Terça-feira, 30.07.13

A chegada dos milhões qataris ao Paris Saint-Germain revolucionou o futebol francês. Este ano o campeão parisino vai ter concorrência de peso. Os milhões chegam da Rússia. No fundo o eixo que move o mercado de futebol dos últimos anos. Não é novidade. O futebol em França sempre foi um negócio de industriais, empresários e ambiciosos homens de negócios. A única diferença é que estes senhores vêm de fora e não são forjados na estirpe gaulesa dos Tapie, Bez, Lagardére e companhia.

 

Quando o PSG nasceu, todos tinham claro que era apenas uma manobra de marketing.

Paris não tinha um clube de futebol importante. O Racing FC e o FC Paris estavam nas divisões secundárias e não havia forma de os tirar de lá. O jogo era um fenómeno regional, sempre o tinha sido. Mas agora Paris, consciente da afirmação internacional definitiva da invenção inglesa, queria ter a sua parte de protagonismo. Assim nasceu, em 1973, o PSG e depois de quinze anos de resultados irregulares, apareceu o gigante Canal+ para salvar o emblema de um destino similar ao do seu vizinho. O Racing tinha-se tornado em Racing Matra porque os milhões de Lagardére assim o quiseram. Durou pouco a aventura, mas deixou um aviso. Um aviso bem real, ainda hoje.

A salvação do PSG pelo Canal+ significou, sobretudo, que o clube tinha dinheiro, muito dinheiro para investir. E fê-lo bem, montando uma equipa de excelência que não só venceu um título nacional, um título europeu (a Taça das Taças) como esteve na base da equipa que acabou com a estadia de Cruyff em Barcelona. Aquele PSG, de Weah, Raí, Leonardo, Djorkaeff e companhia, era uma formação destinada a maiores glórias. Mas como o Canal+ se fartou do brinquedo, o dinheiro deixou de chegar e os jogadores foram saindo. Poucos meses depois nada restava dessas noites de glória no Parc des Princes e o maior emblema parisino entrou numa década de silêncio e sofrimento. Algo parecido ao que lhe acontecerá no dia em que os sheiks qatarís mudem de objectivo. Esse é o destino financeiro dos clubes da Ligue 1.

Foi assim com o escândalo de Bez no Bordeaux e de Tapie no Marseille. Foi assim com o fim do investimento dos industriais locais no Stade Reims (na década de 60), no Sochaux (da marca Peugeot, nos anos 70) e no Saint-Etienne (na década de oitenta). O próprio AS Monaco, sustentado durante anos e anos pelos milhões do Principado, sofreu na pele a ausência de uma política desportiva e económica coerente e de finalista da Champions League (apenas o quarto clube francês em lográ-lo) passou a clube de segunda divisão.

 

Em França o jogo sempre foi olhado com suspeita.

Não tem o glamour do ténis, do ciclismo e dos desportos motorizados. É uma invenção inglesa, mas menos interessante que o rugby para alguns. Só a partir da II Guerra Mundial se confirmou a popularidade do jogo no hexágono e, mesmo assim, em espaços geográficos muito concretos. No Midi, pela forte ligação aos portos italianos e espanhóis. Na Gasconha e Bretanha, pelo mesmo motivo, com os ingleses. E no norte, zonas vizinhas a Bélgica e Alemanha. Tudo o resto era um imenso oásis. Só quando um homem rico aparecia, no coração de França, se podiam desenvolver projectos ambiciosos mas de curta duração. Foi assim em Saint-Etienne, Sochaux e, mais recentemente, em Lyon. Onde todos sabem que, quando Jean-Michel Aulas abandonar o cargo, o destino será cinzento. Como a história tem sabido demonstrar.

Talvez por isso o jogo se tenha, desde cedo, tornado num brinquedo de ricos e ambiciosos. Os adeptos não sofrem emocionalmente tanto com estes vais e vens como noutros países, a sensação de pertença cultural é distinta. As imposições severas do governo gaulês impedem a Ligue 1 de atingir niveis de rendimento que compitam com a Europa. É um torneio fechado, rotativo, desenhado para consumo próprio. Só muito de vez em quando, ao reunirem-se condições extraordinárias, algum clube francês demonstra o seu potencial contra rivais europeus com orçamentos muito superiores, planteis com mais opções, mais bem pagas e consagradas.

A chegada dos emigrantes do império reforçou a multiculturalidade do jogo, abriu as portas à renovação de uma política de formação que tem sido a base do sucesso financeiro desse projecto. Mas também parte do seu calcanhar de Aquiles. Em Rennes, Lille ou Toulouse há poucas condições para ombrear com as fortunas do país, especialmente quando os seus melhores jogadores partem e como substitutos chegam jovens adolescentes. Clubes históricos como o Nantes, Lens, Metz ou Auxerre já sofreram na pele as subidas e descidas de divisão pelo mesmo motivo. Sem dinheiro não há sustentabilidade, por muita história que um emblema carregue. Por isso quando chega um sheik qatarí ou um russo milionários, os adeptos recebem-nos de braços abertos. Estão dispostos a vender a moralidade do jogo pela subsistência, essencialmente porque sabem que se não forem eles os clubes beneficiados por esses milhões, serão os seus mais directos rivais. O dinheiro que chegou a Paris pode acabar de um momento para o outro mas, de momento, os adeptos desfrutam de uma nova era de prosperidade, a fazer lembrar meados dos anos noventa. O mesmo sucede agora com os monegascos. A presença de Moutinho, Abidal, Falcao, James Rodriguez e Ricardo Carvalho traz prestigio ao clube e uma base de sucesso que pode ou não aguentar os humores do dono do clube. São projectos de tão curta duração - no tempo e espaço - que não é difícil imaginar que daqui a três anos dificilmente os mesmos jogadores (e Cavani, e Pastore, e Lucas Moura, e Zlatan Ibrahimovic, e Marco Verrati) continuem nos seus clubes actuais.

