Segunda-feira, 25.08.14

Num país onde os jogadores criativos eram olhados com sérias suspeitas, foram heróis sem glória. Durante uma década ofereceram o lado mais irreverente e artístico do futebol alemão mas a história deixou-os para um segundo plano. Assistiram ao final da era dourada do futebol germânico e deixaram no relvado a esperança de uma renovação que demorou uma década a fazer-se realidade.

Os anos 90 foram, talvez, a nível de resultados, uma década inesquecível para a selecção germânica. Igualou o registo de finais e títulos conquistados nos gloriosos anos 70. Começou a década com um Mundial e no meridiano dos anos 90 conquistou o seu terceiro Europeu, deixando para trás uma final inesperadamente perdida contra a Dinamarca. E no entanto, quando a década chegou ao seu final, o futebol alemão preparava-se para despertar de uma longa festa com uma dor de cabeça que nenhuma aspirina, por si só, era capaz de curar.

Os problemas, de natureza diversa, congregaram-se no tempo e no espaço para provocar uma depressão que durou quase uma década. Foi o tempo da Alemanha repensar a sua própria abordagem ao futebol. Devolveu-se o jogo aos adeptos, baixaram os preços, renovaram-se os estádios a pensar no Mundial de 2006, apostou-se na formação definitivamente, com a integração progressiva de minorias étnicas e controlaram-se as contas dos clubes com precisão teutónica. Sobretudo, devolveu-se o protagonismo aos artesãos  aos génios do meio-campo que tinham sido praticamente relegados para um segundo plano emocional nos anos de glória do futebol alemão.

O abandono definitivo do libero, a passagem progressiva do 3-5-2 para um modelo mais adequado às exigências do futebol moderno trouxe consigo uma nova estirpe de jogadores. Mas a sua influência vinha de atrás no tempo. Durante anos eles foram os heróis silenciosos dos triunfos da Mannschafft. Os heróis da imprensa e do público ora manobravam a bola desde a linha mais recuada, ao melhor estilo de Beckenbauer e Mathaus, ora decidiam jogos com golos oportunos e determinantes, de Muller a Rummenigge, de Hrubesch a Klinsmann. Mas era no meio do terreno que se coziam as vitórias, onde habitavam os génios malditos do futebol alemão.

 

Durante pouco mais de uma década, deambularam pelos relvados europeus, jogadores atipicamente germânicos. Capazes de improvisar, de procurar no toque curto a resposta à equação de espaços. Jogadores fisicamente pouco imponentes, tacticamente sábios e filosoficamente rebeldes. Os adeptos europeus tinham na memória, vagamente, as genialidades de Netzer e Schuster, mas em ambos os casos, o seu génio individual tinha sido sacrificado em prole do colectivo e de jogadores capazes de percorrer mais kilómetros sem a bola do que com ela, capazes de ocupar os espaços antes que criá-los. Lothar Mathaus, consagrado definitivamente no Itália 90, foi o exemplo perfeito desse todo terreno alemão que fez escola no futebol continental.

Enquanto isso, ao seu lado, gravitavam ao seu lado actores secundários com um papel fundamental na narrativa. De Thomas Hassler a Andreas Moller, passando por Steffen Effenberg e Mario Basler, o futebol alemão da complexa década de 90 teve os seus idolos quase anónimos para o grande público, o mesmo que aplaudiu a coroação de dois médios como Mathaus e Sammer, com funções primordialmente de contenção, como génios superlativos. Ambos estiveram por detrás dos dois triunfos internacionais alemães da década, mas não estavam sozinhos nessa cruzada. Entre eles somam mais de 220 internacionalizações pela selecção alemã, episódios de uma era de interrogantes. Estiveram nos momentos de consagração mas também (des)apareceram no sol californiano dos Estados Unidos, em 1994, e do França 98. Quando em 2000, a Alemanha acabou o grupo da morte do Euro 2000 em último lugar, por detrás de portugueses, romenos e ingleses, sem pena nem glória, foi sobre eles que caiu o peso da crítica quando nunca antes lhe tinham sido entregues as coroas de flores da glória.

Hassler e Moeller eram os perfeitos estranhos na equipa que Beckenbauer levou ao título mundial, em 1990, e que realizou um excelente Europeu, dois anos depois na Suécia, apenas para cair na final. Jogadores capazes de romper os espaços em velocidade, com uma visão de jogo perfeita, aproveitavam o trabalho e a presença de Mathaus no miolo para mover-se com a liberdade que necessitavam para explorar todo o seu potencial. Tal como a maioria dos grandes jogadores europeus da época, atingiram o pico individual a jogar na exigente liga italiana e demonstraram mais tarde no futebol alemão, o primeiro com o Karlsruher e o segundo com o Dortmund, que eram lideres naturais dentro e fora de campo. Foi sobretudo graças a eles que a Alemanha superou a mediania do Euro 96 para sagrar-se campeão da Europa apesar dos louros terem sido divididos publicamente entre os golos oportunos de Bierofh e o trabalho defensivo de Sammer. Espelho de velhos relatos.

Basler e Effenberg eram jogadores malditos antes da glória ter aparecido à sua porta. Curiosamente, protagonizaram a fábula mais trágica da história do futebol bávaro, no relvado de Camp Nou numa noite de Maio de 1999. Eram os génios que faziam mover a máquina do Bayern Munchen que venceu uma Champions League em 90 minutos para depois perdê-la em 180 segundos. Dois anos mais tarde tiveram direito a desforra, mas foi um prémio de consolação para quem tinha chegado já ao ocaso definitivo da sua carreira. Sem terem sido tão influentes no jogo da Mannschafft como Hassler e Moeller, foram dois elementos importantes na narrativa histórica desse período. Effenberg pagou o preço de ser a reencarnação de Schuster, passando quatro longos anos afastado da selecção pela sua atitude rebelde, enquanto Basler foi forçado a viver na sombra de um Sammer reconvertido em herói depois de um Euro 96 que ninguém esperava.

 

Quando a carreira deste quarteto de ases chegou ao fim, curiosamente o futebol alemão notou-o profundamente. A meados da década de 90 já eram todos veteranos de mais de 30 anos e nos torneios seguintes mostraram-se incapazes de aguentar o ritmo dos seus rivais, mais jovens e ambiciosos. Mas não havia substitutos à altura e o seu mandato prolongou-se no tempo. Quando finalmente pareceu desenhar-se uma dupla de sucessor, o jovem Sebastian Deisler não aguentou a pressão e o promissor Michael Ballack preferiu tornar-se numa réplica de Matthaus abdicando das condições técnicas que o faziam ideal para ser o sucessor moral de Moeller e Hassler.

A Alemanha penou durante quase uma década até que o novo sistema táctico, treinado desde as categorias base, permitiu ao clubes colher uma seiva de novos talentos, os Ozil, Reus, Gotze e Muller que estão chamados a ser os máximos protagonistas desta década. Mas, desta vez, os heróis dos adeptos e da imprensa alemã deixaram de ser Khedira e Gomez, mas sim estes génios individuais, criativos e imprevisíveis  génios que deixaram para trás o rótulo de malditos que a geração magnifica da década de 90 teve de suportar enquanto o futebol alemão pensava que a época de glória ia durar para sempre.


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Miguel Lourenço Pereira às 22:24 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 27.12.13

Com o final do ano de 2013 o Em Jogo publica a sua lista particular dos melhores jogadores do ano natural. Uma eleição condicionada pela performance individual, pelos méritos dentro do colectivo e pelo seu talento particular. Aos onze titulares do ano junta-se um leque de sete suplentes de luxo para forjar o plantel perfeito do ano 2013!

 

Os Melhores do Ano (Titulares)

 

Manuel Neuer

É díficil quantificar quem é o melhor guarda-redes do Mundo. Se os veteranos Cech, Buffon ou Valdés ou o alemão Manuel Neuer. Mas não houve um só título que o germânico não tivesse levantado no último ano e muitas das vitórias dos bávaros deveram-se, também, ás suas espantosas intervenções. Com o passar dos anos o ex-Schalke 04 tomou pulso a um posto onde muitos pensavam que não iria durar e já está à altura dos grandes número 1s alemães da história!

 

Philip Lahm

Talvez o jogador de 2013. Não é o mais rápido, o mais goleador, o que mais assistências dá ou o mais mediático. Não vencerá nunca um Ballon D´Or e a maioria dos adeptos até se esquece que já tem atrás de si uma década ao mais alto nível. Mas Lahm é o capitão desta equipa e um jogador que todos gostariam de ser e de contar com. Foi fundamental no esquema de Heynckhes e Guardiola rendeu-se à sua inteligência de jogo, colocando-o várias vezes no fundamental papel de médio defensivo durante os primeiros meses da temporada. É o líder emocional em campo dos bávaros e já um dos maiores laterais da história.

 

Thiago Silva

O brasileiro esteve perto de abandonar a carreira por uma tuberculose que os médicos do FC Porto não souberam detectar a tempo. Desde esses dias na Rússia e o regresso ao Brasil até à explosão definitiva como o melhor central do mundo, o capitão do Brasil tem protagonizado uma sequência de temporadas inesquecíveis. 2013 foi a melhor. Não só pelo título conquistado pelo PSG mas também pela vitória do Brasil na Taça das Confederações. Títulos onde teve um papel fundamental. A sua liderança e capacidade de controlo da área não encontram impar no futebol actual.

 

David Alaba

A evolução do lateral austríaco nos últimos dois anos tem sido épica. Alaba apareceu em cena como um médio interior formado nas camadas jovens do Bayern e acabou reconvertido num dos melhores e mais incisivos laterais do Mundo. O seu ano 2013 foi memorável, como sucedeu com quase todos os seus colegas de equipa. O seu próximo passo é levar a Áustria de volta a um Campeonato da Europa e manter o pulso com outros laterais da escola sul-americana como Marcelo, Felipe Luis, Dani Alves o protagonismo entre os melhores do Mundo!

 

Paul Pogba

Foi o melhor jogador do Mundial sub-20, a grande revelação do Calcio e a melhor notícia possível para o futebol francês. Descoberto por Ferguson, recusou-se a renovar o contrato com o Man United com medo a não ter o protagonismo que sentia que merecia. Tinha 18 anos. Dois anos depois, em Turim, transformou-se no parceiro perfeito de Pirlo. Os seus disparos de longe, as suas recuperações impossíveis e as assistências perfeitas tornaram-no peça fundamental na conquista da Serie A. Para completar um ano memorável, a vitória no Mundial sub20 e a promoção aos Bleus garantem que vamos ouvir falar dele com regularidade na próxima década.

 

Ilkay Gundogan

Há poucos jogadores tão inteligentes no futebol europeu como Gundogan. O médio turco-alemão do Dortmund soube substituir o seu amigo Nuri Sahin de tal forma que quando o ex-Real Madrid regressou ao Westfallen, foi-lhe impossível recuperar a titularidade. Fundamental na manobra de jogo da equipa de Klopp, o médio foi fundamental para a época memorável dos amarelos de Dortmund e a Alemanha de Low conta com ele para dar cartas no próximo Mundial.

 

Bastian Schweinsteiger

O que seria do futebol sem jogadores como "Schweini". Poucos teriam a fortaleza mental de superar um 2012 horribilis, com o penalty falhado na final da Champions League e a eliminação da Mannschaft nas meias-finais do Europeu, parecia que a carreira do médio tinha atingido o seu apogeu. Com a confiança de Heynckhes, voltou a pegar na equipa e lambeu as feridas com o champagne da glória. Superou a Pirlo num mano a mano, anulou (com a ajuda de Javi Martinez) o meio-campo do Barcelona numa histórica meia-final e em Londres voltou a ser fundamental para manter o jogo equilibrado até a conexão Ribery-Robben mostrar-se superior à dos rivais germânicos. O Mundial e um título com a selecção alemã é tudo o que separa Schweinsteiger de tornar-se num dos mais memoráveis jogadores teutónicos de toda a história!

 

Marco Reus

Os mais mediáticos seguramente citariam a Mario Gotze, mas talvez a mais incisiva e brilhante novidade ofensiva do Dortmund de Klopp no último ano tenha sido Reus. O médio contratado ao Gladbach foi uma verdadeira confirmação de tudo o que se suspeitava que podia ser. Vertical, directo, perfeito nas assistências, seguro frente à baliza, Reus foi o melhor jogador do Dortmund na corrida à final de Londres e com a saída do seu amigo Gotze para o histórico rival deu um passo em frente e reclamou a sua liderança para transformar-se no mais influente jogador do Dortmund actual.

