Sexta-feira, 27.12.13

Com o final do ano de 2013 o Em Jogo publica a sua lista particular dos melhores jogadores do ano natural. Uma eleição condicionada pela performance individual, pelos méritos dentro do colectivo e pelo seu talento particular. Aos onze titulares do ano junta-se um leque de sete suplentes de luxo para forjar o plantel perfeito do ano 2013!

 

Os Melhores do Ano (Titulares)

 

Manuel Neuer

É díficil quantificar quem é o melhor guarda-redes do Mundo. Se os veteranos Cech, Buffon ou Valdés ou o alemão Manuel Neuer. Mas não houve um só título que o germânico não tivesse levantado no último ano e muitas das vitórias dos bávaros deveram-se, também, ás suas espantosas intervenções. Com o passar dos anos o ex-Schalke 04 tomou pulso a um posto onde muitos pensavam que não iria durar e já está à altura dos grandes número 1s alemães da história!

 

Philip Lahm

Talvez o jogador de 2013. Não é o mais rápido, o mais goleador, o que mais assistências dá ou o mais mediático. Não vencerá nunca um Ballon D´Or e a maioria dos adeptos até se esquece que já tem atrás de si uma década ao mais alto nível. Mas Lahm é o capitão desta equipa e um jogador que todos gostariam de ser e de contar com. Foi fundamental no esquema de Heynckhes e Guardiola rendeu-se à sua inteligência de jogo, colocando-o várias vezes no fundamental papel de médio defensivo durante os primeiros meses da temporada. É o líder emocional em campo dos bávaros e já um dos maiores laterais da história.

 

Thiago Silva

O brasileiro esteve perto de abandonar a carreira por uma tuberculose que os médicos do FC Porto não souberam detectar a tempo. Desde esses dias na Rússia e o regresso ao Brasil até à explosão definitiva como o melhor central do mundo, o capitão do Brasil tem protagonizado uma sequência de temporadas inesquecíveis. 2013 foi a melhor. Não só pelo título conquistado pelo PSG mas também pela vitória do Brasil na Taça das Confederações. Títulos onde teve um papel fundamental. A sua liderança e capacidade de controlo da área não encontram impar no futebol actual.

 

David Alaba

A evolução do lateral austríaco nos últimos dois anos tem sido épica. Alaba apareceu em cena como um médio interior formado nas camadas jovens do Bayern e acabou reconvertido num dos melhores e mais incisivos laterais do Mundo. O seu ano 2013 foi memorável, como sucedeu com quase todos os seus colegas de equipa. O seu próximo passo é levar a Áustria de volta a um Campeonato da Europa e manter o pulso com outros laterais da escola sul-americana como Marcelo, Felipe Luis, Dani Alves o protagonismo entre os melhores do Mundo!

 

Paul Pogba

Foi o melhor jogador do Mundial sub-20, a grande revelação do Calcio e a melhor notícia possível para o futebol francês. Descoberto por Ferguson, recusou-se a renovar o contrato com o Man United com medo a não ter o protagonismo que sentia que merecia. Tinha 18 anos. Dois anos depois, em Turim, transformou-se no parceiro perfeito de Pirlo. Os seus disparos de longe, as suas recuperações impossíveis e as assistências perfeitas tornaram-no peça fundamental na conquista da Serie A. Para completar um ano memorável, a vitória no Mundial sub20 e a promoção aos Bleus garantem que vamos ouvir falar dele com regularidade na próxima década.

 

Ilkay Gundogan

Há poucos jogadores tão inteligentes no futebol europeu como Gundogan. O médio turco-alemão do Dortmund soube substituir o seu amigo Nuri Sahin de tal forma que quando o ex-Real Madrid regressou ao Westfallen, foi-lhe impossível recuperar a titularidade. Fundamental na manobra de jogo da equipa de Klopp, o médio foi fundamental para a época memorável dos amarelos de Dortmund e a Alemanha de Low conta com ele para dar cartas no próximo Mundial.

 

Bastian Schweinsteiger

O que seria do futebol sem jogadores como "Schweini". Poucos teriam a fortaleza mental de superar um 2012 horribilis, com o penalty falhado na final da Champions League e a eliminação da Mannschaft nas meias-finais do Europeu, parecia que a carreira do médio tinha atingido o seu apogeu. Com a confiança de Heynckhes, voltou a pegar na equipa e lambeu as feridas com o champagne da glória. Superou a Pirlo num mano a mano, anulou (com a ajuda de Javi Martinez) o meio-campo do Barcelona numa histórica meia-final e em Londres voltou a ser fundamental para manter o jogo equilibrado até a conexão Ribery-Robben mostrar-se superior à dos rivais germânicos. O Mundial e um título com a selecção alemã é tudo o que separa Schweinsteiger de tornar-se num dos mais memoráveis jogadores teutónicos de toda a história!

 

Marco Reus

Os mais mediáticos seguramente citariam a Mario Gotze, mas talvez a mais incisiva e brilhante novidade ofensiva do Dortmund de Klopp no último ano tenha sido Reus. O médio contratado ao Gladbach foi uma verdadeira confirmação de tudo o que se suspeitava que podia ser. Vertical, directo, perfeito nas assistências, seguro frente à baliza, Reus foi o melhor jogador do Dortmund na corrida à final de Londres e com a saída do seu amigo Gotze para o histórico rival deu um passo em frente e reclamou a sua liderança para transformar-se no mais influente jogador do Dortmund actual.

 

 

Frank Ribery

Se os prémios individuais fossem atribuídos com o seu critério histórico, Frank Ribery era o homem prémio 2013. Lamentavelmente, o poder mediático cada vez mais encontrou forma de sobrepôr-se e o francês - tal como Iniesta ou Sneijder - verá a glória desde longe. Foi um ano histórico para o homem que alguém pensou que podia ser o sucessor de Zidane. Não foi nem nunca será mas vencer tudo em 2013 e ajudar a França a não falhar o Mundial é um feito que poucos gauleses podem reclamar para si. Ribery marca, assiste, distribui, lidera e encarna o espirito deste histórico Bayern Munchen. No ponto mais alto da sua carreira é um jogador imparável!

 

Luis Suarez

Se 2013 acabasse daqui a dois meses, talvez o uruguaio fosse o próximo Ballon D´Or. Na realidade, não estará sequer no top 10. No entanto, o que o jogador do Liverpool tem conseguido é impressionante. Não só realizou um excelente final da época 2012-13 - com muita polémica à mistura - como o seu arranque de temporada tem eclipsado as gestas de grandes nomes que podiam estar neste onze como Ibrahimovic, Lewandowski, Muller, van Persie, Falcao ou Diego Costa. Recorde de golos marcados, liderança na Bota de Ouro e um enfant terrible transformado na última esperança da Kop.

 

 

Cristiano Ronaldo

É díficil olhar para 2013 e não pensar num jogador: CR7. E no entanto o português não venceu um só título em 2013. Fora da luta pela liga desde 2012, Ronaldo conseguiu ser o melhor marcador da Champions League mas no jogo decisivo, no Bernabeu, não marcou o golo que carimbaria o passaporte para a final. Marcou no jogo decisivo da Copa del Rey mas acabou expulso e a equipa derrotada. Foi um mês de Maio negro que no entanto escondia um semestre memorável pela frente. Histórico de golos marcados num ano natural, memorável exibição no play-off de apuramento ao Mundial do Brasil, melhor marcador histórico numa fase de grupos da Champions League e o reconhecimento internacional posterior a uma imitação lamentável de Blatter. Ronaldo ganhou dentro e fora de campo todo o protagonismo de 2013 - sobretudo da temporada 2013-14 - e é a figura mediática inquestionável do ano!

 

 

Menções Honrosas (Banco de Suplentes)

 

Victor Valdés

É díficil não olhar para o guarda-redes catalão e não ver nele o melhor número 1 do futebol espanhol da actualidade. Valdés tem-se revelado tão influente como Leo Messi nos momentos decisivos e nos grandes triunfos dos blaugranas. A sua lesão, no final de 2013, deixou a nú muitas das fragilidades defensivas que Valdés tem tapado com brio. Talvez o seu melhor ano.

 

Matt Hummels

Tem um talento pouco habitual para um central e sabe-o. É a sua fortaleza e a sua perdição. Alguns dos golos sofridos pelo Dortmund em 2013 levam o seu selo, o descontrolo do seu imenso know-how. Mas Hummels é, sobretudo, um central imenso com um sentido posicional espantoso e uma leitura de jogo que faz lembrar a velha escola de líberos alemã iniciada por Beckenbauer.

 

Yaya Touré

Há jogadores que não necessitam de apresentações. São aqueles que qualquer treinador gostaria de ter na sua equipa. Defendem, atacam, distribuem, recuperam, dão calma quando necessário e vertigem se é preciso. E fazem-no quase como vultos fantasmas, deixando o protagonismo a outros. Yaya Touré tem-no feito há vários anos, desde a sua passagem pelo Barcelona até à sua consagração na Premier League. 2013 foi mais um ano de ouro para o marfilense!

 

Koke

O renascimento do Atlético de Madrid sob a mão de Diego Simeone encontrou no talento individual de um jovem produto da cantera colchonera o seu melhor exemplo. Para lá dos golos de Falcao e Diego Costa, do talento de Arda Turan e Mario Suarez, o trabalho incansável do médio espanhol no miolo da equipa de Madrid destacou-se pela sua sobriedade e perfeição. É uma das grandes revelações do ano e um jogador capacitado para liderar o futuro do meio-campo da Roja!

 

Lionel Messi

Há poucos jogadores na história do futebol com o talento de Leo Messi. O jogador argentino estaria em qualquer onze do ano mas 2013 foi o seu annus horribilis. Lesões recorrentes - entre Janeiro e Março e mais tarde, desde Outubro até ao presente - deixaram o génio blaugrana fora de combate em quase metade da temporada. Nos meses que esteve em campo esteve praticamente igual a si mesmo. Mas no duelo directo contra o Real Madrid (Copa del Rey), Atlético de Madrid (Supercopa) e Bayern Munchen (Champions League) não conseguiu ser o elemento desequilibrador a que nos tem tão habituados.

 

Zlatan Ibrahimovic

Igual a si mesmo, "Ibracadraba" é um dos jogadores com mais talento do mundo. Com a vitória na Ligue 1 ampliou a sua lenda. Dez titulos de campeão em doze temporadas é algo a que poucos jogadores podem optar, particularmente se os titulos foram conseguidos em quatro ligas e seis equipas diferentes. Levou os parisinos até um duelo intenso com o Barça na Champions League, rematou o título em Maio e protagonizou um notável arranque de época em 2013, interrompido apenas pela exibição de Ronaldo em Solna. Um craque!

 

Robert Lewandowski

É um exagero dizer que o polaco eliminou só o Real Madrid mas quatro golos numa meia-final da Champions League é algo histórico. O avançado do Dortmund realizou um ano memorável. Levou a sua equipa até à final da Champions, mostrou ser o avançado mais em forma na Bundesliga e tem os adeptos do clube de Dortmund em suspense sobre o seu futuro. É um dos mais letais avançados do futebol mundial e vale o seu peso em ouro!

 

 

Custou deixar de fora (O resto do plantel)

 

Robbie van Persie (decisivo no último ano de Ferguson), Mezut Ozil (mal tratado em Madrid, herói em Highbury), Andrea Pirlo (não é preciso explicar pois não?), Óscar (determinante na era Benitez, fundamental nos meses Mourinho), Mario Gotze (grande até Junho), Andrés Iniesta (um génio indiscutivel), Heines Weidenfeller (o eterno esquecido do futebol alemão), Thomas Muller (outro grande ano do working class heroe bávaro), Diego Costa (uma verdadeira transformação épica), Neymar (tem tudo para ser um mega-top), Arjen Robben (porque nos esquecemos tanto dele?), Marcelo (continua a ser um jogador especial), Raphael Varane (foi a revelação do final da época 2012-13), Eden Hazard (destinado à grandeza com os Diables Rouges)



Miguel Lourenço Pereira às 12:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 12.04.13

Não estranha a ninguém que a final de Wembley da Champions League seja uma questão reservada exclusivamente a dois países. Ninguém no futebol mundial da última década tem tido um trabalho tão intenso e consciente a preparar momentos como este como o futebol espanhol ou alemão. São exemplos perfeitos do que deve ser feito na esmagadora maioria das áreas. O modelo germânico é talvez o mais honesto e estruturado, o espanhol uma consequência habilidosa de uma conjuntura histórica única. Em ambos os casos, modelos de sucesso que deixam claro que o futebol na Europa funciona ao seu ritmo.

