Quarta-feira, 30.10.13

Quem me conhece sabe perfeitamente que não sou um "Ronaldieber", ou lá como se chamam agora os groupies adolescentes. Também não acredito na defesa absoluta de quem quer que seja pela nacionalidade, cor ou credo. Se Blatter tivesse ridicularizado Messi como um "enano hormonado", como lhe chamam por Madrid, teria dito exactamente o mesmo. A FIFA existe apenas e só porque o futebol é um fenómeno global que ultrapassa todo o tipo de fronteiras. É a verdadeira globalização. E deve-o aos seus grandes jogadores por cima de tudo e de todos. E Ronaldo é um desses jogadores e merece o respeito de quem vive, indirectamente, à sua custa!

Hoje cumpre 53 anos Diego Armando Maradona.

El Pibe é provavelmente um dos melhores jogadores de todos os tempos. Vê-lo jogar é o mais próximo que um adepto de futebol pode estar de um orgasmo artístico. Vi Maradona fazer o possível e o impossível milhões de vezes. Desafiava a gravidade, desafiava tudo e desafiava todos. Foi o último grande símbolo do "potrerismo" puro e mágico da escola sul-americana. E foi também um drogado, um putanheiro e um fraudulento fiscal. Começou a consumir cocaína em Barcelona, em Nápoles passou a ser acompanhado por uma corte das mulheres ao serviço dos capos da máfia local e deve, ainda hoje, milhões de euros ao estado italiano. E no entanto, hoje, 30 de Outubro, só nos conseguimos lembrar da "mano" e do "barrillete cósmico". Porque Maradona, o jogador, é muito mais do que Maradona, o homem.

Johan Cruyff cumpriu há dois dias quarenta anos da sua estreia como futebolista do Barcelona.

Foi, talvez, o momento mais marcante da história moderna do futebol europeu. Significou a transição definitiva da escola danubiana do centro da Europa para Barcelona. Está na base do Dream Team e do Pep Team, da cultura de futebol de posse que a muitos nos tem fascinado. Cruyff é, para mim, o melhor jogador europeu de sempre. Se é que algo assim se pode dizer. É também um dos homens mais inteligentes alguma vez associados a este jogo, dentro e fora do campo. No relvado não parava de se mexer, de falar, de dar ordens, de movimentar-se e movimentar os outros. E com um gesto, uma finta de corpo, tal como Diego, desafiava a gravidade e fazia as estrelas sonhar. Cruyff é também um homem obcecado com o dinheiro, um sovina de primeira, um populista capaz de baptizar o filho como Jordi aos seis meses de chegar a Barcelona e, sobretudo, um menino-mimado que abandonou o clube que cuidou da sua família desde que ficou órfão no dia em que os seus colegas não lhe votaram como capitão. Na rua seria conhecido como o mimado dono da bola. No mundo do futebol é um génio superlativo. Para mim, pessoalmente, irrepetível.

 

É muito perigoso julgar os jogadores pelo que são fora do campo.

Best era alcoólico e mulherengo. Cantona agredia pessoas quando insultado e saiu chateado de quase todos os clubes por onde passou. Zidane fervia em pouca água como poucos. Garrincha era a versão brasileira de Best mas com um neurónio menos. Meazza tinha simpatias fascistas. Di Stefano era um autêntico ditador moderno dentro e fora do balneário do Real Madrid. Pelé era um fraudulento oportunista e um demagogo que vive há décadas daquilo que representou. A lista é infindável.

Cristiano Ronaldo - como nenhum dos outros nomes citados - é propriamente um exemplo. Pelo menos para mim.

Mas como jogador é irrelevante o que gaste em cabeleireiros. O que gaste em carros desportivos. Com quem dorme à noite, onde passa as férias, de que cor é o bronzeado, de que tamanho são os brincos que leva e quão ridículos são os gestos que faz nas celebrações (ainda que o "calma, calma" tenha sido genial, confesso). Ronaldo é tudo isso como homem. Não como jogador. Como futebolista é um dos melhores da história, seguramente um dos melhores das últimas décadas. É capaz de coisas abrumadoras que a esmagadora maioria dos jogadores nem sonhando poderia repetir. É um jogador totalmente diferente de Messi ou Ronaldinho, por exemplo, mas isso não invalida que em campo seja imenso, que os seus números possam ser impossíveis de bater num futuro próximo e que quando está em campo o rival tenha de se benzer um par de vezes extra para o travar. Ronaldo é um dos maiores futebolistas do Mundo e a FIFA - a organização que deve velar "for the good of the game" devia ter-lhe o mesmo respeito que tem a qualquer outro. Nem menos, nem mais.

O que Sepp Blatter fez - e atenção, o suíço fez coisas muito mais graves e, lamentavelmente, menos mediáticas - é um insulto ao futebol não a Ronaldo. O mesmo seria válido se tivesse dito que preferia o português a Messi porque este é um fraudulento fiscal, vomita recorrentemente no relvado e fala de uma forma que ninguém entende. Messi é um génio (cada um poderá escolher de quem gosta mais) e como futebolista há poucos tão bons. Um deles é Ronaldo. Blatter como amante do jogo - como eu, como vocês - pode ter o seu favorito. Naturalmente. Como presidente da FIFA não o pode ter, muito menos utilizando elementos externos ao jogo como balança de decisão.

