Quarta-feira, 04.12.13

O caso Ghilas nem é novo, nem é mais ou menos grave do que se tem vivido em Portugal. É apenas o sintoma mais claro que a situação não mudou uma só virgula. Portugal continua a ser pasto de corrupção, negócios paralelos, administrações mais interessadas no lucro pessoal que no sucesso colectivo. Um circo controlado por uma oligarquia de poder que arrancou a alma do jogo em Portugal.

 

Ghilas é um avançado muito interessante.

Chegou sem fazer ruído ao modesto Moreirense. Durante dois anos apresentou-se como uma alternativa real aos dianteiros mais populares da liga. Marcava, dava a marcava e fazia trinta por uma linha para evitar o inevitável. Não o conseguiu. O Moreirense acabou despromovido e o argelino, internacional pelo seu país, condenado a continuar a sua carreira no futebol secundário ou noutras paragens. Em Moreira de Cónegos marcou 15 golos em 45 jogos, uma média de 1 golo por cada 3 jogos, nada absolutamente brilhante. Mas o seu nome estava na lista de várias direcções desportivas. Quando chegaram à pequena localidade nortenha, esbarraram com uma cláusula de 3 milhões de euros que o clube não estava disposto a baixar. Curioso. Afinal, o orçamento anual da equipa axadrezada ronda esse valor, o clube ia ser despromovido e precisava de dinheiro como de pão para a boca. Nestes casos negoceia-se, regateia-se. Nunca se paga a cláusula. Nem em Portugal nem em nenhum outro país do Mundo. Mas de certa forma os dirigentes do Moreirense fizeram-se fortes e bateram o pé. Tinham um ás na manga. E que ás.

No Verão apareceu em cena o FC Porto.

A equipa azul-e-branca, com novo treinador e nova filosofia, queria uma alternativa ao colombiano Jackson Martinez. Tinham passado dois anos sem ter um avançado suplente de nível (nem Kléber nem Liedson o foram) e face à tranquila evolução do paraguaio Mauro Caballero e do português André Silva, era preciso ter um nome com alguns créditos firmados para render o "cafetero" e, talvez, preparar a sua sucessão. A escolha parecia perfeita, os adeptos aplaudiram, o negócio concretizou-se. Mas não se falaram em números e todos assumiram que o preço do jogador tinha andado à volta dos valores da sua cláusula. Provavelmente o mastodonte dragão tinha feito os dirigentes do pequeno Moreirense entrar em razão. Estavam tão enganados.

O Relatório de Contas oficial do clube, divulgado esta semana, conta uma história bem diferente. O FC Porto não rebaixou as pretensões do clube nortenho. Ultrapassou-as. Em lugar dos 3 milhões de euros, decidiu pagar 3,8 milhões. Um valor que, como aparece detalhado, nem sequer inclui as famosas comissões e direitos de imagem - esses aparecem num apartado à parte que ronda os 2 milhões, misturados com o negócio de Quintero. O mais grave, talvez, foi que esses 3,8 milhões - que já de por si ultrapassam largamente o máximo legal que o clube teria de pagar - são apenas por metade do passe do franco-argelino. 50% de Ghilas vale 4 milhões de euros. O avançado do modesto Moreirense é o avançado mais caro de todos os tempos do futebol em Portugal num clube fora dos três grandes. Vale 8 milhões de euros. Um valor que empalidece os de Éder, Lima, Hugo Almeida e que se aproxima mais aos de Jackson e Cardozo. Espantoso!

 

Este é o retrato do futebol português.

Parece mais do que evidente - basta ver como está o clube nortenho - que o Moreirense não recebeu 3,8 milhões por Ghilas.

O dinheiro pode nem sequer ter sido movido. Entre agentes, dirigentes e fundos desportivos montou-se nos últimos anos uma teia de negócios onde os números publicados raramente se aproximam dos que estão sobre a mesa. Muito desse dinheiro move-se por debaixo da mesma. Outro, pura e simplesmente, permanece no sitio para maquilhar contas. Os clubes devem-se uns aos outros, os agentes e fundos alimentam o jogo de especulação e os adeptos limitam-se a baixar a cabeça em resignação. No Porto, trinta anos de sucesso desportivo de Pinto da Costa serviu para amordaçar a consciência de muitos adeptos e sócios do clube perante situações como esta. Ghilas nem é o primeiro caso nem será seguramente o último. Faz parte de uma linhagem de negócios tão mal explicados que surpreende como é que há tão pouca gente a colocar o dedo na ferida. Em Lisboa, o cenário não é diferente.

O Benfica tem-se especializado em imitar a gestão do FC Porto nesse sentido e a sua associação com um fundo especial tem ajudado a maquilhar contas com compras e vendas fantásticas, jogadores que aparecem e desaparecem dos quadros do clube conforme dá jeito e compras que se transformam em empréstimos para acabar em dispensas sem que os adeptos encarnados entendam como é que todos os anos o plantel muda, o dinheiro é gasto e a falência técnica ainda não é uma realidade.

Ghilas ou Roberto, nomes próprios para casos concretos mas generalizáveis. Movem-se cifras impossíveis para a realidade social do futebol português. E por jogadores cujo valor em campo está a anos-luz dessa etiqueta que clubes e agentes decidiram colar. Aos adeptos vende-se a obrigatoriedade de ceder moralidade face aos tempos modernos para sobreviver. Mas sobreviver onde?

Nos últimos anos têm sido várias as vozes que sancionam o uso de fundos e de agentes como a única ferramenta que Portugal tem para se manter competitivo na Europa do futebol. Seguramente que essa noção de competitividade é discutível. Afinal as exibições desta temporada (e da do ano passado) na Champions League dão sinal de tudo menos de competitividade. Clubes de ligas periféricas como a Bélgica, Grécia, Áustria, Chipre ou Escócia têm sido capazes de vencer ou roubar pontos aos dois grandes portugueses. Na Europa League a situação é exactamente a mesma. Portanto, seja para o que for, o uso recorrente de fundos para inflacionar transferências, salários e comissões não é o que o futebol português precisa para ser competitivo. Porque o modelo não está a funcionar. Qual é a alternativa se os resultados já são maus suficientes assim?

Para clubes com passivos na ordem dos 200 ou 400 milhões de euros, gastar todos os anos entre 30 a 40 milhões em jogadores é algo incomportável e impossível de entender. A não ser que os dirigentes dos clubes não se preocupem com o futuro e consigam encontrar algo de rentabilidade no momento. Muitos deles podem até estar associados, indirectamente, aos mesmos agentes que movem jogadores a valores que não se praticam em mais nenhuma liga europeia a não ser por clubes que são detidos por grandes fortunas. Herrera, Reyes, Quintero, Ghilas, Markovic, Djuricic, Fejsa e Lisandro só podiam ter sido pagos pelos valores que são pagos em Portugal. Analisando jogadores do mesmo perfil noutras ligas - financeiramente mais fortes, sociedades mais desenvolvidas - e ninguém encontra essa soma de quase 60 milhões de euros em oito jogadores quase adolescentes sem nada demonstrado.