Não há petrodólares russos, ucranianos, franceses ou britânicos. Não há equipas inglesas com o seu jogo tão tacticamente previsível. Não há clubes italianos, mais hábeis no tabuleiro de xadrez do que ambiciosos no relvado. Nem sequer há espaço para uma ou outra surpresa. A Champions League de 2013 será uma questão de mérito de gestão desportiva de dois países que definiram um modelo de futuro e estão agora a recolher os louros.

Barcelona, Bayern Munchen, Borusia Dortmund e Real Madrid falam, de certa forma, um idioma parecido. Não são clubes idênticos, os seus projectos têm diferenças significativas, mas ambos enquadram-se bem na filosofia de planeamento que revolucionou o futebol europeu nos anos noventa com o caso gaulês e que seguiu o seu caminho na versão espanhola e teutónica. São duas escolhas paralelas, complementares até, que começaram a degladiar-se ao nível da selecção principal entre 2008 e 2012 e que agora transportam essa batalha para o universo clubístico. O sorteio - casualmente ou não - impediu a realização de dois duelos fratricidas que podiam ter reservado já uma lugar na final para o representante de cada país. Sendo assim, Wembley pode ser uma celebração mista, espanhola ou alemã. Todas as opções estão em abertos em quatro jogos onde o favoritismo não existe. O equilíbrio é total como só poderia ser se os duelos fossem precisamente estes.

O Bayern Munchen mostrou-se claramente superior ao Real Madrid, o Borussia de Dortmund é uma equipa que sofre muito com modelos como o do Barcelona e os catalães têm demonstrado no último ano civil que ganhar ao Real Madrid deixou de ser um hábito para transformar-se numa quase utopia. Em sete encontros, venceram um e empataram dois. Um quadrunvirato que faz lembrar os mais excitantes duelos do mundo do ténis onde Nadal sabe ganhar a Federer, que por sua vez controla bem os movimentos de Djokovic, um tenista que soube explorar os poucos pontos frágeis do espanhol. Um circulo vicioso de grandeza que nos afasta da suposta hegemonia exercida pelo Barcelona nos últimos quatro anos, período onde venceu dois troféus e ficou por duas vezes às portas da final contra rivais teoricamente inferiores. 

 

No caso do modelo alemão, ainda que Bayern e Dortmund sejam tão diferentes entre si como o são Barcelona e Real Madrid, está claro que a Bundesliga se tem convertido no modelo ideal a seguir.

É a liga com mais espectadores da Europa, algo a que ajudam os preços modélicos, os estádios perfeitos, os horários adequados às famílias, a ausência de jogos em aberto e a qualidade do espectáculo. No futebol alemão há poucas estrelas capazes de protagonizar anúncios mas há uma nova geração de jogadores chamados a marcar uma década. Essa aposta na formação, desenhada a final da década de noventa, tem dado progressivamente os seus lucros na reestruturação do futebol da própria selecção. Ao nível dos clubes há vários exemplos de identidades modestas que têm crescido apoiados nos seus jovens talentos mas as duas escolas mais emblemáticas estão em Dortmund e Munique. No caso dos amarelos, o génio de Klopp e os problemas financeiros do clube forçaram a instituição a olhar para baixo e a cuidar dos seus jovens como nenhum outro clube na Europa. Não só os formados na sua cantera mas os contratados, em tenra idade, a clubes rivais. Dessa forma nasceu a geração de Pieszceck, Schmelzer, Hummels, Bender, Gundogan, Sahin, Grosskreutz, Reus, Gotze e Lewandowski, futebolistas tremendos e com uma margem de progressão imensa. Na Baviera, o poder financeiro do Bayern foi o suporte necessário para remodelar por completo a sua filosofia desportiva e o Hollywood FC tornou-se no exemplo de estudo ideal para um clube com nome capaz de mudar numa curta década toda a sua imagem mediática. Á geração de Lahm e Schweinsteiger juntou-se agora a de Badstuber, Alaba, Kroos e Muller, jogadores que têm crescido com espaço e tempo ao lado de figuras da liga germânica (Dante, Boateng, Neuer, Mandzukic, Gomez) e futebolistas de nível internacional como são Ribery e Robben. Não estranha que este seja o projecto de futuro de Guardiola como também não surpreende que depois de dois anos de transição da etapa mais exigente do van gaalismo, o clube tenha encontrado a fórmula perfeita. Com o título no bolso, a final perdida em 2012 atravessada e uma campanha imaculada, os vermelhos do sul da Alemanha são, para muitos, o grande candidato a levantar o troféu e nada melhor que um duelo com o Barcelona para medir realmente o seu potencial. Na época passada controlaram perfeitamente todos os movimentos do Real Madrid e levaram a eliminatória até onde queriam. Agora terão de lidar com o Camp Nou, o baluarte do clube blaugrana numa campanha europeia mais do que tremida.

 

O sucesso do modelo alemão transforma a Bundesliga num torneio cada vez mais mediático e apetecível, superando os milhões e o espectáculo que a Premier League oferecia antes de muitos dos seus jogadores mais emblemáticos a tenham abandonado e, sobretudo, antes que o dinheiro tenha definitivamente desequilibrado a balança. Em Espanha, tudo está na mesma. Vencer é a palavra de ordem no país que domina o futebol mundial com uma autoridade que nos força a viajar até aos anos setenta para ver algo parecido.

O modelo de sucesso em Espanha partiu sobretudo de três premissas. A aposta consciente na formação, que tem permitido o aparecimento de jogadores extraordinários nos mais inesperados dos lugares, a elevada qualidade técnica e táctica de jogo da esmagadora maioria das equipas do campeonato e o peso mediático que o país conseguiu através dos duelos entre Real Madrid e Barcelona, equipas que pela primeira vez desde a década de cinquenta disputam de igual para igual a hegemonia do seu futebol. Da mesma forma que Kubala e Puskas, Suarez e Di Stefano eram os reis desse virar de década, agora são os duelos entre Ozil e Iniesta e Messi e Ronaldo os que colocam os adeptos de todo o mundo colados ao ecrã. Todos querem ver, finalmente, um Clássico transformado em final de Champions League. Pode ser que, à terceira tentativa, o sonho se faça realidade. Mas o caminho será duro.

Ao contrário do equilibrado modelo alemão, em Espanha há quase uma especie de doping financeiro entre os dois grandes clubes que permite anualmente que o fosso com as restantes equipas seja maior. O dinheiro gasto nos últimos anos por ambos os clubes supera quase todo aquele gasto por clubes alemães. Financeiramente, são os reis do futebol europeu, e valem-se desse poderio para atrairem la creme de la creme. A essa vantagem, o Barcelona alia uma espantosa política de formação - estanque já há três temporadas - enquanto que o Real Madrid conta com o espírito táctico de uma velha raposa, capaz de transformar uma diferença abissal entre os merengues e o resto da Europa num trâmite. Para o clube de Madrid será a terceira final em três anos, os mesmos que leva Mourinho no clube. Nos sete anteriores o clube não tinha passado dos Oitavos de Final. Para o Barcelona é a sexta meia-final consecutiva, sinal de que há uma política de continuidade e um projecto desportivo que não oferece reparos. Ambos se defrontarão com equipas à sua medida. O Dortmund foi superior no duplo duelo da fase de grupos mas o Real Madrid sente-se mais cómodo nos duelos a eliminar. Mourinho exige-se a si mesmo tensão e aos restantes e nada melhor que 180 minutos para decidir um finalista para despertar uma equipa que realizou uma campanha doméstica lamentável. Contra o Bayern, o Barcelona encontra o seu alter-ego europeu. Um clube com formação e livro de cheques, um clube com um modelo de jogo atractivo e um peso histórico tremendo. Um clube que a partir de Julho será orientado pelo homem que resgatou o Barça das sombras. Serão duas finais para os espectadores neutrais, dois jogos destinados a entrar na posteridade da história do futebol europeu.

 

Dois gigantes espanhóis, financeiramente titãs, culturalmente sedutores, defrontam os dois clubes mais emblemáticos dos últimos 20 anos da história de um renovado e refrescante futebol germânico. Duas escolas tão diferentes mas unidas pela consciência de que o futuro conta tanto como o passado. Quatro clubes que são, indiscutivelmente, parte do melhor que o futebol europeu tem para oferecer. Em Maio, na final de Wembley, só poderão estar dois e muito ainda terá que passar para conhecer os finalistas, mas as meias-finais da Champions League há alguns anos que não despertavam tanto fascínio.



Miguel Lourenço Pereira às 13:21 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Domingo, 10.02.13

agora a nata da Europa se vai começar a reunir para acertar contas com o calendário continental. Os oitavos de final da Champions League arrancam, e com eles os jogos que os adeptos mais esperam. Porque a competição, a nível interno, em 2012-13 não existiu. Pela primeira vez em muitos anos, as principais ligas europeias têm os seus campeões do curso praticamente definidos. São muitos jogos, muitos meses para cumprir calendário, com margens de erro imensas e uma diferença abismal que permite levantar várias questões sobre a realidade actual do futebol do Velho Continente.

Barcelona, Manchester United, Bayern Munchen e Juventus.

Estamos a meados de Fevereiro e desafio alguém a fazer pública a crença, quase sebastiânica, de que alguma destas equipas não vá ser campeã nacional em Maio. Não é uma previsão muito dificil de fazer. Basta olhar para as tabelas classificativas, ver os calendários de jogos pendentes e fazer contas. As grandes ligas europeias já fecharam as portas e agora, até ao final da época, a atenção será progressivamente desviada pela imprensa para disputas secundárias. Importantes, mas longe do sonho de glamour profundo que é sagrar-se campeão. Uma realidade preocupante e que dista bastante do que vimos no ano passado. Só a finais de Abril o Real Madrid deu o golpe definitivo no seu título, ao vencer o rival directo em Camp Nou. O Manchester City precisou do último segundo da época para ganhar um título que lhe escapava há cinco décadas. Em Itália a Juventus nunca se distanciou tanto como para poder celebrar com mais de uma quinzena de distância do final da temporada e só o Borusia Dortmund encontrou o autoritarismo que encontramos este ano!

Nesta temporada tudo se desenrola em moldes muito diferentes. Há uma autoridade inquestionável nas ligas de topo, onde três dos actuais lideres na época anterior ficaram-se pelo segundo lugar no campeonato. Há, sobretudo, uma qualidade de jogo manifestamente inferior na maioria dos casos de quem lidera e persegue. E, sobretudo, uma dependência excessiva do génio individual para compensar os problemas do colectivo. Se em ligas da segunda divisão europeia, como é o caso da francesa, portuguesa e holandesa, há um esboço de equilíbrio, entre os suspeitos do costume, o que se passa nos gigantes europeus para a luta ter acabado tão cedo?

 

O caso mais flagrante é, sem dúvida, o espanhol.

