Sexta-feira, 13.09.13

Diego na Liga. Iker na Champions. O ridículo voltou a tomar conta do Santiago Bernabeu. Durante o defesa a imprensa espanhola - que afiou as espadas e cheirou o sangue do reinado de Mourinho - transformou a Carlo Ancelloti no mais celebrado dos novos treinadores merengues. No primeiro jogo a sério levaram uma decepção. Durou pouco a resistência do italiano. Ao contrário do português, e como tinha feito no passado, Carlo cedeu e deixou-se dobrar pela importância mediática de Casillas e a imprensa de Madrid. O binómio que realmente governa o clube.

Mourinho sempre foi um mal-amado.

No dia em que se cansou das filtrações e dos comentários de Casillas, relegando-o para o banco em Málaga, o mal-amado transformou-se no odiado. Durou meio ano no cargo. A falta de resultados é o principal motivo da sua saída do Bernabeu. Uma meia-final perdida depois de um jogo em Dortmund penoso. Uma liga que desde Novembro já era impossível com um rival habituado a não perder pontos com regularidade. E uma taça transformada em troféu relevante do nada para depois ser ganha pelo maior rival em plena Castellana. A realidade foi bem diferente. Mourinho saiu de Madrid porque tinha perdido o balneário. Porque a imprensa tinha ganho o braço-de-ferro. Outra vez.

A filtração regular de noticias do balneário tinham provocado já a irritação do português que despediu do cozinheiro a Valdano todos os que considerava que estavam a minar o seu trabalho autoritário. Mas havia noticias que só podiam ter sido filtradas pelos jogadores. Procurou o culpado e ano e meio depois encontrou-o. Era Iker Casillas. E o seu grupo dentro do balneário, composto essencialmente por internacionais espanhóis e alguns jogadores estrangeiros com mais anos de casa. Jogadores que garantiam que jornais como a Marca ou o As podiam citar conversas integras e exactas nos treinos fechados à imprensa em que se tornava palpável que o ambiente distava de ser amigável. Quando os capitães pediram ao presidente para ter uma reunião sem o treinador, exigindo que ou saiam eles ou saia ele, o seu destino estava traçado. Mourinho afastou Casillas, primeiro por Adán e depois por Diego Lopez - contratado em Janeiro. Pelo meio já tinha dado reprimendas públicas a Sérgio Ramos, o outro peso-pesado do balneário com quem não tinha relação nenhuma. A lesão de Casillas facilitou as coisas a Diego Lopez. Quando o titular habitual e campeão do mundo voltou teve de suportar um mês e meio de banco. Mourinho foi inflexível. Mas Casillas sabia que as suas horas estavam contadas e que a partir de Agosto tudo seria como antes.

 

Então chegou Ancelloti.

A imprensa espanhola recebeu-o como o "Pacificador", o homem que ia voltar ao status quo. Trataram-no como um rei, relembrando sobretudo que um homem que tinha colocado em campo onzes escolhidos por Berlusconi e Abramovich não seria difícil de lidar por Florentino Perez - desejoso de impor mais uns galácticos ao treinador de turno, depois de três anos em que Mourinho controlou o mercado de transferências - e com os pesos pesados do balneário. Mas no primeiro jogo a sério, Casillas foi suplente. E Diego Lopez continuou a demonstrar ser um brilhante guarda-redes. Espanha parou. Então não era suposto voltar a ser tudo como antes?

A resistência de Ancelloti, louvável, foi de curta duração. Um mês para ser mais preciso.

O técnico manteve a confiança em Diego Lopez até à paragem para os compromissos internacionais. A imprensa voltou a cumprir o seu papel. Começaram a sair sondagens sobre o apoio dos adeptos a Casillas, a ameaças suas em sair do clube onde se formou para reforçar o Barcelona ou o Manchester United. Os seus jornalistas de bolso, os mesmos que trabalham diariamente com a sua companheira, cumpriram a sua missão e minaram uma vez mais a opinião pública contra o técnico e Diego Lopez. O golpe de misericórdia foi aplicado por Del Bosque. O seleccionador espanhol não convocou Lopez - como tinha sucedido na Taça das Confederações - e colocou Casillas a titular no jogo contra a Finlândia, apesar de levar três meses sem um jogo oficial nas pernas. Mesmo com Valdés numa forma irrepreensível a mensagem ficou. Casillas joga por decreto, seja onde for. Ancelloti percebeu o sinal.

O técnico italiano tinha tido um mês para perceber que arrancar o ano com três vitórias era insuficiente se a imprensa se posicionasse contra a sua gestão. Atacado pela saída polémica de Ozil, com o problema de combinar no mesmo onze Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, juntamente com Isco, Benzema, Modric, Di Maria, Khedira, Xabi Alonso (entretanto lesionado), Illarramendi e Casemiro, o menos que precisava era de um debate diário na baliza. Ancelotti rendeu-se e declarou que Casillas era o guarda-redes para os jogos da Champions League. Uma rotação inédita nas suas opções - e na história do clube e dos principais emblemas europeus - que não é mais que um aquecimento prévio até que Casillas se torne, definitivamente, no guarda-redes titular. Lopez tem a batalha perdida e sabe-o. Mas cairá de pé enquanto a sombra do jogador preferido dos espanhóis o engole.

 

Casillas será o titular e tudo estará bem. Regressarão os artigos elogiosos à gestão de balneário de Ancelotti, os pesos-pesados do balneário deixarão de filtrar histórias comprometidas e Florentino Perez deixará de receber perguntas incómodas sobre um jogador que nunca quis mas que também nunca soube dominar. Casillas, como antes dele Guti e Raúl, foi acusado ao longo dos anos por vários treinadores e ex-jogadores de ser um problema no balneário do Real Madrid pelo seu excessivo peso mediático e contactos com a imprensa. Sobreviveu a Capello - que preferia Lopez - a Mourinho e prepara-se agora para sobreviver a Ancelotti. Demonstrando uma vez mais que em Madrid não manda o presidente, não manda o treinador e não mandam os adeptos. O Real continua a ser um clube governado pelos jogadores e a imprensa. E assim seguirá!



Miguel Lourenço Pereira às 20:12 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 30.01.13

Quando Johan Cruyff despediu Zubizarreta no aeroporto de Atenas, depois da humilhante derrota contra o AC Milan de Capello, seguramente não imaginava que teria de passar uma década até que o Barcelona encontrasse um guarda-redes capaz de interpretar perfeitamente a sua filosofia de jogo. Os adeptos blaugrana esperam agora não ter de esperar uma década mais até que Victor Valdés tenha sucessor. Porque o seu papel no modelo Barça é fundamental.

 

Quando Valdés erra, com os pés, a maioria dos adeptos e analistas activa de imediato o modo crítico.

Esquecem-se, talvez, que o catalão é um dos poucos guarda-redes do Mundo que utiliza os pés mais do que as mãos. É isso que se lhe exige, foi para isso que foi treinado desde pequeno. Valdés é o sucessor mediático de Grosics, o polémico e incendiário guarda-redes húngaro da Aranyascap orientada por Gustav Sebes. Quando os ensinamentos da escola danubiana viajaram, primeiro para Amesterdão e depois para Barcelona, a ideia de um guarda-redes capaz de jogar com o resto da equipa vinha na mala. E ficou.

Ao contrário dos guarda-redes sul-americanos, que com os pés desafiam a sua natureza e sonham com algo mais que só o sonho potrero pode aspirar, Valdés utiliza os pés com critério. O mesmo critério que todos os outros colegas de equipa e, tantas vezes, superior ao de muitos rivais. Numa equipa de tracção à frente, que concede poucas ocasiões, o trabalho do guarda-redes é fundamental. Valdés foi herói em Paris, quando Henry teve a Champions League no bolso. Foi também fundamental em aguentar o assédio do Manchester United em Roma, até que a combinação Iniesta, Xavi e Messi começou a funcionar. E durante estes últimos dez anos foi o único guarda-redes que soube compreender a natureza da baliza do Camp Nou. Entre o basco Zubizarreta e ele passaram uma infinidade de guarda-redes, todos de características muito distintas mas com um ponto em comum: nenhum sabia manejar bem a bola com os pés.

Nem Vitor Baía, nem Ruud Hesp, nem Roberto Bonano, nem Francesc Arnau, nem Robert Enke, nem sequer Pepe Reina, forjado na mesma filosofia, entenderam tão bem como Valdés o que lhe era exigido. Ser o primeiro a fazer jogar.

 

Guardiola defendeu sempre Valdés como peça nuclear do seu modelo de jogo.

Não só porque sabia sair a jogar com os pés, oferecendo o homem extra na defesa que ele sacrificava para enviar ao ataque. O seu 3-3-4 às vezes tornava-se num 4-3-4 porque Valdés subia no terreno e oferecia uma alternativa de passe extra ao jogador com a bola. Os colegas sabiam que podiam confiar nele. Errou. Algumas vezes errou. E por ser o guarda-redes, o último homem à face da terra, a equipa pagou o preço. Mas não abdicou da sua forma de jogar. Não por um erro, nem por mil.

Muitos criticaram o técnico catalão pela sua fidelidade a Pinto - um guarda-redes bem distante da escola blaugrana mas peça fundamental no balneário - ao fazê-lo jogar a final da Copa del Rey que Cristiano Ronaldo decidiu com um golpe de cabeça impossível a favor do Real Madrid. Mas nesse momento a transcendência de Valdés não se notou no golo sofrido mas sim nos problemas que os catalães encontraram ao sair com a bola controlada. Na semana seguinte, Valdés voltou a demonstrar a sua inteligência de jogo, não saindo com a bola controlado mas com um lançamento longo preciso que leu o desmarque de Pedro com a mesma inteligência de jogo que um passe de Xavi teria tido uns metros à frente. O Barcelona marcou e fechou a polémica meia-final da Champions League. Seria a terceira medalha ao peito do guarda-redes, o mais laureado dos guarda-redes espanhóis em provas da UEFA.

Dez anos depois de van Gaal lhe ter dado a primeira oportunidade, Valdés está farto.

Sofreu a pressão dos maus anos de Rijkaard, nunca conquistou definitivamente a admiração do próprio público, o mesmo que duvidava do valor de Xavi e Iniesta antes da chegada de Guardiola, e não gostou sobretudo de ter sido o bode expiatório das derrotas e o nome silenciado nas vitórias. É um homem de desafios extremos, amante do surf e dos desportos radicais, filho de uma geração da Masia que, salvo ele, não triunfou como se esperava. Antes dele já estavam Puyol e Xavi, logo a seguir veio Iniesta, Messi e companhia, mas ele surgiu sozinho. E sozinho vai partir. Deixará saudades e sobretudo um vazio que os directivos ainda não sabem como preencher. Porque, fiel à sua formação, é um guarda-redes único. Na cantera blaugrana há jovens com potencial mas que precisam de muitos anos e minutos para chegar à excelência que este projecto exige. E no mercado não deixa de haver grandes guarda-redes, como Vitor Baía o foi, mas cujo o valor fica para segundo plano quando a exigência de enquadrar-se num esquema já custou tanto a Ibrahimovic ou Villa, no outro extremo do terreno de jogo.

