Domingo, 06.06.10

Estavam condenados a um final triste depois de uma década de grandeza. Rejeitaram a cruz e caminharam de cabeça erguida. Eliminaram todos os favoritos pelo caminho apenas para cair, de pé, frente a uma azzurra com mais sorte do que nunca. Um Mundial surpreendente onde veterania e juventude disputaram um duelo único com um vencedor surpreendente e um vencido ainda mais inesperado.

 

As casas de apostas não enganavam ninguém. Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha e Portugal arrancavam como favoritos do regresso do futebol à Alemanha. Não havia sinais de Itália ou França entre o lote de principais candidatos. Uns por serem demasiado imprevisíveis. Outros por estarem reformados. Ou isso diziam. Durante as semanas anteriores à prova o seleccionador Domenech foi acusado de continuar a apostar numa geração já acabada. Zidane tinha anunciado o final da carreira. Vieira, Barthez, Desailly e companhia rapidamente iam segui-lo. Parecia uma triste repetição do Mundial anterior. Mais ainda depois dos secos partidos da fase de grupos. Um apuramento in extremis frente ao estreante Togo e com direito a muito sufrimento. E nenhuma emoção.

A casta de campeão é um fenómeno curioso de que poucos países conseguem presumir. Portugal, por exemplo, voltou a demonstrar que não o tinha, depois de uma cavalgada rumo às meias-finais, eliminando os violentos holandeses num jogo inesquecível e aguentando a Inglaterra até aos penaltys. Um golo marcado nos três jogos a eliminar é pouco. Muito pouco. Tal como holandeses - como sempre deslumbrante no principio e decepcionantes no final - ou ingleses, com o carrasco do costume. Mas há paises que conseguem sempre ir até ao fim. Independentemente do que os espera. Assim se exibiu a Itália. Depois de suar muito na fase de grupo aguentou a Austrália até um golo oportuno nos instantes finais. E superou uma débil Ucrânia na fase seguinte. Para se encontrar com a Alemanha. A mesma de que muitos desconfiavam e que acabou por exibir o melhor futebol do torneio. Dominou (e goleou) na fase de grupo, vergou a Suécia e não teve perdão da Argentina. Nesse duelos de imortais, Del Piero emergiu como herói. E acabou com a única equipa alemã realmente atractiva desde 1974.

 

Do outro lado todos esperavam um duelo entre Brasil e Espanha, dois favoritos máximos para os apostadores.

Só que ambos se cruzaram pelo caminho com a elite dos reformados. E sairam penosamente vergados por uma insultante superioridade gaulesa. No dia do jogo contra a Espanha, o jornal Marca publicou a inesquecível foto do colectivo espanhol com o sugestivo titulo "Estes são os homens que vão reformar Zidane". Esqueceram-se que o futebol é coisa de 90 minutos, 120 se for preciso vá lá, e que Zidane, Ribery e Henry estavam mais do que habituados a fanfarronices. Os gauleses destroçaram a ambiciosa equipa espanhola e apuraram-se com um concludente 3-1. Seguiu-se o Brasil dos Ronaldos, e com ele o melhor jogo do torneio. A França repetiu o feito de oito anos antes, neutralizou o jogo brasileiro, e venceu por 1-0. De uma acentada estavam de fora dois favoritos. Faltava o terceiro. De penalty Zidane tratou de bater uma selecção portuguesa que nunca soube ser eficaz. Nem Figo, nem Pauleta, nem Cristiano Ronaldo conseguiram desfeitiar Barthez. O massacre alargou-se pelo tempo mas, na hora H, a equipa dos reformados, a equipa dos acabados, era a equipa finalista. E subitamente, eram favoritos.

Um presente envenenado entregue pela Azzurra de Lippi. O golo inaugural de Zidane na final parecia ser o final perfeito para um conto de fadas. Mas existe Materazzi. O destruidor italiano por excelência, prototipo do anti-jogador, marcou o golo do empate e depois provocou habilmente o temperamento facilmente irritável do francês careca que destroçou o final perfeito de uma carreira de altos e baixos. Doze anos depois a final foi decidida no duelo dentro da grande área. Onde a Squadra Azzurra nunca teve muita sorte. Até essa noite fresca de Berlim.

 

Há quatro anos atrás o Mundo vibrou com um torneio repleto de cartões e escassez de golos. Um torneio onde os melhores de hoje já por lá passeavam, com maior ou menor destaque. Cristiano Ronaldo, Messi, Kaká, Xavi, Ribery, Robben, Rooney, Sneijder, Torres, Villa, Tevez, Pirlo, Drogba, Park Ji Sung, Cahill, Donovan, Castillo e companhia. Os mesmos por quem o Mundo suspira agora. Agora já não vale a pena olhar para trás...o tempo escasseia. A bola vai começar a rolar! 



Miguel Lourenço Pereira às 03:55 | link do post | comentar

Domingo, 30.05.10

Depois de França ter aberto o Mundial a 32 equipas, a FIFA decidiu começar a emendar o atraso de décadas e levou, pela primeira vez, o torneio ao continente asiático. A dupla Coreia do Sul-Japão emergiu como organizadora e montou um torneio onde houve pouco futebol, menos público mas muita emoção. No final o Pentacampeonato ficou no pano de fundo de uma prova marcada pela arbitragem e pelas misteriosas aspirinas dos velozes coreanos.