 

Inevitavelmente, esta polémica apenas joga a favor de Cristiano Ronaldo. Conseguiu colher simpatia global, unir muitos portugueses a sua polémica figura (continuo sem entender a obrigatoriedade nacional de estar sempre com alguém que é do mesmo país mas também não entendo o oposto, a critica gratuita e invejosa tão habitual dos países do sul da Europa) e reforçar a ideia de que muitos dos prémios do génio argentino dos anos anteriores possam ter sido condicionados. Pelo menos o critério mudou, isso temos todos claro, caso contrário Wesley Sneijder e Andrés Iniesta (e não Ronaldo) também já teriam vencido o tal Ballon D´Or. O que a FIFA acabou de fazer é um verdadeiro insulto ao jogo e não haverá forma de emendar o erro. Ronaldo deveria - ainda que não o vá fazer - renunciar publicamente aos prémios FIFA dando um sinal de maturidade e despreocupação. O seu ego seguramente que não lhe permitirá. E da próxima vez que alguém se lembrar da dança de Blatter e dos seus comentários, lembrem-lhes que tipo de pessoas eram "El Pibe" ou o grande Johan fora dos relvados. Talvez aí o gel no cabelo e o brinco dourado pareça ainda mais inofensivo do que já é. O futuro, esse, é quem tratará de julgar o verdadeiro papel de Cristiano Ronaldo no constelamento das estrelas do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 12:06 | link do post | comentar | ver comentários (23)

Sexta-feira, 30.08.13

Depois de todos terem já assumido que o Mundial 2022 foi comprado pelos potentados do Golfo, a pandilha de Joseph Blatter, Michel Platini e companhia querem agora dar a volta ao prometido e transformar o primeiro mundial no Médio Oriente num torneio disputado no Inverno, rompendo com 90 anos de história. Uma decisão desastrosa que, a cumprir-se, é a estocada definitiva a tudo aquilo que o futebol representa às mãos da mesma elite corporativo que minou a sociedade ocidental noutros sectores, sempre por um preço.

 

Eu sei que os meus amigos sul-americanos sempre se queixam - e com a sua dose de razão - que para eles o Mundial é um evento invernal.

Interrompe o seu calendário desportivo, despoja as suas equipas de jogadores enquanto os torneios prosseguem o seu ritmo. Para eles, ao contrário do espectador europeu, asiático e norte-americano, o Mundial não é sinónimo de sol, bom tempo, praia, dias largos e perfume de Verão. Da mesma forma que o nosso Carnaval é frio e chuvoso, os seus Mundiais são o prelúdio do duro Inverno. Será assim em 2014 para todos, um torneio no Inverno do hemisfério sul.

No entanto, a tradição ainda é (ou devia ser) o que era e os Campeonatos do Mundo são torneios do mês de Junho, do final da época europeia, do Verão do hemisfério norte, onde tudo se começou a idealizar e a cozer. Foi assim durante noventa largos anos e com a presença massiva dos internacionais dos restantes continentes nas ligas europeias, mais sentido faz ainda. Aliás, são os sul-americanos que começam a debater a possibilidade de se unirem ao calendário europeu e não o oposto. Agora o que a FIFA - e a sua tropa, que inclui a UEFA de Platini, delfim de Blatter desde os anos 90 - nos quer vender é a obrigatoriedade de disputar um Mundial no Inverno no hemisfério norte. Ao contrário da proposta que ganhou (comprou?) a votação, a de um torneio realizado em Junho de 2022 nesse grande país que é o Qatar.

Uma jogada corporativa para estilhaçar ainda mais a natureza do beautiful game.

 

A equação é fácil.

O Mundial é vendido ao melhor postor sob um pressuposto inviável. Já o era na altura da votação e os que deram o seu voto favorável - como Platini - pareceram não ter problemas. De repente lembram-se que a temperatura em Junho no Médio Oriente é imprópria para passear o cão, já para não falar em desportos de alta competição. Falam-se em estádios que se auto-refrigeram, campos fechados, etc, mostrando uma vez mais o total desrespeito que o adepto que se desloca é habitualmente tratado por estas organizações que têm como máxima "For the good of the game".

Até que alguém sugere, e porque não no Inverno? E todos começam a dizer que sim, que é melhor, que faz sentido, que não há problema nenhum, é só ajustar esta data aqui, esta ali, e zás. O dinheiro mantém-se nos seus bolsos, o calor desaparece e todos contentes. Todos?

A FIFA - que já tem preparado um calendário catastrófico para o Mundial 2014, com deslocações gigantescas por todo o Brasil que vão destroçar as ambições dos mais apaixonados dos adeptos - diz que só precisa de cinco semanas para reajustar os calendários europeus. Mente. Como sempre.

O Mundial é um torneio que dura, exactamente, um mês (quatro semanas).

As selecções concentram-se quinze dias antes da prova (duas semanas) para prepararem-se para a competição, adaptar-se às condições climatéricas, etc. Quando o torneio acaba, devido ao seu grau de exigência, os jogadores necessitam de descanso, como mínimo uma semana e meia, antes de se voltarem a incorporar. Os vencedores também têm direito a celebrar, a que há que juntar a esse prazo mais meia semana, como mínimo. No total estamos a falar de oito semanas. Dois meses. Dois meses em que o Mundo para para a FIFA cobrar o seu envelope dourado. Quando isso sucede, em Junho, a época acabou. Os jogadores saem do torneio para férias, os não-convocados já estão a desfrutar do seu período de descanso e tudo faz sentido. Agora imagem que no dia 30 de Outubro a época, que começou dois meses antes, para. E que só recomeça a 1 de Janeiro. Durante esses dois meses disputam-se habitualmente 4 rondas europeias, 10 jornadas das principais ligas, eliminatórias de taças, o Mundial de Clubes. E tudo isso seria adiado por causa de um favor?

