Sexta-feira, 20.12.13

Anfield Road é pasto de mitos únicos e memorias que ultrapassam qualquer dimensão clubística. É também um estádio que vive esfomeado de títulos depois de um banquete que durou sensivelmente mais de duas décadas. De reis do Mundo a eternos perdedores, a saga triste da Kop encontrou em Luis Suarez o antídoto perfeito à indigestão. Há muito mais neste Liverpool - no seu treinador, na sua gestão directiva, no plantel - do que o uruguaio. Mas Suarez é a alma dos Reds e o único jogador que lhes permite sonhar com regressar ao passado onde foram felizes.

Um estádio que viu jogar, entre tantos, a Keegan, Dalglish, Rush, Barnes, Beardsley, Souness, Owen, Fowler, McManaman, Torres, Gerrard, Alonso ou Toshack deveria contemplar as maravilhas de Suarez como algo habitual. Algo parte do seu histórico ADN. Mas a seca de glórias, títulos e euforias é tal que hoje o que vemos o dianteiro uruguaio conseguir parece saído de um conto de fadas. Como se Anfield fosse St. Mary´s, Craven Cottage, Hillsborough ou qualquer outro estádio que não aquele que povoou a ilusão de miúdos e graúdos durante mais de quarenta anos.

Hoje, seguramente, impulsionados pela euforia, ouviríamos muitos adeptos dos encarnados de Liverpool dizer que Suarez não é menos que qualquer um desses jogadores. Os números poderiam dar-lhes a razão. O seu arranque de temporada não tem igual em toda a Europa. Nem os brutais números de Cristiano Ronaldo se podem comparar ao que Suarez tem feito desde que acabou a sua suspensão. É o máximo candidato a vencer o prémio de Melhor Jogador e Goleador da Premier League...e a ainda vamos pelo Boxing Day. Os seus números podem permitir-lhe sonhar com a Bota de Ouro - mesmo que Ronaldo e Messi, se recuperado a tempo, continuem a ser de outro planeta - e ao Liverpool de pensar em algo diferente. A equipa histórica de Anfield não se qualificou para a Europa, o palco onde a lenda se fez real. Para muitos era mais uma oportunidade para fazer reboot e começar do zero. Para a inteligente direcção do clube foi o ponto de partida para um modelo de gestão racional a médio prazo. Brendan Rodgers, um dos melhores treinadores britânicos, já tinha demonstrado com o Swansea daquilo que era capaz. Em Liverpool apenas precisava de duas coisas: tempo e jogadores capazes de entender a sua filosofia. Conjugados os elementos o resultado está à vista.

 

Não, o Liverpool não é - malgrais tout - candidato a vencer a Premier League.

A qualidade dos planteis de Manchester City e Chelsea - os favoritos reais - e o grande momento do Arsenal estão por cima da gesta de Suarez e companhia. Mas voltar à Champions League - com um Tottenham em hara-kiri e um Manchester United a passar a sua própria fase de transição - é algo perfeitamente possível. Rodgers tem o plantel, a carga de jogos adequada e tem Suarez, um diferenciador fundamental.

Actualmente o papel do uruguaio é único em todo o futebol inglês. Nem o génio de Ozil com os gunners, nem a grande época de Óscar com os Blues, o talento de Aguero dos Citizens ou o apetite goleador de van Persie, que no ano passado salvou os Red Devils - estão à sua altura. Suarez tem marcado, assistido e gerado ilusão. A sua associação com Sturridge permite lembrar outras duplas históricas do passado. Os Fowler/Heskey-Owen, Beardsley-Rush, Toshack-Keegan podem dar a sua bênção a uma parceria que tem feito estragos por onde quer que passa. Mas os homens do golo são apenas o culminar da ideia de Rodgers, um manager que sabe investir e trabalhar os seus jogadores. A ponto de forjar um quarteto defensivo replecto de jogadores de low profile num dos mais eficazes da prova. De dar a Gerrard um novo sopro de ar na sua decadente carreira. E de encontrar espaço para ir rodando entre Coutinho, Henderson, Allen, Leiva, Sterling e Moses. Todos jogadores de classe média, salvo talvez o potencial tremendo do brasileiro, mas que aprenderam a jogar em conjunto de uma forma espantosa. O tempo que o técnico precisava em 2012/13 começou a dar os seus frutos. Com alguns tostões e investimentos a médio prazo, o Liverpool está progressivamente a voltar a sentir-se grande numa liga onde todos os seus rivais vivem muito por cima das suas possibilidades.

No meio deste furacão, Suarez é o íman emocional. Marca de todas as formas, assiste com uma frieza que lhe era desconhecida e até a sua natural apetência para as polémicas foi substituída com uma inesperada prova de devoção (bem remunerada) transformada na renovação mais esperada pela Kop desde que Gerrard rejeitou as investidas de Mourinho para juntar-se a Lampard na sua primeira etapa ao serviço do Chelsea. Com o uruguaio num estado de forma absolutamente demolidor, o Liverpool encontrou forma de somar mais de metade dos pontos dos que já tinha a esta altura em toda a época passada. A dois pontos do líder, o Arsenal, os próximos dois meses serão fundamentais para dar forma a um topo de tabela confuso onde a liderança dos gunners se encurtou abrindo a luta real a Chelsea e City e colocando o Pool e Everton como inesperados contenders. 

 

Suarez é provavelmente uma das melhores noticias para o futebol europeu. O jovem que o Ajax descobriu e trabalhou desde a base a ponto de o transformar num dos mais letais avançados do Mundo é um dos protagonistas individuais do ano. Pertence a essa raça de génios, como Ibrahimovic, van Persie, Ribery, Robben, Iniesta ou Falcao que mereciam um reconhecimento suplementar mas que pagam o preço de coincidir no mesmo tempo e espaço que dois extra-terrestres do futebol. Ainda assim, o uruguaio poderá sentir-se recompensado. Esta pode, muito bem, ser a sua temporada de sonho!

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 04.01.13

Um clube corre o risco de perder o seu melhor jogador sem receber um só cêntimo em troca no mês de Julho. Recebe uma oferta de 6 milhões de euros para antecipar a saída em meio ano. O jogador não é opção do técnico e recebe mais dinheiro do que qualquer outro jogador fora do leque de futebolistas das duas gigantes multinacionais do pais. E no entanto, não o vende. É isso e muito mais o que lhe passa a Fernando Llorente.

 

Llorente queria sair em Junho. O clube não o deixou.

Tinha uma cláusula de rescisão de 40 milhões. E um ano mais de contrato. O clube ofereceu a renovação fazendo dele o jogador mais bem pago da liga. De todos os que não são do Barcelona ou Real Madrid, claro. Mais bem pago do que Falcao, mais bem pago do que Soldado, do que Isco, Joaquin ou Adrian. E Llorente disse que não. O clube tentou fazer o mesmo com Javi Martinez e este também lhes disse que não. Apareceu o Bayern Munchen com 40 milhões de euros na mão para pagar a cláusula de rescisão e mesmo assim, com o maior encaixe de sempre da história do futebol espanhol (salvo dos grandes), o Bilbao foi queixar-se à UEFA de que as coisas não tinham sido bem feitas. Llorente sabia o que o esperava.

Quando Bielsa soube que o avançado riojano não queria renovar, decidiu mandá-lo ao banco de suplentes.

Ele que tinha sido fundamental na época espantosa dos bascos, com duas finais perdidas em Bucareste e Madrid, mas com performances memoráveis, agora era suplente descartado. O clube voltou a contratar Aduriz - isto de só jogar com bascos obriga a vender e voltar a comprar bastante gente - e Llorente passou a primeira volta mais tempo no banco do que em campo. Em Agosto apresentou ao clube uma oferta de Juventus. Eram 10 milhões de euros em dinheiro vivo pagos imediatamente. O clube disse que não. A honra valia mais do que o dinheiro.

 

Se a postura do Bilbao, reforçado pelo dinheiro para pelo Bayern, podia fazer sentido em Agosto, agora não o faz.

O clube tentou voltar a convencer Llorente a renovar. Mas este recusou-se sempre. Está no seu direito. Os seus argumentos são mais do que lógicos. Conhece as limitações de um clube especial e quer provar outras realidades, ouvir o hino da Champions League, manter-se nas opções de Vicente del Bosque para o Mundial do Brasil. Mas o autoritarismo absoluto do Bilbao transformou-se numa gestão negativa para o próprio clube.

Llorente sairá, queira o clube ou não.

Pode sair a zero ou pode sair por seis milhões. Dinheiro que podia ser utilizado, entre outras coisas, para pagar o empréstimo para a reconstrução do novo estádio. Para perdoar as quotas aos muitos sócios no desemprego, um mal que afecta o Pais Basco como o resto de Espanha onde há 5 milhões de desempregados. Melhorar a ficha salarial de outros jogadores. Baixar o preço das bebidas no novo estádio. O que quiserem.

Ao rejeitar esses seis milhões agora, o clube quer mostrar que está por cima do bem e do mal, do dinheiro e das comodidades que ele traz. Continuarão a não utilizar Llorente, salvo em momentos pontuais (já só estão na liga, eliminados precocemente de Taça e Europe League), nos vinte e dois jogos que faltam disputar até Junho. A Juventus continuará sem um avançado de referência. E no final os adeptos serão confrontados com uma realidade curiosa. Uma directiva que saca peito de uma negociação que perdeu no primeiro dia, fazendo valer a sua lei autista. E um buraco nas contas que ficou por tapar por pura teimosia. É também assim o futebol quando gerido apenas no coração e não na cabeça. O Bilbao pode dar-se a este tipo de luxos. É um clube que não gasta muito no mercado porque tem um critério exclusivo de profissionais. É um clube que sempre teve as contas mais perto do verde, está no coração da zona mais rica de Espanha depois de Barcelona e Madrid. E está associado ao movimento independentista basco, o que lhe dota de muito prestigio na sociedade local.

 

Llorente tornou-se vitima dessa tripla realidade. Perdeu um ano da sua carreira desportiva por uma birra desportiva. O Athletic Bilbao perdeu entre 10 a 6 milhões de euros. No final de contas, o clube consegue o que quer. Provoca mais dano ao jogador mal amado, à antiga estrela de San Mamés do que a si mesmo. Uma birra infantil que custa dinheiro e momentos de prazer a um profissional que, enquanto lá esteve, deu tudo pela camisola. Quando dizem que aos jogadores lhes falta gratidão com os clubes muitas vezes é verdade. Mas nem sempre é um mal que percorre a auto-estrada do futebol na mesma direcção. Há clubes com muito passado mas com muito pouca memória!


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Miguel Lourenço Pereira às 14:30 | link do post | comentar

Quarta-feira, 19.12.12

É inegável que perfume do futebol do Barcelona de Vilanova não se aproxima do aroma apaixonante dos anos de Guardiola. Mas com uma abordagem mais pragmática, o técnico conseguiu um feito histórico que dificilmente será igualado nos próximos anos. Termina a primeira parte do campeonato invicto e com o título no bolso. Entender o Barcelona de Tito é, sobretudo, entender a relação entre o génio de um individuo e o valor de um colectivo perfeitamente oleado.

 

A goleada aplicada ao Atlético de Madrid confirmou que nenhum clube no futebol espanhol está, actualmente, sequer perto do nível do Barcelona de Tito Vilanova. Da mesma forma que Bob Paisley pegou na herança fundadora de Bill Shankly e aperfeiçoou a máquina, tornou-a mais eficaz e pragmática, também Vilanova recolheu a pesada herança de um génio como Guardiola e aproveitou-a da melhor forma possível. 

O Barça de Tito é, mais do que nunca, Messi e mais dez.

O estado de graça do argentino é evidente, a sua fome de golos inaudita e a forma como a equipa se adapta, cada vez mais, ao seu estilo de jogo, transforma o onze num projecto circular em que o argentino funciona como sol, sempre brilhante, sempre presente. Seis jogos consecutivos a bisar, 24 golos em 16 jogos, registos pulverizados e uma liderança silenciosa mas omnipresente, garantem a Tito Vilanova o melhor arranque de sempre da história do futebol do país vizinho. Guardiola perdeu o jogo inaugural, algo que Tito ainda não sabe o que é. A partir dessa derrota em Sória, o Barcelona cresceu e chegou a Dezembro com as mesmas sensações actuais. Mas esse jogo era mais coral, menos dependente do génio individual de Messi. Era o Barça onde brilhava Etoo, onde Henry renascia, em que Pedro começava a aparecer e, sobretudo, em que o trio Iniesta-Xavi-Busquets se mostrava encantado de conhecer-se e jogar juntos. Uma lufada de ar fresco diferente desta máquina assassina e implacável.

Vilanova percebeu, como Guardiola, que tudo tem de rodear Messi. O técnico de Santpedor descartou Ronaldinho, Deco e Etoo quando percebeu que não aceitariam nunca jogar para o argentino e teve de fazer o mesmo com Ibrahimovic e Villa quando estes chocaram com o ego e a fome de golos da Pulga. Foram etapas conturbadas dentro do balneário que ajudaram a desgastar a liderança de Guardiola à medida que Messi aumentava claramente o seu poder dentro da instituição até que se tornou inevitável a saída de um dos dois. Vilanova herdou uma situação resolvida, uma liderança inquestionável (e merecida), e uma equipa oleada e com uma ideia na cabeça: apoiar-se no génio individual de Messi para lograr os êxitos colectivos.