Claro que há outro caminho. Mas os comentadores, dirigentes e alguns opinion-makers colocados pelos clubes em espaços de reflexão dirão que não. Que o futebol português precisa destes fundos, destes agentes e destes jogadores se quer seguir no caminho certo. Fazem lembrar as empresas que nos dizem que sem um GPS não podemos conduzir, esquecendo-se de que o prazer da condução muitas vezes está em seguir pela estrada fora sem ter um "grilo falante" a dizer-nos o que fazer. Esse grilo afastou o futebol português da sua essência e entregou-o a uma meia dúzia de personagens que tem sido responsável directa pela sua decadência e que enquanto se encontrar em situações de poder perpetuará as suas acções. O dinheiro gasto (mal) nestes e noutros negócios (e o que desaparece, sobretudo) poderia ter abatido passivos, reforçado a formação, servido para baixar o preço de entradas para levar adeptos ao estádio ou para pagar museus sem recorrer a financiamentos de empresas estrangeiras. Poderia ter sido utilizado em reduzir o custo do merchandising, para criar iniciativas de conexão com a sociedade local ou para reforçar a massa salarial dos melhores jogadores para evitar a sua venda. Mas sem venda não há comissões. Sem preços de entradas altas os adeptos nos estádios poderiam ser mais humildes e mais exigentes do que os que encaram hoje o futebol como uma ópera a céu aberto. E poderiam começar a fazer-se mais perguntas para as quais as respostas são como as salsichas. O FC Porto gastou 30 milhões em quatro jogadores que não ofereceram nada à equipa mas deram muito a quem a gere. O Benfica e a sua armada sérvia (e algum sul-americano que chega e parte sem dizer olá) está na mesma situação. Começa a ser hora que as rivalidades desportivas entre adeptos sejam postas de parte e que alguém pare o jogo e comece a indagar e a fazer as perguntas que alguns têm medo de ouvir!



Miguel Lourenço Pereira às 11:21 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sexta-feira, 30.08.13

Depois de todos terem já assumido que o Mundial 2022 foi comprado pelos potentados do Golfo, a pandilha de Joseph Blatter, Michel Platini e companhia querem agora dar a volta ao prometido e transformar o primeiro mundial no Médio Oriente num torneio disputado no Inverno, rompendo com 90 anos de história. Uma decisão desastrosa que, a cumprir-se, é a estocada definitiva a tudo aquilo que o futebol representa às mãos da mesma elite corporativo que minou a sociedade ocidental noutros sectores, sempre por um preço.

 

Eu sei que os meus amigos sul-americanos sempre se queixam - e com a sua dose de razão - que para eles o Mundial é um evento invernal.

Interrompe o seu calendário desportivo, despoja as suas equipas de jogadores enquanto os torneios prosseguem o seu ritmo. Para eles, ao contrário do espectador europeu, asiático e norte-americano, o Mundial não é sinónimo de sol, bom tempo, praia, dias largos e perfume de Verão. Da mesma forma que o nosso Carnaval é frio e chuvoso, os seus Mundiais são o prelúdio do duro Inverno. Será assim em 2014 para todos, um torneio no Inverno do hemisfério sul.

No entanto, a tradição ainda é (ou devia ser) o que era e os Campeonatos do Mundo são torneios do mês de Junho, do final da época europeia, do Verão do hemisfério norte, onde tudo se começou a idealizar e a cozer. Foi assim durante noventa largos anos e com a presença massiva dos internacionais dos restantes continentes nas ligas europeias, mais sentido faz ainda. Aliás, são os sul-americanos que começam a debater a possibilidade de se unirem ao calendário europeu e não o oposto. Agora o que a FIFA - e a sua tropa, que inclui a UEFA de Platini, delfim de Blatter desde os anos 90 - nos quer vender é a obrigatoriedade de disputar um Mundial no Inverno no hemisfério norte. Ao contrário da proposta que ganhou (comprou?) a votação, a de um torneio realizado em Junho de 2022 nesse grande país que é o Qatar.

Uma jogada corporativa para estilhaçar ainda mais a natureza do beautiful game.

 

A equação é fácil.

O Mundial é vendido ao melhor postor sob um pressuposto inviável. Já o era na altura da votação e os que deram o seu voto favorável - como Platini - pareceram não ter problemas. De repente lembram-se que a temperatura em Junho no Médio Oriente é imprópria para passear o cão, já para não falar em desportos de alta competição. Falam-se em estádios que se auto-refrigeram, campos fechados, etc, mostrando uma vez mais o total desrespeito que o adepto que se desloca é habitualmente tratado por estas organizações que têm como máxima "For the good of the game".

Até que alguém sugere, e porque não no Inverno? E todos começam a dizer que sim, que é melhor, que faz sentido, que não há problema nenhum, é só ajustar esta data aqui, esta ali, e zás. O dinheiro mantém-se nos seus bolsos, o calor desaparece e todos contentes. Todos?

A FIFA - que já tem preparado um calendário catastrófico para o Mundial 2014, com deslocações gigantescas por todo o Brasil que vão destroçar as ambições dos mais apaixonados dos adeptos - diz que só precisa de cinco semanas para reajustar os calendários europeus. Mente. Como sempre.

O Mundial é um torneio que dura, exactamente, um mês (quatro semanas).

As selecções concentram-se quinze dias antes da prova (duas semanas) para prepararem-se para a competição, adaptar-se às condições climatéricas, etc. Quando o torneio acaba, devido ao seu grau de exigência, os jogadores necessitam de descanso, como mínimo uma semana e meia, antes de se voltarem a incorporar. Os vencedores também têm direito a celebrar, a que há que juntar a esse prazo mais meia semana, como mínimo. No total estamos a falar de oito semanas. Dois meses. Dois meses em que o Mundo para para a FIFA cobrar o seu envelope dourado. Quando isso sucede, em Junho, a época acabou. Os jogadores saem do torneio para férias, os não-convocados já estão a desfrutar do seu período de descanso e tudo faz sentido. Agora imagem que no dia 30 de Outubro a época, que começou dois meses antes, para. E que só recomeça a 1 de Janeiro. Durante esses dois meses disputam-se habitualmente 4 rondas europeias, 10 jornadas das principais ligas, eliminatórias de taças, o Mundial de Clubes. E tudo isso seria adiado por causa de um favor?

