Quarta-feira, 21.08.13

Está o Brasil preparado realmente para o seu segundo Mundial. Em 1950 o torneio foi o pretexto perfeito para o país reivindicar a sua condição. A organização foi também facilitada pela guerra na Europa que deixou desarmados os países europeus de qualquer tentativa de receber a taça Jules Rimet. Agora, 64 anos depois, o Brasil volta a pretender utilizar o futebol como arma de afirmação política. Os bilhetes já estão à venda mas será o torneio um sucesso nas bancadas?

Estádios por acabar, aeroportos por construir. Hospitais e estradas debaixo de gigantescos pontos de interrogação.

O Brasil está a menos de um ano de receber o maior torneio desportivo mundial, a par dos Jogos Olímpicos (que dois anos depois também serão disputados no Rio de Janeiro). E muitos duvidam do sucesso real do torneio. Fora dos relvados, pelo menos. País em ascensão no panorama política e económico, o Brasil queria demonstrar através do desporto, uma das suas maiores bandeiras, que estava definitivamente inserido na elite dos países do 1º Mundo, uma expressão penosa que desrespeita os cidadãos do planeta. As manifestações na Taça das Confederações, os escândalos de corrupção, os problemas políticos no país e os sucessivos atrasos em obras fundamentais para a organização do torneio permitem levantar a suspeita de que o sucesso está prestar a tornar-se em fracasso.

Se em campo o torneio tem todas as condições para ser um dos melhores de sempre - há a Espanha e a Alemanha, com a nata do futebol europeu, o génio individual de Messi, Ronaldo, Neymar, Balotelli e o perfume do futebol africano, asiático e caribenho - fora dele há perguntas sem resposta e um cronómetro que não para.

Esta semana foram colocados à venda os bilhetes Brasil 2014.

São preços para muitos proibitivos, porque incluem viagens de avião transatlânticas, para destinos cujos aeroportos estão ainda em obras. A distribuição dos jogos do calendário pela FIFA seguramente não ajudará. Num dos maiores países do mundo, quando mais fazia sentido criar regiões fixas para os grupos sorteados - como se procedia antes da chegada de Blatter ao trono da organização - a maior parte dos espectadores terá de fazer centenas e milhares de kms para seguir a sua equipa. Ir ver um só jogo não compensa mas dar a volta ao país para ver 3, 4 ou 5 ainda menos. Não é de estranhar que, tal como em 2002 e 2010, a maioria dos adeptos nas bancadas sejam locais. No Mundial da Coreia e Japão viajaram tão poucos europeus que a organização teve de contratar autóctones para vestir-se com as camisolas das equipas em campo e assim disfarçar, nas televisões, a falta de animação nas bancadas. No Brasil isso não irá suceder. Espanha já sabe que recebimento terá mas argentinos, italianos, portugueses, alemães e ingleses não devem esperar um tratamento diferente. Pela primeira vez desde 2006 um torneio de selecções será disputado num país que opta realmente ao título. E isso conta.

 

A procura inicial dos bilhetes foi elevada, essencialmente porque parte de adeptos brasileiros.

Afinal, estamos a falar de um país com mais de duas centenas de milhões de habitantes, apaixonado pelo "jogo bonito" e saudosos de uma competição de elite. Só com os adeptos locais o Mundial seria um sucesso nas bancadas mas para um torneio criado para o Mundo essa mensagem é pouco convincente. A falta (ou os preços exagerados) de alojamento e meios de transporte coibem os de fora a arriscar tudo, num país marcado profundamente por um sentimento de insegurança e impunidade.

O bilhete final Mundialoscila entre os 330 euros e os 742 euros, preços proibitivos para a maioria dos brasileiros, que mesmo assim esperam ver o escrete canarinho subir ao relvado do Maracaña para ajustar contas com o seu passado. Nesse primeiro Mundial, quando o controlo da FIFA ainda era quase simbólico, estiveram, dizem as más línguas, mais de 200 mil pessoas no estádio carioca. O estádio emudeceu com o golo de Ghighia e desde então procura reabilitar-se aos olhos dos brasileiros. Renovado, terá a sua oportunidade de ouro, seguindo a réplica já deixada por Neymar e companhia na brilhante exibição contra a Espanha, na final da Taça das Confederações.

O Brasil não parte na pole position mas é um rival sério a ter em conta. Scolari prepara bem as suas equipas para torneios curtos, o público será de um fanatismo pouco habitual e as condições climatéricas estarão perfeitas para o seu estilo de jogo, mais físico e agressivo, longe do calor de um torneio disputado na Europa. Espanha e Alemanha, favoritas pelo seu futebol, e Argentina, pela presença de Messi e uma legião de talentosos jogadores ofensivos (na defesa o problema é sério), seguem atrás entre os favoritos deixando os habituais europeus (Itália, Holanda, França, Portugal, Inglaterra...se apurados), sul-americanos (Colômbia e Uruguai), centro-americanos (mexicanos), africanos (Gana e Costa do Marfim, eventualmente) e asiáticos (Japão e Coreia do Sul) como principais oponentes. Os seus respectivos adeptos, salvo por uruguaios, argentinos e colombianos, terão praticamente de contentar-se em seguir pela televisão um torneio que terá sotaque brasileiro a todos os níveis.