A maioria dos presentes no Mundial celebra o Natal. Estarão dispostos a passar esse período encerrados num hotel num país muçulmano? E os adeptos, poderiam viajar nesse período do ano durante quinze dias para um país que é tudo menos amigo dos estrangeiros que não cheguem em jets privados ou carros desportivos? A temporada acabaria com uma final da Champions League a meados de Julho? O desgaste físico dos jogadores de elite - que podia provocar uma lesão grave, capaz de destruir uma carreira - permitir-lhes-á estarem presentes nos momentos decisivos da temporada?

Ao adepto estão a destruir-lhe o jogo. Pequenos mas importantes detalhes como este apenas o confirma. O Mundial no Inverno significa mais do que um ano perdido para o futebol no continente europeu (e que afecta os restantes continentes pela massiva presença de jogadores africanos, americanos e asiáticos nas ligas europeias). Condicionará as épocas anteriores e posteriores, a carreira dos jogadores, as ilusões dos adeptos. Tudo por um punhado de dólares. A tradição ainda vale muito. O que cada vez vale menos é a moral de quem organiza o jogo.

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:41 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 20.03.13

José Mourinho quebrou o seu silêncio selectivo para dar uma entrevista à RTP que é como quem dá a possibilidade aos amigos de lucrarem com palavras que semana atrás semana se recusa a prenunciar onde deve, na sala de conferências de imprensa do clube que lhe paga 12 milhões de euros ao ano. E fê-lo para, entre outras coisas, denunciar a corrupção que está por detrás do Ballon D´Or. O mesmo prémio que em 2010, quando venceu a primeira edição, não pareceu ter nenhum problema. O mesmo prémio que, ano após ano, treinadores, jogadores, jornalistas e público em geral se sentem determinados a dar uma importância que, no fundo, não tem.

Vicente del Bosque venceu o Ballon D´Or ao Melhor Treinador de 2012.

Ganhou-o com mais de 10% dos votos do segundo, José Mourinho, o vencedor inaugural do prémio e 29% mais do que Josep Guardiola, a quem sucedeu no palmarés. Venceu-o com o voto maioritário de seleccionadores e jornalistas, mas não dos capitães que preferiram a figura de Mourinho. A gala foi a 7 de Janeiro de 2013. Mais de dois meses depois aparece Mourinho, qual vencido despeitado, anunciando que foi o seu conhecimento da existência de fraude nas votações que o levou a não marcar presença na gala (ao contrário de Cristiano Ronaldo, também português, também do Real Madrid, também segundo nas votações). Está no seu direito.

Os factos parecem dar-lhe razão. Paulo Duarte, seu velho amigo e antigo jogador nos seus tempos de técnico da União de Leiria, confessou que não teve oportunidade de votar porque o formulário lhe chegou para lá da data limite de voto. Uma situação comum a países como a Guiné-Bissau ou Costa de Marfim, nações que, a julgar pelo lido, votariam em Mourinho para vencer o prémio. O técnico português fala ainda de personalidades que lhe terão ligado falando na existência de boletins de voto alterados. Uma vez mais, os seleccionadores da Zâmbia e Zimbabwe queixaram-se na imprensa local que os nomes que aparecem na lista oficial da FIFA não se correspondem com as suas votações, um deles referindo até que nunca chegou a ver o formulário de foto e que alguém terá votado por ele.

Curiosamente, os amigos de Mourinho permanecem em silêncio e seguramente continuarão calados porque comprar uma guerra contra a FIFA é, habitualmente, meio caminho para ter uma carreira curta e sem grandes oportunidades. A velha raposa chamada Blatter raramente esquece estes insultos à sua honra, se é que lhe sobra alguma para mostrar ao público depois de todos os escândalos dos últimos quinze anos de presidência. Parece ser perfeitamente possível dizer que houve irregularidades e fraude nas votações do Ballon D´Or. E quê?

 

O que mais supreende - ou talvez não - nas declarações de José Mourinho é a sua percepção que os erros acontecem exclusivamente no ano em que perde.

Em 2010, quando venceu o prémio - também contra Del Bosque, então recém-consagrado campeão do Mundo pela selecção espanhola - o técnico português subiu exaltante ao palco, celebrou, dedicou o prémio e nunca se lembrou de rever a lista de votações para confirmar se faltava algum país, não fossem eles ter votado noutro técnico. Como tantas vezes sucede nas acusações aos comités de arbitragem, as palavras surgiram apenas depois de uma derrota. Não lhe retira a razão mas sim a moral de falar quando, nos momentos de glória, tudo fica guardado num baú e escondido debaixo da cama para não chamar à atenção.

Parece-me claro que um prémio com estas caracteristicas tem tudo para ser alvo de fraude. Nada resta já do velho Ballon D´Or, um prémio de glamour mais do que reconhecimento real de talento. Ao abrir as votações, muito democraticamente, a todos os capitães, seleccionadores e correspondentes da France Football do mundo, a FIFA abre também a caixa de pandora. Em países onde a corrupção está oficialmente instalada, seguramente que os votos podiam ser comprados facilmente. Em estados que seguem apenas os máximos eventos desportivos, naturalmente que a votação está condicionada aos nomes mais emblemáticos. Na Etiópia, onde a Premier é seguida com devoção, Roberto Mancini coleccionou vários pontos que não se repetiram em nenhum outro país. Nos países hispânicos e lusófonos o índice de sucesso de Messi e Ronaldo foi proporcional à influência cultural de cada um e o seleccionador espanhol, perdão, chinês, não teve problemas em votar em dois técnicos e três jogadores do seu país referindo-se ao jornal Marca como algo normal porque há sempre que votar nos seus.