A maioria dos presentes no Mundial celebra o Natal. Estarão dispostos a passar esse período encerrados num hotel num país muçulmano? E os adeptos, poderiam viajar nesse período do ano durante quinze dias para um país que é tudo menos amigo dos estrangeiros que não cheguem em jets privados ou carros desportivos? A temporada acabaria com uma final da Champions League a meados de Julho? O desgaste físico dos jogadores de elite - que podia provocar uma lesão grave, capaz de destruir uma carreira - permitir-lhes-á estarem presentes nos momentos decisivos da temporada?

Ao adepto estão a destruir-lhe o jogo. Pequenos mas importantes detalhes como este apenas o confirma. O Mundial no Inverno significa mais do que um ano perdido para o futebol no continente europeu (e que afecta os restantes continentes pela massiva presença de jogadores africanos, americanos e asiáticos nas ligas europeias). Condicionará as épocas anteriores e posteriores, a carreira dos jogadores, as ilusões dos adeptos. Tudo por um punhado de dólares. A tradição ainda vale muito. O que cada vez vale menos é a moral de quem organiza o jogo.

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:41 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 28.03.12

Quando era jogador nunca foi um exemplo fora do campo e nunca deixou de ser um génio dentro dele. Negou-se a treinar com a anuência de Cruyff, chegou de helicópetro ás concentrações, disputou a soco o titulo de "bad boy" do futebol brasileiro com Edmundo e passou tantas horas no ginásio como em festas em favelas e hotéis de luxo de Copacabana. Com todo esse historial nas costas era dificil imaginar o que viria a passar mas Romário está decidido a salvar o futebol brasileiro.

Era dificil de acreditar mas Ricardo Teixeira encontrou finalmente a sua nemésis.

O enteado de João Havelange, talvez o pior dos directivos de quem falava Juca Kfouri quando dizia que Deus deu ao Brasil os melhores jogadores e piores dirigentes do Mundo, foi forçado a sair finalmente do seu trono sagrado na CBF. A pressão da investigação jornalista da equipa de Andrew Jennings e do próprio Kfouri, a inimistade com Dilma Roussef foram elementos fundamentais na sua saida. Mas quem deu o tiro de graça foi Romário. 

O "Baixinho" foi o herói de um futebol brasileiro orfão de lideres depois da debacle emocional do Mundial de 90 quando a nostalgia do futebol arte da geração de Telé Santana já era um longo adeus. O país perdoou-lhe tudo. A sua indisciplina crónica, a sua falta de profissionalismo absoluta, os casos com as mulheres, as discussões com os colegas e os rivais, as suas amizades com alguns dos traficantes mais perigosos do Rio de Janeiro e, sobretudo, do seu ódio crónico á imagem sagrada de Pelé. Em troca Romário deu-lhes o melhor futebol que o país viu nas eras entre Zico e Ronaldo. Terminou com a seca de 24 anos sem vencer um Mundial de Futebol, nuclear na campanha dos Estados Unidos em campo e fora dele. Tornou-se no terceiro maior goleador da história do país, apenas atrás do "Rei" e de Friedenreich, por muito que muitos dos golos fossem abertamente questionados por todos. Passou pela Europa onde se doutorou com Cruyff e enimistou com Robson, Ranieri e Aragonés voltou ao Brasil como semi-deus. Depois fez-se politico. As más linguas, e no Brasil a má lingua é um desporto nacional como jogador futvoléi nas suas praias perfeitas, diziam que a sua carreira politica, como a de muitos nomes ligados ao futebol, era apenas uma forma de se proteger face aos problemas fiscais que há anos o enfrentavam a Brasilia. Provavelmente teriam razão mas na capital artificial do gigante sul-americano Romário transformou-se, como Pelé, no rosto mais claro de oposição á CBF. O histórico avançado do Santos não teve o poder politico e mediático para vencer a luta com Teixeira e num último acto de desprezo o ex-presidente da Confederação recusou-se a convidá-lo para a cerimónia de apresentação da fase de apuramento para o Mundial de 2014. Mas com Romário, o homem que viveu com ele um dos episódios mais tristes da história da CBF na ressaca do Mundial dos EUA, não encontrou forma de vencer.

 

As criticas do "Baixinho" começaram por centrar-se na organização do Mundial.

Romário utilizou o seu lugar em Brasilia e o seu poder nas redes sociais para atacar violentamente a organização do torneio. Um torneio onde todos, incluido o próprio Sepp Blatter (que aprovou em 2000 a rotatividade de continentes também a pedido expresso de Teixeira),  começam a termais dúvidas do que certezas. As obras levam um atraso histórico, há ainda sérios problemas de financiação com estádios e infra-estruturas, aeroportos e estradas por construir e um pais com uma tremenda pujança financeira que começa a questionar-se, na pessoa da sua nova presidente, se gastar tanto dinheiro para enriquecer a FIFA - da qual Teixeira continua a ser membro honorário - é realmente um bom investimento. 

Das criticas ao torneio - que a imprensa brasileira apoia entusiasticamente- o ex-dianteiro apontou baterias a Teixeira. Criticou a sua gestão de mais de duas décadas, a profunda desorganização do futebol nacional no Brasil, o mitico e polémico contrato com a empresa americana Nike e, sobretudo, o investimento paralelo que pode fazer valer a Teixeira e alguns dos seus principais colaboradores contratos milionários com a própria FIFA. O mano a mano durou meses e inicialmente Teixeira, habituado a ser desafiado por tudo e todos, se mostrou condescendente. Aceitou colaborar com o avançado na sua campanha a fazer dos que padecem de sindrome de Down (como uma das filhas de Romário), declarando um investimento de 32 milhões de reais e uma série de bilhetes gratuitos para as organizações patrocinadas pelo deputado. Mas não chegou. No final o cerco mediático organizado por Romário deu ainda mais destaque ás revelações da Folha de São Paulo sobre os seus negócios paralelos. A má performance do Brasil em campo, as queixas de corrupção secundadas pela procuradoria geral e a perda de apoio na FIFA obrigou Teixeira a ceder o seu posto ao seu braço-direito, José Maria Marin. O novo dirigente não só garantiu que a filha do seu antecessor, directiva na CBF, iria manter-se no cargo onde foi colocada pelo pai, como garantiria uma reforma milionário para o ex-presidente até 2030.

Os que pensavam que a luta de Romário era apenas com Teixeira ficaram surpreendidos quando o homen do PSB-RJ anunciou que continuaria o seu combate até limpar a CBF de todo o rastro de "teixeirismo", declarando publicamente o apoio a Ronaldo Nazário como eventual candidato presidencial para a federação brasileira de futebol, no próximo ano.

