provavelmente o protótipo do avançado ideal, o mais completo jogador pós-maradoniano, disse basta. O Mundo já lhe virou as costas há demasiado tempo para se recordar da verdade e há muito que preferiu esquecer a lenda do único Aquiles que trocou a armadura por umas chuteiras e desafiou a ordem dos astros do universo futebol.

 

 

 

Para muitos amantes do futebol, o golo de Diego Armando Maradona à Inglaterra, no Mundial de 86, define uma época. Esses serão, provavelmente, os mesmos que se lembram bem daquela fria noite de Compostela quando um jovem brasileiro de 20 anos decidiu meter o mundo no bolso e dar um salto no tempo. Depois daquele momento histórico - que, matematicamente, serviu de pouco - passou a haver um antes e um depois de Ronaldo. O "Fenómeno" era, de facto, fenomenal. Hábil na gestão dos tempos, veloz como um felino, o seu instinto goleador enganava os analistas que se surpreendiam ao vê-lo começar as jogadas na linha de meio-campo. O seu poder de explosão e a facilidade de associação lembrava, e muito, o argentino caído em desgraça. No Mundial dos EUA, el Pibe despediu-se envergonhado. Sem jogar um minuto, Ronaldo esperava a sua hora. Já tinha sido o rei do Brasil, num ano memorável ao serviço do Cruzeiro. E já tinha confirmado, acima de tudo, a sua fácil adaptação ao futebol europeu. Com o PSV mediu-se ao melhor Ajax pós-Cruyff e, mesmo assim, pareceu inimitável. Mas também frágil e humano, dolorosamente humano.

Pelé sofreu lesões que o mantiveram em serviços minimos em dois Mundiais. A Maradona até uma perna lhe partiram e tanto Cruyff como Di Stefano, Platini, Messi ou Cristiano Ronaldo já sofreram agruras sérias provocadas pelos mais acérrimos rivais. Mas nenhum jogador de futebol foi tão vitima do seu próprio corpo como Ronaldo Luis Nazário de Lima. Um Deus de um jogo que o revelou como Mortal. A especulação faz parte da vida e hoje é legitimo pensar que, não fosse o seu corpo frágil, Ronaldo poderia ter sido mais do que o maior avançado dos últimos cinquenta anos. Poderia ter sido perfeitamente o maior jogador do Mundo.

 

Parou dois longos e deprimentos anos na sua estadia em Milão. As lesões contraídas ao serviço do neruazurri impediram-no de dar um salto qualitativo quando em melhor posição se encontrava para superar a barreira histórica deixadas por Pelé e Maradona. Depois do ano mágico ao serviço do Barça onde ganhou tudo menos a Liga (a desforra tardaria seis anos), o Inter era um profundo desafio. No primeiro ano esteve a um penalty do titulo, o mesmo que ficou por marcar naquela tarde seca contra a Juventus de Ancelotti. Depois veio o corpo e as dores de alma. As dores da nunca bem explicada desaparição no relvado do Saint-Dennis na final contra a França. Desse misterioso jogo pode-se retirar a essência fantasmagórica que acompanhava a carreira de um jogador completo a todos os niveis. O Mundial de França provou o que de melhor havia naquele Ronaldo. Quatro anos depois, o mesmo cenário exemplificou algo único: a transformação absoluta de um jogador de elite num outro jogador de elite, totalmente oposto.