O que nos leva a perguntar sobre o valor real que possa ter um prémio que se transformou num concurso de popularidade nos últimos três anos, um concurso fechado nos nomes mais simbólicos do futebol internacional, distante da ideologia inicial de um prémio que não teve problemas em celebrar os êxitos de Sivori, Masopust, Albert, Blokhin, Simonsen, Belanov, Owen e Cannavaro quando havia jogadores muito mais completos em activo, os mesmos que hoje estão destinados a vencer como condição sine qua non. O Ballon D´Or deixou de ter o prestigio e o respeito de quem via algo original e distinto na atribuição do prémio da France Football, consciente que num desporto colectivo a entronização pessoal faz sempre pouco sentido.

 

As queixas de Mourinho deixam-no, uma vez mais, nú e só ante uma das máximas entidades do jogo. Depois de ter desafiado a UEFA com a sua lista de erros arbitrais, agora o técnico português lança um dardo envenenado à FIFA a propósito do seu prémio mediático comprado a peso de ouro à família L´Equipe-France Football. O treinador do Real Madrid pode perfeitamente queixar-se em ambos os casos, até porque os momentos concretos arbitrais que cita, bem com os erros nas votações, são reais. Mas esquecer-se das mesmas particularidades quando saiu vencedor, tanto em provas europeias (Old Trafford, 2004; San Siro, 2010; quem sabe se Old Trafford, 2013 também) como na atribuição do primeiro Ballon D´Or ao melhor técnico da história apenas deixam reflectida uma pálida e triste imagem de um treinador genial consumido cada vez mais pela sombra da sua própria persona.



Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (22)

Sábado, 14.05.11

Não é a primeira vez. Nem sequer é surpreendente. Mas os rumores que indicam a forte possibilidade da Football Association inglesa abandonar a FIFA são reais. E voltam a colocar no ponto de mira a máxima instituição do futebol mundial.

 

Lord Triesman abriu a guerra e está determinado a acabar com ela.

O lider da candidatura inglesa ao Mundial 2018 voltou à carga com novas acusações de corrupção nas mais altas esferas da FIFA. Há um ano foi forçado a demitir por dizer o mesmo. Mas então os ingleses ainda sonhavam com contrariar as fracas expectativas que havia à volta da sua candidatura. Até ao último momento pensaram que a FIFA ia, por uma vez, jogar limpo. O resultado é sobejamento conhecido e aqueles que tentaram calar figuras polémicas como Triesman começaram a olhar para as suas declarações com outros olhos. Hoje, está à vista de todos, FA e FIFA vivem de relações cortadas. E uma ruptura é bem possível. Com consequências imprevisiveis.

A Federação Inglesa pode ser, legitimamente, acusada de despeito. Se tivessem vencido a candidatura ao Mundial talvez as ferozes criticas sobre a corrupção à volta de Blatter se tivessem esfumado entre o champagne e charutos de vitória. Pode ser. Mas também é certo que os ingleses há muito que são a mais irritante sombra do senhor FIFA. As criticas arrancaram, precisamente, quando os ingleses perderam a oportunidade de organizar o Mundial de 2006 no que seria uma data simbólica, 40 anos depois da única vez que albergaram o torneio. Então a proposta inglesa era a mais sólida mas Blatter preferiu a Alemanha. Depois, para garantir os votos do resto do Mundo, anunciou a rotação de continentes, o que adiou para 2018 o sonho inglês. Depois da alta valoração da candidatura o próprio Blatter ajudou nos bastidores a minar a candidatura britânica. E alguns dos seus homens de maior confiança, como Jack Warner e Ricardo Teixeira, tornaram-se nos alvos da ira de Triesman e companhia.

 

A 1 de Junho o máximo organismo do universo futebol reelege presidente.

Sob o fantasma da corrupção, um fantasma do qual a FIFA nunca se conseguiu livrar desde que João Havelange chegou à cadeira presidencial. Blatter, um dos seus homens de confiança, é também um oportunista, cinico e com um passado repleto de sombras. O seu apoio a Mundiais em África, Médio Oriente e Rússia têm pouco a ver com o seu papel como presidente da FIFA e mais como o seu misterioso lado de homem de negócios. A falência da ISL, que geria o patrimonia multimédia da FIFA, e os contratos milionários com Adidas e Visa (numa guerra suja com a empresa Mastercard) levantaram mais do que suspeitas sobre a legalidade de ambos negócios. Blatter, naturalmente, não trabalha só. Os membros das comissões mais próximas da presidência são também reconhecidos nombre no mundo da corrupção desportiva, verdadeiros caciques como Teixeira, Grondona, Warner, Villar, Leoz, Makudi, entre outros. E todos eles tiveram papeis chave na definição da FIFA actual. Mas o suiço está nervoso e tem motivos para isso. Publicou no jornal italiano Gazetta dello Sport uma carta pública em que defende, palavra por palavra, que sem ele o futebol morrerá. Ou eu, ou o dilúvio. A espada contra a parede.