 

Com a reeleição praticamente garantida, Romário emulou Pelé em campo e fora dele. Nos anos 90 o histórico jogador brasileiro desafiou os poderes da CBF com a lei que levou o seu nome e que tinha como objectivo reformular totalmente o mais caótico campeonato do Mundo. O poder do lobby da CBF no Senado destroçou uma lei prometedora. Passados quase 15 anos outro homem de 1000 golos prepara-se para continuar a luta para salvar o seu futebol. Entre festas, jogos de futvolei em Copacabana e sessões do Senado, o "Baixinho" revelou-se ser maior que a sua própria lenda. Os cartolas do futebol brasileiro que se cuidem...



Miguel Lourenço Pereira às 23:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 01.09.11

Fechou o mercado de transferências (até Janeiro) e agora as águas turvas do mundo do futebol vão acalmar por uns tempos. Foi uma azáfama, uma corrida contra o relógio até à meia noite que deixou alguns negócios surpresas e muitas, muitas dúvidas (ou certezas) sobre como anda o desporto-rei. Começa a ser cada vez mais evidente que a total liberalização do mercado de transferências abriu caminho a um amplio submundo de dinheiro negro, sujo, escondido que o grande público não vê por detrás de negócios hilariantes e sem nenhum sentido desportivo. Portugal continua a ser um exemplo perfeito de como mexer no mercado por todos os motivos, menos pelo jogo em si, mas não é caso único. Sob a inoperância das grandes organizações directivas poucos se atrevem a dizer que... o rei vai nu!

Sempre houve negócios sujos e estranhos nos mercados de transferência, com luvas por debaixo da mesa e comissões por declarar.

Mas o que se viveu este Verão, e nos últimos porque isto vai in crescendo, reforça a teoria de muitos de que o mundo do futebol é cada vez mais um mundo tão perigoso e suspeito como o de qualquer actividade ilegal perseguida e vigiada pelas autoridades policiais. No livro Pay as Yoy Play, um grupo de estudiosos ingleses analisa as contratações nos últimos 20 anos da Premier League e chega a essa conclusão: hoje, uma transferência, é cada vez menos um negócio desportivo e, cada vez mais, uma forma hábil de lavar dinheiro, pagar favores e ganhar influência.

Portugal continua a ser um paraíso de corruptos, seguindo a tradição mediterrânica que se estende por Itália, Grécia, Turquia e Espanha, e como paraíso de corruptos que é, de Norte a Sul, o futebol continua a ser uma arena perfeita para negociar por debaixo da mesa o que ainda é ilegal às claras. Só isso pode explicar mais de uma dúzia de negócios realizados à última hora por parte dos grandes clubes lusos - os pequenos limitam-se a copiar, em menor escala, o que vêm funcionar nos graúdos - que encontraram em agentes FIFA - nomeadamente o todo poderoso Jorge Mendes - e em clubes aliados por essa Europa fora, parceiros idóneos para maquilhar contas, pagar velhos favores, ganhar novos amigos e, sobretudo, agradar a quem realmente manda hoje em dia no mundo do futebol: os empresários desportivos.

Granada, Zaragoza e Atlético Madrid representam em Espanha o que de pior se pode imaginar nesse submundo de trocas e baldrocas desportivas, tão putrefacto que nem as autoridades se atrevem realmente a investigar. Não surpreende, portanto, que tenham sido os parceiros perfeitos para os negócios mais surpreendentes dos clubes lusos que têm realmente algo que ganhar com este mercado de três meses que muitos suplicam que se reduza a um e termine a 1 de Agosto esquecendo-se de que isso é tirar o pão da boca a quem paga o desporto, os milionários que movem o dinheiro e os agentes que lhes servem de intermediários.

 

FC Porto, Sporting CP e SL Benfica continuam a ser clubes com gestões pouco transparentes e, sobretudo, repletas de manchas no que ao Fair Play desportivo implica, pelo menos segundo os critérios da UEFA que continua a lavar as mãos e a olhar para o lado enquanto assiste, impassível, a este mercadilho.

Não é assim em todo o lado. Em Itália há uma velha tradição de co-propriedade que permite a dois clubes partilhar o passe de um jogador num prazo máximo de dois anos até que um dos clubes, finalmente, compra a percentagem restante. Uma situação muito mais limpa e transparente que dá pouca margem de manobra para negócios surpresa de última hora (um clube estrangeiro tem de comprar os 50% a ambos os clubes para ficar com a totalidade do passe do jogador). Em Inglaterra houve muita agitação e, salvo o caso de Joe Cole (emprestado ao Lille), muitos negócios entre clubes da Liga. Mas tudo às claras, sem comissões escondidas e, sobretudo, sem fundos porque a Premier não permite que um passe seja detido por alguém que não seja um clube, algo que vem dos dias de Tevez e Mascherano. Mas também é certo que a Premier foi a primeira liga a abrir a borbulha e a permitir a chegada dos milhões do petróleo e gás, que encontraram em clubes de futebol a forma perfeita de lavar o dinheiro ilegal que iam ganhando nos seus países de origem. O caso dos argentinos levou a FA e a Premier a acordar a tempo para a nova realidade negocial e a travar - juntamente com a velha exigência de que os jogadores tenham um minimo de internacionalizações pelo seu país - esta derrapagem financeira. Mas esse negócio abriu precedentes.

Como os de Alex Sandro e Danilo, novos jogadores do FC Porto. Os azuis voltaram a romper o mercado graças a Falcao (e recusaram propostas por Alvaro, Fernando e Moutinho até ao fim) mas acabaram por investir pouco do dinheiro ganho (12 milhões em Defour e Mangala e alguns trocos entre Kelvin, Iturbe e percentagens de passes adquiridos). Essencialmente porque os quase 20 milhões que custam os dois brasileiros são cortesia do fundo que comprou ambos os jogadores e que pretende utilizar o clube das Antas como plataforma na Europa. Os jogadores actuam no FC Porto até que uma proposta maior permita aumentar a rentabilidade do investimento e ninguém se surpreenderá se daqui a um ano nenhum dos dois atletas fique na Invicta. Um negócio obscuro que não é nada novo nas manobras de Pinto da Costa no mercado sul-americano que começou há uns anos com a compra de percentagens de passes (algo que em Inglaterra é ilegal, por exemplo) e nos negócios com empresários de reputação duvidosa que utilizavam os seus próprios clubes plataforma, criados ou reestruturados para potenciar jogadores, para sacar o seu lucro. O negócio mais chamativo dos dragões inclui a venda de Falcao por 45 ao Atlético. Uma surpresa porque ambos os clubes estavam de relações cortadas com o caso Paulo Assunção (que chegou até à UEFA) mas que se explica porque nenhum outro clube estava disposto a pagar tanto pelo colombiano. E porque Jorge Mendes estava envolvido na transferência.

