Quarta-feira, 15.05.13

Ao Benfica não irá servir de muito a série de elogios que vai receber nas próximas horas. Foi um digno vencido principalmente porque não soube ser um convincente vencedor. Dominou o jogo, foi claramente superior ao Chelsea, mas faltou-lhe a frieza para matar o jogo quando se exigia. Depois, o cinismo dos Blues, algo no qual são especialistas, fez o resto. Os londrinos são o segundo clube na história do futebol a ser, ao mesmo tempo, detentores dos dois troféus de clubes europeus. A conexão espanhola sobrepôs-se ao medo do seu treinador, Rafa Benitez, num jogo onde o minuto 92 lembrará para sempre aos encarnados uma semana negra na sua história. Uma nova forma de maldição, com o selo de Jorge Jesus.

 

Outra equipa teria fechado a final nos primeiros vinte minutos. Outra equipa teria sabido aproveitar o medo e as deficiências defensivas de um rival que não esteve à altura do estatuto de actual campeão europeu. Mas o Benfica não soube nunca ser essa equipa. E por isso perdeu. Da forma mais cruel possível. Numa reminiscência da derrota contra o FC Porto, num lance inesperado em período de descontos. Um lances que despiu toda a esperança de uma formação que mereceu ganhar mas também mereceu perder.

A forma como a equipa encarnada entrou em campo despejou qualquer dúvida sobre o estado emocional dos jogadores. A derrota contra o FC Porto pode ter colocado em risco as aspirações ao título nacional, mas Jesus soube motivar os seus jogadores. Era uma final europeia o que lhes esperava. Para alguns deles a única das suas carreiras. Para os adeptos de um clube que não vivia uma aventura deste nível há mais de duas décadas, era um jogo muito especial. A atitude dos adeptos encarnados foi absolutamente exemplar, digna de um grande emblema europeu. A dos jogadores não foi diferente. Entraram com vontade de engolir o mundo e esmagaram o Chelsea durante vinte minutos que se fizeram eternos para os londrinos. Benitez teve medo. Sem Hazard - lesionado - preferiu colocar David Luiz como médio defensivo (um erro) e Ramires como extremo (outro favor ao jogo ofensivo do rival) e isolou o tridente Oscar-Mata-Torres, deixando-os à sua sorte.

Se alguém não merecia ter ganho este encontro, esse foi sem dúvida o técnico espanhol. Foi o primeiro treinador a vencer sem mexer na equipa, sem operar substituições mesmo quando havia sinais claros em campo que pediam a presença de Moses ou Benayoun. Não houve vontade de ganhar, apenas de aguentar e especular com o erro do rival. No final, a sorte sorriu-lhe, como em 2005 com o Liverpool, mas o mérito terá de ser distribuido pelos seus jogadores, que aguentaram o embate dos encarnados e souberam recompor-se.

O Benfica podia e devia ter ganho a final nesses vinte minutos iniciais. Tiveram a bola, onde quiseram, criaram oportunidades, foram mais rápidos, mais fortes e mais inteligentes na criação de jogo ofensivo. Mas falharam cada uma das oportunidades claras que construiram. Erros infantis que custaram caro. Um título europeu.

 

A partir desses vinte minutos o jogo equilibrou-se até ao final mas o Chelsea nunca foi melhor que o Benfica.

Em nenhum momento do jogo essa pressão asfixiante dos lisboetas se reflectiu na sua área. Não é a isso que joga a equipa de Benitez, mesmo que alguns dos seus jogadores o queira. Mata pedia a bola mas ela raramente lhe chegava. Torres lutava só, contra o mundo e Óscar e Ramires defendiam quando deviam pensar em atacar. A memorável exibição de Rodrigo na primeira parte, rasgando a defesa inglesa e abrindo o seu corredor a um incisivo Melgarejo, desapareceu no segundo tempo mas Gaitán e Enzo Perez entenderam-se sempre de forma a superar a conexão Lampard-David Luiz. O argentino Salvio mostrou-se mais apagado do que os seus companheiros mas soube lidar bem com os inesperados erros de marcação de Ashley Cole, um veterano com um jogo para esquecer. No meio, Cardozo, uma autêntica torre, esperava a sua hora. Que eventualmente chegaria.

Na segunda parte, contra a corrente do jogo, literalmente, Cech lançou uma bola larga que Mata controlou e entregou a Torres sem deixar cair. Um gesto perfeito do asturiano que isolou o avançado espanhol. Torres aguentou a carga de Luisão, a saída de Artur e marcou. Sete competições, goleador em todas elas. Superou o recorde de Pedro Rodriguez mas ninguém ainda parece ter-se lembrado. Foi um golo da dupla mais irreverente da equipa inglesa e um balde de água fria para os encarnados. Jesus arriscou tudo lançando Lima e Ola John para o lugar de Rodrigo e Melgarejo mas os seus planos foram destroçados em quinze minutos.

Primeiro porque o golo de Cardozo, depois de um infantil penalty de Azpilicueta, deixava tudo igual mas com um Benfica descompensado tacticamente atrás. E segundo porque a lesão inesperada de Garay forçava o técnico a gastar a sua terceira carta demasiado cedo. A partir de aí o Benfica abdicou, praticamente, e começou a pensar no prolongamento. Começavam a falhar as pernas. A pressão inicial, espantosa, não tinha dado os seus frutos e agora a bola pertencia ao rival que pensava na vantagem de ter mais trinta minutos com um plus de oxigénio no corpo. Apesar de algumas oportunidades, quase sempre frutos dos erros dos ingleses, o Benfica foi recuando no terreno. Lampard tinha acertado na barra - no que teria sido um golo merecido para culminar a sua brilhante carreira individual - e quando Ramires ganhou um canto no último minuto, a alguns o nome de Kelvin veio à cabeça. Antes da final tinha-se falado na maldição de Guttman. Não vinha ao caso, não só porque se referia só à Taça dos Campeões Europeus como também já foi quebrada pelo FC Porto, que rompeu a segunda parte da mítica sentença. Mas o Benfica acabou por sofrer a maldição de Jesus, um treinador talvez excessivamente arrojado, que fisicamente controla mal os tempos dos seus jogadores. Pediu demasiado da equipa cedo demais e foi precipitado a mexer-se no banco. De aí viu, impotente, como Ivanovic cabeceava só para bater de forma inapelável a Artur. Um golo que valia um troféu europeu. Um golo que urgava ainda mais na ferida dos encarnados.

Futebolisticamente a superioridade do Benfica foi constantemente superior. Dominaram todos os elementos do jogo. Menos o mais importante. Foram inocentes quando encararam a baliza e deixaram-se levar, fisicamente, contra uma equipa que está habituada a um modelo mais cínico e cauteloso que guarda sempre um sopro de ar para o final. O Bayern Munchen sofreu do mesmo mal na época passada, marcando a poucos minutos do fim para ver o Chelsea igualar no último suspiro. Ao Benfica faltou maturidade e experiência para encarar a final como um jogo diferente. Se o tivesse feito talvez tivesse ganho como merecia pelo que fez em campo. Será dificil que um projecto habituado a perder alguns dos seus melhores jogadores ano atrás ano volte a uma final nos próximos anos. Mas mais do que em 1990, 1988, 1980 ou 1968, esta formação encarnada sentiu mais perto o mérito de ser campeões de uma prova europeia. Um golo nos instantes finais fez toda a diferença. A história do futebol é feita desses momentos. Os adeptos do Bayern Munchen sabem-no como poucos e não só pela sua experiência com os Blues. Também eles foram superiores ao Manchester United na mítica final de 1999. A história lembra-se de outra coisa. Mas os adeptos bávaros não. Uma lembrança que seguramente vai acompanhar os seguidores do clube da águia nos próximos anos.



Miguel Lourenço Pereira às 22:14 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Terça-feira, 19.02.13

Na liga portuguesa vão, lado a lado. Nos palcos europeus, a diferença é abismal. Falta cada vez menos para que o FC Porto supere o SL Benfica em títulos de campeão português. Nos palcos europeus essa ultrapassagem já sucedeu há largos anos. Não só em títulos mas, sobretudo, em respeito nos países europeus e na tremenda diferença de jogo. Enquanto o FC Porto tem um plano, um modelo, um esquema, e é uma das melhores equipas do continente a aplicá-lo, o Benfica evoca outros tempos, outras memórias e resultados distantes da realidade.

 

A exibição repleta de autoridade do campeão português face ao quarto da liga espanhola é exemplificadora do que é hoje o futebol em Portugal.

Uma excelente equipa, apoiada num clube institucionalmente dirigido dos pés à cabeça com um modelo de gestão que marcou um antes e um depois da história do futebol português, com um esquema táctico claro, um plantel de primeiro nível, digno de aspirar ano atrás de ano em estar no top 8 dos clubes europeus. O FC Porto tratou o Málaga com a mesma superioridade com que lida com o Beira-Mar ou o Moreirense. Empurrou-os para a sua área, não lhes deixou ter a bola - e se há algo que os andaluzes fazem bem é controlar a posse e jogar a partir de aí com confiança - e engoliu literalmente as suas individualidades, sobretudo o espantoso Isco, o sucessor natural de Iniesta. Fê-lo sabendo o quanto vale, o quanto pode aspirar e com uma sensação de diferença abismal que os orçamentos, o prestigio de duas ligas vizinhas mas muito distantes, podia supor. Já foi assim com o Atlético de Madrid (nos anos em que se cruzaram na prova), com o Sevilla e com o Villareal. Foi assim com o Barcelona, no Mónaco, jogos que deixaram evidente que o melhor FC Porto trataria por tu os melhores da liga das estrelas e poderia, perfeitamente, disputar um lugar no pódio da competição. É talvez um dos maiores e mais lógicos elogios que se pode fazer à equipa azul e branca.

O futebol em Portugal fica pequeno a uma equipa que, desde 1982, só perdeu 11 de 30 títulos. Um domínio que nem o melhor Sporting, nem o superlativo Benfica foram capazes sequer de emular. É um domínio que ultrapassa gerações, que ultrapassa condicionalismos e que define a estrutura do que é hoje o futebol em Portugal, uma equipa muito superior das restantes, apesar dos esforços da imprensa por contrariar essa abordagem, que ocasionalmente perde um título (na última década foram 2 em 8) mas que a Europa aprendeu a respeitar. Uma Taça dos Campeões Europeus, uma Champions League, uma Taça UEFA e uma Europe League, uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais é um espólio que supera a soma de todos os outros troféus internacionais conquistados por clubes portugueses.

 

A diferença da qualidade de jogo do FC Porto para o resto dos clubes portugueses vê-se, sobretudo, nos palcos europeus.

Numa liga onde a maioria das equipas prefere esperar para ver, é dificil ver o FC Porto ceder pontos. É difícil ver a equipa ser igualada - para não dizer superada - futebolisticamente. Na Europa a vara de medir é diferente. Na última década o clube venceu três provas europeias (mais do que o Real Madrid, o Bayern Munchen, o Arsenal, o Liverpool, o Inter, a Juventus, o Borussia Dortmund, o Ajax, o Olympique Lyon, o Manchester United) e com uma autoridade insultante. Há dois anos ficou clara a diferença na Europe League, numa edição com três equipas portuguesas nas meias-finais. Este ano, a forma como os dragões carimbaram o passaporte para os Oitavos de Final contrastou enormemente com o Braga - uma época para esquecer sob o comando de um treinador que teima em demonstrar não ser o homem certo no momento certo - e sobretudo com o Benfica. A equipa encarnada foi incapaz de ser superior a um Celtic que fez do jogo directo a sua alma, sofreu inesperadamente com um Spartak de Moscovo em autocombustão (com destituição de técnico incluída) e mesmo com um Barcelona C, no Camp Nou, foi incapaz de somar os pontos que precisava para seguir em frente. Na Europe League, uma competição que se adequa mais às suas reais ambições, e frente ao Bayer Leverkusen, jogou o suficiente para ganhar mas longe de entusiasmar. Tem sido a sina da equipa.