 

 

Frank Ribery

Se os prémios individuais fossem atribuídos com o seu critério histórico, Frank Ribery era o homem prémio 2013. Lamentavelmente, o poder mediático cada vez mais encontrou forma de sobrepôr-se e o francês - tal como Iniesta ou Sneijder - verá a glória desde longe. Foi um ano histórico para o homem que alguém pensou que podia ser o sucessor de Zidane. Não foi nem nunca será mas vencer tudo em 2013 e ajudar a França a não falhar o Mundial é um feito que poucos gauleses podem reclamar para si. Ribery marca, assiste, distribui, lidera e encarna o espirito deste histórico Bayern Munchen. No ponto mais alto da sua carreira é um jogador imparável!

 

Luis Suarez

Se 2013 acabasse daqui a dois meses, talvez o uruguaio fosse o próximo Ballon D´Or. Na realidade, não estará sequer no top 10. No entanto, o que o jogador do Liverpool tem conseguido é impressionante. Não só realizou um excelente final da época 2012-13 - com muita polémica à mistura - como o seu arranque de temporada tem eclipsado as gestas de grandes nomes que podiam estar neste onze como Ibrahimovic, Lewandowski, Muller, van Persie, Falcao ou Diego Costa. Recorde de golos marcados, liderança na Bota de Ouro e um enfant terrible transformado na última esperança da Kop.

 

 

Cristiano Ronaldo

É díficil olhar para 2013 e não pensar num jogador: CR7. E no entanto o português não venceu um só título em 2013. Fora da luta pela liga desde 2012, Ronaldo conseguiu ser o melhor marcador da Champions League mas no jogo decisivo, no Bernabeu, não marcou o golo que carimbaria o passaporte para a final. Marcou no jogo decisivo da Copa del Rey mas acabou expulso e a equipa derrotada. Foi um mês de Maio negro que no entanto escondia um semestre memorável pela frente. Histórico de golos marcados num ano natural, memorável exibição no play-off de apuramento ao Mundial do Brasil, melhor marcador histórico numa fase de grupos da Champions League e o reconhecimento internacional posterior a uma imitação lamentável de Blatter. Ronaldo ganhou dentro e fora de campo todo o protagonismo de 2013 - sobretudo da temporada 2013-14 - e é a figura mediática inquestionável do ano!

 

 

Menções Honrosas (Banco de Suplentes)

 

Victor Valdés

É díficil não olhar para o guarda-redes catalão e não ver nele o melhor número 1 do futebol espanhol da actualidade. Valdés tem-se revelado tão influente como Leo Messi nos momentos decisivos e nos grandes triunfos dos blaugranas. A sua lesão, no final de 2013, deixou a nú muitas das fragilidades defensivas que Valdés tem tapado com brio. Talvez o seu melhor ano.

 

Matt Hummels

Tem um talento pouco habitual para um central e sabe-o. É a sua fortaleza e a sua perdição. Alguns dos golos sofridos pelo Dortmund em 2013 levam o seu selo, o descontrolo do seu imenso know-how. Mas Hummels é, sobretudo, um central imenso com um sentido posicional espantoso e uma leitura de jogo que faz lembrar a velha escola de líberos alemã iniciada por Beckenbauer.

 

Yaya Touré

Há jogadores que não necessitam de apresentações. São aqueles que qualquer treinador gostaria de ter na sua equipa. Defendem, atacam, distribuem, recuperam, dão calma quando necessário e vertigem se é preciso. E fazem-no quase como vultos fantasmas, deixando o protagonismo a outros. Yaya Touré tem-no feito há vários anos, desde a sua passagem pelo Barcelona até à sua consagração na Premier League. 2013 foi mais um ano de ouro para o marfilense!

 

Koke

O renascimento do Atlético de Madrid sob a mão de Diego Simeone encontrou no talento individual de um jovem produto da cantera colchonera o seu melhor exemplo. Para lá dos golos de Falcao e Diego Costa, do talento de Arda Turan e Mario Suarez, o trabalho incansável do médio espanhol no miolo da equipa de Madrid destacou-se pela sua sobriedade e perfeição. É uma das grandes revelações do ano e um jogador capacitado para liderar o futuro do meio-campo da Roja!

 

Lionel Messi

Há poucos jogadores na história do futebol com o talento de Leo Messi. O jogador argentino estaria em qualquer onze do ano mas 2013 foi o seu annus horribilis. Lesões recorrentes - entre Janeiro e Março e mais tarde, desde Outubro até ao presente - deixaram o génio blaugrana fora de combate em quase metade da temporada. Nos meses que esteve em campo esteve praticamente igual a si mesmo. Mas no duelo directo contra o Real Madrid (Copa del Rey), Atlético de Madrid (Supercopa) e Bayern Munchen (Champions League) não conseguiu ser o elemento desequilibrador a que nos tem tão habituados.

 

Zlatan Ibrahimovic

Igual a si mesmo, "Ibracadraba" é um dos jogadores com mais talento do mundo. Com a vitória na Ligue 1 ampliou a sua lenda. Dez titulos de campeão em doze temporadas é algo a que poucos jogadores podem optar, particularmente se os titulos foram conseguidos em quatro ligas e seis equipas diferentes. Levou os parisinos até um duelo intenso com o Barça na Champions League, rematou o título em Maio e protagonizou um notável arranque de época em 2013, interrompido apenas pela exibição de Ronaldo em Solna. Um craque!

 

Robert Lewandowski

É um exagero dizer que o polaco eliminou só o Real Madrid mas quatro golos numa meia-final da Champions League é algo histórico. O avançado do Dortmund realizou um ano memorável. Levou a sua equipa até à final da Champions, mostrou ser o avançado mais em forma na Bundesliga e tem os adeptos do clube de Dortmund em suspense sobre o seu futuro. É um dos mais letais avançados do futebol mundial e vale o seu peso em ouro!

 

 

Custou deixar de fora (O resto do plantel)

 

Robbie van Persie (decisivo no último ano de Ferguson), Mezut Ozil (mal tratado em Madrid, herói em Highbury), Andrea Pirlo (não é preciso explicar pois não?), Óscar (determinante na era Benitez, fundamental nos meses Mourinho), Mario Gotze (grande até Junho), Andrés Iniesta (um génio indiscutivel), Heines Weidenfeller (o eterno esquecido do futebol alemão), Thomas Muller (outro grande ano do working class heroe bávaro), Diego Costa (uma verdadeira transformação épica), Neymar (tem tudo para ser um mega-top), Arjen Robben (porque nos esquecemos tanto dele?), Marcelo (continua a ser um jogador especial), Raphael Varane (foi a revelação do final da época 2012-13), Eden Hazard (destinado à grandeza com os Diables Rouges)



Miguel Lourenço Pereira às 12:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 30.10.13

Quem me conhece sabe perfeitamente que não sou um "Ronaldieber", ou lá como se chamam agora os groupies adolescentes. Também não acredito na defesa absoluta de quem quer que seja pela nacionalidade, cor ou credo. Se Blatter tivesse ridicularizado Messi como um "enano hormonado", como lhe chamam por Madrid, teria dito exactamente o mesmo. A FIFA existe apenas e só porque o futebol é um fenómeno global que ultrapassa todo o tipo de fronteiras. É a verdadeira globalização. E deve-o aos seus grandes jogadores por cima de tudo e de todos. E Ronaldo é um desses jogadores e merece o respeito de quem vive, indirectamente, à sua custa!

Hoje cumpre 53 anos Diego Armando Maradona.

El Pibe é provavelmente um dos melhores jogadores de todos os tempos. Vê-lo jogar é o mais próximo que um adepto de futebol pode estar de um orgasmo artístico. Vi Maradona fazer o possível e o impossível milhões de vezes. Desafiava a gravidade, desafiava tudo e desafiava todos. Foi o último grande símbolo do "potrerismo" puro e mágico da escola sul-americana. E foi também um drogado, um putanheiro e um fraudulento fiscal. Começou a consumir cocaína em Barcelona, em Nápoles passou a ser acompanhado por uma corte das mulheres ao serviço dos capos da máfia local e deve, ainda hoje, milhões de euros ao estado italiano. E no entanto, hoje, 30 de Outubro, só nos conseguimos lembrar da "mano" e do "barrillete cósmico". Porque Maradona, o jogador, é muito mais do que Maradona, o homem.

Johan Cruyff cumpriu há dois dias quarenta anos da sua estreia como futebolista do Barcelona.

Foi, talvez, o momento mais marcante da história moderna do futebol europeu. Significou a transição definitiva da escola danubiana do centro da Europa para Barcelona. Está na base do Dream Team e do Pep Team, da cultura de futebol de posse que a muitos nos tem fascinado. Cruyff é, para mim, o melhor jogador europeu de sempre. Se é que algo assim se pode dizer. É também um dos homens mais inteligentes alguma vez associados a este jogo, dentro e fora do campo. No relvado não parava de se mexer, de falar, de dar ordens, de movimentar-se e movimentar os outros. E com um gesto, uma finta de corpo, tal como Diego, desafiava a gravidade e fazia as estrelas sonhar. Cruyff é também um homem obcecado com o dinheiro, um sovina de primeira, um populista capaz de baptizar o filho como Jordi aos seis meses de chegar a Barcelona e, sobretudo, um menino-mimado que abandonou o clube que cuidou da sua família desde que ficou órfão no dia em que os seus colegas não lhe votaram como capitão. Na rua seria conhecido como o mimado dono da bola. No mundo do futebol é um génio superlativo. Para mim, pessoalmente, irrepetível.

 

É muito perigoso julgar os jogadores pelo que são fora do campo.

Best era alcoólico e mulherengo. Cantona agredia pessoas quando insultado e saiu chateado de quase todos os clubes por onde passou. Zidane fervia em pouca água como poucos. Garrincha era a versão brasileira de Best mas com um neurónio menos. Meazza tinha simpatias fascistas. Di Stefano era um autêntico ditador moderno dentro e fora do balneário do Real Madrid. Pelé era um fraudulento oportunista e um demagogo que vive há décadas daquilo que representou. A lista é infindável.

Cristiano Ronaldo - como nenhum dos outros nomes citados - é propriamente um exemplo. Pelo menos para mim.

Mas como jogador é irrelevante o que gaste em cabeleireiros. O que gaste em carros desportivos. Com quem dorme à noite, onde passa as férias, de que cor é o bronzeado, de que tamanho são os brincos que leva e quão ridículos são os gestos que faz nas celebrações (ainda que o "calma, calma" tenha sido genial, confesso). Ronaldo é tudo isso como homem. Não como jogador. Como futebolista é um dos melhores da história, seguramente um dos melhores das últimas décadas. É capaz de coisas abrumadoras que a esmagadora maioria dos jogadores nem sonhando poderia repetir. É um jogador totalmente diferente de Messi ou Ronaldinho, por exemplo, mas isso não invalida que em campo seja imenso, que os seus números possam ser impossíveis de bater num futuro próximo e que quando está em campo o rival tenha de se benzer um par de vezes extra para o travar. Ronaldo é um dos maiores futebolistas do Mundo e a FIFA - a organização que deve velar "for the good of the game" devia ter-lhe o mesmo respeito que tem a qualquer outro. Nem menos, nem mais.

O que Sepp Blatter fez - e atenção, o suíço fez coisas muito mais graves e, lamentavelmente, menos mediáticas - é um insulto ao futebol não a Ronaldo. O mesmo seria válido se tivesse dito que preferia o português a Messi porque este é um fraudulento fiscal, vomita recorrentemente no relvado e fala de uma forma que ninguém entende. Messi é um génio (cada um poderá escolher de quem gosta mais) e como futebolista há poucos tão bons. Um deles é Ronaldo. Blatter como amante do jogo - como eu, como vocês - pode ter o seu favorito. Naturalmente. Como presidente da FIFA não o pode ter, muito menos utilizando elementos externos ao jogo como balança de decisão.

 

Inevitavelmente, esta polémica apenas joga a favor de Cristiano Ronaldo. Conseguiu colher simpatia global, unir muitos portugueses a sua polémica figura (continuo sem entender a obrigatoriedade nacional de estar sempre com alguém que é do mesmo país mas também não entendo o oposto, a critica gratuita e invejosa tão habitual dos países do sul da Europa) e reforçar a ideia de que muitos dos prémios do génio argentino dos anos anteriores possam ter sido condicionados. Pelo menos o critério mudou, isso temos todos claro, caso contrário Wesley Sneijder e Andrés Iniesta (e não Ronaldo) também já teriam vencido o tal Ballon D´Or. O que a FIFA acabou de fazer é um verdadeiro insulto ao jogo e não haverá forma de emendar o erro. Ronaldo deveria - ainda que não o vá fazer - renunciar publicamente aos prémios FIFA dando um sinal de maturidade e despreocupação. O seu ego seguramente que não lhe permitirá. E da próxima vez que alguém se lembrar da dança de Blatter e dos seus comentários, lembrem-lhes que tipo de pessoas eram "El Pibe" ou o grande Johan fora dos relvados. Talvez aí o gel no cabelo e o brinco dourado pareça ainda mais inofensivo do que já é. O futuro, esse, é quem tratará de julgar o verdadeiro papel de Cristiano Ronaldo no constelamento das estrelas do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 12:06 | link do post | comentar | ver comentários (23)

Sábado, 26.10.13

O futebol, como a vida, faz-se de decisões. No caso dos grandes jogos são os pequenos detalhes que, habitualmente, se revelam decisivos. Depois de um ano com um registo quase imaculado, mesmo no período mais negro da era Mourinho, o Real Madrid de Carlo Ancelotti comportou-se como uma equipa que não conhecia em absoluto a forma correcta de ultrapassar um rival que é cada vez mais uma sombra da imensa equipa que já foi. O suicídio táctico de Carlo Ancelotti, um misto de medo e submissão ao poder presidencial do clube, deu um balão de oxigénio a um Barça decadente mas sempre perigoso.