 

Valdés nunca se consagrou como o grande guarda-redes espanhol porque a sombra de Casillas é imensa e incontestada. Mas o seu percurso profissional é um exemplo perfeito de como uma filosofia de jogo é capaz de gerar jogadores para posições distintas mas com o mesmo ADN. Qualquer que seja o clube que o receba, terá um reforço radicalmente diferente à sua forma de jogar. Qualquer que seja o seu substituto, perderá sempre na comparação com a essa entrega ao projecto Barça. No final, Valdés e o Barcelona estão feitos um para o outro e a separação, como sucedeu com Lennon e McCartney, trará mais problemas a ambos do que soluções.



Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Sexta-feira, 10.08.12

poucos guarda-redes com tanta projecção de futuro actualmente como o alemão Marc-André Stegen. Num país desenhado à base de grandes números 1, desde Tilkowski a Manuel Neuer, o homem que defende as redes do Borussia Monchengladbach é mais um desses nomes para a posteridade. Se a sua equipa entrar na fase de grupos da Champios League, Stegen terá uma oportunidade de ouro para consagrar-se como um dos melhores do continente.

 

Não chegou ao último Europeu, nem como terceira opção de Joachim Low mas ninguém duvida que é o homem do futuro

Apesar da juventude de Neuer e da classe de René Adler, dois dignos rivais, a projecção de futuro de Stegen é inquestionável. Na história do futebol alemão é raro que um guarda-redes se aguente nas redes da selecção absoluta mais do que meia dúzia de anos. Apesar da longevidade daqueles que ocupam a posição nuclear no sector defensivo, isso permitiu aos alemães conhecerem grandes guardiões da mesma geração. Aconteceu com Schumacher e Immell. Com Kopke e Illgner. Com Kahn e Lehman. Com Adler e Neuer. E agora Stegen pede para ser o próximo da lista.

Com 20 anos apenas o futuro é mais do que radiante. São 30 jogos na mais alta competição em dois anos ao serviço do Monchengladbach, período em que fez parte da profunda transformação de um clube histórico numa potência reconvertida. Ao serviço de Lucien Favre, o guardião tornou-se no pilar defensivo de uma equipa que se fez notar pela qualidade do seu ataque com Reus, Camargo, Hanke e Arango. E que acabou por se revelar fundamental na corrida da passada Bundesliga que terminou com um histórico quarto lugar, o melhor posto do clube em três décadas.

 

Com 1m89, Stegen corresponde fisicamente ao estereótipo de guarda-redes alemão.

Imponente, domina a área com uma autoridade inaudita num jogador tão jovem, e a sua capacidade de reacção fez-se notar, sobretudo nos momentos mais complicados da última temporada. Depois de superar definitivamente a concorrência do igualmente promissor belga Logan Bailly, a sua capacidade de liderança ficou evidente no primeiro jogo da época, o seu primeiro duelo com Neuer. O Bayern Munchen, que tinha preferido o ex-número 1 do Schalke 04 ao homem de Monchengladbach, perdeu com um erro da sua nova contratação e Stegen parou tudo o que havia para parar, garantindo o precioso triunfo de 1-0. Foi a primeira de muitas vezes que o guarda-redes salvou a equipa.

Depois do sofrimento da época de estreia, com o duelo nos play-offs que garantiu a manutenção do clube, ter Stegen transformou-se num dos homens da liga levando a maior glória alemã nas redes, Sepp Maier, a compará-lo com Neuer com a substancial diferença da idade que joga a seu favor. Eleito no onze ideal da Bundesliga por vários especialistas, foi abordando por alguns clubes ingleses no mercado de transferências mas deixou claro que o primeiro objectivo é estabeleceres como figura chave em Monchengladbach.

 

Na realidade do futebol alemão, e com o lugar no Allianz Arena reservado para os próximos anos, é difícil ter Stegen encontrar melhor sitio para continuar a crescer. Mas ninguém duvida que, mais cedo que tarde, o protagonismo que agora tem o polémico Neuer passe progressivamente para um guarda-redes que se desvia das polémicas com a mesma facilidade com que desvia remates às redes. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:57 | link do post | comentar

Sábado, 07.07.12

poucos desportistas feitos deste material tão humano e cristalino. Desportistas que não competem para humilhar, para superar records ou para gabar-se de isto ou aquilo. Desportistas que leva bem à letra a ideia que está por detrás de tudo isto que se chamam competir, saber ganhar e perder, sobretudo, saber ganhar. Iker Casillas é uma ave rara num mundo cada vez mais marcado pela cobiça. Apanhado pelas câmaras televisivas, o seu gesto não surpreende quem o conhece mas deixa claro que há mais do que tácticas e sorte por detrás das recentes vitórias do futebol espanhol. Há, sobretudo, um humanismo desportista que deixaria orgulho o próprio Pierre de Coubertin.

Gestos de fair play no futebol contam-se pelas mãos. 

Não falo apenas de deitar a bola fora quando um jogador está lesionado porque isso, além de hoje ser quase obrigatório, é fácil e está ao alcance de qualquer um. A grandeza mede-se por outros actos, outros gestos, outros momentos. Há episódios perdidos no tempo, dos aplausos de Eusébio a Lev Yashin à atitude de Paolo di Canio num mitico jogo com a camisola do West Ham United ao peito. Sempre os houve porque sempre houve desportistas humanos no jogo. Mas eles têm-se tornado aves raras, desconhecidos num bosque onde a cor das chuteiras e os penteados para chamar a atenção, onde a cobiça pessoal e o insulto fácil se tornaram no básico da linguagem futebolistica.

Hoje os grandes idolos de massas são bem distintos aos de há largas décadas atrás. Impera o modelo mediático juvenil, uma etapa da vida onde os conceitos humanos ainda não estão assumidos porque, na maioria das vezes, é preciso viver para entender a vida e miudos de 13 ou 18 anos sabem pouco de desporto e de existir. Para essa esmagadora maioria a fome de recordes, em prejuizo tantas vezes do colectivo, é o importante e eles querem ser Ronaldo, e querem ser Neymar e querem ser Messi, jogadores que tentam disfarçar com agências de comunicação por detrás (um melhor que outro) mas que estão nisto para alcançar a glória pessoal como Aquiles liderava os seus Mirmidões para subir ao Olimpo dos heróis. Para esses nomes, os herdeiros de Pelé e Maradona, o futebol é um duelo contra a história e tudo o que se mete pelo seu caminho é ultrapassável. São os individuos num jogo de massas, são os heróis de papel de barro, aqueles que levaram o cinismo e o pragmatismo onde antes havia um aperto de mão e uma palmada nas costas.

Gritos racistas, insultos, desprezo pelos rivais, tudo isso se vive hoje nos relvados com alarmente naturalidade. Num espaço rectângular onde Iker Casillas deve sentir mais só do que muitos se imaginam.

 

O guarda-redes espanhol é o rosto da nova Espanha.

Se é certo que a selecção espanhola chegava muitas vezes aos torneios internacionais com o papel de favorita ou surpresa, muito desse discurso vinha de dentro, da própria geração de jogadores - que não desportistas - que se esqueciam que para ganhar era preciso algo mais que talento e sorte. Faltava-lhes a humanidade, a mesma que ajudou o Brasil a ser o que é, a mesma que explica os eternos conflitos na selecção holandesa ou portuguesa, selecções onde o eu sempre falou mais alto que o nós. Espanha aprendeu a falar em "nosotros" depois de muito tempo desse asfixiante "yo" e fê-lo com uma geração que nasceu depois da complexa Transicion e que cresceu no meio de um país em mutação politica, económica e social. Sobretudo, moral.

A atitude dos jogadores espanhóis de hoje (e isso é alastrável a outras modalidades) está na base do seu sucesso. Não só a vontade de ganhar sempre, mas sobretudo a forma como procuram a vitória. A humanidade que se sente nesse grupo, desde 2008, é provavelmente um motivo de orgulho maior do que os titulos coleccionados ano após ano. Jogadores como Xabi Alonso, Andrés Iniesta, Fernando Torres, David Villa, Juan Mata, Charles Puyol e, sobretudo, Iker Casillas, são esse espelho reflexo de uma equipa que entende o futebol como um desporto genuino e que procura transmitir na idade adulta a mesma paixão e ilusão que encontramos no olhar de um miudo que chuta a primeira coisa que vê a rolar num pátio ou praça do Mundo. Casillas tem sido o capitão e lider espiritual deste projecto. Mais do que ser o melhor guarda-redes do Mundo, um titulo que divide com Gianluigi Buffon desde há anos sem fim, é sobretudo um capitão moral, sempre com uma palavra de elogio para o rival, sempre com um alerta efusivo para os colegas e sempre com um olho na glória e outro no respeito. Um jogador que não se esquece de aplaudir os adeptos que fazem milhares de quilometros, o jogador que quebra o protocolo para beijar a mulher que ama num momento de genuina naturalidade, um jogador que se nega a entrar em guerras alheias para por em questão amizades antes.

As imagens televisivas falam por si. Onde outros jogadores, outros galardoados com o Ballon D´Or, procurariam os últimos minutos de uma final, já de por si histórica, para marcar, marcar e marcar e assim aumentar a sua lenda pessoal, o seu prestigio, o seu cachet, o seu lugar no Olimpo, um jogador, mais do que isso, um lider, aproximou-se do árbitro quase irritado com o tempo de desconto anunciado e pede respeito. Respeito não para ele mas para o rival. Para uma selecção extraordinária que perdia por 4-0 e continuava aí, com dez homens, de cabeça levantada. Respeito para um país que sempre foi a sua besta negra, até 2008, e que nunca tinham vencido. Respeito para o mundo do futebol, para os milhões de italianos que seguiam o jogo pela televisão, para o seu rival Buffon, para todos nós. Casillas pedia humanidade para esse mundo futebolistico entregue ao pensamento mercenário dos grandes guerreiros e fracos homens. 