Não é provável que a candidatura de Bin Hamman, outro dos imperadores da corrupção desportiva, esta no mundo asiático onde a sua influência nefasta é sobejamente conhecida e descrita em várias obras, saia ganhadora. Mas já serviu para antecipar o que a FIFA viverá nos próximos anos. Criticas internas, mais polémicas, verdades embaraçosas e um duelo continental em 2015, quando Platini, previsivelmente, defronte Teixeira ou Bin Hamman, representantes dos votos latinos e asiáticos. No meio de tudo isto a Football Association olha para o panorama e percebe a sua impotência. A sua influência foi diminuindo com o tempo e hoje, literalmente, a FA vive numa ilha, isolada da UEFA, da FIFA e das restantes instituições. Os ingleses sentem-se postos de parte, a pagar o preço do sucesso de um modelo que a FIFA e a UEFA nunca olharam com bons olhos: a Premier League.

Talvez por isso comece a ganhar força nos corredores da sede da FA uma cisão a emular o que levou a Inglaterra a afastar-se da FIFA nos anos 20, na altura por culpa do profissionalismo que começava a ser uma realidade indisfarçavel nas ilhas. Os ingleses mostram um certo hastio com a FIFA – e não só com a figura de Blatter – e encaram a atribuição do Mundial à Rússia, depois de todos os pedidos pessoais dos votantes aos membros da candidatura, como uma ostensiva provocação. E não deixam de ter razão. A sua presença na FIFA não trouxe nada de positivo a um país que sempre se regiu com as suas próprias regras e que não conseguiu, sequer, capitalizar em Mundiais o pouco que o liga à máxima organização futebolistica.

 

 

Imaginar a FIFA sem a FA não é uma utopia e seria um golpe de credibilidade sério para uma instituição que vive constantemente sobre o fio da navalha. Poderia ser uma primeira e importante brecha na maquilhagem que Blatter continuamente retoca e que no fundo é a perfeita fachada para uma organização onde o futebol, como jogo e fenómeno social, conta cada vez menos. Se em tantas coisas os ingleses revelaram-se pioneiros nisto do jogo que ainda clamam como seu, talvez nenhuma outra tenha tanta repercursão como desafiar a FIFA, olhos nos olhos, e colocar em causa aquilo que todos os outros reconhecem mas são incapazes de contrariar.  



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 27.10.10

No dia em que o polvo Paul partiu desta para melhor, os espanhóis ficarão sem saber qual dos seus sete candidatos terá mais hipóteses de romper com um maleficio de quase 50 anos e emular o feito de Luis Suarez. A FIFA e a France Football anunciaram os candidatos ao renovado Ballon D´Or e, como era de esperar, o Mundial de Paul foi o factor determinante na escolha. Como será, naturalmente, na atribuição do prémio final. Mas a quem?

Xavi Hernandez, Andrés Iniesta, David Villa, Iker Casillas, Charles Puyol, Cesc Fabregas e Xabi Alonso.

Os espanhóis dividem-se sobre quem é o mais justo ganhador do novo Ballon D´Or, entregue em simultâneo pela FIFA e pela revista France Football. No país vizinho a certeza de que o ganhador será um dos seus é absoluta. Queixam-se, como sempre, de que os nomeados eram poucos. Havia que eleger os 23 campeões do Mundo, hombre!.

Desde a vitória, tão longinqua, de Luis Suarez, estrela do Barcelona e Inter de Helenio Herrera, que Espanha não voltou a ver um dos seus artistas triunfar no prémio individual mais cobiçado do mundo futebolistico. Nem Paco Gento, nem Emilio Butrageño, nem Josep Guardiola, nem sequer Raul Gonzalez. Nada de nada. Nem mesmo Xavi Hernandez, superado pelo mediatismo de Cristiano Ronaldo e Leo Messi no ano em que Espanha rompeu um maleficio de 40 anos e se sagrou campeã europeia. Mas agora parece que vai ou racha. O problema é saber quem escolher.

A FIFA (e a France Football, que parece ter saído a perder neste negócio), elegeu a 23 elementos. Todos eles brilharam no Mundial. Todos, menos Cristiano Ronaldo, talvez o jogador mais em forma do planeta. Por muito explosivo que seja o seu renascimento às mãos de Mourinho, o português sabe que dificilmente repetirá o seu quarto pódio consecutivo. Mais hipóteses tem Leo Messi, também ele com um Mundial muito abaixo das expectativas. Mas com um titulo de campeão espanhol e uma Bota de Ouro nas mãos (mais aquela admiração que o argentino é capaz de gerar, ao contrário do luso), pode ser suficiente para desafiar a "armada espanhola". Aliás, para os experts, só mesmo Leo ou algum membro da armada interista, podem dar a surpresa. Num trofeu que encontrou também o seu espaço para o Treinador do Ano. Vicente del Bosque vs José Mourinho, sem margem para dúvidas de que o primeiro pode ganhar como prémio de carreira e o segundo deveria ganhar pela imensidão da tarefa de ressuscitar dois mortos num só ano civil.

 

Wesley Sneijder seria o vencedor lógico do troféu se o mediatismo não superasse, como sempre, o rendimento real de uma só época desportiva (CV incluído).

Vencedor da Serie A, Taça de Itália, Champions League e finalista vencido do Campeonato do Mundo, é de todos os jogadores nomeados aquele que chega com o melhor palmarés. Mas é também fruto da labor de Mourinho e estrela de uma equipa pouco ou nada amada. E não é espanhol, que hoje em dia parece ser condição sine qua non para receber o elogio de turno. Outro holandês destacado é Arjen Robben. Tem o mesmo curriculum que o seu colega de selecção, exceptuando a Champions, perdida na final de Madrid. Robben tem mais perfil de "Balon D´Or", mas o seu timido arranque de época, entre algodões, e os falhanços na final de Johannesburg jogam contra si.