Bale parecia perdido. Não, Bale estava perdido.

Independentemente da sua questionada condição física, o galês não encontrava uma só combinação colectiva. Olhava com ar surpreendido para tudo e todos. A alta competição é assim e a diferença entre ser a estrela do Tottenham e ver-se como protagonista de um Barça-Madrid é grande. Cada bola que acabava nos seus pés perdia-se para sempre. Nem a sua velocidade ou capacidade física se fizeram notar. As ajudas defensivas do Barcelona anularam todo o seu potencial. A sua incapacidade de combinar com os colegas fez o resto. Tinha Bale condições para ser titular? Naturalmente a resposta é não. E porque jogou?

Fácil. Custou quase 100 milhões de euros, não estava oficialmente lesionado. Se não tivesse jogado muita gente importante se chatearia a sério. E Ancelotti não é treinador de incomodar os seus ricos chefes. Nunca foi.

Para colocar a Bale em campo, Ancelotti aceitou perder o jogo. Perder a herança de um modelo questionado por muitos mas que foi capaz de anular o Barcelona durante mais de um ano com autoridade. O Real Madrid de Mourinho, à medida que ia caindo em picado, mostrava-se, paradoxalmente, mais sagaz nos duelos com o eterno rival. Ganhou a liga no Camp Nou em 2012, venceu a Supertaça em Agosto e eliminou os blaugrana da Copa del Rey com autoridade. Pelo caminho voltou a vencer em casa para a liga e a empatar em Camp Nou. Como?

Aprendendo com os erros e explorando as falhas, cada vez mais evidentes, de um modelo já distante da herança inicial do guardiolismo. Mascherano e Piqué, uma dupla propensa ao erro, pressão alta no meio-campo explorando a dificuldade física de Xavi e Iniesta aguentarem noventa minutos de asfixia do rival e claro, um esquema de ajudas colectivas capazes de travar o génio de Messi. Ancelotti abdicou de todas essas lições. O Barcelona agradeceu.

Com Mascherano e Piqué em péssima forma, Carlo abdicou de jogar com um avançado que os segurasse e de-se espaço ao jogador mais em forma da sua equipa, Cristiano Ronaldo. Com Iniesta discutido e em más condições físicas, colocou Sérgio Ramos como médio defensivo e deu ao manchego todo o espaço do mundo. Com Messi e Neymar abertos nas alas, apostou em laterais ofensivos que foram incapazes de morder por medo a deixar espaços atrás. O seu 4-3-3 foi uma amalgama de jogadores perdidos em campo. Ronaldo não tinha posição. Bale perdia-a constantemente. Di Maria corria, corria e limitava-se a correr e embora Modric tentasse impor critério, não tinha ninguém com quem combinar porque Khedira é Khedira, Ramos é Ramos e os laterais raramente subiam com confiança. Um ano de herança destroçada por uma decisão que Ancelotti não teve a coragem de tomar.

 

Ao contrário do Real Madrid, o mérito do Barça é saber que tem uma ideia e que se se afasta dela sofre em demasia.

Martino, um argentino pragmático, percebeu que contra uma equipa a quem lhe custa ter a bola nos pés a melhor opção é guarda-la e esperar. Colocou Fabregas para forjar um losango com Xavi, Busquets e Iniesta e dar total mobilidade ofensiva para Neymar e Messi nas diagonais. O argentino não apareceu, como não tem aparecido. O brasileiro fez uma excelente primeira hora de jogo e foi decisivo em quebrar a hermética defesa rival, demasiado preocupada com o empalidecido Messi. O seu golo abriu o jogo e confirmou a ideia de Martino. Para o italiano colocar mais defesas e abdicar da sua essência - o ostracismo de Isco é evidente, a falta de confiança em Benzema, Jessé e Morata recorrente - não lhe valeu de nada contra uma equipa que troca a bola como poucas. A velocidade de outros tempos foi-se, mas a classe ficou. Iniesta sentiu-se cómodo, Neymar cumpriu o papel que já foi de Pedro ou Villa e o resultado foi o de quase sempre.

Com um golo de vantagem o Barcelona fez o que nunca tinha feito, nem com Guardiola nem com Tito. Recuou. Cedeu a iniciativa, deu um passo atrás e procurou gerir o resultado. Perdeu uma ocasião de morte de ferir um rival que não sabia a que jogava. O Real Madrid, em vez de a aproveitar, continuou a bater com a cabeça na parede. Só as entradas de Illarramendi, Benzema e Jesé devolveram ao clube merengue a sua essência. E foi nessa meia-hora que o jogo esteve, realmente, igualado. Os blaugrana deixaram de criar perigo e passaram a ver como Valdés, o poste e uma mão involuntária de Adriano impediam a igualdade.

A vinte minutos do fim Cristiano Ronaldo foi derrubado na grande área. Penalty claro e evidente por marcar. Na primeira parte Pepe tinha cometido também falta sobre Fabregas na área contrária. Os erros tiveram o mesmo denominador, um árbitro incapaz de controlar bem o jogo. A partir desse momento o Real Madrid desligou emocionalmente e Alexis Sanchez, recém-entrado, com o descaro de um novato, aproveitou o erro de Diego Lopez e a passividade de Varane para marcar um golo digno da noite. Jesé, depois de uma corrida fabulosa de Ronaldo, reduziu no último minuto. Pela primeira vez em cinco anos um Clássico com três golos e nenhum da dupla Ronaldo-Messi. Até nisso este duelo foi atípico. Se o argentino foi empurrado para a ala pela decisão do seu treinador e continua a sofrer problemas físicos, Ronaldo viu o seu técnico abdicar da sua máxima forma em prole de um desenho táctico inconsequente. Merecia mais.

 

A vitória do Barcelona dá três pontos aos lideres da prova mas mantém as duvidas no seu jogo, cada vez mais distante da matriz elogiada universalmente. No entanto um plantel que se permite ter a jogadores como Pedro e Alexis no banco tem sempre condições para resolver problemas mais agudos. No caso do rival a situação é radicalmente diferente. Ancelotti tinha os jogadores que queria (abdicou de Ozil, não exigiu um avançado top, resignou-se ao negócio de Florentino com Bale) mas mesmo assim criou um esquema incapaz de os aproveitar. E pagou o preço. A liga está mais dificil - em Espanha cada vez se perdem menos pontos - e a jogar assim, nem merengues nem blaugranas afastam-se perigosamente da elite europeia. Em Munique os campeões em titulo sorriem. Hoje em dia continuam sem ter rival à sua altura!



Miguel Lourenço Pereira às 19:42 | link do post | comentar | ver comentários (18)

Quinta-feira, 05.09.13

"Não se pode ganhar nada com os miudos". O escocês Alan Hansen, estrela do Liverpool, foi o autor da polémica frase no arranque da temporada 1994. Não tinha razão. Nesse ano o campeão inglês apresentava uma média de idades surpreendentemente baixa. Criou-se um novo paradigma. Mas nesta equação o protagonista era Ferguson, não Arsene Wenger. Ao francês criou-se o mito de ser um treinador especializado em vencer com jogadores jovens e promissores mas o seu sucesso nasceu com base em futebolistas no pico da sua forma. Mezut Ozil cumpre a sua velha máxima à perfeição.

 

Quando chegou ao Arsenal, Wenger vinha com o rótulo de ser um treinador capaz de sacar o melhor de jogadores desconhecidos. Independentemente da idade. Em Highbury provou-o. Prolongou em meia década as quase acabadas carreiras da sua linha defensiva (Bould, Keown, Adams, Seaman) e aproveitou os últimos sopros de magia de Ian Wright e Ray Parlour para conseguir a dobradinha em 1998. Sobretudo, contou com Dennis Bergkamp no pico da sua carreira. O holandês tinha-se apresentado ao mundo uma década antes, como um jovem adolescente em quem Johan Cruyff confiava poder utilizar para render o pletórico Marco van Basten. Depois de triunfar no Ajax e de uma passagem complicada pelo Inter dos holandeses (com Jonk e Winter, sucedendo ao trio alemão Mathaus, Bremeh e Klinsmann), o jogador apaixonado pelo Tottenham Hotspurs (graças à qualidade ofensiva da geração de Ardilles e Hoddle) aterrou no campo dos gunners para mudar a história do clube.

Tinha 26 anos. Demorou duas temporadas a adaptar-se e a partir de aí transformou-se no farol ofensivo do melhor futebol praticado nas ilhas. Quando Wenger remodelou a sua equipa, apostando de novo por jogadores na casa dos 23-25 anos quase desconhecidos do grande público (Petit, Viera, Pires, Ljunberg, Edu, Wiltord e o "recuperado" Henry) o seu papel de lider espiritual foi fundamental para recuperar o título e lançar a base dos Invencibles de 2004. Essa equipa era uma soma de grandes individualidades, já consagradas, com muitos anos como gunners nas pernas. Não uma equipa de jovens promessas, como ficou associada a imagem a Wenger, talvez por ter lançado Anelka (logo vendido), recuperado um jovem Henry do exílio em Turim e depois ter apostado em Reyes, Fabregas, Walcott e Nasri, mais por necessidade do que outra coisa. Bergkamp foi sempre o seu olho direito em campo, cumprindo um papel fundamental. Por ele passava todo o jogo do Arsenal. Pautava os ritmos, desbloqueava os jogos mais complicados e dava esse perfume de classe que consumou a transformação moral do clube do "boring, boring" ao "champagne Arsenal". Desde o seu adeus o clube nunca mais voltou a ter um futebolista desse perfil. Até agora.

 

Ozil pode não ser, à partida, o jogador que mais necessitava o Arsenal. Mas é fundamental para o estado emocional em que vive o clube!

Giroud não tem concorrência para a posição de avançado e a defesa continua a ter demasiados buracos por preencher. No caso do avançado, o francês foi batido pela esperteza de Mourinho que simulou deixar Demba Ba fazer a curta viagem pelo Tamisa de Stamford Bridge a Ashburton Grove para cancelar o negócio no último segundo. Na defesa, Wenger já demonstrou confiar no recuperado Mertesacker ao lado de Koscielny, para o bom e para o mau. E com Viviano na baliza a fazer concorrência directa ao intermitente Sczesny, o alsaciano parece estar satisfeito. No meio-campo havia jogadores de qualidade disponíveis. Mas nenhum fora-de-serie. E Ozil é, sobretudo, um jogador estelar.

O seu preço - 50 milhões de euros, a mais cara transferência de sempre do clube, segunda maior da Premier - está de acordo com o seu talento. Actualmente, no futebol mundial, não há um jogador do seu perfil. Os seus dados estatisticos em três anos de liga espanhola não têm igual. Supera em golos e assistência a Iniesta e juntando Xavi a essa equação a diferença é mínima. Com Cristiano Ronaldo assinou a mais letal parceria da história do futebol espanhol das últimas duas décadas, forjando entre ambos 33 golos. A chegada de Modric e Isco foram reduzindo a margem de erro a um jogador que, como Bergkamp, tem tanto de genial como de irregular. Ozil pode realizar exibições para o "hall of fame" durante semanas e depois desaparecer durante um mês. Mas nos clubes top, onde há habitualmente soluções para tudo, essa realidade não é um problema sério. Em Londres será diferente. Ozil será a única estrela da companhia.

Ao seu lado Wenger poderá montar finalmente um esquema similar ao que utilizou com os Invencibles e que tem sido forçado a abandonar com o passar dos anos. Naquela que foi talvez a mais brilhante equipa da história do futebol inglês, o francês alinhava dois médios-centro (Vieira e Edu/Gilberto) no apoio a um trio de criativos que podiam ser Bergkamp, Pires, Ljunberg, Reyes e o próprio Henry, quando Wiltord jogava na frente de ataque. Mobilidade total, imprevisibilidade e um ritmo de jogo alto suportado por uma coesão defensiva notável.