 

Vilanova é, ao mesmo tempo, um treinador extremamente pragmático. 

Na dualidade Pep-Tito, o antigo campeão europeu como jogador era o amante das experiências. Deambulou entre o 4-3-3 e o 4-6-0, reforçando a sua devoção pelo jogo de meio campo. Provou repetir o modelo de Cruyff com o uso de três defesas e muitas vezes alternou o jogo de extremos com o de interiores, garantindo quase sempre que os onzes se mudavam ciclicamente de jogo para jogo. Provou vários jogadores, deu minutos a miúdos da formação e provou que não havia vacas sagradas no balneário. Ao contrário, Tito prefere uma abordagem mais estável.

O seu 4-3-3 é invariável, uma aposta clara num extremo sempre bem aberto (Pedro), um avançado mais móvel que jogue nos espaços deixados por Messi (Cesc, Alexis, Villa), um meio-campo que segure a bola e a faça circular (Busquets, Xavi, Iniesta ou até Cesc) e um lateral mais ofensivo, com o eixo a mutar do lado direito, onde Alves brilhava, para o esquerdo onde o protagonista é agora Jordi Alba. A nível defensivo, Vilanova sofreu uma razia durante largos meses mas o problema não se notou nos resultados porque a cada golo sofrido a equipa encontrava forma de dar a volta. O papel de Messi foi superlativo.

Enquanto a crise do Real Madrid se agudiza e reflecte os números de golos marcados por Cristiano Ronaldo (14 em 16 jogos, menos seis do que logrou na época passada à mesma altura) os de Messi crescem e resolvem, muitas vezes, o problema colectivo. Os rivais do Barcelona encontraram forma de ultrapassar o jogo coral, de encontrar as fragilidades defensivas, de explorar o jogo de posse de bole. O que ainda não encontraram foi uma maneira eficaz de anular de forma consistente a Messi. A derrota em Glasgow provou que só um mau dia do argentino pode impedir a equipa de dar a volta à mais aziaga das situações. Em nenhum caso Tito abdicou do seu modelo, como fez Guardiola tantas vezes, e procurou algo diferente. Tello, Cuenca, Thiago perderam espaço face a um onze mais coral, onde se nota evidentemente o peso dos nomes fortes do vestuário, descontentes com a constante rotação a que Guardiola os votava. Fabregas ergueu-se em protagonista, à custa de David Villa, cada vez mais ostracizado, e Iniesta cada vez joga menos onde está mais cómodo. Nota-se a ideia de Vilanova em privilegiar os homens que ajudou a criar quando foi treinador de juvenis e se cruzou pela primeira vez com Piqué, Messi e Cesc. 

 

Se o titulo espanhol está mais do que garantido, deve-se sobretudo ao respeito que o Barcelona impõe. A grande virtude do processo Guardiola foi criar nos rivais o respeito e o medo absoluto que antes era premissa do Real Madrid. As equipas sobem ao campo conscientes da sua inferioridade, um primeiro passo para a derrota. A bipolaridade do futebol do país vizinho é financeiramente real mas no relvado é ainda maior, surpreendendo só a péssima época de um Real Madrid entregue a um lunático que procura, entre o cerco a jornalistas e jogadores, por um problema insignificante comparado com a falta de fio de jogo alarmante que no ano passado era resolvida com a genialidade individual dos seus grandes jogadores. O Barça de Vilanova não está à altura da cultura futebolística de Guardiola, mas o Liverpool de Paisley também não o esteve de Shankly. Foi no entanto com ele que o clube atingiu a sua época dourada. Resta saber se também nisto, Vilanova será capaz de emular o único homem que venceu três Champions League na história do futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Quarta-feira, 14.11.12

Numa era em que os analistas mais progressistas teimam em querer enterrar o ponta-de-lança, como fizeram no passado com os extremos e os criativos puros, novas versões da velha espécie teimam em desmentir a filosofia de que o falso-nove, uma invenção de sessenta anos, é o futuro. Javier Hernandez e Edin Dzeko vivem a poucos quilómetros de distância um do outro. Mas no terreno de jogo partilham a mesma habitação. E sabem como fazer dela a mais aconchegante da casa. A sua, a do golo.

 

A contratação de Robie van Persie parecia condenar Hernandez ao esquecimento. 

O mexicano viveu, há duas épocas, uma explosão prodigiosa no ataque do Manchester United, relegando o milionário Dimitar Berbatov para o esquecimento definitivo de onde nunca mais saiu. Foi o homem dos golos definitivos, especialmente quando a chama de Rooney se apagou. Mais do que uma vez.

Chicharito, diminutivo de quem ama o golo (chicharro é golo em vernáculo popular espanhol), tornou-se sinónimo de triunfos épicos naquela escola que tanto apaixona o futebol inglês. Relembrou as gestas de Fairclough, do Liverpool, de Solskjaer, do United, homens que saiam do banco para tratar por tu as redes adversárias. Ele era e ainda é o símbolo de uma nova geração de um país que está destinado a grande voos. E no entanto, nem Ferguson nem os analistas pareciam confiar nele de forma evidente para dar-lhe a titularidade absoluta do gigante de Manchester. Não era o avançado móvel tão em voga, como todos os predadores, vivia de séries positivas e negativas e no futebol actual não há margem de erro. E no entanto estava aí, a responder com golos às dúvidas dos próprios e estranhos. Este ano, a chegada de van Persie podia ter sido o seu fim. O holandês tem respondido com golos, desmarcações e movimentações que agradam a quem se apaixonou por Hidgekuti ou Rivelino reconvertidos em Messi ou Fabregas, como se o nove e meio fosse coisa do hoje e do amanhã. Não é. E os grandes goleadores não desapareceram por completo. Hernandez tornou-se no abono de família do Manchester United no último mês. 

Os golos do mexicano permitiram ao clube trepar até ao primeiro lugar da Premier League, de forma isolada, e ajudaram a garantir o apuramento directo para a próxima fase da Champions League, sem o sofrimento de outros anos e as eliminações precoces como na época passada. Com Rooney cada vez mais reconvertido a falso número 10 (ou 8, como queiram) a partir desde o meio-campo para estabelecer a ponte com o ataque, o mexicano vai aproveitando os minutos e os espaços para deixar a sua marca. Não é nem será titular na cabeça de um homem, como Ferguson, que sempre quis avançados velozes como Hughes, Cantona, Cole, Yorke, van Nistelrooy, Tevez, Rooney e van Persie. Mas cada vez mais prova que é um jogador que pode ser titular absoluto em qualquer equipa do Mundo.

 

Do outro lado da cidade, o lado azul celeste, há um homem que entende o mexicano à perfeição apesar de vir do frio dos Balcãs para o céu cinzento mancuniano. Edin Dzeko é a versão citizen de Hernandez, o goleador absoluto dos momentos desesperados, o homem que parece não ser contabilizado como primeiro opção numa linha de ataque onde os nomes próprios - Aguero, Balotelli e Tevez - correspondem a esse arquétipo moderno do avançado móvel e todo terreno. 

Dzeko pode ser mais previsível, o seu jogo mais físico e posicional, a sua influência no comportamento do colectivo menos evidente. Não desce tanto a fechar linhas, não exerce as mesmas diagonais a meio-campo mas inspira terror em qualquer defesa contrária. Por quatro vezes este ano saiu do banco nos últimos dez minutos e ajudou o City a dar a volta ao marcador e a garantir doze pontos que mantêm os campeões vivos na luta pela renovação do título histórico logrado na época passada. Um título com o seu selo, com golos importantes nas segundas partes onde Mancini perdia a fé nele mesmo e deixava tudo nas mãos de Deus, da sorte e Dzeko.

O bósnio demonstrou na Bundesliga que é um dos melhores avançados puros do Mundo. A sua transferência para Manchester fazia sentido mas encontrou-se com a fome exagerada de uma equipa que prefere contratar primeiro e pensar depois. O overbooking ofensivo, com quatro jogadores de excelência, causou danos colaterais. Dzeko foi o primeiro. Talvez tenha o melhor ratio de golos e minutos do futebol europeu, talvez seja um dos avançados mais importantes nas vitórias agónicas da sua equipa, mas acaba sempre relegado para quarta opção. Ele é o herdeiro de Nial Quinn, o homem dos golos decisivos, o goleador em quem os adeptos sabem que podem confiar quando mais ninguém salva a pátria. 

Como Hernandez, o bósnio é exemplo de uma velha raça que ajudou a fazer do futebol um espectáculo de golos. Quando a história comemora os feitos dos homens que decidem os jogos com os seus gestos implacáveis, que cheiram o sangue e o medo dos rivais, seguramente terá sempre um espaço para lembrar-se homens como Edin e Javier, goleadores puros que resistem à passagem do tempo e ás modas para demonstrar que a beleza do futebol parte também da sua pureza e simplicidade absoluta. 

 

A linguagem do golo tem muitas entoações distintas e a imensa variedade de tipos de dianteiros ajudou o jogo a crescer e a aperfeiçoar-se. Mas o nascimento - ou redescoberta - de novas posições não deve, à partida, significar a extinção de outras. Os goleadores puros serão sempre fundamentais na concepção de qualquer plantel e os êxitos recentes de Dzeko e Hernandez apenas significam que o nove saberá sempre encontrar formas de se reinventar.



Miguel Lourenço Pereira às 12:44 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Segunda-feira, 12.11.12

Depois de um sprint final que prometia ser intenso, acabou-se o suspense no Brasileirão e o Fluminense conquistou o seu quarto título nacional, o segundo em três anos, consolidando-se como um dos mais sólidos e bem sucedidos clubes do historial recente brasileiro. Apesar da pressão do "Galo" de Ronaldinho e a surpreendente etapa final do Grémio de Porto Alegre, o clube carioca resistiu a tudo e todos e carimbou mais um troféu, o terceiro em três anos.

 

Fred marcou, voltou a ser o protagonista, e fechou com chave de ouro uma época inesquecível para o Flu.

O goleador do campeonato brasileiro, que depois de uma etapa como emigrante intermitente voltou em grande ao país natal, foi o grande herói individual de uma equipa que Abel transformou num colectivo difícil de manobrar. O Fluminense foi a equipa mais regular da época e depois de um brilhante arranque soube gerir bem a sua vantagem e vencer a prova a três jogos do fim. Nem a derrota em Belo Horizonte, contra o Atlético Mineiro, colocou em cheque o título. No jogo do ano, os homens de Ronaldinho foram melhores mas o atraso já era considerável e os tropeções seguintes dos alvinegros facilitaram o título carioca. O empate contra o Vasco da Gama a um golo abriu as portas ao título do Fluminense. Que não enjeitou a possibilidade. 

Abel Braga, um dos grandes históricos dos bancos brasileiros, soube trabalhar bem a herança da espantosa equipa de 2010, onde brilhava o argentino Dario Conca e começava a dar os primeiros passos Deco, fundamental na organização do meio-campo do clube do Rio. Pode já não ter pernas para aguentar o ritmo europeu, mas o luso-brasileiro continua a ser um dos jogadores mais importantes do futebol mundial e o seu papel no título dos cariocas não pode ser ignorado. Entre ele, Wellington Nem, Thiago Neves, Fred e as notáveis exibições do guarda-redes Diego Cavalieri, desenhou-se o sucesso individual de um colectivo muito mais forte que qualquer outro rival brasileiro.

Três derrotas em 35 jogos é algo espantoso na realidade brasileira, um campeonato extremamente competitivo e onde todos podem perder pontos em qualquer terreno. O Fluminense tem o melhor ataque, a melhor defesa e o melhor registo em jogos fora de portas (11 vitórias, pelas 6 do Grémio, por exemplo). Ninguém apresenta números similares na prova nos últimos anos.

 

O clube do Rio de Janeiro tem algo que falta aos seus rivais: solidez financeira.

É uma instituição bem gerida, com os salários em dia, que sabe mexer-se no mercado com habilidade e que mistura veteranos e jovens promessas com critério e paciência. Em 2010 venceram de forma clara o título e dois anos depois repetem a gesta com ainda maior naturalidade. A herança de Muricy Ramalho foi preservada por Abel Braga, que já tinha recentemente obrado a reconstrução do Internacional de Porto Alegre, e levada a outro extremo. Ninguém duvida que o Flu é um dos máximos candidatos a vencer a Libertadores do próximo ano.

O clube manterá a estrutura, a começar pelo técnico, e ninguém espera que veteranos como Deco e Fred saiam. No Brasil ninguém paga tão bem e a horas como o Fluminense, muito mais solvente actualmente do que históricos rivais cariocas como Flamengo ou Vasco da Gama, a pagarem o preço de gestão calamitosas na última década.

A vitória do Fluminense parecia evidente e só foi colocada em questão pela recuperação espantosa do Atlético Mineiro.