As lesões destruiram o jovem explosivo e irreverente que tinha marcado um antes e um depois no futebol mundial e reinado, só, como único jogador global pós-Maradona. Em 2002 havia já Zidane, Figo, Beckham (todos futuros colegas naquele projecto megalómano de Florentino Perez). Mas nenhum como ele. Nenhum tão completo e com um espirito de sobrevivência tão agudo. Ronaldo reinventou-se, abdicou da velocidade em prole da colocação, aguçou os dentes frente à baliza contrária e assinou o Pentacampeonato brasileiro com o mesmo padrão de genialidade de Pelé. O titulo mundial, esse corolário, confirmou uma carreira sem igual que na Europa bebeu poucos titulos (como Maradona, nenhuma Champions League, por exemplo) mas que soube desfrutar plenamente da sua segunda etapa, agora de branco, com quilos a mais e vontade a menos. Em Madrid o segundo Ronaldo, esse sósia trabalhado do primeiro, foi assassino quando era necessário e displicente quando se pedia compromisso. Confirmou-se, se era preciso, como um jogador único, mas o mundo tinha perdido o interesse. Queria a novidade, a novidade dos Ronaldinhos, dos Messi, dos Cristianos e prodigios posteriores. O marketing funcionou contra ele depois de o ter ajudado a tornar-se num mito (os anuncios Nike com Ronaldo definiram, em boa parte, o fenómeno global do futebol na segunda metade dos anos 90 e o poder das marcas num jogo universal). O Brasil, com todo o seu atractivo, funcionou como um retiro progressivo de um atleta com muito futebol nos pés mas já sem forças para manter o nivel corporal. Ronaldo não podia aguentar com o ritmo europeu e mostrou manifestas dificuldades para encontrar a forma no mais pausado futebol sul-americano. O corpo, como disse, não aguentou. Tinha sofrido demais, talvez mais do que muitos desportistas de elite juntos. E o Mundo não percebeu que cada golo do brasileiro depois daquele calvário era, acima de tudo, um soco no destino. Um soco que van Basten, por exemplo, não soube dar. Um soco que só os maiores dos maiores (Pelé, Maradona) teriam sido capazes de desferir sem perder a pose.

 

 

 

Os ses e os senões comandam a vida e o destino. Ronaldo é, sem dúvida, o avançado mais completo da história do futebol se pensamos que Pelé e Maradona souberam sempre ser mais do que isso. E que Di Stefano e Cruyff eram, cada um ao seu estilo, jogadores totais. Mas quando se pensa nesse quinteto de maravilhas e se procura o ás que falta, que saltem os nomes de Zidane, Messi, Cristiano Ronaldo, Platini ou Beckenbauer soa um pouco a falso. Soa a esquecimento, propositado ou não, esquecimento daqueles arranques, esquecimento daqueles slaloms, esquecimento daqueles remates, esquecimento daqueles suspiros antes do golpe definitivo. Esquecimento de um rei que pareceu sempre ter de pedir a coroa emprestada e que mais do que um diamante forrado numa bola de couro, é uma gota de divinidade que mergulhou num corpo frágil, qual Aquiles, para mostrar ao mundo que os Deuses também são Mortais.



Miguel Lourenço Pereira às 16:06 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 10.02.11

Hoje os investidores estrangeiros são os únicos capazes de injectar dinheiro em projectos desportivos, muitas vezes, absurdamente estagnados. Petro-dolares, rupias indianas, rublos russos, tudo vale. No entanto, o modelo dos magnatas com dinheiro, ilusões mas muito pouca paciência não é novo e no passado deixou as suas vitimas. Poucas terão tido o mesmo impacto mediático do que o Matra Racing Paris. Durante dois anos tentou comprar o sucesso. Falhou e caiu na penumbra do esquecimento...

 

 

 

Quando em 1981 o milionário francês Jean-Luc Lagardére se juntou a Daniel Filipachi para comprar o espólio do grupo de revista Hachete, brincou com os amigos comentando que só lhe faltava mesmo comprar um clube de futebol. O homem que relançou a revista Elle era já então dono de uma imensa fortuna, graças à sua posição na empresa Matra (com considerável sucesso no automobilismo). Por essa altura, gastava essencialmente o seu dinheiro na grande paixão da sua vida, os cavalos de corrida. Mas o futebol também lhe tocava na alma e na cidade-luz de Paris não havia uma equipa que apoiar. O PSG vivia a sua primeira década, rodeado de incertezas, e a ideia começou a matutar na mente do empresário. Quatro anos depois comprou o quase extinto Racing Club Paris, um dos primeiros grandes do futebol gaulês que tinha caido praticamente no anonimato nos anos do pós-guerra. O clube estava na Ligue 2, lutando por sobreviver. Lagardére colocou o dinheiro à disposição da direcção com um objectivo claro: fazer do Racing um colosso europeu.

Começou assim a subida ao céu do clube azul e branco. O presidente conseguiu o apoio da Matra e mudou oficialmente o nome do clube para Matra Racing Club, o primeiro caso de uma instituição desportiva europeia que viu o seu nome alterado para incluir uma designação comercial. Um nome que se assemelhava, e muito, ao já usado pela empresa na sua etapa na F1 e que levantou suspeitas sobre o real interesse de Lagardére num negócio com muitos "ses". O projecto, no entanto, começou a dar os seus frutos. Em 1986 o clube venceu o titulo da segunda divisão do futebol gaulês e chegou, pela primeira vez em largas décadas, à elite. Era preciso dinheiro para permitir ao Matra - então alvo de uma imensa campanha de marketing nas revistas e jornais do grupo Hachette - competir com os maiores da época (o Bordeaux de Jacquet, o Marseille de Goethels ou o Monaco de Wenger). E com o dinheiro chegaram as estrelas.