Com ou sem Jesus, o Benfica na Europa é uma equipa de caricatura. Uma equipa sem expressão internacional, com um modelo táctico perfeitamente inadequado às realidades do futebol actual, com peças que se mudam com uma velocidade assustadora, sem consciência da importância do colectivo e que depois se mostram incapazes de reagir nos momentos certos. Não só ficou claro que este Benfica, como as anteriores versões, é incapaz de mostrar-se à altura dos melhores na Europa como o seu perfil de prestigio europeu desaparece a cada ano que passa. A memória da imensa, grande equipa de Eusébio, é algo que os adeptos benfiquistas sempre terão, e com genuíno e merecido orgulho. Mas desde então, meio século depois, nunca mais a Europa viu uma equipa benfiquista capaz de repetir, ano após ano, o seu lugar na elite. Ao contrário do FC Porto, que não só é presença regular na Champions League como tem demonstrado ser capaz de competir de igual com os melhores e ganhar troféus, o Benfica encontra na Europa o duro reflexo da sua realidade. A nível interno os dois títulos (este ano poderão ser três) em 18 anos, deixam clara a sua diferença com os dragões mas é na Europa que essa diferença se torna real.

 

Sem uma estrutura sólida, sem um futebol capaz de capturar a imaginação de adeptos neutrais, o Benfica tem muito trabalho pela frente para poder voltar a sonhar sem uma equipa respeitada nos palcos europeus. O FC Porto, por outro lado, não só está a poucos anos de consumar, matematicamente, a mudança de um ciclo que já leva três décadas, como na Europa é o único porta-estandarte do futebol português. Se a exibição frente ao Málaga não fosse suficiente, o eventual apuramento - e ainda faltam noventa minutos - para os Quartos de Final da edição 2012/13 da Champions só reforçará mais ainda a ideia de que, seja em Portugal ou na Europa, o futebol português funciona a diferentes velocidades. E só os dragões seguem na de cruzeiro.



Miguel Lourenço Pereira às 22:27 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 08.11.12

A vitória categórica do Inter em Turim não se limitou a terminar com um ciclo de 49 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Numa liga cada vez mais nivelada por baixo, esse feito estaria sempre longe do logrado pelo AC Milan de Capello quando o futebol italiano reinava supremo nos palcos europeus. O grande vencedor do duelo foi Stramaccioni, o jovem técnico de 36 anos que logrou o que os seus três antecessores foram incapazes, saber como lidar com a pesada herança de José Mourinho.

 

Mourinho aprendeu cedo que nunca seria um bom jogador e dedicou-se a treinar. Stramaccioni sonhou sê-lo, mas uma lesão no joelho acabou-lhe com as esperanças e abriu-lhe novas portas. Aos 35 anos, o antigo defesa central do Empoli é mais do que o treinador de moda do Calcio. É a esperança de um futuro melhor para o futebol de um país em choque emocional, com uma selecção aplaudida quase tanto como a ganhadora do último Europeu e uma liga que deprime o mais entusiasta. Há serias possibilidades de não existir nenhum clube italiano nos Oitavos de Final da Champions League e essa realidade deixou de surpreender. O dinheiro acabou, a péssima gestão do futebol de formação começa a fazer-se notar e a qualidade do Calcio caiu degrau atrás de degrau a níveis que nos levam aos anos 70. No meio deste cenário, a série de invencibilidade da Juventus de Antonio Conte funciona como espelho fiel da realidade.

A Juventus não joga bem, não entusiasma, não pratica um futebol fascinante, de encher o olho. É tremendamente eficaz no seu 3-5-2 contido que sabe que a velocidade das peças, nesse jogo de xadrez que é o futebol italiano, conta mais do que qualquer coisa. Uma equipa de valores médios, uma equipa sem estrelas nem jogadores fascinantes, onde Pirlo representa o romantismo dos anos 90 e Giovinco a readaptação a uma nova vaga de futebolistas. Pelo meio estão os Vidal, Isla, Asamoah, Quagliarella, Vucinic e companhia, jogadores que não entusiasmam nem o mais fanático dos tiffosi, que se agarram ao espírito de luta de Marchisio e Chielinni e à promessa gualesa, Paul Pogba, que deixou plantado a Alex Ferguson, que via nele o médio defensivo que tanta falta lhe faz, para acreditar num futuro melhor. Esta temporada, depois do título, a realidade europeia deixou a Juve no seu merecido lugar e os campeões italianos podem falhar, outra vez, o apuramento para a próxima fase. Foram superados futebolisticamente por Chelsea e Shaktar e agora é com eles com quem discutirá o apuramento directo. Dois jogos de matar ou morrer, um formato onde os italianos se movem bem mas muito traiçoeiro. Até porque a derrota inesperada em casa contra os neruazurri reabriu a luta pelo scudetto, até agora adormecida pelo soporífero mas tremendo eficaz futebol bianconero.

 

Stramaccioni é um sinal de esperança mas não é um revolucionário.

O jovem treinador começou no futebol de base e aí aprendeu a ter paciência, a saber o valor da bola e dos tempos de jogo. Começou na Roma e rapidamente chegou ao Inter pela mão de Ranieri e começou a aplicar o seu método de trabalho, inspirado na sua admiração mútua, apesar de aparentemente contraditória, no jogo de Guardiola e na filosofia de Mourinho. O seu impacto foi imediato e pela sua mão o Inter, a tal equipa envelhecida profundamente nos séniores, venceu categoricamente a NextGen Series, um torneio dedicado às esperanças do Velho Continente, uma espécie de Champions League juvenil. Associado ao título Primavera italiano, o seu trabalho deu imediatamente nas vistas e Massimo Moratti, cansado do futebol especulativo de Ranieri, decidiu arriscar como nunca e apostou tudo no jovem técnico nomeando-o treinador principal dos neruazurri.

O técnico entendeu que a herança de Mourinho ainda estava demasiado presente. Benitez e Ranieri, técnicos com quem o português teve sérios problemas dialécticos, nunca entenderam os jogadores que juraram fidelidade ao português e perderam rapidamente o balneário. Stramaccioni jogou as peças certas. Reconheceu imediatamente o mérito de Mourinho, a sua herança e a qualidade dos jogadores a quem muitos tinham passado um atestado de maioridade. Mas também alertou para o seu trabalho com os mais novos dando a ideia de que havia futuro para lá dos campeões europeus de 2010. Acabou a época "roubando" o título ao eterno rival de Milão, um resultado que lhe deu a oportunidade de começar uma temporada desde zero.

Nessa mistura coerente e profissional, Stramaccioni começou a trabalhar, recuperando o 4-3-2-1 de Mourinho mas com uma vivacidade e mobilidade que tinha desaparecido. Reergueu Diego Milito das sombras e associou-o a Antonio Cassano e Roberto Palacio, no lugar do lesionado Wesley Sneijder, para criar um tridente ofensivo mais talentoso do que obreiro. No meio-campo apostou forte no brasileiro Coutinho, que vinha de um ano superlativo no futebol espanhol, e rodeou-o do músculo de Gargano, Cambiasso e Guarin. Ocasionalmente regressou às origens de Herrera com a aposta num médio mais solto e veloz, o japonês Nagatomo. E, sobretudo, encheu de juventude o balneário, homens da sua confiança como Livaja, Mbaye, Bianchetti, Duncan ou Jonathan. Com essa ideia de futebol rápido mas de linhas compactas, recuperou a eficácia, oscilando entre uma linha de três avançados e um meio campo mais trabalhado, consequência dos problemas físicos de Sneijder, Cassano e Coutinho. Uma aposta que começou cedo a dar frutos. Apesar do enfoque no futebol da Juventus e no desafio do Napoli, o Inter rapidamente se tornou protagonista. Sete vitórias consecutivas depois de uma derrota em Siena colocaram os neruazzuri no segundo lugar da tabela, a apenas um ponto da Juve. Pelo meio duas vitórias chave, contra o Milan e a própria Juventus, que garantem que este projecto sabe ser eficaz com os mais pequenos e tremendamente competitivo com os rivais directos. O modelo Mourinho na sua estância italiana.

 

O potencial de crescimento de este Inter é evidente apesar da espinha dorsal da sua equipa continuar a ser composta por homens que vêm dos dias de Mourinho. A evolução, mais do que a revolução, será tranquila e o técnico italiano, conhecedor dos jovens talentos que aí vêm, sabe que tem armas escondidas que lhe podem ser úteis quando a época começar a apertar. Não é ainda uma equipa feita para desafiar os grandes da Europa mas recuperar o domínio em Itália é só o primeiro passo. Com tempo, Stramaccioni pode lograr construir um projecto com claras ambições europeias. Moratti seguramente terá dificuldade em esperar, está-lhe no sangue, mas até agora o jovem técnico só lhe deu razões para sorrir. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 10.05.12

jogadores com um dom especial para transformar um acto de pura rotina em algo profundamente próximo ao universo artístico. Radamel Falcao é um desses génios. O colombiano é mais do que o melhor avançado do mundo na actualidade, mais do que um devorador de balizas alheias e que um instigador de sonhos. É um futebolista que sozinho parece valer mais do que um colectivo mas que dentro do rectângulo de jogo sabe trabalhar como um mais. Em Bucareste entregou de bandeja o titulo da Europe League a um Atlético de Madrid que este ano tem-se repetido nos tropeções emocionais que o caracterizam historicamente. No seu dianteiro os colchoneros encontraram um psicanalista eficaz, capaz de os retirar da depressão profunda com a genialidade de quem apenas cumpre a sua missão.

 

José Mourinho declarou recentemente numa entrevista que não via no Chelsea e no Bayern Munchen um jogador válido para vencer o próximo Ballon D´Or. Esqueceu-se seguramente de Drogba, Robben, Lampard, Ribery, Mata ou Schweinsteiger. Também se esqueceu que este ano temos um Europeu e todos sabemos como estas provas de um mês tantas vezes elevam à glória jogadores que vivem os outros nove na mais profunda mediania. Para ele o prémio só podia ser discutido entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo e como o segundo, além de seu jogador, venceu a Liga BBVA, então seria obrigatório entregar-lhe o prémio. Ronaldo pode até ganhar o seu segundo Ballon D´Or, ninguém se surpreenderia muito. Mas o técnico sadino esqueceu-se de Radamel Falcao, talvez o jogador mais digno de receber o galardão. Porque ao contrário de Messi e Ronaldo, o colombiano sim encarna a figura do indivíduo num desporto profundamente colectivo, do homem que todos sabem que irá fazer realmente a diferença.

Falcao já é, a um jogo do final da liga espanhola, o estreante com mais golos marcados na prova na sua época de estreia. Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo, nem Zidane, nem Ronaldo, nem Hugo Sanchez, nem van Nistelrooy, nem Bebeto, nem Romário, nem, nem, nem. Nenhum jogador marcou tantos golos no primeiro ano como jogador da liga do país vizinho. Os números estratosféricos de Messi e Ronaldo escondem multiplas realidades e a de Falcao é a mais gritante. O colombiano joga num clube que pode terminar o ano fora dos postos europeus, um clube que mudou de treinador a meio do ano, um clube que vive em constante carambola emocional, que ora goleia um rival directo como perde quatro semanas consecutivas com equipas de outro campeonato. No Vicente Calderon a equipa nunca joga para o individuo e muitas vezes as estrelas atropelam-se entre si para terem os seus cinco minutos de fama. Sobreviver neste caos é algo que não está ao alcance de muitos e a paciência de Aguero, Torres e Forlan foi testada até ao limite tantas vezes que voluntariamente procuraram calma e sucesso noutras paragens. Ser Falcao neste cenário é algo profundamente complexo, quase impossível. E no entanto, aí está ele, de novo, nas estrelas. Pelo segundo ano consecutivo foi o artífice da vitória na Europe League. Se o Athletic Bilbao tinha sido a melhor equipa ao largo do torneio, o Atlético foi muito superior na final. Porque tinha Falcao. Não foram só os dois golos imensos, a juntar ao apontado na final do ano passado em Dublin. Não foi só o imenso trabalho táctico de protecção de bola, de prisão táctica dos centrais de Bielsa. Foi algo mais. Esse espírito de liderança que só em noites como esta parece realmente fazer-se sentir. No colombiano o Atletico encontrou um lider espiritual, um profeta de acalmia. E entregou-se a ele sabendo que as águas do mar vermelho se abririam para o cortejo passar.

 

Falcao é, sem dúvida, o melhor dianteiro do futebol mundial. 