 

Na fase de grupos caiu a melhor selecção do Mundo. Aparentemente. Cairam também argentinos e portugueses. A Holanda nem viajou. De um só golpe a ordem establecida de favoritos começou a inclinar-se para o campo das improbabilidades. E assim foi até à inédita final de um Brasil surreal e uma Alemanha demasiado cinzenta para ser verdadeira. Dessa final de Ronaldo, e de poucos mais, ninguém se lembra. Da campanha de ambas formações também não há vivalma que se recorde. Da forma como o Brasil superou a Bélgica, passou por cima da frágil Inglaterra e acabou por derrotar - pela segunda vez - a surpreendente Turquia. Dos alemães a história lembrará apenas os golos de Klose ao passar por cima de Paraguai, Estados Unidos e Coreia do Sul. Paramos aqui. Na selecção coreana. A sensação da prova. Por mil e uma razões.

Quando o torneio arrancou poucos apostavam nas equipas da casa. Eram selecções historicamente frágeis e sem historial de sucesso. No entanto as fichas estavam todas no Japão de Nakata. Ninguém pensou na Coreia de Hiddink. O mago holandês. A pouco e pouco, no entanto, a balança foi mudando. Os coreanos mostraram-se aguerridos. Estranhamento velozes. Irredutivelmente resistentes. E sempre com um piscar de olho ao homem de negro de turno. Assim, a passo e passo, fizeram história. Que provavelmente nunca igualarão.

Primeiro empataram com a Polónia. Resultado normal. Logo a seguir foram vencer os Estados Unidos, que por sua vez tinham espantado o Mundo ao bater um débil, eternamente débil, combinado português. No jogo final o empate servia às duas equipas. João Vieira Pinto deu uma ajuda, Park Ji Sung fez história. Portugal para casa, Coreia do Sul em frente. No duelo dos Oitavos começou a outra parte da história.

 

Na primeira fase poucas equipas tinham realmente entusiasmado. O Brasil mostrou-se eficaz e a Espanha voltou a dar o seu melhor rosto. A Itália, sempre presente, surgia como uma possível outsider graças aos golos de Del Piero e Vieri. Relembrando o feito dos vizinhos do norte, em 1966, os coreanos lograram bater o onze italiano por 2-1. Com a diferença de que, por várias vezes, a equipa de arbitragem foi negando o empate à azzurra depois da Itália ter começado o jogo praticamente a vencer. Começava um debate cruel que, a seguir, levou a Espanha a voltar a cair antes de tempo. O jogo foi um longo e agonizante duelo com vários foras-de-jogo e penaltys por assinalar a favor dos espanhois. Estoicos, os coreanos aguentaram até aos penaltys. Aí a malapata voltou a levar consigo o exército castelhano para casa. E pela primeira vez uma equipa asiática cometia o feito de chegar até às meias-finais. Tudo podia acontecer. Em Seul sonhou-se demasiado. Do outro lado, apesar de cinzenta, estava a Alemanha. Uma equipa que não entende de arbitros ou favoritismos nem de misteriosas aspirnas. O cinismo alemão funcionou, o sonho coreano terminou.

 

O Brasil agradeceu as ajudas externas. Sem grandes rivais pelo caminho suou apenas o necessário e indispensável. Rivaldo esteve a serviços minimos, Ronaldinho ainda não era ele e Ronaldo ia facturando rumo à história. Chegado o dia final já ninguém se lembrava do Senegal, da Turquia ou até mesmo do onze coreano. Mas poucos queriam lembrar-se desde escrete que acabou por conquistar o histórico Penta. O futebol recebeu um fraco favor da FIFA nesta viagem ao Oriente e jurou não voltar a viver tamanha aventura. Agora prepara-se para mergulhar em África.



Miguel Lourenço Pereira às 11:34 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 23.05.10

A vitória da França no seu Mundial não foi apenas o primeiro triunfo gaulês na história do torneio. Foi a consumação final da evolução desportiva do jogo para um evento global. Um triunfo de uma selecção com elementos dos quatro cantos do Mundo num torneio onde brilharam selecções de todos os continentes. No final o herói foi um filho de argelinos transformado em principe da Europa. E rei do Mundo. O Hexágono adormeceu em paz consigo mesmo à medida que nos Champs Elysées a foto de Zidane iluminava o Mundo.

 

O Brasil tentou voltar a ser uma equipa especial mas algo batia mal no ritmo cardíaco de um conjunto que misturava a classe dos virtuosos como um espirito obreiro inusual. A velocidade substituiu o toque de bole e as vitórias foram mais dificeis. Mas iam chegando. A conta-gotas. A Holanda, fascinante em cada movimentação, voltou a cair no momento mais temido. Às portas da glória. Itália, Argentina e Alemanha, em versões bem mais soft de outras edições, não superaram os Quartos, enquanto que a ambiciosa Nigéria, a veloz Dinamarca e a ousada Croácia iam pondo emoção a um torneio global. Os naturalizados começaram a emergir com naturalidade. Os representantes dos quatro cantos do Mundo mostraram que o futebol se estava a tornar mais competitivo onde menos se esperava. A Nigéria mostrou um ar da sua graça. O México voltou a provar ser uma formação temível enquanto que a França acabou por resumir em cada traço do seu jogo o espirito do Mundo. A vitória dos Bleus foi sentida como uma vitória de todos. Não pelo longo historial de malapatas passadas que ainda persegue equipas como Holanda, Espanha ou Portugal. Mas pela forma como Aimee Jacquet, odiado por tudo e todos, abdicou do galicismo tradicional e abriu as portas da sua selecção a jogadores vindos de todos os lados. Até mesmo do Hexágono. À medida que confeccionou um onze multi-racial, Jacquet mandou uma mensagem ao mundo. A cor, raça e origem não contam quando a bola começa a rolar.