 

Recém-coroado campeão europeu, o português Artur Jorge foi o primeiro a ser seduzido pela ambição de Lagardére.

Trocou a cidade do Porto pelo conforto de uma vida de luxo em Paris com um recorde milionário para qualquer treinador à época. O objectivo era vencer a prova que o tinha coroado num prazo de quatro anos e para tal chegaram ao modesto Stade des Colombes, nomes à altura. O alemão Piere Litbarski e o uruguaio Enzo Francescoli juntaram-se aos gauleses Pascal Olmeta, Luis Fernandez ou um jovem David Ginola. Mais tarde chegariam ainda o holandês Sonny Silooy, o uruguaio Ruben Paz e o camaronês Eugene Ekéké.

Artur Jorge pediu tempo para formar um onze ganhador - ainda estavamos na época em que só podiam jogar três estrangeiros - mas os resultados demoraram demasiado em chegar. A meio da temporada 1987/1988, o Racing Matra andava perdido na segunda metade da tabela, apesar do talento indiscutivel dos seus artistas, particularmente Francescoli, que confirmou as suspeitas que tinha deixado ao serviço da selecção do Uruguai e que mais tarde inspiraria a Zidane. A segunda volta foi bastante melhor, com a equipa a trepar até ao sétimo posto mas, mesmo assim, fora das provas europeias e a onze pontos do primeiro lugar. O dinheiro de Lagardére começou a desaparecer e os ingressos das bilheteiras do diminuto estádio parisino (7 mil pessoas) e do contracto televisivo eram insuficientes para arcar com os salários principescos das principais estrelas. Artur Jorge partiu (ele que voltaria a Paris para cumprir o seu sonho de campeão com o PSG dois anos depois) e o director desportivo, René Hause, tomou o seu lugar. Mas sem dinheiro, também Francescoli e Litbarki se foram, sem deixar grandes saudades, para brilhar em Marselha e Colónia, respectivamente. E a equipa ressentiu-se em demasia. O projecto começou a desmoronar-se e a equipa terminou a época seguinte num decepcionante 17º posto, salvando-se por um golo da despromoção. Para a Matra e para o seu presidente, era demais. Lagardére demitiu-se, vendeu a sua parte do clube e levou a Matra consigo, deixando o clube em estado de bancarrota. Os melhores jogadores da equipa saltaram do navio em movimento e apesar de ter chegado à sua única final da Taça em 1990, rapidamente a equipa caiu nos escalões do futebol amador francês, onde ainda milita. O dinheiro de Lagardére foi desviado para a France-Galop, empresa especializada em desportos hipicos e nunca mais se aventurou no mundo do futebol.

 

 

 

O projecto do Matra Racing Paris é um aviso a navegantes. Hoje, num mercado mergulhado em negócios obscuros e milionários que entram e saiem com demasiada facilidade, a nefasta gestão do pequeno clube parisino que quis dar um passo maior que a própria sombra podia transferir-se a um qualquer desses clubes com gestões milionárias. O fracasso do Portsmouth inglês, as dividas de West Ham United, o quase desaparecimento do Deportivo Alavés são apenas reflexos desse episódio. Quando o dinheiro quer comprar o sucesso, muitas vezes o único que acaba por conseguir é comprar o fim...lenta e dolorosamente.



Miguel Lourenço Pereira às 21:12 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Terça-feira, 18.01.11

Camisola fora dos calções para esconder a barriga. Olhar perdido no coração do tapete verde. Ar cansado. E, de súbito, um toque genial, um golpe de esforço, uma pitada de mestria e et voilá! Assim funcionava o homem que pautou o ritmo do futebol europeu durante grande parte dos anos 80. Quando viu que o fisico não lhe permitia aguentar as exigências do novo futebol, disse adeus. Atrás de si, a glória de uma era. E poucos que se lembravam da sua inoportuna barriga de sofá...

 

 

 

Giovanni Trapattoni berrava, vezes sem conta, a cada jogo da sua super-Juventus.