 

O gesto do capitão espanhol define-o como futebolista, como desportista e como Homem. Define o conceito de fair play num grande palco como há larguissimos anos não se via. Define a imagem do lider geracional de um projecto que ainda tem anos pela frente. Relembra o gesto de Puyol na celebração de Dani Alves e Thiago Alcântara na goleada em Vallecas. Relembra o sorriso timido de Iniesta quando o comparam com Zidane, o gesto sério de Alonso quando falam dele como maestro do Real Madrid ou a cara de Mata quando agradece a assistência de golo ao homem que defendeu durante todo o ano das criticas e que nesse momento da posteridade se lembrou que vale mais um amigo que um golo num jogo de futebol. Relembra porque é que esta selecção espanhola vale o vale, mais do que questões futebolisticas, e relembra porque é que prémios como o FIFA Ballon D´Or cada vez valem menos. Porque, chegados a Dezembro, ninguém se vai lembrar do gesto de San Iker e a maioria continuará dividida entre a luta asfixiante de golos entre Messi e Ronaldo, entre os penteados, as chuteiras, as celebrações, os gritos de "eu" num desporto que, como Casillas não nos deixa esquecer, ainda é coisa de todos "nós"...



Miguel Lourenço Pereira às 10:17 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Terça-feira, 22.05.12

O segundo titulo consecutivo do Borussia de Dortmund é um feito histórico no futebol alemão contemporâneo e a prova viva de que no Westfallen a lição de 2001 foi bem aprendida. Jurgen Klopp manteve-se fiel à ideia que fez do Dortmund uma das equipas mais atractivas do futebol europeu no ano passado e com isso lançou as bases para manter um troféu que a meio da época parecia que voltaria ás mãos do Bayern Munchen. Os bávaros disputaram taco a taco o titulo com os campeões mas viram-se superados pela maior eficácia dos homens do Rhur que estiveram 17 longas jornadas sem conhecer o sabor da derrota.

Quando o Dortmund perdeu o seu último jogo na Bundesliga, a equipa de Klopp seguia no 11º lugar e parecia a caminho de uma época para esquecer. O quarto lugar num grupo da Champions League acessível, a incapacidade de Gundugon de substituir com classe o talentoso Sahin e a irregularidade na prova nacional eram maus presságios. Mas essa última derrota, no Outono, antecipou uma cavalgada histórica liderada por Shinji Kagawa e secundada por actores de luxo, de Hummels a Bender, de Lewandowski a Gotze. O Dortmund não perdeu mais, encadeou 17 vitórias consecutivas, bateu o rival directo pelo titulo e sagrou-se campeão antes do último suspiro. 

Um triunfo histórico não só porque contraria a tendência recente do futebol alemão como foi realizado com o esqueleto da equipa do ano transacto mas sem Sahin, vendido ao Real Madrid, e com Mario Gotze largos meses fora do onze. O popular técnico do conjunto amarelo provou ser fiel ao seu estilo e aos homens que foi lançando às feras nas últimas três épocas e a resposta foi um futebol de alto calibre, uma eficácia tremenda e uma superioridade moral confirmada por duas vitórias num mês diante do Bayern, primeiro para a Bundesliga e depois por 5-2 para a final da Taça da Alemanha. 

Meritório titulo do Dortmund que volta a ter a Europa como desafio pendente para a próxima época, Europa onde melhor se moveu o Bayern Munchen. A ilusão de disputar a final do torneio no seu próprio estádio tornou-se numa obsessão para um clube que viveu um ano mais tranquilo com Jupp Heynckhes ao leme. Mesmo assim a lesão de Schweinsteiger, a baixa de forma de Muller e as discussões entre Ribery e Robben acabaram por contribuir para os pequenos, mas significativos, tropeções dos bávaros quando ainda lideravam a prova. Depois de ultrapassados pelo Dortmund, aos homens de Munique a perseguição transformou-se num pesadelo e as atenções viraram-se, sobretudo, para a Champions League.

 

Sempre perto e sempre tão longe deste duelo, a bela época de Borusia Monchengladbach e Schalke 04 não pode passar desapercebida. Sobretudo porque são dois projectos distintos mas que demonstram, à sua maneira, a maturidade da Bundesliga. Os mineiros do Rhur continuam na politica equilibrada de apostar na formação local misturando-a com valores importados a preço de custo como foi o caso de Raul e Huntelaar, peças chave no terceiro posto alcançado. Em Monchengladbach a aposta na juventude é evidente e seguramente terá o seu preço, mas a qualidade de jogo dos homens de Favre durante largos meses da prova foi insuperável.

A completar os postos europeus não houve lugar para campeões recentes como o Wolfsburg ou Werder Bremen, ainda assim a viver épocas mais tranquilas do que nos têm acostumado, mas sim para Bayer Leverkusen (bom ano apesar de tudo) e Stuttgart, a pouco e pouco a voltar às posições altas da tabela.

No lado oposto confirmou-se a falta de ritmo de alta competição de um campeão histórico como o Kaiserlautern e a despromoção de um FC Koln que, apesar de Podolski e os seus 18 golos, nunca soube funcionar como colectivo. Rostos amargos de um ano em que se assistiu a mais uma série de jogos inesquecíveis, novos jogadores locais a despontar e, sobretudo, a bancadas cheias e repletas de um dinamismo que confirma que a Bundesliga já ultrapassou a liga inglesa e espanhola em organização e qualidade de jogo. Falta agora no duelo desigual dos palcos europeus, onde as fortunas de poucos clubes de Espanha e Inglaterra dão uma sensação de desnível irreal, que os títulos comecem a dar razão a quem vê na prova germânica o futuro sustentável do futebol europeu. 

 

 

 

 

Jogador do Ano

Shinji Kagawa

 

O japonês foi o eixo central à volta do qual se moveu a engrenagem do campeão. Na ausência de Sahin e Gotze, o primeiro vendido ao Real Madrid e o segundo vitima de uma larga lesão, o nipónico liderou a equipa do Westfallen, marcou e assistiu com regularidade e encheu os relvados com gestos de um génio que, seguramente, para o ano jogará num dos maiores clubes do futebol europeu.

 

Revelação do Ano

Marc ter Stegen

 

3060 minutos de puro talento numa temporada espantosa para a mais jovem e flamante promessa das redes germânicas. 19 anos e a lembrança de uma escola que conta com gigantes como Maier, Schumacher, Ilgner, Kopke ou Kahn para seguir, ter Stegen não só foi um dos baluartes da grande época do Borussia Monchengladbach como também poderá ter o escaparate europeu da próxima época que precisa para dar o salto para um dos grandes do Velho Continente.

 

 

Onze do Ano

 

Manuel Neuer confirmou-se como um dos melhores guarda-redes do futebol europeu na sua primeira época em Munique. Na defesa jogam Lukas Piszceck (Borusia Dortmund), Matts Hummells (Borusia Dortmund), Kyriakos Papadopoulos (Schalke 04) e David Alaba (Bayern Munchen), um quarteto jovem, dinâmico e com uma profundidade ofensiva tremenda.  

 

O miolo é de Kagawa, motor do campeão, Toni Kroos, a grande surpresa deste Bayern Munchen e o sensacional Marco Reus, líder indiscutível do surpreendente Monchengladbach. 

 

Mario Gomez e Klas Jan Huntelaar partilham a linha de ataque, reis dos golos na prova, com o polaco Robert Lewandowski a completar um trio de ases do "thor".

 

Treinador do Ano

Lucien Favre

 

Não aguentou o sprint até ao final mas a época realizada pelo Borussia Monchengladbac de Lucien Favre foi tremenda. O técnico responsável pela erupção de verdadeiros talentos em bruto como são Reus, Ter Stegen, Jantschke, Hermman ou Cigergi, montou um onze ofensivo, atractivo e tremendamente eficaz. Durante meia parte da época o Monchengladbach pareceu emular a herança histórica da maravilhosa equipa da década de 70 e manteve-se perto do topo da tabela. Acabou em quarto, com opções de disputar a Champions League, e agora caberá a Favre confirmar que, sem Reus e com os focos nos seus jovens talentos, o projecto tem pernas para andar. 



Miguel Lourenço Pereira às 23:27 | link do post | comentar

Terça-feira, 06.12.11

Seguramente que qualquer leitor do Em Jogo conhece James Will. Seguramente que muitos o viram jogar, a parar remates indefensáveis, a realizar defesas impossíveis no último minuto debaixo de um imenso temporal. Ou a comandar a área com a destreza dos mais hábeis e o espirito dos mais guerreiros. Seguramente que James Will é um nome tão familiar para qualquer um como seria Luis Figo...certo? Errado. James Will é o paradigma do erro, o exemplo da abordagem do futebol profissional ao futebol de formação que tem alimentado e destruido carreiras vorazmente durante os últimos 30 anos. Will é o anonimato da mesma forma que Figo representa o sucesso máximo. Cruzaram-se no caminho e pareciam ir por caminhos similares. Mas um continuou e o outro ficou para trás. E não foi o único.

Poucas pessoas realmente viram jogar James Will.

Uma das razões mais evidentes foi a curtissima carreira do jogador. E Will seria um de muitos anónimos que não singraram no jogo não fosse por um mero detalhe: em 1989 a FIFA achou por bem otorgar-lhe o prémio de Melhor Jogador do Mundial de sub-17, realizado na sua Escócia natal. Torneio que perdeu, na final, contra a Arábia Saudita. Nessa prova brilharam grandes futuros craques do futebol mundial como Fode Camara, Khalid Al Romahi ou Gil. Claro que, no meio deste talento que os olheiros da época se prestaram a encumbrar como estrelas futuras, havia um tal de Luis Figo, então ainda um mero júnior do Sporting CP que anos mais tarde se convertiria no simbolo do futebol mundial, depois de Florentino Perez fazer dele o primeiro "Galáctico". No dia em que assinou o contracto com o Real Madrid é dificil saber se algum dos anteriores jogadores ainda eram futebolistas profissionais. Will desde já não o era.

O guarda-redes escocês foi a grande figura do conjunto da casa e exibiu-se a alto nível. Mas nunca chegou a assinar um contracto profissional. Fartou-se das exigências do futebol de elite e seguiu a sua vida como policia de trânsito na sua pequena localidade. O futebol pode ter perdido um grande guarda-redes - como a FIFA sugeriu e muitos olheiros comprovaram - mas a sua experiência tornou-se no paradigma futuro de uma politica incapaz de entender as gigantescas diferenças entre o futebol de formação e o futebol profissional.

Com a globalização os clubes (e alguma imprensa) dedicam esforços à procura de prodigios cada vez mais precoces. Contratam jogadores imberbes, imaginam que em cada miudo de bairro está o próximo Messi e suspeitam a cada simples demonstração de talento os milhões que podem estar ali no futuro. E no entanto a maioria dos jogadores aos 17 anos (e aos 15 e aos 19) é um potencial Will mais depressa do que um potencial Diego Armando Maradona, que dez anos antes venceu o mesmo troféu que o escocês, mas que precisou de meia dúzia de anos para realmente "explodir" como futebolista.