 

Barthez, Guivarch, Deschamps, Petit, Dugarry, Lebouef e Blanc eram os únicos gauleses puros. Tudo o resto misturava o perfume das pampas argentinas (David Trezeguet) com as areias do deserto do Magrebe (Zidane). Havia espaço para os ecos das montanhas arménias (Djorkaeff), das ilhas das Caraíbas (Thuram, Henry) ou de recantos escondidos de África (Vieira, Desailly, Makelelé) ou do País Basco (Lizarazu). A mistura de tantas etnias e filosofias foram a chave para definir o modelo de jogo francês. Uma defesa sólida, um meio-campo que misturava a força africana, a cerebralidade europeia e a magia magrebina e um ataque veloz com as aves das Caraíbas. Com esta formação os gauleses foram ultrapassando os obstáculos. A expulsão de Zidane manchou a primeira ronda, mas a equipa superou sem sobressaltos os principais rivais. Depois sofreu, e mostrou saber sofrer, até a cabeça de Blanc inaugural o infame historial de golos de ouro. Os penaltys, outro sofrimento largo demais para o majestuoso Stade de France, valeram o apuramento face à Itália. E nas meias-finais, o eterno carrasco não apareceu. Em seu lugar a Croácia do genial Suker, o homem que podia ter definido o torneio com a sua eficácia. Não fosse, claro está, o perfume veloz de Guadaloupe a surgir pelos pés do improvável Thuram, convertido em herói por uma noite. Longa noite parisina.

 

No dia da grande final a polémica tomou controlo de tudo e todos. O Brasil de Ronaldo esteve para não o ser. As voltas e reviravoltas valeram de pouco ao escrete. O "Fenomeno", ainda o era, estava lá. Mas ausente. Passou ao lado do jogo. Mas não esteve só. Nem Bebeto, Rivaldo ou Djalminha souberam sambar o onze gaulês. E Zizou, sempre ele, desaparecido durante boa parte do torneio, emergiu de cabeça, essa cabeça calva de berbere do deserto, e levantou o Mundo. Dois golpes e um soco dado por Petit bem no estomago de Taffarel. O Mundo descansava sobre os gritos de eternidade de um país que nunca percebeu realmente o que era e quem lá cabia. Naquela noite, em França viveu o Mundo. Viveu o futebol global. Viveu o presente e o futuro. E os gritos não tiveram dialecto. Só emoção.  



Miguel Lourenço Pereira às 20:56 | link do post | comentar

Domingo, 16.05.10

No Mundial mais atipico de que há memória venceu o Brasil menos brasileiro da história. Pelo meio o espectáculo ficou a cargo das selecções convidadas, equipas por quem ninguém apostava que seguissem em frente na fase de grupos e que acabaram por ser os responsáveis pelos melhores momentos de um torneio feito à medida para o Tio Sam mas de que não se guardam saudades.

 

Jogos à tarde com um calor abrasivo para que a Europa seguisse o torneio feito pela FIFA para o mercado americano.

A entrega do Mundial aos Estados Unidos seguiu-se aos pedidos dos norte-americanos depois do sucesso do torneio mexicano. Os gigantes estádios de futebol americano foram adaptados para receber o soccer. Os hinos e as bandeiras encheram as ruas. O futebol ficou preso na alfândega e poucos imigrantes clandestinos conseguiram passar. Não veio do Brasil mais tristonho. Da Itália mais resultadista. Nem da sempre irreverente Holanda. Muito menos da Argentina do ET caído em desgraça. Ou da Alemanha destroçada. O futebol chegou dos pés das pequenas equipas europeias que foram rasgando a monotonia de jogos calculados ao mais minimo detalhe. Mas sem pingo de emoção. No final só o futebol de Bulgária, Roménia e Suécia soube encandilar os milhões de espectadores sedentos de uma prova à altura do torneio depois do magro sabor de boca do torneio anterior. E se no final a hipocrisia do jogo belo que o foi menos levou as duas selecções mais cansativas à primeira final decidida por penaltys, ninguém se esquecerá dos gritos de Hagi, Stoichkov e Ravelli, underdogs à americana.

 

A prova teve milhões dentro e fora dos estádios. Mas poucos jogos para lembrar.

Na fase inaugural houve poucas surpresas, salvo a eliminação precoce e trágica da ambiciosa Colombia. Os favoritos seguiram, a conta gotas, num torneio onde não havia França, Inglaterra, Portugal ou Dinamarca. Até que chegou o momento dos convidados. Num jogo inesquecível George Hagi, conhecido como o "Maradona dos Carpatos", mostrou que o titulo lhe acentava que nem uma luva. O verdadeiro 10 via o jogo da bancada, depois de mais uma suspensão, a última. A Roménia vulgarizou a favorita Argentina e o golo memorável do artista romeno foi um dos momentos mais altos do torneio. Os romenos seguiam em frente para defrontar o frio onze sueco, repleto de futebol alegre e despreocupado. Os golos de Thomas Brolin, o herói loiro que depois desapareceu tão rápido como irrompeu, tinham levado a Suécia a empatar com o Brasil e logo a bater a surpreendente Arábia Saudita. No confronto europeu que se seguiu os romenos começaram melhor mas os golos só chegaram no final. Brolin, inevitavelmente, abriu a contagem. Três minutos depois o empate do igualmente loiro e letal Raducioiu. O mesmo deu a volta ao marcador já bem entrado no prolongamento até que a cabeça de Kenneth Anderson levou o jogo para penaltys. Aí erigiu-se a figura mitica de Thomas Ravelli. O guardião fez defesas impossíveis e prolongou o sonho. Que terminaria aos pés do Brasil, cinco dias depois, do baixinho mortal chamado Romário.

 

No entanto o Mundial de 1994 será sempre da Bulgária de Stoichkov e companhia.

