Sexta-feira, 28.09.12

Até aos anos 90 a FIFA tinha claro onde estava o verdadeiro poder nas estruturas directivas do mundo do futebol. Por isso os Mundiais, a sua prova rainha, o evento máximo do beautiful game, oscilava entre Europa e América, sem nenhuma discussão aparente. Mas os tempos mudaram, o dinheiro começou a faltar e Joseph Blatter teve de piscar o olho às restantes confederações e criou o critério de rotação continental. Mas conhecendo os novos horários do próximo Campeonato do Mundo, fica claro que, apesar de minoritário, o mercado europeu continua a ser a grande preocupação dos homens da FIFA.

 

Na África do Sul, a entrar em pleno Outono, os horários dos jogos eram os mesmos do que os espectadores europeus.

A diferença horária de uma hora permitia adequar os horários reais aos horários televisivos do público europeu e não houve demasiada polémica. Todos estavam contentes. Todos menos todos os adeptos fora do Velho Continente, habituados, mas cansados, de ter de ver todos os grandes torneios fora de horas. As polémicas na Europa à volta do conceito de rotação de continentes doeram à FIFA. Durante cinquenta anos a organização sempre teve predilecção pelos palcos e pelo público da Europa, mas a globalização e a necessidade de agradar a asiáticos e africanos como se agradava a europeus e americanos obrigou Blatter a dar o braço a torcer. Com os respectivos efeitos colaterais.

Na Europa não está o principal mercado do Mundial. Está o mais antigo e prestigiado, seja lá o que isso signifique em contexto de mercado de audiências, mas não é difícil ver mais pessoas a seguir o torneio na Ásia, na América Latina e até mesmo em África do que na Europa. E no entanto tudo ainda é feito à sua medida. Depois das criticas dos horários do Mundial de 1994, nos Estados Unidos, com jogos em horários de altas temperaturas para não desagradar os europeus, a FIFA capitulou e o Mundial da Ásia, no Japão e Coreia do Sul, viu-se essencialmente pelas manhãs para respeitar o horário local e a saúde dos jogadores, por muito que os Europeus tenham tido sérios problemas em conciliar a vida laboral e o seguimento da prova. A péssima performance dos países favoritos não ajudou e na Europa o torneio foi um relativo fracasso o que deixou o aviso para edições futuras. Como a do Brasil 2014.

 

A FIFA anunciou hoje os horários do próximo Mundial e assustam.

Num país que em Junho vive um Outono tropical, que oscilará entre uma humidade e calor asfixiante especialmente nos jogos a norte, e chuvas e temporais, nas zonas costeiras, é importante ter em consideração tanto os horários como as condições em que se vão disputar os encontros. Pelos jogadores, pela qualidade do jogo e pelos próprios espectadores que vão estar fisicamente presentes na prova. Mas para a FIFA esses conceitos são superficiais quando se trata de discutir os horários televisivos, a salsa do futebol actual.

A prova arranca a 12 de Junho e o jogo inaugural será disputado às 21h00 portuguesas (mais uma no horário central europeu) - 17h00 - em claro prime time. A final, a 13 de Julho, um mês depois, será uma hora antes, 20h00 horas portuguesas (21h00 europeias) e, inevitavelmente, às 16h00 brasileiras. A final de um Mundial no calor de uma tarde brasileira é um cenário, no mínimo, surrealista. 

Na fase de grupos, onde haverá uma média de três jogos diários, vão-se usar vários cenários, desde jogos às 13h00 da tarde (hora de máximo calor) até às 21h00, também do Brasil, o que permite uma oscilação no mercado europeu das 17h00 e 01h00 da madrugada. No continente asiático, onde está o verdadeiro core de audiências, os jogos serão essencialmente transmitidos durante a madrugada, sem qualquer consideração pelos seus espectadores enquanto que o continente africano seguirá o torneio com horários similares ao Europeu. 

Na fase a eliminar, os jogos serão disputados durante a tarde brasileira e prime-time europeu. Sem qualquer respeito pelos jogadores e pelos adeptos locais. 