 

A lista de "Wills" do futebol moderno não tem fim.

A cada torneio UEFA e FIFA surgem nomes que depois caem no esquecimento. Demasiadas expectativas, um torneio bom de um jogador com condições medianas, a performance colectiva capaz de exaltar o individuo, o peso do rival ou, simplesmente, a falta de comportamento profissional de um jogador que é ainda um miudo...tudo são factores que muitos esquecem na ânsia de ser os primeiros a descobrir a grande novidade a seguir. A maioria dos jogadores jovens sucumbem à pressão de serem exibidos como bandeiras. Muitos desistem como James Will. Outros são atraidos pelos milhões dos grandes clubes europeus para acabar por jogar em equipas de escalões inferiores, lamentando-se do que podia ter sido e não foi. E outros, pura e simplesmente, colapsam.

Arsene Wenger inaugurou a corrida às jovens promessas mundiais mas teve o savoir faire suficiente de seleccionar jovens que correspondiam a comportamentos padrão que definiam uma margem de sucesso considerável. Qualquer manager ou olheiro de elite sabe que um torneio curto é a pior forma de conhecer o valor real e potencial de um jogador. Normalmente aqueles que mais brilham neste tipo de competições são os que menos longe chegam como profissionais. Estrelas cadentes de um mundo sem perdão.

É no estudo continuado, na análise estatisticas de comportamentos, exibições e atitudes durante um largo periodo de tempo que se descobrem as verdadeiras pérolas do futuro. Muitos deixam-se levar pelo comportamento mediático das estrelas de domingo. Figo nesse torneio não brilhou talvez ao mesmo nível que Will. Mas profissionalmente a sua carreira foi ascendente, em todos os sentidos e beneficiou, de certa forma, dessa pressão ausente que sofreu o escocês e também nomes tão familiares como Nii Lamptey, Daniel Addo, Mohammed Kathiri ou Sergio Santamaria, todos eles detentores do mesmo troféu. Mesmo as consagrações de Landon Donovan, Sinama-Pongolle ou Anderson acabaram por ser mais prejudiciais do que benéficas para os jogadores e nos tempos recentes talvez só mesmo Cesc Fabregas (já então pupilo de Wenger) tenha escapado a uma maldição repleta de lógica e disfarçada de preconceito. O futebol de formação de hoje é cada vez mais uma escola de resultados e imediatismos. Os clubes e as federações procuram productos para vender agora e não estão dispostos a formar jogadores e profissionais para cinco anos. No último Europeu de sub-20 as selecções mais prometedoras, Espanha e Colombia, ficaram pelo caminho. E no entanto é fácil ver que daquele grupo sairão mais desportistas de elite do que das selecções finalistas, Brasil e Portugal.

 

A abordagem em modelos de jogadores mais fisicos e menos técnicos - e o caso francês é evidente - pode dar resultados no momento mas, a longo prazo, não dá frutos. Por cada Figo haverá sempre 100 James Will, jogadores de consumo imediato e precoce que, como as estrelas pop juvenis, se tornam em one hit artists superados facilmente pela fornada que vem já a seguir. O paradigma do erro, em que Portugal apostou recentemente, acreditando que o futebol de formação se faz de titulos e não da preparação de futebolistas de futuro não é caso único e no entanto não deixa de ser um erro repetido vezes sem conta. O projecto de formação do FC Porto, onde tanto dinheiro se investiu, foi coroado de titulos e no entanto não há a perspectiva de nenhum jogador da cantera estar agora ou no amanhã nos quadros da equipa principal. Se o sucesso espanhol mede hoje tudo, deveria ser óbvio para todos que apostar em futebolistas é mais rentável do que apostar em ganhadores, por muito que demore dez anos até que os génios de Xavi, Xabi Alonso ou Andrés Iniesta sejam devidamente reconhecidos. Pérolas individuais existirão como sempre, jovens potreros de bairro encandilarão olheiros atentos mas essa fome de descobrir the next big thing será sempre mais um handicap do que o caminho a seguir. O futebol de formação, como qualquer projecto educativo, precisa de tempo, espaço e ar para respirar. James Will sentiu na pele a asfixia de ter de ser alguém antes do tempo. Há 22 anos o paradigma do erro estava aí e poucos quiseram ver. Hoje há muitos como ele quando a sua história - e a de tantos outros - devia, a pouco e pouco, converter-se na excepção que faz a regra!



Miguel Lourenço Pereira às 14:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 13.07.11

Pode um clube prender um jogador como se fosse um centro de detenção? Em Itália sim. E Federico Marchetti sabe-o bem, muito bem. Um ano de calvário que chega ao fim. Um ano perdido numa carreira absolutamente promissora. Em Roma o guardião que a Itália aprendeu a ver como sucessor do mítico Buffon vai voltar a sentir-se futebolista. Mas nunca esquecerá a sua prisão na Sardenha. A prisão de um futebolista que ninguém quis denunciar.

Quando Buffon não aguentou mais com as dores nas costas que se arrastavam à semanas, Marcello Lippi mandou chamar o seu suplente.

Marchetti, Federico Marchetti, entrou em campo com a determinação dos grandes jogadores. De um jogador que conhecia bem a sombra de gigante que o esperava no momento em que Buffon deixasse o posto que lhe pertencia por direito próprio há quase uma década. Talvez não imaginasse que fosse tão cedo mas na sua vida as coisas nunca correram como previsto. A Itália realizou o seu pior Mundial de sempre mas a culpa não foi do guardião de 27 anos. Tinha-se estreado um ano antes com a Azzurra e depois só tinha disputado um total de cinco jogos. Era carne para canhão. Mas portou-se como um guerreiro. Saiu da África do Sul com a cabeça erguida e a cotação em alta. Não imaginava o pesadelo que o esperava.

Quando voltou de férias Marchetti deu uma entrevista que lhe ia mudar a vida. Depois de declarar que pretendia abandonar o Cagliari para juntar-se a um clube com outros objectivos (tinha a Sampdoria na cabeça), o guardião tornou-se persona non grata.

No primeiro amigável da temporada foi assobiado e acossado pelos adeptos locais. O presidente, o sempre polémico Massimo Cellino, anunciou que deixaria sair o jogador em público mas secretamente rejeitou toda e cada uma das propostas. Marchetti passou de estrela do Mundial a terceiro guardião atrás de Agazzi e Pellizoli, veteranos do clube. Treinou sozinho, ficou fora de todas as convocatórias e viu mesmo o técnico, Roberto Donadoni, convocar guardiões dos juniores na ausência de algum dos seus dois colegas da primeira equipa. Até 31 de Agosto forçou de todas as forças sair do clube com quem tinha assinado no ano anterior depois de chegar do AlbinoLeffe. Não conseguiu. A partir desse momento decidiu-se a enfrentar o clube na justiça. Demorou oito meses mas ganhou a batalha. Agora, em Roma, é um jogador livre.

 

Marchetti está habituado a cenários complexos.

Começou a carreira no Torino e depois de uns anos entre empréstimos exigiu que o clube o deixasse sair. Os granota não facilitaram a saída mas entretanto o clube faliu, foi despromovido e o guardião teve direito à carta de liberdade. Assinou pelo AlbinoLeffe, equipa da Serie B, e no segundo ano ao serviço da equipa venceu em 2007 o prémio ao melhor guarda-redes da segunda divisão italiana. As exibições chamaram a atenção do Cagliari que o lançou para a ribalta levando mesmo Buffon a elege-lo como seu sucessor natural. Depois de dois anos ao mais alto nível na Sardenha, chegou o sonho do Mundial. E o posterior pesadelo prisional a que foi sujeito.

O guardião sobreviveu em 2005 a um terrível acidente de automóvel. Viajava com três amigos e dois deles faleceram no acto tal foi a brutalidade do choque. Marchetti esteve entre a vida e a morte. Recuperou e aqueles que imaginavam que a sua carreira desportiva estava acabada dificilmente imaginavam que cinco anos depois ele seria o guardião de moda da Serie A. Depois do sofrimento e da luta contra a morte, Marchetti encarou o duelo com o Cagliari como uma questão pessoal. Denunciou o clube por mobbing laboral (como fizera Pandev com a Lazio há dois anos) e depois de julgamentos e recursos conseguiu uma choruda indemnização. O clube foi igualmente forçado a facilitar a transferência para a AS Lazio, clube que acaba de perder o internacional uruguaio Muslera. Depois de um ano parado muitos estão curiosos para ver até que ponto Marchetti se encontra em forma. No ano em que esteve fora do activo surgiram outras promessas das redes italianas do jovem Emiliano Viviano do Bologna a Salvatore Sirigu do Palermo sem esquecer Antonio Mirante do Parma.

 

A luta para a sucessão de Buffon aperta-se ainda mais num país com enorme tradição de guarda-redes de máximo talento. No entanto Marchetti terá um prazer especial caso volte a vestir a camisola da Azzurra. Pela segunda vez encontrou-se com um drama pessoal fortíssimo e pela segunda vez venceu. Certamente que a confiança com que entre em campo a partir de Agosto será difícil de igualar por qualquer comum mortal...

 



Miguel Lourenço Pereira às 12:35 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 16.03.11

Contra as expectativas o Bayern Munchen perdeu no Allianz. Contra as expectativas o Internazionale não deixará o ceptro europeu de ânimo leve. Contra as expectativas viveu-se um jogo imenso no plano táctico e emocional. Face à inexpressividade de Louis van Gaal a reviravolta neruazurra define-se em três palavras: Leonardo, Júlio César e Crença...

 

 

 

Nos instantes finais do jogo da primeira volta no estádio Giuseppe Meazza o brasileiro Júlio César errou. Um gesto raro e desafortunado que deu a Mario Gomez e ao Bayern um golo de ouro.

Desde o Mundial da África do Sul que aquele que muitos consideram o melhor do Mundo na sua posição, não está bem. Não está seguro. Ao sair do estádio, Júlio César deixou o carro e preferiu ir a pé até casa onde chegou já era alta a madrugada. Reflectiu. Mas quando Robben destroçou Chivu e Ranocchia e disparou um dardo envenenado, a bola voltou a escapar-lhe das mãos, Gomez voltou a aparecer e parecia que ele estava destinado a ser o culpado do final do reinado europeu do Inter. Mas não. Com Júlio César as coisas não funcionam assim.