O dianteiro do Barcelona foi o melhor marcador do torneio (empatado com Salenko que marcou todos os seus cinco golos num jogo) e uma das mais espantosas figuras da prova. Os bulgaros sobreviveram a um grupo onde estavam também nigerianos, argentinos e gregos. Depois de baterem o México do florescente Jorge Campos a equipa de Kostadinov, Letchkov e Penev defrontou a titubeante Alemanha. Não houve história e apesar do golo inaugural germânico a superiordade bulgaro foi constante. Os golos de Stoichkov e Letchkov fizeram história. Pela primeira vez a Bulgária chegava às meias-finais de um Mundial. Subitamente a equipa de leste via-se a lutar pelo titulo. Mas faltava um último obstáculo. O sempre irritante degrau chamado Itália. Num encontro tenso, repleto de pequenas faltas a meio campo, outro génio decidiu o jogo. Os dois golos de Roberto Baggio em cinco minutos paralizaram o ataque bulgaro que tentou, sem sorte, remar contra a maré. No final a equipa ficou tão desanimada que acabou injustamente goleada pela Suécia no jogo do terceiro e quarto lugar.

Quando Baggio falhou o penalty, os bulgaros suspiraram pela ocasião perdida. E Stoickhov teve de ver o seu rival Romário levantar o trofeu. O quarto e mais penoso da história canarinha. Um trofeu ganho à americana.



Miguel Lourenço Pereira às 10:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 09.05.10

Muitas bancadas vazias, um calor inesquecível. No meio dos gritos de alegria dos estreantes irlandeses e da euforia dos locais, o futebol desenrolou-se a conta-gotas. No final ganhou a melhor equipa mas a grande sensação tinha caído dez dias antes do violento encontro final. Em Itália os Camarões demonstraram, pela primeira vez, a força da raça africana.

A imagem de Roger Milla a dançar sobre a bandeirola de canto ficou para a história.

No entanto, o mitico avançado não era titular. Não havia pernas para tanto. Tinha estado na mitica formação do Espanha 82 e voltaria a despedir-se no Mundial dos EUA 94. Mas aquele foi o seu Campeonato do Mundo. O primeiro em que África hipnotizou. Apesar da boa campanha de Argélia e Marrocos nas duas provas anteriores, a magia da África Negra ganhou uma legião de fãs que ainda se mantém e que justificou, e muito, que tarde ou cedo o continente tivesse o seu próprio Mundial. Estamos a menos de um mês desse feito histórico. Nessa aventura italiana os Camarões deslumbraram do principio ao fim. No jogo de abertura defrontavam os campeões em titulo liderados por um "Deus" em pessoa. O jogo foi duro e acabou com os africanos com menos um jogador. A Argentina, muito inferior à equipa de 86, viu-se superada várias vezes. Até que, perto do fim, Oman-Byik subiu às nuvens e baixou com um golpe de cabeça indefensável. Pumpido, que dias depois partiria o braço num choque involuntário com um colega, largou a bola para dentro das redes. Estava consumada a surpresa. Os Camarões seguiam em frente como primeiros do grupo e na fase seguinte cruzavam-se com outra equipa sensação, o exército de Rene Higuita. O guardião da Colombia esteve irrequieto do principio ao fim e perdeu o controlo depois do golo inaugural, já no tempo extra, dos Camarões. A meio campo tentou fintar Milla, que, uma vez mais, tinha saído do banco de suplentes. O avançado foi mais esperto, driblou dois defesas e não perdoou. A Inglaterra era o obstáculo para lograr um feito ainda mais histórico para África. Era a melhor selecção Pross dos últimos anos. Talvez a melhor até hoje desde 1970. E jogava como tal. E no entanto os Camarões souberam dar a volta a um golo inaugural de David Platt. E deixaram os ingleses do bad-boy Gascoine em desespero. Até que este inventou um lance de génio e Liniker converteu o inevitável penalty. No prolongamento outro golpe seco do avançado acabou com o sonho. Milla aplaudia, camisola branca no corpo. Esta tinha sido a sua festa.

 

A prova italiana deveria ter consagrado o futebol que melhor identificava então o desporto-rei na Europa. Mas não o logrou.

Holanda dos milaneses Van Basten, Rijkaard e Gullit foi um fantasma, empatando os jogos da fase de grupos e saindo pela porta pequena frente à Alemanha depois da cuspidela do central do AC Milan a Rudi Voeller. Espelho da falta de mentalidade dos campeões de Europa que voltavam a falhar na hora H. O Brasil de Careca com o 3-5-2 de Lazzaroni nunca entusiasmou e acabou por cair no engano argentino de beber uma água pouco misteriosa. Um golo, do loiro Cannigia, confirmou a falta de competitividade do pior escrete de que há memória. E quanto à Itália, a jogar em casa, foi saltando etapas graças aos atrevidos golos do desconhecido siciliano Toto Schilacchi. Um jogador que não existiu antes nem depois daquele Junho. A prova nunca se esquecerá dos simpáticos irlandeses, capazes de vergar os rivais britânicos e a poderosa Orange antes de bater a seca Roménia de Hagi nos penaltys. Onde cairiam face aos anfitriões. Ou da dinâmica Chescolosváquia, que voltava a uns Quartos de Final, 28 anos depois de 1962, liderados por Thomas Skurhavy. Uma prova de equipas pequenas onde o futebol acabou quase sempre por cair em segundo plano face a um jogo calculado, faltoso e pouco ambicioso da maioria dos candidatos ao titulo.