Para uma organização que diz que gere o jogo para o seu próprio bem, o Mundial é a verdadeira prova de fogo de como gere os destinos do seu jogo. E este Mundial prova, de uma vez por todas, que há muito que os senhores de Zurique se esqueceram do futebol para concentrar-se nos seus rendimentos. Enquanto se equaciona um Mundial no Inverno europeu para não coincidir com o calor asfixiante dos horários de Junho no Qatar, o último torneio americano nos próximos 14 anos deveria ter em consideração os próprios sul-americanos, que não recebem uma prova desde o longínquo 1978. Em vez disso, a FIFA aposta sobretudo pelo mercado europeu, talvez pensando em contentar os seus associados quando cheguem as próximas eleições - onde a UEFA terá um papel fundamental - e nos contratos com as multinacionais que fazem da Europa o seu mercado preferencial, pelo maior poder de consumo que ainda ostenta. O Brasil, mercado emergente como será a Rússia em 2020, recebe o torneio mas continua a ser forçado a adaptar-se à vida diária dos seus antigos conquistadores.

 

Para um adepto europeu estes horários são boas noticias. Mantém-se a tradição absoluta de seguir a prova rainha na comodidade dos horários pós-laborais, sem grande ginástica logística. Para o resto do mundo a situação continua a parecer-se com a asfixia de longas décadas de autoritarismo eurocêntrico. Os sul-americanos terão de decidir entre trabalhar e ver os jogos no seu torneio. Os asiáticos terão de esquecer-se de dormir durante um mês tudo para que na Europa o jantar seja acompanhado dos pratos fortes da jornada. Sepp Blatter fecha o ciclo que abriu João Havelange. Dar ao Mundo uma mão assegurando-se de que na outra fica com as suas carteiras, a sua moral, o seu futuro!



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Domingo, 02.10.11

Analizando friamente os números é fácil chegar à conclusão que há poucos países capazes de provocar tantas desilusões futebolisticas como o México. E no entanto escasseiam as nações com tanto potencial para aspirar ao ceptro mundial. O futebol azteca vive nesta contradição andante e continua a viver numa eterna depressão entre extasiantes promessas e constantes desilusões. Poderão os heróis de 2005 e 2011 formar a equipa capaz de contrariar as evidências?

Duas vezes o México logrou alcançar os Quartos de Final de um Mundial de Futebol.

As duas foram nas provas que organizou, as duas deixaram poucas saudades nos adeptos. Os mexicanos estão habituados a vir cedo para casa neste tipo de torneios. E isso, num país com 115 milhões de habitantes onde o fanatismo do futebol é uma religião alternativa ao profundo catolicismo e ao misticismo tribal, deixa muito que pensar. Pode um país com tamanhas condições desportivas, com um longo historial, repetir, ano após ano, prova após prova, os mesmos erros? No papel parece impossível. Na realidade está o caso mexicano.

Esquecendo gigantes como China, India ou Estados Unidos, o México é um dos poucos países que superam os 100 milhões de habitantes onde o futebol é sagrado. Desporto nacional quase em estado puro, para os mexicanos a obsessão com uma bola só é comparável à sua paixão pela Coca-Cola ou pelo picante da sua maravilhosa cozinha tradicional. Na rua os miudos mexicanos não se distinguem dos potreros argentinos ou dos malandros brasileiros. Como gotas de água ensaiam regates, experimentam fintas, desafiam a gravidade e viciam-se no golo. Ainda não mergulharam no pecado capital da Europa, esse vicio pelos jogos de consola que transformou o jogador de rua no jogador de comando, e por isso a rua ainda é deles. E para bola qualquer coisa serve.

Esses miudos são hoje a grande esperança de um país que, juntando tradição com população, pode ser considerado como a maior potência desportiva que não consegue ser potência desportiva. O México conta, até hoje, com um paupérrimo historial. Nos Mundiais eliminações precoces. Na Copa América, onde participa há vinte anos, o segundo lugar, por duas vezes, foi o máximo que conseguiu. Uma Taça das Confederações (em 1999) e nove campeonatos regionais são um balanço humilde para quem pode aspirar a tanto. Afinal não é a liga mexicana uma das mais exitantes do futebol internacional? E não é, sobretudo, o seu sistema de formação, um dos mais elogiados do Mundo?

A resposta é afirmativa em ambos os casos mas o México que se tornou na última década numa potência juvenil comete os mesmos pecados que outros casos pretéritos como Portugal, Gana ou Nigéria, países com bons resultados nas camadas de formação que falham a dar o salto para a equipa principal. Um problema que pode ter fim à vista.

 

Em 2005 o México surpreendeu o mundo ao bater o Brasil na final do Mundial de sub-17 disputado no Peru.