Durante meia década, os bianconeri foram a equipa italiana por excelência. Em titulos e estilo de jogo eram intocáveis e só nos palcos europeus pareciam ter dificuldades em impor a sua hegemonia. Mesmo assim, durante três anos consecutivos, marcaram presença em três finais. E só perderam uma, uma triste noite em Atenas. A cada jogo, "Il Trap" gritava sempre para o mesmo jogador. Pedia-lhe que corresse, que fechasse espaços, que ajudasse. Mas, a maioria das vezes, gritava em vão. Subitamente, o mesmo pequeno homem de orelhas quentes, arrancava com a bola nos pés e fazia magia. Decidia jogos, épocas. Era assim Michel Platini.

Fisicamente foi o último simbolo de uma era que desprezava a prepração fisica, cada vez mais importante à medida que os anos 80 vão abrindo passo à era do futebol de pressão total. Platini detestava treinar, detestava fazer exercicio e nunca conseguiu, ao largo da sua carreira, esconder uma visivel barriga pouco habitual num desportista de elite. Soltava a camisola, sempre justo e por dentro dos calções até então, para dissimular. Mas nunca conseguiu deixar o vicio do cigarro antes, durante e depois dos jogos. Nem as celebres jantaradas que Il Avvocato, Gianni Agnelli, fingia que não via, nas noites de Turim. Porque no terreno de jogo o pequeno Napoleão respondia. Não corria, para isso estavam os outros dizia sem pejo, mas decidia. Foi Capocanonieri três anos consecutivos. Muito para um número 10 que jogava ao lado de Boniek e Rossi. Foi o herói das grandes noites do clube. Livres directos executados à perfeição, penaltys nunca falhados mesmo quando a tensão era máxima, sprints endiabrados que deixava qualquer defesa de mãos na cabeça. Para Michel tudo servia. Tudo para maior glória. A sua.

 

Com a Juventus, por quem assinou em 1982 depois de se ter tornado na grande figura de um Mundial ganho, precisamente, por uma Itália repleto de jogadores da Vechia Signora, venceu tudo. Duas Serie A - com um intervalo pelo meio, cortesia do Hellas Verona de Preben Elkjaer Larsen - uma Copa di Italia, uma Taça das Taças (numa histórica final contra o FC Porto), 1 Taça Intercontinental (na sua noite mais brilhante, frente ao Argentinos Juniores), 1 Supertaça Europeia e a tão ansiada Taça dos Campeões. Nessa noite, no Heysel Park, os dois maiores artistas de ambos conjuntos, Platini e Dalglish, abraçaram-se. E perceberam para onde o futebol caminhava. Dois anos depois, ambos tinham, precocemente, pendurado as botas. Mas o francês tinha um curriculum invejável.

De 1983 a 1985 venceu de forma consecutiva três Ballon´s D´Or. O último em lográ-lo. E se muitos acusavam a publicação gaulesa France Football de chauvinismo, esquecendo-se de que eram os correspondentes nacionais que votavam,e não os jornalistas franceses, basta olhar para esses três anos e pensar no que se passava no panorama europeu de futebol. Principalmente naquele ano de 1984 em que Platini fez com a França o que Maradona emularia, dois anos depois, com a Argentina. Vencer uma prova praticamente sozinho.

O seu Euro 84 foi demoniaco. Marcou em todos os jogos, desde o encontro inaugural com a Dinamarca até à final e àquele golo mal sofrido por Arconada. Foi o melhor marcador do torneio e emendou-se depois daquela deprimente meia-final com a RF Alemanha no Bernabéu, dois anos antes. Alemanha que seria a sua carrasca dois anos depois em México. Três dias antes Platini falhara o primeiro penalty da sua carreira. Mas a França seguia em frente. Durante os 90 minutos o seu golo, frente ao Brasil romântico de Sócrates e companhia, tinha sofrido o seu último golo internacional. Ele que em 1978 se tinha estreada a marcar pela França frente à futura campeã, a Argentina. Era a época do Nancy, o seu primeiro grande amor. Depois chegou o Saint-Ettiene e a consagração gaulesa. Seis anos como simbolo máximo da Ligue 1 antes de aterrar no Calcio das estrelas. Em 1987, vendo como chegava o AC Milan de Sacchi e como brilhava o Napoli de Maradona, a Roma de Voeller e o Inter de Mathaus, o pequeno génio entendeu que já não podia esconder um fisico que não lhe permitia exibir-se ao mais alto nivel. E retirou-se, com uma simplicidade assombrosa, num jogo de estrelas frente ao seu grande rival individual da época, o inimitável Maradona.