Liderado pelo regresso do grande jogador da última década, Ronaldinho, o Galo recuperou a pouco e pouco o atraso e no duelo entre os dois primeiros, o jogo do ano, venceu e encurtou distâncias permitindo aos adeptos sonhar com um campeonato histórico. A qualidade de Bernard, os golos de e a liderança de "Dinho" pareciam condimentos únicos para uma receita de sucesso mas os líderes foram psicologicamente mais fortes e aguentaram o pulso e a distância nas jornadas seguintes não se voltou a encurtar. De tal forma que o Atlético Mineiro perdeu gás e foi apanhado pelo Grémio na tabela classificativa, outro clube que arrancou para um sprint final épico.

Num torneio que pode ficar marcado pela despromoção de outro grande, o Palmeiras, a vitória do Fluminense não só é mais evidente pelo excelente trabalho do Galo em aguentar o suspense do título quase até ao fim da prova. As próximas jornadas servirão para cumprir calendário e para Fred ampliar a sua lenda como goleador para Mano Menezes ver, ele que teima em não confiar no dianteiro carioca como opção para o ataque do escrete canarinho.

 

O triunfo do Fluminense permite estabelecer uma ponte com 2010 e afirmar, sem problemas, que estamos perante um domínio equivalente ao do São Paulo, no final da década passada. Estão em jogo todas as condições para o título se repetir nas próximas épocas e o próximo passo do clube carioca será restabelecer a importância do futebol brasileiro na máxima prova continental de clubes e marcar presença no Mundial de Clubes do próximo ano.



Miguel Lourenço Pereira às 11:54 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Domingo, 09.09.12

O gesto. A raiva tranquila, o movimento de corpo, a colocação da bola. Uma bola que nos seus pés respira com calma, sente-se segura, fecha os olhos e voa. Durante uma década foi um dos melhores jogadores do Mundo, ano sim, ano também. Talvez por ser o menos egoista das estrelas, o menos mediáticos dos astros, falhou sempre nas corridas aos prémios individuais mas ninguém dúvida que entre os grandes da história do jogo e, provavelmente, no pódio do mais grande do futebol gaulês está uma gazela chamada Thierry Henry.

Acreditemos por um segundo que se podem comparar épocas, se podem comparar equipas, rivais, colegas, jogadores, bolas, terrenos, estádios, que tudo vale o mesmo e é igual aos olhos dos adeptos. Enfim, que se pode jogar ao jogo do "maior de sempre", uma expressão que sempre dá comichão aqueles que, como eu, acreditam que o futebol é feito de evolução mas que essa evolução não significa, forçosamente, que o presente é melhor que o passado sempre e que há coisas que, pura e simplesmente, são incomparáveis.

Mas joguemos o jogo por um breve instante e olhemos para a história do futebol francês.

Um país entre os mais desportistas do mundo mas que sempre olhou desconfiado para o futebol, desde a sua génese. Jogo de ingleses, e portanto jogo a evitar, jogo de proletários e, portanto, desprezado por uma burguesia que sempre preferiu o ténis, os desportos automobilisticos ou o ciclismo, o futebol em França não deixa de ser uma religião mas acaba por ser um credo mais alternativo do que estabelecido. Ao contrário dos ingleses, os franceses respeitam mas não veneram, vibram mas não perdem a cabeça e bailam ao som do triunfo e desligam o monitor na hora da derrota sem pestanejar. Nesse cenário houve poucas equipas gaulesas que passaram à posteridade. Mas jogadores, jogadores nunca faltaram.

De Ben-Barek, o astro de origem marroquina dos anos 30, a Frank Ribery e Karim Benzema, passaram oitenta anos de muito talento e magia. Dentro dessa lista de génios, a opinião pública sempre se dividiu em dois nomes: Michel Platini e Zinedine Zidane. 

São eles os mais galardoados, os mais aplaudidos, os mais venerados dos jogadores franceses. Entre eles estão cinco Ballon D´Ors, dois Europeus, um Mundial e duas Champions League. Coisa pouca. Mas pessoalmente, e só porque desta vez jogamos o jogo, não encontro aqui nem o primeiro, nem o segundo melhor jogador de um país que também foi o de Just Fontaine, de Raymond Kopa, o de Alain Giresse, o de Jean Tigana, o de David Ginola, o de Didier Deschamps, o de Robert Pires, o de Dominique Rocheteau ou o de Jean-Pierre Papin. Nomes no entanto que vivem na sombra de dois génios que conheceram em Inglaterra o reconhecimento que o resto do Mundo nunca lhes quis dar: Eric Cantona e Thierry Henry.

 

Se de Cantona, provavelmente o jogador mais icónico do futebol britânico moderno, falamos e voltaremos a falar, que se pode dizer de Henry.

Para muitos sugerir que Henry é mais do que Zidane pode ser blasfémia. E ninguém é dono da verdade para dizê-lo ou não. Mas o médio que foi da Juventus e do Real Madrid depois de ter sido do Cannes e do Bordeaux, genia lcomo poucos, nunca despertou a mesma sensação de prazer supremo que Henry naqueles que seguiram a sua trajectória londrina com paixão.

Henry é provavelmente o jogador gaulês mais completo de sempre. Foi sem dúvida o melhor jogador da Premier durante a última década (como o foi Cantona na década de 90), o mais laureado por jogadores e imprensa, o mais amado pelos adeptos neutrais, incapazes de aceitar o estilo de Cristiano Ronaldo, os golos de Michael Owen ou os tiros de Frank Lampard ou Steven Gerrard como algo por encima do génio supremo do gaulês. Henry marcava com a mesma facilidade que assistia. Podia ter sido um goleador ainda maior, atingir números muito mais próximos dos que hoje apresentam Ronaldo e Messi, não fosse também um jogador profundamente colectivo, um rei de assistências, um iniciador de lances tão bom como os que finalizava. Com frieza, com raiva, com classe.

Henry começou debaixo da asa de Arsene Wenger no Monaco e explodiu sob o seu comando. Pelo meio uma etapa para esquecer em Turim, ao serviço da Juventus. Foi daí que o técnico alsaciano o recuperou e deu-lhe o lugar que era de Nicolas Anelka, recém-vendido ao Real Madrid. À sua volta construiu uma equipa inesquecível, com Bergkamp, Pires, Ljunberg, Vieira e Wiltord. E deu-lhe a liderança do seu projecto. Liderança que Henry exerceu sem autoridade mas com um magnetismo profundo. 

Faltou-lhe a Champions que ganharia em Barcelona, já na sua etapa decadente, mais pelos problemas fisicos do que pelo génio que nunca perdeu, e faltou-lhe sobretudo o Ballon D´Or. Incompreensivelmente perdeu-o em 2000 para o seu amigo Zidane e em 2004 para Schevchenko. Mas nunca perdeu o amor dos adeptos neutrais, para não falar dos gunners, deliciados com o seu serpentear, os seus livres directos imparáveis, o seu golpe de cabeça autoritário, os toques de calcanhar que do nada davam golo, os seus passes impossíveis, as suas mudanças de velocidade maradonianas e, sobretudo, o seu passeio elegante sobre o relvado como se de um semi-deus se tratasse. 

 

Thierry Henry pertence a uma casta de jogadores que são apreciados no presente e que ganharão contornos de mito à medida que os anos passem e os adeptos revejam as suas obras de arte com outros olhos. Se já no seu prolifero periodo activo sempre dava a sensação de disputar mano a mano o titulo honorifico de melhor do mundo com jogadores muito mais mediáticos, hoje continuamos sem encontrar jogadores que tenham pegado no seu testemunho e ido mais longe. Henry pode não ser um icone global, por mil e um motivos, como foi Cantona. E pode não ter os prémios de Platini e Zizou. Mas olhando para trás e olhando para hoje é impossível dizer, jogando a esse jogo maldito, que algum deles possa fazer sombra a um Thierry que define, com o olhar, o que significa a palavra futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 20:52 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sábado, 01.09.12

Em dois anos o Atlético de Madrid venceu duas Supertaças Europeias. Com duas equipas totalmente distintas. Só Gonzalo Godin, central uruguaio, participou como titular nos dois jogos. Uma revolução que contrasta com o sucesso europeu do clube. Dois projectos diferentes, duas Europe Leagues e Supertaças Europeias conquistadas com todo o mérito. Como é possível vencer depois de desmantelar uma equipa vencedora? Em Madrid o Atlético tem uma fórmula. Cheia de sombras escuras.

 

Falcao.

Um nome próprio que para os colchoneros vale ouro. E títulos. Mais do que os adeptos do segundo clube da capital espanhola podiam esperar. Especialmente depois da direcção do clube ter desmantelado uma equipa forjada para ganhar e que superou todas as expectativas, apenas dois anos antes. Em 2010, com Espanha ainda a desfrutar do título mundial conquistado em Joannesburgo, a equipa colchonera chegou ao Mónaco para disputar a Supertaça Europeia frente ao campeão europeu em título, o Inter de Milão.

Os homens de Quique Sanchez Flores tinham vencido a Europe League numa final intensa contra o Fulham inglês. Não eram favoritos. Mas venceram. E convenceram. Deixando a ideia de que o projecto forjado anos antes tinha finalmente pernas para andar. Mas a realidade seria bem distinta. Aguero, Forlan, De Gea, Simão, Tiago, Raul Garcia, Perea, Antonio Lopez, Ujfalusi, Dominguez, nomes próprios e titulares indiscutiveis dessa equipa. Nomes ausentes na noite de ontem. No mesmo cenário. Na luta pelo mesmo troféu.

O projecto de Quique terminou de forma abrupta. O treinador saiu em choque com a direcção e atrás dele foram todas as estrelas. Os adeptos não podiam acreditar que, meses depois de atingir a glória do primeiro titulo europeu, o projecto se estivesse a desmantelar de forma tão rápida. Mas não havia volta atrás. Esperavam-se dias sombrias no Manzanares para a paróquia colchonera. Ou talvez não.

Apenas dois anos depois, os adeptos do Atleti voltaram a percorrer os 1300 kms que os separava do Mónaco. Em carro, autocarro ou avião. Para ver Falcao, Adrian, Arda Turan ou Courtois, os novos ídolos do Calderon.

 

Que um clube europeu vença dois titulos europeus num espaço tão curto de tempo não é anormal. 

O Sevilla venceu duas Taças UEFA de forma consecutiva, o domínio do Barcelona no futebol europeu tem existido de forma, quase ininterrupta, desde 2006 e o próprio Real Madrid, entre 1998 e 2002 ganhou três Champions League. Mas em nenhum caso houve um corte tão drástico de um projecto para o outro. 

O Atlético de Madrid vendeu a 15 dos jogadores do plantel da sua equipa campeã em 2010. Godin e Raul Garcia são os únicos nomes que estiveram nas duas finais no espaço de dois anos. O que torna o feito ainda mais difícil de explicar se não se conhece a forma como o clube colchonero se move pelos meandros do futebol.

A herança de Jesus Gil y Gil é pesada. Tanto pelo seu carisma como pelo passivo gigantesco que deixou para o seu filho, Miguel Angel Gil Marin, e o seu braço direito, o productor cinematográfico Enrique Cerezo, gerirem. O clube foi forçado pelas finanças espanholas a assinar um protocolo para abater a dividia gigantesca que ainda mantém com o estado espanhol. E que tardará largos anos em pagar-se na sua totalidade. O acordo prevê que 20% da percentagem de cada venda de um jogador do clube seja directamente remetida para pagar a dívida. Sem sequer entrar nos cofres do clube. Uma realidade que obriga o Atlético a vender sempre que surge uma boa oferta. E que obriga o clube a procurar bons negócios. E a desenhar o seu plantel a baixo custo. A esmagadora maioria dos seus jogadores chegou ao Calderon a custo zero ou por valores ridículos, tendo em conta o mercado actual. Adrian, Arda Turan, Emre, Cebolla Rodriguez, Raul Garcia, Juanfran e Cata Diaz foram todos contratados a custo zero. Courtois está emprestado pelo Chelsea e assim seguirá, fruto de um protocolo de colaboração entre os dois clubes. Desenhado por Jorge Mendes, figura fundamental na vida do clube.

O empresário português é um dos homens fortes do clube desde a sombra. Uma das suas holdings tem fortes interesses no clube, ajuda a gerir os contratos publicitários e utiliza o nome do Atlético para servir de ponte para a maioria dos seus negócios. Pizzi, Julio Alves, Ruben Micael, Diego Costa, Tiago são meros exemplos. Não há homem que entre no clube sem o visto de Mendes, hábil em conseguir dinheiro onde mais ninguém consegue. Foi ele o valedor do negócio de Radamel Falcao. O homem que permitiu que os colchoneros voltassem a viver um dia da marmota.

Depois da perda de Aguero e Forlan, o ataque órfão do Atlético precisava de uma referência. O empresário português persuadiu o colombiano a mudar de homem de confiança, renovou o seu contrato com o FC Porto ampliando a cláusula (e ganhando uma comissão) e depois geriu a sua venda ao Atlético de Madrid (ganhando outra comissão) em moldes muito mais atractivos para os espanhóis. 20 milhões pago a prontos (dos quais os azuis e brancos só viram 10, entre comissões e dividas pendentes) e outros 20 milhões a pagar em dez anos. Ruben Micael, outro dos seus homens, entrou no negócio para maquilhar as contas mas em Madrid ninguém o viu. Acabou em Zaragoza e agora está em Braga. De onde veio Pizzi que está na Corunha, onde Mendes tem mais seis jogadores e de onde veio Adrian. Entendem? 