No jogo final consumou-se tudo aquilo que foi o Itália 90. A Argentina de Maradona confiou demasiado no seu génio, mas este não apareceu. Depois, como fez ao longo de toda a prova, recorreu à violência. Pela primeira vez um jogador foi expulso numa final. A Argentina teve dois defesas a caminhar, desesperados, mais cedo para os balneários. Do outro lado Beckhambauer sorria. Ninguém acreditava nele. Mas a sua armada com Moeller, Hassler e Mathaeus no eixo central tinha coração, talento e espirito de grupo. No ano em que a Alemanha voltou a falar a uma voz o Mundo uniu-se para aplaudir a sua taça. Mereceram-na por isso e por muito mais. 



Miguel Lourenço Pereira às 03:48 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 02.05.10

O Mundo percebeu que havia um alienigena à solta no quente Verão mexicano de 1986. Sozinho Maradona ganhou um Mundial. Um dos mais espectaculares de que há memória. Entre os muitos heróis ofuscados pelo endiabrado argentino, destacou-se um abutre solitário que numa tarde inesquecível em Queretaro destroçou a melhor selecção europeia. Chamavam-lhe El Buitre e os dinamarqueses perceberam porquê.

Quem se lembra daquele mês de Junho tórrido de 1986 talvez não saiba que o Mundial esteve para ser disputado na Colombia.

Problemas financeiros levaram a prova pela segunda vez ao México. Havia dúvidas. Viveram-se certezas. Foi o mais espectacular torneio em largos anos. Repleto de heróis improváveis e momentos históricos. Portugal voltou à ribalta e começou em grande. Saiu pela porta pequena, espelho da mentalidade infantil e egoista bem lusa de Saltillo. A campeã em titulo, a Itália, não aguentou o peso do troféu. O mágico Brasil de 82 estava cansado. Passou pela prova sem pena nem glória, tal como a França, que mostrou ser incapaz de derrotar a sua besta negra. As grandes referências do Mundial acabaram por cair mais cedo do que o desenrolar do torneio parecia antever. Se Maradona estava num Mundial à parte, as três grandes selecções foram tropeçando pelo caminho. E facilitaram o resultado final. A explosiva URSS de Igor Belanov, um dos jogadores mais completos do futebol europeu, dominou um grupo onde estava a França de Platini. Depois, numa luta desigual contra a séria Bélgica de Ceulemans e Scifo, a surpresa. O mágico dianteiro do Dynamo Kiev apontou um hat-trick. De nada lhe valeu. Os belgas apontaram 4 golos ao imbatível Dassaev. Chegariam longe. Bem longe. Noutro jogo, em Queretaro, definiu-se o maravilho Mundial azteca. Duas das melhores formações europeias, que tinham precisamente sido rivais dois anos antes em França, mediram forças. Com um resultado inesquecível.

 

A Danish Dynamite foi a sensação da primeira fase.

Mantendo o ritmo endiabrado do Euro 84, os comandados de Sepp Piotnek arrasaram como poucos nas jornadas inaugurais. Bateram o Uruguai por seis golos, derrotaram a Escócia e vergaram a temida Alemanha. O mago Elkjaer Larsen e o jovem Michael Laudrup combinavam à perfeição no ataque, mas era o meio campo com Lerby, Olsen e Arnesen quem fazia o trabalho duro. Considerados como favoritos para a segunda fase, os dinamarqueses teriam de medir forças com La Furia. A selecção espanhola, vencida do Europeu de França, tinha uma das melhores gerações da sua história. Chamaram-lhe Quinta del Buitre. Pelo magro, sério abutre madrileño chamado Emilio Butrageño. O avançado do Real Madrid liderava uma equipa por onde passeavam classe homens como Martin Vazquez, Camacho, Señor, Gallego, Chendo, Salinas, Zubizarretta, Michel ou Goikotxea. A 18 de Junho os rivais mediam forças. Arnesen estava suspeno mas o seu velho amigo, Jesper Olsen, abriu cedo o marcador. De penalty. Confirmava-se o favoritismo dinamarquês e Larssen e Laudrup moviam-se à vontade. Dois minutos antes do intervalo surgiu nos céus o abutre. O empate de Butrageño mudou o ritmo do jogo. A Espanha voltou mais furiosa que nunca para o segundo tempo e aos 56 o avançado deu a volta ao marcador. Os dinamarqueses perderam a confiança em si mesmos e abriram espaços que o médio Goikotxea aproveitou para ampliar a vantagem. A Danish Dynamite lançou-se desesperadamente ao ataque e Butrageño agradeceu. Em oito minutos voltou a bisar apontando o seu quarto golo no jogo. E na prova. Seria também o seu último. Mas a favorita Dinamarca ia para casa. Os espanhois temiam a URSS mas acabaram por defrontar a Bélgica. Pensando já no duelo com Maradona, foram perdulários. E cairam nos penaltys. Sina que está ainda por mudar. E este foi mais o Mundial do alienigena e menos do abutre.

Maradona tinha saído pela porta pequena no Mundial de Espanha. Jurou a si mesmo que não voltaria a passar pela mesma humilhação. Billardo não era Menotti e Valdano, Pascuali, Burruchaga, Pumpido e Brown não eram provavelmente os melhores jogadores da história argentina. Mas isso importava pouco. O número 10 decidiu ganhar o Mundial sozinho e ninguém soube travá-lo. Empatou com a Itália, bateu a Coreia do Sul e Bulgária. Aguentou as violentas entradas dos defesas uruguaios, enganou meio-mundo contra a Inglaterra por duas vezes e deixou pregado ao solo o guardião belga. Na final, frente à sufrível RF Alemanha, não precisou de tanto. Ao sétimo jogo descansou. O Mundial era seu.