 

 

 

Durante seis anos Michel Platini foi um jogador inigualável nos palcos europeus. A imprensa mediática nunca lhe deu a devida importância talvez porque metade do tempo elogiava o talento de Maradona e a outra metade criticava o estilo da Juve de Trapatonni. Foi o mentor do futebol-champange e exprimiu o melhor do futebol de toque curto na era que terminou com o dominio do futebol directo do norte da Europa. Inigualável nos relvados, falhou como técnico e emendou a mão como directivo. Agora na UEFA, é igual a si próprio. A barriga continua lá, maior ainda. O génio que brotava com tamanha facilidade das suas botas provavelmente também. Tudo em Platini tem um suave toque de mestria. E de pura eternidade...



Miguel Lourenço Pereira às 14:26 | link do post | comentar

Sábado, 08.01.11

O futebol europeu arrancou durante os anos 90 debaixo de um imenso feitiço de sedução. Chamaram-lhe Dream Team em homenagem à equipa norte-americana de basket que ali se coroou no inesquecível verão de 92. Meses em que era impossível passar um dia sem se ouvir ecoar na memória a palavra Barcelona. Mas o mito de Cruyff, a lenda que se seguiu, tem, como toda a épica lendária, uma forçosa reflexão a ser feita, capaz de quebrar uma mitologia consensual e enganadora.

 

 

 

Naquela quente noite de Atenas o Dream Team morreu. Desmoronou-se em mil pedaços. Perdeu toda a essência.

E ficou a nu toda a debilidade de uma equipa que durante quatro anos se tornou a inveja do Mundo. Da mesma maneira que ascendeu ao Olimpo, caiu pela montanha rasgada do Partenon. O conceito perduraria, a imprensa europeia trataria disso, e hoje o Pep Team procura resgatar a respeitabilidade que significa ser herdeiro de Cruyff e companhia. Mas que herança é essa? Como nasceu essa ideia de perfeição chamada "Dream Team"?

Para muitos está nos titulos. Quatro ligas consecutivas (histórico no que ao Barcelona diz respeito), a primeira Champions League da história (tão pouco para um clube tão grande) e vários titulos domésticos ganhos aos rivais de Madrid. Para outros era o modelo de jogo. Esse espirito ousado de atacar sem olhar a consequência, esse jogo de toque e resposta, rápido, eficaz e certeiro. Esse amor pelo risco que destoava totalmente do espirito conservador de um mundo futebolistico acabado de sair do traumático Itália 90. E haverá sempre quem aponte o dedo às pessoas. Ao "visionário" Johan Cruyff, esteta como técnico como era como jogador, ao seu fiel escudeiro Rexach, portador do espirito catalão, ou à tropa de artistas encarregados de pintar a obra: Stoichkov, Romário, Laudrup, Salinas, Zubizarreta, Bakero, Alexanko, Eusebio, Beguiristain, Nadal, Ferrer, Sergi e Guardiola, sobretudo, Pep Guardiola.

Esses condimentos estavam lá, foram reais e únicos. O Barcelona foi, de facto, a equipa que mais belo futebol praticou entre 1990 e 1995 no continente europeu. Um futebol atractivo para o público televisivo que começava a tomar contacto com novas realidades e maior exigência. Era a resposta ao dominio sufocante do Real Madrid em Espanha e da Serie A na Europa numa era em que a Premier League, a recuperar do trauma de Heysel, dava ainda os seus primeiros passos. Era uma equipa com uma táctica diferente, uma camisola diferente e um ritmo de jogo endiabrado. A lenda, como diria John Ford, faria o resto e suplantaria a realidade.

 

Verdadeiramente o Dream Team era um projecto repleto de importantes falhas que foram escondidas habilmente durante quase vinte anos.

Olhando para trás no tempo é dificil acreditar que há ainda quem pense naquele como o melhor Barcelona da história. Não só pelos logros actuais do Pep Team, uma versão actualizada e aprimorada do conceito cruyffiano, bastante mais coerente e perfeccionista. Mas sobretudo pela mágica geração de 50 que os catalães aprenderam a esquecer quando surgiu Di Stefano vestido de branco. O conjunto que Cruyff orientou durante quase uma década teve o seu momento mais alto na noite de 20 de Maio em Wembley. Mas mesmo essa noite, a da consagração, explica muito dos fantasmas que rodeiam o adorado conjunto culé.