Um torneio a que muito poucos davam real importância até então mas que nos últimos anos tem ganho admiradores incontestáveis, entre os quais homens como Arsene Wenger, Pep Guardiola ou Louis van Gaal. Nessa equipa estavam verdadeiras pérolas aztecas como Giovanni dos Santos, Carlos Vela, Effrain Juarez, Sergio Arias ou Hector Moreno. Jogadores que rapidamente deram o salto para a Europa. Talvez cedo demais. Estrelas locais nos seus clubes, na Europa não aguentaram nem a exigência táctica nem a pressão mediática que se lhes exigia. Vela e dos Santos, os simbolos desta geração, foram o exemplo do salto falhado. Arsenal e Barcelona fizeram-se com os serviços de ambos jogadores e depois de algumas oportunidades na primeira equipa ambos desapareceram do mapa. Dos Santos, a quem muitos comparavam com Messi nos seus principios, perdeu-se entre Tottenham e Galatasaray para despontar no Racing Santander no final da época passada. Vela andou por Salamanca, Osasuna e agora milita, por empréstimo sempre, na Real Sociedad. Na selecção ambos tornaram-se espelho desse falhanço habitual dos nomes mais mediáticos do futebol mexicano.

Carbajal, o guarda-redes com mais torneios da história (cinco) nunca passou da primeira fase. Hugo Sanchez, herói do futebol mexicano dos anos 80, foi uma das grandes desilusões do Mundial de 1986. Chegou como estrela absoluta, marcou um golo e desapareceu do radar durante todo o torneio. Nunca mais voltou a pisar um Mundial na sua carreira. Em 2006 o México, já com alguns nomes da sua formação, a que se aliavam veteranos como Jesus Arellano, Guille Franco, o eterno Cauthemotec Blanco e companhia, caiu vergado pelo portentoso remate de Maxi Rodriguez nos Oitavos de Final. Quatro anos depois, na África do Sul, agora com Vela, dos Santos e Barrera, filhos da geração de 2005 (que no Mundial de sub-20, dois anos depois, ficou-se pelos Quartos) voltaram a ser derrotados pela Argentina de Messi. E a ferida tornou-se mais evidente.

Se a essa geração de 2005, agora na casa dos 20 baixos, se começa a exigir algo mais, que podem pedir os mexicanos aos heróis deste passado Verão. Depois do trabalho fenómenal do seleccionador Jesus Ramirez, o México conseguiu produzir uma nova geração de talentos para não esquecer. A vitória frente ao Uruguai no último torneio - aliada ao terceiro posto no Mundial de sub-20, meses depois - deixa uma vez mais a ideia de que há poucos paises tão bons na actualidade como o México na prospecção de jovens estrelas.

Ao futebol mexicano ajudou, sobretudo, a inclusão dos seus clubes nas provas da CONMEBOL. O México tornou-se presença assidua da Copa dos Libertadores e da Copa Sudamericana e por duas vezes equipas mexicanas (Cruz Azul e Chivas Guadalajara) chegaram à final do máximo torneio de clubes do continente. Esse crescimento sustentado e o desafio de competir contra clubes de ligas mais competitivas como a argentina, brasileira, colombiana ou uruguaia desportou ainda mais o México do seu isolamento.

Não estranha portanto que do nada surjam pequenos grandes génios como Enrique Flores, Carlos Fierro, Julio Gomez e, sobretudo, Jorge Espericueta. Ele é, aos seus 17 anos, a máxima promessa de um país que conta já com Javier Hernandez, como principal simbolo desta nova vaga.  A estes heróis, campeões do Mundo depois de dois jogos épicos com Alemanha e Uruguai, há que juntar os homens que viajaram até à Colombia para conquistar o terceiro posto. Erick Torres (também campeão do Mundo), Tauffic Guarch, Ulisses Dávila e Jorge Enriquez são hoje nomes obrigatórios nas listas de futuriveis de qualquer grande clube. E permitem aos mexicanos sonhar com uma possível fusão das gerações de 2005 e 2011 numa selecção que poderia ser verdadeiramente temivel no Mundial do Brasil.