O "imperador" de Milão olhou desesperado para o chão, gritou "merda" do fundo da alma e ajeitou a armadura. Não voltou a fraquejar. O Bayern até marcou um segundo (erro da defesa desta vez que deu a Muller um golo fácil demais) mas o brasileiro foi um herói. E nele começou a histórica reviravolta, algo que os italianos têm a que se agarrar depois de saber que a sua Serie A foi, definitivamente, suplantada pela Bundesliga. A gesta estóica do Allianz entrará, seguramente, na galeria dos grandes jogos europeus do clube. Porque chegou com desvantagem (algo que não sucedeu na campanha de Mourinho) e porque o golo inaugural de Eto´o ao minuto 4 foi rapidamente desactivado pelos bávaros. Aos 20 minutos de jogo havia um mundo entre o Inter e o apuramento. Os alemães, que tinham sido superiores em Milão, onde jogaram praticamente só contra o avançado camaronês, tinham o jogo e a eliminatória controlados. Para outro Bayern isto teria sido mais do que suficiente. Para esta equipa descrente não. Ambas as formações ofereceram um espectáculo mais atractivo que a final da Champions em Maio passado. Mas os italianos voltaram a mostrar ter uma garra especial para os grandes momentos. Van Gaal esteve estático como uma estátua de Fidias durante todo o jogo e errou. Do principio ao fim. A sorte parecia bafejá-lo, como sucedeu contra a Fiorentina e contra o Man Utd no ano passado. Mas não. O seu Ajax tinha sido a última equipa a dar a volta a uma eliminatória europeia com um resultado adverso de 0-1. O testemunho está entregue.

 

Júlio César foi determinante. Parou com as mãos as melhores oportunidades dos bávaros (os golos foram puras carambolas).

Muitas vezes só ante o perigo, o brasileiro não perdeu os nervos e despertou a equipa. Despertou Leonardo. O técnico é uma lufada de ar fresco num clube que sofreu durante largos meses o estilo obsessivo de Rafa Benitez, mais preocupado com a sombra de Mourinho. O antigo jogador do AC Milan é diferente. Ligou ao português para pedir conselho, ganhou o coração dos jogadores e recuperou o espírito guerreiro dos campeões da Europa. A sua recuperação na Serie A é impressionante, particularmente se temos em linha de conta que não conta há muito com o melhor Milito. Uma reviravolta na Europa sem a eficácia de um goleador como Pazzini, a sua arma secreta em Itália, um êxito rotundo. Porque Leonardo tem a mesma equipa que tinha Mourinho (com a importante chegado do jovem Rannochia, um Cannavaro em potência) mas um ano mais velha. E sem a mesma fome. Ou isso pensavam. A atitude dos jogadores neruazurri, a sua crença a evocar os dias de Mourinho, foram nucleares no duelo com os pacíficos germânicos. Se em individualidades o Bayern em ganhava, em individualismos o Bayern perdeu. Robben, Ribery, Muller e Schweinsteiger são jogadores de top, tremendos. Mas não souberam combinar, abrir espaços. associar-se. E matar o jogo. Entregaram as armas demasiado cedo e van Gaal leu o jogo demasiado tarde. O meio-campo macio alemão precisava mais de Kroos, um jogador com critério, do que Altintop, mais um velocista. Um erro que abriu caminho à vitória de Leonardo. No banco.

O técnico milanês emendou a palma e colocou Sneijder no miolo (tinha andado desaparecido pela esquerda), onde realmente mata um jogo. Com passes e golos. O seu remate, indefensável, concluiu a melhor jogada do encontro. O atrevimento de Coutinho, uma aposta arriscada que resultou, desequilibrou a defesa, Eto´o fez - outra vez - de pivot e o holandês empatou o encontro. Faltava pouco tempo, mas a balança estava já muito desequilibrada. O Inter chegou, uma e outra vez, e o Bayern perdeu a concentração. Pior, perdeu a bola. Não soube aguentar o jogo, não soube parar, pensar, pausar. Permitiu o jogo de ida e volta e num desses movimentos, outra vez Coutinho, outra vez Eto´o e agora Pandev, esse lutador de sumo futebolístico, rasgaram a história. O 4-3-3 de Leonardo, com as linhas bem mais avançadas e Sneijder no miolo e Coutinho e Pandev abertos nas alas, apoiados por Nagamoto e Maicon, foi suficiente para rasgar o macio 4-2-3-1 esquema táctico de van Gaal. O Bayern Munchen caiu merecidamente porque nunca soube pensar para lá do momento. E o reinado do holandês está destinado a acabar em tragédia depois de ter roçado o céu.

 

 

 

Luiz Gustavo, Breno, Pranjic e Robben apagaram-se cedo. Ribery lutou só e Gomez continua a ser um avançado capaz do melhor e do pior. Júlio César estava lá para o parar. Leonardo para ordenar as peças. A crença fez o resto. O Inter continua a sua luta contra o tempo. Sabe que é quase impossível revalidar o titulo. Mas não está disposto a cair sem lutar. Eles são, outra vez, os underdogs desta Champions. E isso torna-os ainda mais perigosos.



Miguel Lourenço Pereira às 08:46 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 03.01.11

Talvez tenha sido o maior guarda-redes da história. Talvez tenha regressado do mundo dos mortos. Mas a mágica carreira de Ricardo Zamora, a primeira grande estrela mediática do futebol europeu, é um constante deambular entre o sol e a penumbra, o claro e o escuro. Simbolo do mágico Barcelona dos anos 20, soube trair por três vezes "a causa" e acabou por cair na hábil teia de Franco para se tornar num dos simbolos do novo regime.

 

 

 

Conta Philip Ball no seu imperdível Morbo: The Story of Spanish Football, que em 1936 a imprensa republicana noticiou que o histórico Ricardo Zamora, o homem que à época era mais popular em Espanha que Greta Garbo, tinha sido morto na fronteira por soldados falangistas quando procurava voltar de França, onde estava refugiado. Zamora era a maior figura do desporto espanhol, conhecido como El Divino, e a noticia era tão séria que os jornais falangistas rapidamente decidiram contrariar a informar e declarar o óbito como culpa das armadas comunistas que patrulhavam a zona basca. No meio de tanta confusão mediática apareceu Zamora, como quem regressa do mundo dos mortos. E por um segundo o país respirou de alívio.

Ricardo Zamora era assim, um bálsamo para um país que gostou sempre de conflitos, nem que fossem dialécticos. Foi a primeira grande estrela espanhola dentro e fora dos relvados. Uma verdadeira vedeta desportiva que encandilava com as suas defesas nos campos pelados de Les Corts como pelas suas passeatas a altas horas com Gardel nas Ramblas barcelonesas.

Filho de espanhóis numa Catalunha em fase ultra-nacionalista, tornou-se rapidamente na grande figura do recém-inaugurado estádio do FC Barcelona. Com Alcantara e Samitier constitui o primeiro grande trio histórico do futebol ibérico. O Barcelona viveu uma das suas décadas mágicas e a fama de Zamora era tal que fora de Espanha chegavam convites de toda a Europa para que o clube entrasse em digressões pelo velho continente, sempre e quando ele fosse titular. Mas ao contrário de muitos dos seus colegas - particularmente o pequeno Alcantara, o Messi da década 20 - não havia nada no sentimento catalão que começava a tomar controlo dos elementos directivos blaugranas que o atraísse. Era um homem da vida, um verdadeiro amante da boémia e a politica não lhe despertava o minimo interesse, especialmente se fosse uma politica nacionalista. Com Primo de Rivera no poder e com o nacionalismo catalão debaixo de fogo, Zamora "traiu" o Barça e atravessou a Diagonal rumo ao modesto Sarriá onde jogava o Español, clube fundado para espanhóis em Barcelona como contraposição ao nacionalismo do clube de Gamper. Ao serviço dos "blanquiazules",  para os quais tinha jogado na sua juventude antes de rumar ao clube azulgrana, Zamora foi, uma vez mais, igual a si mesmo e continuou a ostentar o titulo de maior guarda-redes do Mundo, confirmado com várias exibições de gala com a camisola de Espanha, que chegou a capitanear para escândalo da Barcelona de então, nas Olimpiadas de Antuérpia de 1920 em que a Espanha logrou uma histórica medalha de prata.

 

Ao serviço do Español (assim escrito à espanhola, a versão catalão tem meia dúzia de anos) o portero fez alguns dos seus jogos mais deslumbrantes a ponto que o Real Madrid, então ainda longe de ser uma força suprema do futebol espanhol, não se incomodou com a já sua avançada idade e avançou para uma contratação milionária, a primeira do seu largo historial. 140 mil pesetas, 40 mil das quais directamente para o jogador, marcaram um primeiro recorde em Madrid. Na capital o guardião sentiu-se como peixe na água e começou a deixar transparecer os seus sentimentos pró-falangistas. Esteve até 1936 nas redes do velho Metropolitano. No último encontro da sua carreira, no derradeiro instante, travou sobre a linha de golo um remate de Escolá, dianteiro do Barcelona, para garantir o triunfo por 2-1 do Real Madrid sobre o seu histórico rival. Foi uma doce vingança pelas palavras criticas que ouvia regularmente sempre que voltava à Cidade Condal.

Acabada a carreira começa a guerra. Zamora foge para França, com o seu colega de andanças e traições Pep Samitier, e é capturado pelo exército republicano. Consegue escapar e chega a actuar no Nice durante dois anos até que volta a Espanha para capitanear num jogo não oficial o primeiro encontro da selecção falangista. Foi um reconhecimento internacional que os republicanos nunca perdoariam (eles que tinham, pela figura do presidente Alcalá Zamora, galardoado o guardião no fim da sua carreira com a Ordem de Mérito) e que Franco agradeceria profundamente. O Generalissimo dotou o guardião de todas as honras a partir dos anos 40 e a imprensa afecta ao regime começou a campanha de popularização da figura do guardião junto das novas gerações, com o guarda-redes a surgir em vários filmes com atletas do Real Madrid dos anos 40 (ele que tinha protagonizado já filmes nos anos 20). O recém-criado jornal Marca instituiu também o prémio Zamora para galardoar o melhor guardião espanhol de cada ano, como contraposição ao troféu Pichichi para o goleador de serviço da liga.

 

 

 

Tornado figura oficial do regime, Ricardo Zamora tentou brevemente uma carreira como técnico e foi mesmo apontado como seleccionador nacional em 1952 para surpresa geral. Mais um agradecimento do General Moscardó, então hábil ministro dos desportos de Franco. Depois dessa experiência voltou a Barcelona para ir caindo no anonimato geral do qual foi resgatado já após a Transicion democrática. Politicamente controverso, o talento inato de Zamora era tal que ainda hoje há que se aventure a considerar El Divino como o maior guardião de sempre. Pode ser que tenham razão...



Miguel Lourenço Pereira às 03:14 | link do post | comentar

Sábado, 25.09.10

Rosto impenetrável e juvenil. Visual descuidado e longos braços e pernas, magros e elásticos. Da ribeira do Manzanares ao tapete verde do Calderón emergiu um "superportero". Poucos guarda-redes atingiram tamanho nível de excelência tão cedo. Com 19 anos, David De Gea é o homem do momento no futebol europeu. Um verdadeiro Don David...

