Quinta-feira, 13.02.14

Sempre que penso em Moeller-Nielsen penso em Portugal. Penso na esperança de um futuro, não melhor. Mais feliz. Depois de uma década com uma selecção maravilhosa, viciada nas derrotas inesperadas, os dinamarqueses encontraram em Møller Nielsen o antidoto para a depressão. Foram campeões da Europa e não se perguntaram como e porquê. Não fazia falta. Depois de uma geração dourada pode sempre haver ouro. É preciso é saber como encontrá-lo.

Lembro-me de cada jogo do Euro 92. Consumi o torneio até à exaustão possível.

Caderneta de cromos completa (para quem não se lembra, a caderneta incluía a Jugoslávia), vídeo sempre preparado para gravar jogos, resumos e uma bola esfarrapada, destinada a ser chutada da mesma forma que as estrelas golpeavam debaixo do estranho sol sueco o esférico oficial do torneio. Lembro-me de tudo e no entanto, lembro-me pouco da Dinamarca. A razão é simples e prosaica. Não eram uma equipa para recordar. Jogavam pelo seguro, com quatro defesas duros, cinco médios rápidos e correctos e Brian Laudrup, livre de ataduras tácticas, só na frente. Sim, Brian. Os que adoravam a ideia de um triunfo dinamarquês faziam-no, seguramente, porque tinham na retina a mítica Danish Dynamite. Os anos dourados de Elkjaer, Simonsen, Lerby, Molby, os irmãos Olsen...e Michael Laudrup. Mas o maior génio da história do futebol nórdico não estava lá. Tinha preferido ficar na praia onde o resto da equipa se preparava para descansar depois de uma dura temporada. A suspensão da Jugoslávia, acabada de entrar em guerra, abriu uma vaga surpreendente para os dinamarqueses. Laudrup, que não suportava os métodos de Moeller-Nielsen, preferiu retirar-se temporalmente. Já imaginava um destino similar ao dos torneios anteriores. Enganou-se. Sem ele (também porque jogavam sem ele) os dinamarqueses sobreviveram a uma fase de grupos soporífera com a pior versão de sempre das selecções inglesa e francesa numa competição oficial. Apuraram-se como segundos, atrás dos anfitriões, aguentaram a soberba holandesa até ao penalties e confiaram tudo às mãos gigantes de Peter Schmeichel. Quando os alemães deram conta, já tinham perdido uma final que a Dinamarca não podia ganhar. Mas que tinha ganho. Moeller-Nielsen, o homem que atirou o futebol dinamarquês vinte anos atrás no tempo, foi coroado rei de Copenhague. O mundo ao contrário.

 

Se alguém pergunta a um adepto de futebol neutral com algum conhecimento da história do jogo quem foi o treinador mais importante da história do futebol dinamarquês, a resposta sai fácil. Sepp Piontek, alemão de nascimento, pegou num país onde o futebol era um desporto quase amador e transformou-o numa das maiores potências do continente europeu. Durante dez anos a Danish Dynamite fez o mundo sonhar. Mas um dinamarquês poderá ter outra resposta na ponta da língua. Poderá dizer que, para eles, esse homem foi Richard Moeller-Nielsen. O que faz uma vitória.