Não surpreende ninguém que o Barcelona seja o líder. A equipa que era orientada por Pep Guardiola partia como favorita, apesar do título perdido, simplesmente porque é um projecto continuista, moldado em princípios assimilados e com um plantel fabuloso. A derrota contra o Real Madrid no ano anterior interrompeu um ciclo de vitórias mas não a percepção do Barcelona ser uma equipa com mais futuro. O problema está que os blaugrana, agora orientados por Tito Vilanova, semi-ausente durante largas semanas pelo seu problema de saúde, nunca tiveram rival. Nas primeiras oito jornadas do campeonato a vantagem já era de oito pontos e quando os dois candidatos se cruzaram para um jogo memorável, no Camp Nou, o empate apenas deixou claro que o título estava praticamente entregue antes da disputa sequer começar. A isso contribuiu o espirito auto-destrutivo de José Mourinho, os péssimos desempenhos do colectivo, com erros individuais grosseiros, e a seca goleadora de Cristiano Ronaldo durante o Outono. Sob essa realidade, esse hara-kiri, o Barça estabeleceu uma liderança cómoda que só o Atlético de Madrid, um surpreendente e merecido segundo, tentou desafiar, sem sucesso como a vitória clara dos catalães no duelo directo deixou evidente. O Barcelona sabe-se e sente-se campeão nacional e agora pode concentrar esforços em recuperar a Champions League (seria a terceira em cinco anos) e manter no bolso a Copa del Rey, as únicas duas competições que interessam, precisamente, ao seu histórico rival. 

Em Inglaterra o Manchester United lidera com 12 pontos de vantagem sobre o campeão. Está em todas as corridas, entre FA Cup e Champions League, e demonstra uma voracidade goleadora inquestionável. Mas como o Barcelona, a vantagem pontual construiu-se, sobretudo, porque o City se mostrou muito mais irregular do que na época passada. E claro, se os catalães contam com o génio e golos (muitos golos) de Messi para fazer a diferença, em Old Trafford a dupla Wayne Rooney e Robie van Persie (e as aparições decisivas de Javier Hernandez) têm escondido muitos problemas na defesa e no meio-campo, que os duelos europeus colocarão à prova. Os homens de Ferguson só por uma vez perderam um título com uma vantagem pontual desta magnitude, precisamente no ano em que a suspensão de Eric Cantona permitiu ao Blackburn Rovers de Shearer recuperar na tabela e vencer o título confortavelmente. Sem esse fantasma presente, ninguém duvida que os mancunianos farão, outra vez, a festa em Maio.

Celebrações que também já estão a ser preparadas na Baviera. Na expectativa da chegada de Guardiola, o Bayern é cada vez mais campeão. O modelo de Heynckhes, profundamente ofensivo e demolidor, beneficiou da aposta clara do campeão em título, o Dortmund, na edição deste ano da Champions League. O atraso pontual dos homens do Rhur é insalvável (15 pontos) e todos, na Bundesliga, estão conscientes de que a luta muda agora para os palcos europeus onde os dois clubes têm boas perspectivas de se cruzarem mais à frente. Em Itália, são conscientes de que a Europa é um sonho quase utópico num campeonato em reconstrução moral e financeira. A Juventus continua a demonstrar ser o mais aplicado dos alunos, e depois de ter vencido a primeira liga em oito anos à base de uma regularidade espantosa (15 empates em 38 jogos), continua a ser um osso duro de roer. Napoli e Lazio são os surpreendentes perseguidores, com os grandes de Milão de novo em modo autodestrutivo, e ninguém imagina, sobretudo depois das vitórias nos duelos directos entre o líder e perseguidores, que a Vechia Signora vá perder um campeonato com uma vantagem pontual de cinco e onze pontos, respectivamente.

 

Talvez o mais grave, neste cenário, não seja a inevitabilidade de ter os campeões das principais ligas do continente decididos a três meses do final da temporada. O problema é mais profundo. A qualidade de jogo dos quatro, a sua excessiva dependência em génios individuais (salvo no caso do Bayern), e a profunda decadência futebolística dos seus mais directos e habituais perseguidores (Real Madrid, Valencia, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Schalke 04, AC Milan, Inter), deixa claro que apesar de se baterem cada vez mais recordes, a qualidade do futebol europeu dista muito de estar a passar pelos melhores momentos. Urge uma mudança de ciclo, clara e evidente, um novo puzzle de sensações, momentos e protagonistas que volte a devolver à Europa os seus grandes clubes nas suas melhores versões.



Miguel Lourenço Pereira às 16:54 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 16.01.13

Poucas figuras geram tanta admiração genuína no universo do futebol contemporâneo como Pep Guardiola. O filho mais popular da Masia, aquele que melhor entendeu uma mensagem de quase um século, que deambulou pela Europa até descansar em Barcelona, opta agora por voltar às origens. Guardiola é o grande sobrevivente da escola centro-europeia. Com o Bayern Munchen regressa à bacia do Danúbio, onde tudo começou.

Não foi propriamente em Munique, mas seguindo a corrente do Danúbio, que por ali passa perto, que o futebol europeu ganhou vida.

Os ensinamentos de Jimmy Hogan, a doutrina de Hugo Meisl, os debates nas casas de café de Viena, a multi-etnicidade do império austro-húngaro semeou as ideias que foram inicialmente forjadas na Escócia e que driblaram a escola inglesa para tornar-se no modelo continental por excelência. Das margens do Danúbio, essas ideias voaram para leste e mergulharam em Kiev e para oeste onde encontraram o paraíso em Amesterdam. Foi aí que se começou a gerar a paternidade do Barcelona actual, entre os ensinamentos de Michels e as lições aprendidas de Cruyff. Quando ambos chegaram a Barcelona, encontraram-se com Laureano Ruiz e tudo fez sentido uma vez mais.

Josep Guardiola tinha acabado de nascer e com ele uma nova forma de encarar o futebol.

Quando assumiu as rendas da equipa principal do Barcelona até a sua sombra desconfiava. Um primeiro jogo e uma derrota, frente ao Numancia, seriam a prova viva de que há vida para lá dos resultados imediatos. Guardiola meteu a mão no baú e recuperou não só a herança recente do cruyffismo, que a gestão pouco autoritária de Rijkaard tinha perdido, como foi mais atrás na história. Bebeu futebol como poucos, falou com os mentores, viu as imagens do passado e resgatou ideias que plasmou no seu caderno mágico. Com ele o Barcelona foi o Dream Team de Cruyff. Mas também foi o Barça das Cinco Copas, também foi o Ajax do Total Voetball, também foi a Aranyascap húngara, também foi o Brasil de 70, La Máquina do River e a herança do Wunderteam.

A cada toque de bola no meio-campo do Barcelona era a história que voltava à vida. Messi fez de Hidgekuti, de Pelé, de Di Stefano. A Xavi a bola acarinhava-o como fazia com Gerson ou Suarez e Sindelaar, Kubala e Rivelino transmutaram-se num jogador quase albino nascido nas profundezas manchegas chamado Iniesta. Esse trio mágico ajudou o Barcelona a posicionar a coluna vertebral do seu futebol correctamente depois de um período de caminhadas forçadas e curvadas de olhos no chão. Desafiou o Mundo primeiro e a posteridade depois. E venceu.

 

A chegada de Guardiola a Munique representa o regresso a essas origens, o ciclo que se completa.

Mas é também uma decisão com olhos postos no futuro. No mais imediato e no mais longínquo.

Pep sonha com ser o sucessor de Alex Ferguson em Old Trafford. É absolutamente normal. Não se trata só do clube mais bem organizado do Mundo como a cultura futebolística dos Red Devils não tem igual. Desde Busby que é um local de lenda absoluta e tem os meios financeiros para manter-se na elite. Uma formação que pode nutrir a equipa principal e uma geração que daqui a três anos chegará praticamente ao seu final. É aí que Ferguson quer dizer adeus. Ele adia desde 2002 a sua retirada mas sabe que não aguentará mais do que um triénio da máxima exigência. Falou com Guardiola várias vezes no último ano e prefere o seu perfil, educado, futebolisticamente culto e ambicioso ao de um José Mourinho de quem é, não obstante, amigo pessoal. Guardiola seria o gentleman que Busby sempre foi, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas até 2016 o génio de Guardiola tinha de voltar aos terrenos de jogo. Um ano sem um dos mais importantes pensadores recentes do futebol já é sofrimento suficiente. E claro, se sonhas treinar o Manchester United não ajuda ter no curriculum uma passagem recente por Manchester City ou Chelsea, para dar dois exemplos mais endinheirados, ou Arsenal e Liverpool, clubes cuja filosofia e a de Guardiola são similares.

Sem Inglaterra como destino, Guardiola tinha poucas opções. Mas ao contrário de outros, nunca foi um homem interessado no aspecto financeiro do jogo e a oferta do PSG, que alguns equacionam, foi rapidamente descartada. A do Milan também mas, por outro motivo. Em Itália Guardiola acabou a carreira de jogador e viveu os seus piores momentos. Foi acusado de doparse, declarou-se inocente e demorou meia década a prová-lo em tribunal. É um país que não traz as melhores recordações. E Berlusconi um homem que, apesar de tudo, não lhe inspira confiança.

E é aí que entra o Bayern Munchen.

Outros treinadores descartariam o Bayern porque não tem o mesmo glamour de outros clubes europeus. E no entanto poucas instituições venceram tanto na história como eles. Poucas instituições são tão bem geridas - desde a formação até ao departamento financeiro - como eles. Poucos clubes podem ambicionar manter-se na elite durante tantos anos sem com isso destruir o orçamento à base de compras milionárias, como eles. O Bayern Munchen é o herdeiro da escola centro-europeia e ao longo dos anos 70 demonstrou-o plenamente. Depois entrou numa espiral que o fez duvidar da sua própria natureza. A imprensa chamou-o Hollywood FC. Durante essa era dominaram a Bundesliga mas perderam prestigio na Europa. E aprenderam a lição. Desde há uma década que são, a par do Barcelona, o clube perfeito em vários níveis.

No Allianz Guardiola terá à sua disposição talvez o terceiro melhor plantel do mundo. Estão lá Neuer, Luis Gustavo, Javi Martinez, Schweinsteiger, Kroos, Ribery, Robenn, Shaquiri, Gomez, Lahm, Boateng, Badstuber, Dante e companhia. Tem uma formação repleta de promessas imensas como Emre Can. Tem um bloco sólido de directivos que conhecem o clube de lés a lés. E jogam na liga mais emocionante e em ascensão do futebol europeu. Não se pode pedir mais.

 

Com Guardiola ao leme o Bayern Munchen pode perfeitamente lograr o que van Gaal e Heynckhes não conseguiram. Já não se trata só de recuperar a hegemonia interna - em cinco anos três títulos nacionais são uma óptima média - mas também regressar à glória europeia. O plantel tem todas as condições para assimilar a filosofia de toque, posse e ambição do treinador catalão. Não é a cultura do kick-and-rush inglesa, não é um balneário cheio de prima-donas pagos a peso de ouro, é um clube com uma profunda cultura futebolística. A mesma que passeou-se do Danúbio até Barcelona, a mesma que se ensina na Masia com paixão. A mesma que Guardiola entende como mais ninguém!



Miguel Lourenço Pereira às 17:24 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 10.08.12

poucos guarda-redes com tanta projecção de futuro actualmente como o alemão Marc-André Stegen. Num país desenhado à base de grandes números 1, desde Tilkowski a Manuel Neuer, o homem que defende as redes do Borussia Monchengladbach é mais um desses nomes para a posteridade. Se a sua equipa entrar na fase de grupos da Champios League, Stegen terá uma oportunidade de ouro para consagrar-se como um dos melhores do continente.

 

Não chegou ao último Europeu, nem como terceira opção de Joachim Low mas ninguém duvida que é o homem do futuro

Apesar da juventude de Neuer e da classe de René Adler, dois dignos rivais, a projecção de futuro de Stegen é inquestionável. Na história do futebol alemão é raro que um guarda-redes se aguente nas redes da selecção absoluta mais do que meia dúzia de anos. Apesar da longevidade daqueles que ocupam a posição nuclear no sector defensivo, isso permitiu aos alemães conhecerem grandes guardiões da mesma geração. Aconteceu com Schumacher e Immell. Com Kopke e Illgner. Com Kahn e Lehman. Com Adler e Neuer. E agora Stegen pede para ser o próximo da lista.

Com 20 anos apenas o futuro é mais do que radiante. São 30 jogos na mais alta competição em dois anos ao serviço do Monchengladbach, período em que fez parte da profunda transformação de um clube histórico numa potência reconvertida. Ao serviço de Lucien Favre, o guardião tornou-se no pilar defensivo de uma equipa que se fez notar pela qualidade do seu ataque com Reus, Camargo, Hanke e Arango. E que acabou por se revelar fundamental na corrida da passada Bundesliga que terminou com um histórico quarto lugar, o melhor posto do clube em três décadas.