Cruyff era um excelente jogador, o melhor talvez no seu posto, e como técnico tornou-se numa das figuras mais consensuais e sobrevalorizadas da história recente do futebol europeu. Chegou a um Barcelona em crise, devastado por mais um tropeço europeu com Terry Venables e em combustão interna entre os jogadores e a direcção do autoritário Josep Luis Nuñez. Ao contrário do que se pensa não havia praticamente catalães naquela equipa. E os que havia eram maus demais para aguentar. O holandês, que como jogador tinha feito história durante um ano (e vivido à sombra dela nos seguintes), exigiu investimentos. Trouxe os melhores (excepto os que militavam no eterno rival de Madrid) e perdeu três anos a moldar um sistema de jogo original. Um 3-4-3 elástico, que apostava nas transições rápidas e no futebol de toque curto e asfixiante até inebriar o rival. E levá-lo a ceder. O truque estava no trabalho de meio-campo que devia suportar uma defesa mais débil e um ataque com mais liberdades do habitual num futebol cada vez mais rigidio e organizado. Com essa ideia, os médios deveriam, tal como na Holanda de 74, surgir muitas vezes como os finalizadores. Para isso era determinante que fossem jogadores de alto nível. O técnico contratou José Maria Bakero, Michael Laudrup e lançou para a ribalta um escanzelado Josep Guardiola, a quem juntou o outro catalão de serviço, Guillermo Amor. Os quatro eram a medular de uma equipa que aproveitava a visão de jogo de Guardiola para apostar igualmente em laterais ofensivos (Ferrer e Sergi), recuando o centro-campista no apoio directo a Miguel Angel Nadal, único central inicialmente. Rapidamente acompanhado por Ronald Koeman e Andoni Zubizarreta (outras apostas pessoais do técnico), o sector defensivo passou a ser o primeiro elemento de apoio ofensivo, onde brilhavam Stoichkov, Beguiristain e Salinas. O último acabou por pagar cara a sua indolência e falta de mobilidade sendo substituido por outra compra milionária, o brasileiro Romário.


Esse Dream Team desmentiu a origem do conceito de jogo da Masia, tão defendido (e tão real) hoje em dia por uma verdadeira constelação de compras anuais que iam melhorando, a olhos vistos, a equipa. Nos dois primeiros anos o Barcelona venceu apenas uma Copa del Rey, ficando a anos-luz de Madrid e Atlético e uma Taça das Taças, em 1989, frente à Sampdoria. Mas dois anos depois, numa nova final da Taça das Taças e contra outro projecto a dar o seu arranque, o Manchester United de Ferguson, a equipa espanhola não aguentou o ritmo inglês. A ideia ousada de Cruyff era falivel. Mas faltavam nessa noite algumas das peças chave dos sucessos posteriores.

 

De 1991 a 1994 a história é de sucesso. Mas com interrogações.

O Barcelona venceu quatro ligas consecutivas mas ao contrário da primeira época, onde o dominio foi absoluto, as restantes foram autenticos sufocos, ganhos no último suspiro. Duas contra o Real Madrid, no mesmo cenário, Tenerife. Em ambos os casos os merengues lideravam a classificação. Em ambas as tardes perderam diante do conjunto canário oferecendo de bandeja os titulos à equipa de Cruyff. O quarto caso foi ainda mais dramático. O Deportivo la Coruña liderou quase durante toda a época e na jornada final precisava apenas de um empate frente ao Valencia. Perdia por 1-0 quando, no último minuto, um penalty colocou tudo em suspenso. Bebeto, o marcador habitual, escondeu-se da responsabilidade e o central Djukic rematou sem alma, falhando. O Barça ganhou ao Sevilla e conquistou o Tetra. Sem entender bem como, uma vez mais.