Miguel Lourenço Pereira às 09:54 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 25.04.10

Poucas vezes uma equipa logrou atingir tal patamar de empatia com o público. A cada troca de bola daqueles onze diabetres o Mundo sorria e bailava ao ritmo do seu samba. Um sonho com final triste aos pés de um cínico dianteiro com ouvido para óperas trágicas. Nunca o samba brasileiro pareceu tão triste como no final de um jogo que definiu o futebol de hoje.

Foi a última vez que uma equipa assumidamente ofensiva brilhou num Mundial de Futebol. A sua queda, esperada pelos mais cinícos, definiu a evolução futebolistica dos 30 anos seguintes. Defesas sólidos, guarda-redes de alto nível, um meio-campo mais físico e um killer na área. A fórmula de Enzo Bearzot não se limitou a dar o inesperado Tricampeonato do Mundo à Itália, equipa por quem ninguém - nem os italianos - se atrevia a apostar. Foi uma fórmula que destroçou o samba mágico que saía dos pés dos homens de Tele Santana, o último dos românticos. Quatro anos depois o Brasil foi uma sombra de si mesmo. Oito anos depois tornou-se numa equipa irresponsável. Doze anos depois viria o esperado Tetra. Com um futebol ainda mais cínico que o italiano. O escrete canarinho aprendeu a licção e nunca mais voltou a bailar ao ritmo do seu futebol de toque e corre, cortesia de pequenas grandes genialidades de um tridente de luxo como nunca mais se viu para aquelas bandas. Depois de perder por 2-1 face à Polónia em 1974, no jogo do Terceiro e Quarto lugar, o Brasil não tinha conhecido o sabor da derrota num Mundial. Foram precisos 8 anos e 10 jogos para cair o pano. Numa quente tarde de um Mundial apaixonante até à última noite.

 

A 5 de Julho Itália e Brasil encontraram-se no calor tórrido de Barcelona. O desaparecido Sarriá cheio esperava um embate de titãs. Ao Brasil bastava um empate, fruto da vitória por 3-1 face à Argentina (os italianos tinham vencido apenas por 2-1). Eram favoritos. Tinham passado incólumes a primeira fase com duas vitórias por 4-0 frente a Escócia e Nova Zelândia e um triunfo por 2-1 face à URSS. O jogo de toque de Sócrates, Eder, Falcão e Zico enebriava qualquer adepto. Era a equipa mais forte do gigante sul-americano desde 1970. E tinha consciência disso. O público esperava que o jogo fosse um mero trâmite para o embate contra os polacos nas Meias-Finais. Mas do outro lado estava a ferida Itália. Uma equipa que chegou a Espanha marcada pelo fantasma da corrupção desportiva e que tinha sido apurada graças a três empates. A vitória sobre os argentinos chegou depois de um jogo violento com Maradona como único objectivo. E Rossi, o avançado repescado por Bearzot, ainda não tinha marcado. Até então.

O encontro teve sempre uma direcção. As redes de Dino Zoff sofreram um largo acosso do ataque brasileiro. Mas aos 5 minutos, no primeiro ataque italiano, Rossi surgiu do nada e abriu o marcador. Os brasileiros nem se imutaram e continuaram a sua dança. 10 minutos depois o professor Sócrates empatava. Os jogadores sorriam e dançavam, ecos de uma equipa que jogava, acima de tudo, por prazer. Nem contemplavam a hipótese de perder. Mais tarde Zico confessaria que esse foi o seu problema. Nunca mataram o jogo, trocando a bola por diversão quando podiam ter procurado o golo da vitória mais cedo. Oportuno como poucos, Rossi voltou a marcar, aos 25. E depois a Itália colocou-se toda na linha defensiva. E começou o massacre. Remates de Junior, Serginho, Zico, Eder, Socrates e, sobretudo, Falcão. Um deles rasgou as redes de Zoff ao minuto 68. Havia tempo. O Brasil abrandou o ritmo, confiante de que o golo era algo inevitável. O futebol não podia ser tão ágrio. Mas foi. Um toque subtil de Paolo Rossi, um coro de lágrimas perdidas no tempo. Uma celebração histórica. Ao minuto 74 o futebol moderno começou. O romantismo tinha acabado.

 

A Itália na sua versão mais racional foi poupando esforços até rasgar uma cansada Alemanha na final. Pelo caminho ficaram momentos históricos como o duelo franco-alemão, a péssima performance da anfitriã Espanha, a polémica argelina ou o ocaso de Maradona. Uma Inglaterra eliminada sem perder um jogo e uma Polónia que devolvia a ilusão aos que já não acreditavam no marechal Lato. Um Mundial histórico que definiu um antes e depois da história do torneio. Os fracassos sucessivos da Laranja Mecânica e do Samba brasileiro deram passo a outra mentalidade desportiva. Nunca mais o futebol seria visto como uma alegre diversão. Os cinicos competitivos tinham pregado o último caixão no futebol jovial.



Miguel Lourenço Pereira às 09:22 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 18.04.10

Poucos eventos desportivos foram tão politizados como o Mundial de 1978. Um Mundial desenhado, desde as profundezas, à medida da selecção argentina. Uma equipa em descrédito, muito longe da elite, que foi ultrapassando timidamente cada obstáculo para chegar à final dos papeis brancos e derrotar, uma vez mais, a amaldiçoada Holanda.

 

Para a história fica o sorriso sinistro de Videla, o homem que ajudou a dar forma ao Mundial da sua Argentina.