 

No meio de todo este optimismo (e um onze com Torres, Chicharito, Enriquez, Espericueta, Fiero, Dos Santos, Vela, Juarez, Salcido, Moreno ou Ochoa permitem sonhar com isso mesmo) há episódios que nos continuam a relembrar que o México é um verdadeiro quebra-cabeças. A suspensão de vários jogadores da selecção B enviada à Copa América, onde se encontrava outra eterna promessa, Jonathan dos Santos, depois de várias festas organizadas no hotel da concentração permite entender que há ainda uma profunda diferença entre o talento genuino - onde o México tem poucos rivais, talvez nem sequer na Argentina e Brasil - e o profissionalismo exigido para a competição do mais alto nivel. Mesmo assim, tendo em conta o sucesso recente e as licções aprendidas, é fácil entender que há poucos países que possam oferecer tanto ao futebol nos próximos anos como a nação azteca. Conquistar as Américas, sonhar com o Mundo, tarefas hérculeas para um povo habituado às lágrimas da derrota. Mas não impossível, não quando ainda há sitios onde o futebol é um feitiço eterno.



Miguel Lourenço Pereira às 14:09 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14.03.11

O terrivel drama que vive o Japão coloca em cheque uma prova disputada a milhares de quilómetros de distância. A Copa America arranca a 1 de Julho e os organizadores do torneio não sabem ainda se contarão com a presença dos convidados nipónicos. Um problema que levanta de novo o debate sobre a estrutura da mais antiga prova de selecções do Mundo.

 

 

 

A CONMEBOL conta com dez países membros.

Os históricos Brasil, Argentina e Uruguai e ainda Chile, Bolivia, Paraguai, Equador, Peru, Colombia e Venezuela. Não há margem de manobra para mais. Com a reestruturação da Copa America, nos anos 80, chegou o conceito de nações convidadas. Uma situação impensável em qualquer outro torneio continental mas que na América do Sul parece ter adeptos. Afinal, é dificil gerir um torneio curto com dez equipas, número que atrapalha qualquer matemática classificativa. O convite inicial teve por base critérios geográficos. A necessidade de juntar duas selecções às dez da confederação fez os organizadores recorrerem às vizinhas Caraíbas e à CONCAF. O México, grande potencia regional, era um convidado quase obrigatório e mais tarde a particiapção dos clubes mexicanos nas provas continentais de clubes da CONMEBOL selou um acordo táctico que serve perfeitamente a ambas as partes apesar de alguns momentos tortuosos e resolvidos com muita diplomacia. O México - que não deixa de ser uma potência desportiva superior à esmagadora maioria dos rivais do sul - chegou por duas vezes à final da prova, deixando a entender que o conceito de um torneio sul-americano começava, forçosamente, a perder sentido. A sua presença nas últimas dez edições fizeram dele um habitué que transformou um torneio regional em algo forçosamente maior. Aos mexicanos juntaram-se ao longo dos últimos anos outros rivais da CONCAF, dos Estados Unidos ao Canadá passando por Costa Rica e Honduras. Apesar de equipas com passado (e presente) mundialista, em nenhum dos casos lograram brilharetes exibicionais dignos de entrar nos registos. O máximo que os norte-americanos conseguiram foi um 4 posto, em 1995, na ressaca do Mundial dos Estados Unidos. Nada mais. Por isso não estranhou, a principio, que a CONMEBOL procurasse novos desafios. Soltas as amarras da divisão regional equacionou-se convidar selecções africanas e até mesmo europeias, nomeadamente Portugal e Espanha, as potências ibéricas. No final o convidado foi o Japão. E o conceito Copa América colocou-se eternamente por debaixo de um gigantesco ponto de interrogação.

 

Os nipónicos estrearam-se em 1999 no sorteio.

Na altura vinham do seu primeiro Mundial (o França 98) e preparavam-se para receber a elite do futebol três anos depois. Foi um convite de cortesia que correspondeu a uma educada recusa dos EUA. Os japoneses - que até têm uma significativa colónia de emigrantes na América do Sul, particularmente no Brasil - acabaram últimos do seu grupo com apenas um ponto, um empate frente à Bolivia, também ela eliminada da prova. Apesar de desportivamente se mostrarem longe do nivel do outro convidado - o México - e da maioria das selecções do continente, as sensações da organização foram positivas.