 

Com 1m89, Stegen corresponde fisicamente ao estereótipo de guarda-redes alemão.

Imponente, domina a área com uma autoridade inaudita num jogador tão jovem, e a sua capacidade de reacção fez-se notar, sobretudo nos momentos mais complicados da última temporada. Depois de superar definitivamente a concorrência do igualmente promissor belga Logan Bailly, a sua capacidade de liderança ficou evidente no primeiro jogo da época, o seu primeiro duelo com Neuer. O Bayern Munchen, que tinha preferido o ex-número 1 do Schalke 04 ao homem de Monchengladbach, perdeu com um erro da sua nova contratação e Stegen parou tudo o que havia para parar, garantindo o precioso triunfo de 1-0. Foi a primeira de muitas vezes que o guarda-redes salvou a equipa.

Depois do sofrimento da época de estreia, com o duelo nos play-offs que garantiu a manutenção do clube, ter Stegen transformou-se num dos homens da liga levando a maior glória alemã nas redes, Sepp Maier, a compará-lo com Neuer com a substancial diferença da idade que joga a seu favor. Eleito no onze ideal da Bundesliga por vários especialistas, foi abordando por alguns clubes ingleses no mercado de transferências mas deixou claro que o primeiro objectivo é estabeleceres como figura chave em Monchengladbach.

 

Na realidade do futebol alemão, e com o lugar no Allianz Arena reservado para os próximos anos, é difícil ter Stegen encontrar melhor sitio para continuar a crescer. Mas ninguém duvida que, mais cedo que tarde, o protagonismo que agora tem o polémico Neuer passe progressivamente para um guarda-redes que se desvia das polémicas com a mesma facilidade com que desvia remates às redes. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:57 | link do post | comentar

Terça-feira, 22.05.12

O segundo titulo consecutivo do Borussia de Dortmund é um feito histórico no futebol alemão contemporâneo e a prova viva de que no Westfallen a lição de 2001 foi bem aprendida. Jurgen Klopp manteve-se fiel à ideia que fez do Dortmund uma das equipas mais atractivas do futebol europeu no ano passado e com isso lançou as bases para manter um troféu que a meio da época parecia que voltaria ás mãos do Bayern Munchen. Os bávaros disputaram taco a taco o titulo com os campeões mas viram-se superados pela maior eficácia dos homens do Rhur que estiveram 17 longas jornadas sem conhecer o sabor da derrota.

Quando o Dortmund perdeu o seu último jogo na Bundesliga, a equipa de Klopp seguia no 11º lugar e parecia a caminho de uma época para esquecer. O quarto lugar num grupo da Champions League acessível, a incapacidade de Gundugon de substituir com classe o talentoso Sahin e a irregularidade na prova nacional eram maus presságios. Mas essa última derrota, no Outono, antecipou uma cavalgada histórica liderada por Shinji Kagawa e secundada por actores de luxo, de Hummels a Bender, de Lewandowski a Gotze. O Dortmund não perdeu mais, encadeou 17 vitórias consecutivas, bateu o rival directo pelo titulo e sagrou-se campeão antes do último suspiro. 

Um triunfo histórico não só porque contraria a tendência recente do futebol alemão como foi realizado com o esqueleto da equipa do ano transacto mas sem Sahin, vendido ao Real Madrid, e com Mario Gotze largos meses fora do onze. O popular técnico do conjunto amarelo provou ser fiel ao seu estilo e aos homens que foi lançando às feras nas últimas três épocas e a resposta foi um futebol de alto calibre, uma eficácia tremenda e uma superioridade moral confirmada por duas vitórias num mês diante do Bayern, primeiro para a Bundesliga e depois por 5-2 para a final da Taça da Alemanha. 

Meritório titulo do Dortmund que volta a ter a Europa como desafio pendente para a próxima época, Europa onde melhor se moveu o Bayern Munchen. A ilusão de disputar a final do torneio no seu próprio estádio tornou-se numa obsessão para um clube que viveu um ano mais tranquilo com Jupp Heynckhes ao leme. Mesmo assim a lesão de Schweinsteiger, a baixa de forma de Muller e as discussões entre Ribery e Robben acabaram por contribuir para os pequenos, mas significativos, tropeções dos bávaros quando ainda lideravam a prova. Depois de ultrapassados pelo Dortmund, aos homens de Munique a perseguição transformou-se num pesadelo e as atenções viraram-se, sobretudo, para a Champions League.

 

Sempre perto e sempre tão longe deste duelo, a bela época de Borusia Monchengladbach e Schalke 04 não pode passar desapercebida. Sobretudo porque são dois projectos distintos mas que demonstram, à sua maneira, a maturidade da Bundesliga. Os mineiros do Rhur continuam na politica equilibrada de apostar na formação local misturando-a com valores importados a preço de custo como foi o caso de Raul e Huntelaar, peças chave no terceiro posto alcançado. Em Monchengladbach a aposta na juventude é evidente e seguramente terá o seu preço, mas a qualidade de jogo dos homens de Favre durante largos meses da prova foi insuperável.

A completar os postos europeus não houve lugar para campeões recentes como o Wolfsburg ou Werder Bremen, ainda assim a viver épocas mais tranquilas do que nos têm acostumado, mas sim para Bayer Leverkusen (bom ano apesar de tudo) e Stuttgart, a pouco e pouco a voltar às posições altas da tabela.

No lado oposto confirmou-se a falta de ritmo de alta competição de um campeão histórico como o Kaiserlautern e a despromoção de um FC Koln que, apesar de Podolski e os seus 18 golos, nunca soube funcionar como colectivo. Rostos amargos de um ano em que se assistiu a mais uma série de jogos inesquecíveis, novos jogadores locais a despontar e, sobretudo, a bancadas cheias e repletas de um dinamismo que confirma que a Bundesliga já ultrapassou a liga inglesa e espanhola em organização e qualidade de jogo. Falta agora no duelo desigual dos palcos europeus, onde as fortunas de poucos clubes de Espanha e Inglaterra dão uma sensação de desnível irreal, que os títulos comecem a dar razão a quem vê na prova germânica o futuro sustentável do futebol europeu. 

 

 

 

 

Jogador do Ano

Shinji Kagawa

 

O japonês foi o eixo central à volta do qual se moveu a engrenagem do campeão. Na ausência de Sahin e Gotze, o primeiro vendido ao Real Madrid e o segundo vitima de uma larga lesão, o nipónico liderou a equipa do Westfallen, marcou e assistiu com regularidade e encheu os relvados com gestos de um génio que, seguramente, para o ano jogará num dos maiores clubes do futebol europeu.

 

Revelação do Ano

Marc ter Stegen

 

3060 minutos de puro talento numa temporada espantosa para a mais jovem e flamante promessa das redes germânicas. 19 anos e a lembrança de uma escola que conta com gigantes como Maier, Schumacher, Ilgner, Kopke ou Kahn para seguir, ter Stegen não só foi um dos baluartes da grande época do Borussia Monchengladbach como também poderá ter o escaparate europeu da próxima época que precisa para dar o salto para um dos grandes do Velho Continente.

 

 

Onze do Ano

 

Manuel Neuer confirmou-se como um dos melhores guarda-redes do futebol europeu na sua primeira época em Munique. Na defesa jogam Lukas Piszceck (Borusia Dortmund), Matts Hummells (Borusia Dortmund), Kyriakos Papadopoulos (Schalke 04) e David Alaba (Bayern Munchen), um quarteto jovem, dinâmico e com uma profundidade ofensiva tremenda.  

 

O miolo é de Kagawa, motor do campeão, Toni Kroos, a grande surpresa deste Bayern Munchen e o sensacional Marco Reus, líder indiscutível do surpreendente Monchengladbach. 

 

Mario Gomez e Klas Jan Huntelaar partilham a linha de ataque, reis dos golos na prova, com o polaco Robert Lewandowski a completar um trio de ases do "thor".

 

Treinador do Ano

Lucien Favre

 

Não aguentou o sprint até ao final mas a época realizada pelo Borussia Monchengladbac de Lucien Favre foi tremenda. O técnico responsável pela erupção de verdadeiros talentos em bruto como são Reus, Ter Stegen, Jantschke, Hermman ou Cigergi, montou um onze ofensivo, atractivo e tremendamente eficaz. Durante meia parte da época o Monchengladbach pareceu emular a herança histórica da maravilhosa equipa da década de 70 e manteve-se perto do topo da tabela. Acabou em quarto, com opções de disputar a Champions League, e agora caberá a Favre confirmar que, sem Reus e com os focos nos seus jovens talentos, o projecto tem pernas para andar. 



Miguel Lourenço Pereira às 23:27 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21.05.12

A partir de hoje e até ao próximo dia 1 de Junho o Em Jogo dedica a sua programação em exclusiva à análise das seis principais ligas do futebol europeu.

 

Um pequeno resumo, eleição do Melhor Jogador, Treinador, Onze e Revelação do Ano e as imagens que marcaram a temporada 2011/12 em Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália e Portugal.

 

Bem vindos, ao Em Jogo!

 




Miguel Lourenço Pereira às 15:29 | link do post | comentar

Domingo, 20.05.12

Teria sido uma das grandes injustiças da história das provas europeias (e houve algumas) se este projecto chamado "Chelski" nunca tivesse tido direito a vencer uma Champions League. Que uma geração onde militam alguns dos nomes próprios da última década tivesse visto a glória passar. Sobretudo, que um gigante como Didier Drogba, tivesse de sentar-se de novo no relvado de mãos na cara, desolado. Nove anos depois de arrancar a sua imensa inversão financeira no clube londrino, Roman Abramovich tem finalmente a sua "orelhuda". E o futebol salda assim uma dívida com um clube que tinha atrás de si já uma final e quatro semi-finais perdidas às costas desde que tudo começou.

Juan Mata remata mas Manuel Neuer, esse panzer de olhar frio, defende.

Parecia Moscovo outra vez, parecia que o destino realmente tinha dito ao Chelsea que a glória futebolística era coisa a que não poderia ambicionar. Por muito dinheiro gasto, por muitos jogadores top, por muitos técnicos carismáticos. O sofrimento era a única palavra transversal nesta história. Mas o futebol tem destas coisas. Não significa que ganhe sempre quem mereça - e por futebol jogado o Bayern Munchen pareceu ser sempre uma equipa mais solvente - nem sequer quem jogue mais bonito. Não se trata nada disso. 

Da mesma forma que a Itália em 2006, foi a justiça colectiva a quem o futebol prestou homenagem no Allianz Arena. E nem um grande como Neuer podia desafiar o destino desta maneira. Depois da sua defesa inicial, a relembrar a meia-final contra o Real Madrid, os adeptos começaram a fazer contas. Nunca o Bayern tinha perdido um jogo em penaltys na Europa. Nunca o Chelsea tinha ganho um. Era assim de fácil. 

Mas marcou David Luiz. Mas marcou Lampard. Mas marcou Cole. E de repente não havia Terry à vista para escorregar outra vez e pelo caminho era Petr Cech, o mesmo que tinha parado no prolongamento um penalty a Arjen Robben - o maldito - quem se tinha tornado no herói da noite. Defendeu o remate frouxo de Olic e desviou com o olhar o tiro de Bastian Schweinsteiger. Jamais esquecerei esta final pelo rosto de "Schweini", pela segunda vez derrotado numa final europeia. A ele (e a Lahm) também há uma dívida por pagar. Mas este Bayern é um projecto solvente suficiente para voltar, mais cedo que tarde, para cobrar o que é devido.