O agente FIFA, que fez de Madrid a sua casa (os seis jogadores que tem no Real Madrid, incluindo um desconhecido Pedro Mendes que já se estreou no troféu Bernabeu para rentabilizar um passe que pertence ao próprio empresário), incluiu Ruben Micael no negócio por valores que vão de zero a cinco milhões, dependendo das versões. Um jogador que o Atlético não queria e que acabou no Zaragoza, clube que está em concurso de credores, mas que pode vender e comprar jogadores porque a lei espanhola é assim, uma lei sem lei. O Deportivo que bem se queixou do trato preferencial dado ao clube aragonês já ameaçou denunciar os "maños" à FIFA e com razão. Um clube sem dinheiro, com dividas astronómicas, que acabou por ser o rei do mercado nos últimos dias graças ao dedo miraculoso de Mendes. Um clube que comprou por uns meros 500 mil euros o passe de Helder Postiga, o avançado titular do Sporting. Um clube que adquiriu o jovem Juan Carlos, promessa da cantera do Real Madrid que foi comprado pelo Braga (com ajuda de Mendes) para acabar junto ao Ebro. Isto claro sem falar do negócio Roberto com o Benfica que levou o clube das águias a justificar à CMVM que a venda de 8 milhões de um guarda-redes que custara...8 milhões (num ano em que o seu passo desportivamente se desvalorizou de forma absoluta e inequivoca aos olhos do Mundo) se devia a que Roberto tinha sido adquirido por um fundo (onde também está Mendes) e que o Zaragoza tinha pago umas migalhas. Zaragoza, clube que adquiriu mais 10 jogadores (entre vários internacionais se inclui Fernando Meira) e que vendeu um dos seus dianteiros, Uche, ao  Villareal curiosamente pelo mesmo valor que era devido ao Getafe, o clube da sua procedência. Claro que Uche não vai jogar no Villareal mas sim no Granada, outro clube desta trilogia à espanhola envolvido intimamente com o futebol português. Detido por investidores italianos, onde se inclui o dono da Udinese, o Granada estreitou ligações com o Benfica, obtendo Jara, Yebda, Júlio César e Carlos Martins por empréstimo. Zaragoza e Granada, clubes sem dinheiro, com um estádio novo por construir, terrenos por alienar e amigos influentes no mundo da construção civil que se tornam alvos apetecíveis para tubarões de águas profundas.

Mas até históricos caem nesta rede de dinheiro que se move à velocidade da luz, aparece e desaparece, e permite a máquina continuar a funcionar. O Atlético de Madrid é o exemplo perfeito nas mãos de Gil Marin, filho do polémico Gil y Gil, e com a colaboração de Mendes. A chegada de Falcao é um exemplo perfeito mas mais interessantes são os casos do esquadrão bracarense e de Julio Alves. O irmão mais novo de Bruno Alves, que apenas jogou na Liga Sagres pelo Rio Ave, foi contratado para ser imediatamente emprestado ao Bessiktas onde, curiosamente (ou não), já jogam Simão, Manuel Fernandes, Bebé, Quaresma e Hugo Almeida. Todos "homens Mendes"!

De Braga chegou Silvio e um contrato de preferência sobre Pizzi, revelação no Paços, que acabou por aterrar no Calderon por um valor que pode chegar aos...15 milhões de euros, impensável para um jogador sem mercado, mais o empréstimo de Fran Merida, revelação espanhola por confirmar desde os dias do Arsenal. Mas se no Manzanares entram jogadores a preço de saldo, tal como sucedeu com Roberto - o Atlético também tem um novo estádio a ser preparado, relembro - saem jogadores com preços de mercado inflacionados. É o caso de Elias, descartado, raramente utilizado desde a sua chegada em Janeiro, que aterra em Alvalade pelos 8,5 milhões que custou. O Sporting, que mudou por completo o plantel de um ano para o outro, gastou pouco em muitos jogadores. Em Elias gastou mais do que arrecadou com todas as vendas e começam a voltar as suspeitas sobre a real saúde das finanças leoninas.

 

Casos graves que passam ao lado de investigações policiais sérias e independentes.

Mas que não são exclusivos de clubes lusos ou pequenas plataformas espanholas. Até um clube como o Real Madrid hoje depende dos empresários para confeccionar o seu plantel. Vejam o caso de Altintop. Um jogador livre, dispensado pelo Bayern Munchen, com uma grave lesão nas costas que acaba no Real Madrid de forma surpreendente. Para muitos talvez o que surpreenda é que o turco provavelmente nunca jogue com os merengues já que está prevista a sua venda ao Galatasaray no próximo Verão depois de um empréstimo de seis meses a começar em Dezembro. E porque chegou Altintop ao Real Madrid?

Porque o seu empresário é o mesmo de Nuri Sahin, a grande promessa turca que o clube merengue contratou ao Dortmund. Uma exigência do empresário (e do jogador, que é o "protegido" do capitão da selecção turca) foi sempre de chegar a Madrid acompanhado por Altintop para valorizar o seu passe de forma a que este pudesse voltar à Turquia sem problemas, já curado da sua lesão que, garantidamente, iria impedir a sua colocação durante o Verão em qualquer clube. O Real Madrid lutou contra a situação mas rendeu-se à evidência. E hoje oficialmente, Altintop é jogador merengue. Como Bebé foi jogador do Manchester United - sem o clube o ter visto sequer jogar - ou como Tevez ainda se move por Inglaterra sem saber-se realmente bem a quem pertence o seu passe.

Essa ditadura dos empresários, aliada à sagacidade de alguns dirigentes, tem condicionado por completo um mercado enlouquecido.

Na maioria dos casos os jogadores são conscientes do circulo vicioso em que entram. Aceitam contratos chorudos para paliar o mínimo impacto desportivo nas suas carreiras mas muitos deles voltam rapidamente ao ponto de origem, como virgens arrependidas. Outros deixam-se levar pela conversa de empresários e dirigentes e perdem-se completamente para o futebol, entregues aos excessos do dinheiro e ao mínimo controlo que o clube receptor exerce na sua carreira. A maioria dos casos são jogadores sem futuro a quem lhes custa muito recuperar. O caso de Ricardo Quaresma é, sem dúvida, o mais gritante. Negócio Mendes a três niveis, passou do FC Porto ao Inter, do Inter ao Chelsea por empréstimo e daí para o Bessiktas, desaparecendo a pouco e pouco o destelho de arte que o converteu numa das grandes promessas do futebol mundial. O mesmo se pode dizer de mil e um atletas, carne para canhão neste mundo de milhões que transformam presidentes de clubes em milionários, empresários em semi-deuses e treinadores em cúmplices de projectos desportivos que se desfazem. Manzano, Vitor Pereira, Jorge Jesus, Domingos Paciência, Javier Aguirre ou Leonardo Jardim são treinadores que viram os seus planteis aumentar e diminuir de forma descontrolada durante o último mês, sem saber realmente com quem contavam para trabalhar. Domingos ficou com um plantel praticamente novo. Jesus desmontou, quase definitivamente, a sua equipa campeã. Vitor Pereira ficou sem opções para zonas do terreno onde o FC Porto vive órfão e Leonardo Jardim limitou-se a acenar que sim quando António Salvador apareceu com o dinheiro no bolso. Realidades que os adeptos não entendem e que se estendem em clubes menores com compras em paquetes express a clubes sem expressão ou com o regresso de futebolistas perdidos em ligas como a romena, cipriota, grega, russa ou ucraniana e que tentam recomeçar do zero depois de terem sido abandonados, como cordeiros no altar, ao sacrifício do Dom Dinheiro.