Olhando para o plantel actual é fácil perceber que Cazorla, que nunca foi um médio centro, poderá sentir-se cómodo de novo na ala esquerda, com as suas diagonais, e Oxlade-Chamberlain e Walcott abrirão o campo no lado direito permitindo a Ozil bascular livremente à frente de Whilshire, Ramsey ou Arteta, no apoio directo a Giroud. Ozil terá espaço, terá colegas com quem associar-se que entendem o futebol da mesma forma que ele. E, desde o banco, Wenger encontrará o seu alter-ego no relvado.

 

Acusado de não saber gastar dinheiro no mercado, Wenger conseguiu o brinde do ano. Vender Ozil, seja porque motivo for, é mais um dos muitos erros de gestão de um clube como o Real Madrid que pensa primeiro no mercado e só depois no futebol. 50 milhões por Ozil, como poderiam ser por Iniesta, é um investimento destinado ao sucesso. Com um golpe de asa, o Arsenal demonstrou que está preparado para voltar à filosofia original de Wenger. A mesma que transformou para sempre a história do clube!



Miguel Lourenço Pereira às 12:43 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Domingo, 25.08.13

jogadores que superam a sua condição de gladiadores dos relvados para dar outra cara. Futebolistas que ultrapassam a sua própria camisa-de-forças e  falam da mesma forma que jogam, com classe, frieza e muito talento. Xabi Alonso é um dos poucos jogadores da actualidade nesse patamar. Numa era de despropósitos, carros de alta gama, brincos, tatuagens, jogadores incapazes de dizer onde estão e para onde vão, o donostiarra é um farol de integridade da mesma forma que em campo tem sido um futebolista imprescindível na última década.

 

Agora que em San Sebastian se sonha com a Champions League convém recordar que a última vez que a equipa basca sonhou tão alto, havia um jogador no meio-campo a pautar o ritmo do jogo com uma frieza pouco habitual num adolescente. Xabi Alonso era, então, como hoje, uma bússula imprescindível. Com ele - e um punhado de outros grandes jogadores subvalorizados pelo mercado - os "donostiarras" chegaram a colocar em cheque os próprios Galácticos de Del Bosque que tiveram de fazer um esforço quase sobre-humano para não perder aquela liga.

Foi o aviso da chegada de um jogador radicalmente diferente ao protótipo espanhol.

Alonso era um médio de corte clássico. Gostava de ter a bola nos pés mas a sua especialidade estava na forma perfeitamente precisa com que a fazia mover de um lado ao outro do relvado com passes curtos e largos, lançamentos longos e diagonais precisas. Com a bola nos seus pés, o carrossel da Real Sociedade movia-se com maior claridade e precisão que a legião de estrelas do Real Madrid. Inevitavelmente, Rafa Benitez, treinador do Valência, tomou nota. Quando aterrou em Liverpool tinha uma prioridade. Trazer consigo o filho do internacional dos anos 80, Marcos Alonso, antigo jogador dos bascos e do Barcelona. A sua chegada foi fundamental para ultrapassar os problemas de construção da era Houllier. Alonso permitiu a Gerrard mover-se com liberdade, conectando mais vezes com uma frente de ataque em constante movimento. Na caminhada para a épica final de Atenas, o médio espanhol consagrou-se como um dos mais importantes centro-campistas do futebol internacional. Um dos golos - recarga de um penalty - foi seu, um mero detalhe para um ano memorável que não se voltou a repetir. Xabi continuou a jogar como os deuses mas o Liverpool deixou de vencer e quando Benitez começou a pensar que o problema podia estar no seu maestro, o jogador entendeu o toque e partiu para Madrid, um clube a quem faltava um líder como o pão para a boca. Encontrou-o.

 

Alonso tem sido o santo e senha do jogo do Real Madrid dos últimos quatro anos.

Apesar dos golos e das genialidades de Cristiano Ronaldo. Apesar da classe (intermitente) de Ozil, das correrias de Di Maria, do músculo de Khedira, da frieza defensiva ou dos golos (poucos) de Benzema e Higuain, o verdadeiro barómetro dos merengues era Alonso. Ausente ou em más condições físicas, a equipa ressentia-se como com nenhum outro jogador. Alonso era fundamental. Entendeu como poucos a concepção de jogo de Mourinho. Tornou-se no seu homem de confiança.

O jogo passava forçosamente pelas suas botas, era ele quem punha ordem na desorganização ofensiva. Os seus passes a rasgar criavam os desequilíbrios que o talento individual transformava em golo. Com uma equipa com dificuldade para progredir em controlo, com passes curtos, como Alonso demonstrou ser igualmente capaz de dominar, na selecção com que ganhou tudo (ele que começou como suplente com Aragonés para fazer-se imprescindível para Del Bosque), a sua visão de jogo era fundamental. Alonso desenhou os títulos conquistados, as goleadas e quando a sua luz se apagou, a equipa inevitavelmente desligou-se.

A chegada de Modric parecia significar uma nova via para o jogo do clube, mas o croata nunca chegou a captar bem o que Mourinho queria dele, no fundo um Xabi mais novo, mas com a mesma filosofia de jogo. Com Mourinho fora do clube, Alonso mostrou uma vez mais a sua categoria. Ele que já tinha sido respeitoso com um Benitez muito critico da sua etapa final em Liverpool, não alinhou no discurso vingativo da maioria do plantel. Manteve-se fiel ao que tinha sido, do primeiro ao último dia. Coerente com tudo. A chega da de Illarramendi, Casemiro e a boa forma de Modric, aliado à presença de Isco e Ozil, formatará seguramente um novo modelo de jogo para o Real Madrid onde a presença de Xabi já não ser tão fundamental como tem sido. Isso não invalida, no entanto, que a sua aportação não seja necessária.

 

Pode ser o seu último ano no Santiago Bernabeu - há uma renovação pendente de ser assinada que depende, sobretudo, da sua condição física, que actualmente o mantém fora dos relvados por dois meses - e portanto a derradeira oportunidade para os adeptos do clube de presenciarem ao vivo um dos melhores médios da história recente do Real Madrid. O ano mágico para o gentleman por excelência dos relvados espanhóis! Um jogador que merece sempre um tributo especial.



Miguel Lourenço Pereira às 11:46 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 15.08.13

Entrou pelas traseiras. Entre suspeitas de favores e de um rendimento decadente. Era uma promessa máxima que parecia que ia ficar pelo caminho. Num mês, tudo mudou. Autor de uma pré-temporada memorável, capaz de fazer esquecer a dupla ausência de Xabi Alonso e Illarramendi, o brasileiro Casemiro transformou-se em peça fundamental do esquema de Ancelloti. Terá ele as condições necessárias para ser o novo Pirlo do técnico italiano?

Agora está na moda gostar de Pirlo.

Agora, como quem diz. Nos últimos quatro anos, Andrea tonou-se um ícone do que há de cool no futebol.

É cool o penteado de Pirlo. É cool a sua barba. A forma como usa a camisola. O número nas costas. Os penalties que bate. Os livres perfeitos, os passes teleguiados. Até os erros de Pirlo são diferentes dos dos outros. Ao génio italiano passa-lhe como a Xavi Hernandez. São dois dos melhores futebolistas dos últimos vinte anos, nomes fundamentais da história do jogo moderno. E foi preciso os últimos anos para que se lhe desse o verdadeiro reconhecimento. Pirlo já tinha sido campeão europeu em 2003. Em 2007. Já tinha sido a figura fundamental - por cima de Buffon, Cannavaro e Totti - da Itália campeã mundial em 2006. E mesmo assim o Milan achou que estava datado. E mesmo assim muitos adeptos tardaram em entender a magia que dorme nas suas chuteiras em forma de varinha. Xavi foi assobiado no Camp Nou no ocaso da era Rijkaard. Pirlo também recebeu duras criticas nos seus dias derradeiros em San Siro, antes de resetear definitivamente a "Vechia Signora" com o seu bicampeonato. Quando o último moicano dos registas começou as suas andanças no jogo, o seu destino parecia ser radicalmente distinto.

Era o novo Baggio, o novo criativo na estela dos Rivera, Mazzolla, Conti e companhia, um criativo à solta no ataque, pronto a morder com o veneno de uma serpente a mais áspera defesa rival. Mas faltava-lhe algo.

O Inter - clube onde estava então - emprestou-o ao Brescia e foi aí que, ao lado de Baggio, o jovem Andrea percebeu que nunca podia ser igual ao "Codino Divino" mas que tinha condições para afirmar-se como um jogador radicalmente diferentes dando uns passos atrás no relvado. Chegado a Milão, num dos piores negócios da história dos neruazurri, Pirlo encontrou-se com um novo timoneiro, Carlo Ancelotti. O discipulo de Sacchi sabia que tinha na jovem promessa um diamante por trabalhar. Á sua volta montou uma equipa perfeita, com o trabalho físico de Gattuso, a inspiração de Rui Costa, o faro de golo de Shecvhenko e a resistência de Seedorf. Rodeado de jogadores de primeiro nível, Pirlo tomou a batuta, fez-se regista e entrou para a posteridade.

 

Os problemas físicos de Xabi Alonso e a ausência de alternativas levaram o Real Madrid a fixar-se em Illarramendi.

É um jogador fantástico, com um futuro brilhante e um preço talvex exagerado para o que já demonstrou e o que falta por demonstrar. A sua ausência, por lesão, dos principais jogos de pré-temporada vão forçá-lo a recuperar o ritmo e um posto para o qual já há um titular fixo (Alonso) durante a época. O que o basco talvez não contava era ter concorrência inesperada.

Se por um lado Ancelotti provou, com bons resultados, o croata Luka Modric como regista do jogo madrileño, apoiado como sempre em Sami Khedira e na arte da associação Ozil-Isco, a grande sensação da pré-época foi, sem dúvida, Casemiro. Um jogador que tem todas as condições para ser o Pirlo que Ancelotti procura.

Estrela precoce, Casemiro sempre habituou os seus seguidores ao mais extraordinário.

Queimou várias etapas na sua formação, tanto nas selecções jovens brasileiras (onde jogou ao lado de Neymar, Ganso, Óscar e Lucas Moura, ganhando quase tudo o que havia para ganhar), como no São Paulo. No clube paulista foi um dos mais jovens jogadores a alcançar os 100 partidos com a equipa principal, tudo isso antes de cumprir sequer 20 anos. Armador de jogo, recuperador de bolas nato, Casemiro passeava-se pelo meio-campo do "Sampa" com a autoridade de um veterano, lembrando talvez os dias gloriosos de Raí, o artesão dos títulos da era Telé Santana. Problemas num balneário conflituo, salários em atraso e um certo estancamento, como sucedeu a Paulo Henriques "Ganso", deixaram-no num beco sem saída. Para resolver o problema, o clube aceitou emprestá-lo em Janeiro ao Real Madrid com uma opção de compra de seis milhões de euros, bastante baixa para quem prometia tanto. Na segunda equipa dos merengues, o Castilla, o brasileiro entrou a dar cartas e fez-se figura fundamental chegando a ser chamado por José Mourinho para jogar com os titulares em duas ocasiões. Muitos pensavam que em Junho o jogador voltaria ao Brasil mas o Real fez efectiva a cláusula e Casemiro ficou.

E voltou a ser o de antes. O jogador atrevido, o autor de passes teleguiados, o recuperador de bolas cirúrgico, o médio capaz de bascular o campo ao seu ritmo, preciso nos passes, exacto nas antecipações, sempre com uma chispa de perfume e criatividade tão tipicamente sul-americana. Do nada, e com três nomes ilustres para o seu posto preferencial, Casemiro passou a sentir-se protagonista inesperado de uma narrativa que só agora está a começar.

 

É um jogador de um perfil que escasseia no Brasil e a sua afirmação pode ser uma brilhante notícia para Luis Filipe Scolari. Nele pode encontrar um pensador de jogo, um médio com força física para impor a sua presença e claridade mental para pautar o jogo ao seu ritmo. Uma eventual dor de cabeça para Luis Gustavo no meio-campo da canarinha como já é para Asier, Luka e Xabi no coração da cidade desportiva do Real Madrid. Para alegria de Carlo, o homem que vai contar com o meio-campo de artesões que faltou a José Mourinho nos útlimos quatro anos. Isco, Ozil, Casemiro, Modric, Illarramendi, Alonso, um sexteto de luxo para encarar, finalmente, olhos nos olhos, bola no pé, o eterno rival.



Miguel Lourenço Pereira às 15:51 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 01.07.13

Não houve duas equipas em campo. Não houve tempo. Uma entrou, empurrada por milhões, e ocupou todo o espaço imaginário do tapete verde do Maracaña para si. Fez a festa sozinha, entre suspiros do carnaval e memórias de outros tempos. Espanha caiu diante de uma selecção que soube ser melhor em todas as facetas do jogo. Uma derrota que pode ser útil para reactivar mecanismos num projecto que está no topo à demasiado tempo para ser julgado por um só jogo. Para os brasileiros, a noite de ontem foi um ajuste de contas moral com aqueles que achavam que era fácil entrar no Maracanã como senhores do jogo bonito e sair com vida. O teste a sério é daqui a um ano mas os sinais, pela primeira vez em muito tempo, são positivos!