 

Falcao é o nome próprio deste Atlético. 

Atrás de si, Diego Simeone, velha glória do clube e técnico que fez nome na Argentina antes de dar o salto à Serie A, montou uma equipa repleta de talento mas, sobretudo, de musculo. Um meio campo com o trabalho duro de Mario Suarez, Gabi, Koke e Tiago, que dá asas ao jogo vertical de Adrian, Arda e Falcao. Falta Diego, outro jogador que chegou cedido para ser fundamental no titulo europeu conquistado em Bucareste frente ao Athletic Bilbao, mas cuja massa salarial é incomportável para os colchoneros. É no entanto o colombiano quem faz toda a diferença. Não foi só o terceiro melhor marcador da liga - insuficiente para levar a equipa à Champions League, o grande objectivo - mas também carregou com a equipa durante a Europe League até decidir a final. No Mónaco foi igual a si mesmo. Cinco remates, dois postes, três golos, tudo em 45 minutos. Um fenómeno apenas equiparável, em tempos recentes, ao de Ronaldo Nazário. 

Com o colombiano na equipa, o Atlético sabe que tem um projecto de rentabilidade a curto prazo. A directiva sabe que o objectivo é a Champions League e depois, com 15 milhões garantidos, é certo que Falcao será colocado de novo por Mendes, que muitos dos jogadores que chegaram a zero serão vendidos a peso de ouro e que o processo recomeçará de novo, desde o zero. Pelo caminho estão os jogadores ainda não pagos, como Fórlan, os sucessivos empréstimos conseguidos por Cerezo para pagar os salários a tempo e horas e o fantasma do novo estádio, La Peineta, para que o clube possa realizar o fundamental encaixe da venda dos terrenos do Calderon, numa zona privilegiada de Madrid. Números que, se não se concretizem, deixam o Atlético com a corda ao pescoço. 

 

Ninguém duvida que, com Radamel Falcao, os madrileños são de novo favoritos a vencer a Europe League e têm condições para acabar no pódio da liga espanhola. A segurança defensiva, a grande obsessão do Cholo Simeone, será fundamental bem como a crescente aposta na formação, uma linguagem que os espanhóis aprenderam a saborear com os troféus recentes da sua selecção. Mas os seus adeptos sabem também que enquanto o clube viver entre dividas, nenhuma festa se poderá prolongar no tempo. Talvez por isso cada vitória tenha um sabor ainda mais especial, talvez por isso sentir que Falcao, um jogador por quem se pagou tão pouco e que seguramente renderá tanto, é o exemplo perfeito desta gestão. Com os contactos certos, sem dinheiro fresco na mão e pensando apenas no hoje também se desenha um projecto ganhador.



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Segunda-feira, 09.07.12

Carlos Alberto Parreira, campeão Mundial em 1994, tinha adiantado que o futebol acabaria mais tarde ou mais cedo com a figura do ponta-de-lança como fez com a do extremo puro, do número 10 clássico e com o líbero. Anos depois Luciano Spaletti e Alex Ferguson foram os primeiros a tentar implementar o 4-6-0 e Josep Guardiola levou a experiência ao extremo ao jogar num 3-7-0 na final do Mundial de Clubes frente ao Santos. O triunfo espanhol neste Europeu - o seu terceiro seguido em provas internacionais - e o fraco rendimento da maiores dos avançados que viajaram até à Polónia e Ucrânida deixa a pergunta no ar: está o ponta-de-lança perto da extinção?

Nos últimos anos os melhores marcadores do mundo (com diferença absimal para a concorrência) têm sido falsos avançados.

Entre eles somam uma média de quase 150 golos num só ano desportivo, uma barbaridade de números que nem os melhores avançados da história poderiam sonhar. Mas Lionel Messi e Cristiano Ronaldo não são pontas-de-lança. E chamá-los avançados também não é propriamente correcto. Eles são o espelho da nova ordem futebolistica, onde a posição do velho 9 começa a desaparecer.

Se o futebol espanhol colocou de moda em 2008 o tiki-taka, fê-lo com um avançado centro móvel (Fernando Torres) e um outro avançado habitualmente descaído nas bandas (David Villa). Um modelo longe da ortodoxia táctica mas que não era único no mundo. Desde que mudou o século, a maioria dos clubes começaram a preocupar-se cada vez mais com o meio-campo e menos com as duas áreas. Os jogos tornaram-se mais fisicos, mais cansativos, mais pressionantes e era preciso reforçar a zona medular. Sem ousar reduzir o número de efectivos atrás (depois das experiências do 3-5-2 dos anos 80), preferiram ir à frente e abdicar de um homem.

A figura da dupla de avançados começou a desaparecer progressivamente dos alinhamentos. Se o Brasil venceu o Mundial de 94 com dois avançados móveis (Bebeto e Romário) a França de 1998 ganhou-o com um dianteiro (Guivarch) que não entra sequer no top 20 da história do futebol gaulês. Em 2000 os franceses chegam com uma dupla de avançados para uma nova geração, mais atlética e fisica (Trezeguet/Henry) e dois anos depois o Brasil recupera a ideia da defesa a três mas lança definitivamente a moda do dianteiro solitário. Grécia, 2004, Itália 2006, Espanha 2008, 2010 e 2012...nunca mais uma selecção com dois avançados venceu um grande torneio de selecções e o mesmo sucedeu a nível de clubes. Mas em 2006, além de ter apostado numa táctica com Totti como avançado, Luciano Spaletti pediu em vários jogos que o seu número 10 se movesse para o meio-campo criando uma superioridade no miolo imbatível.

Nasceu assim o 4-6-0, com o jogo vertical de De Rossi e Perrota pelo miolo, e de Mancini e Riise pelos flancos, a surpreender uma defesa sem referência de marcação. Um ano depois foi Ferguson a fazer o mesmo. Rooney recuava até ao meio abrindo espaço para que Ronaldo, Giggs, Scholes e Park/Carrick, surgissem em zona de finalização. Não eram sistemas rotinários, não eram o sistema base mas começava a intuir-se que a figura do ponta-de-lança perdia protagonismo. O futebol tinha deixado de produzir dianteiros goleadores com regularidade e depois de uma geração na década de 90 cheia de figuras impares (de van Basten a Jardel), a nova década produzia sobretudo goleadores esporádicos (Toni, Klose, Adriano, Pauleta, Wiltord, Crespo...), incapazes de adaptar-se aos processos colectivos que começavam a ser a principal preocupação dos técnicos. Preocupações defensivas, posicionamento da linha de meio-campo, coberturas dos jogadores da frente através de manobras de pressão alta e, sobretudo, o jogo de costas para a baliza como falso pivot para que a segunda linha, reforçada com três ou quatro unidades, fizesse a diferença.

 

Guardiola foi o primeiro treinador a abdicar de forma sistemática do ponta-de-lança.

No Real Madrid vs Barcelona de 2009 experimentou pela primeira vez a velocidade de Henry e Etoo nos flancos e a mobilidade constante de Leo Messi pelo meio. O resultado, um histórico 2-6 que não só confirmou o génio de um técnico e uma equipa como marcou a tendência do futuro. Etoo partiu, Bojan nunca foi alternativa e a experiência de Ibrahimovic, como pivot ofensivo, não funcionou porque o sueco e Messi entravam em demasiado conflito no terreno de jogo. Contando com o argentino nas filas, Guardiola repensou a estratégia e apostou de forma definitiva pelo 4-6-0. Mas ao contrário desta Espanha, a sua aposta era assumidamente vertical. Do sexteto de meio-campo - à frente de um médio recuperador - juntavam-se dois interiores, um falso nove e dois extremos bem abertos nas alas, habitualmente avançados de raiz como Villa ou Pedro. Com esse modelo não só o Barcelona recuperou o titulo europeu perdido como Messi, como falso nove, superou os seus registos goleadores. Apesar de em teoria o sistema ser similar a um 4-3-3, na realidade a fusão entre a linha medular e ofensiva no terreno de jogo era evidente passando, muitas vezes, a um 3-7-0 com as incorporações de Dani Alves. 

O modelo de Guardiola começou a ser timidamente copiado mas só a selecção espanhola seguiu a prática até às últimas consequências, com a substancial diferença de abdicar de dois falsos avançados como extremos por dois interiores mais, habitualmente Silva e Alonso, que se juntavam ao trio do Barcelona. No lugar de Messi mantinha-se Villa até que uma lesão o levou a deixar o posto a Fabregas. Na prática o desenho era mesmo, apesar da circulação de bola ser mais horizontal que vertical, mas voltava a notar-se a ausência de um ponta-de-lança de raiz. A mobilidade absoluta era a chave de ambos os desenhos.

Não que a Hungria de 53, o Brasil de 70 e a Holanda de 74 não tivessem feito algo similar. Em ambos os casos a mobilidade era a chave. No modelo húngaro o falso nove era Hidgekuti e Puskas e Kocksis os avançados móveis nesse falso WM. No caso brasileiro, Mario Zagallo deu a Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino total liberdade para mudar de posição ao longo do jogo. E a Holanda de Michels inspirou-se no modelo do Ajax para garantir que os laterais apareciam tanto na área de finalização como o trio de ataque. Guardiola - e del Bosque - adoptaram esse conceito sacrificando precisamente o jogador que nesse sistema era o elo mais fraco: Hidgekuti não era dianteiro e jogava no lugar de Kubala; Pelé nunca foi um verdadeiro 9 na acepção do termo e Cruyff gostava de sentir-se omnipresente no terreno de jogo. O modelo centro-europeu sempre gostou de transmitir a ideia de que o futebol é um carrosel em constante movimento e que, quanto mais estática seja uma posição, mais dispensável é no esquema colectivo. Neste caso o dianteiro deixou de ser uma arma preferencial para prender os movimentos dos centrais, desgastar rivais e procurar cada oportunidade de golo para ser um elemento mais do processo criativo, um jogador mais a gerar - antes de que a finalizar - os lances de golo.

Uma postura que exige não só uma conjuntura favorável de jogadores criativos (que o Barcelona reforçou com Fabregas e Sanchez, como se viu na vitória esmagadora, em 3-7-0, contra o Santos) mas também uma disciplina táctica dificil de manejar. Não é coincidência que só os países e clubes que seguem a corrente centro-europeia - que priveligia precisamente esse aspecto criativo antes que o fisico - que foram capazes até agora de o aplicar com relativo sucesso.

 

Gary Liniker, icónico ponta-de-lança inglês, escreveu na sua conta de Twitter na final do passado domingo que o ponta-de-lança estava perto do fim. Será seguramente um exagero, de momento pelo menos. Não só porque a esmagadora maioria das equipas não segue o modelo centro-europeu, ou por um influência cultural ou por incapacidade, mas também porque em todos os restantes sistemas tácticos a figura do avançado continua a ser nuclear. Seja a escola sul-americana, inglesa, nórdica, do leste europeu ou africana a figura do dianteiro tem ainda um prestigio substancial para acreditar que o seu final é inevitável. Se é certo que a evolução táctica acabou com o extremo clássico (como Matthews ou Garrincha) e com o libero (como foi Beckenbauer), também não é menos certo que o golo continua a ser o elemento diferencial num jogo de futebol e nem todas as equipas podem aspirar a ter jogadores com a mesma qualidade e caracteristicas que Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Francisco Totti ou Francesc Fabregas. O avançado perderá impacto social, especialmente porque deixará de ser a figura nuclear nas grandes equipas (os casos de Higuain em Madrid, de Dzeko e Berbatov em Manchester, de Ibrahimovic em Barcelona são exemplos disso mesmo) mas não desaparecerá. Entre os dianteiros mais móveis e fisicos estará certamente o modelo seguido no futuro, o mesmo modelo que a escola brasileira começou a desenhar com Romário e Ronaldo e que agora é a base de inspiração para Benzema, Balotelli, Villa, Neymar ou Aguero, jogadores capazes de misturar num só as caracteristicas de pontas-de-lança, extremos e números 10. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:58 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sexta-feira, 01.06.12

Foi um ano em que se confirmaram velhas ideais do futebol português. A mais óbvia é que em Portugal a frase de Gary Liniker é facilmente adaptável a "e no final ganhamos os dragões". Num dos anos em que o FC Porto se mostrou menos seguro de si mesmo o bicampeonato logrado por Vitor Pereira deixa em evidência uma vez mais os erros dos rivais directos. Uma péssima gestão, por parte do Sporting, uma má planificação de época pelo Braga, que arrancou tarde, e claro, os ovos em diferentes cestos de um Jorge Jesus que teve o titulo na mão e deixou-o escapar das mãos. Isso num ano em que o futebol português, entretido com ampliações, esqueceu-se de pagar as contas e subiu ao terreno de jogo da forma mais vergonhosa de que há memória.

Não foi um FC Porto vintage, nem de longe nem de perto.