Nielsen era um treinador cinzento, sem grande inspiração. Apostava, sobretudo, na organização táctica do sector defensivo como pedra de toque das suas equipas. Era um homem precavido. Defender primeiro, atacar depois e com o menor número de toques a ser possível. Era um dos seguidores da escola britânica que tinha conquistado a Escandinávia nos anos setenta, entrando pela Suécia e chegando rapidamente até aos vizinhos noruegueses e dinamarqueses. A sua etapa ao comando da selecção dinamarquesa provou ser o apogeu dessa corrente. Foi durante esses anos que a Noruega chegou a ocupar o primeiro posto do ranking FIFA, participando em dois Mundiais consecutivos. E que a Suécia, depois de três décadas cinzentas, chegou a duas meias-finais de competições internacionais. Era o renascimento do futebol nórdico a partir de um ideário táctico e emocional em tudo distinto ao que celebrizou os dinamarqueses dos anos oitenta. Mas compensava. Com dois títulos - o Euro 92 e a Taça das Confederações de 1995 - Moeller-Nielsen deu ao povo dinamarquês o que nunca tinham tido: sucesso. A "Geração Dourada" tinha ficado presa na nostalgia romântica dos anos 80. Eram bons, muito bons. Tinham o apoio dos adeptos neutrais internacionais. Mas não sabiam ganhar. De repente, uma geração repleta de ilustres desconhecidos, onde o jovem Laudrup, Kim Vilfort e Schmeichel eram as figuras de proa, aparece do nada e a partir da ordem, da organização defensiva e do trabalho colectivo começam a ganhar. Uma redenção emocional como houve poucas na história do futebol mundial. A eliminação na fase de qualificação para o Mundial de 1994 (uma derrota em Sevilha com a Espanha, a besta negra dos dinamarqueses) e um pobre Euro 96 (graças, a entre outros, a cabeça de Sá Pinto) acabaram com o reinado de Moeller-Nielsen. A sua carreira caiu em picado porque a sua fórmula era limitada, pouco inspiradora e estava datada. Com um ar mais ofensivo, com Laudrup de novo ao leme, os dinamarqueses realizaram um brilhante Mundial de 1998 e qualificaram-se para os quatro torneios seguintes. Mas o seu papel na história não pode ser esquecido. E serve de aviso. Principalmente para países como Portugal.

 

Eternos derrotados, os portugueses já sofreram o fim de três "Gerações de Ouro". Aconteceu no pós-66, no pós-86 e depois de 2006, quando ficou evidente que nem a união do melhor dos meninos de Riade e da Luz com o FC Porto de Mourinho e a aparição de Cristiano Ronaldo era suficiente para apagar as mágoas. Para muitos adeptos a sentença final estava dada. Se nem com esta equipa a selecção portuguesa vencia, nunca seria a hora. Mas talvez isso fosse o que pensavam os dinamarqueses. Antes de 1992, antes de Moeller-Nielsen. Ele é o exemplo perfeito de que um treinador sem chama nem brilho pode encontrar um atalho para o sucesso pelas vias mais inesperadas. Provavelmente, no futuro, ninguém se lembre dele em comparação com o romantismo da geração anterior. Mas no livro de história só há um selecionador dinamarquês campeão da Europa. E é ele. O homem que hoje nos deixou para sempre e cujo o legado será sempre analisado com a suspeita de quem não se lembra sequer de se o seu cromo aparecia na colecção oficial!



Miguel Lourenço Pereira às 18:07 | link do post | comentar

Quinta-feira, 21.01.10

O futebol é um desporto de semi-deuses mas nunca nenhum deles mostrou ser omnipresente. Até que chegou Soren Lerby. Na mágica Danish Dynamite que maravilhou o futebol da década de 80 havia vários génios. O inconstante e cerebral Laudrup, o velocista Simmonsen e o eterno fumador Elkjaer Larsen. Mas nunca nenhum dos três logrou o feito histórico do mitico Soren Lerby. No mesmo dia Lerby provou ser omnipresente.

 

Os registos do mundo do futebol estão repletos de episódios curiosos, daqueles que passam ao lado dos mais distraidos. Na vida de Lerby há vários episódios assim. O médio dinamarquês foi um verdadeiro enfant-terrible numa era onde aos jogadores ainda era permitido muito pouco. Membro estelar de uma geração histórica do futebol dinamarquês - e europeu - Lerby era especial.