 

O futebol continua a caminhar perigosamente para um túnel sem saída. O dinheiro que se move é cada vez maior e, sobretudo, cada vez mais oculto. Não se pagaram mais de 50 milhões por um jogador - como sucedeu nas últimas épocas - mas pagou-se muito dinheiro que ficou por declarar e justificar tendo em conta o rendimento de mais de um atleta. Projectos como o do Zaragoza sobrevivem com a cumplicidade da legislação, já de si construida para beneficiar quem mais tem a ganhar com ela. Clubes como o Benfica e Sporting entregam-se a negócios obscuros que dificilmente poderiam justificar e entidades como o FC Porto ou Atlético de Madrid continuam a utilizar os empresários e os misteriosos fundos para manter-se na ribalta quando financeiramente vivem na corda bamba do resultadismo. No caso dos portugueses, na constante presença na Champions League, no caso dos espanhóis nos empréstimos bancários e na borbulha imobiliária que definiu a vida de muitos clubes de futebol no país vizinho na última década. Olhando para estes nomes, números, para estas coincidências que não o são, para tantas suspeitas por justificar, é irónico ouvir a UEFA falar de fair play e as autoridades policiais a assobiar para o lado quando um negócio como o futebol, talvez uma das indústrias mais poderosas da actualidade, continua a ser pasto para corruptos e corruptores passearem à vontade sabendo que o risco é minimo e o lucro gigantesco. À medida que esses jogadores se movem, ocupando lugares em plantéis onde muitas vezes nem contam, os clubes abandonam a formação, a aposta em jogadores da casa ou em negócios desportivos realmente relevantes, ideias que se tornaram, na mente dos directivos de SADs quimeras quixotescas quando existe a possibilidade de ganhar milhões. Enquanto o mundo do futebol continuar a vier neste limbo muitos Julio Alves e Bebés acabarão na Turquia depois de sonhar com a glória da Liga Espanhola ou da Premier e muitos veículos desportivos, viagens de luxo, terrenos em zonas privilegiadas ou negócios bem mais perigosos passarão pelas mãos de quem realmente tem a bola debaixo do braço.



Miguel Lourenço Pereira às 08:19 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Sexta-feira, 22.07.11

Sabe o adepto comum como se vive o futebol nos bastidores? Apesar da informação voar à velocidade da luz na era da internet e redes sociais ainda há muitas verdades escondidas habilmente em cofres fortes no meio das montanhas. Em FOUL! The Secret World of FIFA, o investigador britânico Andrew Jennings expõe ao público vários episódios que deixam a imagem da FIFA em serviços mínimos. Um livro fundamental para compreender que no mundo do futebol, às vezes, o futebol conta muito menos do que se imagina.

No meio da polémica sobre a reeleição de Sepp Blatter como presidente da FIFA, a leitura de FOUL! torna-se ainda mais pertinente.

Depois de denunciar a corrupção na Scotland Yard e no Comité Olimpico Internacional, o jornalista escocês Andrew Jennings passou oito anos a estudar a organização da FIFA. E o que descobriu não foi, de todo, uma surpresa. Antes de tudo, uma confirmação. Tal como sucedia no universo olímpico, também o órgão que gere o futebol a nível mundial surge neste retrato como um microcosmos de uma família mafiosa de um qualquer filme de Hollywood. A diferença é que a ficção hollywoodesca, no caso de FOUL! desaparece por detrás dos factos que Jennings enuncia.

Único jornalista considerado persona non grata por um organismo de prestigio internacional como a FIFA, Andrew Jennings é o rosto do programa Panorama e colunista do britânico Daily Mail. Actualmente mantem uma página web onde denuncia regularmente os elementos de corrupção que encontra nas principais organizações desportivas mundiais. E é também o maior pesadelo de Sepp Blatter.

Na obra, publicada pela primeira vez em 2006, Jennings expõe o presidente da FIFA como uma das personalidades mais corruptas da actualidade. Acusações de suborno, fraude nas várias eleições ganhas por Blatter, dinheiro resgatado dos cofres da FIFA para uso pessoal e, sobretudo, a criação de uma corte de subordinados que tem governado (ou melhor, desgovernado), o futebol mundial nos últimos anos, são apenas os pontos mais quentes. Mas dentro de um livro apaixonante, com um ritmo de novela policial e um tom mordaz profundamente britânico, Jennings vai ainda mais longe. Enumera datas, nomes, dados e valores que provam a teia de corrupção em que vive a FIFA desde a chegada de João Havelange ao trono do futebol mundial em 1974.

 

Ler FOUL! é, essencialmente, um acto de coragem. Coragem para acreditar que o fair play e a verdade desportiva são, sobretudo, mitos.

Descobrir como os Mundiais são atribuídos, de que forma os milhões e milhões de euros que passam pelas mãos da FIFA são distribuídos pelos homens de confiança do presidente e, sobretudo, como o adepto comum vive num mundo de fantasia quando pensa no universo futebol é uma leitura difícil mas necessária. A realidade dói sempre, mesmo aos mais cínicos, e saber como homens como Jack Warner, Bin Hamman (curiosamente as figuras-chave na última polémica de Blatter) Julio Grondona, Ricardo Teixeira e Michel Platini tecem as teias que asfixiam o futebol é fundamental para saber ler nas entrelinhas.