Mas foi uma versão profissional quando teve de ser. Em 18 pontos contra Benfica, Braga e Sporting, os dragões amealharam 16. E com isso selaram mais um titulo de campeão nacional, confirmando a hegemonia quase ditatorial que o clube do Dragão tem vindo a exercer sobre o futebol português nos últimos 30 anos. O sucesso dos azuis e brancos, visível também no espaço europeu, é um eucalipto que seca tudo à sua volta e esse domínio asfixiante que reduz a três os títulos do Sporting, um ao Boavista e sete ao Benfica, em 30 anos, é uma realidade preocupante para quem acredita, ou quer acreditar, que a Liga Sagres é realmente competitiva.

E no entanto dos titulos ganhos pelos azuis e brancos, este foi talvez o mais surpreendente porque parecia perdido muito cedo - um arranque de época penoso dentro e fora de portas, com a colaboração da gestão desportiva da SAD e da pouca vontade de um plantel que só acordou realmente em Fevereiro - para o Benfica de Jesus.

 

O técnico não conseguiu bater Villas-Boas em nenhum dos seus duelos com o anterior técnico portista. Mas para a Liga também foi incapaz de ganhar ao adjunto deste, Vitor Pereira, confirmando uma vez mais que o seu talento como treinador, exacerbado em 2010, continua a ser mais um problema que uma solução para o Benfica. A forma como exprimiu o plantel, deixando-o sem forças para o sprint final, repetiu o mesmo problema das últimas duas épocas (mesmo a do titulo) e deixa claro que o técnico encarnado acaba por ser o grande responsável pelo titulo azul e branco. A vantagem que o Benfica detinha em Dezembro parecia, numa liga tão pouco equilibrada como a lusa, suficiente. Não o foi. O Benfica não só perdeu o titulo em casa como voltou a viver com o bafo de um atrevido Sporting de Braga nas jornadas finais. Conseguiu um segundo lugar que sabe a pouco mas que em dinheiro vale muito. A sensação de supremacia moral dos azuis e brancos ficou, assim, imaculada, apesar da venda de Falcao ter aberto um cisma no balneário e um problema sério que Vitor Pereira teve dificuldades em resolver.

Para o FC Porto ter sido campeão também ajudou o mau arranque do Braga, que quando se lançou ao sprint final já partia com atraso, e o enésimo tiro no pé do Sporting, mudando um plantel de forma integra para depois deixar de apostar no treinador que liderava o projecto. O quarto lugar conquistado por Sá Pinto é um mérito, tendo em conta o desastre emocional dos leões em Janeiro, e reafirma a ideia de que a liga lusa é uma questão de um clube, que perde mais quando quer do que quando os demais realmente podem.

 

Do outro lado do mundo da Alice a União de Leiria tornou-se apenas o espelho da pobreza genuína de um futebol que abandonou a sua formação, os seus adeptos e a sua história para entregar-se a projectos insolventes, jogadores importados de terceiro nível e bancadas vazias graças aos preços e horários impostos por clubes e estruturas directivas.

Nesse mundo de loucos a Académica, que se salvou no último dia de descer de divisão, conquistou um lugar na Europe League porque todos os clubes, do 6º ao 13º posto, decidiram não inscrever-se previamente para disputar as provas da UEFA. Uns por decisão pessoal - os gastos das viagens a Israel ou Cazaquistão não são atractivos - e outros pelas dividas acumuladas que, fosse a liga portuguesa uma prova séria, significava a despromoção automática de quase metade dos participantes no torneio.

 

E no entanto 2011/12 foi o ano em que se falou da ampliação a 18 equipas, do regresso das equipas B, de empréstimos interessados de clubes grandes a "falsas" filiais para fintar a legislação e, sobretudo, da profunda crise de governabilidade num órgão onde os pequenos elegeram um presidente que não consegue governar sem o apoio dos grandes.

No meio desse cocktail molotov útil para um hara-kiri pirotécnico, muitos se esquecem de Pedro Martins e do seu Maritimo, da sustentabilidade dos projectos de Gil Vicente, Olhanense, Paços de Ferreira e mesmo do despromovido Feirense e do "aportuguesamento" do Braga, esquecido por Paulo Bento e pela maioria dos grandes com orçamento. Razões positivas para acreditar que há sustentabilidade futura, noutras condições organizativas e económicas, do futebol português. Mas o mais provável é que essa situação, quando se realize, não impeça o dragão de impor a sua lei. Com o plantel mais débil e o treinador mais contestado, o FC Porto revalidou o titulo nacional e nas Antas já começam a contar os anos que faltam para superar o histórico registo de um Benfica que teima em não dar uma versão alternativa sólida ao império do dragão.

 

 

 

Jogador do Ano

James Rodriguez

 

Hulk é o lider moral do FC Porto mas a dois jogos do fim do campeonato o jovem colombiano James Rodriguez tinha tantos golos como o brasileiro. Em metade dos jogos. Depois de uma grande segunda volta no ano de Villas-Boas, muitos esperavam que este fosse o seu ano. Vitor Pereira nunca o utilizou como titular absoluto, talvez interessado em lançá-lo mais como arma secreta pelo miolo em vez de o manter preso à ala. A sua exibição na Luz valeu um titulo, os seus golos e assistências foram nucleares para algumas das vitórias fundamentais do bicampeão e a sua afirmação deixa claro que com a inevitável saída do brasileiro, o projecto azul-e-branco crescerá nos seus ombros. 

 

Revelação do Ano

Lima

 

O Braga contratou-o ao Belenenses ultrapassando todos os outros e pagando tão pouco dinheiro que ainda hoje na Luz, Alvalade e Dragão muitos devem estar preocupados com o seu staff de prospecção. O brasileiro foi fundamental no grande ano dos bracarenses, com os golos, assistências e posicionamento em campo, uma mobilidade que explorava bem a ideia de jogo de Leonardo Jardim, dando espaço aos jogadores de segunda linha para aproveitar os espaços que deixou para trás. Jogador de grande potencial, será dificil que fique em Braga muito mais tempo. 

 

Onze do Ano

 

Helton salvou o FC Porto de muitos apuros durante longas jornadas, aquelas onde o onze de Vitor Pereira parecia estar perto de perder todas as possibilidades de revalidar o titulo. 

 

Se olharmos para a defesa do campeão nacional é dificil encontrar jogadores que tenham estado ao máximo nível durante todo o ano, mas no lado esquerdo Alvaro Pereira continua a ser um jogador sem igual na liga lusa. E esse problema extende-se à maioria das equipas de topo da liga lusa. Ezequiel Garay, bónus na transferência de Coentrão para o Real Madrid, destacou-se sobre a mediania na Luz e João Pereira manteve-se a bom nível em Alvalade. Em Braga a confirmação de Nuno André Coelho foi uma boa noticia 

 

Descartado pelo Sporting, o médio-centro Custódio encontrou em Braga em Hugo Viana, outro ex-leão, o parceiro ideal para um meio-campo sólido e tremendamente eficaz. À dupla de Braga podemos juntar outro médio minhoto, Hugo Vieira, revelação do Gil Vicente. 


Lima, serpente no Minho pescada por poucos tostões, e James Rodriguez, arma-secreta no manual táctico de Vitor Pereira, dançam à volta de Hulk, que mais uma vez foi o jogador mais determinante no bicampeonato azul e branco, jogando ora descaido na ala ou como o falso-avançado que os defesas nunca conseguiram bem travar. 

 

Treinador do Ano

Leonardo Jardim

 

Herdou um projecto sólido, com o melhor resultado nacional e europeu logrado por um técnico que deixou saudades mas em quem poucos na estrutura confiavam. Pedia-se-lhe que mantivesse o rumo. Cumpriu. Durante 17 jogos consecutivos manteve-se invencível e aproximou-se da disputa por um titulo que fraquejou nos jogos com os rivais directos. Mesmo assim, segundo apuramento para a Champions League em três anos, e um passo em frente em qualidade de jogo, mérito indiscutível de um treinador que está chamado a treinar um dos grandes nos próximos anos. 



Miguel Lourenço Pereira às 16:10 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 30.05.12

O perfume do futebol francês é composto por uma fragrância especial que só se gera em momentos como este. Um clube modesto como o Montpellier vence uma longa maratona a formações que gastam o que não têm para levar para casa o ambicionado troféu. Algo inimaginável em ligas mais fortes como Inglaterra, Itália e Espanha e extremamente difíceis em campeonatos bipolares como o português. Em França, é a regra. Salvo a ditadura do Marseille de Tapie e do Lyon de Aulas, o futebol francês engrandece-se a cada ano que surge um novo Montpeliler. Um titulo que não só eleva às alturas um pequeno clube mas que define a filosofia desportiva de todo um país.

 

Lille, Bordeaux, Nantes, Lens, Monaco, Auxerre.

Nos últimos 20 anos do futebol gaulês todos estes modestos clubes sagraram-se campeões nacionais. Salvo o PSG, sempre apoiado por investidores que gostariam de ter um clube de prestigio na capital gaulesa, e o dinheiro que moldou o Marseille e Lyon modernos, a liga de França está aberta a todos, sempre e quando o projecto tenha cabeça, tronco e membros.

René Girard, veterano de muitas batalhas no terreno de jogo, soube coordenar esse projecto de forma singular. Uma equipa jovem, barata, com muitos jogadores comprados a clubes de divisões inferiores a preço de saldo, o seu Montpellier é um verdadeiro caso de sucesso. Há dois anos já tinha mostrado que era um projecto de futuro. Na altura saiu Tino Costa, o líder espiritual da equipa, e depois de um ano de natural perda de rendimento, o clube voltou à mó de cima, entregue aos golos de Olivier Giroud e à magia pura de Yonnes Belhanda, os dois nomes próprios do titulo alcançado, curiosamente, contra outro clube pequeno que já foi campeão e que agora se junta a Lens, Nantes e Monaco na segunda divisão. Em França o difícil não é vencer um titulo, é saber manter-se fiel a si mesmo.

Ao Montpellier depara-se esse desafio porque quando o dinheiro falar mais alto e os seus grandes nomes saírem, será complicado equilibrar os objectivos dos adeptos com o realismo económico que já causou tantas baixas no passado. Ao contrário do seu rival nesta corrida, o PSG, não há dinheiro para loucuras e seguramente que o próximo ano será quase impossível revalidar o titulo. Nem o Lille, com um futebol mais vistoso e sem ter perdido algumas das suas pérolas, conseguiu manter esse ritmo que desde os sete títulos consecutivos do Lyon nenhum clube soube emular. Manter o troféu em casa.

O PSG acabou por ser o grande derrotado. Nem Ancelloti, nem os milhões injectados no clube por um consórcio árabe com interesses na capital gaulesa serviu para recuperar um titulo que foi ganho pela última vez em 1994. As chegadas de Sirigu, Menez, Pastore, Gameiro e companhia foram insuficientes, apesar do bom futebol praticado os parisinos claudicaram demasiadas vezes e nunca souberam aproveitar as escorregadelas do rival. Regressar à Champions League pode ser o primeiro passo da metamorfose definitiva de uma equipa que irá gastar ainda mais no próximo verão e que, seguramente, é o grande candidato ao titulo do próximo ano.

 

Desilusões absolutas, Marseille e Lyon seguem a linha descendente, o outro lado do elevador onde sobem os parisinos.

Apesar do dinheiro disponível, a equipa lionesa foi incapaz de qualificar-se pela primeira vez numa década para a Champions League, prova onde teve uma prestação cinzenta, caindo nos Oitavos de Final diante do APOEL. Lisandro, Gomis e companhia foram inconsequentes durante a grande parte da temporada e Remy Garde, o jovem técnico promovido por Aulas, terá muita dificuldade em convencer um presidente tão habituado a ganhar que o seu projecto é de longo prazo, explorando a formação local que ele ajudou a desenhar. Em Marselha o lugar de Deschamps está também em causa depois de terminar a temporada num desolador 10º posto.

 

Lille, campeão em titulo, e um renascido Girondins Bordeaux tiveram provas tranquilas e positivas, apesar do falhanço dos homens de Rudi Garcia em manter a coroa e a quase inevitável despedida de Eden Hazard do clube nortenho. As grandes sensações da prova acabaram mesmo por ser o histórico Saint-Ettiene, sexto na classificação geral, e o modesto Evian FC, promovido esta época e capaz de realizar um campeonato surpreendente que nunca o manteve demasiado longe dos lugares europeus.

Do outro lado do espelho, se as despromoções de Ajaccio e Dijon eram previsiveis, custa ver outro histórico como o Auxerre cair no poço da Ligue 2, seguindo o exemplo negativo de outros campeões recentes.

 

 

 

Jogador do Ano

Yohnes Belhanda

 

O franco-marroquino foi a alma e o corpo da épica campanha do Montpellier. Com a bola nos pés respirou o cuidado jogo táctico montado por Girard e fez rodar à volta o carrosel de um colectivo sem estrelas mas com um indice de trabalho irrepetivel. Como Hazard em Lille ou Gourcouff em Bordeaux, o jovem que preferiu ser internacional com o país dos seus pais, Marrocos, é o porta-estandarte de um modelo de clube campeão que só encontramos com regularidade numa liga tão competitiva como a gaulesa. Os seus 12 golos e as mais de 17 assistências foram o ponto de partida para uma época irrepetível que já o colocou, definitivamente, no escaparate do futebol internacional.