 

Pode este ser um grande Mundial se tudo o que rodeia os estádios está envolto em obras? Para o espectador televisivo sim, perfeitamente. Para quem viaja e experimenta a sensação de estar num circo ambulante durante um mês, o Mundial do Brasil pode ser uma sensação agridoce. Os brasileiros têm oito meses para resolver todos os problemas e oferecerem ao mundo o maior espectáculo já visto!



Miguel Lourenço Pereira às 11:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 01.07.13

Não houve duas equipas em campo. Não houve tempo. Uma entrou, empurrada por milhões, e ocupou todo o espaço imaginário do tapete verde do Maracaña para si. Fez a festa sozinha, entre suspiros do carnaval e memórias de outros tempos. Espanha caiu diante de uma selecção que soube ser melhor em todas as facetas do jogo. Uma derrota que pode ser útil para reactivar mecanismos num projecto que está no topo à demasiado tempo para ser julgado por um só jogo. Para os brasileiros, a noite de ontem foi um ajuste de contas moral com aqueles que achavam que era fácil entrar no Maracanã como senhores do jogo bonito e sair com vida. O teste a sério é daqui a um ano mas os sinais, pela primeira vez em muito tempo, são positivos!

Espanha começou a perder final antes da bola rolar.

Quanto soaram os hinos, ao ar sério, de quem está habituado a finais dos espanhóis, seguiu-se uma manifestação do poder emocional que provoca o futebol e só o futebol. Num país em crise consigo mesmo, com pessoas nas ruas a cercar o estádio, a paixão pelo futebol tinha o condão de ser o bálsamo emocional necessário para o brasileiro comum. Os milhares que encheram as bancadas de um estádio construido para ver o Brasil campeão cantaram o hino como se fossem para a batalha. Em campo os jogadores fizeram o mesmo. O velho espirito de família, de alma, de Luis Filipe Scolari ressuscitou na forma como Neymar, Júlio César, Thiago Silva, Fred ou Paulinho cantavam e choravam por dentro esse orgulho brasileiro. Quando o árbitro apitou para o minuto inicial, o escrete canarinho está mentalizado para ganhar. Nenhuma equipa do Mundo poderia fazer nada em relação a isso. Dois minutos depois, a jogada tipo de Scolari. Lançamento largo para o extremo onde a força de Hulk se sobrepôs ao pequeno Alba, centro para o coração da área onde a Espanha sempre sofre. Atrapalhamento e golo. Naquele breve segundo em que a bola pulou, Casillas e Fred lançaram-se pelo esférico. Noutro dia, noutra hora, o guarda-redes espanhol operaria um dos seus milagres. Mas aquilo era o Maracanã, era o Brasil e o uma consequência inevitável de acordar o monstro adormecido.

Nesse momento a comunhão entre adepto e jogador neutralizou qualquer arma futebolística que Espanha tivesse para oferecer. No final, não encontraram forma de sair desse bloqueio mental em que entraram. Sentiram-se intimidados pelas bancadas, pelo jogo duro do meio-campo brasileiro e pela forma como os rivais aplicaram em campo todos os passos necessários para neutralizar o tiki-taka. Pressão alta, à altura da baliza, e asfixiante. Constantes ajudas na marcação, linha defensiva longe da área, espaço de campo reduzido. Procurar o contacto físico, reduzir os espaços por onde a bola se possa mover. E depois, velocidade. Velocidade na movimentação, no lançamento da bola para o ataque, na tomada de decisão. Scolari emulou o que Heynckhes conseguiu com o Bayern. O resultado foi exactamente o mesmo.

Uma equipa com talento e prestigio contra uma equipa com talento e fome. Prevaleceu, em ambos casos, a segunda fórmula. Espanha, tal como o Barcelona, nunca entrou no jogo e foi derrotada de forma clara, concisa e inapelável por um rival que não precisou de recorrer ao anti-jogo, a estratagemas defensivos e à sorte.

 

Depois da exibição memorável contra o Uruguai, essa Espanha desapareceu do mapa.