 

A França do futebol é uma dimensão própria dentro do concerto europeu. Há preocupações dentro das estruturas governamentais e federativas e um desinteresse quase generalizado nos adeptos. No campeonato mais equilibrado da história do futebol europeu - salvo pela longa hegemonia recente de um Lyon, numa época sem investidores nos clubes rivais para lhe fazer sombra - as empresas e os milionários duram pouco na sua relação com os emblemas, o tempo de coleccionar um ou dois títulos antes de se fartarem. Em Paris e no Principado vão querer aproveitar essa corrida a contra-relógio. Em Marselha, Bordeaux, Rennes, Lille e Lyon esperam que os milionários se fartem para voltar a sentirem-se importantes. E no meio de tudo isto, só mesmo em França um clube pequeno como o Montpelier pode sonhar em repetir o logro de ser campeão contra as armas financeiras de uns e o poder da estrutura desportiva de outros. Num campeonato de novos-ricos essa é a maior atracção possível.


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Miguel Lourenço Pereira às 13:54 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 10.12.12

O futebol português não tem identidade própria há muitos anos. É gerido, com autoridade, desde o escritório de uma empres que tem asfixiado o potencial financeiro da liga à custa de subornar os clubes com migalhas que os mantêm longe da realidade. A mais recente polémica à volta da Taça da Liga, uma competição sem sentido num país que não tem pernas para tanto, apenas evidência o trabalho moralmente correcto de gestão da Liga de Clubes contra um dos maiores cancros do futebol nacional.

 

Quando a Liga começou a trabalhar na redução de clubes da principal competição nacional, de 18 para 16, uma das alternativas propostas aos clubes foi a criação de uma competição paralela que servisse, de certa forma, como recompensa económica pelos jogos ao ano que ficariam por disputar. De certa forma, a ideia da criação da Taça da Liga afastou-se directamente da ideia por detrás das ligas alemãs, francesas e inglesas, as únicas que disputaram uma prova do estilo, e renega da própria ideia de reduzir a Liga da primera divisão a menos clubes para aumentar a competitividade e torná-la mais atractiva. 

Com a Taça da Liga os clubes grandes, prevendo a sua hipotética chegada à final, disputariam mais 3 ou 4 jogos ao ano, o equivalente ao número de jornadas que ficariam por disputar. Os clubes não ganhariam nada com a redução da liga, nem em dias de descanso, nem em poupanças em deslocações ou na organização de jogos porque os vários clubes da primeira e segunda divisão teriam de continuar a bailar pelo país em viagens, alguns deles desde Agosto, sem o mais minimo retorno financeiro. Até à fase de grupos, onde começavam a entrar os grandes em prova, o interesse da prova era nulo e os gastos não eram evidentemente recompensados, em particular para aqueles que abandonavam a prova cedo.

A Taça da Liga inglesa nasceu, nos anos 60, para compensar a maioria dos clubes que não tinham acesso às noites europeias e ao dinheiro extra que significavam. O mesmo esteve por detrás da Taça da Liga na França. Em ambos os casos o torneio é recompensado com um lugar europeu. Na Alemanha o torneio é utilizado como preparação para a temporada e é exclusivo do vencedor da Taça e dos melhores classificados da liga. Mas em nenhum os casos nunca significou uma alteração da liga em número de equipas. França e Inglaterra têm vinte equipas na primeira divisão, a Alemanha dezoito. E nunca deixaram de ser provas residuais, sem interesse financeiro, do público e dos clubes, mesmo sabendo que podia dar direito a um posto europeu algo que a Taça da Liga em Portugal nunca contemplou porque mexia, em demasia, com os interesses dos grandes. Por detrás do projecto pioneiro estava a Olivedesportos, que utilizava o torneio para apertar ainda mais o cerco aos clubes portugueses.

 

A Olivedesportos nasceu em 1984, fruto de um investimento do irmão mais velho de António Oliveira, à época já treinador e um dos maiores vultos da história do futebol português. Joaquim Oliveira tinha estado por detrás da carreira do irmão e começou a trabalhar como empresário no universo futebolístico até que criou a primeira empresa que trouxe os patrocinios estáticos de forma organizada para os campos de futebol. Tornou-se ao longo dos anos no maná para muitos clubes com as contas no vermelho. Apoiou negócios de risco para entidades e directivos sempre com a promessa de que, em último caso, ele estaria disponível a apoiar financeiramente os clubes através das suas empresas. Fez-se amigos de todos e tornou-se no fiador do futebol nacional. Sem o seu dinheiro muitos clubes tinham desaparecido mas também sem a sua influência e o seu guarda-chuva a gestão do futebol nacional tivesse sido mais sustentável desde a década de 80.

Quando entrou no mercado audiovisual, fê-lo em força, criando a primeira plataforma cabo portuguesa, com uns bons anos de atraso do resto da Europa, e a SportTv tornou-se no rosto da sua influência no futebol luso. Enquanto a Sportinveste se começava a dedicar a colecionar publicações, do O Jogo às Diário e Jornal de Notícias, com a respectiva influência da filosofia da empresa evidente nas suas edições, a SportTv tornou-se no cartão de crédito por excelência do futebol português.

Oliveira conseguiu convencer os clubes, em particular os três grandes, a negociar de forma individual com a empresa de forma a obter um maior lucro sobre o rival directo. Dividir para conquistar foi o seu modelo e durante anos tornou-se no cardeal das tomadas de decisão do futebol nacional, asfixiando qualquer tentativa de repensar o modelo. Quando ficou evidente, com a reestruturação da Bundesliga e da Ligue 1, que o modelo de negócio individual era prejudicial a médio e longo prazo, fechou-se em copas e apoiou a eleição de um dos seus homens de confiança para o cargo, o homem que hoje está por detrás da FPF. 