Espanha começou a perder final antes da bola rolar.

Quanto soaram os hinos, ao ar sério, de quem está habituado a finais dos espanhóis, seguiu-se uma manifestação do poder emocional que provoca o futebol e só o futebol. Num país em crise consigo mesmo, com pessoas nas ruas a cercar o estádio, a paixão pelo futebol tinha o condão de ser o bálsamo emocional necessário para o brasileiro comum. Os milhares que encheram as bancadas de um estádio construido para ver o Brasil campeão cantaram o hino como se fossem para a batalha. Em campo os jogadores fizeram o mesmo. O velho espirito de família, de alma, de Luis Filipe Scolari ressuscitou na forma como Neymar, Júlio César, Thiago Silva, Fred ou Paulinho cantavam e choravam por dentro esse orgulho brasileiro. Quando o árbitro apitou para o minuto inicial, o escrete canarinho está mentalizado para ganhar. Nenhuma equipa do Mundo poderia fazer nada em relação a isso. Dois minutos depois, a jogada tipo de Scolari. Lançamento largo para o extremo onde a força de Hulk se sobrepôs ao pequeno Alba, centro para o coração da área onde a Espanha sempre sofre. Atrapalhamento e golo. Naquele breve segundo em que a bola pulou, Casillas e Fred lançaram-se pelo esférico. Noutro dia, noutra hora, o guarda-redes espanhol operaria um dos seus milagres. Mas aquilo era o Maracanã, era o Brasil e o uma consequência inevitável de acordar o monstro adormecido.

Nesse momento a comunhão entre adepto e jogador neutralizou qualquer arma futebolística que Espanha tivesse para oferecer. No final, não encontraram forma de sair desse bloqueio mental em que entraram. Sentiram-se intimidados pelas bancadas, pelo jogo duro do meio-campo brasileiro e pela forma como os rivais aplicaram em campo todos os passos necessários para neutralizar o tiki-taka. Pressão alta, à altura da baliza, e asfixiante. Constantes ajudas na marcação, linha defensiva longe da área, espaço de campo reduzido. Procurar o contacto físico, reduzir os espaços por onde a bola se possa mover. E depois, velocidade. Velocidade na movimentação, no lançamento da bola para o ataque, na tomada de decisão. Scolari emulou o que Heynckhes conseguiu com o Bayern. O resultado foi exactamente o mesmo.

Uma equipa com talento e prestigio contra uma equipa com talento e fome. Prevaleceu, em ambos casos, a segunda fórmula. Espanha, tal como o Barcelona, nunca entrou no jogo e foi derrotada de forma clara, concisa e inapelável por um rival que não precisou de recorrer ao anti-jogo, a estratagemas defensivos e à sorte.

 

Depois da exibição memorável contra o Uruguai, essa Espanha desapareceu do mapa.

Contra a Nigéria sofreu muito mais do que se esperava. Frente à Itália beneficiou, como em 2008, do factor sorte depois de ter reequilibrado no prolongamento um jogo que não conseguiu dominar nos noventa minutos. Aos italianos faltou-lhe a coragem e eficácia na tomada de decisão nos metros finais. Mas o Brasil sabia que esse não seria um problema. Neymar, que aos europeus sempre gerou dúvidas, emerge deste torneio como uma figura consensual. Foi a alma e o motor ofensivo do Brasil, movendo-se pelo campo com autoridade, oferecendo golos e disparando sem medo. O Brasil começou a ganhar o jogo no momento em que decidiu não ter medo do rival, uma arma psicológica que os espanhóis utilizam muito bem com alguns rivais que procuram adaptar o seu modelo de jogo ao seu. Paulinho e Luis Gustavo tinham outra missão. Como fizeram em todo o torneio (e como o fazem nos seus clubes), morderam, morderam e morderam. Com eles por perto a bola não durava um segundo no pés dos espanhóis. As subidas dos laterais e a velocidade de acção de Thiago e David Luiz cercava por completo o esquema habitual de Del Bosque.

O seleccionador espanhol não encontrou solução para o problema. Nem a entrada de Navas nem a de Villa resolveram a equação. Foi sempre tudo demasiado lento, impreciso e previsível. Sem tempo para pensar, sem espaços para mover-se, os espanhóis viram-se atados por uma teia da qual têm sempre dificuldade em sair. Do outro lado a velocidade era a principal arma com que o Brasil deixava os rivais em sentido. Arbeloa e Piqué foram admoestados por faltas sobre um supersónico Neymar. O primeiro livrou-se da expulsão e foi substituído porque parecia evidente que não sobreviveria a outra. Piqué não teve melhor sorte. O astro ascendente brasileiro aplicou-lhe a mesma fórmula de Cristiano Ronaldo e o jogador que tanto prometia em 2011 voltou a cair no mesmo erro e a comprometer, ainda mais, as aspirações da sua equipa.

Nessa altura já David Luiz tinha sabido ler a ideia de Pedro e Neymar ampliado a vantagem. Nesse golo colocou-se em prática o verdadeiro perfume canarinho. Oscar, sabedor que precisava de guardar a bola uns segundos para permitir a Neymar sair do fora de jogo, rodou sobre si mesmo em vez de procurar um passe mais fácil. Foi suficiente para romper a linha defensiva espanhola e oferecer ao número 10 o merecido golo. Casillas já tinha impedido por duas vezes a festa brasileira. Mas os milagres não seriam suficientes essa noite.

A partir desse momento Espanha rendeu-se. Sérgio Ramos sacou do coração onde já não havia cabeça para marcar um penalty infantil de Marcelo sobre Navas mas falhou-o. Fred ampliou a vantagem depois de mais uma delicatessen de Neymar (simulando um remate que não existiu) e o Brasil dedicou-se a bailar os campeões do Mundo com uma autoridade impensável. Reduzidos, fisica e psicologicamente, os espanhóis apenas procuraram resistir à goleada que parecia inevitável se, num acto quase de misericórdia, o Brasil não tivesse reduzido as rotações e Scolari tivesse preferido Jadson a Lucas Moura para dar a estocada mortal sobre um rival ferido.

 

Em 2002, Scolari foi campeão com uma equipa memorável. O seu esquema táctico em 3-4-3 dava todo o protagonismo a três Ballons D´Or (Ronaldo, Rivaldo e o futuro Ronaldinho) e à velocidade dos seus laterais (Cafú, Roberto Carlos) mas o verdadeiro truque estava na sala de máquinas, uma defesa oleada e um meio-campo de operários. Dez anos depois, o seleccionador repetiu a fórmula. Já não conta com três estrelas mundiais na frente, mas em Neymar, Fred e Hulk encontrou jogadores esfomeados e com sacrifício físico para pressionar até ao suspiro final. Em Marcelo e Dani Alves tem os sósias perfeitos dos seus laterais originais e com Paulinho, Luis Gustavo, Óscar e Hernanes, opções suficientes para aplicar a sua máxima no meio-campo. O triunfo, a todos os títulos inesperado, será um colchão mental importante para enfrentar o ano que falta. Espanha saberá voltar ao seu melhor depois de lamber as feridas. Selecção de jogadores inteligentes e ambiciosos, passará por um processo de selecção inevitável de quem sabe que há muito talento a bater à porta, mas no próximo mês de Junho arrancarão o Mundial como máximos favoritos. Um estatuto que merecem depois de seis anos memoráveis. Mas na noite de 30 de Junho de 2013 o Brasil demonstrou ao resto do Mundo como é possível desbloquear esta máquina de futebol sem recorrer ao lado mais negro do jogo. Resta saber quantos países terão os meios, a fome e o saber de reproduzir esse esquema. No planeta futebol actual não são muitos os países que podem permitir-se com sonhar com uma exibição perfeita como a dos canarinhos. Uma exibição para a posteridade! 



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 03.06.13

A inclinação brasileira do Barcelona ressuscitou graças ao desejo e influência de um presidente que foi, durante anos, o homem-forte da Nike na Europa. Rossell cumpriu o sonho de trazer Neymar para a Europa e agora cabe ao craque brasileiro demonstrar que pode queimar as etapas que nenhum dos seus predecessores foi capaz, brilhar no seu ano de adaptação numa equipa desenhada para um dos seus rivais pelo trono mediático mundial.

A paixão vem de longe. De Evaristo.

Nos anos cinquenta, o brasileiro foi um dos homens mais influentes na curta passagem de Helenio Herrera pelo Barcelona. Antes de transformar-se no guru do catenaccio, o argentino notabilizou-se em Espanha como um amante do ataque romântico, como provou no Atlético de Madrid e no Barcelona. No Camp Nou contou com os golos de Evaristo para acabar com a hegemonia nacional do Real Madrid. O avançado foi o responsável pela primeira eliminação europeia dos merengues e entrou para a história do clube blaugrana. Durante trinta anos foi a grande estrela brasileira da vida do Barça que tentou com Roberto Dinamite, sem sucesso, repetir a fórmula. Foi Romário, da mão de Cruyff, que reactivou a conexão canarinha no Camp Nou. O primeiro de muitos que se seguiram. Ronaldo Nazário, no seu ano mais brilhante, e Rivaldo culminaram essa paixão. Seguiram-se erros de casting como os avançados Giovanni e Sonny Anderson e os médios Fabio Rochemback, Thiago Motta e Geovanni. Mas com Ronaldinho todos se esqueceram desses pequenos precalços. O brasileiro tinha chegado das mãos de Rossell, quando Laporta queria Beckham. O inglês foi para Madrid, o brasileiro chegou de Paris e ajudou a reescrever a história do clube. Rossell, dirigente da Nike Europa durante largos anos, foi o homem forte dessa operação. Com o génio brasileiro vieram também Beletti e Sylvinho, nomes menores mas reflexo dessa conexão canarinha potenciada por Rossell. Quando a festa acabou, a ressaca brasileira gerou pavor nos adeptos. Henrique e Keirisson, últimos suspiros dessa tentativa de procurar a próxima estrela, foram erros calamitosos. Pelo sim pelo não, Laporta nunca mais voltou a pescar no Brasil. Quando regressou ao poder, Rossell, agora como presidente, alimentava o sonho. De trazer Neymar. Para ele - e para os brasileiros - o extremo até agora do Santos é o sucessor espiritual dessa saga Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Tê-lo em Barcelona era quase obrigatório e depois de dois anos em que Guardiola mediu o impacto da sua chegada num balneário dominado por Messi e enquanto os multiplos patrocinadores do jogadores exploravam a sua imagem, ficou no ar a ideia de que era questão de tempo até Neymar aterrar em Can Barça. Até que finalmente, diante de 45 mil adeptos extasiados, chegou o novo profeta canarinho para ter Barcelona aos seus pés.

 

O grande desafio de Neymar está, precisamente, no passado da história do Barça e dos grandes clubes europeus.

Não é por casualidade que clubes de ligas como a portuguesa, holandesa, francesa ou até italiana servem de porta de entrada para as maiores promessas da América Latina. No cone sul joga-se a um ritmo, a uma velocidade totalmente radical. O espaço tem um valor distinto. As marcações são feitas a outro ritmo e, sobretudo, a outra distância. O jogador tem tempo de receber a bola, cumprimentar a sua própria sombra antes de cruzar-se com a do rival. Nesses segundos mágicos há espaço para o drible, o toque súbtil, o levantar a cabeça. O respirar.

Esse tempo tão habitual nas ligas sul-americanas não existe na Europa, sobretudo no futebol espanhol. Cristiano Ronaldo sentiu essa diferença ao mudar-se da Premier - onde a defesa é mais dura mas menos pressionante - para Madrid. Agora imaginem o choque de o fazer directamente do Brasileirão para o clube mais exigente do mundo. Neymar no Santos brilhou muito mas ganhou pouco. O palmarés do clube santino e do jogador é bastante reduzido para tanto ruído mediático. Esse é também um sinal importante. Numa liga mais fácil e menos exigente, os milagres de Neymar não foram suficientes para manter o Santos constantemente no topo. Um alerta para quem acredita num milagre imediato.

Romário e Ronaldo brilharam durante dois anos no PSV antes de chegar a Barcelona. Ronaldinho passou pela mesma etapa no Paris Saint-Germain e só ao segundo ano começou a fazer valer a sua classe. Kaká chegou novo ao AC Milan e teve tempo de crescer sem pressão, mas precisou de cinco anos para afirmar-se internacionalmente. Outros jogadores promissores, de Denilson a Adriano, ficaram pelo caminho.

