Terça-feira, 31.05.11

Pode dizer-se que hoje diz adeus o mais completo jogador inglês dos últimos 20 anos. Talvez Alex Ferguson o saibi melhor do que ninguém. O seu jeito calado, o seu estilo guerreiro, essa pose de miúdo introvertido afastou-o do crédito que realmente nunca teve. A verdade é que houve poucos jogadores que personificaram tão bem a classe futebolística do que Paul Scholes. A bússola de Old Trafford anuncia a retirada e o "Teatro dos Sonhos" nunca mais será o mesmo...

 

Scholes foi, verdadeiramente, único. O mais completo de todos eles.

Houve o Ballon D´Or de Michael Owen. Os flashes à volta de David Beckham. As capas de jornais de Wayne Rooney. A reverência à figura de Alan Shearer. Os duelos entre Frank Lampard e Steven Gerrard e as lembranças de Steve McManamman, Paul Gascoine, David Platt e Paul Ince. Mas nenhum deles, e a lista podia prolongar-se um pouco mais, soube entender de forma tão completa a complexidade do futebol como Scholes.

O número 18 do Manchester United personificou, ao largo da sua carreira, todos os valores que Alex Ferguson procurou evidenciar. Foi um dos seus campeões de juniores daquela célebre geração de 1992. Demorou um ano mais que os restantes colegas a chegar à primeira equipa mas quando o logrou tornou-se imediatamente em peça nuclear na estratégia de jogo dos Red Devils. Enquanto a maioria dos jogadores se tornavam estrelas mediáticas por direito próprio, Scholes viveu sempre no anonimato. Até hoje poucos sabem algo da sua vida privada. Até mesmo a sua retirada, de que se falava em voz baixa, só foi conhecida antes de tempo por Ferguson e Giggs, o seu eterno parceiro.

Paul Scholes definiu com a bola nos pés o futebol inglês das últimas duas décadas. Como toda essa geração faltou-lhe um titulo com a selecção. Era peça importante na estratégia de Glenn Hoddle para atacar o Mundial de França e foi um dos homens de confiança do projecto de Kevin Keegan. Com Sven Goren Erikson participou em duas provas, o Mundial de 2002 e o Europeu de 2004. No final do torneio anunciou a sua retirado quando entendeu que o sueco iria preferir sempre os nomes que a imprensa defendia a unhas e dentes, Lampard e Gerrard. A partir daí a Inglaterra nunca mais teve critério com a bola nos pés. Ao contrário do seu United. Depois de afirmar-se em 1996 como titular indiscutível, a sua grande mágoa foi falhar a final de Barcelona de 1999 por acumular de amarelos na meia-final com a Juventus. Nove anos tirou a espinha da garganta marcando presença na final de Moscovo. Depois voltou a participar em mais duas, ambas perdidas para o Barcelona. Onde jogava Xavi, talvez o jogador que mais se tenha assemelhado ao inglês na última década e meia.

 

Com uma visão de águia de rapina, Scholes sabia onde e como colocar a bola.

Com o passar dos anos foi recuando estrategicamente a sua posição no terreno de jogo onde podia pensar e fazer jogar com mais tranquilidade. O seu magnifico pé direito permitiu-lhe por diversas vezes marcar golos decisivos do nada. Logrou um total de 102 golos em 466 jogos pelo Manchester United. Durante meia década teve invariavelmente o mesmo parceiro, o irlandês Roy Keane. O "carrot" (cenoura) colocava tranquilidade onde Keane semeava o pânico. Com o irlandês, Beckham e Giggs formou o meio-campo mais celebre da história do Manchester United. Um quarteto que se manteve unidos durante seis anos. As saídas de Keane e Beckham significaram uma mutação no estilo de jogo, mais directo, do clube. O individualismo de Cristiano Ronaldo e a chegada de jogadores com mais musculo mas menos critério com a bola, como foram Hargreaves, Carrick e Fletcher, foram isolando Scholes.

Com menos parceiros para associar-se, o número 18 foi perdendo protagonismo. O jogo do United deixou de trabalhar-se no miolo e apostou na velocidade do ataque, menos associativo do que a dupla Cole-Yorke, primeiro com van Nistelrooy e depois com Rooney. Ao seu médio criativo Ferguson passou a pedir mais passes a rasgar e o jogo de Scholes mutou-se uma vez mais e tornou-se, também ele, mais físico. Apesar de nunca ter sido um jogador excessivamente duro, o médio interpretou bem o papel e soube manter-se vivo na equipa principal apesar da idade. Da sua estreia na primeira equipa, aos 20 anos, já só havia longas lembranças. Como Ryan Giggs soube entender os novos tempos e o ritmo dos novos colegas, todos eles recrutados fora do espírito de Carrington Road que tinha apresentado ao mundo o seu talento bem como o de Nicky Butt, os irmãos Neville ou o carismático Beckham. Nas últimas épocas Scholes continuou a ser um dos jokers preferidos do treinador escocês mas o tempo de jogo foi diminuindo consideravelmente. Em Roma, na final de 2009, ficou evidente que Scholes não aguentava já o ritmo intenso da alta competição exigida pelo sangue jovem do Barcelona e desde então a retirada começou a sobrevoar a sua cabeça. Deixou até ao último jogo do ano, o jogo que mais queria ganhar, até fazer pública a sua decisão.

Quase silenciosamente, Paul Scholes recolheu as suas coisas e deixou Old Trafford sem fazer o mínimo de ruído. Com ele - e Gary Neville e muito proximamente Ryan Giggs - termina oficialmente a era mais espantosa dos Red Devils. Durante quase 20 anos o pequeno grande médio centro encarnou o espírito guerreiro da filosofia fergusoniana. Ao mesmo tempo demonstrou que no futebol inglês há muito mais classe e imaginação do que os preconceitos convidam a imaginar. Talvez olhe para o presente e veja Jack Whilshire como o seu herdeiro moral, o passar do testemunho geracional. Em Old Trafford sentirão, e muito, a sua falta. Não há no mundo do futebol um jogador da sua dimensão para tapar o vazio que deixa atrás um jogador que definiu, com os seus pés, muitos capítulos da história do futebol inglês.  