O sucesso da SportTv, ampliado pela ausência de futebol em aberto, foi evidente mas ao mesmo tempo a situação dos clubes começava a ser de dependência total e absoluta. Os contratos eram assinados e o dinheiro era adiantado para pagar dividas de presente deixando os clubes sem rendimento para o futuro. Sem nenhum controlo por parte das autoridades, o poder da Olivedesportos crescia, crescia e crescia. Esteve por detrás da remodelação da Liga Sagres e da criação da Taça da Liga. E agora utiliza a competição para entrar, de novo, em guerra aberta com a primeira direcção da LPF que não responde directamente às suas indicações.

Polémico como poucos, o novo presidente da Liga desde a sua eleição deixou claro que queria aplicar um modelo sustentável ao futebol português. Viu boicotados os projectos de ampliação da competição e da proibição de empréstimos entre clubes da mesma divisão. Mas o seu verdadeiro cavalo de batalha tem sido, sobretudo, a renegociação colectiva dos direitos televisivos. Tem sido o principal instigador da resistência de vários clubes, apoiado de forma indirecta no conflito aberto que existe entre o Benfica e a Olivedesportos. E agora sofre um golpe que não deveria ser mais do que o momento definitivo em que a empresa de Joaquim Oliveira deixa claro que no futebol português ou manda ele ou não manda ninguém. 

 

Sem o contrato da Olivedesportos a Taça da Liga - que já perdera o patrocinador, a empresa de aposta Bwin - deixa de fazer sentido. Desportivamente nunca o fez, financeiramente muito pouco. Agora é uma pedra no sapato dos clubes que de lá retiram pouco mais do que uma alegria efémera em caso de vitória e pouca contestação diante da derrota. É também uma oportunidade de ouro para a LPF se mostrar mais forte que o rival e concentrar todas as suas forças em acabar com o monopólio asfixiante da Olivedesportos e assim levar o futebol português para o forçoso caminho da sustentabilidade financeira, onde o dinheiro seja dividido com respeito a todos os participantes nas ligas profissionais e não seja decidido no escritório de uma empresa que se transformou na guilhotina do futebol profissional em Portugal.



Miguel Lourenço Pereira às 10:50 | link do post | comentar

Sexta-feira, 03.08.12

Acabou o sonho andaluz. O dinheiro, que prometia cair com a mesma velocidade que os termómetros sobem em Málaga, chegou abruptamente ao fim. A história do clube espanhol é igual a tantas outras e volta a demonstrar, se fosse necessário, que os investimentos milionários do Médio Oriente no mundo do futebol aproximam-se mais ao conto do vigário do que ao genuíno planeamento desportivo de futuro. 

 

Al-Thani chegou a Málaga como um herói e no final da época já era um filho predilecto à altura de António Banderas.

O histórico clube andaluz tinha logrado um quarto lugar na liga espanhola e confirmado a sua estreia na Champions League e pelo caminho tinham aterrado no estádio La Rosaleda jogadores do pedigree de Joaquin, Isco, Cazorla, van Nistelrooy, Mathijsen, Toulalan e Buonanotte. Uma equipa paga a peso de ouro e orientada por um técnico talentoso mas que não era, propriamente, acessível para o bolso de uma instituição habituada aos lugares de metade da tabela. Quando Mourinho anunciou que nunca treinaria o Málaga muitos tomaram as palavras como um ataque velado ao seu antecessor em Madrid. Enganaram-se. O luso, que percebe de investidores milionários, já cheirava o que aí vinha.

Depois do quarto posto na liga chegaram os problemas quando muitos imaginavam já mais um vendaval de estrelas, apresentações milionárias e o hino da Champions a ecoar pela costa mediterrânica em Setembro. Primeiro foram os jogadores que se queixaram de não receber partes substanciais dos seus salários e dos prémios de final de temporada. Vários assinaram mesmo uma petição de ajuda ao sindicato para depois retirarem a queixa contra o clube, uma queixa que podia ter levado o Málaga directamente à Segunda B se a liga e a federação espanhola, como instituições, estivessem ao nível da selecção espanhola, como entidade desportiva. 

Nesse habitual caciquismo que faz da liga de Espanha um paradoxo vivo, o Málaga não só fintou a despromoção e a manutenção do posto europeu (ao contrário do que viveu o Mallorca na passada época) como soltou na imprensa noticias sobre novas hipotéticas chegadas para acalmar os adeptos. Mas a verdade vem sempre ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Santi Cazorla, o símbolo do projecto malaguenho, foi o primeiro a dizer adeus com um tremendo buraco no bolso. Mas não será o último.

 

O emir do Qatar que está por detrás da compra do clube decidiu que ser dono de um clube de futebol numa das ligas mais potentes do mundo afinal é um brinquedo demasiado caro. Vender a investidores da Albânia ou abdicar das figuras que levaram o Málaga à Europa são os dois cenários em cima da mesa. Os investidores tardam em aparecer e por isso os jogadores vão saindo. O extremo asturiano assinou pelo Arsenal, que há muito o cobiçava, e Pellegrini foi convidado a deixar o clube depois de ter logrado o melhor resultado da história da instituição. Tudo por culpa do seu salário principesco, problema que afecta também a Toulalan, Joaquin e Mathijsen e que levou Ruud van Nistelrooy a abandonar o futebol no final da passada época por não ter a certeza que o clube podia pagar um ano mais de contrato. 

A brincadeira acabou como seria de esperar. Desde há meia dúzia de anos para cá o dinheiro do Médio Oriente tem tentado entrar na elite do futebol europeu. Mas está comprovado que os investidores milionários são um oásis apetecível mas letal. Roman Abramovich e Al-Mansour foram, até agora, as únicas excepções, aliando investimentos regulares a exercícios de paciência pouco habituais em homens habituados ao lucro imediato. O russo esperou quase uma década pelo titulo europeu que tanto queria para o seu Chelsea e o qatari pegou no clube das mãos de outro milionário falido, o ex-primeiro-ministro tailandês, e aguentou o Manchester City durante cinco anos até conquistar a ansiada Premier League.