 

Revelação do Ano

Blaise Matuidi

 

Quando aterrou em Paris como sucessor a longo prazo do "polvo" Makelelé, a jovem promessa que tinha despontado no Saint-Ettiene, talvez não imaginasse que o seu impacto fosse tão imediato. Mas a grande época do clube parisino tem muito a ver com a capacidade do possante médio defensivo de equilibrar um conjunto com uma fortissima ala dianteira (Nené, Gameiro, Pastore, Menez) e com uma defesa tremendamente eficaz. No miolo Matuidi fez para Ancelotti o mesmo papel que este entregou a Gattuso no seu Milan com um sucesso espantoso, dele é seguramente o futuro dos "Bleus".

 

 

Onze do Ano

 

Desconhecido no futebol gaulês até há dois anos, esta foi a época de confirmção de Geoffrey Jourden, guarda-redes do campeão Montpellier que, com Ruffier e Carrasco, demonstra que Laurent Blanc tem por onde escolher para acompanhar a Lloris e Mandanda nas aventuras dos Bleus.

 

Época excelente do lateral Mapou Mbiwa (Montpellier) no lado direito e de Faouzi Ghoulam (Saint Ettiene) pela esquerda. No miolo do eixo defensivo os eleitos são Nicolas Nkolou, imenso apesar da época cinzenta do Marseille e Frank Beria, do Lille. 

 

Belhanda e Hazard partilham o trabalho criativo do meio-campo deste onze ideal da Ligue 1, dois jogadores jovens de excelência com épocas memoráveis. Acompanham-nos o incansável Yann Mvilla, lider do Stade-Rennais.


Olivier Giroud, o avançado de moda do futebol gaulês, lidera o trio de ataque, bem acompanhado pelos golos de Nené (PSG) e Pierre Aubameyeng, jovem dianteiro gabonês do Saint-Ettiene.

 

Treinador do Ano

René Girard

 

Apesar da Ligue 1 ter um importante historial de vencedores surpreendentes, de equipas de pequeno orçamento que conseguem vencer a maratona da regularidade, tem sido cada vez mais dificil contrariar o imenso investimento financeiro que Lyon, PSG e Marseille têm feito na última década. O triunfo do Montpellier tem pouco a ver com a vitória de Bordeaux e Lille, dois históricos com um técnico e um plantel de luxo, e mais com o trabalho de fundo da formação e hábil pesquisa de mercado dos directivos dos homens do Le Herault. E claro, com a liderança absoluta de René Girard, antiga estrela da França dos anos 80 que encontrou a forma ideal para coordenar uma formação jovem, talentosa e com um espirito de luta épico que aguentou, até ao suspiro final, o acosso do milionário PSG.



Miguel Lourenço Pereira às 15:54 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 28.05.12

Michael Thomas tem um rival para a posteridade. Sergio Aguero entrou para a história como o autor do golo mais agónico e determinante da história da Premier League. Uma vitória asfixiante sobre um heróico QPR que manteve o Manchester United com a esperança de mais um triunfo nos derradeiros instantes. No final, 700 milhões de euros depois, o City quebrou uma malapata de 44 anos e voltou a proclamar-se campeão inglês num ano de muitas surpresas e desilusões num campeonato que continua a manter o suspense apesar de perder, progressivamente, qualidade.

Em três anos nunca um clube tinha gasto tanto dinheiro para conseguir um objectivo tão concreto: o titulo inglês.

Roberto Mancini logrou à segunda tentativa o troféu mas não sem sofrer mais do que um plantel de 700 milhões justificaria. O jogo espesso do City em largas partes da temporada parece um dos lados da moeda. No outro as goleadas consecutivas, resultado normal de um ataque por onde passaram Tevez, Balotelli, Dzeko, Silva e Aguero, peças nucleares na reconquista de um titulo ganho no pulso final a um Manchester United low cost, fraco como nunca outro projecto de Alex Ferguson, mas que teve o mérito de manter-se até ao final na luta pelo titulo. 

 

O United começou bem e perdeu gasolina à velocidade com que perdia jogadores. O débil meio-campo levou a Ferguson a resgatar a Scholes e a alinhar, nos jogos importantes ao histórico centrocampista com Ryan Giggs, o miolo mais veterano da história da Premier. Nos dois duelos directos contra o rival de Manchester duas derrotas categóricas deixaram claro que, no mano a mano, era impossível aos Red Devils manterem o pulso. Mas os tropeções de um Mancini sempre temeroso nas grandes noites mantiveram o duelo aceso e os dois golos inesperados do QPR deram a sensação de que havia algo mais forte do que a lógica por detrás de Ferguson, como naquela noite de Barcelona em 1999. Mas sucedeu o contrário, o futebol decidiu transformar os jogadores do United em reencarnações contemporâneas de Kahn, Effenberg, Mathaus, Kuffour e companhia e confirmar Aguero como figura de proa no seu primeiro ano de futebol inglês.

 

A gesta do QPR quase que serviu para confirmar a salvação do clube londrino mas no último minuto já nem era necessário.

O Bolton, que sofreu na pele a escalofriante situação vivida por Fabrice Muamba, seguiu a Wolverampton e Blackburn Rovers na despromoção ao Championship. Mas o sofrimento sentiu-o, mais do que nunca, um Aston Villa que dista muito do projecto criado por Martin O´Neill e que ameaça tornar-se em mais um histórico problemático como foram Leeds, Newcastle e Nottingham Forrest.

A Premier que tem perdido alguns dos seus melhores jogadores e algo de qualidade de jogo manteve-se emocionante em resultados e na dinâmica da tabela classificativa. O Newcastle foi uma verdadeira lufada de ar fresco e o Tottenham de Redknapp durante alguns meses pareceu dar a sensação de poder ambicionar a algo mais mas a saída de Capello do banco inglês mudou a mente do técnico e levou a um profundo descontrolo do plantel que acabou num tremido quarto posto por detrás de um Arsenal que, um ano mais, luta de igual para igual com equipas com orçamentos infinitamente superiores, mérito indiscutível de Arsene Wenger.

No lado negro da época a terrível campanha de Kenny Dalglish ao leme do Liverpool, com o pior registo doméstico em décadas, e sobretudo a época do Chelsea. Apesar da final da Champions League, o clube londrino terminou a Premier no pior lugar da última década, um sexto posto cuja responsabilidade é preciso distribuir entre Villas-Boas, um plantel em revolta constante e a um Roman Abramovich que continua sem saber muito bem o que quer para o seu clube.

 

 

 

Jogador do Ano

David Silva

 

Há poucos jogadores de futebol na actualidade com a classe e rapidez de raciocínio que o espanhol David Silva. Não havia espaço para ele no projecto de Guardiola e no colete de forças de Mourinho e a Premier tornou-se o seu destino inevitável. Se o Manchester City é, finalmente, campeão, deve-o a ele mais do que a qualquer outro. Marcou, assistiu, encantou, pautou o ritmo e soube emergir como o lider que os citizens precisavam depois de 700 milhões de euros gastos em mais de 30 jogadores para encontrar o caminho ao El Dorado. Ninguém duvida que, no futebol actual, Silva é um dos nomes maiores.

 

 

Revelação do Ano

Papisse Cissé

 

Chegou em Janeiro depois de dar nas vistas no Freiburg. Mas ninguém imaginava que o seu impacto ia ser tão devastador. Em treze jogos pelo Newcastle marcou treze golos, alguns dos quais dignos de entrar na galeria dos melhores do ano. Soube substituir quando necessário o goleador da primeira volta dos Magpies, Demba Ba, e soube também combinar com ele e Cabaye para garantir um sprint final memorável para o clube do Tyne. Em meia temporada deixou a pensar os principais directores desportivos dos clubes de topo europeus.

 

Onze do Ano

 

Apesar do talento incrivel de Joe Hart a nossa opção recairia sobre o imenso holandês Tim Krul, baluarte de uma grande época para o Newcastle United.

 

Na defesa de quatro jogariam Micah Richards (City), Gary Cahill (Bolton/Chelsea), Kyle Walker (Tottenham) e Leighton Baines (Everton). Quatro jogadores que explicam bem a forma como o trabalho defensivo é encarado na Premier League, onde a força e a raça são mais valorizados do que o controlo de bola e o posicionamento táctico.

 

David Silva lidera o meio-campo deste onze de forma inevitável acompanhado pelo francês Yohan Cabaye do Newcastle e pelo seu colega de equipa Yaya Touré.

 

No ataque jogam os inevitáveis Wayne Rooney, que continua a ser o mais determinante jogador inglês da actualidade, lado a lado com o holandês Robbie van Persie e o homem decisivo da Premier, o argentino Sergio Aguero.

 

Treinador do Ano

Alan Pardew

 

O que logrou Alan Pardew com este Newcastle não tem nome. Um clube habituado a falhar, a desiludir e a seguir pelo caminho errado, encontrou neste técnico a sua tabua de salvação espiritual. Sem dinheiro para investir, Pardew montou um onze tremendo em qualidade e poupado em gastos. Deu a batuta de jogo a Cabaye, apostou no perfume africano do golo, com Ba e Cissé, e garantiu uma defesa de ferro liderada por Krul, outra aposta pessoal. Manteve o plantel fresco, apesar das lesões, soube esquivar a pressão de dormir largas jornadas perto de postos europeus, um oásis para um clube muito necessitado de injecção financeira, e acabou a época num mais do que meritório XXX, diante do todo poderoso Chelsea e dos históricos Liverpool e Everton. Quase nada!



Miguel Lourenço Pereira às 15:39 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sábado, 26.05.12

Depois do purgatório, a glória. A Juventus não é um clube de esquecer. Nem de como voltar do inferno nem de como ganhar. O 28º titulo bianconero, sem os dois polémicos retirados pelo Moggigate, reafirma o conjunto turinês como o maior do país da bota. Mas a forma como Antonio Conte levou os seus ao titulo, num ano em que sumou 15 empates, diz também muito do nivel da Serie A. Durante semanas o AC Milan teve a liga no bolso e deixou-a escapar. O Internazionale continua a viver a sua particular via crucis depois da saída de Mourinho e entre os clubes de Roma, Napoli e Udine estiveram os mais interessantes duelos de um ano onde faltou emoção e grandes jogos. Um ano marcado por muitas despedidas e maiores incógnitas futuras.

 

Um campeão invicto é sempre algo assinalável. Se esse campeão coleciona 15 empates em 38 jogos a sensação muda radicalmente.

A Juventus venceu o seu 28º scudetto num ano em que foi melhor que a concorrência mas onde nunca deu uma clara sensação de superioridade como demonstram os sucessivos tropeções da Vechia Signora. Só com quatro equipas é que o conjunto turinês logrou vencer os dois jogos nas duas voltas do campeonato, a maioria dos rivais do campeão conseguiu, de uma forma ou de outra, roubar-lhe pontos. E nem isso impediu Antonio Conte de fazer história.

O antigo médio do conjunto bianconero encontrou o equilibrio necessário para vencer sem ter uma só estrela no plantel. Montou o onze à volta de Pirlo, colocando Marchisio e Vidal como fieis escudeiros. Funcionou. Pelo ataque passaram muitas alternativas e nenhuma delas totalmente convincente, de tal forma que Del Piero, no seu ultimo ano em casa, continuou a ser uma das referências goleadoras. Atrás a segurança de Buffon e a boa época de Chiellini e Lieschteiner fizeram-se notar e garantiram que nem por uma só vez o clube tivesse de lamentar uma derrota. A verdadeira arma do campeão no seu duelo com o AC Milan.

 

Durante largos meses os rossoneri pareciam ter o titulo à mão de semear mas os tropeções finais dos homens de Allegri tiveram o seu preço. Mais irregular do que nunca o Milan de Ibrahimovic pagou o preço das lesões, da falta de profundidade do plantel e do envelhecimento colectivo dos seus melhores jogadores. Um segundo lugar que soube a pouco, especialmente tendo em conta que nunca foi tão fácil vencer um scudetto em Itália, prova da curta diferença pontual entre os primeiros, comparativamente com outras épocas, e com os erros de Inter, Roma e Lazio que abriaram a porta ao terceiro posto da Udinese e a mais um ano europeu para o Napoli de Mazzari, outros grandes triunfadores do ano.

 

Mas este foi mais um ano de drama.

De adeptos que exigem camisolas a jogadores, de salários por pagar, de mil e uma destituições de técnicos, de poucos jogadores jovens e de muitos veteranos, de estrangeiros sem nível para o historial da prova e de estrelas estrangeiras que continuam a olhar para o outro lado quando se lhes fala na Serie A.

De estádios vazios, problemas com as televisões, de greves anunciadas e polémicas constantes com a arbitragem. Um ano em que, mais uma vez, a Serie A deu um passo descendente face ás suas rivais históricas, aproximando-o cada vez mais do universo francês, a quinta liga europeia actual. Uma realidade problemática para uma liga onde a sua máxima figura é um sueco mal-amado, onde o melhor do ano é um veteranissimo em quem poucos apostariam e onde a melhor revelação é um jovem jogador nigeriano que não se distingue muitos de muitos outros jovens que dão outra cor e vida à Bundesliga, Premier ou La Liga. Esse continua a ser o trabalho de casa do Calcio, um trabalho de casa complicado a cada ano que passa, de sacar nota alta. 