Cech tinha defendido o que ninguém contava. E no final de contas o Chelsea tinha, outra vez, a possibilidade de sagrar-se campeão da Europa com o derradeiro penalty. Anelka, na China, deve ter agradecido que a pressão fosse para outro. Mas Didier Drogba não entende dessas coisas. Ele é o grande vencedor do ano. O seu olhar define a temporada futebolistica de um clube que se apoiou nele, mais do que nunca, para atravessar o purgatório. Desprezado pela directiva, roubou a titularidade a Torres, convenceu Villas-Boas da sua utilidade, tornou-se na referência ofensiva de Di Matteo e só, contra o mundo, ajudou a derrubar a mitologia blaugrana. Na final, esse jogo que tanto tinha atravessado, foi o protagonista absoluto. Pelas bolas que cortou na defesa, pela raiva com que liderou cada ataque. Pelo golo que empatou o jogo, a três minutos do fim. Pelo penalty que cometeu, infantilmente sobre Ribery, lesionando o francês, até então o melhor do ataque bávaro. Aquele momento pertencia-lhe por direito. E se a história devia algo ao Chelsea, devia muito mais a Drogba. Neuer devia sabê-lo, apenas se mexeu, o fatalismo do momento era evidente. A taça esperava os braços do marfilhenho, a história queria-o hoje mais do que nunca e a bola rasgou as redes na imaginação de milhões de espectadores. Caiu no relvado e sorriu. Drogba corria para a posteridade!

 

Futebolisticamente não foi a final mais apaixonante, mas foi seguramente uma das mais intensas.

Ambas as equipas comportaram-se da mesma forma como tinham feito nas meias-finais. O Bayern quis a bola e o domínio do jogo. O Chelsea preferiu controlar o espaço e aproveitar a velocidade para fazer a diferença. Não foi um jogo de K.O., no futebol quase nunca o é. Foi um combate a pontos que acabou empatado. Apesar do recorde histórico de cantos para os bávaros a bola rondou Cech e teimou em não entrar. O jogo pelas alas, bem tapadas por Bosingwa e Kalou na direita e Cole e Bertand na esquerda, tornou-se ineficaz e Robben e Ribery foram forçados a procurar diagonais que esbarravam com o muro que derrotou o Barcelona. 

Nenhum dos seus remates encontrou perigo e demasiadas vezes o excesso de pernas de jogadores azuis confundia o jogo de passes entre Gomez, Muller, Kroos e Schweinsteiger, o eixo central da ideia de Heynckhes. Tacticamente o treinador alemão não encontrou forma de furar o bloqueio e faltou talvez paciência para atrair o conjunto inglês da sua toca. Entretanto o tempo passava, os corpos perdiam forças, a cabeça clarividência e o Chelsea, matreiro como só um treinador italiano pode ser, começou a morder. A  pouco e pouco os contra-golpes venenosos assustavam, faziam os alemães correr mais do que as pernas podiam e davam a sensação de um perigo maior do que seria de supor. Durante oitenta minutos a troca de golpes foi-se equilibrando. Nenhuma ideia era capaz de bater a outra e a verdade é que nenhum dos bandos parecia disposto a mudar o guião. Até que apareceu Thomas Muller.

Depois de uma época uns furos abaixo do que demonstrou em 2010, o ano da sua explosão, Muller viu-se na final num papel incómodo. A sua posição natural tem sido ocupada por Robben e Kroos e ali, com o médio recuado para cubrir a baixa de Luiz Gustavo, sentiu-se perdido. Mas o seu sentido de oportunismo é único e depois do enésimo ataque, a bola sobrou-lhe e com um golpe cheio de imaginação, bateu Cech como a um guarda-redes de andebol. Faltavam sete minutos, o Allianz Arena celebrava já o quinto titulo europeu, o argumento de um ano mágico parecia ter sido escrito em alemão.

Só que Drogba, esse monstro que deveria terminar o ano com um mais do que merecido Ballon D´Or, ainda não tinha dito a última palavra. Nem cinco minutos, tempo suficiente para Heynckhes cometer o erro de tirar ao autor do golo alemão, e o Chelsea empatava. A desilusão na cara dos germânicos dizia tudo. Um clube habituado a perder finais, incapaz de ganhar uma final a equipas ingleses, parecia ver o rosto fatídico do destino na cara do africano. E veio o prolongamento, e o penalty a Ribery e o falhanço de um Robben que se começa a fazer notar pelos falhanços nos momentos decisivos da sua vida, ele que fez parte do melhor Chelsea da história, ao lado do núcleo duro contra quem jogou hoje. Depois desse momento ficou claro que, tarde ou cedo, os ingleses sairiam vencedores. Parecia evidente que a história tinha decido fazer com eles o que se tinha esquecido com o Monchengladbach dos anos 70, o Real Madrid dos anos 80 ou o Arsenal de Wenger. Justiça. 

O relógio continou a correr, os penaltis chegaram, inevitáveis, e Drogba decidiu que nove anos de espera eram demasiados. 

 

Pode parecer curioso que o pior Chelsea desde que Abramovich chegou, em plena era Ranieri, tenha logrado o que nem Mourinho, Grant, Hiddink ou Ancelloti conseguiram. Se é certo que o Bayern não foi hoje tão eficaz como contra o Real Madrid e muito mais parecido ao que tremeu nos momentos decisivos da Bundesliga, também é verdade que o jogo dos ingleses voltou a assemelhar-se mais à herança do catenaccio do que, propriamente, à escola de futebol espectáculo que o russo tanto aprecia. Mas o magnata já tinha tentado de todas as maneiras e o troféu, de uma forma ou de outra, tinha-lhe sempre escapado. A vitória de hoje é mais sua do que ninguém, pela insistência em não deixar nunca de procurar lograr o seu objectivo. Foi o triunfo de uma geração histórica do futebol inglês, de alguns dos seus melhores jogadores, de um lider espiritual que pode muito bem ser considerado como um dos maiores (ou o maior) futebolista africano da história. E foi, mais do que isso, o triunfo de um sonho sobre qualquer ideário táctico, cultura futebolística ou projecto pessoal. Vencer a Champions League dá ao Chelsea finalmente o pedigree que lhe faltava, o primeiro clube londrino a vencer o troféu, o quinto inglês em lograr o feito. Talvez sirva para dar tranquilidade ao clube, tempo para crescer noutros moldes, uma maior aposta no jogo e na formação do que nas ânsias e o livro de cheques. Abramovich tem a palavra, a sua geração pode partir agora com a sensação do dever cumprido. E o futebol saiu do Allianz Arena mais aliviado mas com a consciência de que sempre haverá alguma divida moral por saldar.



Miguel Lourenço Pereira às 00:30 | link do post | comentar

Segunda-feira, 23.04.12

Poucas equipas jogam de forma tão convincente no futebol europeu como os homens do Westphalen. E no entanto poucos se atreveriam a sonhar com um Bicampeonato que não acontecia desde 1996. Mesmo desiludindo na Europa e sem o mentor de jogo da brilhante época passada, os jogadores de Jurgen Kloop foram eximios em provar que deles é o rosto de uma nova era no futebol alemão. Muitos não se deram conta da importância do feito, mas este pode ter sido o primeiro passo para o futebol germânico deixar de ser um monólogo institucional.

O Borussia de Dortmund venceu duas ligas consecutivas apenas uma vez na sua história antes da tarde do último sábado.

Foi entre 1994 e 1996 que Ottmar Hitzfeld resgatou um clube histórico da mediocridade e o transformou num potentado europeu. A equipa de Kolher, Riedlle, Heinrich, Herrelich, Chapuisat e companhia não desafiou o dominio interno de um Bayern Munchen em profunda crise moral como se transformou no terceiro clube alemão a proclamar-se campeão europeu, depois dos bávaros e do Hamburg, na final de Munique em 1996 frente à Juventus de Turim. Dezasseis anos depois os homens do Ruhr voltaram a celebrar um bicampeonato (em 2002 também se sagraram campeões, antes de cair na dura bancarrota) mas o mais curioso é que, desde então, nunca mais nenhum clube alemão se voltou a sagrar bicampeão. Também é verdade que antes da gesta do Dortmund, era preciso recuar a 1983 para encontrar outro bicampeão alemão, o Hamburg, outra equipa que confirmou o dominio nacional com um titulo europeu. São 30 anos de história em que, apenas por duas vezes, o titulo ficou nas mãos de quem o detinha. A não ser que o clube fosse o Bayern Munchen.

Os bávaros eram uma equipa de prestigio antes dos anos 40 e viveram duas décadas na obscuridade até que Franz Beckenbauer os liderou da 2.Bundesliga à glória mundial em meia dúzia de anos. Desde 1969 que o clube de Munique conquistou 21 titulos de campeão. Nesse periodo de tempo logrou por três vezes um Tricampeonato e por outras três vezes um Bicampeonato. Um monopólio ensurdecedor numa das ligas que apresenta um maior número de diferentes campeões do Mundo. Desde esse 1983, dessa dobradinha dos homens de Hernst Happel, que foram campeões alemães oito clubes diferentes, dos quais apenas o próprio Hamburg e o Wolfsburg não lograram repetir, mais tarde no tempo, o seu primeiro troféu. Uma poderosa classe média a que teriamos de juntar Schalke 04 e Bayer Leverkusen, os eternos segundos dos últimos 20 anos, e projectos que o tempo destroçou como o Eintracht Frankfurt dos anos 90 ou o Hertha Berlin do inicio da década passada. Mas sobre todos eles sempre pairou a sombra do Bayern Munchen. Quando a época arrancou poucos imaginavam que fosse este Borusia Dortmund a equipa capaz de quebrar esta malapata. Especialmente tendo em conta o potencial do plantel dos bávaros, confirmado com a sua presença na meia-final da Champions League, algo que pode ser histórico caso Jupp Heynckhes e os seus aguentem a investida do Real Madrid no jogo de quarta-feira.

 

Por isso mesmo este titulo do Dortmund é ainda mais relevante que o da temporada passada.

Em 2011 Kloop montou uma equipa com um futebol tremendo e com uma juventude extasiante mas muitos viam nos homens de amarelo apenas uma moda passageira que o mercado e a tirânia bávara trataria de destroçar. O timido arranque de campeonato e a péssima performance na Champions League pareciam adivinhar isso mesmo. A equipa sentia a falta do critério de Nuri Sahin, a grande incógnita desportiva do ano, e os golos tardavam em chegar. Parecia que o Bayern Munchen apenas teria de aguentar a concorrência de outro Borusia rejuvenescido, outro velho rival, o de Monchengladbach. 

Mas Jurgen Kloop demonstrou ser um estratega eximio. Só lançou definitivamente Ilkay Gundogan quando este mostrou poder oferecer algo similar ao que aportava Sahin. Entregou o jogo ao génio precoce de Mario Gotze, nunca desistiu da verticalidade de Kevin Groskreutz e trocou os golos de Barrios pela eficácia de Lewandowski. A aposta foi ganha. O equilibrio de Perisic, Hummels, Subotic, Kehl e Bender foi fundamental na reviravolta tanto como o génio criativo do ataque. O Dortmund manteve-se fiel ao seu estilo de jogo ofensivo, não se veio abaixo nos tropeções e de repente encontrou-se só na liderança. A partir daí foi só gerir os tempos, lidar com o ataque desesperado do Bayern, derrotá-lo no confronto directo e contar as horas. Sem gastar as fortunas do passado, o clube entendeu que o modelo a seguir tinha de ser o mesmo que levara um clube a viver a sua pior hora financeira aos milhões da Champions. O pouco dinheiro ganho na Europa ajudou a sanear as contas, a impedir a saída dos melhores jogadores e a captivar algumas das novas promessas teutónicas. Marco Reus promete ser, no próximo ano, um reforço de luxo, algo que nem o eterno rei do mercado alemão conseguiu captivar a juntar-se aos Schweinsteiger, Muller, Robben, Ribery e companhia. Se Mario Gomez foi o homem golo, Mario Gotze foi o jogador mais completo que passeou a sua classe pela prova ao longo dos nove meses de competição, provando certa a ideia de Kloop em deixar sair Sahin sabendo que ficaria com um jogador menos constante mas muito mais incisivo no jogo de ataque. Á sua volta o espirito coral do Dortmund não destoou e os números não enganam. Os 25 jogos imbatidos do homens de Dortmund são cartão de visita suficiente para acreditar na solvência do seu projecto.