Salvo estes dois exemplos, a maioria dos investidores desistem depressa dos seus brinquedos com danos colaterais importantes. Em Santander ainda procuram o milionário Ali Said, um indiano que prometeu o futebol europeu aos cantábros e que depois se esquecer de pagar salários e os gastos assumidos mergulhando o clube numa inevitável despromoção. Ou o caso de Dimitri Pitterman, o homem que levou o modesto Alavés de uma final da Taça UEFA às distritais do futebol espanhol. Em Inglaterra muitos são os milionários que vão e vêm sem deixar saudades (que digam os adeptos do Portsmouth, West Ham United e Leeds United) ou que usam os clubes para limpar dividas como sucede com os Glazer, detentores do futuro e presente do Manchester United. Em Itália os casos das falências das empresas Cirio e Parmalat foram a alavanca que dinamitou os projectos da Lazio e Parma, e as despromoções de Napoli e Fiorentina seguiram pelo mesmo caminho. Mesmo em França, com a injecção inesperada de dinheiro no PSG por parte de um grupo de investidores do Médio Oriente, a suspeita de que o sonho parisiense não dure é imensamente maior do que a sensação de que o PSG europeu veio para ficar. A promessa de dinheiro fácil conquistou os adeptos do Málaga mas a factura a pagar agora pode ser demasiado cara. O clube não tem condições para defrontar a Champions League (será um dos adversários mais apetecíveis do play-off) e numa liga onde o Villareal, um dos poucos clubes cumpridores, foi despromovido depois de lograr o mesmo quarto posto há um ano atrás, tudo pode suceder.

 

No meio de promessas vãs e cheques sem cobertura, os milionários que querem entrar no futebol têm contribuído para a escalada de salários e a inflação de preços no mercado. Que Yaya Touré seja o jogador mais bem pago da Premier League explica bem essa realidade. À medida que mercados paralelos como o russo e chinês chegam a valores incomportáveis para a realidade europeia, sonhar com um dono milionário é uma tentação, e como tal, um risco. Aos azuis da Andaluzia o futuro apresenta-se confuso e cinzento. Dezenas de outros clubes históricos espanhóis passaram pelo mesmo calvário e vivem hoje dias difíceis. Quase todos eles vitimas confessas do conto do vigário.



Miguel Lourenço Pereira às 00:33 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Terça-feira, 17.07.12

Por um lado os clubes da Scotish Premier League fizeram jus à moralidade do futebol escocês ao rejeitar a inclusão do novo Glasgow Rangers na categoria máxima do futebol na Escócia. Por outro, prepara-se um movimento dissidente da liga para criar uma nova competição do zero com as vagas a ser ocupadas por convite. E o Rangers será o convidado principal desta festa. O país que reinventou o futebol há muito que perdeu o conceito de liga de prestigio. Agora tem de decidir entre a sobrevivência financeira e o desastre moral.

Uma liga à escocesa, discutida entre duas equipas anos sem fim, tornou-se parte da terminologia não oficial do jogo.

Exceptuando os anos 80, em que Aberdeen e Dundee United foram realmente equipas capazes de desafiar os dois grandes de Glasgow, o futebol para lá da muralha de Adriano tem sido coto privado do Old Firm. Séries de uma década consecutiva de títulos de um só clube ajudam a explicar bem o fenómeno curioso de um país que recebeu o futebol das planícies inglesas e transformou-o por completo na sua infância. Escócia ensinou o resto do Mundo uma forma de jogar que se afastava do ideário original inglês e na viragem do século XX a cidade de Glasgow não tinha só três dos maiores estádios do Mundo, tinha também três dos maiores clubes.

Mas o Queens Park desapareceu e com o passar dos anos a Celtic e Rangers passou a ser difícil combater o poderio financeiro dos rivais britânicos. A nova Champions League marcou o final da importância da Escócia no futebol europeu, o primeiro país do norte da Europa a vencer a Taça dos Campeões, em 1967, e reduziu a liga escocesa a quatro jogos ao ano, a repetição do Old Firm nesse formato original de todos contra todos quatro vezes ao ano. Os negócios televisivos dependiam sobretudo desses duelos, os sponsors, inversores e o próprio público vivia o ano para poder desfrutar desses 360 minutos de futebol. 

No meio dessa dependência, a falência definitiva dos protestantes da cidade portuária coloca o futebol da Escócia em cheque. O clube desapareceu do mapa e foi refundado, com o mesmo nome, mas forçado a competir a partir da Third Division, o quarto escalão do futebol escocês, o berço do amadorismo das Highlands. A situação do Rangers não é particularmente distinta à do Parma, Fiorentina ou Nápoles, casos similares que nos últimos 10 anos abalaram o futebol italiano. Mas nenhum desses clubes significa o mesmo para o Calcio que o Rangers para a SPL. Num acto de desespero, os novos donos do clube tentaram comprar as acções do antigo Rangers, o que significava ocupar o seu lugar na primeira divisão. Numa reunião dos restantes clubes, a proposta foi vetada. A liga escocesa cometia hara-kiri financeiro mas mantinha os seus padrões morais bem altos.

 

É dificil entender num mundo desportivo a ausência de rivalidades que são, de certa forma, a mecânica do próprio jogo. 

As grandes rivalidades são as que fazem crescer as competições, as que alimentam ilusões, adeptos, imprensa e todo o mundo que se move à volta do futebol. Quando a Juventus voltou do inferno da Serie B, os adeptos do AC Milan, o seu grande rival, receberam-nos com uma tarja que só dizia "Isto não é o mesmo sem vocês!". Em Espanha ninguém pensaria numa liga sem Real Madrid ou Barcelona, em Portugal ninguém se atreveria a despromover SL Benfica ou FC Porto e mesmo em países como Inglaterra, onde há campeões europeus a disputar o Championship, a tradição joga um papel fundamental. Do outro lado do Atlântico, na Argentina, criou-se um sistema rudimentar para evitar a despromoção dos grandes e mesmo quando, nem assim, o River Plate se salvou do abismo, tentou-se tudo até ao último dia para revogar uma decisão estabelecida no próprio tapete verde.