Não existe outro jogador que se possa comparar ao colombiano em destreza, agilidade e precisão de movimentos na grande área. Mas o seu futebol é muito mais completo e artístico. Recebe, dá, segura e mata com a precisão de um cirurgião mas com delicadeza de um pintor, preparado a emular o seu momento de glória com a melhor das telas. A bola nos pés de Falcao respira outra linguagem. No jogo das meias-finais, no Calderon, recebeu um alivio ansioso de um defesa e no meio de três rivais encontrou a comodidade necessária para correr, driblar, fintar, parar e rematar sem levantar a cabeça do chão. O golo não foi mais do que uma inevitabilidade da sua condição divinal.

Em 2001 o inglês Michael Owen venceu o Ballon D´Or depois de um ano em que conquistou a Taça UEFA (numa final asfixiante contra o Alavés onde nem foi o melhor em campo), a Taça da Liga e a FA Cup. Bateu o espanhol Raul, que tinha vencido a liga espanhola, e o alemão Oliver Kahn, campeão da Europa com o Bayern Munchen. Foi a última vez que um jogador levou para casa o troféu sem ter vencido no ano uma grande competição. Nedved, Schevchenko, Ronaldinho e Messi foram campeões nacionais. Ronaldo, Cannavaro campeões do mundo. E Kaká, Cristiano Ronaldo e Messi, por duas vezes, ganhadores da Champions League. A importância dada a uma Europe League nunca pareceu ser suficiente para lograr vencer estes prémios individuais, mais numa época onde o mundo vive o confronto ideológico moral de escolher entre Messi ou Ronaldo quase de forma forçada, como diz Mourinho.

Mas Owen era em 2001 um fenómeno como Falcao é hoje. Depois desse ano o seu rendimento baixou até acabar no jogador de hoje, perdido entre lesões e experiências clubísticas desastrosas. O colombiano não é uma novidade, o que logrou este ano já o demonstrou no ano passado ao serviço do FC Porto e na Argentina os hinchas do River Plate sabem bem de que matérias é feito. Se tivesse nascido argentino, como diria Hugo Sanchez pensando em Maradona, talvez os elogios fossem ainda maiores. Se tivesse jogado um pouco mais a norte em Madrid, talvez hoje fosse tratado de outra forma. Mas no Calderon, como no Dragão, o valor de ser Falcao é ainda maior e talvez por isso o seu mérito individual mais gritante.

 

Da mesma forma que os adeptos do FC Porto sabiam que um jogador como o colombiano estaria de passagem, em Madrid começam a dar-se conta de que talvez para o ano que vem Radamel esteja a costurar golos por outras paragens. É um percurso inevitável para um homem que vende aquilo que mais se valoriza no mundo do futebol. Entre os grandes de Espanha e a Premier está o futuro de um jogador que só precisa de um clube com mais prestigio e melhor marketing para falar de tu a tu com os Ballon´s D´Or no activo. Se já tivessem tido a honestidade mental de dar-lhe o prémio por antecipado, talvez a lógica de um jogo de onze contra onze onde há sempre um que brilha mais forte faça mais sentido do que nunca.  



Miguel Lourenço Pereira às 00:59 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Sexta-feira, 13.04.12

Não acreditar no poder psicológico de uma troca de treinador é não conhecer o futebol como um profundo fenómeno humano. O jogo faz-se de rotinas, de estados de ânimo e, sobretudo, de sensações. O tapete verde espelha o trabalho semanal e mescla o talento genuino com a profunda necessidade de dar um sentido grupal ao colectivo. O sucesso desportivo do Sporting de Sá Pinto no final de temporada explica bem essa realidade e deixa igualmente no ar a legitima dúvida sobre o efeito a longo prazo de uma vitamina de sucesso imediato.

Problemático como jogador, lider como técnico.

Sá Pinto não é o primeiro que, sentado no banco, lê os problemas com a experiência de quem os causou tantas e tantas vezes no passado, para depois analisá-los com a frieza do presente. Johan Cruyff foi talvez um dos jogadores mais conflictivos da história do jogo e o seu papel como treinador espelhou perfeitamente a sua maturidade táctica e humana. Conciliou egos irreconciliáveis e formou uma das melhores e mais bem sucedidas equipas da história. É dificl pensar que este Sporting chegue a esse nível, mas os últimos dois meses com o portuense ao leme de Alvalade têm transformado a equipa verde e branca na revelação da época. Sem ter sequer o quarto lugar assegurado, como se torna isso possível?

Essencialmente o Sporting vive há vários anos a dramática situação de ser um histórico no nome, com as respectivas ambições, mas uma equipa desestruturada da cabeça aos pés para sobreviver num mundo da alta competição onde um rival dá aulas sobre organização desportiva e o outro investe quantidades incomportáveis para manter o ritmo. Ao Sporting desta época, honestamente, não se podia pedir o mesmo que a Benfica e FC Porto porque nem a nova directiva nem a nova equipa técnica, de Domingos Paciência, tinha armas para lutar de igual para igual. 

Um plantel radicalmente novo, um novo lider e uma nova gestão desportiva exigem um pensamento a longo prazo. 

Mas o Sporting é o que é também porque a nivel de gestão tem uma profunda tendência ao desespero imediato e depois de uma série de tropeções que não espelhavam tanto a forma de jogar da equipa mas sim a incapacidade de coordenar tantas caras novas em tão pouco tempo, a Domingos foi-lhe aberta a porta da rua. O enésimo técnico na última década a sofrer do espirito de hara-kiri leonino podia até suspeitar que o final de temporada seria sempre melhor, nem que seja pelo maior entrosamento entre treinador e equipa, e entre os veteranos e as novas incorporações. Mas o papel psicológico da novidade no futebol tem um poder dificil de negligenciar. São raras as vezes que uma troca de técnico empeora uma situação e quando isso sucede, está claro que há problemas tão graves, dentro e fora do balneário, que não há capacidade humana para superar. Domingos podia alegar que sabia perfeitamente o que Schaars, Elias, van Wolfswinkel, Capel ou Izmailov podiam trazer á equipa no final do ano e que as baixas no sector defensivo em jogos importantes não o ajudaram. Mas sofreu o fatalismo do imediatismo futebolistico que talvez para ele seja mais dificil de compreender depois de se ter formado como jogador no clube mais estável do futebol português e ter atingido o zénite como técnico no clube mais paciente da actualidade na Liga Sagres.

 

Sá Pinto não trouxe ao Sporting um radicalismo técnico ou uma profunda remodelação táctica que possa justificar uma alteração tão significativa de comportamento por parte dos jogadores. A antiga glória do velho Alvalade conta praticamente com os mesmos nomes que o seu antecessor e mesmo o dispositivo táctico continua a ser o mais parecido possível a um 4-3-3 que priveligia a velocidade nos flancos e a segurança nas transições no miolo.

A vitória futebolistica, à parte do resultado, frente ao rival da Luz foi um espelho desse ideário, adaptado especialmente ás caracteristicas de jogo de um rival sem alma (sem Aimar) e sem cérebro (Jesus, outra vez). Elias engoliu um Rodrigo que se sente mais cómodo à frente. Schaars e Matias Fernandez, com mais preocupações defensivas, controlaram os tempos e deram, quase sempre em condições, as poucas bolas que tiveram nos pés por mais de dois minutos ao veloz ataque liderado por Izmailov e Capel. O resultado foi curto para as oportunidades mas foi o fiel reflexo do pragmatismo de um Sá Pinto que sabe com que conta e, sobretudo, com quem conta. Trocar André Santos ou Carriço, membros habituais na medular, pelo jogo mais fisico e curtido de Elias foi algo com que um Jorge Jesus mais preocupado em fazer bluff com os centrais disponíveis não conseguiu entender. Talvez o técnico encarnado tenha sofrido do mesmo mal de Roberto Mancini, outro treinador que não pensou ser possível perder em Alvalade e que acabou por não encontrar forma de ganhar face à teia defensiva mas com objectivos claros nas transições que o técnico montou na dupla eliminatória e que repetiu, com mais autoridade, num confronto dificilissimo contra um Metalist que pode, daqui a poucos anos, ser um novo Shaktar Donetsk.

Sá Pinto encontrou a motivação do balneário, talvez espelho do seu caracter bem distinto ao do seu antigo colega de selecção nacional, e as condições ideais para triunfar. Sem a pressão dos resultados, a época está praticamente ganha com uma histórica semi-final, apenas a segunda em vinte anos na história do clube nas provas europeias, e com um quarto lugar que não deve escapar, apesar da notável época de outro velho amigo do ex-jogador do Salgueiros, o técnico Pedro Martins.

Mas da mesma forma que Sá Pinto resultou melhor do que se esperava como solução urgente numa situação caótica é preciso imaginar como será o seu trabalho a médio e longo prazo. Paulo Bento chegou numa situação distinta (no arranque da época) e aguentou-se mais do que seria imaginável mas sempre com serviços minimos numa época em que o Benfica ainda não era um rival à altura do FC Porto de Jesualdo Ferreira. Depois do enorme investimento do último defeso cabe pensar que o plantel do Sporting não pode sofrer muitos ajustes no Verão e que esta será a base de trabalho de Sá Pinto. A diferença de qualidade com os rivais directos continua lá, a profundidade de banco ainda é justa e a formação leonina, sempre capaz de resolver problemas, não parece estar tão fina como em anos anteriores.

 

Ultrapassado o papel emocional do regresso do filho pródigo, agora pede-se a Sá Pinto que seja mais treinador do que apenas gestor humano. O final de temporada será sem dúvida um teste à emocionalidade do clube leonino mas é a preparação para uma nova época sem Champions League e com a expectativa alta que deve preocupar o técnico, dirigentes e adeptos do Sporting. Se o clube de Alvalade souber encontrar a dose certa de paciência que tanto lhe tem faltado, Ricardo Sá Pinto pode encontrar o habitat perfeito para desenvolver-se como técnico. No entanto, se o seu talento se manifestar apenas em situações de alto risco emocional, o futuro leonino continua a ser demasiado cinzento. 



Miguel Lourenço Pereira às 13:42 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 05.04.12

Hoje pode ser o seu último jogo nos palcos europeus. Essa frase tem sido repetida até à exaustão desde há dois anos. Mas o mais polémico jogador espanhol da história teima em esconder o segredo da eterna juventude só para si. Se hoje há jogo em San Mamés é porque Raul não se rende nunca e saca os mais apaixonantes artilúgios futebolisticos para desafiar o fantasma da retirada.

Quando Jorge Valdano pegou no miudo de 17 anos a quem chamavam Raúl e o lançou num jogo em La Romareda sentiu que estava a fazer história.

O então técnico merengue referiu-se por diversas vezes ao caracter competitivo de "Rulo". Nunca foi o mais dotado dos jogadores, nunca foi um matador de área, um génio com a bola nos pés, um atleta incansável ou um perito em lances de bolas paradas. Mas sem ser um divino em cada uma destas caracteristicas fundamentais para arriscar entrar na história, foi grande em todas elas. E enquanto os outros se iam perdendo para o tempo e para o corpo que os sustentava, o sete negava-se a desaparecer nos volumes da história.

Os seus dois golos em Gelsenkrichen, a passada quinta-feira, foram a prova viva de que o mesmo jogador que mandou calor o Camp Nou e se tornou em simbolo do Real Madrid continua exactamente igual. O oportunismo de área, o descaro no remate, a contenção na liderança que exerce com uma naturalidade pasmosas. Raúl conviveu com os melhores jogadores dos últimos 20 anos, de Butrageño e Laudrup a Zidane e Cristiano Ronaldo e nunca se deixou sequer atropelar pela imagem de um deles. Quando Florentino Perez, ansioso por construir a sua Galáxia, quis retirar-lhe o sete para entregar o número a Luis Figo, ouviu o que nunca imaginaria ouvir de um jogador de futebol no seu gabinete. Figo foi apresentado com o 10, Beckham com o 23, Zidane foi o 5 e Cristiano Ronaldo o 9. Nenhum deles conquistou os adeptos do Bernabeu, sentou tão bem á imprensa e deixou uma marca tão profunda como o jovem que estava predestinado a ser uma estrela no Atlético de Madrid.

 

Se a carreira de Raúl é um espelho da sua glória e do seu fracasso, dos seus três titulos europeus com o Real Madrid e os seus repetidos erros com a selecção espanhola, é com as cores do Atlético de Madrid e o Schalke 04 que a sua vida desportiva faz sentido como espelho da personalidade de um herói do silêncio.

