Terça-feira, 01.05.12

No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro. 

Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.

Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.

O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.

Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.

 

Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.

Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.

Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.

Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.

 

Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Domingo, 29.04.12

poucos paises no Mundo como a Itália. Uma mistura sublime de beleza natural, humana, de gentes afáveis e história a cada pedra que se calca. É também um dos países mais sujos, desorganizados, inseguros e irrespiráveis que conheço. O Calcio italiano não dista, como tudo no "belle paise", desde o seu capuccino ás suas voluptuosas mulheres, dessa realidade bipolar. Mas como a politica, a justiça e a económia, o futebol italiano também há muito que vive numa terra de ninguém, anárquica, corrupta e sem amor próprio. A decadência da Serie A é evidente e já não apenas nos números. O triste número montado pelos Ultras do Genoa exemplifica perfeitamente o estado de sitio moral em que senta o futebol no país da bota.

 

Os jogadores choram. De vergonha, de medo. Sabem o que lhes irá acontecer. Em Itália ninguém, nem mesmo o mais carismático idolo, se atreve a contrariar os Ultra.

É uma triste realidade que se vive em poucos países, talvez só a italianizada Argentina sinta a mesma dor, o mesmo buraco na alma, com o triste mas real fenómeno dos Barras Bravas. A violência no Calcio não é tão evidente, não é tão intensa, mas está lá, no mais brutal dos gestos, no mais ensurdecedor dos silencios. Os jogadores sabem-no, os directivos sabem-no e os adeptos neutrais também. Mas como sempre o italiano assobia para o lado, lança um piropo e continua a sua vida. Aqui não passa nada, nada que seja com ele.

Imagino os adeptos neutrais, pelo menos os adeptos que não roçam a loucura facciosa e suicida que compõe o complexo fenómeno dos Ultra. Quando os anos 80 radicalizou a figura dos grupos de apoio organizados, quando o dinheiro das mafias locais e o compadrio das directivas familiares lhes deram uma fatia do poder, o Ultra deixou de ser um sinónimo de apoio incondicional à inglesa para passar a ser mais um braço armado e corrupto, pronto a ficar com uma fatia do bolo em nome do amor ao clube. Em Roma a Lázio há anos que não consegue um acordo publicitário digno do seu valor de mercado porque preferiu entregar o monopólio da comercialização do seu merchandising à directiva dos seus temidos Ultras. Todos sabem isso, poucos querem falar disso e ninguém se queixa. Porque, caso contrário, há muito que os péssimos resultados desportivos da era pós-Cragnotti teriam provocado lutas, invasões de campo e ataques directivos aos directivos e jogadores. O dinheiro paga o silêncio. Em Roma, em Milão, em Turim, em Napoles, em Palermo, de norte a sul o futebol italiano há muito que se tornou alvo de escárnio. A péssima qualidade de jogo, as fracas performances das equipas, a falta de estrelas e os problemas relacionados com o doping e as apostas são apenas a ponta de um iceberg muito mais profundo e assustador. Há largos anos que o Calcio sobrevive na anarquia. Como a que levou à suspensão do Genoa-Siena.

 

Os homens da Toscânia venciam por 0-4, um triunfo categórico, indiscutivel e perfeitamente evitável tal era a superioridade teórica inicial do onze genovês. Mas o futebol é assim, cheio de rasteiras e tardes de bruxas e num duelo de rivais directos tudo pode suceder. Tudo ocorreu depressa demais para a habitual lentidão italiana. Ao minuto 54 Alberto Malesani lançou o georgiano Kaladze para o relvado. Um defesa por um avançado, com um 0-4 no marcador e a linha de água no pescoço. O grupo de Ultras sentiu que tinha a legitimidade moral para fazer-se ouvir mais do que manifestar-se nas bancadas. À boa maneira italiana, pressentiu correctamente que, fizessem o que fizessem, sairiam impunes. Lembrando-me de um Roma-Lazio de há largos anos, onde o rumor falso da morte de um adepto levou o próprio Totti a servir de correio com o árbitro face às exigências dos Ultras da AS Roma, é fácil perceber porquê.