Jennings arranca a sua obra - com edição brasileira publicada recentemente - relembrando como a FIFA entrou no mundo do profissionalismo global e mediático com o apoio inequívoco das empresas Adidas, Coca-Cola e McDonalds (desde os anos 70 os patrocinadores oficiais do organismo) graças à mão do polémico João Havelange. Do mandato do brasileiro passamos à apresentação da figura de Blatter, o eixo central da pesquisa. Formado no meio pela Adidas, colocado na organização da FIFA por Horst Dassler, o suíço é descrito como uma figura tenebrosa, rasteira e profundamente corrupta. Jennings cita colaboradores, documentos oficiais e o próprio presidente da FIFA para tecer o retrato de uma figura que se assemelha mais a um "príncipe" de Maquiavel do que a um dirigente de uma organização desportiva. De Blatter a obra passa para uma análise mais certeira a outros elementos da sua habitual entourage (todos eles investigados pelas autoridades policiais ao longo dos últimos anos) e relembra casos como a falência da ISL, a compra de votos na atribuição dos últimos Mundiais, as polémicas decisões da FIFA em branquear a venda ilegal de bilhetes e os direitos televisivos das suas competições e a vendetta organizada pelo presidente contra as associações que, desde 1998, não têm apoiado as suas sucessivas candidaturas. FOUL! também passa ao outro lado do espelho e mostra um retrato certeiro, se bem que desalentador, daqueles que ousaram desafiar o império FIFA. Directivos de pequenas associações, jornalistas, figuras do sistema jurídico e empresas vitimas de fraude por parte de Blatter e companhia dão a sua visão sobre o reinado do suíço nos últimos 13 anos à frente dos destinos do futebol mundial.

 

Em suma, FOUL! é um livro sobre futebol que não dedica uma só linha ao desporto. Explora sobretudo o lado mais obscuro da mais poderosa organização mundial - com mais membros que a própria ONU - e a forma como o jogo jogado vive constantemente castrado pelas decisões dos directivos da FIFA em Zurique. O progressivo afastamento dos adeptos, a mediatização dos principais torneios, a corrupção, os crimes, as suspeitas, imagem negra e soturna de uma realidade que está aí mas que consegue permanecer debaixo do radar da imprensa diária. Mergulhar na obra de Andrew Jennings é, sobretudo, mergulhar no lado mais realista e nefasto do futebol. Mas também é um exercício fundamental para perceber como se movem as peças de xadrez da próxima vez que uma noticia aparentemente sem contexto se cruze com o seu olhar num qualquer pequeno almoço informativo.

 

 

A análise de FOUL! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-Ringing e Ticket Scandals abre uma nova secção no Em Jogo. Nos próximos meses analisaremos alguns dos mais importantes livros sobre o beautiful game publicados nas últimas décadas. Livros sobre táctica, ligas, corrupção, competições, jogadores, questões politicas, sociais e económicas que permitirão aos leitores conhecerem a fundo as distintas realidades de que vive o mundo do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 09:59 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Segunda-feira, 30.05.11

Como num filme de espionagem americano o volte-face na guerra de poder que tomou conta da FIFA nos últimos meses vai seguramente prender os espectadores até ao minuto final. Sepp Blatter venceu o pulso com Bin Hamman e forçou a sua retirada e exclusão do máximo comité desportivo da organização que gere o futebol profissional em todo o mundo. Mas se calhar o suíço não contava com a reviravolta protagonizada por um dos seus homens de confiança que está disposto a tudo, menos a ser usado como cabeça de turco. Os documentos divulgados hoje por Jack Warner simplesmente confirmam o que aqui já tínhamos avançado. A podridão que gere a FIFA é agora de domínio público e a organização vive momentos críticos. Os seus directivos estão num encruzilhada e não sabem que peça mover.

 

Não foi há muito tempo que escrevemos aqui sobre o duelo presidencial que se antevia entre Sepp Blatter e Mohammed Bin Hamman.

As dúvidas que deixamos então, em modo de reflexão, tornaram-se espelho da dura realidade. Os dois candidatos, reconhecidos nos corredores do poder como duas figuras altamente ligadas à corrupção no futebol actual, acusaram-se mutuamente, esgrimindo todas as armas que tinham em mãos. Blatter parecia ter ganho a luta quando conseguiu que o qatari, figura chave no processo de eleição do seu país como sede do Mundial de 2022, abandonasse a corrida. Mais ainda, Blatter logrou escapar das acusações de corrupção sobre a sua gestão e aproveitou o momento para limpar os fantasmas do seu armário. Fez com que a FIFA conseguisse passar a imagem de que as ovelhas negras eram Bin Hamman e Jack Warner. O tobaguenho foi o rosto escolhido por Lord Triestman, lider da candidatura inglesa ao Mundial de 2018, para exemplificar a corrupção que se encontra no topo da escada de poder da FIFA. Acusado de suborno, Warner rejeitou as acusações e Blatter defendeu-o, com um discurso profundamente critico aos dirigentes ingleses. Meses depois deixou cair o homem que utilizou várias vezes com emissário juntamente com o asiático que controlava tudo o que se passava nos mercados emergentes do oriente. Pensava assim Blatter que iria sair da eleição de 1 de Junho com um novo mandato e a cara lavada. Mas a jogada não ocorreu como previsto. Como nos filmes, havia uma subplot.

 

Hoje Jack Warner decidiu incendiar o que restava da moral da FIFA.

Divulgou um correio electrónico de Jerome Valcke, o braço-direito de Blatter secretário-geral da FIFA, em que este confessava ao tobaguenho que tanto ele como Blatter tinham conhecimento - e implicitamente aprovado - que Bin Hamman teria comprado os votos necessários para que o seu país fosse eleito organizador do Mundial. O Qatar, o mais pequeno país a quem foi atribuido o mais importante torneio do mundo futebol, não era sequer considerado favorito. No entanto os qataris bateram Estados Unidos e Austrália e venceram a eleição. Nos meses prévios muito se especulou sobre as jogadas dos qataris nos bastidores, que ora incluíam o apoio implícito da candidatura Espanha/Portugal ora a ajuda da candidatura russa, que ganharia a organização para o Mundial de 2018. Lord Tristeman confesso que fora abordado para garantir uma troca de votos e influências entre a candidatura do médio oriente e a britânica. A FIFA então negou todas as acusações. Valcke confirmava neste email que tinham perfeita consciência de tudo. 

Warner não deixa a nu o processo de eleição do Mundial. Também desvela, em palavras de Valcke - que já confirmou a autenticidade do email - que o grupo de influência liderado por Blatter estaria disposto a tudo para impedir a eleição do qatari, incluindo desprestigiá-lo junto dos meios de comunicação e eventualmente nos próprios comités da FIFA, como veio a acontecer. Ao não alinhar com o grupo de Blatter, o tobaguenho foi igualmente suspenso por financiação ilicita de algumas federações caribenhas. No entanto, no passado congresso da CONCAF em Miami foi Blatter quem prometeu mais de 1 milhão de dólares em apoio à federação regional em troca de apoio directo nas eleições, utilizando dinheiro da própria FIFA, no que foi criticado por Michel Platini, presidente da UEFA e um dos mais sérios candidatos a suceder ao suíço em 2016. As suspensões indefinidas de Bin Hamman e Warner - vice-presidente da FIFA à 30 anos, o mais veterano dos membros do comité executivo em serviço - juntam-se às dos dirigentes nigeriano e taitiano, também membros do conselho e peças chave na última votação para a organização dos Mundiais de 2018 e 2022. A FIFA de Blatter suspende quatro dos 24 membros com direito a voto meses depois de os apoiar publicamente, precisamente pelo mesmo motivo.