Casillas, Cech, Buffon, Julio César e Lloris são, provavelmente, os cinco melhores guarda-redes do Continente. Agora.

Todos eles sabem que agora contam com um rival à altura. Não faltou pouco (se é que já não o é) e David De Gea estará nessa lista. Possivelmente no primeiro lugar. Muito possivelmente. Tem todas as condições para confirmar-se como o melhor guarda-redes do planeta. Com um ano apenas no futebol profissional o jovem internacional esperanças madrileño é já uma imensa certeza. Se fosse ponta-de-lança ou extremo o seu passe já andaria pelos 60 milhões de euros, cláusula de rescisão incluida. Mas é portero, o seu labor é outro. Tão ou mais importante. Mas infinitamente menos mediático. Não vale mais do que 25 milhões, segundo o último contrato assinado pelo Atlético de Madrid, clube do seu coração, clube que o formou e lançou aos leões no estádio do Dragão na passada edição da Champions League. Lançado por outro portero histórico do futebol espanhol, Abel Resino, o jovem David vinha só para cumprir com a baixa do colega. Um colega tido como a grande promessa das redes espanholas. Mas a lesão (e instabilidade emocional) do jovem Sergio Asenjo foram a porta de entrada que o jovem de 18 anos precisava. Quando chegou à titularidade, nunca mais a largou. Nem com Asenjo no banco a reclamar por minutos, nem com o Calderón desconfiado. Num ano onde a equipa oscilou entre o inferno e o céu, David de Gea tornou-se o rosto feliz da segunda etapa. Dos jovens sonhadores. Dos rostos imparáveis.

 

O impacto de De Gea no futebol espanhol podia comparar-se com a errupção do vulcão Leo Messi. Mas no extremo oposto.

Durante um ano o Atlético de Madrid teve no jovem o seu maior seguro de vida. Mais do que a dupla Forlan-Aguero, as suas exibições encheram o os olhos, semana atrás de semana. Foi fulcral na final europeia ganha ao Fulham e na épica vitória frente ao Inter de Rafa Benitez. No arranque da nova época fez do Atlético lider. Com defesas impossíveis como as da passada quarta-feira em Valencia, no Nuevo Mestalla.

Contra o Barcelona, o super-Barça de Guardiola, esteve sublime. Evitou uma goleada histórica. Sempre com a mesma expressão de jovem traquinas a viver um sonho. A ele não lhe importa se é Messi, Ronaldo, Villa ou Torres que tem diante. A todos responde com a mesma autoridade. Aquela que nos habituamos a ver nos veteranos consagrados. Nunca num jovem flamante que não treme, não fraqueja, não cede.

No final do encontro foi ter com Victor Valdés, o seu idolo, apesar de ser do Barça. E foi o Zamora, o rival de Iker Casillas - o terceiro em discórdia - que se rendeu ao talento do jovem. Do já Don e senhor.

Se tanto Valdés como Casillas tiveram inicios tremidos, perdendo a titularidade depois das primeiras exibições (para Rustu e para César), e se Buffon, Júlio César e Cech demoraram também o seu tempo para se afirmarem como elementos fiáveis, que dizer de um guarda-redes que relembra o jovem Peter Schmeichel ou o imberbe Vitor Baía. O seu descaro é genuino e inocente, como cada estirada impossível a que dá forma. Sir Alex Ferguson, há anos sabiamente a patrulhar a melhor liga do Mundo para encontrar guarda-redes de primeiro nível (apesar de ter falhado com Ricardo, agora no Osasuna), está desesperado por resgatá-lo para render um Edwin van der Sar no ocaso da sua longa carreira. De tal forma que preferiu ir vê-lo in loco (sob o pretexto de observar o Valencia, o próximo rival da Champions, a treinar a sua equipa - onde se estreou a sua arriscada aposta chamada Bebé - no jogo da Carling. Inédito mas natural, o guardião do Atlético não encaixa no conceito da normalidade. De Gea tem todas as condições para suceder, em grandeza, ao gigante dinamarquês. Só alguém com um perfil forte é capaz de aguentar o inferno de Old Trafford, a loucura da Premier League. O seu rosto de manchego tranquilo diz tudo. Para ele o desafio é o de menos. O desfrute prevalece a cada segundo.

David De Gea poderá ter de penar até Iker Casillas (e Victor Valdés) deixaram de convencer os seleccionadores espanhóis que contam com um filão de ouro inesgotável. Mas tem todas as condições, fisicas e psicológicas, para se tornar num dos nomes obrigatórios na história do futebol. Mas já ninguém duvida ao observar o seu olhar felino que o jovem de Madrid tem tudo para ser o superportero do novo milénio.  



Miguel Lourenço Pereira às 12:44 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quinta-feira, 02.09.10

Ficou para a história como o número 1 da etapa mais bem sucedida da história do futebol luso. Aposta pessoal de um seleccionador polémico, Ricardo Pereira foi sempre um guarda-redes capaz de despertar ódios e paixões. Três anos depois do inicio da sua aventura espanhola, o homem que parava penaltys sem luvas caiu no abismo do esquecimento. Já não há lugar para ele no mundo do futebol.

A noticia surpreende poucos.

Quem seguiu a decepcionante campanha do Bétis da passada época, cedo percebeu que Ricardo estava destinado a não voltar a pisar o relvado do Benito Villamarin, ainda conhecido actualmente pelo nome do seu último e polémico presidente, Ruiz de Lopera. O guardião português foi um dos investimentos mais caros da equipa andaluza há três temporadas, mas revelou-se igualmente um dos maiores fiascos do clube bético. A porta da saída ficou aberta mas ninguém mostrou interesse em arriscar uma contratação repleta de riscos. Altos riscos. Inevitavelmente, o mercado fechou e com ele o fim da aventura no Bétis de Ricardo Pereira. Em 25 vagas livres, nenhuma sobrou para o guardião. O jogador está, actualmente, no limbo desportivo. De onde talvez nunca mais volte a sair.

A polémica à volta de Ricardo em Sevilla ganhou contornos bem similares aqueles que marcaram a carreira do guarda-redes em Portugal. A intermitência das suas exibições, oscilando entre o genial e o deprimente, rapidamente dividiu as bancadas verde e brancas de Sevilla. Até que a queda na Liga Adelante ditou a sentença final para Ricardo. Os adeptos nunca mais o perdoariam, os treinadores raramente voltariam a correr o risco de lhe entregar as redes do clube bético. Nem a última etapa com Luis Filipe Scolari ao mando salvou a sua reputação. Os seus erros frente à Alemanha nos Quartos de Final do Europeu de 2008 fecharam as poucas portas que ainda se podiam abrir para um homem habituado a desafiar o inevitável.

 

Ricardo conheceu os seus primeiros dias de glória no histórico Boavista de Jaime Pacheco.

Natural do Montijo (nasceu em Janeiro de 1976), o guardião começou a carreira no clube local antes de se transferir para o Boavista, onde surgiu como a terceira opção durante dois anos. O final da carreira do histórico Alfredo abriu-lhe a oportunidade de estrear-se, em Fevereiro de 1997, como titular dos axadrezados. Conservou o posto e tornou-se elemento chave da equipa boavisteira que disputou em 1998/99 o titulo ao FC Porto. Com Pedro Emanuel, Petit, Martelinho, Sanchez Jorge Silva tornou-se o esteio da equipa que dois anos depois faria história ao sagrar-se, pela primeira vez, campeã nacional. Ricardo foi o guardião menos batido da época e a sua voz de comando na área tornou-o automaticamente num dos guarda-redes mais quotados da liga lusa. A chamada à selecção nacional surgiu em 2001, pela mão de António Oliveira. O seleccionador levou o guardião ao Mundial da Coreia do Sul e Japão como titular, mas um jogo inesquecível frente à China do até então lesionado Vitor Baía, fez o técnico mudar de ideias. Baía seria o titular durante a campanha, Ricardo teria de esperar. O final da prova significou também o final da carreira do portista na equipa das Quinas. Agostinho Oliveira, primeiro, e logo Luis Filipe Scolari, recusaram-se a convocar o portista, que nos dois anos seguintes seria duplamente coroado pela UEFA como o melhor guardião europeu, e Ricardo assumiu o posto de titular. Iria mantê-lo durante seis anos, sem nunca chegar a convencer plenamente os criticos e adeptos.

Dele fazem parte alguns dos momentos mais memoráveis da história do futebol luso, mas também algumas das noites mais desastradas. Já ao serviço do Sporting, para onde se transfere, não sem polémica, em 2003, o guarda-redes mostra a sua cara e cruz durante o Europeu de 2004. Ao máximo nivel contra Espanha e Rússia, Ricardo torna-se no herói do duelo frente à Inglaterra, travando dois penaltys britânicos - o último dos quais sem luvas, num gesto heróico - e apontando ele o penalty ganhador. Uma das suas especialidades que o tornaram numa celebridade europeia. Uma semana depois, no entanto, um erro de precipitação permitiria a Angelos Charisteas confirmar a surpresa, o titulo europeu grego, e lançaram nuvens sobre o futuro de Ricardo na selecção. Scolari manteve-se inflexível. Nem Baía, nem mais tarde Quim, conseguiram chegar ao posto de titular durante as campanhas do Mundial de 2006 (onde voltou a brilhar na marca das grandes penalidades frente aos ingleses, para depois ser o principal responsável da derrota com a Alemanha no último jogo) e no Euro 2008, onde voltou a mostrar o seu lado mais negro.

Por essa altura já Ricardo actuava na liga espanhola, onde a sua chegada tinha despertado muito interesse. O péssimo ano de estreia, aliado à despromoção do histórico Bétis e à sua má performance no Europeu de futebol foram o principio do fim. Carlos Queiroz, o novo seleccionador, riscou o guardião da lista (apostando primeiro em Quim e logo em Eduardo) apesar de o manter em várias pré-convocatórias. E em Sevilla os técnicos que se foram sucedendo deixaram de confiar no luso. Até à chegada de Pepe Mel, técnico recrutado ao Rayo Vallecano que tomou a imediata decisão de prescindir do homem que defendia penaltys sem luvas. Sem lugar em Sevilla, sem lugar em Portugal, sem lugar na Europa, aos 34 anos a carreira de Ricardo vive à beira do abismo. Poucos se recordam das suas memoráveis exibições durante as campanhas europeias do Boavista. O final da carreira daquele que foi, talvez, o mais polémico guarda-redes internacional português (chegou às 75 internacionalizações) pode estar perto do fim. Só o seu sangue-frio em momentos de alto risco nos permite duvidar. Haverá espaço para a ressurreição do anti-herói português?  