 

Apesar dos milhões que gravitam à volta do Allianz Arena fazerem, justamente, o Bayern o eterno favorito da próxima temporada, ninguém se atreve agora a pensar duas vezes antes de colocar o bicampeão à sua altura moral. É possível que Jurgen Kloop queira emendar a mão e apostar forte nos palcos europeus, com os consequentes ganhos financeiros que tanta falta fazem no Westphalen. Mas a Bundesliga sabe que está perto de viver um ano histórico, o primeiro desde 1977 quando pela última vez um clube que não o monstro de Munique, o Borusia Monchengladbach, venceu três campeonatos de forma consecutiva. A história é traiçoeira mas um petisco apetecível, algo que Klopp seguramente não vai querer deixar de provar.


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Miguel Lourenço Pereira às 18:59 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 15.04.12

Se algum dia perdeu alguns breves minutos do seu dia a ouvir um tema interpretado pelo alucinante Charlie Parker Jr, então sabe perfeitamente como joga Arjen Robben. O extremo holandês é no tapete verde a alma do gigante jazzmen em palco. Um talento inigualável que se perde em cada nota auto-destructiva e sublime, uma melodia in crescendi que rasga a alma e deixa a nu toda a pureza do herói solitário. Robben nunca chegou à altura da fama de Messi como Parker acabou eternamente desconsiderado face a Miles Davis. Mas no mundo há sempre aqueles que preferem aos mitos os mais loucos imortais.

 

O escritor uruguaio Eduardo Galeano dizia que gostava mais de Garrincha do que de Pelé porque acreditava no Homem e não em Deus.

Robben pode nunca ter chegado ao patamar da divindade futebolística por diversos motivos. Mas a sua carreira, como a do "anjo das pernas tortas", é um fiel retrato da genialidade auto-destructiva, pelo carácter e por um corpo inadaptado às exigências da máxima competição desportiva. Em 2007 o presidente do Real Madrid de então, Ramon Calderon (a quem a história nao guardará num lugar digno) declarou que Robben era melhor que Messi. Entre arma eleitoral e orgulho, a frase não era nenhuma mentira. Pelo menos em 2007. Cinco anos depois as carreiras de ambos extremos partiram à mesma velocidade para destinos bem distintos.

O swing de Arjen destroçou as defesas de La Liga antes do regate messianico do argentino, mas as pernas do holandês de cristal foram, desde o primeiro dia, o seu karma pessoal. Um problema que se fazia notar no seu arranque profissional, no modesto Gronigen, e que se prolongou até Munique onde faz sentir os últimos gritos da sua suprema genialidade. Como Charlie Parker, a quem Clint Eastwood e Forrest Whitaker imortalizaram num dos grandes dramas do cinema americano, Bird, a regularidade nunca foi algo que o holandês encontrasse atractivo. Os seus altos e baixos não surpreendiam ninguém e eram, de certa forma, como as explosões de génio e as longas depressões do musico, uma das suas imagens de marca.

Ninguém parece lembrar-se que Arjen Robben tem apenas 28 anos já que há largos anos que muitos vaticinam o seu obituário desportivo tantos tên sido os seus problemas em manter-se na máxima forma. No entanto, quando está na máxima forma, há poucos jogadores que tenham tanto futebol nos pés como o swinger holandês. A forma como o seu corpo balanceia sobre a pista, rompendo com qualquer cânone físico, ainda é uma das imagens mais excitantes do futebol contemporâneo, de tal forma que o seu estilo inimitável, mesmo num país de artistas como é a Holanda, ainda nao encontrou um sucessor à sua altura.

 

Robben tem este ano talvez a sua última grande oportunidade de sagrar-se campeão europeu.

Nem em Londres, nem em Madrid chegou tão longe como quando aterrou em Munique. O seu compatriota Louis van Gaal entendeu que o génio de Frank Ribery e a arte da improvisação de Robben funcionava melhor virando o mundo ao contrário. Trocou-os de extremo, soltou o diabo Muller e logrou uma época quase perfeita. Robben topou-se com o seu antigo mentor, José Mourinho, e o seu amigo Wesley Sneijder, e no regresso aos céus de Madrid sofreu a mais dura das suas derrotas. Na altura já lhe profetizaram o adeus aos grandes momentos europeus mas dois anos depois eis que aí anda ele, outra vez, á solta, com sonhos de desforra com a história.

A meia-final entre o Chelsea e o Barcelona pode relembrar as polémicas arbitrais recentes. O jogo entre Real Madrid e Bayern Munchen tresanda a futebol por todos os poros. Os merengues foram vitimas da máquina assassina de Franz Beckenbauer e Gerd Muller em 1975 e depois a Quinta del Buitre voltou a sentir na pele o difícil que é defrontar os bávaros na década de 80. Nos últimos dez anos o jogo entre merengues e germânicos tornou-se um clássico da Champions com vencedores para todos os gostos. Para Robben nao é só um reencontro com Madrid e com Mourinho. É uma divida que tem consigo mesmo.

Do jovem que explodiu no Groningen em 2002 sobra pouco. A sua passagem pelo PSV (naquela extraordinária equipa de Guus Hiddink) e depois pelo Chelsea amadureceram o seu jogo e mostraram-no ao mundo como o melhor jogador brasileiro depois de Ronaldinho. Apesar de Robben ser tao branco e holandes como Mark van Bommell, o seu espírito de sambódromo no relvado marco a diferença num Chelsea tantas vezes hermético e trouxe esse toque de classe a uma Holanda sempre bela mas poucas vezes pragmática. A ironia do destino fez com que fosse ele a falhar diante de Iker Casillas o golo que valia um Mundial. A ironia do destino fez com que fossem dele as oportunidades que Julio César mais problemas teve em anular nessa final europeia de Madrid. Esse fantasma, como os concertos interrompidos de Charlie Parker, fazem a Arjen sentir-se como um órfão dos grandes flashes, dos que definem carreiras. O seu espírito competitivo nao lhe permite ser recordado com as mãos agarradas ao joelho ou com a bola a roçar a luva do guarda-redes contrário em lugar de beijar as redes do rival. Comparar-lhe com Messi parecia, em 2007, um elogio ao argentino. Hoje sabemos que se tornou numa maldição para o holandês. A história e os amantes do jogo não têm sido justos com este génio irreverente que eleva o futebol à condição de arte undeground sempre que arranca nessa dança de cadeiras onde sabemos no final que ele nunca ficará de pé.

 

Fazer jogos com o que seria se é algo extremamente humano e todos os que ouviram Davis e Parker sabem que uma vida mais regrada e uma alma menos pesada do mítico Bird poderia ter sido suficiente para a história o julgar, lado a lado, ao grande ícone do jazz. Mas isso talvez também tivesse retirado essa pitada de genialidade que sempre fez de Parker alguém profundamente distinto dos demais. Robben caminha sobre as mesmas águas turvas, perde-se igualmente nos seus pesadelos e no entanto, quando ressuscita por um segundo, é tão grande como qualquer outro. Cresce sobre a relva, olha para dentro das redes e pinta a bola com a assinatura. Depois, já todos sabemos onde ela vai acabar. 



Miguel Lourenço Pereira às 02:50 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 05.04.12

Hoje pode ser o seu último jogo nos palcos europeus. Essa frase tem sido repetida até à exaustão desde há dois anos. Mas o mais polémico jogador espanhol da história teima em esconder o segredo da eterna juventude só para si. Se hoje há jogo em San Mamés é porque Raul não se rende nunca e saca os mais apaixonantes artilúgios futebolisticos para desafiar o fantasma da retirada.

Quando Jorge Valdano pegou no miudo de 17 anos a quem chamavam Raúl e o lançou num jogo em La Romareda sentiu que estava a fazer história.

O então técnico merengue referiu-se por diversas vezes ao caracter competitivo de "Rulo". Nunca foi o mais dotado dos jogadores, nunca foi um matador de área, um génio com a bola nos pés, um atleta incansável ou um perito em lances de bolas paradas. Mas sem ser um divino em cada uma destas caracteristicas fundamentais para arriscar entrar na história, foi grande em todas elas. E enquanto os outros se iam perdendo para o tempo e para o corpo que os sustentava, o sete negava-se a desaparecer nos volumes da história.

Os seus dois golos em Gelsenkrichen, a passada quinta-feira, foram a prova viva de que o mesmo jogador que mandou calor o Camp Nou e se tornou em simbolo do Real Madrid continua exactamente igual. O oportunismo de área, o descaro no remate, a contenção na liderança que exerce com uma naturalidade pasmosas. Raúl conviveu com os melhores jogadores dos últimos 20 anos, de Butrageño e Laudrup a Zidane e Cristiano Ronaldo e nunca se deixou sequer atropelar pela imagem de um deles. Quando Florentino Perez, ansioso por construir a sua Galáxia, quis retirar-lhe o sete para entregar o número a Luis Figo, ouviu o que nunca imaginaria ouvir de um jogador de futebol no seu gabinete. Figo foi apresentado com o 10, Beckham com o 23, Zidane foi o 5 e Cristiano Ronaldo o 9. Nenhum deles conquistou os adeptos do Bernabeu, sentou tão bem á imprensa e deixou uma marca tão profunda como o jovem que estava predestinado a ser uma estrela no Atlético de Madrid.

 

Se a carreira de Raúl é um espelho da sua glória e do seu fracasso, dos seus três titulos europeus com o Real Madrid e os seus repetidos erros com a selecção espanhola, é com as cores do Atlético de Madrid e o Schalke 04 que a sua vida desportiva faz sentido como espelho da personalidade de um herói do silêncio.

Raul podia ter emigrado para as Arábias ou para a liga norte-americana quando Florentino Perez, de volta ao trono, lhe fez saber que nem ele nem José Mourinho contavam com os dois filhos predilectos da cantera local, ele e Guti. O inconstante José Maria Gutierrez deixou-se atrair pela música e pelas mulheres turcas mas o profissionalismo absoluto de Raúl levou-o a procurar o melhor para o seu nome profissional. Foi exactamente a mesma decisão que tomou 15 anos antes. Jesus Gil y Gil estava determinado a acabar com a formação do clube para poupar em gastos e fez várias propostas a jogadores locais por valores insignificantes de empréstimos a clubes da região com a eventual promessa de, num futuro, integrar os quadros dos colchoneros. Raúl não gostou dos números, do destino que lhe estava reservado e da palavra de um presidente reconhecido por não a ter em absoluto. Sem vergonha na cara bateu á porta do eterno rival e foi acolhido como um filho pródigo. Quando deu ao clube a sua segunda Taça Interconintental com um golo que se tornaria imagem de marca, já ninguém se lembrava de onde vinha. Quando enfunda a camisola azul do Schalke ninguém se esquece de donde vem um jogador que transformou radicalmente a imagem de uma equipa com potencial mas demasiado irregular para triunfar ao mais alto nível. A sua exibição em Milão levou o Schalke a umas históricas semi-finais da Champions League e só os seus golos impediram o Athletic Bilbao de estar a marcar hotéis e bilhetes para a próxima fase. Ao principio e ao final a sua visão vai mais além do mero futebolista de prestigio. Recusou-se a ser homenageado pela selecção espanhola por despeito á forma como Luis Aragonés fez dele o bode espiatório que permitiu aos espanhóis acabar com a sua maldição desportiva. No fundo ainda acalenta a esperança de voltar a vestir La Roja e os seus números, este ano, posicionam-no como o melhor avançado espanhol do ano. Não será suficiente, nem por muito que o seu amigo Josep Guardiola o declare como melhor jogador espanhol da história, epiteto onde Gento, Suarez, Butrageño e Xavi têm algo que dizer.

 

Ver jogar Raúl sempre foi ver um desporto á parte. O avançado estudas as capas, lê as sequências, salta-se os parágrafos e remata o ponto final com a autoridade de um decano universitário que vê passar pelas suas salas de aula gerações de génios em potência. Sem nunca insistir na mitologia a forma como evitou a odiosa comparação com os seus conterrâneos e o seu agastado fim já lhe vale o reconhecimento de muitos que antes lhe torciam o nariz. Os outros, os raulistas, contam as horas passar temendo que chegue o dia em que a fonte da eterna juventude se esgote e Rulo se canse de ser eterno.  