Sem Diego Milito ou Wayne Rooney, jogadores chave na última edição da Champions mas que não existiram no Mundial, nota-se a predominância do trofeu patrocinado pela própria FIFA. Daí sai o quinteto germânico composto por Philip Lahm, Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger, Mezut Ozil e Thomas Muller. Os três do Bayern Munchen têm atrás de si uma época doméstica imaculada, um grande ano europeu e um Mundial asfixiante (Muller foi melhor marcador e melhor jogador jovem da prova). Ozil é o rosto do novo Madrid de Mourinho e da nova Mannschaft de Low. São projectos de vencedores futuros, mas aquela meia-final contra a omnipresente Espanha ditou a sua sentença.

Asamoah Gyan, do Sunderland, Samuel Etoo, do Inter, e Didier Drogba, do Chelsea, representam o continente africano mas são cartas fora do baralho como os brasileiros Dani Alves, Maicon e Julio César. Quanto a Diego Forlan, MVP do Mundial e vencedor da Taça UEFA, espera-se uma votação simbólica. Mas sem opções reais. Porque depois há os espanhóis.

As divisões clubisticas fazem-se sentir na imprensa do país vizinho (a eterna campanha pró-Casillas em Madrid) mas há quatro nomes consensuais (Fabregas, Puyol e Xabi Alonso são um mistério na lista). O guardião do Real Madrid foi determinante na campanha espanhola (salvou um penalty frente ao Paraguai e dois golos certos da Holanda na final) e é, consensualmente, o melhor do Mundo na actualidade. O goleador David Villa demonstrou a sua eficácia no arranque do Mundial para depois desaparecer nos jogos decisivos (um pouco como agora lhe sucede no Barcelona e como sucedeu no Europeu). E ficam os artistas bajitos do Barça. Quem deles ganhará o pulso?

Andrés Iniesta foi o homem da final e isso conta (e muito nestas coisas). Marcou um golo determinante e confirmou-se como um dos mais determinantes jogadores do futebol actual (que o diga o Chelsea). É um jogador de low profile, "campechano" e muito apreciado onde quer que vá. Um fora-de-serie que teve um ano para esquecer e um Mundial de sonho. E depois há Xavi. Hernandez. O professor. O maestro, a régua e esquadro que definem um jogo de futebol. Para Xavi é a última oportunidade. Ele que é, sem dúvida, o melhor jogador espanhol da história. Ele que é, sem dúvida, o mais determinante jogador dos últimos cinco anos. Ele que é, sem dúvida, a razão de ser deste Barcelona tão idolatrado. Mas para Xavi um Ballon D´Or se calhar era pouco. Seria preciso criar um de diamantes, para se poder entender a diferença entre ele e o resto.



Miguel Lourenço Pereira às 00:25 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sábado, 17.04.10

Faltam menos de dois meses para o arranque do primeiro Mundial africano e a dura realidade é que a cada dia que passa se questiona com mais razão a popular escolha da FIFA. Problemas logisticos graves e uma autêntica revolução na venda de entradas deixam a sempre exigente FIFA em cheque. O profissionalismo da organização-mãe do jogo contraste com os constantes tropeções de um país pouco habituado ao mais alto nível.

Não é por acaso que os europeus esfregam as mãos de contentes. Depois do choque que significou a perda da organização do Mundial 2010 (e 2014) para África do Sul e Brasil, agora começam a apontar o dedo à FIFA pela sua escolha populista. Precipitada para muitos. Irreflectida para outros. Optimista em excesso para a maioria. Na ânsia de levar o Mundial a África (a partir de Julho só a Oceânia constará na lista dos continentes sem um Mundial organizado), a FIFA deixou de lado o seu elevado padrão de exigência. Mudou posturas que elevaram o profissionalismo da organização ao seu nível actual. E colocou em risco a realização de um torneio que tinha todos os condimentos para tornar-se memorável. Se a prova se revelar um fiasco a FIFA perderá toda a credibilidade para organizar uma nova aventura e deixar de lado as sempre sólidas candidaturas europeias. Um piscar de olhos também à UEFA que preferiu arriscar com a Polónia e Ucrânia e agora vive na incerteza de que se há realmente condições para que o Euro 2012 seja o primeiro na Europa de Leste desde a queda do Muro de Berlim. Porque uma coisa é a democracia institucional e o optimismo. Outra é a crua realidade.

 

A FIFA (e por arrastro, a UEFA) especializou-se na última década em eliminar a venda de bilhetes para grandes eventos fora do circuito electrónico.