Contra a Nigéria sofreu muito mais do que se esperava. Frente à Itália beneficiou, como em 2008, do factor sorte depois de ter reequilibrado no prolongamento um jogo que não conseguiu dominar nos noventa minutos. Aos italianos faltou-lhe a coragem e eficácia na tomada de decisão nos metros finais. Mas o Brasil sabia que esse não seria um problema. Neymar, que aos europeus sempre gerou dúvidas, emerge deste torneio como uma figura consensual. Foi a alma e o motor ofensivo do Brasil, movendo-se pelo campo com autoridade, oferecendo golos e disparando sem medo. O Brasil começou a ganhar o jogo no momento em que decidiu não ter medo do rival, uma arma psicológica que os espanhóis utilizam muito bem com alguns rivais que procuram adaptar o seu modelo de jogo ao seu. Paulinho e Luis Gustavo tinham outra missão. Como fizeram em todo o torneio (e como o fazem nos seus clubes), morderam, morderam e morderam. Com eles por perto a bola não durava um segundo no pés dos espanhóis. As subidas dos laterais e a velocidade de acção de Thiago e David Luiz cercava por completo o esquema habitual de Del Bosque.

O seleccionador espanhol não encontrou solução para o problema. Nem a entrada de Navas nem a de Villa resolveram a equação. Foi sempre tudo demasiado lento, impreciso e previsível. Sem tempo para pensar, sem espaços para mover-se, os espanhóis viram-se atados por uma teia da qual têm sempre dificuldade em sair. Do outro lado a velocidade era a principal arma com que o Brasil deixava os rivais em sentido. Arbeloa e Piqué foram admoestados por faltas sobre um supersónico Neymar. O primeiro livrou-se da expulsão e foi substituído porque parecia evidente que não sobreviveria a outra. Piqué não teve melhor sorte. O astro ascendente brasileiro aplicou-lhe a mesma fórmula de Cristiano Ronaldo e o jogador que tanto prometia em 2011 voltou a cair no mesmo erro e a comprometer, ainda mais, as aspirações da sua equipa.

Nessa altura já David Luiz tinha sabido ler a ideia de Pedro e Neymar ampliado a vantagem. Nesse golo colocou-se em prática o verdadeiro perfume canarinho. Oscar, sabedor que precisava de guardar a bola uns segundos para permitir a Neymar sair do fora de jogo, rodou sobre si mesmo em vez de procurar um passe mais fácil. Foi suficiente para romper a linha defensiva espanhola e oferecer ao número 10 o merecido golo. Casillas já tinha impedido por duas vezes a festa brasileira. Mas os milagres não seriam suficientes essa noite.

A partir desse momento Espanha rendeu-se. Sérgio Ramos sacou do coração onde já não havia cabeça para marcar um penalty infantil de Marcelo sobre Navas mas falhou-o. Fred ampliou a vantagem depois de mais uma delicatessen de Neymar (simulando um remate que não existiu) e o Brasil dedicou-se a bailar os campeões do Mundo com uma autoridade impensável. Reduzidos, fisica e psicologicamente, os espanhóis apenas procuraram resistir à goleada que parecia inevitável se, num acto quase de misericórdia, o Brasil não tivesse reduzido as rotações e Scolari tivesse preferido Jadson a Lucas Moura para dar a estocada mortal sobre um rival ferido.

 

Em 2002, Scolari foi campeão com uma equipa memorável. O seu esquema táctico em 3-4-3 dava todo o protagonismo a três Ballons D´Or (Ronaldo, Rivaldo e o futuro Ronaldinho) e à velocidade dos seus laterais (Cafú, Roberto Carlos) mas o verdadeiro truque estava na sala de máquinas, uma defesa oleada e um meio-campo de operários. Dez anos depois, o seleccionador repetiu a fórmula. Já não conta com três estrelas mundiais na frente, mas em Neymar, Fred e Hulk encontrou jogadores esfomeados e com sacrifício físico para pressionar até ao suspiro final. Em Marcelo e Dani Alves tem os sósias perfeitos dos seus laterais originais e com Paulinho, Luis Gustavo, Óscar e Hernanes, opções suficientes para aplicar a sua máxima no meio-campo. O triunfo, a todos os títulos inesperado, será um colchão mental importante para enfrentar o ano que falta. Espanha saberá voltar ao seu melhor depois de lamber as feridas. Selecção de jogadores inteligentes e ambiciosos, passará por um processo de selecção inevitável de quem sabe que há muito talento a bater à porta, mas no próximo mês de Junho arrancarão o Mundial como máximos favoritos. Um estatuto que merecem depois de seis anos memoráveis. Mas na noite de 30 de Junho de 2013 o Brasil demonstrou ao resto do Mundo como é possível desbloquear esta máquina de futebol sem recorrer ao lado mais negro do jogo. Resta saber quantos países terão os meios, a fome e o saber de reproduzir esse esquema. No planeta futebol actual não são muitos os países que podem permitir-se com sonhar com uma exibição perfeita como a dos canarinhos. Uma exibição para a posteridade! 



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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