Miguel Lourenço Pereira às 06:14 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 01.04.12

Num desses gestos de genuina indignação que tantas vezes dão verdadeiro sentido ao universo das claques organizadas, um grupo de adeptos do Schalke 04 mostrou o seu estupor com a politica de preços da directiva do Athletic Bilbao para o jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Europe League. Um cartaz gigante comparou o preço de um jogo de futebol com o de uma chamada de sexo telefónico e não esteve nada longe da verdade. Hoje em dia o preço de um bilhete de um jogo de futebol é uma verdadeira prostituição imoral dos ideais de um jogo que já foi de todos e que agora é de muito poucos.

90 euros. 1 euro por minuto. 

Este é o preço para os adeptos alemães que queiram ir a San Mamés na próxima quinta-feira ver a sua equipa sonhar com uma reviravolta no marcador frente ao magico Bilbao. 1 euro por minuto assemelha-se muito ás chamadas eróticas que enchem os canais televisivos pela noite e as páginas interiores dos jornais. Assemelha-se também a todas as promoções de sms´s que invadem os nossos telemóveis ou o roubo á mão armada em Portugal que são as SCUTS. É o preço de um bilhete de metro em Madrid e de uma garrafa de água em Londres. E no entanto é também o habitual na maioria dos estádio europeus. O futebol que já foi de todos, que se afirmou como fenómeno social e politico por ser de todos, é hoje de uma imensa minoria, aquela que tem dinheiro suficiente para desafiar as razões que a própria razão desconhece.

A indignação veio de um grupo de adeptos alemães talvez porque a Bundesliga é a única, a única, liga europeia que ainda respeita os adeptos. Os preços de um bilhete médio para assistir a um jogo no campeonato alemão anda entre os 10 e os 20 euros e pode custar a sócios menos de essa quantia em variadas ocasiões. É uma liga onde o lugar anual não pode ocupar mais do que 55% dos estádios para garantir que há sempre espaço para os adeptos em geral do clube e para os clubes rivais que costumam deslocar grupos de fãs de mais de 2 mil pessoas todos os fins-de-semana. O lugar anual mais caro num estádio como o Allianz Arena ou o Westfallenstadion pode ser mais barato que o mais barato dos lugares anuais no Camp Nou, Old Trafford, San Siro ou Santiago Bernabeu. Talvez por isso a percentagem mais elevada de lotações esgotadas esteja na Bundesliga. Talvez por isso o futebol alemão viva um novo esplendor, dentro e fora do campo. Talvez por isso, como em tantas outras coisas, os alemães sigam por um caminho racional enquanto o resto da Europa se empenha a utilizar o público em geral para pagar as loucuras de uns poucos. Os adeptos do Schalke 04 conhecem bem os estádios europeus, são presença assídua nas provas da UEFA, mas segundo o porta-voz dos adeptos do clube nunca tiveram de pagar tanto por tão pouco, nem mesmo quando viajaram a Old Trafford nas meias-finais da Champions League da época passada onde o preço mais caro de um bilhete era de 60 euros.

 

Espanha, como em muitas outras coisas, vive no extremo do descontrolo financeiro.

Os clubes da "Liga de las Estrellas" devem mais de 1500 milhões de euros ao estado e a maioria deles está (ou se não está pouco falta) perto da falência técnica. Os novos estádios do Valencia e Atlético de Madrid estão há anos parados. O Deportivo, histórico galego, afundou-se na segunda depois de destroçar todo o rendimento acumulado desde o inicio dos anos 90. O mesmo sucede com Villareal, Mallorca, Bétis ou Real Sociedad. O dinheiro estrangeiro salvou o Málaga da asfixia e uma profunda reestruturação financeira permitiu a sobrevivência ao Espanyol. O Rayo e o Levante, sensações no campo, foram protagonistas nos últimos anos de tristes episódios onde ninguém, excepto o presidente, recebia o seu vencimento a final do mês.

Num pais com quase 6 milhões de desempregados, onde a crise financeira mundial se encontrou com uma borbulha imobiliária suicida e onde há cada vez mais familia completas no desemprego, praticam-se os preços mais altos da Europa. Quando o Real Madrid ou Barcelona viajam pelo país fora os preços sobem aos 80 euros para o público em geral. Em Vallecas, um estádio minúsculo e com poucas condições, não há bilhetes mais baratos para o público que os 40 euros anuais. Este fim-de-semana quem quiser ver o Atlético de Madrid - Getafe, sem dúvida um clássico do futebol espanhol, terá de pagar entre 30 e 120 euros, dependendo de onde se quiser sentar no Calderon. No Bernabeu o preçário é ainda mais elevado, rondando os 45 e 150 euros de média. Por menos de 25 euros é impossível ver um jogo de futebol em Espanha e os estádios começam a esvaziar-se paulatinamente. As boas épocas desportivas de alguns clubes compensam o afastamento do público mas as transmissões televisivas não enganam e hoje ver um jogo da La Liga é cada vez mais parecido a seguir um jogo da Serie A ou da Liga Sagres. Duas ligas onde a politica de preços é igualmente desproporcional face ao estado económico de ambos os países e da qualidade de jogo oferecida e onde, habitualmente, mais de metade do estádio está vazio.

Mesmo na Premier League os elevadíssimos preços praticados começam a fazer-se sentir em clubes da parte baixa da tabela. Os mesmos que nasceram, cresceram e fizeram-se com base no forte apoio popular local, em classes operárias e classes médias baixas que hoje, simplesmente, não podem pagar um bilhete para ir ao futebol. Nos anos 80 por 1 libra era possível ver-se um jogo de pé (uma politica que a Bundesliga já recuperou) e por 5 libras sentado nas secções centrais de Anfield, Old Trafford ou Highbury. Hoje por menos de 40 libras é impossível. Os estádios, habitualmente recheados de famílias, jovens que aprendiam a adorar os seus ídolos de perto, são hoje palco de classes médias altas de meia idade endinheiradas ou, no caso dos grandes clubes, turistas que querem presenciar a história de perto e estão dispostos a pagar o que for preciso para dizer que estiveram no "Teatro dos Sonhos" ou na Kop. Para esses adeptos de ocasião ou para aqueles que pagam hoje o mesmo por um jogo retransmitido pela televisão que os seus antepassados pagavam por um espectáculo no Royal Albert Hall, o futebol continua a ser possível. Para todos os outros é algo proibitivo.

 

Da mesma forma que a televisão (ainda que de pago) trouxe o futebol a todas as casas e a todos os continentes, ir ao estádio, esse ritual primário e fundamental para qualquer amante do beautiful game, tornou-se num pesadelo. Adeptos entusiastas abdicam de muito para poder seguir a sua equipa, pais vêm-se impossibilitados de partilhar com os filhos o que os seus pais partilharam com eles e a massa de adeptos começa a desprender-se do vocabulário sagrado que constituiu uma verdadeira massa adepta de um clube. Aos que pensam que esse cenário exclusivo, como se de um torneio de golf se tratasse, é inevitável basta olhar para o caso da Alemanha (ou da Holanda, ali ao lado) e ver quem preenche as bancadas cheias, semana atrás semanas. Mulheres, crianças, famílias, idosos, todos encontram forma de comungar da sua imensa paixão. Fora esse paraíso para o adepto o futebol vivido, cheirado e sentido há muito que deixou de ser para mim e para ti.



Miguel Lourenço Pereira às 10:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 28.02.12

poucos jogadores europeus com tamanha margem de progressão como Kevin de Bruyne e Xherdan Shaqiri. Não são apenas talentosos, jovens e extremamente bem sucedidos. Revelaram-se também surpreendentes exemplos de negócios em tempos de crise. Chelsea e Bayern Munchen mostraram o caminho e deixaram em evidência a habitual politica de desbarato de alguns dos clubes de top do futebol europeu. Dois cracks, uma forma de fazer negócios que entra em sintonia com os novos tempos.

 

Fábio Coentrão custou 30 milhões ao Real Madrid. Falcao custou 40 milhões ao Atlético de Madrid. Alexis Sanchez trouxe às arcas da Udinese cerca de 40 milhões, tanto como as movimentações de Fabregas ou Aguero. Negócios milionários num ano de crise economica crescente que transparecem bem a teoria de que muitos se valem para criticar o universo futebolistico. Sem dúvida há clubes que trabalham à margem da realidade. Com dinheiro emprestado, com dividas crescentes e pagamentos a prazo que muitas vezes se atrasam sucessivamente. Raros são os bons negócios, raros são os negócios realistas que capturam tanto a essência de uma politica desportiva sustentável como a dinâmica económica da actualidade. No meio desta troca constante de divisas por valores astronómicos que poucas vezes traz uma verdadeira rentabilidade a longo prazo, há sempre excepções. Sadias e esperançadoras excepções. Por cada Sanchez ou Coentrão existe um De Bruyne ou Shaqiri.

O potencial tanto do extremo belga como do craque suiço não está longe do que podemos imaginar com o defesa português e o dianteiro chileno. E no entanto Chelsea e Bayern pagaram a metade de Real Madrid e Barcelona pelos jogadores. Negócios rápidos, silenciosos e que se afastam cada vez mais da ideia mediática da contratação para a ergonomia sustentável de uma gestão quase empresarial que começa a tomar forma em Londres e que há muito faz escola em Munique. Se o Bayern é o exemplo perfeito de como um clube de futebol deve ser gerido, ao Chelsea há que reconhecer que, progressivamente, o clube vai dando passos similares nessa direcção e se afasta, cada vez mais, do fantasma milionário de Abramovich como bolsa sem fundo. De Bruyne e Shaquiri, como sucedeu com Lukaku, Mata, Oriol Romeu, Courtois, Boateng, Rafinha ou Luis Guztavo são espelhos de uma politica de contratação racional e profundamente orientadas para o futuro.

 

De Bruyne é o terceiro belga a aterrar em Stanford Bridge num ano.

Há muito que o Chelsea soube identificar no outro lado da Mancha um verdadeiro viveiro de talentos a que se podem incluir Hazard, Defour, Witsel e Verthogen. O extremo do Genk tem sido nos últimos anos uma das principais atrações da Jupiler League e apesar dos seus tenros 20 anos há muito que estava referenciado pelos clubes de top do futebol europeu. Em Brugge tentaram aguentar as investidas de Arsenal, Milan e Bayern mas acabaram por ceder aos argumentos do Chelsea. O clube londrino pagou a misera quantia de 9 milhões de euros por um jogador com um valor potencial de mercado capaz de rondar o triplo. O negócio não só garantiu ao clube inglês um substituo à altura para Kalou – de saída do clube – como ainda beneficiou o Genk que ficará com o jogador como empréstimo até ao final da temporada.

O mesmo acordo foi establecido entre Bayern Munchen e Basel FC.

É dificil encontrar um extremo tão entusiasmante na praça europeia nos últimos dois anos que Xherdan Shaqiri. Desde que brilhou com as cores helvéticas num Europeu de Sub-19, o extremo tem deixado a salivar os olheiros dos grandes nomes do Velho Continente. O seu clube de formação foi rejeitando ofertas tentadoras de Espanha e Inglaterra. Por detrás da decisão dos gestores do Basel estava a expectativa numa boa campanha europeia que se veio a concretizar. Shaqiri liderou o melhor Basel da história numa fase de apuramento empolgante que acabou com a eliminação do Manchester United, garantindo aos suiços a presença nos Oitavos de Final. Por 10 milhões de euros os bávaros garantiram a sua contratação para reforçar uma temivel linha ofensiva onde já estão Robben, Ribery, Muller, Kroos e Gomez. A capacidade técnico e a velocidade do suiço transformam-no obrigatoriamente numa das grandes sensações dos encarnados para a próxima temporada. O negócio entrou na dinâmica recente do Bayern, o único clube a conseguir um lucro no exercicio anual pelo 15 ano consecutivo, algo inédito na história de um desporto onde a maioria das instituições vive mergulhada em dividas.