 

O presidente da FIFA será reeleito por aclamação no congresso do próximo dia 1. Nem Jack Warner nem Bin Hamman estarão em Zurique em pessoa mas os seus fantasmas vão assombrar todo o evento feito à medida para idolatrar o reeleito Sepp Blatter. O suíço não será capaz de esconder do Mundo no entanto os problemas morais e legais que envolvem o seu mandato e que relembram também a crise da ISL, a eleição da África do Sul, a polémica com a MasterCard e agora, o afastamento de alguns dos seus homens-fortes. Tal como sucedeu com o COI, a quem vários analistas comparam a situação actual da FIFA, o fantasma da corrupção está demasiado presente para se ignorar. Olhar para o lado e assobiar ou tomar cartas no assunto são as únicas opções sobre a mesa. Conhecendo o historial do presidente Blatter não é difícil imaginar o caminho que a FIFA irá seguir...



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

Sexta-feira, 20.05.11

Nunca tantas equipas estiveram pendentes até ao útlimo dia da calculadora na Liga Espanhola. As últimas duas semanas foram marcados pela tensão, pelo drama, pela esperança mas, também, pelos pactos de não-agressão. É o outro lado da realidade do futebol espanhol que poucos querem reconhecer mas que se torna evidente a cada ano que passa. A Liga dos "maletines" de última hora volta a ser o fantasma do último capitulo da liga das estrelas.

 

Não é, nem de longe nem de perto, um fenómeno espanhol. Não, é um cancro generalizado no mundo do futebol contra o qual ainda não houve, realmente, nenhuma instituição preparada para agir com prontidão e sem piedade.

As “luvas” debaixo da mesa fazem parte da linguagem comum do submundo do futebol. Em Espanha chamam-lhe "maletines".

Pagamentos para ganhar a um rival, pagamentos para perder quando não há nada em jogo, transferências submetidas a um critério de camaradagem directiva, adeptos que pressionam os próprios clubes para não entrar em campo com o profissionalismo que se lhes exige... Há de tudo e não só na La Liga.

Mas aqui, num país habituado a varrer para debaixo do tapete os grandes problemas do seu desporto mais popular (dos outros nem vale a pena falar), começa a ser complicado tapar uma realidade evidente e, até mesmo, popular. Da mesma forma que os adeptos do Betis assobiavam os seus jogadores quando estes pareciam não estar a facilitar num duelo directo da última jornada contra uma equipa que podia condenar o seu eterno rival, o Sevilla, à Segunda Divisão, hoje são muitos os adeptos que piscam os olhos aos rivais à procura de um olhar cumplice. As últimas três jornadas da Liga BBVA foram tudo menos jornadas transparantes. Há quem não se atreva a chamar-lhe corrupção, jogos viciados, como se o titulo mais ou menos duro fizesse a diferença. Não o faz. Há, realmente, resultados combinados que deixam as equipas do fundo da tabela em constante suspense. A situação está de tal forma establecida dentro do establishment que nem os rivais afectados se queixam. Sabem que, no passado ou no futuro, actuarão da mesma forma. O campeonato mais mediático das ligas europeias transforma-se, por um par de jornadas, num leilão perigoso, um verdadeira roleta russa desportiva onde as amizades podem valer uma salvação.

 

Não surpreende que o presidente da Cantabria, o omnipresente Miguel Angel Revilla, também presidente de honra do Racing, venha a público elogiar os seus jogadores por perderem. Se o rival é o Sporting Gijón, de Manuel Preciado, ex-jogador dos cantabros, não surpreende mesmo ninguém. Racing e Sporting são quase vizinhos e têm um bom historial no passado. Além do mais, na época passada, o Gijon ajudou com uma derrota inocente o clube cantábro a salvar-se da despromoção. Um ano depois os papeis inverteram-se e era o Sporting que necessitava carimbar matematicamente a salvação antes do último dia. O Racing não deu luta, o Sporting venceu por 2-1, e todos ficaram contentes. Todos menos o Deportivo de La Coruña que se queixou imediatamente do pacto porque, resulta, é a equipa mais prejudicada. Mas o “Depor”, que está à beira do precipicio, tem também o seu historial de ajudas de ultima hora.

Como o Levante, equipa que já por várias vezes salvou equipas rivais da despromoção deixando-se gentilmente ganhar quando não havia nada em jogo. O empate com o vizinho Valencia, um 0-0 soporifero, deu a ambos os pontos que necessitavam para cumprir com os seus objectivos. E agora o Levante recebe o Zaragoza, ultima equipa debaixo da linha de água, e muitos imaginam já o que irá suceder. O Getafe até pode ser o mais prejudicado por este jogo de amizades. Não que a sua vitória frente ao Osasuna não fosse suspeita (os navarros tinham dado a reviravolta a um 0-2 contra o Sevilla dias antes e estão a um ponto da salvação) mas foi o jogo com o Real Madrid que selou o seu destino. Os “azulones” funcionam quase como uma filial do clube merengue. Jogadores vendidos com preço de recompra de saldo, presidente com cartão de sócio do Real Madrid, o histórico Michel como treinador (depois de Quique Sanchez Flores, Schuster e Laudrup, outros ilustres ex-merengues terem passado pelo cargo). Todos pensavam que um Real Madrid sem nada em jogo podia dar “o jeito” no Bernabeu. Mas a fome de golos de Cristiano Ronaldo não deu hipóteses ao Getafe, frente a um conjunto de adeptos madridistas visivelmente contrariados com o seu goleador.

 

Amanhã a Liga BBVA conhece o seu desenlance. Todos os clubes afectados jogam às 22h00 e todos terão os ouvidos nos campos rivais. A matemática é fácil. Quem ganha está salvo, quem perde depende sempre de outro e se se é adepto do Zaragoza a derrota não é uma opção. A suspeita está servida, como todos os anos, e no domingo os jogos serão analisados com lupa. Mas ninguém levantará realmente o dedo. Culturalmente os resultados combinados estão demasiado enraizados e a "liga de los maletines" faz parte da mentalidade do futebol espanhol. Num país ultra-tradicionalista, ninguém espere nunca que a situação mude. Jogue quem jogue.



Miguel Lourenço Pereira às 08:59 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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