Pelo meio ficavam as sensações mixtas de uma equipa capaz de vencer por 5-0 no Bernabeu e depois perder por 6-0 diante de um Logroñes. Altamente irregular, o conjunto de Cruyff tinha um problema de esquizofrenia táctica. Uma defesa demasiado débil (que levou muitas vezes o técnico a apostar num 4-3-3, base do modelo actual de Guardiola), um ataque que tinha tardes de desesperante ineficácia e, acima de tudo, um problema com os estrangeiros. Numa época em que só podiam jogar três, a equipa contava com quatro jogadores de classe Mundial. O holandês fez de Koeman e Romário as peças chave e foi alternando entre Stoichkov e Laudrup. O dinamarquês, peça desiquilibrante no miolo, saiu desgostado. Para liderar a revolta merengue. Antes tinha sido o farol da grande noite europeia frente à Sampdoria, equipa que dominou grande parte do jogo mas não conseguiu marcar. Uma vez mais a sorte protegeu os culés, depois do golo épico de Bakero frente ao Kaiserlautern, que evitou uma precoce eliminação meses antes. A mesma sorte não teve o conjunto blaugrana nas outras duas edições do torneio. Em 1993 a equipa nem chegou à fase de grupos, eliminada pelo CSKA Moscow nos Oitavos de Final. Foi o culminar de um ano negro depois do festival futebolistico aplicado pelo São Paulo de Raí numa histórica final da Taça Intercontinental. Um ano depois, em 1994, os culés voltariam à final. Foi aquela noite de 18 de Maio. Aqueles quatro golos deixaram a nu todos os aspectos negativos do conjunto blaugrana. A fragilidade defensiva com as bolas nas costas da defesa, a inoperância ofensiva, a ausência de um criativo, o sacrificio de Guardiola e, sobretudo, a incapacidade de Cruyff, que nunca soube reagir à teia de Capello. Foi o fim. A alcunha ficou, o prestigio também, a admiração não se esmoreceu. Mas os factos eram claros.

 

 

 

No ano seguinte Laudrup, o despeitado, liderou a revolta do Real Madrid com 5-0 incluido no pacote. Na Europa o conjunto catalão repetiu, pela enésima vez, erros do passado. Superado no Grupo pelo IFK Goteborg, o Barça sofreu a humilhação de cair nos Quartos frente ao PSG francês. O ano seguinte, já sem estrelas, foi mais negro ainda e o holandês foi despedido e anunciou a sua posterior retirada passando a viver da honra e glória perdida. Tacticamente pouco inovador, o conceito de Cruyff era apenas uma variação da táctica criada nos anos 70 por Michels. Aprimorada por Guardiola (que aprendeu muito daquela noite em Atenas), a filosofia do "Futebol Total" continua a ser o santo e senha no Camp Nou. Mas se o mito consolidou o Dream Team como a equipa perfeita, a verdade é que o espelho apresenta muitos riscos e falhas para não passar por um subtil engano. A grandeza da lenda está, precisamente, na forma proporcional como se afasta da realidade. Aquele Dream Team era mágico. Tão mágico como frágil. Como todos os castelos de cartas, acabou por cair.



Miguel Lourenço Pereira às 11:58 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 05.01.11

Na época em que o futebol inglês renascia sob o génio e pena de maestros como Charlton, Law, Best, Ball ou Greaves, a swinging Londres vibrava com a eficácia espantosa de um jovem dianteiro que durante mais de uma década foi o avançado mais prolifero da capital. Heroi da final de 66, principe de Upton Park, guerreiro de White Hart...Martin Peters foi o rei de Londres.

 

 

 

Houve poucos goleadores tão graciosos e certeiros na história do futebol britânico como Martin Peters.

A sua carreira durante quase duas décadas, periodo em que se destacou como um voraz animal de área, predador de rapina, certeiro em todos os momentos. Abriu caminho ao serviço do West Ham United e tornou-se num dos rostos mais conhecidos do popular conjunto londrino na sua década de ouro. Com os Hammers marcou em dez anos um total de 81 golos em 300 jogos, desde a sua aparição pela célebre Academia Hammer em 1959 até ao seu establecimento como titular indiscutivel ao lado de "monstros sagrados"  como Bobby Moore e Geoff Hurst três anos depois. O seu ano de 1965 foi de tal forma categórico que o conservador Alf Ramsey não duvidou em chamá-lo ao lote de mundialistas ingleses que se preparavam para disputar o Mundial de 1966 em casa. A lesão do avançado Jimmy Greaves permitiu ao técnico inglês colocar em práctica um novo modelo táctico que há vários meses tinha ideado, com Charlton como falso ponta de lança por detrás da dupla de ataque de Upton Park. Peters foi colocado na linha de médios interiores com Allan Ball atrás de Hunt e Hurst. O modelo táctico, aplicado depois dos dois empates iniciais dos ingleses foi fulcral para a conquista do ceptro Mundial. No derradeiro duelo, contra a Alemanha, Peters apontou o 2-1 que parecia que daria o titulo aos locais. O empate nos derradeiros instantes de Weber adiou tudo para o prolongamento. O falso extremo voltou a ser fundamental na sua associação demoníaca com Ball, que centrou a bola para Hurst rematar à meia volta. O golo mais polémica da história do futebol virou o curso do jogo e da tarde e coroou o jovem dianteiro como um dos mais precoces campeões do Mundo da história. Tinha entrado no Olimpo.