No caracter, no estilo de jogo e na determinação. Foram essas as principais caracteristicas que o celebrizaram no campo. E fora dele. Lerby nunca virava as costas a um desafio e tinha um espirito competitivo inimitável. Passou a adolescência a jogar em pequenos clubes amadores dinamarqueses numa era onde o profissionalismo ainda era quase uma ilusão. Quando Allan Simonsen começou a ganhar fama internacional as equipas europeias voltaram-se para o mercado nórdico. Numa das viagens dos seus olheiros, o Ajax descubriu o jovem e recrutou-o com apenas 17 anos para a sua equipa principal. O médio actuou pelo conjunto ajaccied durante oito largas épocas onde venceu cinco títulos e foi eleito capitão de equipa, antes de se mudar para o poderoso Bayern Munchen. Foi em 1983 e rapidamente se tornou pedra basilar do conjunto bávaro. Por essa altura já era o peso e medida do meio-campo da Danish Dynamite de Sepp Piotnek. E foi a sentir-se dividido entre dois compromissos inadiáveis com o seu clube e selecção que Lerby fez história.

 

O feito que o faz ser recordado ainda hoje teve lugar num chuvoso 13 de Novembro de 1985.

O futebol europeu não tinha ainda a mesma estructura organizativa de hoje e era muito comum haver jogos de distintas competições no mesmo dia. Isso implicava um problema para as equipas e jogadores que eram forçados a escolher entre manter-se fiel à sua selecção ou seguir com o clube que lhes pagava o salário. A maioria assinava acordos entre a federação e clube. Lerby não o fez. O seu caracter impedia-o de optar. Nesse dia Lerby tinha dois compromissos e estava determinado a não faltar a nenhum deles. E portanto, logrou o impossível. Tornou-se omnipresente.

Às 12h00 da manhã apresentou-se com os seus restantes colegas no relvado de Dublin. A Dinamarca visitava a Irlanda e o jogo era decisivo para confirmar o apuramento dinamarquês para o Mundial, pela primeira vez na sua história. Lerby juntou-se aos seus colegas e tomou parte na histórica vitória por 1-4. Com o terceiro golo dinamarquês, dez minutos depois do intervalo, o médio pediu a substituição. Foi ao minuto 58. Sem tomar banho saiu imediatamente do estádio com um motorista privado que o levou ao aeroporto da cidade onde o esperava um jacto privado fretado pelo Bayern Munchen. O avião levou-o até Bochum onde o clube bávaro disputava uma eliminatória da Taça da Alemanha. Depois de aterrar o avião o jogador rumou ao estádio. Chegou aos 35 minutos de jogo decorridos. Ao intervalo foi lançado para o relvado e ajudou o Bayern a empatar, depois de ter começado a perder. Tinha acabado de fazer história. O primeiro futebolista a actuar, no mesmo dia, por duas equipas diferentes, em países diferentes e competições diferentes. Omnipresente.

 

A carreira de Soren Lerby foi mágica. Depois da era bávara, o médio viajou até França onde actuou pelo AS Monaco. Atraido pelo estilo de vida de playboy da capital monegasca o médio passou apenas uma temporada na Ligue 1 antes de voltar à Holanda onde assinou pelo PSV. Esteve na final da Taça dos Campeões Europeus que os holandeses bateram o SL Benfica antes de se retirar com o ouro europeu ao pescoço. Atrás de si deixou um registo notável de 67 internacionalizações, um Mundial, dois Europeus e 1 Taça dos Campeões, para além das vitórias nas ligas holandesas e alemãs. Mas com o passar do tempo os titulos foram caindo no esquecimento. Mas que um dia Lerby tenha desafiado o tempo e espaço, isso é uma recordação que não tem preço.



Miguel Lourenço Pereira às 02:43 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 30.05.09

Antes da explosão da Danish Dynamite nos anos 80 pela mãos de dois génios imensos de nome Michael Laudrup e Preben Elkjaer Larsen, já o futebol dinamarquês tinha tido um verdadeiro génio, um voador de primeiro nível que se tornou no primeiro atleta nórdico a conquistar um Ballon D´Or. Espelho de uma brilhante carreira ligada ao melhor do futebol disputado em Espanha e na Alemanha entre os anos 70 e prinicipios da década de 80. Os mais veteranos reconhecem o olhar sério, os mais novos surpreender-se-iam com a capacidade fisica e técnica apurada de um génio chamado Allan Simonsen