O Rangers acabou porque foi um dos clubes piores geridos da história do futebol. Num país sem mercado, viveu-se acima das expectativas demasiadas vezes e os azuis foram até ao extremo. A mesma situação talvez que o Leeds United, outro grande a passar horas de amargura, mas que não significou a despromoção efectiva no terreno de jogo porque o abismo entre clubes continua a ser imenso. A razão - e por razão entendemos os aspectos financeiros - diz que sem o Glasgow Rangers na elite durante quatro anos, o futebol profissional escocês pode estar perto do fim, tal como o conhecemos. Não apenas porque não haverá discussão pelo titulo mas porque a injecção de dinheiro, já de por si escassa, acabará e a maioria dos clubes poderá ter que fechar portas. Com os dois grandes de Glasgow na liga o dinheiro chega a todos e permite que clubes em situações problemáticas se mantenham vivos. E no entanto foram esses mesmos clubes que votaram contra o regresso do novo Rangers. Uma decisão moralmente perfeita que espelha bem a natureza de uns povos face a outros. Despromovido porque tinha de o ser, de acordo com a legislação em vigor, o Rangers não pode estar acima da lei apenas pelo que representa. Ou então não haveria lei. Por muito que doa ao bolso e às emoções do futebol na Escócia. 

E no entanto, como é previsível, isto não acaba aqui. Aqueles que dependem do dinheiro para manter-se vivos no negócio, aqueles que trocam a moralidade do jogo pela amoralidade do cartão de crédito, procuram agora alternativas. A mais forte seria a da criação de uma nova prova, independente da liga ou da federação, num principio, funcionando por convite. O convite seria enviado a todos os clubes que estão actualmente na SPL, incluindo o Rangers. Inicialmente o grupo por detrás da iniciativa, fortemente ligado ao Celtic Glasgow - o clube que mais tem a perder, paradoxalmente, com esta situação - ponderou não convidar aqueles que vetaram o regresso dos protestantes mas numa medida de conciliação a ideia é, pura e simplesmente, de clonar a Scotish Premier League num novo formato, acima da lei.

 

Esta novela está só nos primeiros capitulos e ninguém é capaz de antever, com claridade, como irá terminar. Se a moral do jogo, que a maioria esmagadora dos adeptos escoceses defende a capa e espada, prevalecer, o novo Rangers terá de cumprir com a sua particular via crucis antes de voltar à elite. Mas com o contrato televisivo com a Sky por assinar e o fantasma da crise internacional sobre as suas cabeças, o dinheiro poderá falar mais alto e a lei talvez acabe por ser guardada numa gaveta de tão incómoda que ás vezes é!



Miguel Lourenço Pereira às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Domingo, 15.07.12

Não deixa de ser paradoxal que o clube mais bem sucedido do futebol espanhol esteja há mais de uma década a remar contra a ideologia que trouxe os maiores triunfos e elogios ao futebol do país vizinho. Mas a chegada de Florentino Perez provocou uma profunda mudança na mentalidade desportiva do Real Madrid, o primeiro clube de topo do futebol mundial a utilizar a sua cantera como fonte de negócio rentável.

 

Cantera, cantera e cantera.

O futebol espanhol não se cansa de repetir, de peito feito, a palavra que está por detrás da base dos últimos titulos logrados. O trabalho de formação do futebol espanhol foi fundamental para o salto qualitativo que, a final dos anos 90, a esmagadora maioria dos clubes espanhóis deu. Hoje é sinónimo da politica de sucesso do FC Barcelona (com alguns pontos negros que analisaremos nos próximos dias), mas também do Espanyol, Villareal, Real Sociedad, do Sevilla, do Athletic Bilbao, do Rayo Vallecano e com clubes que a utilizam menos do que deveriam, casos de Valência, Atlético de Madrid ou Mallorca. É o que está por detrás da mutação táctica do futebolista espanhol, da politica de valores morais que alterou profundamente o rosto do desportista do país vizinho. E no entanto, para o Real Madrid, o mesmo da geração dos Ye´s-Ye´s (campeão europeu em 1966) ou da Quinta del Buitre, a cantera tem outro objectivo: nutrir os cofres do clube.

Desde 2000 até agora, época em que começou o episódio galáctico de Florentino Perez (com um breve hiato de três anos de Ramon Calderon), só Iker Casillas cumpriu o sonho de tornar-se em figura importante do plantel principal depois de ter sido promovido de forma directamente do Real Madrid Castilla, a única equipa B da história que disputou uma final da taça do seu país, em 1980, contra o próprio Real Madrid. Mais ninguém!

La Fabrica, como Di Stefano baptizou as camadas de formação dos merengues, tal como La Masia, não deixa de produzir ano atrás ano novos talentos, dignos de entrar nos quadros da maioria dos clubes do futebol mundial. E porque é que em Madrid não há espaço para o producto local? Onde vão todos estes talentos? A resposta está espalhada um pouco por esse mundo fora.

 

Roberto Soldado, dianteiro internacional do Valencia. Juan Mata, campeão europeu com o Chelsea. Alvaro Negredo, campeão europeu do Sevilla. Juanfran, vencedor da Europe League com o Atlético de Madrid. Rodrigo, Ruben de la Red, Javier Portillo, Miguel Torres, Pablo Sarabia, Diego Lopez, Esteban Granero, Alvaro Arbeloa, Javi Garcia, Dani Parejo, Jose Callejon ou Dani Carvajal.

Nomes próprios que o adepto comum conhece mas dificilmente os associa com o clube da capital.

Salvo os casos de Arbeloa, Granero e Callejon, recomprados nos últimos anos por 7,5 milhões no total, a totalidade dos restantes jogadores (a lista completa inclui outros 20 nomes que disputam as principais ligas da Europa) vestiu apenas de forma ocasional, a camisola do Real Madrid. O caso mais paradigmático foi o de Negredo. Vendido ao Almeria com opção de recompra, prática habitual dos clubes espanhóis, foi adquirido pelo clube no último dia do prazo depois de dois anos de excelente rendimento. O objectivo: revendê-lo ao Sevilla de forma definitiva.