Depois de um hiato de uma década, por onde passaram vários conjuntos da CONCAF, o convite repetiu-se para a edição de este ano, a disputar a partir de 1 de Julho na Argentina. Os motivos são evidentes. A organização regional do norte da América tem-se esforçado por fazer da Gold Cup, o seu torneio de selecções, uma prova respeitada. E pressionou as suas federações a manterem-se fieis ao seu compromisso continental. Só o México destoará como seria de prever. Face a essa falta de candidatos, a América do Sul voltou-se para o Japão. Mas o desastre que abateu o país do Sol Nascente ameaça deixar o torneio sem um dos seus intervenientes, a apenas quatro meses de arrancar a prova. O Japão oficialmente não anunciou a sua retirada, mas com a liga suspendida e os problemas que terão os nipónicos num futuro próximo será dificil honrar o compromisso. Os rivais do norte terão a Gold Cup em datas demasiado próximas e poderão acabar por enviar uma equipa de segundas linhas, algo que ninguém quer. E convidar selecções europeias ou africanas, com a época já planeada, é um risco bastante grande. Mas será que faz realmente sentido a Copa América continuar a funcionar nos mesmos moldes?

O torneio regenerou-se em 1987 depois de uma longa estagnação e descubriu o formato quadrangular - e por isso precisou dos países convidados - e a organização de dois em dois anos. Mas o que os sul-americanos nunca pensaram realmente foi na possibilidade de unir esforços, de forma definitiva, com as nações do norte de um continente que nem está realmente separada a não ser pelas mãos do homem. As relações entre países do norte e sul da América sempre foram boas - basta ver o espaço caribenho - e haveria a possibilidade de realizar um torneio em lugar de dois. Afinal a Guiena Francesa e o Suriname, que se encontram a norte do Brasil, estão inscritas na CONCAF. Juntar duas federações continentalmente unidas e com vários projectos em comum seria um grande passo para o desenvolvimento do futebol em toda a América. Um torneio com fase de qualificação - algo que não existe hoje em dia - e com mais nações participantes (16 como o actual Europeu ou 24 como as que marcarão presença no torneio europeu a partir de 2012). Uma lufada de ar fresco numa prova que não deixa de ser repetitiva e cada vez um producto menos atractivo até para os próprios adeptos locais.

 

 

 

Na Argentina 2011 todos estarão de olho em Leo Messi. Mas não saberemos até Maio se os japoneses irão defrontar o pequeno génio de Rosário na sua primeira grande oportunidade de se redimir diante dos seus de anos de exibições contestadas por tudo e por todos. Mas mesmo que o Japão consiga mais um pequeno grande milagre, a América devia aproveitar este momento para pensar mais além e preparar-se para o futuro. E o futuro passará sempre por uma união, a todos os niveis, com os seus vizinhos do norte. É uma inevitabilidade que o tempo acabará por confirmar, tarde ou cedo...



Miguel Lourenço Pereira às 15:44 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 02.02.10

Maradona sonhava à noite que estava só no relvado de um La Bombonera vazio. E isso aterrorizava-o. Normal. Imaginar aquele que é provavelmente o maior santuário futebolistico da América Latina vazio é algo angustiante. Porque poucos estádios têm uma alma tão grande como a mitica "cancha" buenairense.

O nome do estádio mitico do futebol argentino é bem distinto daquele porque se conhece em qualquer canto do Mundo. Aquelas bancadas a cair sobre o relvado. As grades, inevitáveis para controlar uma multidão que ultrapassa muitas vezes o limite do entusiasmo. As redes brancas e sempre repleta de confetis que voam ao largo de 90 minutos. Traços distintivos de um santuário único que tem direito a cemitério próprio para os mais indefectiveis apaixonados de um edificio que é mais do que uma catedral. É o próprio Eden.

E no entanto se falamos do estádio Alberto J. Armando ninguém o consegue localizar no tempo e espaço. Mudemos o apelido e tudo muda. Coisas da vida. A imagem transporta-nos para essas noites loucas dos derbys de la Plata. Esses duelos encarniçados entre o River Plate e o Boca Juniores. Passam imagens de todos os grandes da história xeneize. E o porto de La Boca agita-se a cada movimento nas bancadas. Um tremor de terra que dá cor e luz à capital argentina.