 

Com estes dois negócios tanto Bayern Munchen como Chelsea não garantem apenas dois elementos que farão parte do futuro do futebol europeu a um baixissimo preço. Ambos clubes establecem uma linha de gestão económica que nos dias do Fair Play establecido pela UEFA deve marcar o futuro das negociações desportivas. Enquanto existirão sempre clubes dispostos a recorrer ao chamado “doping financeiro” e sem esquecer que o desnivel do mercado é real, negócios como este abrem uma esperança para um futuro mais sustentável, realista e ao mesmo tempo empolgante para o futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 20:13 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Domingo, 22.01.12

Durante os últimos 40 anos a Bundesliga viveu sob uma eterna realidade. O livro de cheques do Bayern Munchen. O clube a quem muitos chamam, despectivamente, FC Hollywood, tornou-se no pesadelo dos seus rivais. Dentro e fora de campo. Estrela que irrompia em hostes alheia, estrela que os bávaros tentavam capturar para o seu castelo. Marco Reus quebrou uma tendência crónica e, sem sabê-lo, pode até mesmo ter invertido uma longeva realidade. Hoje quem contrata são os outros, quem cultiva a formação são os ogres de vermelho.

No magnifico plantel desenhado por Louis van Gaal e que este ano é orientado por Jupp Heynckhes os números de contratações de estrelas locais empalidecem em comparativa com o leque de jogadores que chega dos escalões inferiores. Salvo a recém-chegada de Michael Neuer, indubitavelmente o melhor guarda-redes europeu do último ano, e o olfacto goleador de um Mario Gomez que chegou há três anos vindo do Stuttgart, o Bayern Munchen parece ter abandonado a sua velha politica de roubar as estrelas emergentes aos rivais para cuidar mais do seu quintal. Talvez a politica de formação que tanto (e tão bem) transformou o olhar que temos da Bundesliga também tenha realmente começado a fazer sentido para Uli Hoeness e Karl-Heinz Rummenigee, os homens fortes do futebol do Bayern.

Aos já veteranos Bastian Schweinsteiger e Philiph Lahm juntam-se actualmente Thomas Muller, Holger Badstuber, David Alaba, Toni Kroos, Diego Contento e Maximillian Riedmuller, todos eles formados nas camadas jovens do clube. Nove jogadores da casa no plantel principal, um êxito que não era logrado desde os anos 80 e que espelha bem a inversão da politica desportiva do clube. Se a isso juntar-mos que as mais recentes contratações foram relativamente low profile (o sueco Nils Petersen, o japonês Takashi Usami, emprestado e Anataly Timostschuk) temos um retrato bem diferente do que era habitual. E no entanto o caso Reus podia ter alterado essa imagem redentora.

 

Poucas figuras individuais pareceram tão relevantes no panorama desportivo alemão do último ano como Marco Reus.

O jovem médio-ofensivo emergiu como o líder de uma geração irreverente que transformou o decrépito Borussia Monchengladbach, outrora grande do futebol alemão, numa equipa capaz de lutar pelos primeiros postos da tabela. Rosto visível desta Nova Alemanha, junto a Ozil (Real Madrid), Muller (já no Bayern) e Gotze (estrela do Dortmund), o médio era também o valor mais apetecível do mercado, capaz de captar o interesse dos grandes da Europa...e do Bayern Munchen.

Apesar de ter várias opções para essa zona do terreno (incluindo Kroos, Muller, Ribery e Robben) o apetite bávaro perante uma pechincha (17 milhões de euros de cláusula) tornou-se evidente ao longo da primeira metade da temporada e muitos imaginavam um regresso às origens, ao período em que cada estrela jovem que despontava, como sucedeu com Michael Ballack, Sebastian Deisler, Steffen Effenberg, Oliver Kahn e tantos outros, acabaria no Allianz Arena. E no entanto, à medida que Hoeness tratava de vender a sua nova politica de formação (e estão Emre Can e Dennis Cheesa a caminho), o livro de cheques encarnado voltava a surgir como fantasma de dias pretéritos.

Mas Reus, inadvertidamente, mudou as regras do jogo. Entre Bayern Munchen e Borussia de Dortmund elegeu a segunda opção. O clube que se decidiu a formar para sair da crise financeira e descobriu em Nuri Sahin, Kevin Grosskreutz e Mario Gotze as armas para um titulo histórico decidiu inverter a tendência do mercado e pagar a cláusula por um jogador que, curiosamente, já fez parte da sua célebre formação e que saiu para Monchengladbach para procurar fortuna (como sucedeu com Ozil com o Schalke 04 ou Kroos e o Bayern). A chegada de Reus ao Welfastsadion tem um significado implícito previsível, nada menos do que a partida de Mario Gotze no próximo Verão por valores que certamente cobrirão este gasto surpreendente. Há muito que o Borussia estava longe das altas contratações (Jerome Boateng e Luis Gustavo, hoje no Bayern, foram exemplos de jogadores que se lhe escaparam) e só a frescura financeira com o dinheiro da Champions League e as vendas de Sahin, e previsivelmente, de Gotze poderiam justificar esta aventura.

 

No fundo este golpe na mesa significa, definitivamente, que há um novo ideário nesta nova Bundesliga onde nem todos os jogadores se rendem à atracção de Munich. A partida de Khedira, Ozil, Reus, Aogo e a incapacidade de atrair as jovens estrelas do Dortmund reflecte, de certa forma, uma mudança de imagem no papel de papão dos homens de Munich. É certo que homens como Neuer, Gomez e Boateng (via Manchester)o  continuam a espelhar esse desejo do clube bávaro de se nutrir dos melhores jogadores alemães mas o processo começa a distanciar-se da omnipotência pretérita. Uma lufada de ar fresco para um campeonato que se converteu por direito próprio na grande sensação dos últimos anos. A forma como projectos sólidos em Dortmund, Gelsenkirchen, Bremen, Leverkusen ou Hoffenheim se vão formando, resistindo às acometidas do eterno campeão, ajudam também a explicar este novo perfume que jogadores como Reus, seguramente destinado a marcar o futebol alemão da próxima década, trouxeram aos campos da Bundesliga.



Miguel Lourenço Pereira às 14:06 | link do post | comentar

Sexta-feira, 30.09.11

No ambiente fervilhante da Oktoberfest anual há poucos sítios no Mundo mais interessantes para se estar do que no coração da Baviera. Numa das zonas mais tradicionais e poéticas da sempre pragmática Alemanha há um fenómeno subterrâneo que começa a ganhar vida própria. Depois de anos e anos de ódio colectivo o (bom) futebol está a transformar o Bayern Munchen num clube que as pessoas realmente apreciam. Será que o Hollywood FC tem os dias contados?

 

A Alemanha vive dias complexos.

Motor da recuperação económica europeia, sofre com os erros alheios. Lider há muito do projecto europeu, é incapaz de entender o seu papel num grupo repleto de dicotomias. E no meio, depois de várias décadas, os alemães, já suficientemente confusos, deparam-se com o novo fenómeno que chega de Munique. Um Bayern entranhável.

Desde há largos anos que o futebol alemão está a viver um admirável mundo novo. Uma metamorfose que se começou a gestar, precisamente, quando o Hollywood FC vivia os seus últimos dias de glória. A alcunha da imprensa teutónica é antiga e remonta aos finais dos anos 70, época em que o clube bávaro se transformou no ódio por excelência de qualquer adepto alemão que gostasse de futebol. O Bayern ganhava - quase sempre - mas havia sempre algo que justificava o triunfo. E nunca era o seu real valor.

As festas, a vida de milionários dos seus jogadores e dirigentes, o papel de figuras controversas como Beckenbauer, Hoeness, Rummenige, Mathaus, Effenberg ou Oliver Kahn foram perpetuando essa imagem de clube aristocrático, conflictivo e profundamente autista. Um clube onde o dinheiro parecia importar mais do que o jogo, em que os resultados valiam mais do que os projectos. Uma imagem mentirosa - já lá vamos - mas que ficou profundamente enraizada no sentimento comum. O Bayern era, dentro e fora da Alemanha, um dos papões do futebol, impossível de admirar quando mais de gostar ao adepto neutral. As vitórias nacionais, de dois em dois anos, os triunfos por essa Europa fora, sem esse jogo bonito, agudizaram o mito. Nem as derrotas imprevistas contra rivais que pareciam, a principio, equipas inferiores (Aston Villa, FC Porto ou Manchester United) pareciam criar algum tipo de comiseração. Qualquer derrota do Bayern era uma vitória do futebol. Ponto.

 

Mas essa imagem hoje está longe da realidade.

Nesta nova Alemanha o clube de Munique conseguiu, finalmente, começar a mudar a tendência.

Claro que esse fenómeno não é ainda omnipresente. Que o digam os adeptos do Schalke 04, incapazes de perdoar a mudança de Manuel Neuer, um jogador que chegou a Munique debaixo dos assobios dos adeptos de ambos lados. Esse papel de papão no mercado de transferência interno ajudou a criar a lenda de um clube preparado para asfixiar os rivais directos a peso de ouro. Mas quando a equipa começa a apostar definitivamente na formação e no mercado internacional, os alemães têm cada vez menos pretextos para odiar os vermelhos do sul.

Jupp Heynckhes, ele próprio um homem respeitado no futebol alemão apesar do seu passado como técnico bávaro (essencialmente por ter sido dispensado por duas vezes por Uli Hoeness), ajuda a criar esse clima. O herdeiro de Louis van Gaal - técnico sempre polémico onde que quer passe - ajudou a acalmar algumas das vozes criticas oferecendo aquilo a que muito poucos estão habituados: ver o Bayern jogar muito, muito bem.

O arranque do clube na Bundesliga tem sido apaixonante. Depois de uma derrota no encontro inaugural frente ao Borussia Monchengladbach (equipa onde Heynckhes brilhou como jogador) os bávaros não voltaram a perder e lideram comodamente a classificação. Mais ainda, as vitórias têm sido solventes, apaixonantes e profundamente meritórias. Abandonando o modelo suicida de van Gaal na sua segunda temporada (a que ajuda, de certa forma, a ausência de Robben) o novo técnico apostou num 4-3-3 em que Ribery e Muller apoiam Mario Gomez de forma directa com Kroos e Schweinsteiger soltos no miolo - apoiados pelo ucraniano Tymotschuk - a funcionar como interiores ofensivos sempre que a equipa tem a bola nos pés. A consistência defensiva, pecado no mandato do holandês, com Rafinha e Boateng como incorporações determinantes, ajudou a libertar as ânsias atacantes dos de Munique que contam, a estas alturas, com 21 golos marcados e apenas um sofrido (em sete jogos). Na Champions League a equipa voltou a dar uma demonstração de autoridade naquele que é, sem dúvida, o "Grupo da Morte". Depois de praticamente humilhar futebolisticamente o Villareal em Espanha, os homens de Heynckhes vergaram um Manchester City incapaz de transformar o seu cartel de estrelas numa equipa de topo europeu num duelo intenso no Allianz Arena. Um duelo que Gomez, o homem do momento na capital da Baviera, mais uma vez decidiu.

 

Curioso nisto tudo é que a fama do Bayern não deixa de ser contraditória com a própria essência do clube. Um clube que resistiu, como poucos, à influência Nazi no futebol alemão. Um clube que pagou o salário completo a um jogador que sofreu um grave acidente pouco depois de assinar o contrato com a entidade até terminar a duração do mesmo. Um clube que só a partir de finais dos anos 60 entrou no grupo dos ganhadores e que desde então adoptou no terreno futebolístico os mesmos preceitos que estiveram por trás da própria ressurreição politico-económica da RF Alemanha. Hoje com a classe no terreno de jogo e a elegância fora dele, o Bayern Munchen transformou-se num caso sério de superação mediática. Talvez seja mesmo verdade, talvez o Hollywood FC seja só mais um mito pretérito numa Alemanha reinventada.



Miguel Lourenço Pereira às 08:52 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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