Desde 2000 até hoje, o Real Madrid vendeu um plantel inteiro de jogadores formados na sua casa por valores que rondam os 80 milhões de euros.  Um valor que não chega sequer aos 100 milhões gastos em Cristiano Ronaldo mas que têm sido fundamentais para equilibrar as contas do clube. Anualmente o clube logra receber entre 5 a 12 milhões de euros vendendo apenas jogadores do Castilla, números que muitos clubes são incapazes de igualar se falamos em jogadores do seu plantel principal. Ao contrário do Barcelona, que procura colocar no plantel principal anualmente jogadores da sua cantera, Iker Casillas ainda espera sucessor. 

Com a saída de Raul Gonzalez e Guti, é o último porta-estandarte da formação e não perpectiva um sucessor nos próximos tempos. Originalmente o pretexto estava na divisão por onde jogavam os jogadores do Castilla, a Segunda Divisão B. Mas durante a mesma década o clube esteve por duas vezes (foi promovido este ano) na Liga Adelante, motivo que não foi suficiente para aproveitar algumas das suas mais valias. Os adeptos merengues, habituados a ver os mais sonantes jogadores do futebol mundial, sentem agora a diferença com o projecto do Barcelona e pedem mais jogadores da casa na primeira equipa. Mas a verdade é que esse fenómeno é bastante recente e no primeiro mandato de Perez eram vários os que defendiam a politica de vender cantera para comprar com a "cartera llena", os Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham e companhia. 

Os homens do clube defendem que cada venda conta com uma opção de recompra a baixo preço (usada nos casos supracitados) e que se um jogador desponta o Real sempre pode recuperá-lo. Mas a verdade é que esses casos têm sido pontuais. E com o fantasma da regra do 6+5 que a UEFA tanto quer fazer valer, há algo nesta politica desportiva que terá de mudar para que, finalmente, os "milros" do Castilla possam sentir na pele o verdadeiro peso da camisola branca.



Miguel Lourenço Pereira às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 13.07.12

A decisão da Liga Portuguesa de Futebol apanhou todos de surpresa. Numa situação económica sem paralelo na história do desporto português, a Liga acabou com uma das fontes de sustentabilidade da esmagadora maioria dos clubes profissionais portugueses. Mas também colocou o ponto final a uma politica de obscuro controlo politico por parte dos clubes grandes sobre a imensa minoria dos pequenos e médios clubes. Financeiramente desastrosa a medida de acabar com os empréstimos na Liga Sagres não deixa de ser moralmente necessária.

Podem os clubes portugueses sobreviver a uma medida que eles próprios aprovaram contra o seu interesse?

Esse espiro auto-destructivo do nosso futebol é único no Mundo. Numa prova onde mais de 80% dos clubes contam com jogadores emprestados (na esmagadora maioria mais do que 3 até), terminar com os empréstimos parece um contra-senso. E financeiramente é mais do que isso, um verdadeiro hara-kiri. Equipas da segunda metade da tabela que vivem sobretudo do fluxo de empréstimos que chega dos grandes terão agora de encontrar plantéis competitivos pagando do seu próprio bolso o que até agora era maná dos céus. Terão de procurar dinheiro onde ele não existe - na situação actual, com emprestados, ele já é uma utopia - para fechar os plantéis para a próxima temporada e para arcar os gastos salariais de 100% dos jogadores, algo que até agora só seis clubes em Portugal o faziam.

 

E isso quando é hoje em dia bastante proveitoso apostar o que quer que seja no www.casinoonline.pt ou num outro site de apostas num jogador português.

 

A medida, de tão drástica que é, pode parecer anedóctica. Afinal, se a ideia era acabar com a politica de empréstimos havia sempre opções mais tolerantes, como proibir o número máximo de jogadores emprestados num clube ou proibir igualmente a proveniência de mais do que um jogador do mesmo clube de origem. Mas nenhum desses cenários, à inglesa, foi contemplado. De um golpe só a Assembleia Geral, numa proposta do Nacional da Madeira secundada pelo Sporting CP, declarou guerra ao poder instituído de FC Porto e SL Benfica tentando minimizar assim a sua asfixiante influência junto dos clubes pequenos do nosso futebol. Porque se há algo que é evidente neste conflicto é a absoluta falta de moralidade de um sistema que foi criado para ajudar a desenvolver jovens jogadores das equipas grandes e para resolver problemas pontuais dos clubes médios e pequenos e que acabou por se tornar numa forma controlada de exercício de poder por parte de águias e dragões.

 

O cenário é fácil de analisar.

FC Porto e SL Benfica descobriram há alguns anos que melhorar as relações com clubes "aliados" passava, muitas vezes, pelo simples gesto de garantir facilidades em empréstimos dos seus excedentes. Desde 2002 até hoje o tamanho dos quadros oficiais de jogadores de ambos os clubes duplicou e com mais de 20 jogadores sob contrato e sem colocação, a politica de emprestar para ganhar influência na tomada de decisões da Liga tornou-se evidente. Ambos os clubes estabeleceram laços com várias instituições, emprestando dois, três, quatro, cinco e até seis jogadores num só ano. Jogadores de talento, jogadores cujo o salário era habitualmente pago na totalidade pela casa mãe e jogadores que saiam duplamente grátis o que permitia, a curto prazo, que um plantel de 25 composto por seis ou oito emprestados levasse os clubes a gastar o que não tinham noutros jogadores, especialmente estrangeiros, muitas vezes com comissões de empresários afiliados aos clubes grandes com quem mantinham relações. Essa forma de mover dinheiro e influência resultou enquanto a crise não apertou forte.

Poucos questionavam os planteis gigantescos dos dois grandes, poucos criticavam os negócios pouco claros entre grandes e pequenos com jogadores que surgiam do nada e poucos pensavam que o dinheiro que os pequenos e médios clubes podiam ter poupado com isto estivesse a ser mal gasto em negócios com empresários escolhidos a dedo. Mas a crise chegou e para todos.