Miguel Lourenço Pereira às 14:13 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 18.03.11

Conta-se que uma vez um reputado jornalista do L´Equipe, de visita ao Rio de Janeiro, viu-se confrontado com a pergunta de quem era, para ele, o melhor jogador do mundo. O homem sorriu e respondeu "Edson Arantes do Nascimento". O brasileiro que lhe fez a pergunta ficou com ar de espanto e não evitou o comentário "Pô, você nunca viu jogar Pelé?". Independentemente de nomes, apelidos, alcunhas e titulos, o mundo do futebol conheceu vários craques e lendas, mas nunca nenhum jogador chegou tão longe, tão perto da eternidade, do que um rapaz que não gostava que lhe chamassem Edson.. A história imortalizou-o com outro nome, mas no meio de tanta genialidade, que importam os nomes? 

A história é feita de episódios curiosos. Como o de Dondinho, jogador fracassado que se dedicou a treinar a equipa onde o filho e os amigos jogavam. Ou o dia em que, então um rapazinho com saudades de casa, se preparava para sair a meio da madrugada do lar do Santos, onde vivia, e abandonar o sonho de ser futebol. Foi apanhado pelo porteiro e voltou atrás, engolindo as saudades e lançando as bases para a era mais memorável de todo o futebol brasileiro. Fez toda a sua carreira desportiva de elite no Santos, clube que o acolheu quando ainda era um miudo de bairro. Foi o primeiro a perceber o potencial mediático da liga americana e durante alguns anos actuou no New York Cosmos. Teve dezenas de jogos de despedidas e recebeu múltiplos galardões como o maior futebolista da história. No Brasil chamam-lhe Rei, para muitos é o Deus do Futebol. Titulos ou episódios, marcos históricos ou galardões. Tudo isso se torna redutor quando o tema em questão se chama Pelé.

 

Avaliar a marca na história de Pelé não se faz apenas pelos três Mundiais que conquistou. Ou pelas vitórias conseguidas pelo Santos no Brasil, América Latina e nas Taças Intercontinentais. A marca de um génio capaz de dominar o jogo do primeiro ao último segundo com a sua capacidade fisica (apesar da sua pequena estatura, 1m70) e garra. Falar de Pelé é falar de poesia, de drama, de tragédia ou épica. Dos dribles fantásticos capazes de eclipsar o próprio Garrincha, rei do regate. Dos seus saltos nas alturas, onde era capaz de ir buscar bolas impossíveis e torna-las em golo. Dos seus malabarismos diante dos guarda-redes. Ou do seu pontape, forte, seco, colocado, indefensável. Falar do futebol de Pelé é redutor porque Pelé é o próprio futebol. Aos 17 anos sagrou-se campeão do Mundo na Suécia, marcando dois golos na final numa equipa onde não estava previsto que fosse titular. E chorou. Como o menino que era. Doze anos depois era o homem na plenitude máxima das suas potencialidades que fez gato sapato de cada equipa que se passava diante do escrete canarinho. Do guardiã checo, impressionado pela ousadia de Pelé em rematar atrás da linha do meio campo. Do "portero" uruguaio que caiu no drible do melhor golo do mundo que não o foi. Ou da defesa italiana que ainda hoje tenta entender como foi possível ao craque brasileiro rasgar por completo uma equipa impenetrável. Falar de Pelé é falar do Santos e do melhor periodo do futebol do Brasil, da forma como esmagou o SL Benfica do amigo Eusébio. Ou o AC Milan de Rivera. Falar de Pelé é falar de magia em estado puro. É falar de futebol! 

Pelé começou a jogar no Santos como falso ponta de lança. Explodiu aos 15 anos na equipa titular e com um golo. A primeira vitima de Pelé chamou-se Cubatao. A primeira de tantas outras (1283 golos oficiais em 1367 jogos disputados) que se habituaram a ter de conformar-se com cair de pé perante a armada santista do Rei. Aos 17 anos fez parte da equipa mágica do Brasil que conquistou o primeiro mundial, oito anos depois do "Maracanazo", apesar da polémica convocatória e da lesão que arrastou no inicio do torneio. Quatro anos depois já era o melhor jogador do mundo, liderando o Santos à conquista de multiplos campeonatos paulistas e torneios Rio-Sao Paulo, as grandes competições brasileiras da época.

As vitórias nas primeiras edições da Copa dos Libertadores levou o Santos a disputar a Taça Intercontinental onde derrotaria tanto o SL Benfica como o AC Milan, consagrando um homem que no entanto teve de sofrer na pele as lesões que quase o afastaram do Mundial de Chile 62 (só jogou os dois primeiros jogos) e que o destroçaram no Inglaterra 66 (com a implacável marcagem dos defesas bulgaros e portugueses a deixarem o craque k.o.) mas que mesmo assim não minimizaram a lenda. Apesar disso este foi o seu periodo aureo no Santos, onde militavam os melhores jogadores brasileiros da época. Uma equipa de sonho que explorou o melhor momento de forma de um Pelé cada vez mais decisivo e goleador.