Miguel Lourenço Pereira às 12:29 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Segunda-feira, 23.08.10

Como é possível que um projecto tão sólido se desmorone como um castelo de cartas à primeira brisa? A persistência no erro é o primeiro passo para a derrota e os factos destroçam a mais simples das lógicas. Um pequeno ajuste transformou-se num imenso problema e no meio de tanta confusão, essa pequena alteração foi suficiente para transformar a galinha dos ovos de ouro num novo idolo de pés de barro.

Depois de ser consagrado, de forma unânime, como o guarda-redes do ano, Quim viu o seu treinador dispensá-lo em directo, num programa desportivo. A forma como Jorge Jesus se referiu ao seu ainda guardião deve perseguir agora o técnico da Amadora, noite após noite. O pequeno Quim não tinha o carisma e atitude necessários para transformar-se num guardião que ganha jogos, pontos...titulos. Já durante a época o técnico tinha promovido uma inusitada dança de guarda-redes, entre Julio César (e os seus erros europeus) e Moreira, o eterno subaproveitado. Mas nenhum o tinha convencido, realmente. Nem o jovem contratado há vários anos ao Salgueiros, nem a sua expressa petição pessoal, nem muito menos o titularíssimo da Luz.

Com Quim fora do baralho, as opções no mercado extendiam-se aos pés do recém-consagrado campeão nacional. O feito histórico de devolver o Benfica ao primeiro lugar transformou o competente treinador na nova "galinha dos ovos de ouro" para os encarnados. As suas decisões tornaram-se inquestionáveis.

Dessa forma, poucos foram os que realmente sairam a dar o peito às balas quando o técnico e o seu director desportivo, Rui Costa, anunciaram que o tal guarda-redes com carisma, atitude e capacidade para ganhar titulos era o relativamente desconhecido Roberto. Uma escolha (a terceira em Madrid) que custava o que nenhum guardião, com a excepção do imenso Gianluigi Buffon alguma vez custou. Um preço modesto para tanto talento que tinha, entretanto, passado desapercebido por essa Europa fora onde a posição do número 1 é sempre um caso sério a rever. Afinal, não tinha o Bayern Munchen chegado à final da Champions League com um tal de Hans Jorg-Butt nas redes?

 

Roberto foi sempre um erro de casting, já aqui o dissemos.

Nem faz parte da geração de elite de porteros espanhóis, nem sequer é um nome consensual entre os seus. A sua chegada, rodeada de pompa e circunstância, a uma equipa a quem muitos tinham otorgado o papel de dominador absoluto do futebol luso para os próximos anos. O projecto milionário encarnado tinha, depois de quatro anos, dado os seus frutos e, nas palavras do seu treinador, a Champions League era um objectivo tão real como o "Bicampeonato". Para isso, para essa ambição europeia, a mesma que destroçou o Benfica pós-Erikson e pós-1994, trocou-se o seguro pelo duvidoso. Um erro, sem dúvida. Um erro crasso que os primeiros jogos do ano, a valer ou não, foram desmontando.

A insegurança do espanhol é evidente, a sua incapacidade para comunicar-se com os colegas do sector notória. No entanto, os erros técnicos que evidenciou na pré-temporada e no jogo de sábado, na Madeira, são mais preocupantes do que qualquer problema de comunicação. Demonstram uma inépcia que atormentam alguns guardiões por essa Europa fora, como vimos o ano passado, repetidamente, com o polaco Lukas Fabianski. A diferença é que nenhum deles foi um recorde de transferência nem uma aposta tão pessoal de dois homens que gostam de reforçar a sua eterna fome insaciável pela glória.

Numa equipa já de por si debilitada pelas transferências do pulmão e da alma criativa da versão-campeã, contar com um guarda-redes que só transmite intranquilidade é um risco que o Benfica não pode correr. Roberto não é o único erro de Jorge Jesus na planificação da época em que esperava a sua consagração europeia. Gaitán, um jogador sem espaço no modelo de jogo do ano passado e na variação táctica em 4-3-3 que Jara poderá obrigar a tornar-se realidade, é outro problema sem solução à vista. Tal como o débil sector defensivo, onde a primeira linha não tem soluções à altura (que dizer de Sidnei ou César Peixoto) ou a fraca forma fisica e mental de jogadores que foram pilares no conjunto campeão, como o espanhol Javi Garcia ou a dupla argentina Saviola-Aimar. A fome de titulos para alguns está aparentemente mais saciada que para outros e o crime de cair no laxismo desportivo sempre foi o hara-kiri do conjunto encarnado desde que o FC Porto lhe arrebatou em meados dos anos 80 a supremacia do futebol luso.

Jorge Jesus vive na eterna encruzilhada do medo. Medo a falhar, a demonstrar que também erra, ao optar por preterir Roberto e voltar a lançar as suas duas apostas falhadas em 2009/2010. Ou medo a continuar a insistir no erro inicial, arriscando-se a novos sobressaltos e tropeções na corrida aos titulos que ainda discute. O erro tem um poder destructivo. No caso deste SL Benfica, o poder de destroçar a ilusão de que uma equipa campeão não se torna na bitola por onde se mede a qualidade da noite para o dia. No meio disto tudo, o infortúnio de Quim parece uma gota no oceano de desespero do idolo de pés de barro.



Miguel Lourenço Pereira às 09:28 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 21.07.10

É impressionante a forma voraz como funciona a Comunicação Social portuguesa a pedido, a súplica, a necessidade. Depois de um ano louvando, com motivos, a genial época de Quim, um desses eternos mal amados, ninguém se pareceu preocupar com a sua dispensa e subsequente substituição por um guardião espanhol que está a anos-luz da média altíssima que exibem os "porteros" espanhóis na actualidade.

Se a fama actual do grande momento que vive o futebol espanhol se deve essencialmente ao génio dos seus "bajitos", é impensável negar o brutal aumento qualitativo que se está a verificar quando se analiza, detalhadamente, a evolução desportiva, fisica e psicoloógica do guarda-redes espanhol. O que há uns anos era uma dor de cabeça, agora é uma fonte inesgotável de talento.

Uma evolução espantosa que não conhece clubes, regiões ou faixas etárias particulares. Do nada, ou como se fosse, foram brotando os pequenos grandes talentos que hoje garantem que a melhor escola de guardiões da actualidade é, sem dúvida alguma a espanhola. Um titulo que já pertenceu a alemães, italianos e soviéticos, hoje todos bastante distantes da sua era dourada. Imaginar que qualquer um dos três campeões do Mundo convocados por Vicente del Bosque seriam titulares em quase 90% das selecções presentes no Mundial é dizer pouco do alto nível de qualidade que se vive no país vizinho. Para isso é preciso ver quantos ficaram de fora dessa lista.

Mais do que Iker Casillas, Pepe Reina e Victor Valdés, verdadeiros génios entre os postes, é preciso não esquecer os Diego Lopez, Gorka Iraizoz, Manuel Almunia, David De Gea, Andres Palop, Sérgio Asenjo, César e afins que ficaram de fora. São eles o verdadeiro espelho desta geração. E nesta lista de 10 nomes não há espaço para Roberto Jimenez, o homem por quem o Benfica achou conveniente pagar 8,5 milhões de euros, uma cifra de recorde quando falamos do número 1. Particularmente deste.

 

Roberto Jimenez é herdeiro de uma celebre escola de guardiões, a do Atlético de Madrid.

À beira do Manzanares nunca houve espaço para si. A presença do argentino Leo Franco, do francês Gregory Coupet e depois de Sérgio Asenjo, uma das grandes promessas do futebol espanhol, foram sempre impedimentos para conquistar a afficion colchonera. Incapaz de mostrar aí o seu valor, Roberto teve de viajar por essa Espanha fora à procura de minutos. Esteve na triste campanha de despromoção do Recreativo de Huelva, onde passou sem grande brio. No ano passado, superado pelo jovem David De Gea, de apenas 19 anos, foi forçado a rumar emprestado ao Zaragoza, para disputar a segunda volta. Ajudou a equipa a manter a categoria, sofreu 17 golos em 15 jogos e não deixou particulares saudades. Nem aí, nem em nenhum lado. Este ano não tinha clube, nem destino. Até que apareceu Jorge Jesus, preparado para ordenar outro profeta.

Depois de um ano onde manteve na baliza um constante foco de instabilidade, sempre mostrando pouca confiança no trabalho de Quim, o técnico encarnado conseguiu um dos seus principais objectivos. Garantiu a dispensa do internacional e mandou vir do país vizinho um guardião com pouca aura e algum potencial. Depois de ter contratado Julio César ao Belenenses, de manter Moreira e de andar pelo mercado juvenil a contratar um jovem guardião esloveno (Jan Oblak), o espanhol torna-se no terceiro "portero" que o técnico encarnado decide levar para a Luz. Num posto onde, precisamente, o que se procura é longevidade. E segurança. Essa segurança que Roberto nunca deu no seu passado. Essa mesma (in)segurança que não tem dado no presente. Mais do que os golos sofridos, e a forma como foram concedidos, é o olhar inseguro que delata Roberto. Não tem a frieza dos dez nomes acima citados, muitos deles com um valor de mercado infinitamente menor do que o Benfica decidiu pagar pelo guardião. E no entanto está aí, camisola com águia ao peito, preparado para suster os ataques rivais. E se a liga portuguesa não é propriamente uma prova muito rematadora, particularmente com o sem número de equipas que gosta de rematar como quem controla as balas na camara da pistola, já o espectro europeu, onde este Benfica quer e deve fazer boa figura, o cenário muda claramente. E Roberto não parece ser, claramente, o homem certo para o trabalho.

Se a direcção e o técnico encarnado se mostraram hábeis no último defeso, com contratações cirúrgicas e acertadas, também é verdade que os erros de Jesus e companhia começam a subir de forma alarmante. Do lateral Patric que caiu rapidamente no desconhecimento, ao ineficaz Shaffer, sem esquecer Felipe Menezes, Kardec ou o próprio Júlio César, preterido uma vez mais, é fácil ver que a taxa de acertos e de falhos anda bastante mais equilibrada do que a tal Comunicação Social, cuja única missão é vender, custe o que custar, mais um jornal, nos quer fazer crer. Roberto até pode adaptar-se ao esquema encarnado, realizar uma época de sonho e ser vendido pelos muitos milhões que ninguém viu mas que muitos alardearam. Mas na era de ouro do desporto espanhol, no periodo mágico da vida dos "porteros", o seu nome não aparece por nenhum lado. Por algo será.



Miguel Lourenço Pereira às 11:43 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Quinta-feira, 15.04.10

Hoje partilha o feito com outro nome mágico da história do futebol, Lothar Mathaus. Mas durante largas décadas o mexicano Antiono Felix Carbajal fez história ao marcar presença em nada menos do que cinco Mundiais. Cinco aventuras com o mesmo triste final. E que não lhe permitiram despedir-se diante dos seus.