Qualquer final de prova da FIFA, qualquer competição europeia de clubes e claro, qualquer Mundial, desde 2002, só pode ser visto se o espectador comprar o bilhete através da página oficial da organização. Isso garante, segundo a FIFA, uma dupla segurança. Por um lado permite filtrar a entrada de hooligans e controlar o número de adeptos afectos a cada nação em todos os encontros. Por outro permite centralizar de forma eficaz todas as receitas, prende o espectador ao bilhete e controla o mercado de revenda. Manobras úteis que se tornaram prática corrente. Até agora. Se a FIFA manteve a sua politica de venda até esta semana os números assustadoramente baixos de gente interessada em atravessar o Mundo até um dos países mais perigosos do hemisfério sul fizeram a direcção reflectir. Os europeus - mesmo os alemães e ingleses, as maiores hostes de adeptos migrantes - pensarão duas vezes nos gastos e na segurança. A situação economica mundial servirá também para reduzir o impacto das equipas da América Latina ou Ásia. E claro, para os adeptos locais, a compra online ainda é uma doce ilusão. Até ao dia de hoje só a final tinha já todos os bilhetes vendidos. Muito pouco comparada com 2006 mas que faz lembrar o fenómeno de 2002, onde na distante Coreia do Sul, os organizadores foram obrigados a vestir locais com as cores de cada equipa para dar a ilusão de estádios cheios de adeptos quando as vendas andaram muito por baixo da média. É um facto, os adeptos que realmente vão a provas como esta concentram-se na Europa Ocidental. A ausência de grandes equipas ou as longas distâncias colocam em xeque a alfuência de público. Foi um choque para muitos ver pessoas a comprar bilhetes para o Mundial em supermercados. Mas esse é o modelo sul-africano. E a FIFA teve de ceder. Abdicar dos seus principios para garantir que os estádios têm uma moldura humana significativa. Mesmo que isso comprometa todos os ideias. Money obliges.

 

No entanto não é só a polémica questão dos bilhetes (o elevado preço e a inevitável revenda faz esperar que muitos jogos tenham uma assistência a roçar minimos históricos, até porque estima-se que não superem os 30 mil, os visitantes estrangeiros) que tem colocado a FIFA num embróglio complicado. A organização presidida por Sepp Blatter concentrou-se largos meses nos estádios, muitos deles construidos sem motivo e apenas para dar negócio a empresas de construção civil locais. E esqueceu-se, muitas vezes, nas infra-estruturas fundamentais num país onde muitas selecções terão de fazer largas horas de avião, experimentar climas distintos no espaço de dias e cuja massa de adeptos terá de os acompanhar nas mais incriveis condições. Não é só a problemática hoteleira que assusta a FIFA. A confissão de um iminente médico que colabora com a organização de que nenhum hospital da África do Sul está preparado para uma circunstância excepcional deixa o aviso. Serão só os hospitais. Haverá algum plano B? Haverá sequer, a preocupação em que existam planos de contingência para proteger adeptos, equipas, organização e autoctones de um problema que pode ir de um atentado terrorista a uma larga intempérie de Inverno frio e chuvoso sul-africano? Afinal, em 2001 morreram 40 pessoas em Joanesburgo ao sair precipitadamente de um jogo. Não é assim tanto tempo.

A questão ganha um contorno especial se atentarmos à dualidade de critérios. A países como Inglaterra, Alemanha, Espanha, França ou Itália a FIFA nunca permitiria esta politica desastrosa. Pelo contrário, seria motivo suficiente para multar ou até mesmo, alterar o organizador. Mas estamos em África e voltar atrás agora é impossível. Não só por problemas logisticos. Porque estes existem há muito. Acima de tudo, é um braço de ferro entre a FIFA e o Mundo. Um braço de ferro que coloca em entre-dito a própria essência desportiva e gestora da milionário organização.

 

Tudo pode ainda suceder e a organização do Mundial pode passar por um mês imaculado e entrar na história como um caso de sucesso. Mas as probabilidades jogam em contra da FIFA e dos sul-africanos. Inverno, problemas logisticos, falta de organização, ausência de público, problemas de segurança, longas distâncias, horários complexos. Ingredientes pouco atractivos para uma prova que faz parar o relógio do Mundo de quatro em quatro anos.



Miguel Lourenço Pereira às 10:22 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 22.12.09

Mais interessante do que deambular sobre os títulos logrados com maiores esmagadoras pelo único jogador que não destoa do resto do colectivo que é o Barcelona é olhar para as recentes votações de final de ano e descobrir sempre entre os favoritos a Ricardo Izecscon. Um fantasma de si próprio, o médio brasileiro é o último reflexo do poder mediático sobre a qualidade de jogo. Porque, desde há quanto tempo que alguém se lembra de um lance memorável de Kaká?

Na imprensa espanhola instalou-se o debate. As excelentes exibições do proscrito Rafael van der Vaart levantam o véu sobre um dos temas tabus do ano no Santiago Bernabeu. Por muito bem que jogue, está o médio condenado a ceder o seu lugar a Kaká? Mais sabendo ainda que este Kaká é um fantasma do que foi? A resposta parece estar já escrita na mente dos directivos madrileños - mais do que do próprio Pellegrini - e acenta na mesma estratégia de glorificação que explica o porquê do quarto posto de Kaká entre os 5 melhores do ano para a FIFA. E a sua altíssima posição no top 10 da revista France Football. Tal como no ano passado aliás. Porque desse médio que gostava de rasgar e arriscar já não se vislumbra um momento de genialidade desde há mais de dois anos. Mas o nome continua aí, a vender camisolas e votos de primeiro nível. Afinal, qual é o curioso caso deste Ricardo Izecson.