 

O estádio conhecido por La Bombonera foi construido em 1940. Só que os terrenos já pertenciam ao Boca Juniores desde 1918. Foram precisas mais de duas décadas para erguer o terreno. O Bairro de La Boca invadiu o recinto para o seu primeiro desafio mas só em 1953 se completaram todas as obras do recinto que permitiram chegar a uma capacidade de 70 mil adeptos. Com o passar dos anos as questões de segurança obrigaram o recinto a ver reduzida a sua capacidade para 58 mil espectadores. Era a época de ouro do conjunto buenarense e os adeptos fervilhavam de emoção. Para a história ficaram as exibições miticas de Maradona, a tristeza local quando o estádio ficou de fora dos elegidos para o Mundial de 78, os protestos dos adeptos com as sucessivas vendas das grandes estrelas para a Europa e as várias Libertadores celebradas no relvado pelos herois do bairro mais pobre e miserável de Buenos Aires. Pedaços de história que sempre tiveram como denominador comum um recinto que foi sempre mais do que um estádio, um relvado com vida própria capaz de extender os seus tentáculos pelo coração da terra.

O contorno mitico do estádio deveu-se também às poucas derrotas sofridas em casa pelo Boca Juniores face aos seus maiores rivais. De tal forma que só há cinco equipas que se podem vangloriar de terem aí vencido um campeonato, para desespero dos adeptos xeneizes. Hoje o La Bombonera prepara-se para uma nova expansão porque, apesar das melhoras, o estádio ainda detém algumas lacunas graves. Só que nenhum dirigente se atreve a propor construir um novo recinto. Matar La Bombonera era matar a alma do povo argentino. E os edificios destroem-se. As almas não!

 



Miguel Lourenço Pereira às 09:01 | link do post | comentar

Sexta-feira, 04.09.09

poucos jogos que levantem tanta paixão e emoção, que provoquem tanta polémica mesmo antes da bola sequer ter rolado. Há jogos que resumem a essência mágica do desporto-rei, duelos que se eternizam no tempo e espaço onde nunca há realmente um vencedor e um vencido. Há duelos assim como da próxima madrugada de sábado. Há poucos jogos como um Argentina vs Brasil...

 

Em jogos oficiais num Mundial apenas se cruzaram a eliminar uma vez, depois das experiências na segunda fase de grupos que tiveram na batalha de Rosário em 1978 (0-) e do tal jogo de 1982 onde o escrete vulgarizou os campeões do Mundo e Maradona acabou expulso. Por esse Mundial de Itália  venceram os diabos argentinos, vitimas do mau planteamento táctico de Sebastian Lazzaroni e de umas miticas garrafas de água envenenadas que os próprios jogadores argentinos davam aos brasileiros para matar a sede naquela tarde quente de Junho. Em jogos oficiais de qualificação foram mais de oitenta jogos disputados, com um empate técnico: cada país conta com 33 triunfos. É um duelo inevitável de países vizinhos, de fronteiras que o tempo moldou contra o desejo dos homens. De duas culturas herdeiras dos dois lados da Peninsula Ibérica e que se cruzaram de forma distinta. Os argentinos muito mais sérios que os espanhois, os brasileiros a verdadeira antitese do portugues. O sangue de emigrantes europeus e africanos, o passado de tribos em vias de desaparecer, os confrontos, as ditaduras e a eterna vontade de vencer sempre fizeram deste um jogo verdadeiramente especial. Não tem para os brasileiros o mesmo sentido trágico que jogar com o Uruguai, mas é um derby muito mais apetecivel. Para os argentinos é a possibilidade de mostrar que a América do Sul é muito mais que o brilhante escrete canarinho. Duas visões, dois esquemas, dois tipos bem distintos de jogo e um só objectivo.

 

Houve derbys inesquecíveis nesta luta pelo dominio do futebol num continente apaixonado até ao tutanto pelo jogo que trouxeram de Inglaterra os marinheiros e navegantes, os empresários e os mercantes. Os duelos de Sócrates contra Maradona, as disputas entre Rivelino e Kempes, Ratin e Gerson, Batistuta e Ronaldo. Cada jogo é como se começasse do zero, não há historial, não há favoritos, não há boa ou má forma. Como qualquer derby. A Argentina está na corda bamba. O Brasil está tranquilo. A equipa das pampas tem um treinador que, até ao momento, ainda não o mostrou ser. Um onze repleto de operários e tecnicistas onde pontifica o astro Leonel Messi que pela equipa celeste ainda fez menos que Cristiano Ronaldo por Portugal. Chegou a hora. Do outro lado da fronteira o exército de Dunga está bem adestrado e a vitória na Taça das Confederações prova-o. Há muita saiva nova, muitos nomes de luxo e algumas exclusões surpreendentes. Há ordem e um notório progresso no escrete mas a qualificação quase assegurada deixa um ligeiro ponto de interrogação. Nestes jogos ninguém quer perder e em casa de derrota os argentinos vêm o quarto e último posto de qualificação directa em perigo. O Paraguai é o senhor que se segue e está em óptima forma. Diego Armando Maradona sabe bem que corre perigo e já começou com os mind games. Mas nesta coisa de derbys valem pouco.