Os lideres do movimento, os que mais lucram com os negócios paralelos feitos ás escondidas com a directiva, entraram no relvado e num gesto de humilhação moral exigiram a camisola dos jogadores. Estes sabiam a que se arriscavam se negassem. Provavelmente ataques ás suas casas, ás suas familias, aos seus carros, uma transferência apressada e pela porta pequena em Junho e o medo no corpo para sempre. É assim que funciona o Calcio e foi esse fantasma bem real que levou a que o capitão genovês, Marco Rossi, a recolher as camisolas e entregá-las como despojos. Claro que as barreiras das bancadas foram abertas com a autorização da directiva e que a pantomina montada entre lágrimas e suspiros pareceu mais assustadora para fora do que realmente foi dentro do relvado. Os jogadores do Siena sairam imaculados do relvado, tal como a equipa arbitral e o jogo prosseguiu, 40 minutos depois, com os Ultras, esses apoiantes incondicionais, de costas para o relvado. O resultado, 1-4, condenou o Genoa a cair mais dois postos na tabela, a ser ultrapassado pelo próprio Siena e a dormir no 17º lugar, apenas dois pontos à frente do Lecce com cinco jogos para o final. Foi o pretexto ideal para Alberto Malesani ser despedido, de novo, nesse habitual circo italiano de treinadores que orientam a equipa mais do que uma vez ao ano. Na Serie A os casos como o de Malesani são o pão nosso de cada dia do norte ao sul e ninguém acredita que o homem que os Ultras juraram expulsar do clube não volte algum dia a sentir-se no Luigi Ferrari. Noutro tempo, noutra época, na mesma crua e triste realidade.

O fenómeno Ultra em Itália é mais perigoso que alguma vez foi o hooliganismo em Inglaterra. Os mais selvagens e animalesco adeptos ingleses formavam-se fora do circulo do clube, existiam á sua margem e acabaram por ser facilmente domados porque nunca exerceram posições de poder real. Em Itália a situação é bem mais complexa. Não há tanta violência exterior mas por dentro os grupos Ultras minam os seus clubes, a liga e o futebol italiano em geral. Estão por detrás do fenómeno das apostas ilegais, alguns são os principais fornecedores de drogas aos jogadores e fazem cair técnicos e estrelas com um estalar de dedos. São eles quem melhor sabe manejar estes dias crueis de anarquia e também são eles em grande parte os responsáveis pelo atraso desportivo e moral em que vive aquela que foi, não há tanto tempo assim, a melhor liga do Mundo. A impunidade dos adeptos do Genoa não é nova nem sequer um exclusivo do clube. Funciona melhor como um espelho da arrogância e da impotência, da impunidade e da injustiça, da falta de escrupulos e do interesse financeiro, nomes dignos dos muitos coveiros que atiram a terra para cima do caixão podre da Serie A.



Miguel Lourenço Pereira às 00:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 01.04.12

Num desses gestos de genuina indignação que tantas vezes dão verdadeiro sentido ao universo das claques organizadas, um grupo de adeptos do Schalke 04 mostrou o seu estupor com a politica de preços da directiva do Athletic Bilbao para o jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Europe League. Um cartaz gigante comparou o preço de um jogo de futebol com o de uma chamada de sexo telefónico e não esteve nada longe da verdade. Hoje em dia o preço de um bilhete de um jogo de futebol é uma verdadeira prostituição imoral dos ideais de um jogo que já foi de todos e que agora é de muito poucos.

90 euros. 1 euro por minuto. 

Este é o preço para os adeptos alemães que queiram ir a San Mamés na próxima quinta-feira ver a sua equipa sonhar com uma reviravolta no marcador frente ao magico Bilbao. 1 euro por minuto assemelha-se muito ás chamadas eróticas que enchem os canais televisivos pela noite e as páginas interiores dos jornais. Assemelha-se também a todas as promoções de sms´s que invadem os nossos telemóveis ou o roubo á mão armada em Portugal que são as SCUTS. É o preço de um bilhete de metro em Madrid e de uma garrafa de água em Londres. E no entanto é também o habitual na maioria dos estádio europeus. O futebol que já foi de todos, que se afirmou como fenómeno social e politico por ser de todos, é hoje de uma imensa minoria, aquela que tem dinheiro suficiente para desafiar as razões que a própria razão desconhece.

A indignação veio de um grupo de adeptos alemães talvez porque a Bundesliga é a única, a única, liga europeia que ainda respeita os adeptos. Os preços de um bilhete médio para assistir a um jogo no campeonato alemão anda entre os 10 e os 20 euros e pode custar a sócios menos de essa quantia em variadas ocasiões. É uma liga onde o lugar anual não pode ocupar mais do que 55% dos estádios para garantir que há sempre espaço para os adeptos em geral do clube e para os clubes rivais que costumam deslocar grupos de fãs de mais de 2 mil pessoas todos os fins-de-semana. O lugar anual mais caro num estádio como o Allianz Arena ou o Westfallenstadion pode ser mais barato que o mais barato dos lugares anuais no Camp Nou, Old Trafford, San Siro ou Santiago Bernabeu. Talvez por isso a percentagem mais elevada de lotações esgotadas esteja na Bundesliga. Talvez por isso o futebol alemão viva um novo esplendor, dentro e fora do campo. Talvez por isso, como em tantas outras coisas, os alemães sigam por um caminho racional enquanto o resto da Europa se empenha a utilizar o público em geral para pagar as loucuras de uns poucos. Os adeptos do Schalke 04 conhecem bem os estádios europeus, são presença assídua nas provas da UEFA, mas segundo o porta-voz dos adeptos do clube nunca tiveram de pagar tanto por tão pouco, nem mesmo quando viajaram a Old Trafford nas meias-finais da Champions League da época passada onde o preço mais caro de um bilhete era de 60 euros.