Neymar terá menos segundos no seu novo relógio e menos espaço para jogar, para criar. Ele é menos um goleador e mais um assistente. Vai-se posicionar preferencialmente sobre o extremo esquerdo, devolvendo Iniesta ao miolo para colaborar com Xavi na criação. Forçando que Cesc e Villa se tornem supérfluos, que Pedro compita com Alexis e que Messi tenha uma sombra. O brasileiro está habituado a receber e decidir. Agora terá de receber e dar. Com Iniesta pode encontrar um sócio fundamental, particularmente com o apoio de Alba. Mas a sua tendência para a diagonal acabará por levar que choque com Messi no espaço. Mesmo imaginando dois génios da técnica a entenderem-se em centímetros e micro-segundos, é inevitável que o choque fisico que existiu entre Messi e Ibrahimovic se repita, agora com o argentino no meio.

 

Com Neymar o corpo técnico do Barça ganha um reforço ao 4-3-3, ganha um novo goleador para aparecer quando Messi não está. Mas também ganha uma incógnita. Poderá fisicamente manter a exigência de jogar na Europa. Terá rapidez mental e física suficiente para reaprender os seus conceitos de tempo e espaço? Será capaz de colocar o seu ego de lado - como assim tem sido nas declarações realizadas - quando chegar a hora da decisão, e procurar o passe antes do remate? Terá a habilidade suficiente para ser mais um da engrenagem blaugrana e não a ânsia, tão sul-americana, de ser o vértice do modelo? Muitas perguntas que só poderão ser respondidas nos próximos 365. Se triunfar, será o primeiro brasileiro a consegui-lo no seu primeiro ano europeu, algo que nem Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká lograram. Caso contrário, terá seguramente a exigente imprensa atrás da sua sombra e o Brasil pendente do estado moral da sua estrela em ano de Mundial.



Miguel Lourenço Pereira às 17:12 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Segunda-feira, 25.03.13

A via crucis é inevitável. Há uma certa melancolia em cada fase de apuramento para uma competição internacional da selecção de futebol portuguesa. Um olhar preso nos tropeções do passado, um sufoco moral que obriga a um país tão mau em contas tenha de se valer da matemática até ao suspiro derradeiro. Tudo porque, o caminho do sucesso elimina os rastos do caminho certo, e Portugal continua a querer subsistir entre a elite do futebol à base de resultados e não de ideias. Até que os resultados faltem. Depois, o abismo...

Digam que Portugal é uma equipa que joga mal, e a primeira resposta será sempre a do adepto que cita de memória os pódios conseguidos nos torneios internacionais dos últimos anos. Digam que Portugal não tem uma boa equipa técnica, e lembrar-se-ão de dizer maravilhas de Scolari, Paulo Bento e (quiçá) Queiroz, lembrando vitórias pretéritas e esse espírito de sargentinho (não sargentão) de que o português tanto gosta. Digam que Portugal tem um plantel curto, um plantel sem demasiada qualidade, e lembrar-se-ão imediatamente de Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Nani e Pepe para justificar tudo o resto. Digam algo negativo sobre Portugal e a sua prestação habitual nas fases de qualificação e a única resposta que vão ouvir é a habitual, a mesma que um individuo como José Mourinho não teve receio de proclamara aos céus algo do estilo "que se lixe a qualificação, o que importa é estar e depois já se vê". E como, para muitos, Portugal se tem visto bem, aqui afinal não há um só problema que tratar.

Claro que isso é o que jogadores, técnicos e dirigentes querem que as pessoas pensem.

Evidentemente que é falso. Demasiado falso para o mais crédulo acreditar e no entanto, não se imaginam quantos crédulos existem. Portugal, é verdade, tem um registo em provas internacionais bastante bom para um país de 10 milhões de habitantes. Mas está mais do que provado que a correlação económica e social, só por si, não garante títulos. Na última década Portugal perdeu um Europeu em casa contra a Grécia. Caiu nas meias-finais de um Mundial contra a França, tendo deixado pelo caminho a Holanda e Inglaterra. Caiu num Europeu com a Alemanha e num Mundial e Europeu com a campeã, Espanha. Não parece, à partida, um mau registo. A diferença está em ver como se chegou até lá e, sobretudo, como se caiu. Em ambos os casos a resposta é fácil: sem ideias, sem futebol e sem um colectivo. O que faz toda a diferença.

 

A Portugal falta-lhe hoje o mesmo que faltava há cinco anos. Não mudou nada nesse aspecto.

É uma selecção com uma base de escolhas extremamente reduzidas que se agrava ainda mais pela mentalidade redutora e classicista do dirigente/técnico/adepto português que associa os jogadores de maior renome, os mais caros ou mais bem pagos, com os mais idóneos para jogar pelo país. Não é assim. No jogo de Israel, o obtuso Paulo Bento usou todos os nomes que tinha à sua disposição. Esqueceu-se de que o trabalho dele é utilizar jogadores. Em campo estavam atletas fisicamente em má forma física e anímica. Jogadores que jogam a outra coisa, a outro ritmo. Jogadores que não têm condições para serem titulares absolutos com a selecção e que no entanto, jogo atrás de jogo, aí estão.

Jogadores como João Pereira, Bruno Alves, Miguel Veloso, Raul Meireles, Varela e Hélder Postiga, para por caras e nomes.

Nomes, membros da "família Bento" com carta branca para fazerem o que quiserem em campo, que nada questiona a sua titularidade ao jogo seguinte. Quando Vierinha, um jogador sem pedigree público, entrou em campo as sensações da equipa mudaram logo. E mudaram porque utilizar um jogador fora do esquema fechado de Bento obrigou forçosamente Portugal a lidar com o seu mais grave problema, a falta de ideias e conceitos tácticos.

Paulo Bento é um péssimo treinador no aspecto táctico. É fechado, redutor e insiste regularmente no mesmo modelo, mostrando uma incapacidade atroz em ler os jogos e a readaptar-se. Rodeia-se dos jogadores que ele entende que melhor aplicam a sua filosofia e espera que depois seja a individualidade a fazer a diferença. É um técnico primário e sempre será. Essa é outra das razões porque é seleccionador.

Portugal não reagiu tacticamente ao empate israelita e muito menos ao segundo golo, desperdiçando uma vantagem conseguida, segundo o treinador "demasiado cedo", como se estivesse assumir que mentalmente é incapaz de manter uma equipa motivada num campo onde era imperioso ganhar. É uma conversa que já se ouviu com Bento no passado, nada de novo. Só a entrada de Vierinha e Hugo Almeida - tarde demais - obrigou Portugal a mudar o desenho, a deixar o 4-3-3 para apostar num 4-4-2, com Postiga por detrás de Almeida e Ronaldo como número 10 - ao ponto a que chegou o futebol português - e dois médios interiores abrindo as alas para a subida dos laterais, algo que não se viu durante todo o período de tempo em que funcionou o 4-3-3 clássico. Sem essas ideias, Portugal é uma equipa plana, demasiado pendente do jogo transicional que favorece tanto Cristiano Ronaldo mas que prejudica todos os outros. Um jogo que só funcionou no Europeu contra uma Holanda partida em duas. Contra a Dinamarca e República Checa teve muitos problemas em impor-se e frente à Espanha foi o que se viu.

Sem jogadores e sem treinador, o raro é que uma selecção consiga algo. E o pior é quando esse treinador é incapaz de incutir aos jogadores adrenalina. Portugal joga as fases de qualificação a um ritmo sonolento, obrigado, como quem tem de despertar-se todos os dias de madrugada para encarar oito horas de árdua jornada laboral. Não há tensão competitiva, querer, dinamismo físico e pressão menta que salve esta equipa. Nem Ronaldo, tão voraz no Real Madrid, consegue valer a sua braçadeira. A equipa joga a passo, linhas distantes, e quando qualquer rival coloca um pouco mais de velocidade no seu jogo - viu-se com a Rússia, a Irlanda do Norte e com Israel - o barco vai ao fundo. Se já é mau que os jogadores escolhidos não sejam os idóneos e que o treinador seja um problema, não a solução, que essa dupla ainda cumpra o seu trabalho quase como queixando-se é demais. Tarde ou cedo a realidade acabará por bater à porta.

 

Portugal já sabe que o primeiro lugar do grupo é uma impossibilidade, se não matemática pelo menos moral. E que o segundo será um mano a mano intenso até ao fim, sobretudo com o jogo do Estádio da Luz contra a equipa israelita a fazer a diferença. Depois vem o play-off, mais um consecutivo, o terceiro. A mim importa-me pouco que Portugal chegue a uma competição internacional via play-off ou como primeiro do grupo, se tiver demonstrado em campo ser uma equipa, bem treinada, com jogadores comprometidos, com uma convocatória que respeite a qualidade e não o estatuto. O problema é que isso nunca acontece e o cenário vai-se repetindo e os problemas ficam sem resolver-se e assim continuarão até que a selecção falhe uma ou duas provas internacionais consecutivas e entre, como outros país, numa espiral autodestrutiva. Aí tudo o que for escrito aqui será relembrado, mas sem um futebol de formação de qualidade e com figuras individuais como Cristiano Ronaldo cada vez mais escassas na nossa fábrica de futebolistas, talvez seja tarde demais.



Miguel Lourenço Pereira às 13:22 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 26.02.13

Gareth Bale é o melhor jogador que actua fora do circuito de grandes (ou milionárias) equipas. Sê-lo-á, seguramente, por pouco mais do que cinco meses. O seu talento e a forma como se transformou num todo-terreno dos relvados ajuda também a explicar a excelente temporada realizada pelo Tottenham. Em White Hart Lane André Villas-Boas começou a deixar o seu selo mas é habitualmente o génio individual do galês quem resolve os problemas do sistema do técnico portuense.

Caminham no terceiro lugar da Premier League (o último que garante acesso directo à Champions League) e vão agora disputar com o Inter de Milão um lugar nos Quartos de Final da Europe League.

Para um clube que, na elite milionária do futebol britânico é gerido com cabeça e sem cometer loucuras, é sem dúvida um feito. Não é uma novidade, Harry Redknapp já o tinha logrado há três temporadas, exibindo um futebol agressivo, vertical e extremamente ofensivo, onde havia pouco espaço para a pausa. Villas-Boas procura exactamente o oposto, reduzir as velocidades do jogo dos ingleses, transformá-los numa equipa mais continental, capaz de dominar o campo, manter a bola e ser eficazes na área contrária. Não tem sido um processo fácil. Para um treinador a quem o talento criativo é tão importante como contar com jogadores capazes de decifrar os espaços, arrancar a temporada e perder Rafael van der Vaart e Luca Modric é um problema. Especialmente se os seus substitutos, Dembelé e Dempsey, são jogadores de um perfil muito diferente. O antigo jogador do Fulham aporta à equipa londrina o que Villas-Boas exigia a Moutinho na sua etapa no Porto. Contenção, trabalho táctico e precisão na distribuição. No último terço do campo, a eficácia de Dembelé é notável, mais de 90% de acerto nos passes realizados na Premier. Mas é um jogador de trabalho sobretudo, não de criação, de explosão no momento ideal. Dempsey também é um atleta trabalhador mas nem tem o espírito de sacrifício de Dembelé nem a capacidade de marcar diferenças em espaços curtos e acaba por perder-se demasiado no modelo aplicado por Villas-Boas. O 4-3-3 que o técnico defendeu no Porto transformou-se num 4-2-3-1 e apesar da linha defensiva estar começar cada vez mais a assimilar a sua mensagem de linha alta, pressão constante e apoio ao meio-campo, é no ataque que o Tottenham se torna numa equipa diferente.

 

Villas-Boas arrancou o ano com jogadores desequilibrantes nas alas.

Kyle Walker é um lateral veloz, protótipo do defesa que encanta o futebol inglês, mas com um deficiente posicionamento defensivo. Foi responsável de vários golos sofridos pelos Spurs e cada vez que sobe para dobrar o extremo direito, obrigado o meio campo a tapar o seu espaço. Quando Walker não recua, ou o faz lentamente, provoca os desequilíbrios no miolo que tanto desesperam ao português. Do lado esquerdo Assante-Ekkoto e Kyle Naughton seriam o espelho do lateral direito mas com a dupla Dawson-Gallas a encontrar-se com a concorrência de Caulker, muitas vezes é o belga Verthongen quem parte do lado esquerdo, garante uma maior fiabilidade defensiva, reforçada pela incorporação definitiva de Hugo Lloris ao onze. No ataque, Lennon tem confirmado ser um extremo hábil e veloz mas tacticamente pouco consciente do seu papel, sobretudo com as subidas pelo seu corredor de Walker. Permite aos Spurs abrir o campo pela direita mas é pouco incisivo nas diagonais, ao contrário do que Villas-Boas conseguiu com Varela e James Rodriguez, na sua etapa no Dragão. É no lado oposto que está a chave do sucesso do clube: Gareth Bale.