Raul podia ter emigrado para as Arábias ou para a liga norte-americana quando Florentino Perez, de volta ao trono, lhe fez saber que nem ele nem José Mourinho contavam com os dois filhos predilectos da cantera local, ele e Guti. O inconstante José Maria Gutierrez deixou-se atrair pela música e pelas mulheres turcas mas o profissionalismo absoluto de Raúl levou-o a procurar o melhor para o seu nome profissional. Foi exactamente a mesma decisão que tomou 15 anos antes. Jesus Gil y Gil estava determinado a acabar com a formação do clube para poupar em gastos e fez várias propostas a jogadores locais por valores insignificantes de empréstimos a clubes da região com a eventual promessa de, num futuro, integrar os quadros dos colchoneros. Raúl não gostou dos números, do destino que lhe estava reservado e da palavra de um presidente reconhecido por não a ter em absoluto. Sem vergonha na cara bateu á porta do eterno rival e foi acolhido como um filho pródigo. Quando deu ao clube a sua segunda Taça Interconintental com um golo que se tornaria imagem de marca, já ninguém se lembrava de onde vinha. Quando enfunda a camisola azul do Schalke ninguém se esquece de donde vem um jogador que transformou radicalmente a imagem de uma equipa com potencial mas demasiado irregular para triunfar ao mais alto nível. A sua exibição em Milão levou o Schalke a umas históricas semi-finais da Champions League e só os seus golos impediram o Athletic Bilbao de estar a marcar hotéis e bilhetes para a próxima fase. Ao principio e ao final a sua visão vai mais além do mero futebolista de prestigio. Recusou-se a ser homenageado pela selecção espanhola por despeito á forma como Luis Aragonés fez dele o bode espiatório que permitiu aos espanhóis acabar com a sua maldição desportiva. No fundo ainda acalenta a esperança de voltar a vestir La Roja e os seus números, este ano, posicionam-no como o melhor avançado espanhol do ano. Não será suficiente, nem por muito que o seu amigo Josep Guardiola o declare como melhor jogador espanhol da história, epiteto onde Gento, Suarez, Butrageño e Xavi têm algo que dizer.

 

Ver jogar Raúl sempre foi ver um desporto á parte. O avançado estudas as capas, lê as sequências, salta-se os parágrafos e remata o ponto final com a autoridade de um decano universitário que vê passar pelas suas salas de aula gerações de génios em potência. Sem nunca insistir na mitologia a forma como evitou a odiosa comparação com os seus conterrâneos e o seu agastado fim já lhe vale o reconhecimento de muitos que antes lhe torciam o nariz. Os outros, os raulistas, contam as horas passar temendo que chegue o dia em que a fonte da eterna juventude se esgote e Rulo se canse de ser eterno.  



Miguel Lourenço Pereira às 06:14 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 30.03.12

São a melhor equipa do ano. Com recursos infimos jogam de uma forma inimitável, fruto do génio absoluto do treinador mais audaz e apaixonante do futebol mundial. O Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa é mais do que uma grande equipa num imenso estado de forma. É a prova de que é possível fazer muito com pouco, que há espaço para a garra e o toque, a análise cientifico e o recurso ao coração nos momentos de aperto. Bielsa é um caso único no futebol mundial, alguém de quem é impossível não se apaixonar perdidamente quando falamos de futebol.

Bielsa dá um passo á esquerda, cinco á direita, coloca-se de cócoras, dá meia volta e recomeça a contar.

O seu feitio de colocar ordem em qualquer momento de caos mental faz dele quase uma caricatura de um génio. Mas a realidade do "Loco" de Rosário vai muito mais longe. Se a cidade argentina tem um dos melhores jogadores do Mundo também pode orgulhar-se de ter um treinador sem igual, capaz de fazer muito com tão pouco sem nunca renunciar aos seus principios.

Quem segue o Athletic Bilbao sabe que o nome do argentino era o último que se podia associar a San Mamés, estádio onde se forjou o espirito guerreiro do futebol espanhol, noites de dureza épica, garra histórica e sob o grito "Euskadi" se defendia a bandeira com a vida. O estádio onde Javier Clemente moldou o seu 4-4-2 mais britânico e agressivo de sempre. O estádio que desconfiava do génio de Julen Guerrero e preferia a entrega de Joseba Extebarria. A catedral que se rendeu ao futebol brusco, bronco e eficaz de Caparrós. Enfim, um clube onde a forma de vencer se assemelhava mais a uma batalha ideológica do que a um exprimir todo o sumo futebolistico dos seus melhores jogadores. Mas algo mudou. O nascimento de uma geração irrepetivel na história do clube desde os anos 50 - onde o Bilbao logrou bater o Real Madrid de Di Stefano na luta pelo titulo por duas vezes - trouxe uma novamentalidade e quando o clube foi a votos José Urrutia, o ex-jogador que anunciou Bielsa como seu treinador, venceu o presidente em exercio, Fernando Mácua, responsável pela reestruturação financeira e desportiva da identidade. A vitória de Urrutia foi a porta de aberta de Bielsa e o inicio do melhor ano da história do clube basco desde 1984.

 

Obcecado pelo futebol e pela vida, Bielsa é único. Para ele a vida só faz sentido com uma bola nos pés.

Na preparação para o duelo em Gelsenkirchen contra o Schalke 04 viu 48 videos do conjunto alemão lembrando o Mundial de 2002 na Coreia do Sul. Então o seleccionador argentino levou consigo mais de 600 videos de todas as seleções presentes no torneio. Os jogadores não corresponderam á intensa preparação do "Loco" e a albiceleste voltou cedo para casa mas a vitória na Copa América primeiro e a sua notável prestação como seleccionador chileno voltou a devolver o nome de Bielsa á ribalta. O chileno é, provavelmente, com Louis van Gaal, o mais genial e menos reconhecido técnico do futebol mundial dos últimos 25 anos.

Em Bilbao, um clube que só contrata jogadores bascos, Marcelo não teve direito aos fundos de José Mourinho, Josep Guardiola, Roberto Mancini ou Alex Ferguson. Mas o seu onze base é provavelmente o mais intenso, apaixonante e espectacular do ano. O curto banco, espelho do pouco leque de opções que um clube que leva o simbolo de Euskadi muito a sério, impediu-o de estar actualmente mais perto da Champions League na tabela classificativa da liga. Mas na Europe League o clube basco tem sido superlativo. Depois de vencer a fase de grupos e de eliminar o Lokomotiv Moscow, o festival de futebol com que Bielsa asfixiou ao veterano Ferguson em 180 dos melhores minutos do futebol europeu despertaram a Europa para algo que Espanha já se tinha habituado a ver semana sim, semana também. Os 2-4 impostos ao Schalke 04 foram outra prova tremenda da capacidade táctica do técnico. Depois de uma primeira parte em que o jogo pertenceu aos alemães, Bielsa reordenou as peças, soltou Muniain e Susaeta, e a equipa que muitos diziam estar fisicamente morta venceu por 2-4, sentenciando praticamente um lugar nas meias-finais onde pode defrontar o Sporting CP antes da viagem a Bucareste.

Bielsa é um treinador corajoso. Chegou uma semana depois do arranque da pré-época depois de ter visto todos os jogos do Bilbao dos últimos cinco anos na sua casa em Rosário. Trazia uma lista de dispensados onde se encontravam intocáveis de Caparrós como Aitor Ocio ou Fernando Amorebieta. Mesmo assim aceitou o segundo depois de o ter convencido na pré-temporada que reunia as condições minimas que Bielsa exige aos defesas: ser os primeiros a saber manejar a bola com classe.

O seu 3-4-3, mais ousado ainda do que habitualmente utiliza Guardiola em casa, reune alguns dos mais promissores jogadores do futebol espanhol, de Iker Muniain a Marcel Susaeta passando por Oscar de Marcos, Iturraspe, Ezkiza, San José, Aurtanexe, Iraizoz ou Iraola a que se juntam os internacionais Fernando Llorente e Javi Martinez. Em oito meses de temporada poucos clubes podem dizer, com a cabeça alta, que já jogaram ao mesmo nivel que os "leones" do Louco.

 

Amanhã o Bilbao joga no Camp Nou. A habitual hipocrisia do Barcelona e a permissividade da Liga espanhola não permitiram ao clube basco cumprir as 48 horas de descanso estipuladas. É provável que o discipulo, Guardiola, vença sem dificuldade um onze mais débil e, sobretudo, muito mais extenuado, de um dos seus mentores, Bielsa. Mas para uma equipa que já tem bilhete na próxima final da Copa del Rey, que está perto de vencer a sua primeira prova europeia e que não está a mais de 9 pontos da Champions League com um plantel onde 14 jogadores cubrem mais de 85% do tempo de jogo a dois meses do final da temporada é histórico. Mais do que isso, é futebolisticamente único e humanamente apaixonante. Algo que só Marcelo seria capaz de fazer.



Miguel Lourenço Pereira às 17:39 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sexta-feira, 25.11.11

As provas europeias parecem ser, cada vez menos, coisa de ingleses. À parte do ostracismo votado à Europe League/Taça UEFA na última década, a perda de importância dos clubes ingleses na Champions League começa a ser evidente. De três semi-finalistas em 2008 podemos passar ao extremo de um só concorrente nos oitavos de final. Mais sério do que isso é a perda de competitividade dos insulares face aos seus rivais europeus, um problema que tem a sua génese não na grande competição continental mas nas entranhas da própria Premier League.

 

O futebol europeu rege-se sempre por fases e o periodo de predominância inglês parece estar, definitivamente, superado.

Se nos anos 80 foi necessário o desastre do Heysel para acabar com um mandato absoluto de dominio britânico entre 1977 e 1985 (sete titulos em nove anos), agora a implosão desportiva dos grandes da Premier League vem desde dentro.

Sob a ameaça da aplicação do Fair Play financeiro que continua a ser uma das grandes bandeiras de Michel Platini, os ingleses têm de decidir que caminho querem seguir. Se por um lado são um oásis nos desafios morais à hegemonia da FIFA - a questão do racismo, da corrupção e introdução de tecnologia são belos exemplos - por outro o nivel de endividamento da maioria dos clubes (da Premier e do Championship) coloca seriamente em risco o futuro de uma liga que se soube reinventar como nenhuma outra depois do Relatório Taylor e que agora vive afogada nas próprias dividas.

E no entanto a presença do Manchester United na final de Londres tapou, de certa forma, uma tendência que se vem verificando desde 2009 e que parece irreversível. A supremacia do dueto espanhol Barcelona-Real Madrid (hegemónicos em tudo, desde o dinheiro ingressado, a atenção televisiva e as propostas futebolisticas) bem como o fortalecimento claro da realidade futebolistica na Alemanha (que as campanhas exitosas de Bayern Munchen e Schalke 04) ajudam a explicar a perda de preponderância desportiva da Premier. Mas o problema é mais profundo.

A taxa de endividamento dos principais clubes ingleses é a mais alta do espectro europeu. A carteira de Abramovich e Al Mansour tem ajudado a maquilhar a desastrosa realidade financeira de Chelsea e Manchester City, porta-estandartes desta liga de novos ricos capazes de destabilizar o mercado como ninguém. Mas começa a revelar-se insuficiente para resolver todos os problemas. No caso do Arsenal, a clara perda de poder económico a que se seguiu a forte aposta na construção do Emirates (que só agora se acabou de pagar), contribuiu para a perda de poder futebolistico que passará por um natural processo de reestruturação antes de voltar à elite. E por fim, em Manchester, o histórico United continua a aparentar uma imagem invejável de saude financeira que esconde a imensa divida do império dos Glazer transportada para as costas do clube. Mais abaixo tanto Tottenham como Liverpool debatem-se com uma eventual mudança de estádio para recuperar poder económico com os rivais directos enquanto que a habitual classe média (Everton, Aston Villa, Newcastle, Blackburn Rovers, Bolton, Sunderland) conta os tostões para chegar ao fim do mês com a balança no verde. O dinheiro começa a escassear, os preços inflacionados de jogadores no mercado Premier - onde os clubes locais continuam a apostar - não parece baixar (viu-se nos casos de Adam, Henderson, Carroll, Jones, Meireles, Arteta) e a evolução técnico-táctica que contribuiu para a mutação da competição entrou numa fase de estagnação evidente.

 

Não foi alheio ao processo de auto-destruição do Calcio, há uma década atrás, os mesmos sintomas que se vivem na Premier.