 

Será um confronto titânico que até pode tornar-se num jogo mediocre, mais violent que espectacular, mais táctico que explosivo. As duas melhores selecções mundiais não europeias repetem um duelo que no Velho Continente - talvez pela hegemonia ser uma coisa quase temporal - nunca se verifica. Um Itália-Alemanha, França-Inglaterra ou Holanda-Portugal nunca terão o mesmo impacto desta luta de vida ou de morte, deste duelo supremo. Ganhe quem ganhe, nunca vencerá de verdade. Poderá rir-se, mas só até à desforra. Há muitos que acreditam que haverá o dia em que este encontro será a final de um Mundial. Nunca sucedeu e tantas vezes esteve para acontecer. Pode ser que num palco inédito possa repetir-se a sério o que na realidade nunca é a feijões.



Miguel Lourenço Pereira às 15:22 | link do post | comentar

Sábado, 22.08.09

perdi a conta aos inúmeros livros especializados em futebol que teimam em atribuir a invenção do pontapé de bicicleta ao genial avançado brasileiro Leónidas. O Diamante Negro que brilhou com a selecção brasileira (na sua fase pré-canarinha) no Mundial de França em 1938 foi, de facto, um jogador de uma técnica excepcional capaz de momentos únicos e começou a popularizar o complexo movimento. Mas o seu inventor já então tinha deixado os relvados caindo no esquecimento apesar de, ainda hoje, no mundo hispânico o golpe tenha ainda um nome que evoca a sua real origem: chamam-lhe a "chilena".

 

Ramón Unzaga Asla é o verdadeiro inventor de um dos movimentos mais apreciados pelos adeptos. Ao contrário do genial brasileiro, Unzaga não passou para a história muito por culpa de sempre se ter recusado a sair do clube onde actuou ao largo da sua carreira, o modesto Club Atlético no Chile, onde vivia desde os 12 anos. Unzaga nascera em Bilbao em 1894, mas aos 12 anos foi forçado a seguir a familia que emigrara do País Basco para o país sul-americano. Aí Unzaga começou a praticar regularmente o jogo que acabara de se tornar num fenómeno de popularidade e na universidade deu de tal forma nas vistas que se tornou na estrela do clube local de Talcahuano. Trocou a cidadania espanhola pela chilena e começou igualmente a disputar encontros pelo seu país de acolhida. Mas, reza a lenda, foi no estádio da pequena cidade onde vivia que imortalizou definitivamente o seu nome ao ensair pela primeira vez um pontapé acrobático no ar. Num jogo disputado em 1914 no El Morro o jogador ensaiou o golpe e deixou estupefacta a bancada. Semana após semana repetia o movimento que foi rapidamente baptizado como "la chorera" em nome da Escuela Chorera que se dava à formação local, a grande base da selecção chilena da época.

 

Em 1920 o jogador apresentou ao mundo o movimento na Copa America disputada no Chile num desafio contra a Argentina. Maravilhados, os jornalistas argentinos rebaptizaram o golpe como "la chilena", expressão que é a que, ainda hoje, se utiliza em Espanha e na América do Sul, incluindo o sul do Brasil. Unzaga recebeu vários convites de clubes argentinos e uruguaios, mas nunca saiu do seu país de adopção, passando assim desapercebido o seu invento. Sete anos depois um compatriota, David Arellano, aproveitou uma digressão do Colo Colo pela Europa para apresentar o movimento aos europeus. Mas só onze depois, naquele inesquecivel mundial onde pela primeira vez o Brasil fez parar o Mundo, se tornou mundialmente famoso o pontapé de bicicleta de Leónidas. O Brasil até terminou em terceiro e a carreira de Leónidas ficou congelada pelo irromper da II Guerra Mundial, mas desde então o nascimento do golpe tem sido atribuido à sua autoria.

Enquanto isso Unzaga caiu de tal forma no esquecimento que nem na sua terra natal nem na sua cidade de acolhida há um memorial que recorde quem primeiro decidiu desafiar a gravidade para desenhar uma verdadeira obra de arte com os pés. 



Miguel Lourenço Pereira às 09:50 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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