Primeiro os clubes grandes começaram a perceber que ter tantos jogadores sob contrato podia ser um problema e começaram a emprestá-los para clubes estrangeiros que, esses sim, já se faziam cargo de partes substanciais da sua ficha salarial. Por outro, os clubes pequenos deixaram de ter dinheiro liquido para investir e tornaram-se ainda mais dependente dos empréstimos. O caso da União de Leiria é paradigmático mas não é único.

Mas é preciso ver realmente quem está por detrás desta ideia. Clubes como o Feirense, que apostam em jogadores a custo zero, jogadores nacionais e jogadores que pertencem ao clube. Clubes que são incapazes de acreditar como há equipas que ano após ano se salvam agonicamente da despromoção com planteis cuja metade dos jogadores vem de um dos grandes, num autêntico acto de concorrência desleal. Clubes que, na segunda divisão, sabem quanto custa fazer um clube sustentável e competitivo e que, quando entram na elite, têm dificuldades em sobreviver se não entram no esquema de protecção de um dos grandes.

A reunião da Assembleia Geral contou com 9 votos contra, 1 abstenção e 19 votos a favor. Os clubes que apoiaram a iniciativa foram, esmagadoramente, os clubes da Liga Orangina. Eles, que este ano não terão de se confrontar com a lei, sabem que subir à primeira divisão será complicado mas, uma vez aí, o fosso entre os que já estão a lutar pela despromoção e eles será claramente inferior com esta medida.

 

O fim dos empréstimos é um caos financeiro mas é também uma porta aberta para o futebol português.

Juntamente com o aparecimento das equipas B e a necessária reorganização dos direitos televisivos, é uma medida que não só ajuda a limpar moralmente a competição como contribuiu, na sua essência, para uma nova aposta na formação. Os clubes, sem poder viver dos empréstimos, e sem dinheiro para ir ao mercado terão, forçosamente, de recorrer aos jogadores da casa. O mais provável é que se assista a uma maior quota de jogadores portugueses de formação própria nos clubes nos próximos anos. Mais, os clubes grandes, até agora habituados a comprar os jogadores que mais rapidamente se destacavam em emblemas inferiores, sabendo que os podiam usar como isco durante os anos seguintes, terão agora de pensar duas vezes. Contratar um jogador que não funcione no esquema da equipa principal acontece a qualquer um, mas nem todos estarão preparados para passar para a equipa B (o caso do benfiquista Djaniny é um bom exemplo) nem para ser emprestados ao estrangeiro, movimentos que aos clubes não traz nenhum lucro financeiro e politico. Sendo assim, com o dinheiro a escassear, os planteis a emagrecer, o aparecimento das equipas B como ponte de transição para os juniores, os grandes deixam de ter necessidade de atacar o mercado da mesma forma e jogadores como Hugo Vieira ou Fabiano, poderiam passar mais uns anos no seu clube de origem o que, a médio prazo, significa uma profunda melhoria dos clubes da classe média portuguesa, os que desapareceram nos últimos 10 anos, clubes como o Boavista e Belenenses, Vitória de Guimarães ou Maritimo, a maior parte dos quais passando a depender de uma politica de sobrevivência sem qualquer tipo de ambição.

 

Uma liga mais transparente é no entanto um conceito utópico no mundo do futebol. Seguramente que haverá manobras para contrariar a lei. Em Itália utilizam o método da co-propriedade, em Espanha o da venda com cláusula de recompra por valores irrisórios e ninguém põe de parte que uma nova directiva da Liga, pura e simplesmente procure eliminar a medida para agradar a águias e dragões. Mas o primeiro e necessário passo foi dado. Haverá clubes que irão sofrer mais do que outros com esta medida porque têm dependência crónica dos empréstimos e esses serão os primeiros a desaparecer. Mas a médio prazo a medida pode não só agilizar a aposta na formação e nos jogadores nacionais como restabelecer um equilíbrio no meio da tabela que só ajudará a fazer da Liga Sagres uma prova ainda mais competitiva.



Miguel Lourenço Pereira às 18:49 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Terça-feira, 01.05.12

No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro. 

Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.

Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.

O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.

Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.

 

Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.

Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.

Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.

Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.

 

Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Sábado, 17.03.12

Em 1996 a Premier League começava a despontar, a afastar-se da penumbra dos días de luto da First Division. Talvez nem os mais optimistas pensavam então no caracter singular e icónico que a prova teria uma década depois. Esse foi o último ano em que os ingleses não lograram colocar nenhuma equipa nos Quartos de Final da Champions League. O milagre de Ivanovic pode ter evitado que, 16 anos depois, o cenário se volte a repetir. Mas das sete equipas que começaram a temporada europeia só resta uma. E esta realidade não é nova. O modelo da competição e a saúde financeira e desportiva dos clubes da Velha Albion volta a estar no centro das atenções. A debacle anunciada transformou-se em realidade, os velhos fantasmas voltam a pairar pela Mancha...

 

O Blackburn Rovers de Dalglish, Sutton, Shearer e dos milhões de Jack Warner logrou o milagre em 1995.