Aquela que foi, entre os finais dos anos 80 e grande parte dos 90, a grande liga europeia, entrou num poço de onde ainda não voltou muito por culpa do endividamente dos seus clubes (com a Lazio, Napoli, Sampdoria, Parma e Fiorentina como casos mais evidentes), pela violência e falta de interesse dos adeptos por um espectáculo que ia perdendo qualidade e, como antecedente dessa realidade, a progressiva migração dos melhores jogadores para outras ligas (espanhola e inglesa). A Premier vive hoje esse pesadelo.

Nos últimos cinco anos abandonaram o campeonato alguns dos seus mais brilhantes interpretes, como Fabregas e Cristiano Ronaldo, e apesar de algumas incursões pagas a preço de ouro (caso do City com Silva, Aguero, Balotelli, Dzeko), desde há vários anos que os principais clubes ingleses têm falhado nas tentativas em incorporar os melhores jogadores do continente. Os grandes negócios realizam-se entre eles (Torres, Nasri, Berbatov, Jones, Henderson, Meireles) e a aposta começa a ser - seguindo o exemplo do Arsenal - em jogadores jovens, de preço mais acessível e com margem de progressão (David Luiz, Javier Hernandez, Luis Suarez, Luka Modric...).

Hoje os Neymar, Gotze, Hazard, Pastore, Cavani, Falcao e companhia dão-se ao luxo de rejeitar ofertas de clubes de top da Premier, seja pela melhoria de condições nos seus clubes de origem, seja porque a liga perdeu grande parte do seu real atractivo. Ao contrário de Espanha, onde muitos dos nomes continuam a procurar um lugar ao sol, Inglaterra tornou-se outra vez num destino cinzento, envolto numa capa escura de smog.

Se a partir de 1995 a grande mutação da Premier começou a tornar-se evidente com o contributo de jogadores de fora como Cantona, Zola, Bergkamp, Asprilla, Pires, Overmars, Anelka, Vieira, Ginola e companhia, permitindo ao futebol local abandonar o estandardizado 4-4-2, o jogo directo e a total falta de pressão entre linhas, hoje parece que as equipas inglesas ficaram paradas no tempo. Da hegemonia de técnicos estrangeiros a principios da década passada (Houllier, Ranieri, Benitez, Mourinho, Wenger) passou-se a um cenário onde só o francês e Villas-Boas sobrevivem, o primeiro no enésimo projecto e o segundo numa mutação desportiva longa e complexa. O 4-5-1 e 4-2-3-1 tornaram-se num santo e senha dificil de mudar e, sobretudo, fácil de anular quando as equipas das ilhas viajam ao continente. A versão mais conservadora do Manchester City - clube para muitos candidato ao máximo troféu europeu - foi incapaz de reacionar diante de um 3-4-3 móvel e asfixiante do Napoli. Como antes, diante do Bayern Munchen e até mesmo frente aos napolitanos em casa. O Chelsea de Villas-Boas tem tentado apostar num 4-3-3 que na Europa acabou, em momentos, por ser vulgarizado por uma versão mais fluida e acutilante tanto por Valencia como por Leverkusen. E no caso do Manchester United a realidade bateu à porta de um sir Alex Ferguson, habituado a tratar com pouco interesse uma fase de grupos que antes era apenas um trâmite. Frente ao Basileia e Benfica, em Old Trafford, a péssima exibição do sector defensivo facilitou os dois empates consentidos. Fora de portas a incapacidade de criar jogo num meio-campo lento e previsivel transformaram os duelos em Portugal e na Roménia em verdadeiros suplicios. Salvou-se o Arsenal, talvez por ser um projecto novo e, portanto, mais aberto à mudança, mas que beneficia da mentalidade continental do seu técnico, mas olhando para os cinco jogos disputados é dificil ver nos gunners um candidato sério a chegar às meias-finais.

A realide é desarmante, um 45% de vitórias em 20 jogos de equipas inglesas, a mais baixa percentagem dos últimos 10 anos. E um espelho de uma realidade que sim existiu durante os anos 90 onde, por várias vezes, os ingleses caiam aos pés de equipas mais acessiveis como o IFK Goteborg, Legia Warsawm RCD Lends, Dynamo Kiev, Fiorentina, Basel, Rosenborg ou Spartak Moscow. Numa Premier que então ainda se debatia com os problemas estruturais pós-Taylor, essa era a realidade que hoje parece ter regressado apesar da diferença de orçamentos entre os clubes ingleses e os continentais (salvo Barça e Madrid) seja maior do que nunca.

 

Em 2008 o futebol inglês viveu o apogeu de lograr três semi-finalistas na Champions League. O sucesso do Liverpool três anos antes e a presença do Arsenal na final de 2006 e do próprio Liverpool em 2007 davam a ideia de uma hegemonia clara e facilmente reconhecida. O United, vencedor dessa final totalmente inglesa, voltou em 2009 e 2011 mas numa versão mais pobre, facilmente domada pelo Barcelona de Guardiola. E a performance dos ingleses foi decaindo progressivamente, tanto nos casos de Chelsea e Arsenal como nas presenças, esporádicas, de Liverpool e Tottenham. Este ano, pela primeira vez, há sérias possibilidades do futebol inglês chegar à fase a eliminar com apenas uma equipa em prova. Um cenário que talvez doa menos do que a constatação de uma crua realidade. No panorama actual é muito complicado que um clube inglês possa aspirar a estar em Munique no próximo mês de Maio. As goleadas entre favoritos na Premier atraem os espectadores mas deixam a nu os problemas técnico-tácticos dos principais clubes e a falta de competitividade quando viajam à Europa tem tomado proporções alarmantes. Apesar de manter todos os condimentos de um espectáculo sem igual, à perda de competitividade da Premier League vai, seguramente, unir-se uma perda de prestigio, perda de financiamento e perda de interesse. Já vimos este filme em Itália e sabemos o dificil que é recuperar de um choque tão grande. Os ingleses sempre demonstraram saber reinventar-se mas este desafio parece ser mais sério do que muitos possam imaginar.



Miguel Lourenço Pereira às 09:30 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 10.06.11

André Villas-Boas transformou o ano desportivo num regresso ao futuro. A sua juventude, questionada ao principio, deixa antever um futuro brilhante para o técnico portuense. A forma como se instalou, confortavelmente, na cadeira dos seus sonhos, permitiu recuperar os sinais de identidade do passado. Com Villas-Boas ao leme o FC Porto voltou a ser rei de Portugal e da Europa, sob aplauso generalizado e admiração genuína. AVB tornou-se, por direito próprio, no treinador de moda do futebol europeu. E no Homem do Ano para o Em Jogo.

 

Aprendeu muito com Mourinho mas agradeceu a Guardiola a inspiração. E certamente não se esqueceu de beber um bom copo de vinho à saúde de Bobby Robson. Onde tudo começou. Para ele. E não só. No momento da consagração, André Villas-Boas podia sentir-se um homem completo. Logrou o inédito a uma idade precoce e no lugar onde sempre quis estar. Aí, sem dúvida alguma, traça um precioso paralelo com o treinador do Barcelona. Ambos voltam a casa, antes do tempo prevista, para ganhar tudo o que havia para ganhar e com uma filosofia e um estilo próprio que os afastam da figura em comum que os une, mas também, que os separa, José Mourinho.

Villas-Boas aprendeu do técnico sadino muito mas o seu talento precoce vinha já das suas conversas com Bobby Robson, dos seus relatórios adolescentes e das muitas horas perdidas a ver jogos atrás de jogos. Durante essas tardes, no velho estádio das Antas, sonhou com a cadeira de Pedroto, de Artur Jorge, de Ivic, Carlos Alberto...de Robson. Deu sempre passos mais longos que as pernas mas pensados ao mais minimo detalhe. E mesmo quando embarcou na cosmopolita viagem europeia com Mourinho nunca perdeu a Invicta de vista. Fez um desvio por Coimbra (por onde passaram também Pedroto e Artur Jorge) antes de aterrar no Dragão para por ordem na casa. Manteve os jogadores, mudou os principios. E ganhou a aposta. Em 365 dias mudou o rosto do futebol português. Os seus quatro titulos colocaram um ponto final na ambição do Benfica de emular algo que não consegue desde 1984, vencer dois titulos consecutivos. Numa especie de O Império Contra-Ataca, restaurou a normalidade na Liga Sagres com registos impensáveis na era moderna. 30 jogos, 27 vitórias, 3 empates, 73 golos marcados e 16 sofridos não caem do céu. Definem sim uma época.

 

O sucesso de Villas-Boas recai também na sua atitude.

Não é só um técnico que domina os distintos aspectos do jogo - do conhecimento táctico à gestão de balneário - mas é também um homem que sabe controlar todos os aspectos que rodeiam a vida do clube. Essa lição foi bem aprendida com Mourinho, o mentor de quem se afastou, e que soube colocar em prática durante todo o ano, tanto dentro como fora de portas. O sucesso interno do clube - em três provas, sempre à custa do Benfica - teve mais eco no futebol europeu pela caminhada vitoriosa até Dublin. Como sucedeu em 2003 os grandes da Europa ficaram prendados com o talento de gestão de um treinador mais novo do que o próprio capitão de equipa, mais novo ainda de que os precoces Mourinho e Guardiola, os dois rostos que comandam hoje em dia as hostes quando se fala em gestores de primeiro nível.

Villas-Boas não se limitou a bater recordes de precocidade. Definiu um estilo. Num FC Porto habituado nos últimos anos a um jogo temeroso, dependente em excesso do contrário ele manteve apenas o desenho táctico. Trocou os lançamentos rápidos pelo futebol pensado no miolo, recuperou principios da mistica azul e branca dos dias de Artur Jorge e a eterna fome de golos que fez parte dos ensinamentos de Bobby Robson. Uma equipa com tracção à frente mas com uma defesa segura e fiável. Uma equipa sem medo de ter a bola nos pés e com a clareza de mente suficiente para saber o que fazer com ela. E, sobretudo, uma equipa repleta de valores individuais imensos com uma forte dimensão colectiva. Esse espirito de pastor de homens - de que o Dragão estava orfão desde a debandada de Mourinho - significou um profundo regresso à filosofia do passada, cultivada desde a chegada do duo Pedroto-Pinto da Costa. Um FC Porto autoritário, ofensivo e profundamente carismático.

 

Não é casualidade que os grandes da Europa tenham o nome de AVB no topo das suas listas. Muitos lembram-se do que sucedeu da última vez que um jovem e desconhecido técnico despontou ao serviço dos dragões. Por muito que Villas-Boas se queixar distanciar dessa imagem, a verdade é que o jovem técnico já superou o registo ganhador do seu mentor e essa realidade está bem presente  tanto em Portugal como para lá da raia fronteiriça. O treinador tem possibilidades de emular o trajecto de Artur Jorge e José Mourinho mas há algo no seu caracter tripeiro que deixa antever que se prepara para inverter a tendência. Sente-se cómodo na sua cadeira de sonho e não vê motivos para sair. Já viu o Mundo uma vez agora quer que seja o Mundo a vê-lo a ele. Este ano conseguiu-o e transformou a cidade Invicta - com autorização de Barcelona, que vive ainda noutra dimensão - na capital do futebol europeu.  



Miguel Lourenço Pereira às 09:47 | link do post | comentar

Quinta-feira, 09.06.11

Um ano depois, Em Jogo volta a divulgar o nosso particular Top 10 de jogadores que marcaram a última temporada. Uma análise dos dez nomes mais marcantes que definiram o rumo das principais ligas e provas europeias. Um top baseado não só nas exibições mais estelar mas sobretudo na sua constância e evolução demonstrada desde o arranque da temporada, no passado mês de Agosto até ao passado mês de Maio. Uma lista, como não podia ser de outra forma, liderada pelo astro argentino Lionel Messi, o jogador mais influente de 2010/2011.

 

1. Lionel Messi

 

Aos 23 anos, Leo Messi sabe perfeitamente conjugar o verbo ganhar.