 

 

 

Jogador do Ano

Andrea Pirlo

 

Quando saiu de Milão muitos fizeram o obituário precoce do maior génio italiano da última década. Em Turim, com uma equipa sem grandes talentos mas com muito espirito colectivo à sua volta, Pirlo rejuvenesceu e tornou-se determinante na série de 38 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Foi a bússula em campo e o lider moral fora dele, as suas ausências notavam-se, a sua baixa fisica fazia-se evidente nos jogos que a equipa empatou e claro, no final o titulo pareceu ser mais dele do que nunca uma das suas conquistas prévias ao serviço de um Milan que priveligia sempre mais o glamour ao génio puro.

 

Revelação do Ano

Obi Joel

 

No terrivel ano da Internazionale, com o pior resultado final desde 1997, ano antes da chegada de Ronaldo Nazário, pouco houve que destacar. A boa época realizada pelo jovem nigeriano Obi Joel entraria nesse lote restricto de boas noticias. Um médio possante, rápido e com a garra que faltou a muitos dos veteranos do plantel que continua a viver à sombra dos anos de Mourinho. 

 

Onze do Ano

 

A baliza do onze do ano da Serie A está segura nas mãos de Gianluiggi Buffon que, depois de um ano de muitos problemas fisicos, se reafirmou como o número 1 indiscutível do futebol italiano. À sua frente jogaria um quarteto formado por Chiellini, Danilo, Lieschteiner e Thiago Silva.

 

Andrea Pirlo comanda um meio-campo onde também estão o seu companheiro Claudio Marchisio e ainda o milanês Kevin-Price Boateng.

 

No ataque a figura de Zlatan Ibrahimovic é incontornável, secundada pela eficácia goleadora de Edison Cavani e pelo incombustível Antonio Di Natale.

 

Treinador do Ano

Francesc Guidolin

 

Pelo segundo ano consecutivo a pequena Udinese está em postos de Champions League. Ao contrário do notável Napoli de Mazzari, a Udinese tem mantido um low profile no mercado e uma regularidade tremenda nos postos classificativos. Mérito de Guidolin, técnico hábil a sacar o melhor do seu curto plantel e da sua máxima figura, um veterano como Di Natale. O talento do treinador italiano, aliado à boa gestão desportiva do clube, transforma o projecto dos bianconeri do Friuli em algo a seguir com atenção no próximo ano, onde se espera uma Serie A mais equilibrada que nunca.



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Quinta-feira, 24.05.12

O Barcelona de Josep Guardiola marcou 114 golos. Sofreu 29. Atingiu a marca de 91 pontos em 114 possíveis. Contou com o prémio Zamora e o Pichichi da prova, Valdés e Messi. E mesmo assim perdeu o que seria o seu quarto titulo consecutivo. No meio destes números que fariam histórica em qualquer edição de qualquer campeonato do mundo é possível apreciar melhor o duelo de titãs que mediu o conjunto blaugrana com o Real Madrid de José Mourinho, o campeão mais espantoso em números da história do futebol espanhol.

 

Ao clube de Guardiola só faltou superar o seu recorde de pontos. Tontos os outros recordes foram superados com uma claridade assustadora.

E no entanto perdeu. Perdeu antes do final, com três jogos para o final da época. Perdeu em casa, no jogo decisivo. E perdeu a liga, essencialmente, quando concedeu ao Real Madrid uma renda de dez pontos depois de uma série histórica de péssimas exibições longe do Camp Nou, estádio onde foi dono e senhor até que apareceu Cristiano Ronaldo para por calma.

Nesse Barcelona-Real Madrid decidiu-se o titulo de forma oficiosa porque o Real Madrid já tinha meia liga no bolso. Um arranque de época com alguns resultados tremidos, uma série espantosa de vitórias que acabou na habitual derrota contra o Barcelona e um Inverno com resultados sofridos mas vitoriosos. Quando o clube merengue perdeu a vantagem de dez pontos era tarde para um Barcelona que em casa foi inigualável, fora foi irreconhecível e que viveu demasiado da dependência goleadora de Leo Messi. O triunfo no Calderon, com selo de Ronaldo, selou um titulo que a partir daí ficou sentenciado e o seu golo em Barcelona apenas pôs o preto no branco final. 121 golos (14 mais que o recorde histórico), 100 pontos (um mais que o recorde do Pep Team) e alguns problemas a controlar a maioria dos jogos que acabou por vencer com goleadas que resultavam mais do génio do seu trio de goleadores do que da capacidade para asfixiar o adversário.

  

Nesse duelo estético o Barcelona, mais espesso que outros anos, continua a ser o preferido da maioria face ao jogo de transição rápida que Mourinho imprimou com mais eficácia ofensiva do que nunca, depois de ter provado a mesma receita em Itália e Inglaterra. Confirmou o seu quarto titulo em países distintos, lançou as bases para um projecto que tem futuro e ambiciona a palcos maiores. Do outro lado, Guardiola despediu-se num ano em que falhou os dois principais titulos e, sobretudo, mostrou-se incapaz de encontrar a solução para ultrapassar rivais que contrariaram o jogo do Barcelona com um posicionamento defensivo central e numeroso. Nesses tropeções ficou a possibilidade de igular a Cruyff e de sair de Camp Nou com mais história ás costas.

 

 

A Liga espanhola continua a viver das rendas emocionantes que geram cada duelo entre blaugranas e merengues.

Do outro lado o sofrimento do Racing Santander e Sporting Gijon, históricos do norte que seguramente darão lugar a históricos galegos, mas sobretudo o de Villareal. Se há largos anos o Celta de Vigo caiu na segunda divisão depois de ter arrancado a época na Champions League, a má preparação da época, a lesão de Rossi e a orfandade de Cazorla custou demasiado a uma equipa que no ano passado esteve nas meias-finais da Europe League e no quarto posto de liga. Um projecto de futuro com muitas interrogações presentes.

Do outro lado a euforia de um Levante espantoso, de um Malaga que subiu aos postos dourados graças à milionária inversão de um xeque árabe e à boa gestão do mal-amado Pellegrini para contrarrestar o cinzentismo de um Valencia eternamente insatisfeito com ser o primeiro dos últimos, de um Atlético de Madrid destinado outra vez a lutar pela Europe League e de Sevilla e Bilbao que terminaram o ano muito por debaixo das expectativas. Ossasuna e Mallorca terminaram o ano com a cabeça bem alta, Rayo Vallecano e Granada sofreram mais da conta e um ano mais o Zaragoza demonstrou que é um sobrevivente nato nestas maratonas ligueiras.

 

O ano que começou com uma greve de jogadores, que continuou com o boicote ás rádios por parte da liga e que terminou com as enésimas acusações de compra de jogos por alguns clubes termina com números que seriam provavelmente irrepetíveis se não soubessemos que para o ano voltam a medir-se duas equipas com um arsenal de estrelas impressionante, muito dinheiro para gastar e um set de rivais que não sabe como apresentar uma alternativa a este duopólio histórico.  

 

 

Jogador do Ano

Cristiano Ronaldo

 

Perdeu o Pichichi para Leo Messi depois de um duelo de loucos que rondou a casa dos 50 golos. Mas este foi o seu ano, apesar de tudo. O ano em que mandou acalmar o Camp Nou, estádio maldito durante largas épocas, onde era acusado de nunca aparecer. Logrou-o na Supertaça, na Copa del Rey e decidiu, com um golo desenhado por Ozil, o campeonato diante do seu eterno rival. Antes tinha ganho sozinho o jogo mais importante do ano, no Calderon, e assinou durante a temporada cinco golos para a colecção de qualquer top 100 da história, do calcanhar de Vallecas à metrelhadora de Pamplona. Menos egoista, mais participativo no jogo colectivo, emergiu definitivamente como lider moral do ataque do Real Madrid. Não falhou um só jogo, raramente desapareceu de cena e decidiu-se a marcar os golos decisivos da temporada. Depois de ter sido rei em Inglaterra, Cristiano Ronaldo finalmente sagrou-se rei em Espanha.

 

 

Revelação do Ano

Isco

 

Manuel Pellegrini encontrou esta pérola formada na cantera do Valencia e solicitou-a expressamente para o seu projecto. Foi uma aposta a longo prazo com resultados imediatos. O jovem médio ofensivo malaguenho foi um dos grandes atractivos do "Euro-Malaga". Face à escassez de golos e magia no ataque dos andaluzes durante algumas jornadas, Isco encontrou o seu espaço e tornou-se rapidamente no parceiro ideal de Cazorla e Joaquin na linha medular do ataque do Malaga. O seu futuro na selecção espanhola é algo inevitável a curto prazo e a sua projecção não parece, de momento, conhecer limites. 

 

Onze do Ano

 

Seria possível fazer um Onze do Ano só com jogadores dos dois primeiros classificados. Possível, inevitável e lógico. Mas como todos sabem de memória esse onze o curioso é descobrir uma equipa alternativa sem blaugranas e merengues. Nas redes Thibaut Courtois, guardião belga do Atlético de Madrid. Um quarteto defensivo composto por Ballesteros, capitão veteranissimo do Levante, o médio adaptado Javi Martinez do Bilbao, e os laterais Jordi Alba e Juanfran

 

O meio-campo a três seria composto por Santi Cazorla, lider espiritual de um Málaga histórico. O asturiano seria acompanhado por Ander Herrera e Barkero, todo-terreno do Levante. No trio de ataque os golos de Koné, dianteiro levantino, de Radamel Falcao, herói do Calderon e de Fernando Llorente, o rei leão de Bilbao.

 

Treinador do Ano

Juan Ignacio Martinez

 

Imaginem uma equipa que há dois anos não tinha dinheiro para pagar o salário do plantel e corpo directivo e estava às portas da falência absoluta? Agora avancem no tempo e encontrem-na a disputar a Champions League. Podia ter acontecido, faltou muito pouco para o Levante ter assegurado a presença no play-off da prova rainha do futebol europeu depois de ter sofrido uma crise financeira tremenda. O homem responsável pelo renascimento do clube valenciano, Juan Ignacio Martinez, JIM na giria futebolistica espanhola, foi o grande responsável pela época tremenda de uma equipa que bateu o Real Madrid, dormiu quase todos os anos em postos Champions e pela primeira vez em 102 anos carimbou a passagem ás provas europeias.



Miguel Lourenço Pereira às 00:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 20.05.12

Teria sido uma das grandes injustiças da história das provas europeias (e houve algumas) se este projecto chamado "Chelski" nunca tivesse tido direito a vencer uma Champions League. Que uma geração onde militam alguns dos nomes próprios da última década tivesse visto a glória passar. Sobretudo, que um gigante como Didier Drogba, tivesse de sentar-se de novo no relvado de mãos na cara, desolado. Nove anos depois de arrancar a sua imensa inversão financeira no clube londrino, Roman Abramovich tem finalmente a sua "orelhuda". E o futebol salda assim uma dívida com um clube que tinha atrás de si já uma final e quatro semi-finais perdidas às costas desde que tudo começou.

Juan Mata remata mas Manuel Neuer, esse panzer de olhar frio, defende.

Parecia Moscovo outra vez, parecia que o destino realmente tinha dito ao Chelsea que a glória futebolística era coisa a que não poderia ambicionar. Por muito dinheiro gasto, por muitos jogadores top, por muitos técnicos carismáticos. O sofrimento era a única palavra transversal nesta história. Mas o futebol tem destas coisas. Não significa que ganhe sempre quem mereça - e por futebol jogado o Bayern Munchen pareceu ser sempre uma equipa mais solvente - nem sequer quem jogue mais bonito. Não se trata nada disso. 

Da mesma forma que a Itália em 2006, foi a justiça colectiva a quem o futebol prestou homenagem no Allianz Arena. E nem um grande como Neuer podia desafiar o destino desta maneira. Depois da sua defesa inicial, a relembrar a meia-final contra o Real Madrid, os adeptos começaram a fazer contas. Nunca o Bayern tinha perdido um jogo em penaltys na Europa. Nunca o Chelsea tinha ganho um. Era assim de fácil. 

Mas marcou David Luiz. Mas marcou Lampard. Mas marcou Cole. E de repente não havia Terry à vista para escorregar outra vez e pelo caminho era Petr Cech, o mesmo que tinha parado no prolongamento um penalty a Arjen Robben - o maldito - quem se tinha tornado no herói da noite. Defendeu o remate frouxo de Olic e desviou com o olhar o tiro de Bastian Schweinsteiger. Jamais esquecerei esta final pelo rosto de "Schweini", pela segunda vez derrotado numa final europeia. A ele (e a Lahm) também há uma dívida por pagar. Mas este Bayern é um projecto solvente suficiente para voltar, mais cedo que tarde, para cobrar o que é devido.