Bale começou com extremo no Southampton e foi progressivamente readaptado a lateral por Redknapp. Foi a partir de trás que destroçou o campeão europeu, Inter, em dois jogos históricos da fase de grupos da Champions League em 2010 e tornou-se num símbolo da nova geração do futebol britânico, com apenas 20 anos. A pouco e pouco foi regressando à sua posição original, mas a sua (omni)presença é cada vez mais evidente. Está em todo o lado. Pela direita, usando do seu pé esquerdo para ganhar espaço na diagonal. Na esquerda, abrindo o campo e arrastando a marcação, cada vez mais implacável, deixando espaços para o meio-campo ocupar. Mas sobretudo pelo centro. Bale reconverteu-se na ponta-de-lança do modelo de Villas-Boas. O técnico português, que não encontra nem em Defoe (actualmente lesionado), nem em Adebayor (recém-chegado da CAN) um avançado matador, colocou Bale virado para a baliza, forçando o islandês Sigurdson a actuar do lado esquerdo. No meio Bale controla o jogo, abre os espaços, remate quando pode e atrai a marcação para si, soltando os seus colegas de ataque. A chegada de Holtby, o genial médio alemão - mais um produto da formação germânica da última década - para render Dempsey e as entradas pontuais no onze de Sandro, Huddlestone e do lesionado Parker, garantem ao meio-campo pulmão para segurar as linhas da equipa e dão a Bale a liberdade com a qual se sente tão cómodo. Dizer hoje em dia que o galês é um extremo é faltar à verdade, Bale, como Messi e Ronaldo, transformou-se num jogador total e é a chave do esquema de sucesso do Tottenham.

 

Villas-Boas seguramente pensava em aplicar o seu 4-3-3 com o galês emulando a Hulk, Lennon no papel de Varela e Defoe como avançado centro, mas as lesões, suspensões e circunstâncias múltiplas, obrigaram-no a reconsiderar. Foi dando esse passo atrás que o portuense ganhou uma equipa, coesa, sem estrelas individuais, mas capaz de entender que o futebol não é só vertigem. Mesmo assim, futebolisticamente, o Tottenham continua muito mais a parecer-se a uma equipa britânica, ao estilo de Redknapp, do que aquilo que Villas-Boas gostaria de implementar, com um jogo mais rendilhado com Holtby, Dembele e Parker no meio e o uso das alas como elemento diferencial. Na ausência de ponta-de-lança, não surpreende ninguém que Bale comece cada vez mais a aparecer aí. Há muito que o fabuloso jovem de 23 ultrapassou os espartilhos tácticos, demonstrando-se sentir-se cómodo em qualquer posição da linha de ataque. É às suas costas que o Tottenham caminha e Villas-Boas, seguramente consciente de que o perderá em Junho, já pensa num novo modelo, mais ao seu gosto, onde Holtby será, seguramente o actor principal.



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

Sexta-feira, 01.02.13

A União Soviética nunca venceu uma Taça dos Campeões Europeus e no seu equivalente mediático, a Champions League, o máximo que um dos seus históricos representantes conseguiu alcançar foi uma meia-final, em 1999. Eram outros dias, o último suspiro do projecto Dynamo Kiev com marca de Lobanovsky. Desde então só o Shaktar Donetsk esteve perto de superar esse feito e abraçar a glória de fazer história. Mas para Willian a glória, no futebol, vem em segundo lugar. O dinheiro está sempre primeiro.

O sorteio dos Oitavos de Final da Champions League foi nefasto para os amantes do futebol europeu.

Não porque colocou frente a frente Real Madrid e Manchester United, um dos duelos mais repetidos das noites europeias desde os anos 50, mas porque obrigou os dois favoritos a surpresa do torneio a defrontarem-se demasiado cedo. O Borussia Dortmund tem sido, talvez, a equipa mais original, atrevida e eficaz do futebol europeu pós-Pep Team. É uma equipa de critério, de criatividade, de domínio do espaço com e sem bola e, sobretudo, uma equipa jovem e sem complexos. Nota-se o dedo de génio de Klopp, forçado a fazer renascer um clube mítico das cinzas da falência financeira, e a classe dos seus protagonistas. Em dois anos, o clube perdeu dois dos seus lemes no meio-campo, Sahin e Kagawa, e mesmo assim foi melhorando. A versão actual, nessa conexão Gundogan-Gotze-Reus no apoio a Lewandowski é talvez a mais completa e fascinante das suas formações. A performance decepcionante numa Bundesliga que nunca foi objectivo prioritário, depois de dois titulos consecutivos, deixou claro que o que o clube de Dortmund queria era recuperar o troféu ganho em 1997 com uma autoridade inesperada frente à Vechia Signora.

Mas frente a frente o conjunto alemão vai ter a outra equipa que mais tem captado a atenção dos seguidores europeus no último ano. O projecto de Mircea Lucescu tem tantos anos quanto os de Klopp mas maneja outros princípios. Sobretudo investe muito mais dinheiro e procura aliar a velha organização táctica da escola soviética com o talento descarado dos jogadores brasileiros de génio que escapam ao radar dos grandes clubes. Quando o Shaktar começou a mergulhar no Brasil encontrou um filão por explorar. Pagava o que clubes de nível médio europeu não podiam pagar e que os grandes não se atreviam. Arriscaram em vários jogadores de enorme potencial e ganharam a esmagadora maioria das apostas. Uma linha defensiva moldada em casa, com o contributo do genial capitão, Dario Srna, e acompanhada dos Krystov, Chygrinsky, Rakytskiy e Rat, e a partir de aí, o génio made in Brasil. Um cocktail explosivo que já deu uma Taça UEFA, no passado, e agora podia almejar a mais, a muito mais, depois das exibições de classe e superioridade táctica contra duas equipas do perfil do Chelsea e Juventus.

 

Willian era um nome fundamental em todo o esquema de Lucescu.

Com Fernandinho, era o pulmão e alma do meio-campo ucraniano. No relvado, a sua omnipresença desmotivava o mais resoluto dos marcadores directos. Estava em todas as partes, finalizando, assistindo, recuperando e tapando espaços com um radar que poucos jogadores podem presumir de ter incorporado. Era o jogador com mais talento natural do plantel e aquele com maior margem de progressão internacional. Falou-se sempre do interesse de clubes ingleses (Chelsea e Tottenham) e do PSG, falou-se do papel de 10 num Brasil mais ofensivo do que nunca para a próxima Confederações. Falou-se de tudo e de mais alguma coisa, falou-se sobretudo da glória de ser um jogador diferente.

Mas no final Willian não vai estar nesse mano a mano alucinante que nos espera. Vai antes mudar-se mais para leste, para o coração da Rússia, onde os milhões do Anzhi falaram mais alto. O clube do qual Roberto Carlos é director desportivo conseguiu, com base no mesmo livro de cheques que o levou do Brasil à Ucrânia, atrai-lo para uma equipa onde já estão Etoo, Dzudasazk ou Jucilei, por exemplo. Uma equipa com potencial mas que tem desiludido, não só na liga russa como também na Europe League.

Á sua volta, no Shaktar, o médio contava com Fernandinho, Ilsinho, Alex Teixeira, Douglas Costa, Luiz Adriano, Maicon, Eduardo e o genial arménio Mkhtrayian. Um meio-campo que poucas equipas podem presumir ter ao qual se vai juntar agora outro desses talentos imensos que deambulam pelo futebol de leste, longe do radar mediático, o imenso Taison, comprado por 15 milhões ao Metalist. Com Taison e Mkhtrayin ao lado, e com Fernandinho e Hubschmann atrás, dificilmente uma equipa podia olhar para o Shaktar de cima para baixo. E no entanto, agora, sem o seu líder espiritual, Lucescu terá de repensar a sua estratégia e, sobretudo, encontrar um novo génio a quem entregar a batuta individual de um colectivo superlativo.

 

Willian seguramente será um jogador mais rico na Rússia e continuará a marcar as diferenças no projecto do Anzhi. Mas ao abandonar uma nave destinada à glória antes do embate decisivo, também demonstra ter uma reduzida visão de futuro. Não só vira definitivamente as costas ao escrete canarinho, agora nas mãos de Scolari, um homem que aprecia sobretudo esse conceito de grupo, como provavelmente nunca voltará a estar tão perto de emudecer a Europa com o seu génio incombustível. Rico, sem dúvida, mas um pouco mais pobre como futebolista.



Miguel Lourenço Pereira às 14:08 | link do post | comentar

Sábado, 13.10.12

futebolistas que actuam no terreno de jogo com a consciência de que o campo, para eles, é mais largo e mais comprido do que para a maioria dos colegas. Sabem ler o jogo em toda a sua real dimenão no espaço e mais do que medir os tempos e ritmos, permitem abrir e fechar o tapete verde como um balão que se esvazia e se incha a belo prazer. São jogadores que nascem com um radar incorporado e que vêm o jogo com olhos diferentes de todos os outros.

 

A bola nos pés de Xavi faz um barulho estranho. Ronrona, lança o alerta, conecta com o radar do médio espanhol.

Quando sai dos seus pés tem o destino traçado e dificilmente algo a impedirá de chegar ao objectivo final. Antes, nesses milésimos de segundos, o radar do blaugrana encontrou todas as coordenadas exactas para não falhar no passe. Abriu o campo, passou ao colega mais perto, lançou um passe a rasgar, jogou pelo seguro. Posicionou-se e descolocou os rivais, rompeu linhas ou organizou as suas. Um só gesto, pensado a outro ritmo, a outra cadência, é suficiente para impôr ao futebol a magia que os adeptos vêm mas, muitas vezes, não entendem.

E quem diz Xavi Hernandez, esse mago do futebol moderno, esse anão veloz, não nos movimentos de corpo mas no raciocinio que aplica como poucos ao tabuleiro de xadrez que é um jogo de futebol, pode pensar em vários nomes.

Andrea Pirlo, Bastian Schweinsteiger, Andrés Iniesta, Xabi Alonso, Luka Modric, Óscar, Eden Hazard, Juan Mata, Mario Gotze, Yohan Cabaye são os nomes próprios do momento, os embaixadores de um futebol onde o corpo conta menos que o cérebro, onde a condição fisica e as suas aptidões, a finta, a velocidade, o sprint, são relegados para um segundo plano. São também os jogadores que, mediaticamente, perdem nas comparações com as estrelas do drible, os goleadores incansáveis e os artistas rebeldes, sem consciência táctica e amarras ideológicas. 

A história perde-se em comparações odiosas. No Brasil de 70 quem se lembra de Gérson, o criativo que empunhava a varinha mágica dos homens de Mario Zagallo? Netzer viveu à sombra dos golos de Muller e a liderança moral de Beckenbauer e Mário Coluna no Benfica dos anos 60 perdeu sempre na comparação com a magia de Eusébio. Foram jogadores de excelência, e a lista não tem fim, criados na cultura do passe - curto ou largo, não faz diferença - e na sensação de que a magia do futebol parte do seu ideário colectivo que, como um bando de aves, triunfa quando se move ao mesmo ritmo e na mesma direcção.

 

A bola respira a um ritmo quando acompanha em velocidade a Messi e Ronaldo, sente de forma especial o golpe da cabeça de Falcao e do pé de Benzema mas é talvez nos pés destes jogadores que se encontra mais cómoda. Sabe que não vai ser utilizada de forma abrupta e constante. Um só toque e destino certo, ritmo elegante e rasgo na atmosfera.

Uma das principais razões da decadência do futebol português parte, sobretudo, da ausência desta figura. Se é certo que Portugal vive o problema crónico do avançado e sofre, ocasionalmente, com os médios defensivos e os laterais esquerdos, é na ausência absoluta de criatividade em que vivem os clubes e a selecção que se percebe que o futebol mecanizado e fisico que utiliza a equipa nacional e os seus principais emblemas não é mais do que o espelho da não utilização destes radares humanos.

Portugal não tem, desde Deco, um jogador com essas caracteristicas e sofre-o num jogo de transições rápidas defesa ataque, explorando a velocidade de Ronaldo e Nani, utilizando a figura do avançado como um médio mais, batalhador, de contenção, um operário como o trio de centrocampistas a quem não se lhes permite tratar a bola com a segurança de um passador de classe. Nem Moutinho, nem Meireles, nem Carlos Martins, nem Hugo Viana conseguem chegar a esse nível e se os dois últimos possuem algumas caracteristicas exigidas para o posto, a sua tremenda irregularidade espelha também a sua dificuldade em render ao mais alto nível. Portugal espelha assim o mesmo futebol que praticam os seus clubes. No Benfica há um treinador que não acredita no uso do meio-campo para dar ritmo, organização e classe à sua equipa. O futebol de Jesus é feito a pensar em ataque, mas um ataque só de avançados e extremos não é necessariamente um ataque mais eficaz do que aquele usado por um sexteto de médios, como demonstrou Guardiola na última final do Mundial de Clubes, quando utilizou um 3-7-0 (com Messi como falso 9 e Alves como falso extremo). Na desorganização futebolistica do Sporting dos últimos anos ficou evidente, igualmente, que o 4-3-3 de Domingos e Sá Pinto era muito similar ao da selecção com jogadores de combate e pouco futebol. E o FC Porto, desde os dias de Jesualdo Ferreira, optou pelo mesmo modelo, sendo que nem Lucho Gonzalez ou João Moutinho têm capacidade para ligar o radar e fazer toda a equipa bailar ao seu ritmo.