La Tota é história viva do futebol mundial.

Hoje, com 80 anos, ainda vive tranquilo na Cidade do México e espera um novo Mundial. Ele, mais do que ninguém, sabe o emocionante que é uma aventura mundialistica. Afinal ele foi o primeiro jogador a disputar uma mão cheia de edições. Um feito que, durante 32 anos se manteve inigualável. Até que o alemão Mathaus disputou em França a sua quinta prova. E quebrou uma das hegemonias mais originais da história dos Mundiais. Uma aventura que começou no inesquecível Mundial de 1950 no quente Brasil e acabou em terras de sua Majestade, dezasseis anos depois. Do Maracana ao Wembley. Sempre sob o triste signo da derrota.

Carbajal nasceu na Cidade do México a 7 de Junho de 1929. O mundo estava prestes a entrar num pesadelo mas na capital azteca ainda não havia noticias dos problemas de futuro. Durante dezanove anos Carbajal foi mais um rapaz de bairro, jogando na rua com os amigos, frequentando a escola até completar o ensino obrigatório e procurando fazer da sua paixão um oficio. A sua afirmação definitiva ocorreu em 1948 quando foi escalado para viajar até Londres com a seleção olimpica de futebol do México. Precisamente onde terminaria a sua aventura, Carbajal mostrou-se ao mundo. Os mexicanos não foram propriamente a maior sensação do torneio mas dois anos depois voltaram a marcar presença entre a elite, no seu primeiro Mundial. Que também foi o primeiro da aventura de La Tota.

 

No Brasil 1950 o guardião do Real Club España teve uma performance para esquecer. O conjunto azteca estreou-se a 24 de Junho com uma derrota por goleada (4-0), diante do favorito Brasil. Até ao final da performance no torneio o guardião sofreria mais seis golos (quatro da Jugoslávia e dois do México). E, sina sua, o México ficaria em último na primeira fase. Em terras brasileiras Carbajal começou também um recorde que preferia esquecer: o de guarda-redes com mais golos sofridos na história do torneio. No total acabariam por ser 32.

Quatro anos depois, já consagrado como o grande guardião centro-americano, Carbajal voltou com a sua selecção à liça. Na Suiça era já o capitão de equipa, tinha-se mudado para o Club León, onde ficaria até ao final da carreira e pelo qual seria bicampeão do México, mas o destino acabou por ser o mesmo. O México jogou contra Brasil e França e saiu vergado de ambos os jogos com oito golos sofridos e apenas dois marcados. O mais triste da carreira de Carbajal seria apontado por Raimond Kopa, que aos 89 minutos do duelo decisivo entre franceses e mexicanos disparou para as redes do número 1 sem que este pudesse deter o remate. Um tento que significou o apuramento dos gauleses e o regresso a casa, uma vez mais, cedo dos mexicanos. Quatro anos depois, na Suécia, o primeiro motivo de festejo. Após o correctivo inicial frente aos anfitriões, o México logrou o seu primeiro empate na história do torneio num duelo contra Gales com um golo no último minuto. No desafio final voltou a sonhar-se com o apuramento. Pura ilusão. Quatro golos sem resposta da Hungria ditaram mais uma eliminação. E eram já 26 golos sofridos em três mundiais.

 

Chegado aos anos 60 Antonio Carbajal já era um icone do futebol mexicano.

Com 33 anos chegou ao Chile como uma estrela. A sua rivalidade com Lev Yashin era um dos pratos fortes da primeira fase do certame. Mas quando muitos esperavam que a hora dos mexicanos tinha chegado, depois de ter estado perto do apuramento por duas vezes, uma nova desilusão tomou conta das hostes. Após a derrota inicial com o Brasil (onde Pelé marcou o seu único golo do torneio), o México caiu diante da Espanha no último segundo de jogo alargando uma maldição que parecia não ter fim. Peiró cabeceou e Carbajal não chegou. Apesar do afastamento o México provou que era uma equipa diferente ao bater por 3-1 a Checoslováquia, equipa que, curiosamente, chegaria à final com o Brasil. Depois de ter passado dois anos de calvário com lesões, Carbajal surpreendeu tudo e todos a recuperar a tempo para viajar até Londres. Antes do torneio começar o guarda-redes mexicano confirmou que esse seria o seu último Mundial. Um recorde de longevidade que não passou desapercebido num país que valoriza como poucos a história do jogo. Foi tratado como uma estrela. No empate a 1 com a França mostrou umas mãos prodigiosas. Mas acabou por sofrer o seu 30 golo em Mundiais, um feito que superaria frente à Inglaterra, que venceria os mexicanos por 2-0. No encontro em Wembley os adeptos locais aplaudiram o mexicano no final dos 90 minutos. O jogo final, frente ao Uruguai, seria o último. 14 jogos e 32 golos depois, era o final de uma longa aventura. La Tota passou então a ser conhecido, simplesmente, como "El Cinco Copas".

Carbajal terminou a carreira dois anos depois, com 39 anos de idade e 20 de carreira. Pela selecção sumou 48 jogos oficiais. 

O seu grande desgosto foi não ter aguentado até 1970. No Mundial disputado diante dos seus adeptos o México fez história e finalmente passou da primeira-fase. Alguns comentaram que era o veterano guardião quem tinha estado a trazer azar ao exército azteca. Verdade ou não, depois da sua saída o conjunto mexicano tornou-se um candidato habitual a passar à fase seguinte, tendo chegado por uma vez (2002) até aos Quartos de Final. E Carbajal seria o pai de uma longa escola de guardiões excêntricos que o México daria a conhecer ao Mundo. Apesar de já não ser o único na lista, o seu feito continua a ser especial e a própria FIFA confirmou-o como um dos 100 Jogadores do Século XX. Afinal, La Tota é pura história viva do jogo.



Miguel Lourenço Pereira às 09:09 | link do post | comentar

Quarta-feira, 25.11.09

O desastre áereo de Munique marcou uma geração do futebol britânico. Entre as chamas do avião que levava a casa os Busby Babes, depois de um apuramento histórico para as meias-finais da Taça dos Campeões, ficaram muitas das grandes promessas por cumprir do futebol inglês. Mas entre o desastre emergiu um herói, um homem que foi mais do que um guarda-redes único. Naquele fatidico dia, Harry Gregg provou ser um autêntico número um...

 

É curioso que uma longa e bem sucedida carreira desportiva fique para segundo plano quando se pensa em Harry Gregg. Foi provavelmente um dos melhores guardiões dos anos 50 e 60, um monstro nas redes tanto ao serviço do Manchester United como da selecção da Irlanda do Norte. Mas hoje poucos se lembram dele. Mas a história da sua acção heróica em Munique garantiu que o seu nome não cairá no esquecimento.

Foi num 6 de Fevereiro às 15h03 no meio de um imenso nevoeiro. Contra as indicações da equipa técnica - que tinha preferido seguir a viagem de autocarro até à Holanda, e aí atravessar o canal da Mancha de barco - o avião capitaneado por James Thain arrancou na gelada pista do aeroporto de Munique. Um voo que tinha chegado de Belgrado, onde a equipa orientada por Matt Busby tinha acabado de eliminar o Estrela Vermelha para a Taça dos Campeões Europeus. Uma equipa onde pontificava Duncan Edwards e que era vista como a grande ameaça ao quarto titulo europeu do Real Madrid.

O avião levantou do solo por breves instantes. Depois, a catástrofe. Uma queda estrepitosa e um incêndio imediato consumiu o aparato. Sete jogadores morreram de imediato com o impacto. Com eles, dois elementos da tripulação, três membros da equipa técnica e oito jornalistas não sobreviveram à queda. No meio das chamas, Harry Gregg, guardião da equipa, teve a sangue-fria de carregar às costas com os colegas moribundos. Salvou Bobby Charlton, Jackie Branchflower, Dennis Viollet, Duncan Edwards e o técnico Matt Busby, todos gravemente feridos, particularmente das queimaduras produzidas pelo incêndio. Já com os sobreviventes fora do avião Gregg ouviu gritos de uma mulher. Era Vera Lukic, mulher de um diplomata jugoslavo que seguia no avião. Arriscando a vida, Gregg entrou no avião e resgatou-a, bem como à pequena filha que a acompanhava. Além da filha, Vera Lukic estava grávida de sete meses. O filho nasceu sem problemas. No total o guarda-redes salvou sete pessoas. Antes de cair, desmaiado, na pista de aterragem.

 

De todos os colegas que resgatou, só Duncan Edwards não sobreviveu. Morreria poucos dias depois, vitima das graves queimaduras do acidente. Perdia-se o melhor jogador inglês de então. Mas Busby, que sobreviveu por milagre, recuperou e montou uma nova equipa ganhadora à volta de Bobby Charlton. E com Harry Gregg claro.

O guarda-redes irlandês tinha começado a sua carreira anos antes, na sua Irlanda natal. Jogou no Linfield antes de se transferir para o Doncaster, em Inglaterra. Nascido em 1932, chegou em 1957 a Old Trafford. Era o guarda-redes que Busby queria para dar forma à sua equipa. Esteve nove anos em Manchester e ainda hoje é considerado por muitos o melhor guarda-redes da história do clube. Em 1958 venceu a Liga Inglesa pela primeira vez e foi eleito o melhor guarda-redes do Mundial de 1958, diante de Lev Yashin, a mitica "aranha-negra". No ano seguinte, o mesmo do acidente de Munique, fez parte da equipa campeã apesar de não ter disputado nenhum encontro após o acidente. Depois de 1963 uma série de lesões acabou com a sua carreira. Alex Stepney substitui-o nas redes dos Red Devils e apesar de ter vencido mais duas ligas (1963-64 e 1966-1967), fê-lo apenas como suplente utilizado. No final de 1967 foi transferido para o modesto Stoke City. Nas vésperas do titulo europeu do Man Utd, o mesmo que lhe escapou naquela tarde fatidica.

 

A partir daí a carreira de Harry Gregg não voltou a ser a mesma. Do Stoke City passou ao Shrewsbury Town onde acabou por pousar as botas. Passou imediatamente a técnico do Swansea, em 1972, passando posteriormente para o Crewe e Swindon Town. No final dos anos 80 a carreira como técnico foi substituida por uma carreira universitária, onde Gregg acabou por ser doutorado pela universidade de Ulster. Hoje continua a ser um dos poucos sobreviventes de um dos mais dramáticos acidentes da história do desporto. Um herói sem o qual talvez a história do futebol se tivesse escrito de forma bem diferente.



Miguel Lourenço Pereira às 16:17 | link do post | comentar

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