 

A sua chegada a Madrid foi envolta com a mesma aura de Zinedine Zidane. Segundo a critica o Real Madrid tinha uma profunda carência de um homem capaz de pautar e controlar o jogo desde a saída do francês em 2006. Promessa de Ramon Calderon, o médio acabou por abrir a galáxia de Florentino Perez. Ofuscado - dentro e fora do campo - por Cristiano Ronaldo, no primeiro meio ano em Madrid o brasileiro simplesmente não existiu. Depois de uma pré-época apagada, Kaká começou a ter problemas em encontrar o seu espaço no puzzle de Pellegrini. Ao contrário de Cristiano Ronaldo, que apesar de se queixar mostrava serviço, o brasileiro nem se queixava nem rendia. Deambulava perdido pelo relvado sem saber como e onde se posicionar. Da inteligência superior de jogo nem um vislumbre. A bola rodeava-o mas ele não a agarrava. O jogo escapava-lhe das mãos e nem a ausência do português por lesão foi suficiente para lhe dar protagonismo. Pelo contrário, Kaká esteve nos maus momentos mais escondido do que nunca. No duplo duelo contra o AC Milan, o seu anterior clube, mal se notou em campo. O mesmo em Camp Nou. Isto para não nos adentrarmos nas noites mais gélidas da liga espanhola. Mas isso não era novidade. Depois da brilhante época de 2006/2007, onde levou o AC Milan a mais um ceptro europeu, Kaká desapareceu dos radares. A última época em Giuseppe Meazza foi um pesadelo em toda a linha entre lesões, erros e tropeções. Parecia que Kaká tinha desaparecido e o seu alter ego divino, esse que joga com a ajuda de Deus e pouco mais, Ricardo Izecson, tinha tomado o seu posto.

 

A Taça das Confederações na África do Sul voltou a dar-lhe protagonismo - afinal o Brasil até foi campeão - mas apesar das boas exibições do brasileiro, a sua performance esteve a anos-luz do conceito de crack mundial que lhe vinha associada. Depois de ter desaparecido no Mundial da Alemanha e de já não constar no radar de Milão, em Madrid acreditou-se que o fausto do Bernabeu o iria ressuscitar. Um pouco como a Zidane, desaparecido também nos últimos meses em Turim. Só que ao contrário do francês, Kaká continua a não convencer. Parece que o sistema táctico de Pellegrini não lhe encontra um espaço. Perito em jogar atrás do ponta-de-lança, solto e sem nenhuma missão em concreto - ao contrário de Zizou que arrancava detrás para a frente - neste 4-3-3 madrileño é obrigado a descair para um lado. Ou a jogar muito longe da baliza. No primeiro caso a Kaká falta-lhe o espirito de jogar de banda, que Cristiano domina à perfeição mas que van der Vaart, Higuain e até Raul podem desempenhar. No segundo caso a posição no coração do meio campo impede-o de chegar perto das redes, por muito bem que esteja escudado por Xabi Alonso e Diarra. Mais uma vez Granero, Guti e van der Vaart se mostram mais apto para esta labor. Sem sitio no onze, sem espirito e sem destelhos de magia, Kaká ameaça transformar-se no primeiro grande erro da nova galáxia.

E no entanto aí está ele, em cerimónias a recolher galardões. Perguntamo-nos porquê? Qual a necessidade de constantemente premiar um atleta que há mais de dois anos que não demonstra estar no top 10 (ou 20) dos melhores do Mundo. Porquê preferir Kaká a Lampard, Drogba, Gerrard, Torres, Rooney, Gourcouff, Iniesta, Silva, Ribery, Fabregas, Arshavin e companhia? Afinal não foram todos estes mais regulares, mais efectivos e mais premiados neste último biénio que o brasileiro? Que tem Kaká para seguir na elite que não tenha nenhum deles? A resposta é clara: marketing.

A FIFA precisa, desesperadamente, de manter em alta o mercado brasileiro. E a verdade é que, exceptuando Lionel Messi que é um caso à parte (europeu no estilo de jogo e na formação, mais odiado que amado entre os seus), desde a explosão de Ronaldinho que o Brasil não tem uma estrela à altura. E a América do Sul um simbolo. Depois de anos consecutivos onde Romário sucedeu a Zico, Ronaldo e Rivaldo se seguiram e logo veio Ronaldinho primeiro e Kaká depois (enquanto que paralelamente havia Valderrama, Salas, Zamorano, Batistua, Lopez, Crespo e afins nos paises latinos vizinhos) , hoje o país que mais vive o jogo não tem icones. O escrete canarinho é uma equipa cinzenta e os grandes nomes jogam adormecidos. Por isso é importante manter Ricardo Izecson no escaparate. Só ele pode vender a imagem de um Planeta do Futebol longe da hegemonia europeia que hoje, efectivamente, se verifica. Olhando para as listas dos grandes atletas mundiais podemos até encontrar dois africanos (Drogba e Etoo) e três sul-americanos (Messi, Kaká e Diego), mas nenhum deles - voltamos a retirar Messi desta equação - vende como Kaká consegue. E por isso continua no escaparate.

Os (exagerados) milhões pagos por Florentino Perez e as óptimas votações logradas entre os prémios FIFA, France Football, Onze, World Soccer e afins justificam o cachet que rodeia o médio. Kaká, que foi um belissimo jogador até há três anos atrás, é hoje um fantasma da mesma forma que Ronaldinho - que esteve sempre uns furos acima do ex-Milan - já não é quem era.  Mas o Brasil precisa de uma estrela, a FIFA precisa de um Mundial com estrelas fora do espectro UEFA e o próprio futebol europeu gosta de valorar as importações internacionais. Talvez seja esse o curioso caso de Ricardo Izecson, um rosto tão familiar e tão desconhecido como o misterioso desaparecimento de um crack chamado Kaká.



Miguel Lourenço Pereira às 15:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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