Depois de três Champions League (duas das quais onde foi determinante), cinco Ligas, 1 Taça, várias supertaças, 1 Mundial de Clubes e dois Ballon´s D´Or cabe perguntar como é que um jogador tão novo encontra motivação para melhorar de ano para ano. Os números de Messi, a sua precocidade, só encontram paralelo nos de Pelé, que à sua idade já tinha ganho dois Mundiais e várias provas nacionais e internacionais com o seu Santos. O argentino já meteu a velocidade de cruzeiro nessa corrida por entrar na história e o seu papel na definição do futebol contemporâneo está suficientemente documentada. Em 2010/11 conseguiu o impossível, melhorar. O seu posicionamento táctico na estratégia de Pep Guardiola como o falso nove que era quando chegou a La Masia ajudou a aperfeiçoar o seu estilo de jogo e deu-lhe de novo o protagonismo absoluto na época memorável dos blaugrana. As suas arrancadas, o jogo de tabela e a precisão do remate são já imagens de marca mas na época que finda Messi afirmou-se igualmente como um assistente de primeira. Perdeu a Bota de Ouro no seu duelo pessoal com Cristiano Ronaldo mas bateu-o claramente em assistências, o que o confirma, sobretudo, como uma dessas individualidades que aposta, sobretudo, no jogo colectivo. Com ele o modelo do Barcelona, com todo o seu academismo perfeccionista e geométrico, ganha esse toque de improvisação potrera que o torna ainda mais grande. Messi ajudou a decidir a Liga, levou a equipa às costas durante a reconquista europeia e agora só lhe falta fazer as pazes definitivas com o povo argentino. A Copa América, que arranca daqui a nada, será a ocasião perfeita. Cruyff, Di Stefano, Eusébio, Puskas, Baggio, van Basten, Platini e Zico não precisaram de um Mundial para entrar na história. Messi também não, digam o que disserem, ele já é a história!

 

2. Cristiano Ronaldo

 

A grande frustração de Cristiano Ronaldo chama-se Messi.

Se no mundo do faz de conta o argentino não existisse (ou pelo menos, não tivesse aterrado na realidade blaugrana), o português podia reclamar para si o titulo de melhor do mundo. Individualmente é um dos jogadores mais desequilibrantes das últimas décadas. Tem todas as condições para brilhar e a sua faceta goleadora, uma nova obsessão, marcou a letras de ouro a sua temporada passada. Cristiano Ronaldo marcou 41 golos na liga espanhola, 53 no total de todas as provas. Números espantosos para um jogador que nem joga como avançado mas que sabe que tem um esquema táctico desenhado à sua medida. O português conquistou a sua segunda Bota de Ouro (igualou Eusébio e Fernando Gomes como o português com mais vitórias no troféu) e marcou ainda o golo decisivo na final da Copa del Rey, a única ocasião em que o Real Madrid soube bater o Barcelona. Mas acabou por ter de viver à sombra da grande época blaugrana.

Se a sua veia goleadora reforçou o seu estatuto de estrela, a verdade é que a cada ano que passa, Cristiano Ronaldo torna-se um jogador cada vez mais individualista, num duelo contra o Mundo, contra a história e, forçosamente, contra Messi. Enquanto o argentino faz da associação colectiva a arma que potencia a sua individualidade, Ronaldo é a negação do jogo conjunto, apesar de ter encontrado em Ozil e Benzema parceiros dispostos a dar-lhe o ar que precisa. Assinatura pendente para o próximo e intenso ano em que se espera muito (e melhor) de um jogador que também já entrou na história do beautiful game.

 


 

3. Falcao

 

Bater o recorde de Jurgen Klinsmman não é tarefa para qualquer um. Não o digam a Falcao.

O colombiano do FC Porto é o avançado de moda do futebol europeu. E quem duvida disso? Depois de um primeiro ano de adaptação em que superou as expectativas, o ex-avançado do River Plate realizou a sua melhor época profissional ao serviço dos dragões de Villas-Boas e tornou-se na peça fundamental para o FC Porto conquistar um poker inédito no seu historial. Melhor marcador da Europe League (15 golos em tantos jogos), segundo melhor marcador da Liga Sagres, apesar da sua prolongada ausência por lesão, Falcao voltou a demonstrar o bom olho de Pinto da Costa para avançados com fome de golo e deixou os departamentos de observação de vários clubes de top a pensar como deixaram escapar tamaha pérola. Aos 24 anos o colombiano está em plena forma e será, sem dúvida, um dos grandes atractivos da próxima Copa America. O Dragão deverá começar a preparar-se para a despedida porque não é provável que os grandes da Europa o percam de vista no próximo ano.

 

4. Eden Hazard

 

Zidane já o tinha anunciado e quem segue a espantosa evolução do futebol belga não podia deixar de pensar o mesmo. Eden Hazard está chamado a fazer história. Aos 20 anos tornou-se no mais jovem jogador a ser eleito Jogador do Ano pela Ligue 1. Não é por menos. Depois de formar-se em Lens, tornou-se no patrão de jogo, alma e génio, do modesto Lille que rompeu com os prognósticos e sagrou-se campeão francês pela primeira vez em 56 anos. O talento criativo de Hazard relembra, mais do que o génio gaulês que o apadrinha, o estilo de jogo do dinamarquês Michael Laudrup. Rápido, ágil e com golo nos pés, o belga é igualmente o lider de uma geração que se propõe a recolocar o futebol belga no lugar de onde há muito está afastado. O Lille fará de tudo para o segurar com o atractivo da Champions League (um pouco como farão FC Porto e Dortmund com as suas estrelas), mas é fácil imaginar que muito brevemente a classe de Hazard esteja a desfilar pelos grandes palcos europeus.

 

5. Xavi Hernandez

 

Quando Xavi Hernandez recebe a bola, o Mundo pára. Na sua cabeça. Como um axedrezista sobredotado, o número 6 do Barcelona sabe antever todos os lances que irão suceder nos instantes seguintes. E molda-os a seu belo prazer. Ele é a base deste modelo de jogo que tanto encandila ao mundo. Se Messi traz o rasgo individual, Xavi pauta a coordenação colectiva. Herdeiro da filosofia cruyffiana, que começou com Milla para depois confiar-se a Guardiola, ele define o modelo de jogo. Recuado, lê nas entrelinhas, traça a régua e esquadro e depois contempla a sua criação. Se o futebol do Barcelona é milimétrico, estudado até à perfeição pelos aplicados alunos da Masia, Xavi é o professor catedrático por excelência. A cada jogo, um novo curso, um novo gesto de superioridade mental. Com Messi cada vez mais recuado, Xavi cedeu o protagonismo do último passe, recuou dez passos no terreno e aprendeu a controlar à distância. Mas continua a ser ele, e só ele, quem mantém a máquina blaugrana perfeitamente oleada.

 

6. Carlos Tevez

 

Na problemática realidade chamada Manchester City é dificil encontrar um elemento que consiga deixar para segundo plano os (muitos) milhões gastos para formar uma equipa campeã que continua sem ganhar o titulo da Premier. O argentino Tevez logrou com o City uma das suas melhores épocas e levou às costas o conjunto citizen ao apuramento directo para a Champions League, algo inédito na sua história. Apesar do investimento milionário em Balloteli, Dzeko, Silva, Touré e companhia, foi a raça do "Apache" e o seu espirito de liderança nos meses mais complicados da gestão de Mancini que mantiveram o clube nos lugares de topo da tabela classificativa. A sua saída do City of Manchester podia provocar mais um terramoto emocional num clube que gastou muito mas nunca tão bem num jogador como naquele que foi, sem dúvida, o homem mais em forma da última Premier League.

 

 

7. Jack Whilshire

 

Foi uma aparição estelar, mais uma na lista de lançamentos relampagos patrocinada por Arsene Wenger. Se em 2010 o jovem Whilshire já deixava sensações especiais, a sua época em Londres foi absolutamente memorável. Num ano em que, mais do que nunca, Cesc Fabregas passou ao lado dos grandes momentos, foi o jovem internacional inglês que emergiu como lider e figura de um Arsenal que esteve perto da glória mas que acabou, como tem sido habitual, mergulhado no desespero. A explosão de Whilshire chegou também aos Pross e ajudou Capello a decidir-se finalmente por outro modelo de jogo, bem distinto ao apresentado na África do Sul. No duelo contra o Barcelona viu-se o melhor de Whilshire, um miudo com a eternidade à sua espera.

 

8. Javier Pastore

 

Ver jogar a Pastore é um delicioso requinte que convida a constantes repetições. Com uma técnica sublime e o mapa mundi da filosofia de futebol menotiano na cabeça, Pastore foi o sol que brilhou na Sicilia durante a última temporada dando sentido a uma época convulsa e problemática do Palermo. Não surpreende que meio mundo suspire pelo talento cirúrgico do jovem argentino, apenas ultrapassado em mediatismo no seu país natal pelo fenómeno Messi. O genial médio tem todo o potencial para tornar-se num dos jogadores mais importantes da década e a forma como move o jogo, qual axadrezista de primeiro nível, permite imaginá-lo nas grandes noites europeias nos próximos anos. Poucos jogadores podem sonhar com um futuro tão promissor.

 

9. Nuri Sahin

 

Aos 16 anos já era a maior promessa do futebol de formação na Alemanha. Precisou de cinco anos para explodir verdadeiramente mas a sua evolução confirmou todas as boas sensações que deixou quando foi lançado às feras da primeira equipa em plena adolescência. Nuri Sahin foi a bússula do entusiasmante Borussia de Dortmund, o braço direito de Jurgen Klopp no terreno de jogo e o idolo do Westfallenstadion na época que significou uma profunda viragem na história do clube mitico da Vestfália. Menos vertical que o seu amigo Ozil, outras das precoces promessas alemãs que deu o salto recentemente, o estilo de jogo de Sahin é mais pausado mas não menos determinante. O jovem que preferiu alinhar pela Turquia dos seus pais do que pela Alemanha adoptiva terá no projecto de Mourinho em Madrid a dificil tarefa de ordenar a casa. Especialista em tranquilizar quando os demais se entusiasmam, Sahin terá um desafio à altura do seu talento precoce. Emular uma época como a que agora termina será o seu grande desafio.

 

10. Edison Cavani

 

Quando a cidade de Napoles começou a sonhar com os dias de glória de Diego Maradona, quando o titulo se tornou uma realidade, os napolitanos trocaram as suas rezas habituais ao “dios” argentino e viraram-se para um jovem profeta uruguaio que levava as bancadas do San Paolo à loucura. Edison Cavani confirmou todos os predicados que o acompanham desde os seus dias como jovem estrela do futebol uruguaio. Durante largos meses pareceu ser o hércules que os napolitanos necessitavam na sua luta contra os grandes do norte. E mesmo que no final da corrida o Napoli se tenha ficado “apenas” pelo terceiro lugar, a época de Cavani foi um dos grandes atractivos da Serie A 2010/11.



Miguel Lourenço Pereira às 09:40 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 19.05.11

André Villas-Boas tem motivos para lamentar-se numa noite histórica para o FC Porto. Foi a quarta vitória europeia, a sétima conquista internacional do clube português. Mas foi também a exibição mais cinzenta, nervosa e calculista de toda a temporada. Pouco para uma equipa que deixou a Europa com mel na boca e que na grande noite desiludiu os que imaginavam uma equipa de tracção dianteira com fome de golos pronta a romper todos os recordes. O Braga não estava pela labor mas a verdade é que o justo vencedor da Europe League também não procurou esforçar-se em demasia. O titulo é mais do que justo mas, na ressaca da vitória, fica a ideia de uma final que teve mais de jogo da Liga Sagres do que a glória de uma noite europeia. 

No final dos 90 minutos o delírio apoderou-se dos adeptos do FC Porto.

Mas foi um delírio contido de uma equipa que tem consciência de que a imagem dada não tinha sido a esperada. O técnico confirmou-o por palavras mas não era preciso. A falta de inspiração foi evidente.

Depois de uma campanha espantosa, com goleadas históricas e pouco habituais, o FC Porto mostrou-se em Dublin não como uma banda nova capaz de entusiasmar os fãs em concertos históricos. Foi antes um desses grupos de veteranos que sobe ao palco para tocar os greatest hits com pouca vontade e menos engenho. Ao contrário de Gelsenkirchen e Sevilla - nisto Viena foi um caso à parte - nunca houve essa sensação de superioridade que se podia esperar. Entre a comitiva azul e branca, adeptos incluidos, havia uma sensação de superioridade natural depois de um campeonato perfeito e um apuramento categórico para Dublin. Muitos imaginavam outro FC Porto alegre, vistoso, ofensivo e asfixiante no palco irlandês. Uma exibição para o mundo ver. Porque se muitos não viram como o campeão português desfez o Spartak ou o Villareal, muitos seriam os que acompanhariam com interesse a consagração dos homens de Villas-Boas.