Uma prova repleta de polémica mesmo antes da bola ter arrancado. E que ainda hoje perdura. Goleadas inexplicáveis, estádios repletas de agentes especiais destacados para fazer prisões selectivas e um astro mundial que se recusou a viajar por não querer jogar num país onde pessoas desapareciam. Provavelmente só o Mundial de 1934, sob o signo de Mussolini, foi tão politizado como este. Em ambos os casos a estratégia funcionou. Mas ao contrário daquela squadra azzura, a Argentina não era no terreno de jogo favorita. Ganhou o favoritismo a pulso, entre bons jogos, um público fanático e uma série de erros alheios. Ou talvez não. Em todos os seis jogos que antecederam a final os argentinos beneficiaram de jogar depois dos rivais, sabendo precisamente do que necessitavam para seguir em frente. Naquela tarde em Buenos Aires, com o Mundo em suspenso, a sorte esteve sempre do seu lado. O remate no ferro de Filol a poucos segundos do fim evitou a desgraça. A maior frescura fisica e a falta de crença de uns holandeses abandonados ao seu próprio desespero fizeram o resto. Um 3-1 que espelha pouco o que se passou nos longos 120 minutos de jogo. Pela segunda vez uma final ia a prolongamento. Pela segunda vez o tempo extra deu o titulo ao onze anfitrião. Kempes entrou na galeria dos goleadores. O jogo fisico de Passarella e Houseman, o talento de Villa e Ortiz e a classe de Ardilles fizeram o resto.

 

Foi o Mundial das surpresas na primeira fase. Nos quatro grupos os favoritos apuraram-se no segundo posto. A Polónia confirmou a boa forma e superou uma pálida RF Alemanha, bem longe dos seus melhores dias. A favorita Holanda caiu aos pés da Escócia, nessa noite histórica, para acabar atrás do Peru de Cubillas. O mesmo superior Peru que cairá, pouco depois, por seis golos, diante de uma Argentina a quem tinha ganho os confrontos anteriores com folgadez. A Áustria bateu Espanha e Suécia para passar à frente do desorganizado Brasil que depois de dois empates acabou por passar graças a uma vitória sobre uma equipa austriaco cheia de reservas. Quatro depois um cenário similar voltaria a ter a Áustria como triste protagonista. Por fim a Argentina, que tinha o beneficio de jogar em casa, não soube bater uma renascida Itália e viu-se relegada para o segundo posto. O conjunto albiceleste tinha batido uma tenra França e uma frágil Hungria. Mas sempre a sofrer mais do que esperado. Mas evitou os tubarões europeus. Os que se foram degladiando entre si entre jogos adormecidos e golos espantosos. O remate de Arie Haan decidiu uma mano a mano entre holandeses e italianos. A mesma Holanda que tinha trucidado por 5-1 a Áustria acabava por adormecer num empate a zero com a RF Alemanha. E só esse triunfo sofrido decidiu o passaporte para a grande final. Do outro lado, nada mais do que polémica a pautar cada jogo do onze argentino. A equipa orientada por Cesar Luis Menotti começou por vencer a Polónia por 2-0 com dois polémicos golos de Mario Kempes. Horas antes o Brasil tinha marcado mais um golo ao Peru. Ambos empataram a zero no confronto directo e na noite do jogo decisivo, em Rosário, o onze celeste entrou em campo a saber que o Brasil tinha marcado outros três golos à Polónia. Era simples. A Argentina tinha de vencer por cinco golos de diferença. Ou não havia final.

 

A história tratou de contar o resto. Os defesas peruanos não reagiam aos lançamentos rápidos de Ardilles e Luque. O guardião peruano não se estirou ás bolas. O mago Cubillas, desapareceu. Tudo parecia fácil demais. Os brasileiros desesperavam com a marcha do marcador. Depois do 2-0 ao intervalo, os argentinos conseguem três golos em 15 minutos. Para não deixar dúvidas apontam um sexto, já desnecessário. O Brasil caía, por dois golos. Dois polémicos golos. Por isso quando a bola de Resenbrink esbateu com o poste de Fillol, o general Videla sorriu. Kempes e Bertoni fizeram a festa depois. Os papelinhos voltaram a voar, os desaparecidos ficaram no esquecimento. O futebol saiu corado de vergonha do Monumental. Seria a última vez.



Miguel Lourenço Pereira às 16:12 | link do post | comentar

Domingo, 11.04.10

Aqui começou a longa e amarga viagem dos "ses" holandeses. Numa prova feita à sua medida, os soldados de Rinus Mitchell pareciam invencíveis. Mas não o eram. A RF Alemanha, ferida no orgulho, provou saber bem onde estava o calcanhar do Aquiles futebolístico. Desde essa longa tarde até hoje, a história continua a dever uma à mágica "laranja mecânica".

 

Há histórias que começam melhor contadas de trás para a frente.

Munique, Olympiastadion. Tarde de 7 de Julho de 1974. Minuto 43. A dois do intervalo. Bola pelo lado direito do ataque da RFA. Centro para trás. Dominio em queda de Gerd Muller. O "Torpedo" gira, em queda. Remata, colocado. Corre de braços no ar. A reviravolta está completa. O marcador ficará imutável durante largos 50 minutos. A Holanda, máxima favorita, caía pela primeira vez. A primeira de tantas vezes. De tantos "ses". E se a equipa tivesse sido mais contundente nessa tarde de 74. E se Cruyff tivesse ido ao Mundial de 78. E se Rijkaard não tinha perdido a cabeça em 90. E se Gullit tivesse ido aos EUA em 94. E se os penaltys não tivessem amaldiçado a equipa em 98...e se, e se.

A ferida RFA, que tinha começado a prova com uma amarga noite, ressuscitava perante o olhar surpreso dos seus adeptos, que pareciam condenados à assistir à coroação dos irresistível holandeses. Muller, o mal-amado goleador, cumpriu a sua própria história. Com esse golo calou os mais criticos e repetiu o feito de Rahn, 20 anos depois. Os melhores caiam na final frente aos mais eficazes. Os temiveis teutões.