 

Espanha, como em muitas outras coisas, vive no extremo do descontrolo financeiro.

Os clubes da "Liga de las Estrellas" devem mais de 1500 milhões de euros ao estado e a maioria deles está (ou se não está pouco falta) perto da falência técnica. Os novos estádios do Valencia e Atlético de Madrid estão há anos parados. O Deportivo, histórico galego, afundou-se na segunda depois de destroçar todo o rendimento acumulado desde o inicio dos anos 90. O mesmo sucede com Villareal, Mallorca, Bétis ou Real Sociedad. O dinheiro estrangeiro salvou o Málaga da asfixia e uma profunda reestruturação financeira permitiu a sobrevivência ao Espanyol. O Rayo e o Levante, sensações no campo, foram protagonistas nos últimos anos de tristes episódios onde ninguém, excepto o presidente, recebia o seu vencimento a final do mês.

Num pais com quase 6 milhões de desempregados, onde a crise financeira mundial se encontrou com uma borbulha imobiliária suicida e onde há cada vez mais familia completas no desemprego, praticam-se os preços mais altos da Europa. Quando o Real Madrid ou Barcelona viajam pelo país fora os preços sobem aos 80 euros para o público em geral. Em Vallecas, um estádio minúsculo e com poucas condições, não há bilhetes mais baratos para o público que os 40 euros anuais. Este fim-de-semana quem quiser ver o Atlético de Madrid - Getafe, sem dúvida um clássico do futebol espanhol, terá de pagar entre 30 e 120 euros, dependendo de onde se quiser sentar no Calderon. No Bernabeu o preçário é ainda mais elevado, rondando os 45 e 150 euros de média. Por menos de 25 euros é impossível ver um jogo de futebol em Espanha e os estádios começam a esvaziar-se paulatinamente. As boas épocas desportivas de alguns clubes compensam o afastamento do público mas as transmissões televisivas não enganam e hoje ver um jogo da La Liga é cada vez mais parecido a seguir um jogo da Serie A ou da Liga Sagres. Duas ligas onde a politica de preços é igualmente desproporcional face ao estado económico de ambos os países e da qualidade de jogo oferecida e onde, habitualmente, mais de metade do estádio está vazio.

Mesmo na Premier League os elevadíssimos preços praticados começam a fazer-se sentir em clubes da parte baixa da tabela. Os mesmos que nasceram, cresceram e fizeram-se com base no forte apoio popular local, em classes operárias e classes médias baixas que hoje, simplesmente, não podem pagar um bilhete para ir ao futebol. Nos anos 80 por 1 libra era possível ver-se um jogo de pé (uma politica que a Bundesliga já recuperou) e por 5 libras sentado nas secções centrais de Anfield, Old Trafford ou Highbury. Hoje por menos de 40 libras é impossível. Os estádios, habitualmente recheados de famílias, jovens que aprendiam a adorar os seus ídolos de perto, são hoje palco de classes médias altas de meia idade endinheiradas ou, no caso dos grandes clubes, turistas que querem presenciar a história de perto e estão dispostos a pagar o que for preciso para dizer que estiveram no "Teatro dos Sonhos" ou na Kop. Para esses adeptos de ocasião ou para aqueles que pagam hoje o mesmo por um jogo retransmitido pela televisão que os seus antepassados pagavam por um espectáculo no Royal Albert Hall, o futebol continua a ser possível. Para todos os outros é algo proibitivo.

 

Da mesma forma que a televisão (ainda que de pago) trouxe o futebol a todas as casas e a todos os continentes, ir ao estádio, esse ritual primário e fundamental para qualquer amante do beautiful game, tornou-se num pesadelo. Adeptos entusiastas abdicam de muito para poder seguir a sua equipa, pais vêm-se impossibilitados de partilhar com os filhos o que os seus pais partilharam com eles e a massa de adeptos começa a desprender-se do vocabulário sagrado que constituiu uma verdadeira massa adepta de um clube. Aos que pensam que esse cenário exclusivo, como se de um torneio de golf se tratasse, é inevitável basta olhar para o caso da Alemanha (ou da Holanda, ali ao lado) e ver quem preenche as bancadas cheias, semana atrás semanas. Mulheres, crianças, famílias, idosos, todos encontram forma de comungar da sua imensa paixão. Fora esse paraíso para o adepto o futebol vivido, cheirado e sentido há muito que deixou de ser para mim e para ti.



Miguel Lourenço Pereira às 10:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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