 

Durante os anos 60 resistiu-se sempre saltar para a Europa, como tantos sul-americanos, e quando chegou o Mundial de 70, então com 29 anos, para muitos era uma estrela em queda livre. Surpreendendo mais de meio mundo, o homem que meses antes estava fora da selecção, liderou a melhor equipa que alguma vez pisou um relvado a conseguir o seu mais brilhante triunfo. No final, em ombros no Azteca, percebeu que tinha logrado a perfeição e farto de tantas digressões e provas secundárias onde alinhava para que o Santos cobrasse o cachet,  começou a preparar a sua saída em alta. Primeiro deixou o escrete pela segunda vez (em 1966 tinha-se retirado e esteve três anos sem jogar pelo Brasil) e quatro anos depois o clube da sua vida. A imagem de Pelé aproveitou o filão televisivo, o potencial mercado norte-americano e o delirio que desatava no Brasil a sua presença. Ao contrário dos seus geniais colegas de equipa (Nilton Santos, Didi, Vavá, Zagallo, Garrinhca, Tostão, Gerson, Rivelino, Jairzinho), Pelé soube manter-se sempre na crista da onda e imortalizou a sua imagem mesmo diante daqueles que nunca o viram jogar de tal forma que até Romário disse um dia que o futebol devia levar o seu nome..

 

Tornou-se no primeiro icone futebolistico mundial. E mais do que Rei, tornou-se em Deus. Um Deus que antes foi um rapazinho de lágrimas nos olhos. O mesmo rapazinho de sotaque mineiro que, quando era pequeno e acompanhava o pai Dondinho aos treinos, ao chamar pelo guarda-redes da equipa e amigo do pai que se chamava Bilé pronunciava mal o nome e acabava por ditar a sentença que marcaria o futuro do jogo...Pelé.



Miguel Lourenço Pereira às 14:10 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14.02.11

O futebol sabe ser ingrato com os seus filhos mais pródigos. Hoje termina um capitulo fundamental, que marcará uma página da história do jogo. Mas parece ser apenas mais uma vírgula no meio de tanto histerismo por assuntos menores. Ronaldo Nazário, provavelmente o protótipo do avançado ideal, o mais completo jogador pós-maradoniano, disse basta. O Mundo já lhe virou as costas há demasiado tempo para se recordar da verdade e há muito que preferiu esquecer a lenda do único Aquiles que trocou a armadura por umas chuteiras e desafiou a ordem dos astros do universo futebol.

 

 

 

Para muitos amantes do futebol, o golo de Diego Armando Maradona à Inglaterra, no Mundial de 86, define uma época. Esses serão, provavelmente, os mesmos que se lembram bem daquela fria noite de Compostela quando um jovem brasileiro de 20 anos decidiu meter o mundo no bolso e dar um salto no tempo. Depois daquele momento histórico - que, matematicamente, serviu de pouco - passou a haver um antes e um depois de Ronaldo. O "Fenómeno" era, de facto, fenomenal. Hábil na gestão dos tempos, veloz como um felino, o seu instinto goleador enganava os analistas que se surpreendiam ao vê-lo começar as jogadas na linha de meio-campo. O seu poder de explosão e a facilidade de associação lembrava, e muito, o argentino caído em desgraça. No Mundial dos EUA, el Pibe despediu-se envergonhado. Sem jogar um minuto, Ronaldo esperava a sua hora. Já tinha sido o rei do Brasil, num ano memorável ao serviço do Cruzeiro. E já tinha confirmado, acima de tudo, a sua fácil adaptação ao futebol europeu. Com o PSV mediu-se ao melhor Ajax pós-Cruyff e, mesmo assim, pareceu inimitável. Mas também frágil e humano, dolorosamente humano.

Pelé sofreu lesões que o mantiveram em serviços minimos em dois Mundiais. A Maradona até uma perna lhe partiram e tanto Cruyff como Di Stefano, Platini, Messi ou Cristiano Ronaldo já sofreram agruras sérias provocadas pelos mais acérrimos rivais. Mas nenhum jogador de futebol foi tão vitima do seu próprio corpo como Ronaldo Luis Nazário de Lima. Um Deus de um jogo que o revelou como Mortal. A especulação faz parte da vida e hoje é legitimo pensar que, não fosse o seu corpo frágil, Ronaldo poderia ter sido mais do que o maior avançado dos últimos cinquenta anos. Poderia ter sido perfeitamente o maior jogador do Mundo.

 

Parou dois longos e deprimentos anos na sua estadia em Milão. As lesões contraídas ao serviço do neruazurri impediram-no de dar um salto qualitativo quando em melhor posição se encontrava para superar a barreira histórica deixadas por Pelé e Maradona. Depois do ano mágico ao serviço do Barça onde ganhou tudo menos a Liga (a desforra tardaria seis anos), o Inter era um profundo desafio. No primeiro ano esteve a um penalty do titulo, o mesmo que ficou por marcar naquela tarde seca contra a Juventus de Ancelotti. Depois veio o corpo e as dores de alma. As dores da nunca bem explicada desaparição no relvado do Saint-Dennis na final contra a França. Desse misterioso jogo pode-se retirar a essência fantasmagórica que acompanhava a carreira de um jogador completo a todos os niveis. O Mundial de França provou o que de melhor havia naquele Ronaldo. Quatro anos depois, o mesmo cenário exemplificou algo único: a transformação absoluta de um jogador de elite num outro jogador de elite, totalmente oposto.