No final, por mérito do Braga também, ficou uma imagem pálida de uma equipa que rematou uma vez à baliza. Bastou-lhe para vencer o troféu, mérito de Falcao, mas não para convencer os amantes do futebol de ataque que o jovem técnico tão bem soube explorar durante o ano. Villas-Boas estava nervoso. Os jogadores mais. Normal numa grande final. Caíram na teia táctica montada pelo Braga, que preferiu não deixar jogar a encarar o rival e assim tornou o jogo mais monótono e contido. O golpe de Falcao evitou uma mudança profunda ao intervalo que certamente já deveria andar pela cabeça do técnico. Poupou o risco que o FC Porto nunca teve no segundo tempo. Quando entrou Belluschi, foi para o lugar de Guarin, o melhor de um miolo sem espaço para pensar. Quando lançou James foi para render Varela, apagadíssimo, mas o jovem colombiano foi incapaz de acelerar com critério e dar mais largura ao terreno de jogo.

 

Villas-Boas perdeu o jogo táctico mas ganhou o duelo no terreno de jogo.

Não soube como responder ao previsível planteamento recuado de Domingos, reforçando o seu jogo a meio-campo desde o inicio (a equipa azul e branca esteve em constante inferioridade numérica) onde lhe faltou sempre um homem. Onde sobrava um inconsequente Varela fazia falta um Belluschi ou Micael com critério. Fiel ao seu ideário táctico o portuense esperou por um golpe de génio dos seus jogadores, a classe que os homens do Braga não tinham. Sabia à partida que sofrer um golo era difícil e que marcar tornar-se-ia mais provável à medida que o tempo fosse discorrendo. Mas sofreu na espera e sem corrigir o posicionamento no terreno de jogo. Hulk nunca soube aproveitar o pouco espaço que teve e perdeu-se, demasiadas vezes, em lances individuais. Abdicou de lances de bola parada estudados por remates sem sentido e foi o espelho da falta de alegria e classe desde FC Porto campeão comparado com a equipa que chegou até à final.

Mas no meio de todo este cinzentismo - e o FC Porto sabia-se superior e jogava com isso, sem procurar nunca o risco - o Braga nunca soube reagir à altura e deixou os azuis e brancos ainda mais cómodos. Villas-Boas foi mais Mourinho e menos Robson do que nunca e com a entrada do médio argentino deu um claro sinal de estar satisfeito com o rumo do jogo. Um segundo golo não era, nem ia ser, uma prioridade.

Depois do susto de Mossóro, com um Helton imenso (na sua melhor época em Portugal), o Braga demonstrou que o quarteto defensivo do Porto (especialmente Otamendi e Sapunaru, os mais desastrados) joga mal sob pressão. Mas os poucos erros individuais não tiveram continuidade e sempre que a bola chegava a Moutinho ou Fernando o jogo adormecia outra vez. Os médios do FC Porto nunca procuraram as diagonais a rasgar, a velocidade dos flancos e contribuíram, e muito, no afunilar do jogo ofensivo. A certa altura dava quase a sensação de haver um pacto de não-agressão entre todos, evidenciado várias vezes pela atitude de Helton, aplaudindo os rivais efusivamente. Ao clube do Porto não interessou nunca procurar uma vitória expressiva, o Braga nunca lhe deu demasiados espaços mesmo quando perdia e o golo de Falcao poupou a Villas-Boas exercer mais como táctico e menos como psicólogo.

 

No final, a sua desilusão, é algo que só pode atribuir a si mesmo e aos seus homens. Pouco incomodados é certo, para eles - e para muitos adeptos - as finais são só para ganhar. Mas depois de ter surpreendido os adeptos neutrais e ter ganho uma considerável legião de adeptos fora de Portugal (como sucedeu com o Dortmund alemão), fica a sensação de que vencer era quase um trâmite e era a imagem de uma equipa descomplexada e atacante que o clube deveria ter procurado dar. Optou pelo cinismo calculista de quem se contenta com a glória do sucesso e talvez com razão. Mas ninguém dúvida também que o clube do Dragão perdeu uma oportunidade de ouro para deixar ainda mais vincada a sua marca no seu impressionante historial europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 10:15 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Em Dublin o Sporting de Braga apresentou a sua cara mais cinzenta. Foi uma equipa sem recursos e incapaz de dar a volta a um FC Porto muito nervoso e sem a solvência habitual. Domingos Paciência tentou vencer o jogo no tabuleiro de xadrez com Villas-Boas mas o golo de Falcao obrigou a sua equipa a fazer o que pior sabe e em 90 minutos o Braga nunca deu a sensação de poder ir mais longe. Uma carreira europeia com um mérito colectivo tremendo que terminou com a exibição mais pequena do ano.

Será fácil num futuro próximo catalogar esta final da Europe League como uma das mais pobres dos últimos tempos.

Faltou-lhe, quiçá, a emoção do prolongamento a que o Fulham obrigou o Atletico de Madrid na época passada ou a solvência das vitórias de Zenith St. Petersburg, Shaktar Donetsk ou Sevilla nas edições anteriores. Para muito contribuiu a postura do Braga.

O conjunto minhoto sabe quais são as suas limitações. No passado sábado não teve pulmão e know-how para dar a volta a um Sporting que foi tudo, menos entusiasmante. Ontem voltou a defrontar-se com os seus próprios fantasmas.

Uma equipa perfeita na organização defensiva (só cometeu um erro, mas para Falcao isso é suficiente) mas que depois tem muitas dificuldades no processo criativo. Domingos Paciência tentou prolongar ao máximo o marcador a zero, deixar os jogadores mais nervosos do que já estavam e tentar aproveitar um lance fortuito para ganhar. Não quis dar espectáculo, quis ser efectivo. Essa é a sua imagem de marca mas essa é também a realidade do seu plantel, especialmente depois da perda de Matheus, o único talento individual que podia ter destroçado a defesa azul e branca só com o movimento de corpo. Foi uma postura extremamente eficaz e para a qual André Villas-Boas nunca teve resposta. Guarin, Fernando e Moutinho estavam cercados por um quarteto asfixiante (Vandinho, Custódio, Viana e Lima) e a bola nunca chegava com regularidade ao tridente da frente. Silvio forçou Hulk a jogar sem os espaços que tanto gosta de explorar e do outro lado do terreno Varela nunca soube ganhar os duelos a Miguel Garcia. Um posicionamento táctico perfeito que deixou de funcionar ao minuto 44. Falcao fugiu a Rodriguez, olhou para Guarin e pediu a bola. A conexão colombiana destroçou com três toques toda a estratégia bracarense e Domingos percebeu então que a vitória seria quase impossível.

 

Mesmo a perder o técnico nunca arriscou muito, faz parte do seu carácter.

A lesão do central peruano, que deu lugar a Kaká, também não lhe deu a margem de manobra necessária. Mossoró, outro que entrou ao intervalo, teve a única oportunidade clara do Braga em todo o jogo mas os nervos encolheram a baliza e agigantaram Helton. A final acabou aí, depois veio a agonia de 40 minutos soporíferos. O Braga procurou mais a baliza do Porto mas sem critério, sem calma e sem uma única jogada com pés e cabeça. Nem nas bolas paradas, e foram várias, conseguiu ser eficaz. Cantos mal marcados, lançamentos laterais mal calculados, livres desperdiçados e Domingos desesperado. Na inoperância do tridente ofensivo preferiu abdicar de Lima em vez de Paulo César, sem ritmo de jogo. Errou e Meyong não trouxe nada de novo ao jogo do Braga. A equipa continuou a defender bem e a não dar espaços ao rival, mas ao mesmo tempo acabou por adormecer o jogo. Precisamente o que pretendia o rival.

No final dos 90 minutos o Braga pode queixar-se de uma expulsão perdoada a Sapunaru - por segundo amarelo - mas também pode olhar para o jogo bastante duro dos seus defesas (Paulão, Silvio e até Hugo Viana, substituído ao intervalo mais pelo cartão do que pelo seu papel no terreno de jogo) e perceber que o árbitro espanhol podia ter sido mais exigente nos critérios de penalização. Mas, acima de tudo, tem de queixar-se de si mesmo e das incapacidades que revelou durante todo o jogo. Se é verdade que em toda a campanha europeia na Europe League - precisamente depois do adeus de Matheus - o Braga só marcou 2 golos num jogo, também é verdade que em nenhum dos restantes encontros deu tanto a sensação de ser incapaz de incomodar minimamente o rival. Foi um jogo de equipa pequena, pelo menos no panorama europeu, que também não deve surpreender porque as limitações financeiras estão à vista de todos. Sem o técnico, Arthur, Vandinho, Silvio, Rodriguez e algum mais, o próximo ano revelar-se-á um verdadeiro desafio para António Salvador e Leonardo Jardim, o previsível herdeiro de Domingos Paciência. O que os adeptos do clube minhoto não se podem esquecer, apesar da fraca imagem deixada em Dublin, é que a campanha europeia foi, por si só, um pequeno grande milagre, talvez irrepetível, pelo menos nestas condições financeiras e desportivas.

 

Numa final que foi, pela primeira vez na história, 100% portuguesa, o Sporting de Braga ajudou a contribuir para um jogo muito ao estilo de Liga Sagres. Sem emoção, sem golpes directos, sem um ritmo intenso e com muito calculismo táctico à mistura. Espelho do futebol português actual, o Braga representa essa madurez táctica que começa a chegar aos clubes portugueses mas também esse cinismo que retira a componente espectáculo ao futebol luso. No final o conjunto bracarense tem de sair de cabeça erguida. A eles não se podia pedir mais.



Miguel Lourenço Pereira às 08:20 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 18.05.11

A conexão colombiana voltou a funcionar e serviu para o FC Porto vencer, com serviços mínimos e muitos nervos á mistura, a sua segunda Europe League. Num jogo mais disputado do que emotivo, os azuis e brancos marcaram numa das poucas ocasiões criadas e depois geriram o resultado frente a um Braga combativo mas sem ideias. Numa final muito morna, os dragões entraram para a elite das poucas equipas europeias com quatro vitórias nas provas europeias. 

Um remate á baliza em oito ocasiões dizem muito de como o FC Porto esteve longe da imagem que deixou ao longo do ano.

A equipa com instinto assassino que fez uma campanha imaculada - e que asfixiou os rivais na prova nacional - mostrou o seu lado mais inofensivo e nervoso numa final em que o Braga nunca soube aproveitar o futebol macio e pouco esclarecido dos azuis e brancos. Até ao remate de Falcao, ao minuto 44, não tinha existido nenhuma ocasião de perigo em ambas as balizas. O Braga lutava muito - e bem - mas depois, com a bola nos pés, não sabia como coordenar os movimentos ofensivos e rapidamente perdia a possessão. O Porto, que tinha mais posse de bola, não sabia o que fazer com ela quando se encontrava com uma muralha defensiva de 4+1 (um excelente Vandinho) que não dava margem de manobra ao jogo em velocidade de Hulk e Varela. O avançado Falcao asfixiava-se no miolo sem poder conectar com Guarin e o jogo adormecia a cada minuto que passava.

Era esse o plano de Domingos, especializado em adormecer o rival e aproveitar as poucas ocasiões que a sua equipa habitualmente dispõe. E parecia estar a funcionar, plenamente, quando surgiu Guarin, com um recorte sublime e um centro milimétrico que entrou o avançado mais em forma do futebol mundial. A conexão colombiana funcionou em conjunto no momento certo. E deu o único ar de classe a um jogo que esteve longe dos pergaminhos de uma final europeia.

 

Com a necessidade de arriscar o Braga não se sente cómodo mas curiosamente foi Mossoró,ao minuto 46, que teve a única oportunidade de golo do segundo tempo. Falhou, clamorosamente, e deixou a nu todas as debilidades ofensivas de uma equipa construida detrás para a frente de tal forma que a qualidade do quarteto defensivo está ainda a anos-luz da qualidade do seu tridente da frente.