A vitória na Premier League deveu-se mais ao hara-kiri desportivo do Manchester United, orfão do genial Eric Cantona a pagar as penas do seu mitico golpe de kung-fu, do que propriamente ao talento dos Rovers. O triunfo foi também o ocaso de uma era. Foi a última vez que um clube fora do binómio Manchester-Londres venceu um titulo. Foi também, de certa forma, o último suspiro da First Division onde equipas como Everton, Aston Villa, Nottingham Forrest e Derby County podiam bater o pé aos grandes. Na temporada seguinte os homens de Ewood Park lograram o ridiculo na Champions League, um quarto posto na fase de grupos com 4 pontos em seis jogos, num grupo onde estavam Spartak Moscow, Legia Warsow e Rosenborg. Foi o ocaso da velha Inglaterra, o final de um ciclo negativo que a partir do ano seguinte se iria começar a converter numa tendência positiva com as meias-finais logradas pelo Manchester United, equipa que venceria duas vezes a prova nos dez anos seguintes. Os Red Devils, mais do que qualquer equipa, simbolizaram a supremacia moral e real da Premier League sobre a decadente Serie A e uma La Liga demasiado pendente do duelo Barça-Madrid para crescer no escalão médio, onde a maioria dos clubes só conseguiam sobreviver com ajudas públicas. Dezasseis anos depois dessa data que muitos já tinham esquecido, o futebol inglês volta a ficar demasiado longe do máximo palco europeu. Das sete equipas que arrancaram a temporada europeia (Arsenal, Tottenham, Chelsea, Manchester United, Birmingham, Stoke e Manchester City), só os Blues lograram apurar-se para os Quartos de Final da sua respectiva competição (depois de despedir o treinador e obrar um verdadeiro milagre em Stanford Bridge). E o pior de tudo foi a imagem deixada com eliminações precoces primeiro (United, City, Tottenham) e com sérios correctivos no resultado e no jogo (Arsenal-Milan, United-Bilbao, City-Sporting). O mais curioso é que ninguém parece demasiado surpreendido.

 

Depois da final inglesa entre Manchester United e Chelsea, a tendência de supremacia da Premier começou a inverter-se na Champions League. Nesse ano tinham estado três equipas nas meias-finais. Em 2007 tinham sido três, e em 2006, 2005 e 2004 uma. Na temporada seguinte o Manchester United repetiu o lugar na final e voltaram a encontrar-se três equipas inglesas na fase prévia à final mas o triunfo do Barcelona anunciava uma nova era. Em 2010, pela primeira vez em sete temporadas, nenhum clube inglês esteve nas meias-finais da prova. Em 2011 foram apenas os Red Devils a chegar tão longe. Já ninguém falava de supremacia britânica.

Não eram só os grandes jogadores (Cristiano Ronaldo, Thierry Henry, Arjen Robben) que partiam. Não era só o descontrolo financeiro absoluto da maioria dos clubes, a falta de treinadores ingleses de nível, a clara baixa de qualidade nos niveis de excelência da formação local ou a sobrelotada presença de jogadores estrangeiros de segundo e terceiro nivel, bem diferente do que se viveu nos anos 90. Era algo mais do que isso, uma sensação que se podia palpar.

A eliminação dos dois gigantes ingleses na fase de grupos surpreendeu, mas confirmou essa tendência gritante. O Manchester City, apesar de todos os milhões invertidos, deixou claramente evidente a sua falta de estofo europeu ao cair diante de Bayern Munchen e Napoles. O United repetiu a péssima performance de 2006 e ficou de fora num grupo acessível mas que acabou por ser desprezado por Alex Ferguson até que já não havia volta a dar. O facto dos dois clube serem, ao mesmo, tempo os que dominam claramente a competição nacional explica o desfaze real que começa a existir entre a Premier de há meia dúzia de anos e a Premier League actual.

Na Europe League – competição onde nenhuma das equipas apostou forte e que nenhum clube inglês vence há mais de uma década – a imagem foi ainda mais penosa. O Manchester United sofreu demasiado contra o Ajax e foi futebolisticamente ridicularizado pelo jogo do Athletic Bilbao. Isto utilizando um 11 com a maioria dos seus jogadores titulares. O City eliminou o FC Porto, sofrendo no Dragão e rematando a eliminatória apenas nos dez minutos finais da segunda mão, mas foi incapaz de dobrar a raça e determinação do Sporting. Também neste duplo confronto Mancini usou cartas que valem milhões. O nivel máximo da Premier League é agora questionado por equipas que não lutam pelo titulo em Espanha, Portugal e Holanda e projectos desportivos constantemente questionados como o do AC Milan. Enquanto Espanha continua a demonstrar a sua força com as campanhas de Barcelona e Real Madrid na Champions e o trio Valencia-Atletico Madrid-Athletic Bilbao na Europe League, o fosso entre os conjuntos ingleses e os continentais começa a aumentar.

Apesar do sucesso económico da Premier League, a maioria dos clubes parece incapaz de competir com o poderio financeiro dos grandes clubes espanhóis. Cada vez menos os principais conjuntos da Premier conseguem atrair jogadores de top que joguem no continente (os casos de Hazard, Gotze, Sneijder, Forlan, Falcao, Neuer, Ribery são evidentes) e acabam por ver os orçamentos de transferências inflacionados pelas movimentações entre jogadores da própria liga ou compras realizadas directamente a ligas menores como a portuguesa, holandesa ou francesa. A qualidade dos planteis dos grandes clubes tem vindo a decrescer, os sucessivos empréstimos obtidos junto das entidades bancárias com juros cada vez maiores cercam as contas da maioria das instituições e os elevados preços das entradas começam a aumentar o fosso entre clubes e adeptos a números pré-Relatório Taylor. Uma encruzilhada que não deixa de ser acompanhada pela decadência de uma geração que foi vista por muitos como a “galinha dos ovos de ouro” do futebol inglês e a incapacidade de surgirem nomes com força suficiente para substituí-los. Ferdinand, Gerrard, Carragher, Terry, Lampard, Cole continuam a ser as figuras de referências locais já bem passados a casa dos 30.

 

Neste contexto parece evidente que a qualidade média do jogo da Premier League se transforma progressivamente numa tendência negativa a médio prazo. O imenso vazio entre os milhões de Manchester e os restantes clubes vai aumentando, a liga parte-se cada vez mais em três lotes (um segundo com Chelsea, Arsenal, Tottenham, Liverpool e um terceiro onde se incluem todos os outros) e nos palcos europeus essa crescente debilidade faz-se notar. Se é provável que nos próximos anos alguma equipa inglesa consiga colocar-se de novo numa final europeia, também é cada vez mais evidente que o seu papel hegemónico, como sucedeu com a Itália dos anos 90 e a Espanha do virar de século desapareceu por completo.



Miguel Lourenço Pereira às 11:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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