Cech tinha defendido o que ninguém contava. E no final de contas o Chelsea tinha, outra vez, a possibilidade de sagrar-se campeão da Europa com o derradeiro penalty. Anelka, na China, deve ter agradecido que a pressão fosse para outro. Mas Didier Drogba não entende dessas coisas. Ele é o grande vencedor do ano. O seu olhar define a temporada futebolistica de um clube que se apoiou nele, mais do que nunca, para atravessar o purgatório. Desprezado pela directiva, roubou a titularidade a Torres, convenceu Villas-Boas da sua utilidade, tornou-se na referência ofensiva de Di Matteo e só, contra o mundo, ajudou a derrubar a mitologia blaugrana. Na final, esse jogo que tanto tinha atravessado, foi o protagonista absoluto. Pelas bolas que cortou na defesa, pela raiva com que liderou cada ataque. Pelo golo que empatou o jogo, a três minutos do fim. Pelo penalty que cometeu, infantilmente sobre Ribery, lesionando o francês, até então o melhor do ataque bávaro. Aquele momento pertencia-lhe por direito. E se a história devia algo ao Chelsea, devia muito mais a Drogba. Neuer devia sabê-lo, apenas se mexeu, o fatalismo do momento era evidente. A taça esperava os braços do marfilhenho, a história queria-o hoje mais do que nunca e a bola rasgou as redes na imaginação de milhões de espectadores. Caiu no relvado e sorriu. Drogba corria para a posteridade!

 

Futebolisticamente não foi a final mais apaixonante, mas foi seguramente uma das mais intensas.

Ambas as equipas comportaram-se da mesma forma como tinham feito nas meias-finais. O Bayern quis a bola e o domínio do jogo. O Chelsea preferiu controlar o espaço e aproveitar a velocidade para fazer a diferença. Não foi um jogo de K.O., no futebol quase nunca o é. Foi um combate a pontos que acabou empatado. Apesar do recorde histórico de cantos para os bávaros a bola rondou Cech e teimou em não entrar. O jogo pelas alas, bem tapadas por Bosingwa e Kalou na direita e Cole e Bertand na esquerda, tornou-se ineficaz e Robben e Ribery foram forçados a procurar diagonais que esbarravam com o muro que derrotou o Barcelona. 

Nenhum dos seus remates encontrou perigo e demasiadas vezes o excesso de pernas de jogadores azuis confundia o jogo de passes entre Gomez, Muller, Kroos e Schweinsteiger, o eixo central da ideia de Heynckhes. Tacticamente o treinador alemão não encontrou forma de furar o bloqueio e faltou talvez paciência para atrair o conjunto inglês da sua toca. Entretanto o tempo passava, os corpos perdiam forças, a cabeça clarividência e o Chelsea, matreiro como só um treinador italiano pode ser, começou a morder. A  pouco e pouco os contra-golpes venenosos assustavam, faziam os alemães correr mais do que as pernas podiam e davam a sensação de um perigo maior do que seria de supor. Durante oitenta minutos a troca de golpes foi-se equilibrando. Nenhuma ideia era capaz de bater a outra e a verdade é que nenhum dos bandos parecia disposto a mudar o guião. Até que apareceu Thomas Muller.

Depois de uma época uns furos abaixo do que demonstrou em 2010, o ano da sua explosão, Muller viu-se na final num papel incómodo. A sua posição natural tem sido ocupada por Robben e Kroos e ali, com o médio recuado para cubrir a baixa de Luiz Gustavo, sentiu-se perdido. Mas o seu sentido de oportunismo é único e depois do enésimo ataque, a bola sobrou-lhe e com um golpe cheio de imaginação, bateu Cech como a um guarda-redes de andebol. Faltavam sete minutos, o Allianz Arena celebrava já o quinto titulo europeu, o argumento de um ano mágico parecia ter sido escrito em alemão.

Só que Drogba, esse monstro que deveria terminar o ano com um mais do que merecido Ballon D´Or, ainda não tinha dito a última palavra. Nem cinco minutos, tempo suficiente para Heynckhes cometer o erro de tirar ao autor do golo alemão, e o Chelsea empatava. A desilusão na cara dos germânicos dizia tudo. Um clube habituado a perder finais, incapaz de ganhar uma final a equipas ingleses, parecia ver o rosto fatídico do destino na cara do africano. E veio o prolongamento, e o penalty a Ribery e o falhanço de um Robben que se começa a fazer notar pelos falhanços nos momentos decisivos da sua vida, ele que fez parte do melhor Chelsea da história, ao lado do núcleo duro contra quem jogou hoje. Depois desse momento ficou claro que, tarde ou cedo, os ingleses sairiam vencedores. Parecia evidente que a história tinha decido fazer com eles o que se tinha esquecido com o Monchengladbach dos anos 70, o Real Madrid dos anos 80 ou o Arsenal de Wenger. Justiça. 

O relógio continou a correr, os penaltis chegaram, inevitáveis, e Drogba decidiu que nove anos de espera eram demasiados. 

 

Pode parecer curioso que o pior Chelsea desde que Abramovich chegou, em plena era Ranieri, tenha logrado o que nem Mourinho, Grant, Hiddink ou Ancelloti conseguiram. Se é certo que o Bayern não foi hoje tão eficaz como contra o Real Madrid e muito mais parecido ao que tremeu nos momentos decisivos da Bundesliga, também é verdade que o jogo dos ingleses voltou a assemelhar-se mais à herança do catenaccio do que, propriamente, à escola de futebol espectáculo que o russo tanto aprecia. Mas o magnata já tinha tentado de todas as maneiras e o troféu, de uma forma ou de outra, tinha-lhe sempre escapado. A vitória de hoje é mais sua do que ninguém, pela insistência em não deixar nunca de procurar lograr o seu objectivo. Foi o triunfo de uma geração histórica do futebol inglês, de alguns dos seus melhores jogadores, de um lider espiritual que pode muito bem ser considerado como um dos maiores (ou o maior) futebolista africano da história. E foi, mais do que isso, o triunfo de um sonho sobre qualquer ideário táctico, cultura futebolística ou projecto pessoal. Vencer a Champions League dá ao Chelsea finalmente o pedigree que lhe faltava, o primeiro clube londrino a vencer o troféu, o quinto inglês em lograr o feito. Talvez sirva para dar tranquilidade ao clube, tempo para crescer noutros moldes, uma maior aposta no jogo e na formação do que nas ânsias e o livro de cheques. Abramovich tem a palavra, a sua geração pode partir agora com a sensação do dever cumprido. E o futebol saiu do Allianz Arena mais aliviado mas com a consciência de que sempre haverá alguma divida moral por saldar.



Miguel Lourenço Pereira às 00:30 | link do post | comentar

Quinta-feira, 10.05.12

jogadores com um dom especial para transformar um acto de pura rotina em algo profundamente próximo ao universo artístico. Radamel Falcao é um desses génios. O colombiano é mais do que o melhor avançado do mundo na actualidade, mais do que um devorador de balizas alheias e que um instigador de sonhos. É um futebolista que sozinho parece valer mais do que um colectivo mas que dentro do rectângulo de jogo sabe trabalhar como um mais. Em Bucareste entregou de bandeja o titulo da Europe League a um Atlético de Madrid que este ano tem-se repetido nos tropeções emocionais que o caracterizam historicamente. No seu dianteiro os colchoneros encontraram um psicanalista eficaz, capaz de os retirar da depressão profunda com a genialidade de quem apenas cumpre a sua missão.

 

José Mourinho declarou recentemente numa entrevista que não via no Chelsea e no Bayern Munchen um jogador válido para vencer o próximo Ballon D´Or. Esqueceu-se seguramente de Drogba, Robben, Lampard, Ribery, Mata ou Schweinsteiger. Também se esqueceu que este ano temos um Europeu e todos sabemos como estas provas de um mês tantas vezes elevam à glória jogadores que vivem os outros nove na mais profunda mediania. Para ele o prémio só podia ser discutido entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo e como o segundo, além de seu jogador, venceu a Liga BBVA, então seria obrigatório entregar-lhe o prémio. Ronaldo pode até ganhar o seu segundo Ballon D´Or, ninguém se surpreenderia muito. Mas o técnico sadino esqueceu-se de Radamel Falcao, talvez o jogador mais digno de receber o galardão. Porque ao contrário de Messi e Ronaldo, o colombiano sim encarna a figura do indivíduo num desporto profundamente colectivo, do homem que todos sabem que irá fazer realmente a diferença.

Falcao já é, a um jogo do final da liga espanhola, o estreante com mais golos marcados na prova na sua época de estreia. Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo, nem Zidane, nem Ronaldo, nem Hugo Sanchez, nem van Nistelrooy, nem Bebeto, nem Romário, nem, nem, nem. Nenhum jogador marcou tantos golos no primeiro ano como jogador da liga do país vizinho. Os números estratosféricos de Messi e Ronaldo escondem multiplas realidades e a de Falcao é a mais gritante. O colombiano joga num clube que pode terminar o ano fora dos postos europeus, um clube que mudou de treinador a meio do ano, um clube que vive em constante carambola emocional, que ora goleia um rival directo como perde quatro semanas consecutivas com equipas de outro campeonato. No Vicente Calderon a equipa nunca joga para o individuo e muitas vezes as estrelas atropelam-se entre si para terem os seus cinco minutos de fama. Sobreviver neste caos é algo que não está ao alcance de muitos e a paciência de Aguero, Torres e Forlan foi testada até ao limite tantas vezes que voluntariamente procuraram calma e sucesso noutras paragens. Ser Falcao neste cenário é algo profundamente complexo, quase impossível. E no entanto, aí está ele, de novo, nas estrelas. Pelo segundo ano consecutivo foi o artífice da vitória na Europe League. Se o Athletic Bilbao tinha sido a melhor equipa ao largo do torneio, o Atlético foi muito superior na final. Porque tinha Falcao. Não foram só os dois golos imensos, a juntar ao apontado na final do ano passado em Dublin. Não foi só o imenso trabalho táctico de protecção de bola, de prisão táctica dos centrais de Bielsa. Foi algo mais. Esse espírito de liderança que só em noites como esta parece realmente fazer-se sentir. No colombiano o Atletico encontrou um lider espiritual, um profeta de acalmia. E entregou-se a ele sabendo que as águas do mar vermelho se abririam para o cortejo passar.

 

Falcao é, sem dúvida, o melhor dianteiro do futebol mundial. 

Não existe outro jogador que se possa comparar ao colombiano em destreza, agilidade e precisão de movimentos na grande área. Mas o seu futebol é muito mais completo e artístico. Recebe, dá, segura e mata com a precisão de um cirurgião mas com delicadeza de um pintor, preparado a emular o seu momento de glória com a melhor das telas. A bola nos pés de Falcao respira outra linguagem. No jogo das meias-finais, no Calderon, recebeu um alivio ansioso de um defesa e no meio de três rivais encontrou a comodidade necessária para correr, driblar, fintar, parar e rematar sem levantar a cabeça do chão. O golo não foi mais do que uma inevitabilidade da sua condição divinal.

Em 2001 o inglês Michael Owen venceu o Ballon D´Or depois de um ano em que conquistou a Taça UEFA (numa final asfixiante contra o Alavés onde nem foi o melhor em campo), a Taça da Liga e a FA Cup. Bateu o espanhol Raul, que tinha vencido a liga espanhola, e o alemão Oliver Kahn, campeão da Europa com o Bayern Munchen. Foi a última vez que um jogador levou para casa o troféu sem ter vencido no ano uma grande competição. Nedved, Schevchenko, Ronaldinho e Messi foram campeões nacionais. Ronaldo, Cannavaro campeões do mundo. E Kaká, Cristiano Ronaldo e Messi, por duas vezes, ganhadores da Champions League. A importância dada a uma Europe League nunca pareceu ser suficiente para lograr vencer estes prémios individuais, mais numa época onde o mundo vive o confronto ideológico moral de escolher entre Messi ou Ronaldo quase de forma forçada, como diz Mourinho.

Mas Owen era em 2001 um fenómeno como Falcao é hoje. Depois desse ano o seu rendimento baixou até acabar no jogador de hoje, perdido entre lesões e experiências clubísticas desastrosas. O colombiano não é uma novidade, o que logrou este ano já o demonstrou no ano passado ao serviço do FC Porto e na Argentina os hinchas do River Plate sabem bem de que matérias é feito. Se tivesse nascido argentino, como diria Hugo Sanchez pensando em Maradona, talvez os elogios fossem ainda maiores. Se tivesse jogado um pouco mais a norte em Madrid, talvez hoje fosse tratado de outra forma. Mas no Calderon, como no Dragão, o valor de ser Falcao é ainda maior e talvez por isso o seu mérito individual mais gritante.

 

Da mesma forma que os adeptos do FC Porto sabiam que um jogador como o colombiano estaria de passagem, em Madrid começam a dar-se conta de que talvez para o ano que vem Radamel esteja a costurar golos por outras paragens. É um percurso inevitável para um homem que vende aquilo que mais se valoriza no mundo do futebol. Entre os grandes de Espanha e a Premier está o futuro de um jogador que só precisa de um clube com mais prestigio e melhor marketing para falar de tu a tu com os Ballon´s D´Or no activo. Se já tivessem tido a honestidade mental de dar-lhe o prémio por antecipado, talvez a lógica de um jogo de onze contra onze onde há sempre um que brilha mais forte faça mais sentido do que nunca.  



Miguel Lourenço Pereira às 00:59 | link do post | comentar | ver comentários (5)

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