 

Esta éspecie de ave rara perde mediaticamente em comparações odiosas mas para os técnicos é o melhor aliado. O problema está na origem. São jogadores que não nascem, de forma expontânea, nas fintas de rua nem podem trabalhar o seu posicionamento e fisico para transformar-se em tanques defensivos. O seu treino é long, extenuante e exige paciência. Exige uma aposta séria no futebol de formação. Não surpreende portanto que os únicos países que na actualidade devotam tempo e dinheiro a formar os seus futebolistas sejam também os únicos que podem apresentar um leque de radares humanos de excelência. Jogadores que crescem e que não nascem, jogadores de outras eras e outros ritmos, com o radar accionado, eles são também, os jogadores que fazem do futebol um combate de 90 minutos que muitas vezes se decide ao pontos.


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Miguel Lourenço Pereira às 13:51 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Domingo, 23.09.12

Um dia de emoções fortes no futebol inglês. Dois jogos entre equipas de nome, prestigio, orçamento e plantéis dignos de potências europeias e que acabarão por disputar entre si os primeiros postos da tabela classificativa. Uma tarde onde a qualidade do futebol foi equiparada pela emoção do resultado e, sobretudo, um dia que deixou claro que a emoção que a Premier League é capaz de gerar não tem ainda rival à altura no panorama internacional.

 

Em Anfield sentiu-se a emoção do momento. Em Manchester a guerra psicológica entre duas ideias bem distintas.

Dois velhos rivais deram as mãos em nome de um passado sangrento e finalmente purificado ao som do You´lle Never Walk Alone. As mãos de Evra e Suarez encontraram-se sem problemas, os adeptos cantaram com mais força do que nunca e o espectáculo foi digno dos grandes duelos entre as duas equipas mais bem sucedidas da história do futebol inglês. 

O resultado foi o grande desgosto dos filhos da Kop. Mas o futebol esteve do seu lado. Não só o Liverpool jogou melhor que o Manchester United como mereceu claramente um triunfo que se lhe escapou e que os atira, de forma inapelável, para a parte final da tabela classificativa. A expulsão de Shelvey, discutível, determinou o rumo de um jogo até então dominado pelos homens de Brendan Rodgers. Se o Man Utd tinha deixado pobre imagem nos primeiros jogos da época, em Anfield confirmou-se que a equipa de Ferguson não está fina.

Um imenso buraco no meio-campo onde Carrick e Giggs eram incapazes de ditar os tempos, deixando Kagawa demasiado só, atados pelo esquema mais dinâmico do novo técnico do Liverpool. Um buraco que nunca se tapou, nem sequer com a entrada de Paul Scholes, e que em jogos mais exigentes pode custar caro a um Ferguson que apostou forte no mercado para fazer-se com os serviços de van Persie e que, pelo menos aí, tem visto a sua aposta funcionar. Cinco jogos, cinco golos para o holandês. O segundo de hoje, de penalty, num lance igualmente discutível, resolveu um jogo que o Liverpool não só dominou como começou por vencer, com um golpe de Steven Gerrard preciso. Um remate colocado e inesperado de Rafael e o tal polémico penalty perto do fim, deram um ar de engano a um marcador final que não faz justiça a uma equipa onde se nota a juventude mas também a vontade de crescer. Os adeptos reds só têm de acreditar e dar tempo a Rodgers, a matéria-prima começa a dar os seus frutos, pensando sobretudo no excelente jogo de Sterling, Allen e Borini.

 

Em Manchester, a vitória do grande rival dos Citizens obrigava a Mancini a vencer para não perder o comboio dos lideres - o triunfo de um Chelsea intenso manteve-os isolados na frente da tabela - e ao mesmo tempo, afastar-se de um Arsenal com um arranque de temporada inesperadamente positivo, face às baixas no plantel de van Persie e Song.

Como em Anfield o favorito jogou pior, esteve perto de vencer de forma injusta mas aqui, o destino foi mais simpático com Wenger e permitiu-lhe manter-se par a par com os homens do dinheiro fácil, como os acusa de forma regular. Os milhões do plantel do City não souberam lidar com uma equipa com um orçamento francamente mais baixo mas futebolisticamente igual de perigoso. As movimentações de Cazorla e Ramsey descoordenaram o meio-campo dos homens da casa e a bola parecia sempre mais cómoda nos pés dos gunners.

Mas como sempre parece acontecer, o City encontrou-se com um desses lances de bola parada que tão bem sabe rentabilizar. A ajuda de Manonne, o oportunismo de Lescott e a passividade da defesa do Arsenal fizeram o resto e um golo caído, literalmente, do céu, obrigou o Arsenal a acelerar ainda mais e o City a jogar o seu estilo de jogo preferido, de gato e rato, de golpe e contra-golpe. Um jogo onde se sente francamente cómodo e que lhe permitiu aproximar-se com mais perigo da baliza rival do que tinha logrado antes do golo. 

Foi nessa vertigem ofensiva que um Arsenal voluntarioso mas quase sempre trapalhão encontrou a justiça nos pés de Koscielsny e com esse golo manteve igualada a posição na tabela com os pétrodolares do City, se bem que a uma distância já considerável dos homens de Roberto di Matteo, autores de um arranque de época perfeito.

 

A Premier arranca com alguns dos clássicos já disputados e com a certeza de um ano intenso com vários candidatos ao ceptro do Manchester City. Nem o Arsenal se encontra tão mal quanto se podia prever nem os pontos de United deixam de esconder as suas debilidades futebolísticas. Se ao Liverpool há que dar tempo para por em prática as ideias de Rodgers, tanto Newcastle como Everton têm dado sensações positivas que poderão confundir um pouco mais as contas até ao final da temporada.



Miguel Lourenço Pereira às 19:39 | link do post | comentar

Domingo, 09.09.12

O gesto. A raiva tranquila, o movimento de corpo, a colocação da bola. Uma bola que nos seus pés respira com calma, sente-se segura, fecha os olhos e voa. Durante uma década foi um dos melhores jogadores do Mundo, ano sim, ano também. Talvez por ser o menos egoista das estrelas, o menos mediáticos dos astros, falhou sempre nas corridas aos prémios individuais mas ninguém dúvida que entre os grandes da história do jogo e, provavelmente, no pódio do mais grande do futebol gaulês está uma gazela chamada Thierry Henry.

Acreditemos por um segundo que se podem comparar épocas, se podem comparar equipas, rivais, colegas, jogadores, bolas, terrenos, estádios, que tudo vale o mesmo e é igual aos olhos dos adeptos. Enfim, que se pode jogar ao jogo do "maior de sempre", uma expressão que sempre dá comichão aqueles que, como eu, acreditam que o futebol é feito de evolução mas que essa evolução não significa, forçosamente, que o presente é melhor que o passado sempre e que há coisas que, pura e simplesmente, são incomparáveis.

Mas joguemos o jogo por um breve instante e olhemos para a história do futebol francês.

Um país entre os mais desportistas do mundo mas que sempre olhou desconfiado para o futebol, desde a sua génese. Jogo de ingleses, e portanto jogo a evitar, jogo de proletários e, portanto, desprezado por uma burguesia que sempre preferiu o ténis, os desportos automobilisticos ou o ciclismo, o futebol em França não deixa de ser uma religião mas acaba por ser um credo mais alternativo do que estabelecido. Ao contrário dos ingleses, os franceses respeitam mas não veneram, vibram mas não perdem a cabeça e bailam ao som do triunfo e desligam o monitor na hora da derrota sem pestanejar. Nesse cenário houve poucas equipas gaulesas que passaram à posteridade. Mas jogadores, jogadores nunca faltaram.

De Ben-Barek, o astro de origem marroquina dos anos 30, a Frank Ribery e Karim Benzema, passaram oitenta anos de muito talento e magia. Dentro dessa lista de génios, a opinião pública sempre se dividiu em dois nomes: Michel Platini e Zinedine Zidane. 

São eles os mais galardoados, os mais aplaudidos, os mais venerados dos jogadores franceses. Entre eles estão cinco Ballon D´Ors, dois Europeus, um Mundial e duas Champions League. Coisa pouca. Mas pessoalmente, e só porque desta vez jogamos o jogo, não encontro aqui nem o primeiro, nem o segundo melhor jogador de um país que também foi o de Just Fontaine, de Raymond Kopa, o de Alain Giresse, o de Jean Tigana, o de David Ginola, o de Didier Deschamps, o de Robert Pires, o de Dominique Rocheteau ou o de Jean-Pierre Papin. Nomes no entanto que vivem na sombra de dois génios que conheceram em Inglaterra o reconhecimento que o resto do Mundo nunca lhes quis dar: Eric Cantona e Thierry Henry.

 

Se de Cantona, provavelmente o jogador mais icónico do futebol britânico moderno, falamos e voltaremos a falar, que se pode dizer de Henry.

Para muitos sugerir que Henry é mais do que Zidane pode ser blasfémia. E ninguém é dono da verdade para dizê-lo ou não. Mas o médio que foi da Juventus e do Real Madrid depois de ter sido do Cannes e do Bordeaux, genia lcomo poucos, nunca despertou a mesma sensação de prazer supremo que Henry naqueles que seguiram a sua trajectória londrina com paixão.

Henry é provavelmente o jogador gaulês mais completo de sempre. Foi sem dúvida o melhor jogador da Premier durante a última década (como o foi Cantona na década de 90), o mais laureado por jogadores e imprensa, o mais amado pelos adeptos neutrais, incapazes de aceitar o estilo de Cristiano Ronaldo, os golos de Michael Owen ou os tiros de Frank Lampard ou Steven Gerrard como algo por encima do génio supremo do gaulês. Henry marcava com a mesma facilidade que assistia. Podia ter sido um goleador ainda maior, atingir números muito mais próximos dos que hoje apresentam Ronaldo e Messi, não fosse também um jogador profundamente colectivo, um rei de assistências, um iniciador de lances tão bom como os que finalizava. Com frieza, com raiva, com classe.

Henry começou debaixo da asa de Arsene Wenger no Monaco e explodiu sob o seu comando. Pelo meio uma etapa para esquecer em Turim, ao serviço da Juventus. Foi daí que o técnico alsaciano o recuperou e deu-lhe o lugar que era de Nicolas Anelka, recém-vendido ao Real Madrid. À sua volta construiu uma equipa inesquecível, com Bergkamp, Pires, Ljunberg, Vieira e Wiltord. E deu-lhe a liderança do seu projecto. Liderança que Henry exerceu sem autoridade mas com um magnetismo profundo. 

Faltou-lhe a Champions que ganharia em Barcelona, já na sua etapa decadente, mais pelos problemas fisicos do que pelo génio que nunca perdeu, e faltou-lhe sobretudo o Ballon D´Or. Incompreensivelmente perdeu-o em 2000 para o seu amigo Zidane e em 2004 para Schevchenko. Mas nunca perdeu o amor dos adeptos neutrais, para não falar dos gunners, deliciados com o seu serpentear, os seus livres directos imparáveis, o seu golpe de cabeça autoritário, os toques de calcanhar que do nada davam golo, os seus passes impossíveis, as suas mudanças de velocidade maradonianas e, sobretudo, o seu passeio elegante sobre o relvado como se de um semi-deus se tratasse. 

 

Thierry Henry pertence a uma casta de jogadores que são apreciados no presente e que ganharão contornos de mito à medida que os anos passem e os adeptos revejam as suas obras de arte com outros olhos. Se já no seu prolifero periodo activo sempre dava a sensação de disputar mano a mano o titulo honorifico de melhor do mundo com jogadores muito mais mediáticos, hoje continuamos sem encontrar jogadores que tenham pegado no seu testemunho e ido mais longe. Henry pode não ser um icone global, por mil e um motivos, como foi Cantona. E pode não ter os prémios de Platini e Zizou. Mas olhando para trás e olhando para hoje é impossível dizer, jogando a esse jogo maldito, que algum deles possa fazer sombra a um Thierry que define, com o olhar, o que significa a palavra futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 20:52 | link do post | comentar | ver comentários (6)

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