O Braga tentou tudo mas com uma ineficácia assustadora. O Porto preferiu não arriscar, não acelerar, sentindo-se cómodo com a curta vantagem que tinha. Só Bellushi, que entrou de forma surpreendente para o lugar de Guarin, o melhor do Porto até então, rematou á baliza. Os demais perderam a dose de pragmatismo que deu bom nome á equipa em toda a Europa e perdeu-se em lances individuais que podiam ter tido piores consequências não fosse a inoperância atacante do Braga.No único momento em que os bracarenses podiam ter dado um passo em frente no jogo, o árbitro Velasco Carballo, autor de uma arbitragem também longe do nível máximo europeu, errou ao não expulsarSapunaru. Poderia ter oferecido um jogo diferente. Acabou por nem sequer espicaçar o orgulho dos arsenalistas. Domingos não tinha margem de manobra no banco. André Villas-Boas, suplantado tacticamente na primeira parte, preferiu não gastar todas as armas que tinha no banco. Foi tão pragmático como os jogadores e no final conseguiu o objectivo. É o mais novo treinador a vencer uma prova europeia. Está muito perto de emular a histórica tripla de Mourinho. E mostrou, talvez pela primeira vez neste ano, que também sabe ganhar sem dar espectáculo com um futebol mais cínico e calculista. Um futebol que dá, de qualquer forma, títulos. O FC Portonão esteve ao seu nivel da época 2010/11 nem sequer ao nível das três anteriores finais que ganhou. Mas não precisou de mais face a um rival que, depois de uma temporada absolutamente fantástico, se viu sem recursos para ferir um rival mais débil do que nunca.

 

O FC Porto foi um merecido vencedor da Europe League 2010/11 mais pela grande épcoa europeia que realizou do que, propriamente, pela qualidade do jogo exibido durante a final. Para o próximo ano está no lote de candidatos a surpreender na Champions League mas Villas Boas sabe, melhor do que ninguém, que a equipa tem de dar ainda muitos aspectos a melhorar. Em Bragaa festa é justa e merecida. Uma noite histórica que possivelmente nunca mais se volte a repetir mas que, pelo menos, avala um excelente projecto desportivo que ainda pode dar mais de si. Numa festa absolutamente portuguesa não houve a emoção das grandes finais europeias mas no final para vencedores e vencidos isso acabou por importar pouco. Assim é, também, o futebol! 

 



Miguel Lourenço Pereira às 22:23 | link do post | comentar | ver comentários (21)

Michel Platini instaurou um novo modelo de distribuição de finais europeias e Dublin foi uma das primeiras cidades satélite beneficiadas pela politica da UEFA de levar os grandes eventos a estádios de elite fora do circulo habitual de anfiteatros escolhidos. A capital irlandesa tem pouquíssima tradição futebolística e isso nota-se no ambiente. No relvado do Aviva Stadium estão as memórias passadas do mitico Lansdowne Road e os versos soltos perdidos de uma harpa que se ouve lá ao longe...

 

Apesar do relativo sucesso recente do futebol irlandês, que atingiu o seu pico entre 1988 e 2002, se há um país das ilhas britânicas onde o beautiful game continua a perder, claramente, para o rugby, é a Irlanda. Nenhum clube irlandês de futebol tem, sequer, a mínima tradição na competição. Ao contrário da Escócia, com um papel fundamental na definição do jogo, ou até mesmo o Pais de Gales, sempre pronto a recorrer ao velho estilo britânico em pleno século XXI, os irlandeses preferem o estoicismo do desporto que durante tantos anos partilhou tudo, menos o nome, com o futebol. Não é por acaso, aliás, que o clube com mais adeptos na ilha seja...o Celtic de Glasgow, primeiro conjunto derrotado pelo Braga na sua campanha deste ano. E clube derrotado, igualmente, pelo FC Porto na sua primeira final da Taça UEFA. Ironias do destino.

Talvez por isso não se viva um ambiente puramente futebolístico à volta do duelo derradeiro do torneio. Michel Platini, na sua guerra aos colossos do jogo, está determinado em levar as grandes finais europeias a países periféricos e sem grande tradição neste tipo de eventos. Foi assim com a Turquia, por exemplo, e volta a sê-lo com os irlandeses, país que nunca teve um clube numa eliminatória dos oitavos de final de qualquer prova europeia. No entanto o Aviva Stadium, construído por cima das cinzas do mítico Lansdowne Road, é um estádio de elite, cinco estrelas, construído para o competitivo mundo do rugby. Mas com o certificado de qualidade da UEFA. Aliás, a final disputa-se no terreno do Wanderers FC muito por culpa do estádio do Wembley. Tudo porque o rival do Aviva na disputa pela final da Europe League era o londrino Emirates Stadium. Quando a UEFA decidiu que o estádio de maior nomeada do futebol internacional, reconstruído de raiz, acolhesse a sua primeira final europeia, o recinto do Arsenal ficou automaticamente excluído por estar igualmente na capital inglesa. Sem rival, Dublin ficou com a festa.

 

52 mil lugares, um design inovador e distribuído de forma desigual – o que pode supor alguns problemas logísticos curiosos – o Aviva Stadium é detido pela federação de rugby irlandesa que compartilha o recinto com a selecção de futebol do país. Um modesto clube, o Wanderers, joga ocasionalmente os seus jogos mais significativos no estádio, mas são os duelos dos clubes mais importantes de rugby do país – bem como os confrontos do torneio das VI Nações – que dão colorido às bancadas. Com apenas um ano de vida, é um recinto sem história e magia particular, sem lembranças que envolvem os adeptos na mística do momento. Filho da politica de renovação de estádios, transformados em centros comerciais desportivos, com naming garantido para os próximos dez anos, é um estádio que não permite evocar o passado. Só a imagem da linha de comboio próximo transforma a memória e devolve, nem que por momentos, à vida, o primeiro grande ícone desportivo do desporto irlandês. Em Lansdowne Road os irlandeses viveram as suas noites mais intensas, mais apaixonantes e mais imprevisíveis.

Mais de 100 anos de duelos contra os rivais ingleses escondem muitas histórias, desde a marcha solidária de um grupo de jogadores do clube de rugby local com o exército dos Aliados durante a 1 Guerra Mundial às celebrações durante um Irlanda-Inglaterra transformadas em batalha campal dias depois do anuncio do desarmamento do IRA. Pequenos retalhos que definem a memória de um tapete tão verde com as terras da árida Irlanda e que os adeptos portugueses poderão relembrar na tensão dos momentos decisivos da primeira final da Europe League da nova década.

 

Em Dublin acabará por escrever-se, a ouro, mais uma página histórica do futebol português. Um estádio que relembra outras noites, as noites em que a selecção portuguesa superava os seus fantasmas e transformava-se numa potência europeia por direito próprio. Seja o Braga, seja o FC Porto, a festa será portuguesa, com certeza. Mas não faltará uma harpa, uma Guinness e um delírio de Samuel Beckett perdido no ar, perdido entre a eterna melancolia da bola que está prestes a entrar e que se suspende, no ar, até ao fim dos dias...



Miguel Lourenço Pereira às 13:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

As equipas conhecem-se à perfeição e repetem em Dublin os duelos mais equilibrados que viveu a Liga Sagres na época que agora chega ao fim. Domingos e Villas-Boas nutrem uma longa admiração mútua. E sabem perfeitamente como passar-se a perna. Talvez por isso o duelo de hoje no Aviva Stadium seja muito mais equilibrado do que o cartel pode deixar antever.

 

Poucas vezes teve de suar tanto o FC Porto de Villas-Boas como nos duelos contra o Braga durante esta temporada.

O triunfo na cidade dos arcebispos deu o mote para o sprint rápido rumo ao titulo, antes que a época se tornasse numa longa maratona. A vitória no jogo do Dragão cimentou uma liderança intocável desde o primeiro dia. Mas os resultados em ambos os jogos enganam. Foram duelos muito mais tensos, equilibrados e disputados que pode parecer à primeira vista. Sem uma chispa de superioridade clara, os campeões nacionais sabem que vão encontrar uma equipa que se organiza como ninguém e que deixa poucos espaços para os matadores azuis e brancos. Mais do que nunca a luta a meio-campo vai determinar o rumo do encontro mas é nos espaços que se vai decidir a final. Nos poucos que deixe o Braga e que aproveite o FC Porto e nos muitos que os bracarenses encontrarão entre a linha de meio campo e a baliza de Helton.

 

 

Defesa adiantada, armadilha preparada

 

Villas-Boas já deixou claro que jogará como sempre e isso significa arriscar.

Especialmente com uma equipa que se desdobra com rapidez e precisão cirúrgica quando tem relva para correr. A adiantada defesa de quatro já deixou mais do que um arrepio nos duelos com Sevilla e Villareal, as equipas que melhor souberam aproveitar o adiantamento do quarteto defensivo azul e branco. Mas essa defesa adiantada é, de certa forma, um risco em formato de armadilha. Villas-Boas é um técnico que prefere jogar com a bola do que explorar os espaços. Mas também tem consciência que equipas bem organizadas no seu meio-campo, como é o caso do Braga de Domingos, precisam de um incentivo para abrir brechas na muralha. Ao adiantar o quarteto defensivo o FC Porto não ganha só em pressão alta e bolas recuperadas. Como o canto da sereia, atraia os lançamentos do rival e procura descolocar as suas peças chave no miolo para depois explorar esse posicionamento ofensivo. Foi assim que começaram as vitórias contra Sevilla e Villareal e foi dessa forma que as duas equipas russas foram massacradas pelo ataque liderado por Falcao e Hulk. O brasileiro é perito em explorar esse espaço mas é o colombiano quem melhor entende esta espécie de maré defensiva, penetrando nas brechas rivais quando menos se espera. Se o Braga opta por uma defesa zonal, como é o mais provável, Falcao terá certamente mais de uma possibilidade de apanhar a defesa em contra-pé e fazer o que sabe melhor. Mas os seus golos começam onde o trabalho defensivo acaba. Rolando, Otamendi, Sapunaru e Alvaro Pereira são os principais artífices do ataque porque, como a defesa de Sacchi no AC Milan, determinam o acordeão ofensivo do FC Porto.

 

Jogo de xadrez

 

O Aviva Stadium não viverá um desses jogos que tanto apaixona os adeptos britânicos de contragolpes.

Será, sobretudo, um jogo pausado, com um ritmo próprio, o que dicte quem tem a bola. E prevê-se que será o FC Porto. Moutinho e Guarin pautaram as velocidades a que se dispute o encontro e obrigarão Mossoró e Hugo Viana a correr, mais do que a pensar o jogo de ataque do Braga. É nesse carrossel, nesse jogo de circulação, que se começará a decidir o ritmo do encontro. Varela e Hulk terão, como principal missão, abrir ao máximo a largura do campo, emulando os princípios de jogo do Barcelona de Guardiola. Não só conseguem tapar o jogo lateral do Braga, sempre perigoso nas subidas de Silvio e Miguel Garcia, mas também forçarão a defesa de quatro do Braga (que será sempre de 4+1, porque se espera um Vandinho muito recuado) a abrir-se e deixar espaços para as diagonais de Falcao. Ter a bola no pé permitirá ao FC Porto explorar as suas armas sem deixar a sua baliza demasiado exposta. Ter a bola, para o Braga, significará, sobretudo, poder respirar. Uma necessidade que certamente Domingos passará aos seus jogadores. Explorar os contra-golpes mas, sobretudo, adormecer o jogo, respirar e não correr riscos desnecessários. Afinal o Braga chegou a Dublin sem nunca marcar mais de um golo por jogo desde o duelo com o Lech Poznan. Por isso não sofrer será sempre a primeira prioridade dos minhotos que sabem que têm pela frente a dupla de ataque mais eficaz do futebol europeu.

 

Em última análise o jogo poderá ser decidido no banco de suplentes. Se houve algo que André Villas-Boas já demonstrou é a sua capacidade de mudar radicalmente um jogo pelos seus ajustes da linha de fundo. O Braga, fruto da natureza épica da sua campanha, não tem as mesmas armas e Domingos Paciência tem poucas possibilidades de acrescentar mais ao que coloque em campo desde o inicio. Mas num duelo tão equilibrado como o que se prevê, as substituições funcionarão mais na dimensão colectiva (pela reorganização táctica na terreno) do que propriamente pelos desequilíbrios individuais que possam deixar a sua marca no marcador. Mas uma final é, inevitavelmente, uma final e todos os detalhes serão fundamentais.



Miguel Lourenço Pereira às 02:45 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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