As lesões destruiram o jovem explosivo e irreverente que tinha marcado um antes e um depois no futebol mundial e reinado, só, como único jogador global pós-Maradona. Em 2002 havia já Zidane, Figo, Beckham (todos futuros colegas naquele projecto megalómano de Florentino Perez). Mas nenhum como ele. Nenhum tão completo e com um espirito de sobrevivência tão agudo. Ronaldo reinventou-se, abdicou da velocidade em prole da colocação, aguçou os dentes frente à baliza contrária e assinou o Pentacampeonato brasileiro com o mesmo padrão de genialidade de Pelé. O titulo mundial, esse corolário, confirmou uma carreira sem igual que na Europa bebeu poucos titulos (como Maradona, nenhuma Champions League, por exemplo) mas que soube desfrutar plenamente da sua segunda etapa, agora de branco, com quilos a mais e vontade a menos. Em Madrid o segundo Ronaldo, esse sósia trabalhado do primeiro, foi assassino quando era necessário e displicente quando se pedia compromisso. Confirmou-se, se era preciso, como um jogador único, mas o mundo tinha perdido o interesse. Queria a novidade, a novidade dos Ronaldinhos, dos Messi, dos Cristianos e prodigios posteriores. O marketing funcionou contra ele depois de o ter ajudado a tornar-se num mito (os anuncios Nike com Ronaldo definiram, em boa parte, o fenómeno global do futebol na segunda metade dos anos 90 e o poder das marcas num jogo universal). O Brasil, com todo o seu atractivo, funcionou como um retiro progressivo de um atleta com muito futebol nos pés mas já sem forças para manter o nivel corporal. Ronaldo não podia aguentar com o ritmo europeu e mostrou manifestas dificuldades para encontrar a forma no mais pausado futebol sul-americano. O corpo, como disse, não aguentou. Tinha sofrido demais, talvez mais do que muitos desportistas de elite juntos. E o Mundo não percebeu que cada golo do brasileiro depois daquele calvário era, acima de tudo, um soco no destino. Um soco que van Basten, por exemplo, não soube dar. Um soco que só os maiores dos maiores (Pelé, Maradona) teriam sido capazes de desferir sem perder a pose.

 

 

 

Os ses e os senões comandam a vida e o destino. Ronaldo é, sem dúvida, o avançado mais completo da história do futebol se pensamos que Pelé e Maradona souberam sempre ser mais do que isso. E que Di Stefano e Cruyff eram, cada um ao seu estilo, jogadores totais. Mas quando se pensa nesse quinteto de maravilhas e se procura o ás que falta, que saltem os nomes de Zidane, Messi, Cristiano Ronaldo, Platini ou Beckenbauer soa um pouco a falso. Soa a esquecimento, propositado ou não, esquecimento daqueles arranques, esquecimento daqueles slaloms, esquecimento daqueles remates, esquecimento daqueles suspiros antes do golpe definitivo. Esquecimento de um rei que pareceu sempre ter de pedir a coroa emprestada e que mais do que um diamante forrado numa bola de couro, é uma gota de divinidade que mergulhou num corpo frágil, qual Aquiles, para mostrar ao mundo que os Deuses também são Mortais.



Miguel Lourenço Pereira às 16:06 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 11.11.10

Na época dourada do futebol alemão e das taças europeias conquistadas pelo Bayern Munchen do torpedo Muller e do kaiser Beckenbauer havia uma figura que brilhava por direito próprio numa constelação só sua. Gunter Netzer, profeta do futebol estético, foi a resposta germânica ao génio de Cruyff e um verdadeiro marechal do bom gosto na ponta dos pés.

Conta-se muitas vezes que um dia o Borussia Monchenlagdbach foi jogar ao Estádio Chamartin contra o poderoso Real Madrid. Os directivos do clube merengue tinham ouvido maravilhas de um tal Netzer, alemão alto e loiro, com um talento fora do normal. Na bancada presidencial tornavam-se os directivos ao lado do imponente Santiago Bernabeu para lhe dizerem maravilhas do homem que jogava com o número 4, o que tinha sido atribuido na ficha a Netzer. O presidente, que gostava pouco de conselhos alheios, no final do jogo virou-se para os dirigentes merengues e rematou a tarde com um "O vosso número 4 é uma boa merda mas quero contratar o tipo que joga com o 6, encantou-me". Era Netzer, com a camisola trocada. O seu talento, como o algodão, nunca enganou ninguém.

Para muitos, a quase quarenta anos de distância, o seu génio nunca teve comparação no futebol germânico. Nem Seeler, nem Walter, nem Muller, Rummenige, Mathaus ou o próprio Kaiser. Nenhum parecia ter o toque de classe que o organizador de jogo que deu o pontapé de saída à equipa mais exitosa do futebol alemão (que durante 12 anos só falhou a final de um torneio, a do Mundial de 78). Quando a guerra dava os seus últimos suspiros, o jovem Netzer nascia num dia de bombardeamentos em Monchenlagdbach. Viveu as agruras do pós-guerra e o fausto da reconstrução. Com 18 anos foi chamado à primeira equipa do F.C. Monchenlagdbach, onde chamou à atenção do grande clube da cidade, o Borussia. Com 20 anos era já titular absoluto na formação verde-negra do oeste da RFA. E muito cedo começou com os seus recitais de pura música clássica.

 

Chamado pela primeira vez à Mannschaft com 22 anos, em vésperas do Mundial de 66, o então jovem médio centro falhou a lista dos eleitos finais, preterido então por outra estrela em ascensão, Franz Beckenbauer. Alheio às disputas estelares tão do agrado do "kaiser", Netzer continuou a dar os seus festivais no relvado. Quatro anos depois fez história ao capitanear o Borussia ao primeiro titulo na Bundesliga. No ano seguinte repetiu o triunfo, no primeiro clube a vencer a prova sem derrotas. Numa equipa onde deambulavam génios como Jupp Heynckhes, Berti Vogts e Herbert Wiemer, Netzer encaixava como uma luva. A equipa orientada por Hennes Weisweiler era o reclame perfeito do futebol atractivo que inspirava a Europa. O rival estético do ascendente Ajax Amsterdam, os de Monchenlagdbach tiveram as provas europeias como assinatura pendente. Netzer, por outro lado, começava a ganhar o seu espaço no futebol alemão. Depois da ressaca do Mundial de 70 tornou-se na trave-mestra da equipa formada por Helmut Schon que dois anos depois venceria o primeiro Europeu de Futebol para os alemães. Melhor jogador do torneio, Netzer vencer pela primeira vez o prémio de Melhor Jogador Alemão (repetiria no ano seguinte), perdendo para Cruyff o Ballon D´Or da France Football (tal como sucederia um ano depois). Quando os problemas pessoais com o técnico Weisweiller se tornaram incontroláveis, o médio, pura e simplesmente, decidiu partir. Despediu-se com uma exibição épica saindo do banco, frente ao FC Koln, na final da Taça da Alemanha de 73 (2-1, com dois golos seus) e partiu para Madrid. Aí esperava-o um público desconfiado e um presidente autoritário que vivia o ocaso da sua grande carreira. Resposta do clube madrileño à contratação de Cruyff pelo Barcelona, num duelo estético e mediático que hoje se podia perfeitamente equiparar ao que existe entre Messi e Ronaldo, o médio tornou-se elemento nuclear na equipa merengue. Perdeu o primeiro titulo para os blaugrana, numa noite inesquecível do holandês, mas desforrou-se conseguindo os dois titulos seguintes numa equipa que já contava com Paul Breitner e que viria a receber outro alemão, Ule Stilike. Mas nenhum deles deixou tantas saudades como o marechal louro da chuteira de tamanho 47, tão estranho para os espanhóis que todo o seu calçado vinha importado da RFA.

Relegado pelo seu amigo Overath para um segundo plano no Mundial de 74, o génio alemão fartou-se da fria Madrid dos últimos suspiros do franquismo e quando acabou o contrato rejeitou a renovação e partiu para a tranquila Suiça onde rematou a carreira ao serviço do Grashoppers. Quando acabou a carreira pôs o seu talento ao serviço do Hamburg SV tornando-se no Director Desportivo responsável pelos três titulos e pela Taça dos Campeões ganhos pela equipa do Norte. Depois reciclou-se em comentador televisivo e cronista num dos principais diários germânicos. No papel, como no relvado, continua a destilar as suas memórias e pensamentos, relembrando os dias em que cirurgicamente decidia jogos, ligas e taças com a precisão de um marechal que não gostava de ganhar se não o fazia com um toque de classe.



Miguel Lourenço Pereira às 11:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 02.08.10

Alex Ferguson foi cáustico que chegue quando declarou com um sorriso malandro que Dennis Wise era capaz de armar uma zaragata estando num quarto sozinho. O médio inglês é ainda hoje espelho do pior rosto que apresentou o futebol britânico durante a década de 90. Uma carreira marcada por muitos problemas e em que o futebol parece ter ficado relegado para segundo plano.

Em Stanford Bridge ainda se lembrem bem da forma como o seu capitão tinha por hábito intimidar os rivais. Quando o árbitro não olhava, Dennis Wise surgia com os seus habituais toques, onde a subtileza era geralmente deixada de lado. Não é por acaso que o seu nome encabeça várias listas dos jogadores mais violentos da história do futebol inglês. Podia ter sido um médio de primeiro nível, acabou por ser uma figura contradictória em todos os sentidos.

A sua carreira arrancou em 1985, com 19 anos, ao serviço do Wimbledon. Fez parte da histórica formação dos subúrbios londrinos durante cinco anos. Era um idolo para os adeptos que vibravam tanto com os seus remates de meia distância como com as zaragatas que armava regularmente com Vinnie Jones, Lawrie Sanchez e John Fashanu. O Crazy Gang de Wimbledon é ainda hoje parte da história dos anos mais dificeis do futebol inglês e a vitória da polémica equipa em Wembley, frente ao todo poderoso Liverpool, numa final da FA Cup, uma das grandes surpresas da época. Acusado de ser um jogador limitado, dentro de uma equipa que apostava no futebol duro e agressivo, Wise mudou-se para o Chelsea, então a viver a inicio do que viria a ser uma profunda reestruturação. Em Stanford Bridge, o jogador passou grande parte da sua carreira. Chegou a capitão graças ao seu carisma no balneário e, particularmente, junto dos adeptos que o elegeram por duas vezes Jogador do Ano. A sua importância foi tal que se tornou num dos quatro jogadores com mais encontros realizados pelos Blues, tendo rapidamente dado o salto para a selecção inglesa, onde jogou durante oito anos, participando no Euro 2000.

 

Se o seu futebol se baseava essencialmente na dureza que aplicava na marcação a meio campo, Wise era também um médio com um faro especial para o golo. Marcou 76 golos durante a sua estância no Chelsea, essencialmente em remates de longa distância, uma especialidade que funcionou particularmente na corrida à conquista da Taça das Taças de 98, o grande trofeu da sua carreira, depois de ter ganho já três FA Cup.

No entanto, depois de separar-se dos seus amigos de Wimbledon, o seu caracter violento acabou por condicionar, e muito, a sua carreira desportiva. Durante a sua estância em Londres foi suspenso por diversas vezes pela própria direcção do clube, mas também pela FA. Em 1995 foi acusado de assaltar um taxista que o levava a sua casa, depois de mais uma das suas intermináveis noites pelos pubs londrinos, e condenado a 3 meses de prisão, que acabou por passar a pena suspensa. Os seus problemas com o alcool e a droga levaram a direcção do Chelsea a vendê-lo, em 2001, ao Leicester City. Aí o seu mau caracter voltou a vir ao de cima quando no estágio de pré-temporada partiu o nariz a um colega num jantar de convivio. Foi dispensado e mudou-se para o Millwall, como jogador-treinador, logrando o feito de chegar a uma final da FA Cup em 2004. Depois ainda passou por Southampton e Coventry antes de em 2006 ter terminado, oficialmente, a sua carreira desportiva. Depois de uma polémica passagem pelo banco do Leeds, Wise foi promovido a director desportivo do Newcastle com a benção do seu antigo colega na selecção inglesa, Alan Shearer.

Dennis Wise espelha o espirito que rodeou muitos dos futebolistas britânicos que viveram a segunda metade dos complicados anos 80. Sinal de uma geração profundamente ligada ao hooliganismo, o seu perfil coincidiu com a emergência de uma profunda mudança de mentalidade dentro da Liga inglesa que tornou jogadores como ele, independentemente do talento que tivessem, personas non gratas. Uma era onde o futebol era demasiadas vezes jogado no pub.



Miguel Lourenço Pereira às 10:15 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 16.04.10

"O meu som favorito é o de ouvir o osso a estalar". Frases como esta definiram o verdadeiro bad-boy do futebol inglês. Durante dez anos não houve um jogador tão duro, mal-intencionado e violento sobre os relvados de um futebol em mutação. Hoje Vinnie Jones é o espelho de um estilo de jogo que começa a entrar em extinção mas que ainda tem suficientes adeptos para fazerem dele uma estrela.

Não é só que tenha o recorde mais rápido de uma expulsão do futebol britânico. É que soube melhorar o seu inigualável registo duas semanas depois de ter sido amarelado aos sete segundos. E tudo pelo puro prazer de provocar. Assim é, assim sempre foi Vinnie Jones. Hoje estrela pop underground, actor de filmes de acção, inspirador de heróis de BD e personagem por direito próprio de vários videos do You Tube. Na década de 80, o pesadelo do futebol inglês.

Galês de nascimento, de origem cigana, começou a jogar futebol profissional com 19 anos no modesto clube local Wealdstone. O seu estilo fisico e altamente competitivo chamou a atenção de um conjunto sueco, o Holmsund, que o contratou de imediato. Depois de um ano, onde se sagrou campeão da segunda liga sueca, as suas exibições começaram a chamar a atenção de clubes da First Division. Foi o modesto Wimbledon, conjunto dos subúrbios de Londres, quem avançou para a sua contratação. Nem imaginavam que por 10 mil libras tinham acabado de contratar um dos icones do clube para o resto da sua história. Jones estreou-se em 1986 e rapidamente conquistou os adeptos. Violento como poucos, a sua especialidade era de cortar qualquer lance de ataque quando ainda estava na imaginação do rival. Formou parte do Crazy Gang, junto com o jovem Dennis Wise, o irreverente John Fashanu e Lawrie Sanchez. Em dois anos formou a equipa tornou-se num icone do futebol duro, que já começava a cair em desuso num país ainda assustado com os efeitos de Heysel e Hillsborough. A vitória histórica sobre o Liverpool na FA Cup de 1988 confirmou a popularidade de Jones. No ano seguinte os adeptos desesperaram com a venda Jones ao Leeds. Em Yorkshire, Jones fez escola com o seu futebol duro. Mas os problemas perseguiam-no e depois de dois anos onde andou pelo Sheffield Utd e Chelsea, o central, então já capitão da selecção de Gales, voltou ao seu Wimbledon.

 

Foi nesse regresso que o seu perfil de bad-boy ganhou outra dimensão.

Tráfico de drogas, alcool, mulheres, acidentes de carro, agressões a colegas e rivais. Expulsões aos 3 segundos por entradas violentas. Tudo isso passou a fazer parte do seu catálogo. Durante seis anos era o rosto do futebol que a Inglaterra queria esquecer. Apesar do seu estilo de jogo ter permanecido em figuras como Wise, Batty ou Keane, o simbolo do que representava tornou-se odiado pelo establishment da Premier League. Provocou uma lesão que destroçou a carreira de Gary Stevens, notoriamente trocou "mimos" com Paul Gascoine e acabou por ser finalmente suspenso pela FA durante meio ano por apresentar o polémico video Soccer´s Hard Men, onde recopilava algumas das entradas mais violentas do futebol inglês. Era suficiente. Mas à medida que a sua carreira desportiva ia caindo, a sua fama no meio underground londrino crescia. Jones era uma estrela sem o saber e quando o cineasta Guy Ritchie o chamou para o seu primeiro filme, Lock and Stock, abriu ao central as portas de Hollywood.

O seu perfil de duro voltou a ver-se em várias produções, desde o seguinte trabalho de Ritchie, Snatch, a várias produções norte-americanas como She´s the Man, Gone in 60 Seconds, Swordfish, Mean Machine ou X-Men. Pelo meio vários anuncios, muitos programas de televisão e livros polémicos pelo meio. Um denominador comum: o lado mais violento do intratável central.

Hoje Vinnie Jones continua a ser uma das figuras de culto para a juventude suburbana inglesa apesar da maioria já nem se lembrar de ter visto as suas entradas violentas no terreno de jogo. A viver há anos em Los Angeles, a sua figura continua a pairar sobre o futebol britânico sempre que uma entrada violenta rasga a rotina de um futebol que aprendeu a controlar-se. Depois de 386 jogos oficiais, 33 golos e 12 vermelhos, o seu cadastro é tão impactante dentro e fora das esquadras policiais. Mas o seu nome não deixa ninguém indiferente. Ainda hoje ele é o "Duro" por excelência. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:13 | link do post | comentar

Quarta-feira, 22.07.09

É ainda hoje um grande desconhecido do público europeu fruto de apenas ter jogado meia dúzia de meses no Velho Continente. O seu estilo de matador de área tornou-o num mito no Brasil onde é, ainda hoje, o terceiro maior goleador da história, apenas atrás de Pelé e Romário. Começou simplesmente como Roberto mas rapidamente ficou conhecido pela alcunha: o senhor Dinamite.

Goleador de sangue frio, avançado rápido, possante, capaz de disputar cada lance como se fosse o último. Durante 20 anos foi o avançado mais completo do futebol brasileiro, um verdadeiro produto canarinho que nunca conheceu o reconhecimento fora das terras de Vera Cruz. Para além de craque no terreno de jogo foi sempre um activista militante contra a ditadura, fora dele, e desde 1993 que é deputado estadual. Hoje partilha o cargo legislativo com uma velha paixão, presidir o clube dos seus sonhos, onde fez quase toda a carreira, o mitico Vasco da Gama. É assim Carlos Roberto de Oliveira, para o mundo do futebol simplesmente Roberto Dinamite.

 

A alcunha veio dos dias em que era o maior goleador dos campeonatos juniores do Brasil. Estavamos em 1970 e já era a grande promessa do Vasco da Gama. Os jornalistas Aparício Pires e Eliomário Valente foram os que acompanharam a sua carreira desde cedo e não hesitaram em apelidar o jovem avançado com tamanha alcunha. E ele provou que estava certos. Em 1971, com apenas 18 anos, estreou-se como titular no clube vascaino. Sob as ordens de Amildo Chirol começou a sua longa história de amor com a cruz de Malta. Marcou o seu primeiro golo profissional no Maracanã, no seu segundo jogo como profissional contra o Internacional. Seria o primeiro de 784 golos que iriam apontar ao largo de vinte anos por quatro clubes distintos. Até 1979 tornou-se na estrela do conjunto carioca, vencendo em 1974 o campeonato Brasileiro, em 1977 o Campeonato Carioca, ano onde também venceu uma das duas Taças Rio (a outra foi em 1975). O seu faro goleador levou-o em 1975 ao escrete canarinho e três anos depois estava na selecção brasileira  que disputou o Mundial da Argentina, onde apontou um grande golo contra a Áustria. A sua fama começava a ser tal que do outro lado do Atlântico chegou o canto irresistível do Barcelona. O avançado chegou mas nunca se adaptou e apenas apontou três golos em cinco meses. Sem completar a temporada foi devolvido ao Brasil, sob assobios e criticas da imprensa europeia. 

Ferido no orgulho, Dinamite voltou ao Rio de Janeiro e apesar de ter estado a ponto de assinar pelo eterno rival Flamengo, o presidente vascaino de então, Eduardo Miranda, conseguiu traze-lo de novo ao São Januário. Começou a segunda era dourada do craque, já com quase 30 anos, mas com o velho faro bem apurado. Excuindo a presença no Mundial de 1982, onde nem actuou, Roberto Dinamite viveu dez anos de pura glória. Com o Vasco da Gama venceu 4 campeonatos cariocas, um campeonato brasileiro, 4 Taças Rio, 3 Copa Rio sagrou-se por 4 vezes o melhor marcador em todos os campeonatos brasileiros, tendo apontado num ano 62 golos e assim batendo os records de Pelé e Zico. No final da década ainda se transferiu para a Portuguesa dos Desportos, onde voltou a exibir-se ao seu melhor nivel, actuando ainda pelo Campo Grande antes de fechar com novo titulo a sua carreira desportiva no Vasco.

 

Dez anos depois de sair dos relvados, e já com um passado politico nas costas, Roberto Dinamite candidatou-se contra o eterno Eurico Miranda a presidente do clube. Perdeu mas três anos volvidos voltou à carga e conseguiu ser eleito para um cargo que ainda ocupa, aquele que é um dos jogadores mais marcantes da história do futebol canarinho, uma verdadeira bomba relógio com sabor a golo. 



Miguel Lourenço Pereira às 00:03 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 17.05.09

18 de Maio de 2009. 1 de Abril de 1990.

Duas datas que ficarão para sempre marcadas a letras de ouro na história do futebol português. Datas que marcam uma carreira repleta de números igualmente dourados. Como a geração que liderou durante quase vinte anos. De 1989 em Riade a 2009 em Milão, Luis Filipe Madeira Caeiro Figo foi o lider do futebol português. Venceu inúmeros prémios colectivos e individuais, oito ligas divididas entre Barcelona, Real Madrid e Inter, uma Champions League, uma Taça das Taças, uma Supertaça Europeia, 1 Taça Intercontinental, 2 Mundiais Juniores por Portugal, 1 Taça de Portugal...e perdemos conta aos trofeus colecionados pelo primeiro jogador português a ganhar o Ballon D´Or e o FIFA Award. Enfim, o primeiro português galáctico num país orfão de um lider desde o mitico Pantera Negra e que viu os seus mais ilustres maestros (Gomes, Oliveira, Chalana, Jordão, Futre) serem eternamente subvalorizados no espectro do futebol internacional. Figo foi o primeiro nome unânime do futebol nacional moderno - pós-Eusébio, subentenda-se. O primeiro a vender a sua imagem como ninguém. E o primeiro entre uma geração memorável.

De Figo interessa pouco falar de titulos. Ficam para a história e para os arquivos futuros. Quem os viveu lembra-se menos das ligas ganhadas e mais dos dribles fantásticos em direcção á grande área, rompendo as pernas dos laterais mais ousados. Lembram-se daquele remate que Seamen nem ousou desviar com o olhar. Do determinante grito de guerra naquela recuperação memorável com a Inglaterra. Ou da lágrima de raiva nas duas eliminações diante do amigo Zizou. Em vinte anos vimos vários rostos de Luis. O jovem de cabelo largo que surgia em Alvalade, lado a lado com uma nova geração de jovens talentosos que já conhecia das seleções de Queiroz. O jovem que assinou dois contractos com Parma e Juventus e acabou por se tornar parte da última etapa do Barça de Cruyff, da equipa montada por Bobby Robson - seu velho conhecido de Alvalade - ou da versão mais holandesa dos culés pela mão de Louis van Gaal. Durante esse periodo Figo teve sempre de viver na sombra. De Laudrup e Stoichkov, de Ronaldo, o verdadeiro e explosivo Ronaldo, ou até mesmo de Rivaldo...até áquela Verão onde, por um valor louco, trocou a braçadeira blaugrana pelo luxo de Madrid e se tornou no primeiro galáctico. Pela primeira vez era o cabeça de cartaz. Pela primeira vez soube jogar com a imagem. Venceu os dois mais importantes prémios individuais pelo que fez dentro e fora de campo. Liderou a mais espantosa equipa portuguesa na Bélgica e Holanda e fez parte da vergonhosa expedição á Coreia do Sul. Por então já tinha companhia galáctica e uma Champions no curriculum. E depois do fim da galáxia veio a reforma dourada em Milão, acompanhada de mais três titulos de campeão.

Recordo-me essencialmente das arrancadas de génio como a que sentou Peter Schmeichel num amigável em Leiria. Dos remates cruzados que apontava sem piedade ao lado mais recôndito das redes fosse o relvado que fosse. Ou do espirito guerreiro que lhe permitia ser o lider natural numa geração de grandes talentos como Rui Costa, João Vieira Pinto, Paulo Sousa...enfim, o lider dentro e fora de campo que nunca foi Paulo Futre ou Chalana, nem nunca será Cristiano Ronaldo, verdadeiros génios com a bola nos pés mas incapazes de levar um país aos ombros. Figo teve muitos defeitos, no tapete verde e nos bastidores. Como extremo era perfeito, mas tacticamente tinha limitações técnicas que por vezes o faziam um jogador pesado para jogar pelo meio. Nunca foi um goleador natural e muitas vezes tinha um grave problema nas compensações defensivas. Mas a verdade é que marcou uma era. Na selecção ideal dos últimos vinte anos seria certamente um dos titulares, um jogador que entraria na selecção ideal de qualquer amante do futebol. E mais do que os prémios dourados que tenha no armário, no futuro Figo lembrar-se-á mais depressa das palmas e dos assobios, dos dribles e das lágrimas...enfim, lembrar-se-á do mesmo que nós...dessa magia que era capaz de fazer sempre que calçava as chuteiras, saía do tunel e caminhava sobre o relvado de um qualquer campo desse mundo sem fim...  



Miguel Lourenço Pereira às 19:24 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 26.04.09

Vinte anos depois da queda do muro de Berlim, a nostalgia torna-se irresistível. O Bloco de Leste, liderado a telecomando por Moscovo, marcou a politica do século XX mas também deixou bem vincada a sua presença no universo desportivo. E o futebol não foi excepção. A obsessão pelo colectivo, o trabalho minucioso e científico criaram autenticas máquinas, capazes de fazer a diferença a qualquer instante, mas sempre preferiram valorizar o poderio do grupo. E talvez por isso, ainda hoje, resulta complicado a muitos descubrir dentro dessas equipas históricas algum que outro nome próprio.

 
Se a Europa de Leste já tinha mostrado o primeiro perfume de bom futebol que se praticou no continente (a Áustria de Hugo Meisl, a Checoslováquia do pré-guerra, a Hungria mágica de 54, ainda a viver essa ilusão primaveril), a chegada do bloco de Leste alterou para sempre a fisionomia das suas equipas. Nasceu uma Checoslováquia seca, campeã da Europa em 1986 e da qual só nos lembramos de um nome (esse mesmo) por um simples gesto de rebeldia individual no instante decisivo. A RDA e Roménia vivam do físico e do golpe, a Polónia da velocidade dos seus sprinters (Lato e mais tarde o letal Boniek), enquanto que a Hungria se tornou num fantasma de si mesma. Só a Jugoslávia, não-alinhada, até no desporto, conseguiu a alcunha de “Brasil do Leste”, pela sua eterna irreverência, mas que nunca os levou muito longe na hora da verdade. O centro deste método era, sem dúvida, a selecção soviética. Campeã europeia em 1960, finalista vencida em mais duas edições, a selecção soviética passou a segunda metade do século XX a ser considerada como potência mundial. Mas salvo os seus geniais guarda-redes (primeiro Yashin e logo depois Dassaev e Chanov, a sua sombra) e o irreverente Oleg Blokhin, de poucos nomes individuais reza a história dessas equipas desenhadas com regra e esquadro.
 
Igor Belanov talvez não fosse o mais virtuoso futebolista que nos deu a URSS.
Nem o mais hábil tecnicamente, nem o mais letal dos avançados. Mas esse pequeno jogador de quem muitos hoje já nem se recordam, é para mim, o espelho dessa mentalidade soviética que impunha respeito, até para os mais temíveis oponentes. Belanov não era o líder da geração de 80, criada no laboratório de Kiev por Valery Lobanovsky e transportada para a equipa nacional que conseguiu o seu ponto mais alto na final perdida do Euro 88. Era uma geração unida, sem líderes, mas capaz de praticar um futebol fascinante. O pequeno avançado, que habitualmente descaía para as alas, em apoio da dupla de avançados soltos – Oleg Protassov e Valery Zavarov – nem tinha a habitual compleição física do desportista da “europa comunista”. Mas a sua velocidade, o seu sentido de oportunidade e, como não, o seu espírito de sacrifício, fizeram dele peça nuclear para que o Dynamo de Kiev vencesse oito campeonatos soviéticos, a Taça das Taças de 1986 e que só fosse interrompido pelo majestoso FC Porto na caminhada da Taça dos Campeões Europeus do ano seguinte.
 
1986 foi, aliás, o seu ano.
A selecção soviética até tinha sido eliminada nos oitavos de final pela Bélgica no Mundial do México (esse louco 4-3 com o hat-trick de...Belanov) mas o jogador acabou por receber o Ballon D´Or, numa época em que o prémio só era atribuido a jogadores europeus...e por isso, e só por isso, não foi para um tal de Maradona.
Um curioso prémio individual para um dos apologistas máximos do colectivo. Com o fim do Bloco de Leste, a escola de Kiev desmoronou-se e Belanov acabou por passar, sem pena nem glória, pela Borussia Monchenlagdbach. A sua era o seu mundo tinham acabado, mas não sem antes termos tido a oportunidade de o ver correr quilómetros, nesse estilo desengonçado, tão distinto dos virtuosos Blokhin ou Mikailitchenko, mas tão exemplar de uma forma de pensar o jogo que ficou parada no tempo...

 



Miguel Lourenço Pereira às 05:24 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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