Simonsen não era o protótipo do atleta nórdico. Relativamente baixo (não chegava ao 1m65) e sem grande porte atlético, era mais uma gazela do que um desses ursos que davam o rosto pela poderosa selecção sueca, a mais destacada equipa do norte Europeu dos anos 70. Nascido em 1952 em Vejle, Simonsen demorou a explodir numa época onde para um jogador sair do país Natal era bem mais complexo do que se pode supor hoje em dia, neste meio cada vez mais globalizado. Foi no clube da terra o Vejle FC, que em 1971, aos 19 anos, se tornou profissional. Simonsen jogava pela ala direita, mas várias vezes percorria todo o campo, como um nobre vagabundo de invulgar corte senhorial. O seu impacto foi tal que quebrou todas as regras da época e com 20 anos assinou contrato com o poderoso Borussia Monchenladgbach da RF Alemanha. A equipa germânica queria colocar um travão na ascensão meteórica do Bayern Munchen de Beckambauer e Muller e juntou uma série de jovens jogadores talentosos que eram tudo o que os letais homens da Baviera não eram. Desse Borussia falou-se como os poetas do futebol alemão e nenhum deles atingiu tanto a genialidade como o dinamarquês. Durante três anos (1975 a 1977) o clube de Monchenladgbach venceu a Bundesliga, conquistando ainda uma taça. Para além disso exibiu-se em grande nas provas europeias vencendo em 1975 e 1979 a Taça UEFA. Em 1977 o extremo venceu o Ballon D´Or, diante de nomes ilustres como Keegan, Cruyff ou Beckhambauer. Era o consagrar definitivo do seu génio intemporal.

 A vida corria bem a Simonsen até que em 1979, na ressaca de mais uma prova europeia ganha, o Barcelona apareceu e contratou-o para atacar o titulo espanhol, que há vários anos se lhe escapava. Ao seu lado a equipa catalã contava ainda com Hans Krankl, possante avançado austriaco, Bernd Schuster, médio irrascivel germanico, e os espanhois Quini, Carrasco e Urruti. Simonsen encaixou que nem uma luva no belo futebol blaugrana mas os titulos acabaram por não chegar. Numa era dominada pelos clubes bascos (a Real Sociedad primeiro, e o Athletic Bilbao depois) o Barcelona ficou sempre ás portas da glória, tendo de contentar-se com uma Taça do Rei, em 1981, e a Taça das Taças de 1982 onde foi o heroi do encontro com um golo e uma assistência. No final da temporada seguinte, já com 29 anos, Simonsen foi forçado a abandonar o Camp Nou devido à chegada do astro argentino Diego Maradona. Numa época onde os planteis só podiam ter três estrangeiros, a direcção do clube catalão ainda tentou mudar a lei e quando a possibilidade falhou propôs ao dinamarquês ficar no banco, à espera da lesão de um dos três estrangeiros. Simonsen recusou. Passou primeiro pela liga inglesa, ao jogar pelo Charlotn Athletic até que voltou ás origens, terminando a carreira no Vejle FC tendo ainda logrado a participação nas espantosas campanhas da selecção do seu país no Euro 84 e Mundial 86, mas por essa altura já não era ele a estrela da companhia.

 

Simonsen deixou em 1989 os relvados e começou a carreira como treinador, orientando selecções de pequena dimensão como as Ilhas Faroes e o Luxemburgo e vários clubes dinamarqueses. Ainda hoje é um idolo no país natal e pode gabar-se de ter sido o único atleta a marcar golos nas três finais europeias (Taça dos Campões, Taça das Taças e Taça UEFA) e ainda o único nórdico a triunfar no Ballon D´Or, algo que os compatriotas Michael Laudrup, Peter Schemeichel e Elkjaer Larsen, bem mais conhecidos do grande público, nunca lograram. Um verdadeiro génio que o tempo não esquece.



Miguel Lourenço Pereira às 16:27 | link do post | comentar

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