 

Os quatro anos seguintes confirmaram Peters como um dos jogadores mais decisivos da 1st Division.

Com os seus colegas de selecção passou a ser um dos jogadores mais aplaudidos nos relvados ingleses e no auge da sua forma surgiu o Tottenham com uma oferta histórica então e o dianteiro trocou o West Side por White Hart Lane. O valor, 200,00 libras, fez história e marcou também o fim da carreira de Greaves - que trocou com Peters - ao serviço do Tottenham. Peters, como seria de esperar, marcou no jogo inaugural com a camisola branca e durante cinco anos passou a ser a máxima referência do jogo ofensivo dos Spurs. Nesse mesmo Verão de 70 voltou a brilhar com a camisola da Old Albion e frente à Alemanha, no encontro dos Quartos de Final, marcou dois golos, colocando os campeões do Mundo à frente do marcador por 2-0. Então Alf Ramsey cometeu um dos maiores erros tácticos da história, substituindo Peters e Charlton. A RF Alemanha agradeceu o gesto e deu a volta ao marcador. Peters saiu prestigiado e passou a ser capitão do conjunto inglês depois de Charlton e Moore terem anunciado a retirada após o torneio. Não voltaria a uma grande prova internacional já que a histórica Inglaterra passou os dez anos seguintes longe dos grandes torneios.

Em 1972, depois de vencer a League Cup, o dianteiro foi fundamental no duelo britânico frente ao Wolverampton Wanderers que deu ao Tottenham a sua primeira UEFA Cup, marcando nos dois encontros.

Em 1973 assinou um histórico poker em Old Trafford, no jogo que confirmou o fim da carreira de George Best e Bobby Charlton, que anunciariam pouco depois a retirada definitiva do futebol. No ano seguinte foi a vez do dianteiro abandonar White Hart Lane após perder a final da Taça UEFA contra o Feyennord holandês, num dos jogos mais polémicos da década. O jogo foi o último de Peters com a camisola branca. Trocou Londres por Norwich onde rematou os últimos dois anos da sua goleadora carreira antes de um curto periodo ao serviço do Sheffield United confirmar o que todos já sabiam. Foi aí mesmo que Peters trocou os relvados pelos bancos mas a sua carreira como técnico não foi tão prolifera como a de futebolista. Desencantado com o rumo do clube, trocou o futebol por um posto de executivo numa seguradora onde trabalharia nos vinte anos seguintes, afastando-se definitivamente do beautiful game, apesar das tentações regulares que lhe chegavam dos seus anteriores clubes para que colaborasse com eles nos seus projectos desportivos.

 

 

 

Jogador de um imenso talento criativo, Peters foi um dos primeiros falsos noves a brilhar no futebol inglês. Não era um dianteiro à moda antiga, como o seu colega Hurst nem um futebolista tão completo como o imenso Charlton. Mas desiquilibrava um jogo como poucos e ao serviço da selecção inglesa tornou-se num dos icones do futebol britânico da década de 60. Foi um atleta de excepção e um gentleman, dentro e fora dos relvados. Adorado por todos, apreciado por muitos, é ainda hoje é dificil encontrar um jogador tão entusiasmante capaz de herdar uma camisola que entrou para os anais da história do futebol inglês.



Miguel Lourenço Pereira às 14:24 | link do post | comentar

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Savicevic,o Principe dos ...

El Maestro de La Maquina

O Queso Mecânico

Arrivederci Pinturrichio

Streltsov, O heroi do Gul...

Alavés, o reverso dos con...

O voo dos Canários

Quando o Schalke 04 defin...

Os demónios do Luigi Ferr...

De Bilé a Deus

Últimos Comentários
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Ya existe Avenida Eusebio, Estadio da Luz; NO EXIS...
¡Suerte....!
Bom dia,Esta é para informar o público em geral qu...
Posts mais comentados
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO