Terça-feira, 25.03.14

Em 1976 o Real Madrid foi campeão de Liga perdendo os dois jogos com o Barcelona. A equipa blaugrana, alimentada por um inconstante Cruyff, foi demasiado irregular para capitalizar a sua superioridade em campo. Quase quarenta anos depois a situação pode repetir-se. O Barcelona foi superior ao rival histórico, operando uma das mais memoráveis reviravoltas da história dos Clássicos. A incapacidade preocupante do Real Madrid de Ancelotti em ganhar a rivais directos deixa de ser um problema com um calendário mais acessível que os rivais. Ironias do destino.

Desaparecido à um bom punhado de Clássicos, Lionel Messi montou o seu show pessoal num dos estádios onde é habitual ser mais eficaz.

A exibição galáctica do argentino é uma grande noticia. O "Diez" do Barcelona parece recuperado dos problemas físicos que o mantiveram fora dos relvados nos últimos meses. Sem estar ao seu melhor, Leo foi decisivo. Não tanto pelos golos - dois deles em grandes penalidades marcadas de forma perfeita - mas pelo dinamismo que deu ao ataque blaugrana. Uma brilhante assistência para o golo inaugural. A troca de bola dentro da área com Neymar que permitiu o empate. O passe espantoso para o brasileiro, segundos antes deste chocar contra um Sérgio Ramos anedótico. Tudo isso ajuda a entender bem a sua importância no modelo de jogo do gigante catalão. Sem Messi durante várias semanas, a equipa de Martino ainda assim consegue estar a um ponto do topo da tabela classificativa. Um exercício de colectivismo mais do que interessante. Mais do que esquecido. Messi foi o rei e senhor do Bernabeu com um jogo autoritário e incisivo. Mas salvo Neymar - a anos-luz do seu melhor e titular, no lugar de Pedro, provavelmente mais por questões politicas que desportivas - a exibição colectiva do sector medular e de ataque dos blaugrana foi exemplar. Sobretudo a de Andrés Iniesta.

O manchego foi fundamental na forma como o jogo do Barcelona rompeu as linhas montadas por Ancelloti. Engoliu literalmente o "verde" Carvajal uma e outra vez. Apontou um primeiro golo tremendo e sacou do nada um penalty perfeitamente evitável, especialmente para alguém tão habituado a mil batalhas como Alonso. Durante os restantes minutos o homem que deu aos espanhóis a alegria das suas vidas venceu o seu duelo particular com o jogador mais em forma dos merengues em 2014, o croata Modric. Foi uma luta de titãs. Mais do que um duelo Messi-Ronaldo (desta vez, não chegou a haver realmente duelo) o jogo decidiu-se com a superior influência de Iniesta. O modelo de jogador guardiolano a manter de pé as variantes de Martino e o génio individual de Messi.

 

O Real Madrid conseguiu algo espantoso. Por duas vezes deu a volta a um marcador adverso. E conseguiu perder o jogo.

O que no reinado de Mourinho era impensável, com Ancelotti torna-se habitual. O italiano não ganha ao Barcelona há dez anos. Esta época perdeu ou empatou todos os jogos importantes da liga. Duas derrotas com os catalães, uma derrota e um empate com o vizinho do Manzanares e um empate em San Mamés. Zero vitórias no top four é algo verdadeiramente preocupante. E, ainda assim, os madrilenos dependem de si para ser campeões. A regularidade nos restantes duelos tem servido para a equipa da capital tapar as suas deficiências nos jogos a sério. Ronaldo, depois do mais do que merecido Ballon D´Or (se colocamos a Ribery fora de equação), baixou o seu nível de participação colectiva. Continua a marcar porque não sabe fazer outra coisa. Mas o seu jogo associativo tem decrescido e a equipa ressente-se. Bale, autor de algumas excelentes exibições, foi uma nulidade e notou-se a falta de Jesé, um jogador que podia ter sido fundamental para aproveitar as eternas deficiências defensivas dos blaugrana. Que o Real tenha marcado três golos (podiam ter sido mais) só é possível porque o Barcelona continua a ser uma equipa incapaz de solucionar os seus problemas defensivos. É a grande interrogação para os grandes duelos europeus que se avizinham contra equipas mais organizadas que o Real Madrid.

A péssima exibição de Carvajal (responsável por dois golos) e Marcelo foi coroada com a enésima infantilidade de Sérgio Ramos, que não só cometeu penalty sobre Neymar - independentemente da intensidade do toque e do teatro inevitável do brasileiro - como fê-lo sabendo que a expulsão era a única opção. No final o central (e Ronaldo) queixaram-se amargamente da arbitragem. Não tiveram razão. Se houve algum penalty mal assinalado esse foi o de Ronaldo, uma falta claramente fora da área (isso sim, a Alves faltou o cartão) e que permitiu ao Real colocar-se de novo em vantagem. Undiano Mallenco, errou em várias faltas e na distribuição dos cartões mas nos momentos decisivos não mexeu no resultado. Pelo menos não como Ramos, e o seu erro, e Benzema, a grande sensação da noite.

Se Messi decidiu o jogo, Iniesta pautou o ritmo do encontro, a Benzema ficou o papel de dar emoção à contenda. Apontou dois golos - o segundo a lembrar os dias de glória de Ronaldo Nazário - e foi o dínamo ofensivo mais eficaz do Real Madrid. Quando o retirou, Ancelotti perdeu o jogo. Era questão de minutos. Com Di Maria - o MVP da primeira parte - tinha sido o melhor blanco em campo. Sem ele e com Ronaldo perdido no meio do ataque como falso nove, a equipa perdeu o rumo. O italiano continua a demonstrar lacunas que marcaram toda a sua carreira nos grandes jogos. É um treinador que ganha, começando pelo inevitável caso de orientar equipas que têm essa obrigação. Mas a quantidade de jogos a seu favor que acabaram perdidos dava para escrever um livro. A do passado domingo é apenas mais uma para a lista onde estão o Juventus vs Manchester United de 1999, o Deportivo vs AC Milan de 2004 ou a final de Istambul do ano seguinte. 

 

O Barcelona, numa versão mais pragmática da temporada passada, deu um golpe de autoridade em casa do rival. Colocou-se a um ponto da liderança mas tem pela frente um calendário complicado que inclui um duelo na última ronda com o actual e inesperado líder, o Atletico de Madrid. Será uma reedição dos duelos dos quartos-de-final da Champions League. As duas equipas já se cruzaram três vezes este ano. Nenhuma venceu. Do outro lado da trincheira o Real Madrid assistirá a esse leque de confrontos confiando-se de que a sua maior eficácia com as equipas a quem quintuplica em orçamento seja suficiente para vencer um campeonato que podia ter no bolso mas que não soube ganhar. Ainda.



Miguel Lourenço Pereira às 12:05 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sábado, 22.03.14

A temporada arranca para o seu final. A margem de erro é cada vez menor. As facas vão-se afiando. Em Barcelona todos esperam um passo em falso. A memória, inebriada pelo sucesso, é curta. O trabalho de Gerardo Martino tem estado à altura das expectativas. O técnico argentino tem sabido conjugar a herança de uma das melhores equipas da história com a sua visão particular. Encostado à parede pelos seus, o Tata merece o elogio que alguns se resistem a dar. Talvez esperem pelos resultados para ditar a sua sentença.

Pep Guardiola é uma sombra imensa.

Candidato natural a essa lista impossível de fazer com algum sentido de "melhor treinador da história", Pep é tudo em Barcelona. É o Jesus Cristo da religião blaugrana, o homem do antes e o semi-deus do depois. A sua saída provocou um caos emocional na mente do adepto habituado a um período de euforia constante. Poucas equipas na história do futebol conseguiram o que o Pep Team logrou. Muito para lá dos triunfos (e foram tantos), ficou o padrão de jogo. Ficou o engenho de um rookie em conjugar uma ideia ancestral, desenvolvida nas margens do Danúbio e nos canais de Amesterdão, com uma geração de estrelas. Dois anos antes de Guardiola chegar ao banco do Camp Nou o Barcelona tinha sido campeão europeu pela primeira vez em catorze anos. Mas tão depressa subiram aos céus como baixaram aos infernos. O génio de Guardiola esteve em entender que a esmagadora maioria dos jogadores dessa equipa estavam a ser castigados pelos erros de poucos. E que havia um pequeno extremo com alma de assassino de área à espera que alguém lhe tirasse a venda dos olhos. Pep fez do difícil fácil. Voltou ao básico, simplificou parâmetros, redescobriu sensações únicas. Fez do pressing de Sacchi a sua bíblia e modernizou o jogo de extremos condenado pelo asfixiamento táctico do corredor central. Apostou em anónimos, confiou em estrelas, entregou a batuta aos seus sucessores ideológicos em campo e sentou-se a apreciar a sua obra de arte. Não haverá outro como ele. A sua saída, precipitada tanto pelo seu desgaste das guerras psicológicas com Mourinho para as quais não tinha paciência e vontade como pelos problemas internos num clube autodestrutivo, abriu um vazio. Vilanova levou a equipa ao titulo mas também abriu as primeiras brechas. Apesar de ter sido sempre parceiro de aventuras com Guardiola, a sua visão táctica era bastante diferente do modelo mais arrojado de Pep.

Com Vilanova o Barcelona afunilou o seu jogo numa reprise do 4-2-2-2 brasileiro de 82, em que Pedro ou Alexis se juntavam a Messi na frente, escudados por Cesc e Iniesta, com Xavi cada vez mais distante da área e próximo de Busquets. A explosão de energia de Jordi Alba pela esquerda, em tudo parecida à de Dani Alves nos inícios do Pep Team, deram profundidade à equipa mas a formação perdeu importância e só uma serie de resultados pela mínima salvaram o Barcelona de um arranque tremido. Isso e o insaciável apetite goleador de Messi, recordista absoluto de golos num ano natural. Quando Vilanova teve de voltar a Nova Iorque, para vencer a sua particular guerra contra o cancro, o desnorte táctico ficou evidente. Os jogadores - que os mais críticos a Guardiola diziam saber gerir o jogo sós - perderam motivação e orientação. A vantagem conquistada na liga frente a um Madrid em guerra civil foi suficiente para assegurar o titulo mas as derrotas na Copa del Rey e na Champions League deixavam em evidência as decisões de Vilanova. O Barcelona tinha de se reinventar sem abdicar da sua herança histórica. Uma tarefa dificil para qualquer um. Uma tarefa da qual se ocupou um homem desconhecido no futebol europeu.

 

Na Argentina há poucos treinadores tão respeitados como Martino.

Candidato inevitável a suceder a Alejandro Sabella como seleccionador, é um homem que não gera paixões mas que também tem poucos críticos. O seu trabalho com a selecção do Paraguai foi aplaudido com uma boa dose de reconhecimento de uma dose curiosa de génio e audácia. Campeão do país das pampas com o Newell´s, Martino era a escolha mais improvável para suceder a Villanova. Talvez porque a pré-época já ia avançada. Talvez porque a família Messi - sobretudo Jorge, o polémico pai do jogador - pertence ao seu núcleo de amizades desde há largos anos. A verdade é que Martino foi escolhido para o lugar mais cobiçado do mundo do futebol trazendo consigo do outro lado do charco uma versão alternativa do que em Barcelona consideram o santo e senha do futebol. Treinador que reconhece a importância fundamental do futebol de toque e posse, o Tata é também um pragmático. Um treinador que sabe que há muitos caminhos para encontrar o golo e que nenhuma fórmula é má suficiente para não ser tentada se a situação o exige. Uma dose de pragmatismo depois de cinco anos de euforia emocional era algo para o qual os adeptos e jornalistas da imprensa catalã não estavam preparados. Sem abdicar da filosofia Barça, os onzes compostos por Martino eram mais humanos, lógicos e racionais. Sem medo de manter um pulso com as estrelas do balneário, Martino conseguiu gerir um plantel com um claro overbooking ofensivo. Tem sabido integrar Neymar às exigências do jogo europeu sem pressas. Recuperou o melhor Alexis Sanchez depois de dois anos cinzentos desde a sua chegada desde Itália. Com Fabregas - protagonista do modelo de Vilanova, um dos seus principais valedores - mantém uma relação de respeito e desconfiança de um jogador incapaz de dar um passo em frente e assumir o protagonismo que todos esperavam dele. Sobretudo, Martino sobreviveu a uma politica desportiva nefasta que o deixou sem centrais antes da época começar. E conseguiu manter a cabeça à tona da água quando Messi, um dos mais brutais jogadores da história, se lesionou durante largas semanas e deixou a equipa órfã do seu génio. Seis meses depois de aterrar na Europa, a Martino tinha-lhe passado de tudo. E tinha saído vivo de todos os confrontos. Mas a falta de compromisso ideológico com a ideia do "tiki-taka" e a sua visão tipicamente sul-americana do que significa vencer não fez os amigos que ás vezes contam em clubes como o Barcelona.

A vitória frente ao Real Madrid, o apuramento para a final da Copa del Rey e para os quartos-de-final da Champions League parecem insuficientes. Pela primeira vez em cinco anos, a equipa segue em terceiro lugar na liga. Amanhã defronta o Real Madrid no Bernabeu. Pode sair da capital a um ponto da liderança. Ou a sete e com o titulo cada vez mais distante. Ironicamente, Martino está a uma meia dúzia de jogos de vencer todos os troféus no seu ano de estreia com os blaugrana a perder quase tudo. Num clube que gosta de defender o valor das ideias, os títulos continuam a pesar demasiado. E poucos acreditam que, apesar do trabalho desenvolvido, o Tata Martino dure para lá de Junho.

 

Em ano de eleições, previsivelmente, Martino tem o destino traçado. Ele próprio parece cansado das intrigas e da histeria que se abateram sobre uma cidade e um clube órfãos de uma abordagem mais carnal e ao mesmo tempo etérea do banco do Barcelona. Apesar de somar alguns jogos distantes da memória luxuosa do Pep Team, o Barcelona de Martino é uma equipa mais incisiva, ofensiva e imaginativa que a de Vilanova. Mas como o título de campeão está cada vez mais distante e o técnico não saiu de La Masia, as vozes mais criticas já se fazem ouvir. O Barcelona terá de aprender a viver para lá da sombra do génio de Guardiola e da sua herança. Dificilmente encontrará outro homem que seja capaz de gerir tão bem com esse peso. Quando Martino voltar ao seu país natal, sentirão a sua falta. Será tarde demais!



Miguel Lourenço Pereira às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quinta-feira, 11.07.13

Em 2008 Josep Guardiola chegou à primeira equipa do Barcelona depois de realizar um trabalho notável com a equipa B do clube, que promoveu à segunda divisão depois de vários anos. O papel da Masia, a casa onde cresceu como homem e jogador, sempre foi fundamental na sua filosofia. Mas a direcção de Sandro Rossell, homem forte da Nike e com ânsias de protagonismo, sempre preferiu um modelo de "Globetrotters". As personalidades chocaram e foi Guardiola quem saiu. O resultado está à vista. Em pouco mais de um ano, há pouca esperança para a Masia.

 

No último ano de Guardiola, o que lhe custou os títulos com o Chelsea e Real Madrid, forçando-o a abandonar Camp Nou apenas com a Copa del Rey debaixo do braço, o papel da cantera foi tão importante como sempre.

Não só porque Sergio Busquets e Pedro Rodriguez - dois desconhecidos para a maioria dos próprios adeptos blaugranas - se tinham confirmado como titulares indiscutiveis do seu projecto, mas porque continuava a surgir gente nova com vontade de ocupar o seu lugar. O Barcelona chegou a efectuar jogos só com futebolistas formados em casa. Aos históricos Valdés, Puyol, Xavi, Iniesta e Messi, todos eles já em Can Barça quando Guardiola aterrou, juntavam-se Pique, Pedro e Busquets (parte da sua primeira fornada) e também o recuperado Cesc Fabregas e Thiago e Bartra (jogadores utilizados inicialmente nos dois anos seguintes à sua estreia). Onze futebolistas aos que se podiam começar a adicionar os estreantes Montoya, Cuenca e Tello. Todos eles, mais Sergi Robert e, pontualmente, Gerard Deulofeu, passaram pelo onze titular das mãos de Guardiola. Um total dezoito jogadores (se juntamos a Muniesa e Rafinha) que tiveram minutos nesse ano. Um número assombroso para uma equipa de elite mundial. Pep não venceu por pequenos detalhes os dois títulos principais mas não só consolidou o presente do Barça como arrancou o desenho do seu futuro. Os adeptos podiam estar tranquilos. Havia opções para todas as posições e mesmo aquela onde a equipa mais sofria (com os problemas de Abidal), a resposta estava outra vez em casa, no regresso de Jordi Alba ao clube que o formou. Não havia que enganar.

Um ano e alguns meses depois, a situação mudou radicalmente. Os jogadores formados no Barcelona que não eram já titulares indiscutiveis em 2011 parecem ter todas as vias da equipa principal fechadas. A operação saída começou ainda na época passada e prossegue neste Verão. Tito Vilanova, outro filho da Masia, mudou radicalmente a sua política face à do seu antigo amigo e superior. Para ele a cantera conta cada vez menos e a ideia de forjar um "Globetrotter" mundial, como quer o presidente Rossell, parece-lhe muito mais interessante.

 

Cuenca e Muniesa foram os primeiros descartados por Vilanova.

O extremo direito foi utilizado várias vezes por Guardiola em 2011/12 com boa nota mas acabou por ter de seguir a sua carreira no Ajax, enquanto o promissor central, vitima de vários problemas físicos, foi igualmente descartado. Robert e Rafinha, que tanto prometiam nesse último ano da era Pep, jogaram tão pouco que custa associar os seus nomes ao plantel campeão. Bartra só foi realmente opção para Vilanova quando ficou claro que utilizar Song e Adriano a centrais era aumentar os problemas em vez de diminuir os riscos. Fez boas exibições, mesmo nos momentos de maior aperto contra o Bayern Munchen, mas parece que para o clube isso não chega. Com Guardiola teria mais minutos, com Vilanova parece destinado a ser a quarta opção se finalmente chega a Can Barça uma estrela do nível de Thiago Silva ou um jovem com a projecção de Marquinhos. No lado direito, Montoya, que foi utilizado várias vezes pelos problemas físicos de Alves, continua a pedir mais minutos e a ponderar sair para encontrá-los. Com o mesmo problema encontrou-se Thiago.

O seu caso é verdadeiramente paradigmático. Não só porque o médio é o mais promissor futebolista a sair da Masia nos últimos sete anos, como durante anos foi anunciado como sucessor natural de um Xavi Hernandez que já tem 33 anos nas pernas. Thiago demonstrou o seu valor, não só de blaugrana ao peito mas também com a Rojita, e se começava a ganhar o seu espaço com Guardiola, com Tito perdeu-o por completo. A tal ponto que o seu contrato estipulava que, se disputasse x minutos, a cláusula seria de 30 milhões. Menos desse tempo de jogo e baixaria a 18. Com o título no bolso a várias jornadas do fim, Vilanova não teve a inteligência de o colocar a jogar regularmente para segurar o futebolista. Era visivel o seu desinteresse. E assim o mais velho dos irmãos Alcantâra tem a porta aberta com Guardiola em Munique.

O seu irmão Rafinha já tem guia de marcha, com um empréstimo ao Celta de Vigo. Deulofeu, a outra estrela da Masia, jogará com o Everton. Tello terá a concorrência directa de Neymar e Alexis apesar das excelentes exibições das últimas temporadas. Jogará muito pouco se a explosão do brasileiro se converter numa realidade.

Sob os planos de Vilanova, e a julgar pelo onze habitual da última temporada, mais Neymar, os "canteranos" que terão minutos serão os mesmos que já os tinham em 2011, mais Alba. Em 3 anos, todas as promessas da formação catalã foram descartadas. Mas não pela falta de talento. Todos eles têm um nível altíssimo de conhecimento de jogo e poderiam perfeitamente disputar a titularidade no Barça actual e dar a sua contribuição, como sucedia com Guardiola. Mas não será assim. Rossell e Vilanova preferem apostar noutro modelo de negócio, onde se abra espaço para o génio de Neymar, as habilidades de Alexis, as trapalhadas de Song, a frieza de Thiago Silva ou uma utilização excessivo de kms nas pernas de jogadores que têm um ritmo diferente como Puyol ou Xavi. A geração a quem Guardiola tinha deixado o testemunho para começar a ocupar o seu lugar foi convidada a sair. Muitos deles acabarão por regressar da mesma forma que a Xavi, Iniesta e Puyol lhes custou ser titulares. Outros estarão perdidos para sempre. Mas o mito da Masia como fábrica constante de jogadores para a primeira equipa foi desmantelado. Com um plantel curto e muitos jogos pela frente, havia tempo e espaço para todos. Pelo menos, com outro capitão ao leme!



Miguel Lourenço Pereira às 13:53 | link do post | comentar | ver comentários (16)

Sexta-feira, 28.06.13

Carlo Ancelloti chega ao Santiago Bernabeu com um curriculo profissional que nada deixa a invejar o de José Mourinho. Volta a ser a sua sombra, depois da sua etapa no Chelsea. Com ele traz um novo conceito de jogo, onde a velocidade e a vertigem serão progressivamente substituídas pela pausa e o jogo colectivo. Uma nova etapa para um clube em constante conflito existencial.

Não há treinador italiano que melhor represente a mudança de guarda dos anos dourados da década de noventa.

Nenhum capaz de manter a frescura visual dessa geração nas suas equipas sem demasiados malabarismos tácticos. As equipas de Ancelotti não são nenhum puzzle. Pelo contrário, o seu esquema roça praticamente o básico. Posicionamento horizontal, organização defensiva, trabalho na medular e liberdade para dois ou três homens de ataque. Nada de contra-golpe, nada de velocidade constante. As equipas de Ancelotti movem-se em campo como o dinamo preferido de Arrigo Sacchi fazia em San Siro. Com a tranquilidade de quem sabe que chegará ao seu objectivo.

O técnico italiano popularizou na viragem do século XX o 4-3-1-2. Um modelo que, desde então, tem sido sinal de identidade do Calcio.

Com a Juventus, onde sucedeu à figura imensa de Marcelo Lippi, a jovem promessa dos bancos italianos herdava uma equipa com muito trabalho no meio-campo e pouca criatividade. Ignorando o 3-4-3 da última etapa de Lippi, preferiu reforçar a linha defensiva com o modelo de quatro homens aplicado por Sacchi, o seu grande mentor. Depois colocou Davids, Conte e Tachinardi no apoio a Zidane, Del Piero e Inzaghi, com o francês com liberdade total de movimentos e "Il Pinturrichio" como avançado móvel no ataque. No final do ano mudou-se para Milão onde tomou a decisão mais importante da história recente do futebol italiano. Fiel ao seu 4-3-1-2, Ancelotti manteve Rui Costa como o seu trequartista, atrás da dupla Shevchenko-Inzaghi. Com Ambrosini/Albertini e Gattuso disponíveis para dois lugares, parecia não haver espaço para o promissor Andrea Pirlo. Mas o jovem, que tinha estado emprestado no Brescia, era bom de mais para ser suplente do internacional português e Ancelotti recuou-o para a posição de regista. Uma manobra táctica decisiva que lhe valeu o seu único Scudetto, duas Champions League ganhas e uma final perdida, inesperadamente, em penalties. O seu modelo táctico permaneceu quase inalterado quando se mudou para Londres, depois de quase dois anos calamitosos pós-Mourinho. Aí voltou a fazer uso do seu 4-3-1-2, reconvertendo Malouda como médio interior, ao lado de Lampard e Essien, por detrás de Ballack, Drogba e Kalou na linha de ataque. Com essa equipa conseguiu algo histórico que nem o Special One logrou (vencer liga e taça no mesmo ano) mas na Europa o Chelsea não impressionou e a eliminação aos pés do Inter de Mourinho deixou marca. Despedido por Abramovich, reencontrou-se em Paris com um novo projecto a que voltou a aplicar o seu velho conceito de jogo, desdobrado ocasionalmente num ainda mais clássico 4-4-2, com Ibrahimovic, Lucas e Lavezzi como os três jogadores mais apertados e Pastore, Matuidi e Verrati a fecharam a linha de meio-campo.

 

A chegada de Ancelloti ao Bernabeu é um sonho antigo de Florentino Perez.

O presidente do Real Madrid esteve perto de o contratar em 2009, mas sob indicação de Jorge Valdano, acabou por ser Manuel Pellegrini o escolhido. Cinco anos depois, encerra-se o ciclo. Ancelotti é um ganhador. Tem um currículo que inclui ligas em três paises diferentes (o mesmo número que tinha Mourinho quando chegou a Madrid) duas Champions League (as mesmas que tem Mourinho) e um perfil muito mais apaziguador e silencioso que o português. Com Ancelotti ninguém espera ver uma guerra aberta com a imprensa e com o balneário. Habituado a líder com presidentes com carácter (Agnelli, Berlusconi, Abramovich) e com celebridades do futebol europeu (Zidane, Del Piero, Shevchenko, Rui Costa, Drogba, Lampard, Terry, Ibrahimovic), a "Carletto", não lhe faltará experiência para lidar com a facção rebelde de Iker Casillas e Sérgio Ramos ou os clãs regionais formados à volta dos jogadores portugueses, alemães e espanhóis mais afins a Mourinho. Não será uma missão fácil num clube reconhecido pelo poder excessivo que os jogadores sempre procuraram conquistar à custa do papel do treinador. Mas não existia, no mercado de técnicos, um perfil mais adequado para a missão do que o seu.

Em campo a mudança de Mourinho para Ancelotti será ainda mais evidente. Fiel ao seu desenho táctico, a mutação do 4-2-3-1 habitual de Mourinho para o 4-3-1-2 adequa-se principalmente ao over-booking de jogadores medulares e criativos do plantel merengue. A chegada do genial Isco abre a porta a um duelo apaixonante com Mezul Ozil pela posição de criativo principal desta nova formação blanca. Atrás, os três lugares do meio-campo deverão ser distribuídos entre Xabi Alonso, Modric e Khedira, deixando a Cristiano Ronaldo e Benzema as vagas no ataque. O português como elemento mais livre, móvel, capaz de mover-se entre as alas para aparecer em áreas de finalização e Benzema, peça essencial no jogo combinativo habitual nas equipas de Ancelloti. Um desenho táctico que raramente utiliza extremos puros o que pode ser um problema para o jovem Jesé mas nem tanto para Di Maria, que tanto pode incorporar-se como elemento da linha de ataque como eventualmente recuar para a posição de interior direito graças à sua tremenda capacidade de trabalho. Só a possível - mas complexa - chegada de um jogador como Gareth Bale poderia levar Ancelloti a procurar por um mais clássico 4-3-3 com Ronaldo e Bale nas alas, acompanhados de Benzema e Ozil, Isco, Alonso, Khedira, Di Maria e Modric a competirem por três lugares, um problema sério para qualquer gestor humano resolver.

 

A nova abordagem de Ancelotti, se o italiano se mantiver fiel aos seus princípios tácticos, aportará ao Real Madrid um jogo mais colectivo e elaborado, onde o papel dos laterais (Carvajal e Arbeloa pela direita, Marcelo, Coentrão ou o seu eventual substituto pela esquerda) é fundamental graças ao músculo colocado no meio-campo para tapar qualquer falha de marcação colectiva. Um tridente composto por jogadores como Ozil, Isco, Alonso e Modric pode oferecer uma dinâmica ofensiva apaixonante, particularmente se associada ao apetite goleador de Ronaldo e a um Benzema possivelmente motivado pela presença de Zidane no banco e a ausência de Higuain como competidor directo. Se o Barcelona parte como claro favorito para a próxima época, a escolha de Ancelotti é uma manobra inteligente de Perez para manter o Real Madrid e o seu plantel de sonho perto, muito perto, da máquina ofensiva blaugrana.



Miguel Lourenço Pereira às 22:02 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Segunda-feira, 03.06.13

A inclinação brasileira do Barcelona ressuscitou graças ao desejo e influência de um presidente que foi, durante anos, o homem-forte da Nike na Europa. Rossell cumpriu o sonho de trazer Neymar para a Europa e agora cabe ao craque brasileiro demonstrar que pode queimar as etapas que nenhum dos seus predecessores foi capaz, brilhar no seu ano de adaptação numa equipa desenhada para um dos seus rivais pelo trono mediático mundial.

A paixão vem de longe. De Evaristo.

Nos anos cinquenta, o brasileiro foi um dos homens mais influentes na curta passagem de Helenio Herrera pelo Barcelona. Antes de transformar-se no guru do catenaccio, o argentino notabilizou-se em Espanha como um amante do ataque romântico, como provou no Atlético de Madrid e no Barcelona. No Camp Nou contou com os golos de Evaristo para acabar com a hegemonia nacional do Real Madrid. O avançado foi o responsável pela primeira eliminação europeia dos merengues e entrou para a história do clube blaugrana. Durante trinta anos foi a grande estrela brasileira da vida do Barça que tentou com Roberto Dinamite, sem sucesso, repetir a fórmula. Foi Romário, da mão de Cruyff, que reactivou a conexão canarinha no Camp Nou. O primeiro de muitos que se seguiram. Ronaldo Nazário, no seu ano mais brilhante, e Rivaldo culminaram essa paixão. Seguiram-se erros de casting como os avançados Giovanni e Sonny Anderson e os médios Fabio Rochemback, Thiago Motta e Geovanni. Mas com Ronaldinho todos se esqueceram desses pequenos precalços. O brasileiro tinha chegado das mãos de Rossell, quando Laporta queria Beckham. O inglês foi para Madrid, o brasileiro chegou de Paris e ajudou a reescrever a história do clube. Rossell, dirigente da Nike Europa durante largos anos, foi o homem forte dessa operação. Com o génio brasileiro vieram também Beletti e Sylvinho, nomes menores mas reflexo dessa conexão canarinha potenciada por Rossell. Quando a festa acabou, a ressaca brasileira gerou pavor nos adeptos. Henrique e Keirisson, últimos suspiros dessa tentativa de procurar a próxima estrela, foram erros calamitosos. Pelo sim pelo não, Laporta nunca mais voltou a pescar no Brasil. Quando regressou ao poder, Rossell, agora como presidente, alimentava o sonho. De trazer Neymar. Para ele - e para os brasileiros - o extremo até agora do Santos é o sucessor espiritual dessa saga Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Tê-lo em Barcelona era quase obrigatório e depois de dois anos em que Guardiola mediu o impacto da sua chegada num balneário dominado por Messi e enquanto os multiplos patrocinadores do jogadores exploravam a sua imagem, ficou no ar a ideia de que era questão de tempo até Neymar aterrar em Can Barça. Até que finalmente, diante de 45 mil adeptos extasiados, chegou o novo profeta canarinho para ter Barcelona aos seus pés.

 

O grande desafio de Neymar está, precisamente, no passado da história do Barça e dos grandes clubes europeus.

Não é por casualidade que clubes de ligas como a portuguesa, holandesa, francesa ou até italiana servem de porta de entrada para as maiores promessas da América Latina. No cone sul joga-se a um ritmo, a uma velocidade totalmente radical. O espaço tem um valor distinto. As marcações são feitas a outro ritmo e, sobretudo, a outra distância. O jogador tem tempo de receber a bola, cumprimentar a sua própria sombra antes de cruzar-se com a do rival. Nesses segundos mágicos há espaço para o drible, o toque súbtil, o levantar a cabeça. O respirar.

Esse tempo tão habitual nas ligas sul-americanas não existe na Europa, sobretudo no futebol espanhol. Cristiano Ronaldo sentiu essa diferença ao mudar-se da Premier - onde a defesa é mais dura mas menos pressionante - para Madrid. Agora imaginem o choque de o fazer directamente do Brasileirão para o clube mais exigente do mundo. Neymar no Santos brilhou muito mas ganhou pouco. O palmarés do clube santino e do jogador é bastante reduzido para tanto ruído mediático. Esse é também um sinal importante. Numa liga mais fácil e menos exigente, os milagres de Neymar não foram suficientes para manter o Santos constantemente no topo. Um alerta para quem acredita num milagre imediato.

Romário e Ronaldo brilharam durante dois anos no PSV antes de chegar a Barcelona. Ronaldinho passou pela mesma etapa no Paris Saint-Germain e só ao segundo ano começou a fazer valer a sua classe. Kaká chegou novo ao AC Milan e teve tempo de crescer sem pressão, mas precisou de cinco anos para afirmar-se internacionalmente. Outros jogadores promissores, de Denilson a Adriano, ficaram pelo caminho.

Neymar terá menos segundos no seu novo relógio e menos espaço para jogar, para criar. Ele é menos um goleador e mais um assistente. Vai-se posicionar preferencialmente sobre o extremo esquerdo, devolvendo Iniesta ao miolo para colaborar com Xavi na criação. Forçando que Cesc e Villa se tornem supérfluos, que Pedro compita com Alexis e que Messi tenha uma sombra. O brasileiro está habituado a receber e decidir. Agora terá de receber e dar. Com Iniesta pode encontrar um sócio fundamental, particularmente com o apoio de Alba. Mas a sua tendência para a diagonal acabará por levar que choque com Messi no espaço. Mesmo imaginando dois génios da técnica a entenderem-se em centímetros e micro-segundos, é inevitável que o choque fisico que existiu entre Messi e Ibrahimovic se repita, agora com o argentino no meio.

 

Com Neymar o corpo técnico do Barça ganha um reforço ao 4-3-3, ganha um novo goleador para aparecer quando Messi não está. Mas também ganha uma incógnita. Poderá fisicamente manter a exigência de jogar na Europa. Terá rapidez mental e física suficiente para reaprender os seus conceitos de tempo e espaço? Será capaz de colocar o seu ego de lado - como assim tem sido nas declarações realizadas - quando chegar a hora da decisão, e procurar o passe antes do remate? Terá a habilidade suficiente para ser mais um da engrenagem blaugrana e não a ânsia, tão sul-americana, de ser o vértice do modelo? Muitas perguntas que só poderão ser respondidas nos próximos 365. Se triunfar, será o primeiro brasileiro a consegui-lo no seu primeiro ano europeu, algo que nem Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká lograram. Caso contrário, terá seguramente a exigente imprensa atrás da sua sombra e o Brasil pendente do estado moral da sua estrela em ano de Mundial.



Miguel Lourenço Pereira às 17:12 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Quarta-feira, 01.05.13

Humilhação absoluta. Nunca na história da máxima competição de clubes da UEFA uma meia-final acabou com um resultado mais parecido a um encontro de futsal do que a um duelo entre dois emblemas de elite do futebol europeu. A vitória esmagadora do Bayern Munchen sobre um Barcelona estéril confirmou definitivamente o fim da era iniciada em 2009 brilhantemente pelo génio de Guardiola. A hegemonia teutónica no futebol europeu é a melhor notícia num ano que despede, definitivamente, um projecto que coleccionou admiradores em todo o mundo.

 

É complicado procurar nos livros de história uma diferença tão abismal entre dois semi-finalistas de alto nível europeu.

É mais ainda quando se trata de uma equipa que marcou uma era. O Real Madrid de Di Stefano, o Benfica de Eusébio, o Inter de Suarez, o Milan de Rivera, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer, o Liverpool de Dalglish, o Milan de van Basten...e podíamos continuar numa lista quase sem fim. Nenhuma dessas equipas foi tão facilmente destroçada num jogo europeu como este Barcelona. Nunca nenhuma delas capitulou de forma tão clara e evidente. Sem ideias, sem físico, sem argumentos. Nunca nenhuma delas colocou o ponto final na sua epopeia de uma forma tão humilhante.

O ciclo do Barcelona começou com Guardiola e acabou com Guardiola. A saída do génio de Santpedor fechou um capítulo maravilhoso na história do clube blaugrana. Foi uma saída triste, entre derrotas e problemas internos no balneário.

A instituição tinha duas opções. Ou apoiar Guardiola numa renovação necessária ou dar o poder ao balneário. Escolheu o segundo caminho. Entregou o poder a Messi e companhia e colocou no banco o mais inepto dos treinadores, um garante de que a filosofia blaugrana seguia mas que não levantava problemas com os pesos pesados do plantel. Vilanova abdicou do futebol original de Guardiola para transformar o seu 4-3-3 ou até 3-4-3 num 4-2-2-2, centralizando o jogo pelo corredor central para dar espaço a Fabregas e Alexis, as duas contratações milionárias do último ano do guardiolismo e que para ele tinham contado muito pouco. Com motivos.

Vilanova sofreu uma recaída do cancro que já o tinha afectado no ano anterior - como sucedeu com Abidal - e deixou no poder o responsável por compilar dvds para Guardiola. Percebeu-se que o poder era, de facto, dos jogadores e a queda abrupta da qualidade de jogo notou-se. Salva-se o génio de Messi, incapaz fisicamente de dar continuação ao seu brilhante arranque de época, no meio da hecatombe. Nem Xavi, nem Iniesta, nem Pedro, nem Villa, nem Fabregas, nem Alexis eram capazes de dar a cara. Depois de uma reviravolta polémica contra o AC Milan, e de um duelo com o PSG onde a equipa esteve perto de ser eliminada, salva no último momento pela aparição do argentino, o inevitável sucedeu. A derrota calamitosa contra o gigante alemão.

 

O Barcelona viveu da glória de há dois anos durante quase 700 dias.

A derrota contra o Real Madrid, na liga, e contra o Chelsea, na Champions League, foram o sinal mais evidente da mudança de ciclo. Contra o eterno rival a derrota surgiu, sobretudo, pela falta de regularidade no campeonato, culpa de uma defesa demasiado permeável. Contra os ingleses - clube que tinham eliminado de forma absolutamente vergonhosa três anos antes - foi a sorte favorável aos britânicos e o desnorte ofensivo de Messi que condenou o conjunto blaugrana. O projecto estava minado por dentro, Guardiola percebeu-o e saiu. Com a cabeça alta, apesar das derrotas. Como a um génio corresponde.

A directiva do clube escolheu o seu adjunto e este demonstrou ser incapaz de estar à altura da sua herança. Batido em todos os duelos directos com o Real Madrid, Vilanova foi um fantasma na eliminatória com o PSG e este ausente nos dois jogos com o Bayern. Tacticamente comprometeu a equipa blaugrana com o seu esquema conservador no Allianz, abdicando de um jogo mais aberto e ofensivo com Tello como titular. A derrota copiosa por 4-0 foi criticada por alguns dos habituais ultras da ideia blaugrana - sobretudo esses - pelo fora-de-jogo de Gomez, esquecendo-se dos penaltys que ficaram por marcar. Criticas que serviam para esconder a ausência de ideias futebolistas e a realidade mais negra para os adeptos do clube. Duas oportunidades de golo em todo o jogo, as duas dos pés do central Marc Bartra. Muito pouco.

O resultado era humilhante, a exibição de superioridade física, táctica e técnica dos alemães era ainda mais. Ribery, Robben, Muller, Gomez, Schweinsteiger e, sobretudo, Martinez - por quem o Barcelona não quis pagar 40 milhões para contratar Song no seu lugar - atropelaram por completo a máquina blaugrana. Para os que pensavam que era um acidente, o Bayern Munchen demonstrou que não. No Camp Nou a equipa saiu ao ataque - ao contrário de Inter e Chelsea, os anteriores carrascos do Barça - dispôs sempre das melhores ocasiões e voltou a golear. O Barcelona falhou algumas ocasiões mas nunca deu sensações de estar dentro da eliminatória. O plantel mais caro do mundo não tinha ideias. A sua estrela individual - responsável pelo título de liga com a sua maravilhosa sequência de golos - tinha sido um dos responsáveis da eliminação no ano anterior. Este ano uma lesão inoportuna impediu-o de fazer melhor. Cristiano Ronaldo, também lesionado, subiu ao relvado do Bernabeu. Messi nem se preocupou em forçar o corpo. A sensação de reviravolta era uma ilusão de adeptos não dos jogadores, conscientes de que tinham sido batidos no seu próprio jogo. Vilanova voltou a tropeçar com as tácticas, os bávaros demonstraram ser uma equipa completíssima e o inevitável sucedeu. Em 180 minutos o Barcelona não marcou qualquer golo. Não esteve sequer perto de o conseguir. Só Piqué acertou na baliza mas, lamentavelmente para o central que é uma sombra do que prometia ser, era a errada.

Em cinco anos o clube blaugrana venceu duas Champions League. Tantas como o Nottingham Forrest, o SL Benfica e Inter em duas temporadas. Muito longe dos registos de eficácia de Real Madrid, Ajax, Liverpool ou Bayern Munchen, por exemplo. O mito da possessão - estéril, se não é como arma de ataque - da magia dos construtores de jogo da selecção espanhola e de que uma ideia é capaz de vencer sem um treinador capaz e jogadores em forma caiu, definitivamente. Para o ano o projecto não será o mesmo. Haverá saídas, chegará Neymar para partilhar o protagonismo mediático com o astro argentino. Será um começar desde zero. Os milhões de que o clube dispõe, o seu historial e a qualidade individual de muitos dos seus jogadores, quando em plena forma, permitem legitimamente aos adeptos continuarem a sonhar com mais títulos. Mas este ciclo chegou ao fim. Em quatro anos o Bayern Munchen parte para a sua terceira final. São eles que querem agora consolidar o seu ciclo!



Miguel Lourenço Pereira às 21:50 | link do post | comentar | ver comentários (20)

Terça-feira, 23.04.13

A história do futebol europeu está repleta de jogos que perduram no tempo. Desde a sua primeira edição até à final da temporada que se disputa. A noite de hoje, em Munique, entra directamente para essa galeria. Em 2009, a caminho da sua mais do que merecida consagração, o Barcelona de Guardiola humilhou o Bayern Munchen por 4-0. Hoje, a super-equipa montada por Jupp Heynckhes, aplicou a mesma dose ao projecto herdado por Villanova. Um jogo onde os alemães foram mais rápidos, mais altos, mais fortes e melhores, muito melhores, ao jogo que consagrou o Barcelona na história do futebol.

Falar em hegemonia do Barça na Champions League tornou-se um lugar comum nos últimos anos.

E no entanto, a não ser que a equipa catalã opere um verdadeiro milagre no Camp Nou - o dia do patrono do clube, Sant Jordi, era hoje - a equipa vai completar um ciclo de cinco anos com apenas dois troféus no bolso. Em 2009 foram a melhor equipa do continente com um modelo inovador, fresco, ofensivo e tão apaixonante que permitia esconder os erros de uma meia-final polémica. Dois anos depois eram mais conscientes do seu papel, mais influentes nos corredores de poder e futebolisticamente muito mais maturos. Foram duas finais brilhantemente conquistadas contra o Manchester United, que permitiu coroar Messi, Xavi, Iniesta mas também Busquets, Piqué e Alves, como os melhores do planeta. E claro, Guardiola, o homem que resgatou a herança da posessão e do estilo centro-europeio. Mas esses foram apenas dois de cinco longos anos. No mesmo período de tempo, Real Madrid, Ajax, Bayern e Liverpool venceram entre três a cinco troféus. 

Na história, nem sempre os ganhadores deixam a sua marca. Essa realidade é indismentível, particularmente no caso de selecções como a Áustria, Hungria, Holanda, França ou Brasil, gerações apaixonantes que no momento da verdade foram derrotadas pelo destino. Mas claro, essa derrota permitiu-lhes entrar no panteão pelo estilo de jogo. O Barcelona actual é um projecto ganhador - como foi o de Cruyff e Rijkaard, equipas igualmente brilhantes - e provou saber vencer em campo muitas vezes de forma magistral. Mas com três eliminações em cinco anos numa meia-final - a confirmar-se a ausência de um milagre no Camp Nou, nunca descartado - pode realmente falar-se de hegemonia futebolistica europeia? Naturalmente, não.

 

Hoje o Bayern Munchen não jogou como o Inter ou o Chelsea, equipas que deixaram a nu a dificuldade crónica do Barcelona em jogar com pouco espaço. Hoje o Bayern Munchen jogou como o Barcelona gostaria de jogar mas já não consegue. Porque fisicamente não é a mesma equipa de há dois anos. Porque o modelo se transformou, com o tempo, num vector central em direcção de Messi quando antes se sentia o espirito colectivo coral de uma geração memorável. Porque Guardiola não está - e Tito Vilanova fez o mesmo em Munique que em Milão, onde esteve ausente, ou seja, nada - e sem ele o projecto faz menos sentido. E porque o Bayern não teve medo de disputar cada bola, de procurar cada lance o espaço mas sem abdicar da sua filosofia, de controlar o ritmo de jogo com a bola e sempre numa movimentação colectiva perfeita.

Robben e Ribery defendiam como Alaba e Lahm atacavam. Javi Martinez foi omnipresente no meio-campo, permitindo a Schweinsteiger vigilar Messi e Xavi, figuras ausentes em campo, espelhos dessa condição física deplorável que também se verificou no ano passado. E Muller, ocupando o lugar de Kroos, foi demolidor, movendo-se em toda a linha de ataque, destroçando marcações e abrindo espaços. Em nenhum momento do jogo existiu a sensação de que o Barcelona podia sentir-se superior. Em nenhum momento do jogo ficou a ideia de que a vitória do Bayern estava em risco. No final surgiu em golos e em dinâmica. Mas, tranquilos, em possessão não. 

Os alemães sobreviveram a uma primeira hora que permitia relembrar semi-finais anteriores na história recente do futebol europeu. Três penaltys por assinalar em trinta minutos prometiam uma péssima exibição do húngaro Viktor Kasai, que eventualmente se confirmou. Mesmo com esse handicaap, a equipa bávara manteve-se viva e activa e antes do intervalo abriu o marcador. Um canto - a defesa espanhola nunca lidou bem com este tipo de lances - uma bola que vai de um lado ao outro da área, salto perfeito de Dante que encontra a cabeça de Muller para abrir a noite de gala. Era um resultado tímido para a hegemonia alemã ao intervalo e ao abrir do segundo tempo, Mario Gomez, tratou de ampliar a vantagem. Estava em fora-de-jogo. Talvez Kasai tivesse visto no intervalo algum lance da primeira parte. Ou talvez seja um árbitro realmente mau. O resultado já era bom mas o Bayern nunca desistiu de procurar mais. O ataque blaugrana foi inofensivo, Messi uma alma penada, a melhor oportunidade acabou por ser de Bartra e seguindo o ritmo natural do encontro, Robben marcou o terceiro e decisivo golo. O golo que tornava a eliminatória um monólogo. Minutos depois, com o relógio a dar os últimos suspiros, Muller fechou a contagem para levar o Allianz ao delírio colectivo. O 4-0 de 2009 estava devolvido e moralmente, da mesma forma que os homens de Guardiola tinham sido insultantemente superiores nesse encontro, agora era a vez de Jupp Heynckhes ajustar contas com o passado e, talvez, com o seu futuro.

 

Desde 1997 que o Barcelona não perdia por uma margem tão grande na Europa. Vencer a eliminatória não é impossível mas os próprios jogadores blaugranas têm consciência de que seria necessário uma imagem radicalmente diferente e uma eficácia tremenda para dar a volta a esta situação. Dificilmente se pode considerar o final de um ciclo para os espanhóis. Na época passada o resultado foi o mesmo. Para os alemães, sim, a vitória histórica de hoje entra na galeria das suas noites mais brilhantes nas provas europeias. E depois da brilhante campanha do ano passado, da final perdida em 2010, parece claro que hoje o Bayern Munchen pode presumir de ser a equipa mais forte do planeta futebol. Só falta um título para confirmar, simbolicamente, a qualidade desta geração. 180 minutos para completar um ciclo memorável.



Miguel Lourenço Pereira às 21:39 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Quarta-feira, 30.01.13

Quando Johan Cruyff despediu Zubizarreta no aeroporto de Atenas, depois da humilhante derrota contra o AC Milan de Capello, seguramente não imaginava que teria de passar uma década até que o Barcelona encontrasse um guarda-redes capaz de interpretar perfeitamente a sua filosofia de jogo. Os adeptos blaugrana esperam agora não ter de esperar uma década mais até que Victor Valdés tenha sucessor. Porque o seu papel no modelo Barça é fundamental.

 

Quando Valdés erra, com os pés, a maioria dos adeptos e analistas activa de imediato o modo crítico.

Esquecem-se, talvez, que o catalão é um dos poucos guarda-redes do Mundo que utiliza os pés mais do que as mãos. É isso que se lhe exige, foi para isso que foi treinado desde pequeno. Valdés é o sucessor mediático de Grosics, o polémico e incendiário guarda-redes húngaro da Aranyascap orientada por Gustav Sebes. Quando os ensinamentos da escola danubiana viajaram, primeiro para Amesterdão e depois para Barcelona, a ideia de um guarda-redes capaz de jogar com o resto da equipa vinha na mala. E ficou.

Ao contrário dos guarda-redes sul-americanos, que com os pés desafiam a sua natureza e sonham com algo mais que só o sonho potrero pode aspirar, Valdés utiliza os pés com critério. O mesmo critério que todos os outros colegas de equipa e, tantas vezes, superior ao de muitos rivais. Numa equipa de tracção à frente, que concede poucas ocasiões, o trabalho do guarda-redes é fundamental. Valdés foi herói em Paris, quando Henry teve a Champions League no bolso. Foi também fundamental em aguentar o assédio do Manchester United em Roma, até que a combinação Iniesta, Xavi e Messi começou a funcionar. E durante estes últimos dez anos foi o único guarda-redes que soube compreender a natureza da baliza do Camp Nou. Entre o basco Zubizarreta e ele passaram uma infinidade de guarda-redes, todos de características muito distintas mas com um ponto em comum: nenhum sabia manejar bem a bola com os pés.

Nem Vitor Baía, nem Ruud Hesp, nem Roberto Bonano, nem Francesc Arnau, nem Robert Enke, nem sequer Pepe Reina, forjado na mesma filosofia, entenderam tão bem como Valdés o que lhe era exigido. Ser o primeiro a fazer jogar.

 

Guardiola defendeu sempre Valdés como peça nuclear do seu modelo de jogo.

Não só porque sabia sair a jogar com os pés, oferecendo o homem extra na defesa que ele sacrificava para enviar ao ataque. O seu 3-3-4 às vezes tornava-se num 4-3-4 porque Valdés subia no terreno e oferecia uma alternativa de passe extra ao jogador com a bola. Os colegas sabiam que podiam confiar nele. Errou. Algumas vezes errou. E por ser o guarda-redes, o último homem à face da terra, a equipa pagou o preço. Mas não abdicou da sua forma de jogar. Não por um erro, nem por mil.

Muitos criticaram o técnico catalão pela sua fidelidade a Pinto - um guarda-redes bem distante da escola blaugrana mas peça fundamental no balneário - ao fazê-lo jogar a final da Copa del Rey que Cristiano Ronaldo decidiu com um golpe de cabeça impossível a favor do Real Madrid. Mas nesse momento a transcendência de Valdés não se notou no golo sofrido mas sim nos problemas que os catalães encontraram ao sair com a bola controlada. Na semana seguinte, Valdés voltou a demonstrar a sua inteligência de jogo, não saindo com a bola controlado mas com um lançamento longo preciso que leu o desmarque de Pedro com a mesma inteligência de jogo que um passe de Xavi teria tido uns metros à frente. O Barcelona marcou e fechou a polémica meia-final da Champions League. Seria a terceira medalha ao peito do guarda-redes, o mais laureado dos guarda-redes espanhóis em provas da UEFA.

Dez anos depois de van Gaal lhe ter dado a primeira oportunidade, Valdés está farto.

Sofreu a pressão dos maus anos de Rijkaard, nunca conquistou definitivamente a admiração do próprio público, o mesmo que duvidava do valor de Xavi e Iniesta antes da chegada de Guardiola, e não gostou sobretudo de ter sido o bode expiatório das derrotas e o nome silenciado nas vitórias. É um homem de desafios extremos, amante do surf e dos desportos radicais, filho de uma geração da Masia que, salvo ele, não triunfou como se esperava. Antes dele já estavam Puyol e Xavi, logo a seguir veio Iniesta, Messi e companhia, mas ele surgiu sozinho. E sozinho vai partir. Deixará saudades e sobretudo um vazio que os directivos ainda não sabem como preencher. Porque, fiel à sua formação, é um guarda-redes único. Na cantera blaugrana há jovens com potencial mas que precisam de muitos anos e minutos para chegar à excelência que este projecto exige. E no mercado não deixa de haver grandes guarda-redes, como Vitor Baía o foi, mas cujo o valor fica para segundo plano quando a exigência de enquadrar-se num esquema já custou tanto a Ibrahimovic ou Villa, no outro extremo do terreno de jogo.

 

Valdés nunca se consagrou como o grande guarda-redes espanhol porque a sombra de Casillas é imensa e incontestada. Mas o seu percurso profissional é um exemplo perfeito de como uma filosofia de jogo é capaz de gerar jogadores para posições distintas mas com o mesmo ADN. Qualquer que seja o clube que o receba, terá um reforço radicalmente diferente à sua forma de jogar. Qualquer que seja o seu substituto, perderá sempre na comparação com a essa entrega ao projecto Barça. No final, Valdés e o Barcelona estão feitos um para o outro e a separação, como sucedeu com Lennon e McCartney, trará mais problemas a ambos do que soluções.



Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Quarta-feira, 19.12.12

É inegável que perfume do futebol do Barcelona de Vilanova não se aproxima do aroma apaixonante dos anos de Guardiola. Mas com uma abordagem mais pragmática, o técnico conseguiu um feito histórico que dificilmente será igualado nos próximos anos. Termina a primeira parte do campeonato invicto e com o título no bolso. Entender o Barcelona de Tito é, sobretudo, entender a relação entre o génio de um individuo e o valor de um colectivo perfeitamente oleado.

 

A goleada aplicada ao Atlético de Madrid confirmou que nenhum clube no futebol espanhol está, actualmente, sequer perto do nível do Barcelona de Tito Vilanova. Da mesma forma que Bob Paisley pegou na herança fundadora de Bill Shankly e aperfeiçoou a máquina, tornou-a mais eficaz e pragmática, também Vilanova recolheu a pesada herança de um génio como Guardiola e aproveitou-a da melhor forma possível. 

O Barça de Tito é, mais do que nunca, Messi e mais dez.

O estado de graça do argentino é evidente, a sua fome de golos inaudita e a forma como a equipa se adapta, cada vez mais, ao seu estilo de jogo, transforma o onze num projecto circular em que o argentino funciona como sol, sempre brilhante, sempre presente. Seis jogos consecutivos a bisar, 24 golos em 16 jogos, registos pulverizados e uma liderança silenciosa mas omnipresente, garantem a Tito Vilanova o melhor arranque de sempre da história do futebol do país vizinho. Guardiola perdeu o jogo inaugural, algo que Tito ainda não sabe o que é. A partir dessa derrota em Sória, o Barcelona cresceu e chegou a Dezembro com as mesmas sensações actuais. Mas esse jogo era mais coral, menos dependente do génio individual de Messi. Era o Barça onde brilhava Etoo, onde Henry renascia, em que Pedro começava a aparecer e, sobretudo, em que o trio Iniesta-Xavi-Busquets se mostrava encantado de conhecer-se e jogar juntos. Uma lufada de ar fresco diferente desta máquina assassina e implacável.

Vilanova percebeu, como Guardiola, que tudo tem de rodear Messi. O técnico de Santpedor descartou Ronaldinho, Deco e Etoo quando percebeu que não aceitariam nunca jogar para o argentino e teve de fazer o mesmo com Ibrahimovic e Villa quando estes chocaram com o ego e a fome de golos da Pulga. Foram etapas conturbadas dentro do balneário que ajudaram a desgastar a liderança de Guardiola à medida que Messi aumentava claramente o seu poder dentro da instituição até que se tornou inevitável a saída de um dos dois. Vilanova herdou uma situação resolvida, uma liderança inquestionável (e merecida), e uma equipa oleada e com uma ideia na cabeça: apoiar-se no génio individual de Messi para lograr os êxitos colectivos.

 

Vilanova é, ao mesmo tempo, um treinador extremamente pragmático. 

Na dualidade Pep-Tito, o antigo campeão europeu como jogador era o amante das experiências. Deambulou entre o 4-3-3 e o 4-6-0, reforçando a sua devoção pelo jogo de meio campo. Provou repetir o modelo de Cruyff com o uso de três defesas e muitas vezes alternou o jogo de extremos com o de interiores, garantindo quase sempre que os onzes se mudavam ciclicamente de jogo para jogo. Provou vários jogadores, deu minutos a miúdos da formação e provou que não havia vacas sagradas no balneário. Ao contrário, Tito prefere uma abordagem mais estável.

O seu 4-3-3 é invariável, uma aposta clara num extremo sempre bem aberto (Pedro), um avançado mais móvel que jogue nos espaços deixados por Messi (Cesc, Alexis, Villa), um meio-campo que segure a bola e a faça circular (Busquets, Xavi, Iniesta ou até Cesc) e um lateral mais ofensivo, com o eixo a mutar do lado direito, onde Alves brilhava, para o esquerdo onde o protagonista é agora Jordi Alba. A nível defensivo, Vilanova sofreu uma razia durante largos meses mas o problema não se notou nos resultados porque a cada golo sofrido a equipa encontrava forma de dar a volta. O papel de Messi foi superlativo.

Enquanto a crise do Real Madrid se agudiza e reflecte os números de golos marcados por Cristiano Ronaldo (14 em 16 jogos, menos seis do que logrou na época passada à mesma altura) os de Messi crescem e resolvem, muitas vezes, o problema colectivo. Os rivais do Barcelona encontraram forma de ultrapassar o jogo coral, de encontrar as fragilidades defensivas, de explorar o jogo de posse de bole. O que ainda não encontraram foi uma maneira eficaz de anular de forma consistente a Messi. A derrota em Glasgow provou que só um mau dia do argentino pode impedir a equipa de dar a volta à mais aziaga das situações. Em nenhum caso Tito abdicou do seu modelo, como fez Guardiola tantas vezes, e procurou algo diferente. Tello, Cuenca, Thiago perderam espaço face a um onze mais coral, onde se nota evidentemente o peso dos nomes fortes do vestuário, descontentes com a constante rotação a que Guardiola os votava. Fabregas ergueu-se em protagonista, à custa de David Villa, cada vez mais ostracizado, e Iniesta cada vez joga menos onde está mais cómodo. Nota-se a ideia de Vilanova em privilegiar os homens que ajudou a criar quando foi treinador de juvenis e se cruzou pela primeira vez com Piqué, Messi e Cesc. 

 

Se o titulo espanhol está mais do que garantido, deve-se sobretudo ao respeito que o Barcelona impõe. A grande virtude do processo Guardiola foi criar nos rivais o respeito e o medo absoluto que antes era premissa do Real Madrid. As equipas sobem ao campo conscientes da sua inferioridade, um primeiro passo para a derrota. A bipolaridade do futebol do país vizinho é financeiramente real mas no relvado é ainda maior, surpreendendo só a péssima época de um Real Madrid entregue a um lunático que procura, entre o cerco a jornalistas e jogadores, por um problema insignificante comparado com a falta de fio de jogo alarmante que no ano passado era resolvida com a genialidade individual dos seus grandes jogadores. O Barça de Vilanova não está à altura da cultura futebolística de Guardiola, mas o Liverpool de Paisley também não o esteve de Shankly. Foi no entanto com ele que o clube atingiu a sua época dourada. Resta saber se também nisto, Vilanova será capaz de emular o único homem que venceu três Champions League na história do futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Terça-feira, 30.10.12

Tito Vilanova tinha o peso da herança sobre os ombros e decidiu-se pelo caminho mais difícil. Abdicou de muitos dos conceitos do seu antecessor e companheiro, Pep Guardiola, e apresentou uma colecção 2012/13 com um traço seu, sem perder com isso a essência real do modelo Barcelona que remonta às ideias de Laureano Ruiz e aos ensinamentos de Johan Cruyff. É com o holandês que Vilanova mais se quer parecer e é graças a essa verticalidade que o Barcelona tem assinado um arranque de época excepcional ao mesmo tempo que apresenta mais dúvidas que nunca no seu sector defensivo, fundamental na estratégia de Guardiola.

 

Quando Cruyff decidiu implementar o 3-4-3 da escola holandesa fê-lo segundo a velha ideia de Rinus Michels que defendia que uma equipa pode sofrer três golos, sempre e quando seja capaz de marcar quatro. Esse ideário futebolístico holandês permanece nos dias de hoje na Eredevise e foi santo e senha do Dream Team, uma equipa super-ofensiva capaz de sofrer cinco golos em viagens a Logroño, Tenerife ou Corunha mas sempre com a capacidade de responder sempre com mais um golo. Eram os dias de bolas largas, pelo ar, de Guardiola a rasgar para Romário, com Laudrup a mover-se como Messi, solto no ataque, e a defesa adiantada, consciente da sua fragilidade, até porque Zubizarreta não era um guarda-redes à Valdés, com essa capacidade notável de incorporar-se ao jogo como um falso libero. Vilanova não conseguiu ter lugar nessa equipa como jogador - foi descartado por Cruyff quando ainda estava na Masia - mas isso não significa que tenha perdido essa influência como técnico.

Onde Guardiola premiava o passe, a posse de bole, os rondos, esse "tiki-taka" revisitado da herança centro-europeia, Tito prefere a verticalidade cruyffiana. Onde Pep centrava o jogo nos homens do meio, nas centenas de passes de Xavi Hernandez para os defesas laterais, que se incorporavam ao miolo, com um Messi muito recuado, de forma a criar, em certos momentos, uma linha de seis num espaço extremamente reduzido do coração do relvado, Vilanova gosta de transições onde os passes sejam orientados sempre para a frente, para procurar o golo. Vilanova não quer que a equipa tenha a bola tanto tempo mas sim que faça da posse de bola o caminho mais rápido para o golo. As possessões deixaram de ser uma protecção para ser uma arma. Xavi já não dá 200 passes por jogo com a mesma facilidade. Em Vallecas, na goleada por 0-5 do último fim-de-semana, deu apenas 64. E no entanto todos eles tiveram sentido, um sentido ofensivo num modelo onde ele deixou de ser o protagonista. Vilanova treinou Cesc e Messi (e Pique) nos juvenis e é neles, nessa geração de 1987, que coloca o peso da equipa. Iniesta e Xavi, os homens de confiança de Guardiola, os seus herdeiros, continuam a ser fundamentais - como não podiam ser - mas já não são a espinha dorsal do jogo ofensivo da equipa, hoje distribuído entre Cesc, Pedro e Messi, um tridente mais dinâmico, veloz e orientado para a baliza contrária. 

 

Vilanova deparou-se com uma defesa de remendos. 

Tem culpa o clube de não ir ao mercado procurar um defesa quando está disposto a gastar uma fortuna num médio com Song, tapado pelo gigantesco futebolista que é Busquets, especialmente tendo consciência que Puyol fisicamente não é o mesmo e que o grande Abidal, que como central é tão competente como lateral, terá um regresso complicado à alta competição. O carácter mais volátil de Gerard Piqué, que perdeu muito do seu talento inicial quando chegou a Can Barça em motivos extra-futebolisticos, transformou essa realidade defensiva num problema. Dani Alves, que Guardiola quis vender (junto com Cesc, Villa e Pique) caso tivesse ficado ao cargo do clube, perde-se entre lesões musculares e noites que terminam já entrada a manhã pela costa catalã. 

Sendo assim, Tito mais motivos encontrou para recuperar o ideário de Cruyff que sabia ter, já então, na defesa, o seu calcanhar de Aquiles. Adriano, Bartra, Mascherano e Song têm sido os centrais utilizados, todos eles com um comportamento que não está à altura da grandeza da equipa. Os quatro golos sofridos na Corunha, a fragilidade defensiva contra um Real Madrid inofensivo e a forma como equipas como o Celtic conseguem fazer sangue das poucas oportunidades que dispõem seriam um problema que a outro treinador dariam múltiplas dores de cabeça. Mas Vilanova é consciente de que não pode remediar essa realidade sem a sua defesa tipo e que é provável que ao longo do ano o quarteto guardiolano Alves-Pique-Puyol-Abidal não jogue nunca ao mesmo tempo. Por isso coloca todas as fichas nos seus homens de confiança. Nos que usam a bola para marcar e não só para controlar.

A equipa é muito mais ofensiva e vertical mas durante menos tempo. Se com Guardiola a posse de bola chegava, habitualmente, aos 80%, e prolongava-se durante quase todo o jogo, sem grandes variações, o Tito Team é mais volátil e concentra-se em momentos pontuais do jogo a sacar petróleo da qualidade individual do seu plantel ofensivo. Não estranha que a maioria dos golos catalães cheguem nos últimos vinte minutos, nos últimos suspiros como sofreram na pele os jogadores do Celtic Glasgow. A equipa não só não desiste como utiliza esse tornado ofensivo para atacar o rival quando o sente mais débil. É uma equipa mais ofensiva mas, ao mesmo tempo, mais cínica, porque escolhe os momentos em que ataca com mais cuidado e de forma mais declarada. Com Guardiola era impossível pensar que o Barcelona não estava a atacar, mesmo que esse ataque fosse simplesmente um espelho de uma situação controlada com toques de bola que deixavam o rival k.o. Com Vilanova há momentos do jogo em que a bola desaparece dos pés dos blaugranas e os rivais têm as suas opções, aproveitando-as mais do que seria de esperar. Mas são momentos concedidos à consciência, momentos que se revelam insignificantes comparados com os período em que o Barcelona decide cercar a área rival e deixar Messi aumentar a sua lenda goleadora. O Barcelona sofre mais com Tito e por isso marca mais. Tem de o fazer. Se não, corre o risco de cair nos erros que marcaram o final da era Cruyff, quando os golos sofridos se mantiveram nos mesmos valores mas os marcados decresceram grandemente.

 

Vilanova sabe que será incapaz de construir uma equipa tão sólida como Guardiola. Pep tinha o seu núcleo no meio-campo, no trio Xavi-Busquets-Iniesta, e na qualidade da sua linha defensiva que quase nunca concedida opções aos rivais para marcar. Nos seus últimos dois anos a equipa marcou muito mas sofreu ainda menos e foi assim que em muitos campos saiu com vitórias pela mínima mas sempre debaixo de controlo. Tito prefere a voragem vertical incerta de jogar um combate de boxe a golpes. Sabe-se possuidor de uma série de jogadores capazes de decidir qualquer jogo a seu favor e aposta tudo nisso. Uma lesão de Messi, Cesc ou Pedro colocaria em cheque o seu modelo de jogo mas a sorte parece estar do lado dos blaugranas e os problemas repetem-se, sim, mas atrás. De certa forma, ao aproximar-se de Cruyff, o que Vilanova faz é fechar o circulo do guardiolismo, um modelo inovador que procurou ir mais longe das ideias do seu mestre e procurar algo novo e actual. Vilanova não descarta totalmente a herança do seu anterior número 1 mas regressa às origens e repete a ideia de Cruyff, vencedor de três ligas no último suspiro, que a sorte procura-se à base de golos e não de posse de bole.



Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Quinta-feira, 19.07.12

O grande sucesso do Barcelona na última década parte da base primordial na aposta na formação. Uma área mitificada pela construção da Masia nos anos 70 mas que só com a chegada de Louis van Gaal se tornou numa prioridade para os dirigentes do clube. Mas essa relação histórica entre a primeira equipa e a cantera parte de um principio de desconfiança histórica. O exemplo perfeito são os 65 milhões gastos nos últimos anos para recomprar o producto da formação a quem o clube não viu futuro. Piqué, Fabregas e agora Jordi Alba, nomes próprios de uma história com muitos parêntesis.

Piqué chegou em 2008 ao clube a preço de saldo. 

Alex Ferguson acreditava que a sua incapacidade no jogo aéreo era um problema e deixou-o voltar a Barcelona. O Manchester United tinha contratado o catalão quando este cumpriu 16 anos. O clube blaugrana não lhe augurava futuro e ofereceu-lhe um contrato de tostões. Aconselhado pela familia - históricos dirigentes do clube - Piqué aceitou a proposta dos Red Devils e partiu para Old Trafford. Durante quatro anos tentou entrar nas contas do técnico escocês mas sem grande sucesso, tendo sido emprestado durante uma época ao Zaragoza. Cansado de esperar por aquele que viria a ser um dos melhores centrais do Mundo, Ferguson permitiu-lhe negociar com o Barça de Guardiola. Por 5 milhões de euros.

Cesc Fabregas, amigo de formação de Piqué e de outro rapaz a quem o clube sim prestou mais atenção - um tal de Lionel Messi - também teve de encontrar espaço em Inglaterra porque na Masia pensavam que a sua adaptação às exigências do futebol profissional seria complexa. Fabregas percorreu os mesmos passos de Piqué nas camadas de formação e a custo zero marchou para Londres onde Wenger lhe prometeu protagonismo. E teve-o. Tornou-se no maestro do meio-campo do Arsenal e depois das saídas de Henry e Bergkamp, o lider espiritual do projecto gunner. Referência absoluta do jogo do Arsenal, sofreu ano atrás ano com o desejo de incorporar-se a uma equipa que, pela primeira vez, estava a fazer exactamente aquilo com que ele sonhava de pequeno. Com o seu mentor como técnico, o seu idolo de maestro e os seus colegas de formação de protagonistas, a Fabregas jogar no Barcelona era mais do que um desejo, tinha-se tornado numa necessidade. O negócio, a duras penas, concretizou-se finalmente em 2011 por 45 milhões de euros.

Esta Verão junta-se a esta dupla outro filho rejeitado da Masia. Quando era pequeno, Jordi Alba jogava de extremo e era uma das máximas referências das equipas de infantis do Barcelona. O seu protagonismo era tal que foi escolhido para protagonizar, com Louis van Gaal, o video de inauguração das obras do novo centro de treinos. Mas, de um momento para o outro, o clube desprendeu-se dele e Alba teve de deixar o seu sonho encostado num canto enquanto convencia Unay Emery, em Valencia, de que era o jogador que ele procurava. O técnico basco transformou-o em lateral ofensivo e fez dele uma das referências de futuro para o futebol espanhol. Sem Capdevilla ou Arbeloa, o seleccionador Vicente del Bosque não hesitou em entregar-lhe o flanco e Alba correspondeu com um torneio inesquecível. Pelo meio apareceu, arrependido, o Barcelona e por 14 milhões (um negócio facilitado por este ser o seu último ano de contrato com os che) o jovem lateral cumprirá o seu sonho. 

 

São três casos que exemplificam bem como o clube blaugrana sempre lidou mal com a sua própria essência.

Nos anos 70, quando chegou a Can Barça, Laureano Ruiz, o homem por detrás do espirito de rondo e da Masia - ainda por construir - queixou-se que os dirigentes do Barcelona eram os que menos acreditavam nos seus próprios jogadores. As declarações de Xavi Hernandez, revelando que o clube pensou vendê-lo por várias vezes, antes da chegada de Guardiola, dão-lhe razão.

Apesar de agora vender a aposta na formação como uma imagem quase exclusiva, o Barcelona sempre foi um clube de negócios, de mercado e muito pouco de formação. Quando Johan Cruyff, outro dos teóricos da revalorização da cantera, chegou a Barcelona, a primeira coisa que exigiu a Josep Lluis Nuñez foi a contratação de um batalhão de jogadores bascos, entre os quais Andoni Zubizarretta, Julio Salinas, Andoni Goikotchea e José Maria Bakero porque considerava que os alunos da formação blaugrana não tinham capacidade mental para aguentar a alta competição.

Durante o arranque do Dream Team apostou apenas em três jogadores da casa, Luis Milla primeiro, e depois Josep Guardiola e Albert Ferrer. No meio das estrelas compradas a peso de ouro (Romário, Koeman, Stoichkov, Laudrup) e de jogadores do norte do país, esse foi o impacto real do cruyffismo na aposta determinante pela formação do clube catalão.

Durante a década que mediu a saida de Cruyff e a chegada de Rijkaard, o clube viveu tremendos altos e baixos, financeiros e instituicionais, mas pela mão de Louis van Gaal alguém finalmente compreendeu a importância real da Masia. Quando o técnico holandês - a quem não se lhe conhece sentimentos pró-catalães - declarou que o seu sonho era ganhar uma Champions League com onze jogadores formados na Masia, a imprensa da cidade Condal riu-se, os jogadores riram-se, os directivos riram-se e Guardiola fechou os olhos e sonhou. Dez anos depois, em Londres, quase que logrou cumprir esse sonho. Com os homens a quem van Gaal deu oportunidades. Gaspart quis vender Valdés, Xavi e Puyol para pagar o investimento em Rustu, Christanval e Rochemback mas van Gaal apostou tudo neles. Também deixou depositadas esperanças em Luis Garcia, Oleguer Presas e Andrés Iniesta. Nomes resgatados de um túnel desconhecido para a maioria dos adeptos blaugrana. Rijkaard colheu os lucros imediatos, Guardiola aperfeiçoou o modelo e hoje a imprensa faz eco desse amor histórico entre as "gents" de Barcelona e os filhos da "Masia". Os casos de Piqué, Fabregas a Alba, resgatados a peso de ouro e vendidos agora como filhos pródigos que voltam a casa funcionam num espaço mediático onde a memória é escassa mas como eles há dezenas de outros jogadores que algum dia poderão voltar nas mesmas condições ao Camp Nou. 

 

Tito Vilanova, outro filho da Masia que teve de ir fora para voltar para casa com galões aos ombros, poderá este ano alinhar mais do que um onze de miudos que passaram pela fabrica de formação. Valdés, Fontás, Puyol, Piqué, Alba, Busquets, Xavi, Iniesta, Fabregas, Cuenca, Tello, Thiago, Messi e até Pedro (que chegou a Barcelona já com 17 anos). Mas lembrando os 65 milhões gastos em três jogadores fica no ar a sensação de que se não fosse por dois holandeses como van Gaal e Rijkaard, talvez a directiva de Sandro Rossell tivesse de andar a pescar Iniestas, Xavis, Puyols, Valdés e Messis por esse mundo fora. O FC Barcelona sempre foi um clube com muitos esqueletos no armário. A sua politica de formação é, paradoxalmente, o maior de todos eles e, hoje em dia, a sua melhor arma para uma politica de comunicação que consegue multiplicar fora dos relvados os triunfos logrados sob o tapete verde. 


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Miguel Lourenço Pereira às 10:49 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Sexta-feira, 27.04.12

Coerente, surpreendente, digno, entusiasmante. O Barcelona decidiu o seu futuro com base no seu presente e fê-lo com a certeza de que acredita numa ideia, mais do que nos nomes que a guiam. Se a saída de Pep Guardiola era um segredo mal guardado, o nome do sucessor deixou até os próprios blaugranas em estado de choque. Durou pouco. Guardiola continua a manobrar o clube na sombra, o Barcelona da próxima época será fiel ao que se viu nos últimos anos e, sobretudo, o clube catalão decidiu seguir o caminho que fez do Liverpool dos anos 70 um mito da história do futebol. Agarrou-se à ideia de um "boot room" eterno que pode trazer mais alegrias do que suspiros ás bancadas do Camp Nou.

Bob Paisley é o treinador do Liverpool com mais títulos. É um dos treinadores mundiais com mais títulos. E no entanto quem se lembra dele?

Bill Shankly saiu do Liverpool demasiado cedo, muitos pensaram. Sem vencer a Taça dos Campeões, sem somar mais de quatro títulos de liga inglesa. E no entanto quem se esquece dele? 

O grande mérito de Shankly não foi vencer. Foi definir a forma como se iria ganhar. Resgatou o Liverpool das trevas, trabalhou uma ideia táctica, rodeou-se de jogadores locais e aquisições certeiras e lançou as luzes do futuro. Quando saiu tinha deixado atrás de si o trabalho feito e, sobretudo, o conceito do "Boot Room", o pequeno gabinete onde se juntava com os seus adjuntos para falar de futebol e da vida, que é o mesmo. Durante 15 anos o Liverpool sobreviveu, cresceu e um ano até chegou em segundo, como diria Paisley, sempre partindo do "Boot Room". Depois de Shankly veio Paisley, depois deste Joe Fagan e por fim Kenny Dalglish, que entrou como jogador e saiu como mentor emocional. Essa longa saga coroou os anos dourados da história de Anfield Road porque, independentemente dos grandes jogadores no terreno, partiu sempre de uma ideia de clube bem definida.

Josep Guardiola sabe mais de futebol do que a maioria das pessoas e sabe também investigar a história do jogo. Quando Johan Cruyff saiu do Barcelona, pela porta de atrás, a direcção de Josep Luis Nuñez quis romper com o cruyffismo e chamou Bobby Robson. O inglês durou um ano, ano em que só perdeu o titulo de liga, até que os directivos emendaram a mão e voltaram a apostar na escola holandesa, primeiro com van Gaal e depois com Rijkaard, com um hiato desastroso que tem mais a ver com a figura de Gaspart do que com a mentalidade por detrás do clube. Essa transição sempre foi feita com consciência de que o legado de Laureano Ruiz, Rinus Michels e Johan Cruyff faz mais sentido em Can Barça do que em qualquer outro sitio. Se houve equipa capaz de suceder ao Liverpool nessa ideia de clube, com um projecto e uma cartilha comum, essa equipa sempre foi o Barcelona. Mas o clube nunca tinha arriscado tanto como hoje. Arriscado tanto como Shankly quando se virou para os directivos com o nome do estimado Paisley como o homem da glória futura. Na altura poucos o levaram a sério, a história mostrou que o "Napoleão de Mersey" não se enganava.

 

Tito Vilanova não tem experiência como treinador de elite, como também não tinha Guardiola.

Mas quem segue o clube blaugrana sabe que por detrás destes quatro anos de sucesso há muito dedo do homem a quem Mourinho quis penetrar mais profundamente no olhar. Villanova é o responsável das jogadas de estratégia do clube, inspirando-se no basket e no futebol de sala. Foi o homem que orientou a celebre equipa juvenil da geração de 1987 quando tinham apenas 14 anos, a equipa dos Messi, Pique, Fabregas e companhia. E foi sempre o amigo e confidente a quem Guardiola recorreu. Não é um mero segundo treinador, é um dos ideologos do projecto e isso faz toda a diferença. 

Os adeptos portugueses podem lembrar-se da imagem de Vitor Pereira mas o técnico do FC Porto nunca foi o segundo de André Villas-Boas. Escolhido por Pinto da Costa para completar a equipa técnica, partilhou a da experiência mas nunca existiu essa comunhão de ideias, de modelos, de longos anos a falar de futebol que unem dois homens que são colegas e amigos desde a mais tenra infância. Não se pode entender a imagem de Guardiola sem Vilanova e o mesmo agora será válido quando Pep passe para o segundo plano.

A ideia do técnico de Santpedor tem a mesma dose de genialidade que os seus dispositivos tácticos. Imitando a Shankly, ele ergue-se como a figura de fundo do clube, o homem que controla tudo sem ter de expor-se aos momentos duros que virão. Guardiola não vai treinar outro clube porque continua, de certa forma, a treinar o Barcelona.

Na conferência de imprensa de hoje tanto ele como Sandro Rossell - o grande derrotado desta decisão, felizmente para o clube - e Andoni Zubizarreta confirmaram que Guardiola será uma voz de peso no projecto, um consultor externo. Será mais do que isso. Guardiola leva quatro anos mas o seu rosto faz parecer que são quarenta, no Camp Nou. É um homem honesto e coerente e sabe que a motivação no desporto da alta competição é dificil de conseguir. Ao dar um passo para trás mas não um adeus definitivo, o técnico consegue esse golpe de teatro que pode ter ao seu plantel em alerta máximo. Seguramente que alguns nomes irão sair, Dani Alves e David Villa antes de mais, e que outros vão ver o seu papel alterado pela idade (Puyol e Xavi) ou pelo estilo de jogo que Vilanova vai aprofundar. A chegada de Fabregas, homem que Vilanova conhece bem, promete fazer mais sentido na equipa do próximo ano. O 3-4-3 que tanto tem explorado Pep voltará a ser um 4-3-3 mais dinamico, com Fabregas, Messi e Alexis na primeira linha de fogo e Iniesta, Busquets e Thiago no apoio directo. A cantera voltará a ser a base de tudo, Vilanova já falou várias vezes sobre a admiração que nutre por muitos dos homens da equipa B como Rafinha, Sergi Robert e Grimaldo. E será mais fácil tomar decisões dificeis no balneário sem a condescendência de um Guardiola que é muito menos aguerrido, tanto para fora como para dentro, como é Vilanova. Mas quanto ao ideário táctico é fácil adivinhar que o fantasma de Guardiola aí estará, na preparação dos jogos, no estudo dos rivais. A sala de imprensa será mais bélica do que nunca - Vilanova e Mourinho têm contas a ajustar - e o balneário mais disciplinado, mas no campo pouco mudará. 

 

Guardiola logrou o que Cruyff não conseguiu. Não só em titulos mas, sobretudo, em fazer prevalecer essa ideia que remonta a 1972. O holandês saiu do clube com a intenção de deixar Charly Rexach como seu sucessor mas nunca o conseguiu. Guardiola encontrou o poder suficiente para desafiar a ideia de Rossell e impor Vilanova. Ao manter o seu melhor amigo e co-autor do majestuoso Pep Team, o técnico garante que continua a pairar sobre Barcelona. Não vai treinar outro clube e não fecha a porta a voltar ao Camp Nou pela porta grande. De certa forma cria o "Boot Room" à catalana, com o futuro garantido para os seus homens de confiança, os que partilham o mesmo ADN e a sua linguagem, um espaço onde gravitam as figuras de Juan Manuel Lillo, Lluis Carreras, Luis Enrique e Xavi Hernandez. Se a dinastia guadiolista só agora arrancou é fácil imaginar que, com este plantel e esta fortissima ideia, o Barcelona se mantenha na elite durante largos anos. Como com o Liverpool de Shankly, a ideia triunfa e os nomes vão-se sucedendo e os titulos vão chegando. Quando se abandona a ideia, como sucedeu com os Reds, o desastre é inevitável. Guardiola sabe melhor do que ninguém e tomou para si a responsabilidade de garantir que esse dia não chegue ao Camp Nou. 



Miguel Lourenço Pereira às 17:14 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 07.04.12

Quando Joan Laporta sucedeu a Gaspart como presidente do FC Barcelona a situação politica do futebol europeu vivia numa encruzilhada extremamente complexa. O grupo conhecido como o G14 fazia-se sentir mais influente do que nunca junto de Leonardt Johanssen e a ameaça de uma Superliga europeia era cada vez mais real. Laporta retirou o clube blaugrana da segunda linha desse grupo, liderado por Hoeness, Perez e Galliani, e apostou todas as fichas em Michel Platini, o homem de confiança de Sepp Blatter. O futuro deu-lhe razão e desde então sempre que se vêm em problemas, o clube catalão encontra sempre um amigo!

 

Os corredores do poder na sede da UEFA em Nyon eram estreitos para os emissórios blaugranas.

O clube era visto com maus olhos pela directiva e não passava de uma formação de segundo nivel do grupo G14, fundado por Florentino Perez, Adriano Galliani e Uli Hoeness numa reunião em Milão no ano 2000. Entre AC Milan, Bayern Munchen e Real Madrid, com o fortissimo apoio de Manchester United, Olympique Lyon, FC Porto, Juventus e Arsenal pretendia-se desenhar o futuro do futebol continental.

O papel da UEFA na criação da nova Champions League tinha sido fulcral para por em prática os desejos da elite continental mas o mandato final do presidente sueco tinha deixado demasiadas pontas soltas que os dirigentes pretendiam atar com a criação de uma Superliga europeia ao estilo NBA. O projecto nunca chegou a avançar mas o peso do G14 aumentou de ano para ano e isso reflectia-se no sucesso desportivo dos seus principais integrantes. O Barcelona, em crise depois da venda de Luis Figo e da saída de Louis van Gaal, era um mero actor secundário. E isso notava-se no Camp Nou.

Em 2003 o ambicioso advogado catalão Joan Laporta apontou á sucessão de Joan Gaspart. Prometeu trazer David Beckham, acabou por trazer Ronaldinho mas o mais importante acto de gestão foi criar uma embaixada do clube na UEFA, com Gaspart de emissário, juntando a um grupo de descontentes entre personalidades influentes e clubes insatisfeitos com o rumo económico do G14 original. Uma especie de oposição que começou a fazer-se sentir no último ano de mandato de Johanssen quando o clube apoiou declaradamente o francês Michel Platini na corrida á presidência. Florentino Perez tinha saído do Real Madrid, Silvio Berlusconi estava mais preocupado com o seu papel como primeiro-ministro italiano e o apoio da FIFA e as promessas de maior equilibrio financeiro e competitivo com as pequenas e médias nações europeias deram a Platini uma vitória surpreendente.

O Barcelona tinha acertado e começou a viver uma época de esplendor europeu inigualável no seu mágico historial.

 

Em 2006 Chelsea e AC Milan sofreram na pele a influência blaugrana nos corredores de Nyon.

Os ingleses, orientados por José Mourinho, viram o defesa lateral espanhol Asier del Horno ser expulso por agressão depois de um lance onde um então promissor Leo Messi contribuiu, e muito, na decisão final do árbitro. O génio de Ronaldinho fez o resto. Na semi-final que precedeu a coroação do magnifico conjunto orientado por Frank Rikjaard aos italianos foi anulado um golo fundamental no jogo da segunda mão apontado pelo ucraniano Andrey Shevchenko. Anos mais tarde, na celebre conferência de imprensa que lhe valeu a maior suspensão na história da UEFA a um treinador de futebol, o sadino não se lembrou dos nomes de Terje Hauge e Markus Merk. Não era necessário, o historial dos anos seguintes faria destes dois episódios meras anedotas desportivas, similares ás dos sempre polémicos Mr Leaf e Mr Ellis, os árbitros que garantiram em 1962 que o Real Madrid não pisaria a sua sexta final europeia consecutiva numa meia-final histórica com o eterno rival.

O titulo europeu ganho numa final asfixiante com o melhor Arsenal europeu de sempre foi o primeiro de uma série de três em cinco anos, um feito apenas igualado por Real Madrid, Ajax, Bayern Munchen e Liverpool.

Em 2009, o primeiro ano do glorioso e fantástico Pep Team, os adeptos de futebol renderam-se ao magnifico jogo ofensivo de Xavi, Iniesta, Messi, Etoo e Henry, talvez a equipa mais atrevida e arrojada em largos anos no futebol europeu. Mas nem esse talento inegável e superlativo consegue explicar a anormal arbitragem de Tom Ovrebo, árbitro norueguês que conseguiu aguentar o resultado até ao fantástico remate de Iniesta. Pelo caminho ficaram por assinalar penaltys e expulsões. Apesar do génio desportivo, confirmado com uma grande final em Roma, a imagem desse duelo manchou a vitória mais saborosa de Guardiola. Por essa altura o G14 tinha acabado, reformando-se na ECA, e a amizade entre Laporta e Platini era conhecida, aceite e incontestada por todos os presidentes dos principais clubes europeus, como confessou há semanas um dos vice-presidentes mais influentes do clube, Alfons Godaal,

Olhando para os três anos seguintes tem sido fácil perceber porquê.

Em 2009-10 os campeões europeus em titulo defrontaram o Internazionale nas meias-finais. Depois de uma derrota por 3-1 em San Siro, no jogo da segunda volta, o árbitro Frank de Bleckerck conseguiu, como em 2006, ver uma agressão de Thiago Motta a Sergio Busquets e reduziu o conjunto neruazzuri a 10 homens com meia hora de jogo. Foi insuficiente. Não o seria no ano seguinte com Robie van Persie primeiro, expulso cirurgicamente por rematar uma bola depois do árbitro Massimo Busacca ter apitado um fora-de-jogo. Não o seria na meia-final em Madrid com o árbitro Wolfgan Stark a expulsar Pepe depois de um lance dividido com Dani Alves como não seria no jogo da segunda mão quando Gonzalo Higuain marcou para o Real Madrid, apenas para o golo ser anulado por uma falta fantasma de Cristiano Ronaldo sobre Gerard Pique, pelo amigo do costume, o belga De Bleckerck agora elegido pela FIFA para coordenar a sua exclusiva comissão arbitral num braço da organização dirigido pelo espanhol Angel Maria Villar.

A polémica arbitragem no último duelo com o AC Milan foi apenas mais um exemplo para uma longa galeria de amigos que aparecem sempre na hora H. Dois penaltys inexplicáveis, cartões cirúrgicos e um longo sorriso que relembrou aos mais atentos que este mesmo árbitro tinha estado presente no Mónaco, no jogo da Supertaça Europeia frente ao FC Porto para garantir a enésima merecida vitória do Pep Team.

No primeiro lance, Leo Messi sofre falta clarissima de desastrado Antonini mas encontra-se em fora-de-jogo (a bola ressalta no italiano depois de um passe de Xavi o que invalida imediatamente o lance). No segundo, a bola nem sequer está em jogo quando Nesta agarra Busquets sendo depois agarrado por Puyol. O regulamento arbitral obriga o árbitro a interromper o lance e mandar repetir o canto. Kuipers optou pela decisão inédita na história da Champions League de apitar penalty. Um amigo aparece sempre quando é preciso.

 

A indiscutível qualidade futebolistica deste FC Barcelona transforma ainda mais esta profunda relação entre o clube blaugrana e a UEFA numa realidade complexa de analisar e que no futuro marcará seguramente a imagem fantástica de um projecto desportivo unico. Neste periodo de cinco anos sucederam-se duas das cinco melhores equipas da história do Barça. E no entanto, ao contrário dos principais triunfos de alguns dos seus mais simbólicos rivais, a sombra da UEFA nunca se fez sentir tanto por detrás do sucesso de um projecto desportivo como tem sucedido nos últimos cinco anos. Quando a genialidade futebolistica do Barcelona, uma equipa que vence sobretudo porque é a única no panorama internacional que não condiciona o seu jogo ao rival, mantendo-se fiel ao seu ideário, custe o que custar, não chega para resolver os maiores apertos, parece sempre que do outro lado da linha está um amigo pronto a solucionar os problemas. José Mourinho foi punido pela UEFA por denunciar uma realidade que é conhecida por todos os que vivem nos corredores do futebol e que não é inédita nem exclusiva ao FC Barcelona na história do futebol. Mas pensar que a história do futebol europeu dos últimos anos se tem feito apenas com o génio táctico de Josep Guardiola, os passes de régua e esquadro de Xavi e Iniesta e as genialidades de Lionel Messi é, sobretudo, pecar de inocência. E nos corredores do beautiful game a inocência paga-se caro e há muitos clubes da elite europeia que começam a dar-se conta dessa realidade e a sonhar com um projecto antigo.



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (21)

Segunda-feira, 31.10.11

Quando Guardiola emerge como figura máxima da expressão artística que define hoje o seu maravilhoso Barcelona atrás de si emerge sempre a figura na sombra de Johan Cruyff. Espelho de uma relação de admiração mútua que traça directamente a ponte entre o Dream Team e o Pep Team, olvidando pelo meio aquele herói que, ainda hoje, Can Barça teima em renegar. Sem ele o futebol moderno seria bem mais pobre e talvez o duelo entre Guardiola e Mourinho hoje fosse apenas uma mera utopia.

O elogio unânime ao futebol do Pep Team parte do principio que o técnico de Santpedor foi, provavelmente, o primeiro treinador a conseguir transformar o Camp Nou no santuário do futebol internacional recorrendo, sobretudo, à célebre cantera da Masia. Em Roma e Londres, palcos das suas duplas conquistas europeias, o Barcelona de Guardiola alinhou com oito jogadores da formação. Sete, se excluirmos Pedro Rodriguez, que chegou a Barcelona já com 17 anos e a formação realizada em Las Palmas. E, no entanto, desses sete jogadores, apenas um deve a sua presença no palco principal do futebol europeu ao técnico: Sergio Busquets.

Guardiola falou várias vezes da herança de Cruyff como elemento refundador do FC Barcelona moderna. Um discurso no qual alinham os seus jogadores, directivos e a esmagadora maioria da imprensa catalã contemporânea. É um reconhecimento natural de quem sabe que deve a sua carreira ao técnico holandês e quem se tornou, de certa forma, o símbolo dessa mutação desportiva em Can Barça que foi a valorização do producto interno. Até aos anos 90 o Barcelona era um espelho fiel do que é o Real Madrid de hoje, um clube mais gastador do que formador, clube que apostava em figuras incondicionais como Cruyff, Maradona, Liniker, Schuster, Simonsen, Romário, Laudrup, Stoichkov ou Ronaldo para paliar o seu imenso défice de produção própria. A cantera de Barcelona celebrizou-se na figura esguia e célere de Guardiola, criou o mito do número 4 - do qual Xavi, Fabregas e Thiago são sucessores - mas até à chegada de Guardiola poucos lhe prestavam a devida atenção. Talvez porque interessa à sempre facciosa imprensa catalã valorizar uma figura local, um homem que, se quisesse, seria hoje president da Generalitat, em detrimento de um passado vestido de laranja. E não o laranja de sant Jordi.

 

Cruyff, o homem que refundou a cantera do Barcelona com o seu ideário de "rondo, rondo, rondo", jogou a final do Wembley de 1992 com dois jogadores formados em casa. Guardiola era um. Ferrer, o lateral direito que passou pelo Chelsea, era o outro. Durante a sua estância em Can Barça o técnico holandês especializou-se a comprar, comprar e comprar o sucesso que obteve. Chegaram da liga espanhola os bascos Zubizarreta, Bakero, Goikotxea, Nadal, Sergi e Salinas. Da nata do futebol internacional Koeman, Stoichkov, Laudrup e Romário. À base de muito dinheiro o Dream Team venceu a Champions League de 1992 - a primeira do clube - e quatro ligas consecutivas, três das quais na última jornada. Depois de três anos de derrotas aos pés da Quinta del Buitre do Real Madrid, a última verdadeira aposta na formação do clube merengue. Quando Cruyff foi despedido, em 1995, a sua filosofia de cantera ainda fazia muito pouco sentido para a directiva do clube que preferiu apostar num inglês - Bobby Robson - que trouxe ainda mais estrelas para a equipa como Ronaldo ou Vitor Baía, que se juntaram a Figo, Hagi e Popescu, nomes que Cruyff tinha contratado para renovar as suas fileiras. Seguindo essa politica o Barcelona continuou a ignorar o producto bruto e só a figura, sempre criticada, de Ivan de la Peña, surgia como um náufrago de estrelas alheias.

Foi a chegada de Louis van Gaal que mudou, definitivamente, o rosto do clube catalão.

Hoje, mais de dez anos depois do seu ambicioso discurso, a maioria dos adeptos do Barcelona continuam a preferir esquecer a sua figura quase dictatorial e o seu génio desportivo. Depois de triunfar em Barcelona (só lhe faltou vencer a Champions League), van Gaal já se reinventou na Holanda (com o seu AZ Alkmaar) e na Alemanha (com o Bayern) e mesmo assim o mundo do futebol continua a olhar por cima do ombro quando o seu nome veio à baila. Nessa apresentação em 1998 o técnico que tinha levado o Ajax à glória europeia anos antes com base na formação local defendeu que o Barcelona, devido à sua idiossincrasia, devia apostar numa equipa formada, maioritariamente, com jogadores locais. Vencer a Champions League com uma maioria de jogadores da casa era o seu objectivo numa gestão a longo prazo. Não o deixaram estar tanto tempo mas houve outros que viveram da sua politica desportiva.

 

Van Gaal foi o primeiro treinador a convencer os directivos do Barcelona a lançar, à imagem e semelhança do Ajax, uma rede de olheiros em todo o Mundo para pescar, na mais tenra idade, as grandes promessas do futebol internacional. Assim chegou, em 2001, um tal de Leo Messi desde a Argentina, algo impensável sob o modelo de gestão anterior do clube.

O técnico holandês queria aplicar a filosofia de Cruyff a outro patamar e foi com ele que realmente todas as equipas do clube, desde os infantis aos seniores, começaram a jogar no mesmo desenho táctico que permitia para o futuro formar algo mais do que números 4. O "rondo, rondo, rondo" continuou a ser o modelo de jogo vigente, mas os conceitos de pressão, de preparação física e, sobretudo, mental, que não existiam na filosofia cruyffiana, tornaram-se objecto de estudo e aprendizagem na fábrica de La Masia. Enquanto a equipa principal vencia títulos com esse misto de holandeses, estrelas internacionais e estrelas em ascensão, começavam a formar-se as condições para que os Iniesta, Fabregas, Valdés, Piqué e companhia encontrassem um Barcelona muito diferente àquele que Guardiola conheceu no final dos anos 80.

O mal amado holandês, sempre criticado pela imprensa local, foi também o responsável directo pelo sucesso actual do clube catalão quando, contra indicações da própria direcção, lançou na primeira equipa a jovens como Xavi Hernandez, Charles Puyol (na sua primeira etapa) e mais tarde a Andrés Iniesta, Victor Valdés e Fernando Navarro (hoje no Sevilla) quando voltou a Barcelona, sem grande sucesso. O seu braço direito de então, José Mourinho, foi o responsável por algumas dessas apostas, já que era o técnico responsável de orientar os jogos na Taça Catalunya, onde Xavi, Puyol e companhia deram os primeiros toques na bola como profissionais do Barça.

Quando van Gaal saiu do clube - e o projecto de Gaspart entrou em espiral destructiva - o clube equacionou vender tanto a Xavi como a Puyol. O dinheiro da transferência de Figo foi gasto em jogadores de segunda linha e a formação continuou a ficar esquecida até que outro holandês, Frank Rijkaard, herdou a herança de van Gaal (com Valdés e Iniesta à cabeça) e seguiu as suas directrizes, juntando ao quarteto da casa - que se sagrou campeão europeu em Paris - o génio de Ronaldinho. E, no entanto, sob o seu mandato - e o de Laporta - tanto Piqué como Arteta e Fabregas foram forçados a emigrar para a Premier porque o clube continuava a olhar de outro lado para o producto da casa por muito que o técnico tentasse ir lançando jovens da cantera.

 

Guardiola herdou um esquema perfeitamente montado pelo ideário táctico de Cruyff e, sobretudo, a aposta clara de van Gaal na ideia de um onze da casa. Herdou sobretudo um esqueleto formado por quatro jogadores em quem só van Gaal acreditou durante larguíssimos anos e a figura omnipresente de um Leo Messi que, talvez, sem a politica de prospecção importada pelo mal amado técnico desde Amesterdam talvez nunca tivesse jogado de blaugrana. Desde a sua chegada, em 2008, que Guardiola já fez estrear a 19 jogadores da casa, o último dos quais a grande promessa Gerard Deulofeu. E, no entanto, só um deles, Busquets, encontrou um lugar à sombra na equipa principal. Entre os restantes 18 há jogadores que abandonaram o navio, outros que continuam a preparar-se na equipa B e um trio (Fontás, Thiago e Cuenca) que é utilizado como back-up de um plantel que continua a ser quase tão gastador como nos dias de Cruyff (Villa, Alves, Ibrahimovic, Abidal, Adriano, Maxwell, Keita, Afellay, Alexis Sanchez) e que mesmo assim consegue transmitir uma ideia totalmente desfasada da realidade na opinião pública. O génio táctico de Guardiola é inequívoco mas o seu rosto de Lancelot da formação blaugrana é uma das mais gritantes falácias do futebol actual. À distância, o mesmo homem que rejuvenesceu o Ajax, revitalizou o Bayern Munchen e quebrou a hegemonia do futebol holandês com o seu AZ continua a ver a sua criação recolher os mais rasgados elogios sem que nunca o seu nome saia à tona. Mourinho, outro dos seus discípulos, outro producto dessa sua formação obsessiva - até de treinadores - está no outro lado da barricada e não tem o mais mínimo interesse em seguir a filosofia de um dos seus mentores. Talvez olhando para o que se vive em Barcelona tenha razão. Afinal, se nem Xavi nem Puyol se lembram de onde vieram, porque não acreditar neste conto de fadas?



Miguel Lourenço Pereira às 08:58 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Terça-feira, 06.09.11

Enquanto a imprensa catalã celebra o regresso às origens de Pep Guardiola, o técnico de Santpedor reafirma-se de forma definitiva como um técnico de futuro, um técnico capaz de marcar um antes e um depois na história do jogo. Para Guardiola o sistema é mais importante que o desenho e aproveitando ao máximo a geração perfeita do ADN blaugrana o seu último passo mais do que uma volta atrás é um salto em frente. Guardiola matou o ponta de lança e deu o passo em frente que muitos ousaram mas nenhum logrou conseguir.

Contra um fraquíssimo Villareal (fantasma do que foi na época passada) foi uma delicia voltar a ver o Camp Nou empolgado com um 3-4-3.

O desenho táctico que Johan Cruyff demorou quatro anos a implementar antes de poder desfrutar quatro anos mais do seu sucesso tinha já sido metamorfoseado pela rigidez táctica de Louis van Gaal antes de cair no esquecimento. Naturalmente, desde 2002 que as defesas de 3, esse ousado experimento que lançou para a ribalta Carlos Billardo a meados dos anos 80, desapareceram do mapa. O Brasil de Scolari foi, de certa forma, o canto do cisne de um desenho que era mais um 3-5-2 do que um 3-4-3 puro, cruyffiano. A herança da escola do Futebol Total (o quarto elemento do meio campo - o eterno número 4 - herdou o papel do libero michelsiano) desapareceu debaixo da capa de verticalidade ofensiva de Frank Rijkaard e, sobretudo, da tremenda eficácia dos desenhos magnificos de Guardiola.

Portanto muitos podiam pensar que o regresso ao 3-4-3 seria um sinal de que Pep, esse filho pródigo do cruyffianismo, pretendia emular o mestre não só em títulos mas também em estilo. Comparação irreal. Não só porque os títulos já foram superados mas, sobretudo, porque o estilo das equipas de Guardiola supera em todos os sentidos (eficácia, estética, rigor defensivo, conceitos de pressing e posse) a cartilha do Dream Team. Um regresso ao 3-4-3 numa equipa marcada, sobretudo, pelas baixas do sector defensivo, foi sobretudo um aproveitamento de recursos (e que recursos) que o plantel dispõe no último terço do terreno de jogo. Algo que se voltará a ver, inevitavelmente, e sobretudo nos jogos em casa. Mas que está longe de ser o desenho que mais entusiasma e que marcará a carreira de Guardiola como um técnico de excepção. Se o 3-4-3 pertence a Cruyff (e de que maneira), a Guardiola poderá analisar-se no futuro o seu papel indiscutível de pai do 4-6-0. O desenho táctico que matou o ponta-de-lança, o desenho táctico da próxima década.

 

Ninguém imaginava nos anos 50 que o extremo, o jogador da escola de Matthews, Garrincha ou Gento alguma vez pudesse desaparecer do mapa. Era a época da passagem do caduco WM ao 4-2-4 (e mais tarde ao 4-3-3) e o grande sacrificado dessa metamorfose táctica acabou por ser o herói da multidão. Sem tempo para pensar, sem espaços para arrancar em velocidade, os extremos foram forçados a abandonar a linha de fundo pelas diagonais, os centros no limite pelos passes para a entrada da área, o jogo vertical pela horizontalidade.

No Brasil e Inglaterra a metamorfose tardou, no primeiro caso pelo tempo e espaço que ainda hoje se concedem as equipas, no segundo pela teimosia histórica em inovar. Mas quando o resto da Europa começou a adaptar-se a essa mudança surgiu, progressivamente, outra extinção impensável. Talvez a Itália de 1970 já estivesse a anunciar o fim do 10. Talvez a metamorfose do Futebol Total, a colectivização do posicionamento táctico, tivesse deixado pistas suficientes para antever que duas décadas depois o artista vagabundo e solitário seria asfixiado até à exaustão, até tornar-se numa ave rara, dependendo de personagens sui generis como Juan Roman Riquelme para subsistir na mente dos mais novos.

Talvez por isso hoje muitos se escandalizem com a ideia de um futebol sem ponta de lança. Afinal é o golo a linguagem do jogo, o objectivo suprema, o santo Graal que todos buscam (uns mais que outros). Mas essa imagem histórica dos gigantes de área, dos predadores letais, começa a desvanecer-se progressivamente precisamente quando o pressing defensivo de Sacchi ensinou as equipas a encurtar o terreno de jogo até à linha do meio-campo. A mudança da lei do fora de jogo, o pressing defensivo e, sobretudo, o ritmo de jogo alto característico do final dos anos 90, começaram a dar o toque de finados para um jogador que foi, até então, exemplar único (e altamente sobrevalorizado) em qualquer equipa. Cruyff entendeu-o e começou com Romário o que hoje Guardiola logrou de forma definitiva com Messi. A diferença? O ADN blaugrana.

Guardiola não foi o primeiro técnico a tentar fazer do 4-6-0 uma realidade. Tanto Alex Ferguson como Luciano Spaletti tentaram recriar o esquema no terreno. No caso dos Red Devils o desenho parecia um vulgar 4-5-1 mas na realidade o papel de Rooney era o de falso dianteiro. O inglês recuava, puxando consigo a marcação e abria espaços para Ronaldo, Tevez, Giggs, Scholes, Hargreaves/Park/Anderson ou Carrick, explorarem. Também a Roma tentou emular o mesmo modelo com Totti de falso dianteiro, cercado por Vucinic, Perrota, Mancini e Tadei apoiados por De Rossi. Mas foram tímidas tentativas. Guardiola transformou a ideia em realidade.

 

Ajudou, é certo, o trabalho do técnico a excelente colheita de jogadores made in La Masia.

Guardiola conhece, encarna melhor dizendo, o ADN blaugrana como nenhum outro jogador. Encontrou à sua chegada veteranos de guerra com quem jogou (Xavi, Puyol), confirmações da era Rijkaard (Valdés, Iniesta) e lançou jovens que conhecia bem como Busquets, Pedro a que se juntou o repescado Piqué. Mas foi sobretudo Messi quem se transformou no jogador nuclear do primeiro Pep Team e que provocou a profunda metamorfose táctica de um 4-3-3 mais convencional (dois avançados abertos, um ponta de lança apoiados por dois interiores e um médio mais recuado) num claro 4-6-0.

Messi foi criado na Masia como um filho mais e bebeu desde cedo a filosofia local, tanto como Pique, Fabregas, Xavi ou Iniesta. A sua condição de estrangeiro é apenas circunstancial e isso nota-se cada vez que o número 10 veste a camisola da albiceleste. Ali ele é mais estrangeiro do que no seu Barça. La Pulga cresceu na Masia como extremo e foi aí que Rijkaard o posicionou, como o outro lado do espelho do genial Ronaldinho. Mas como Cruyff, Di Stefano, Pelé ou Maradona, o argentino é um jogador livre, sem posição fixa. A sua velocidade, finta, capacidade de reacção, determinação e, sobretudo, a sua capacidade de ler o jogo a uma velocidade laudrupiana transforma-o num jogador completíssimo que encaixa em qualquer desenho, em qualquer situação. Especialmente se quem o rodeia joga e pensa à mesma velocidade que ele.

Guardiola compreendeu isso de uma forma clara e depois de um ano transicional - e de uma aposta falhada em Ibrahimovic, incapaz de dar à equipa a mobilidade exigida - decidiu transferir o jogo de Messi para o miolo, reestruturando o carrossel ofensivo blaugrana. Com Messi no meio como receptor e emissor o técnico pode montar um quinteto de falsos médios, falsos avançados, capazes de manter a bola, imprimir o ritmo e encontrar os espaços necessários para controlar e dominar cada jogo.

Busquets e Keita consagram-se como os médios de controlo (muito mais do que Mascherano, mais eficaz quando joga como central adaptado). Xavi e Iniesta continuaram a ser eles próprios, interiores incisivos e letais com os seus passes a régua e esquadro e a sua fome de bola (poucas duplas na história tiveram tanta qualidade) e Pedro e Villa foram transformados em falsos extremos. Jogam colados à linha de fundo como fariam Garrincha ou Best, mas usam a sua velocidade, precisão no remate e leitura de jogo para estrangular as defesas contrárias. Eles abrem o campo para as diagonais dos interiores e fecham-no para asfixiar e cercar as defesas. Nunca jogam no ataque como figuras estáticas, nunca ficam muito longe da última linha defensiva quando defendem. No meio Messi, sem ordem que não seja a de criar o caos, um verdadeiro rebelde com causa, capaz de encontrar nos interiores, nos extremos ou nos laterais ofensivos, parceiros para dar e receber em dois, três toques rápidos, subtis e plenos de intenção. A mecanização de movimentos, depois de anos e anos de treino permitiram aos jogadores blaugranas criarem um entendimento único (por isso se entende o grande arranque de época de Fabregas e Thiago e a progressiva, mas mais lenta e individualista, adaptação de Alexis) e ao seu técnico abdicar definitivamente da figura do ponta de lança. Na filosofia de Guardiola não pode haver jogadores estáticos, incapazes de jogar em equipa. Se até Valdés é mais libero que guarda-redes como poderia haver um dianteiro que não fosse ao mesmo tempo extremo, médio e até mesmo defesa?

 

Inevitavelmente o ponta de lança continuará presente em equipas que privilegiam o jogo directo, que preferem o jogo aéreo contradizendo o velho dito de Brian Clough de relva nas nuvens. Mas à medida que o futebol se torna num jogo cada vez mais complexo, físico e intenso, o modelo blaugrana torna-se na evolução natural de algo que já a Hungria de Gustav Sebes anunciava, há mais de 50 anos. Naturalmente em Can Barça reuniram-se as condições (modelo implementado, tranquilidade institucional, classe dos jogadores, génio da equipa técnica) necessárias para aplicar o 4-6-0 com uma taxa de sucesso inquestionável. E mesmo isso não garante, como dissemos ao inicio, que perante rivais mais encerrados a aposta num modelo mais ofensivo como um 3-4-3 seja mais prática. Mas o passo dado em frente é inevitável. Na final da Champions League de Wembley o posicionamento de Messi (mas também de Pedro e Villa...os três marcadores) deixou a defesa do United desenquadrada por não saber a quem (e como) marcar. Chamam-lhe o "falso nove" mas a realidade vai mais longe. Mais do que recuar o nove o que o 4-6-0 de Pep consegue é involucrar no movimento ofensivo de concretização todo o acordeão do meio-campo, o que permite a Fabregas, Thiago, Iniesta ou Xavi estarem tão ou mais perto do golo que Villa, Pedro ou o próprio Messi. A função de atacar deixa de recair sobre um homem só para passar a ser coisa de muitos, permitindo uma constante superioridade em qualquer zona do terreno de jogo. E a história do futebol ensinou-nos que os mitos são homens mas quem faz a diferença são sempre as equipas



Miguel Lourenço Pereira às 17:23 | link do post | comentar | ver comentários (14)

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