Num jogo em que a Holanda tinha passado os primeiros instantes a demonstrar a sua superioridade, foi a humildade que ganhou. Os holandeses estavam demasiado confiados em si mesmos. Tal como os hungaros, em Berna. Sabiam-se superiores. Poderiam ter morto o jogo depois do 1-0 inaugural de Neeskens. Mas não o fizeram. Entreteram-se a trocar a bola entre si, em mostrar ao mundo o seu futebol total. Foram apanhados desprevenidos. Penalty e golo de Breitner. E depois chegou Muller. O letal dianteiro que personificava a alma da RFA. A história fala, ainda hoje, de injustiça. Não o foi. Beckhenbauer, Netzer, Vogts, Maier, Schwarzenbeck, Heynckhes, Breitner, Muller e companhia não mereciam ter passado para a história sem um Mundial nas vitrines. E mereceram o seu. Não tão espectaculares. Não tão efusivos. Mas igualmente mágicos.

 

A caminhada para a glória da RFA começou com um golpe seco no estomago.

A Holanda iria fazer seu um Mundial marcado pelos confrontos com os rivais sul-americanos. A forma como bateram a Argentina (4-0) e o decadente Brasil (2-0) pautou o nível que se esperava de uma equipa que, mesmo assim, tinha empatado com a Suécia num jogo soso e tinha adormecido durante grande parte do jogo inaugural com o Uruguai. Mas a memória é selectiva. Já com os alemães, ela é bem mais longa.

Os organizadores tinham tudo para emergir como triunfantes. Tinham vencido o Europeu, dois anos antes, de forma clara. Tinham na sua liga duas das melhores equipas da Europa, incluindo o novo campeão europeu de clubes, o Bayern Munchen. A equipa nacional, orientada por Helmut Schoon, era composta por jogadores do Borussia Moncheblagdbach e do clube bávaro. Uma mistura que se revelou certeira. Nos dois primeiros jogos da fase de grupos, disputados em Berlim e Hamburgo, os alemães jogaram de forma timida e contraída. Bateram por 1-0 o Chile com um golo madrugador de Breitner e frente aos estreantes australianos triunfaram por uns claros 3-0. A 22 de Junho tinham um encontro com a história que decidiria mais do que o simples vencedor do Grupo A. Era uma questão de orgulho e prestigio. Contra a RDA, pela primeira vez. Um jogo especial para um seleccionador que era, ele próprio, um fugitivo do regime comunista. E que queria, mais do que nunca, vencer. Nessa longa noite em Hamburgo o jogo foi tenso. Violento até. Os jogadores da RDA utilizaram o fisico como nunca. Os da RFA eram, cada vez mais, macios e inofensivos. Até que um disparo monumental ao minuto 77 de Sparwasser, até então um dos muitos anónimos que vivia por trás da cortina de Ferro, fez história. No primeiro duelo entre as Alemanhas, venceu a vermelha. A jogar de azul. Uma noite de sonho em Berlim oriental. Na RFA ninguém acreditava. Schoon foi obrigado a ir a uma conferência de imprensa especial com Beckhambauer. Mas a derrota funcionou como estimulo. Os jogadores, até então desunidos por questões de prémios, deixaram de lado as diferenças. E a RFA renasceu.

 

Curiosamente a passagem como segundo de grupo permitiu à RFA escapar das garras da "Laranja Mecânica" quando esta estava no ponto certo. Os holandeses dominaram o seu grupo, onde os perigosos sul-americanos surgiam por ter terminado os respectivos grupos apenas no segundo lugar. A RFA teve de medir forças com um insuspeito trio bem europeu. A super Polónia de Lato, a fisica Suécia de Edstrom e o belo jogo da Jugoslávia. Um grupo feito à sua medida. No primeiro jogo os renascidos alemães trucideram os jugoslavos. Dois dias depois da humilhante derrota. A 30 de Junho, debaixo de um temporal, recuperaram duas vezes de um resultado em desvantagem para vencer por 4-2 a Suécia. No último e decisivo encontro, Muller apareceu. E derrotou sozinho a surpreendente Polónia. Três dias depois voltaria a aparecer. Dos quatro golos que apontou ao longo do Mundial só dois foram decisivos. Precisamente os últimos. Os que ditaram os livros que fizeram parte da história. Que hoje deixou para segundo plano essa noite em que na RDA se sonhou com uma superioridade em que nem eles mesmos acreditavam.



Miguel Lourenço Pereira às 14:39 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Domingo, 04.04.10

Na véspera da final já se sabia que o troféu Jules Rimet tinha os dias contados. Frente a frente duas selecções bicampeãs do Mundo que queriam levar para casa, de forma definitiva, o troféu que marcou as primeiras nove edições da prova. O mundo reuniu-se no México para o mais belo espectáculo de futebol da história. No final, Pelé saltou mais alto que o Mundo e consagrou a equipa perfeita.

 

Foi o Mundial de tantas coisas. De jogos inesquecíveis. De defesas espantosas. De jogadores esforçados, lesionados, a aguentarem até ao fim. Estrearam-se os cartões, as substituições, o goal-average na fase de grupos e defrontaram-se todos os campeões nos últimos jogos. E, acima de tudo, o México 1970 foi o Mundial dos dois melhores golos da história…que nunca o foram. Ambos com a mesma assinatura. O nome próprio da prova que acabou por ser o símbolo de uma equipa perfeita, montada ao mais mínimo detalhe por um Mário Zagallo que completava a idade de ouro do futebol brasileiro. Na final do lotado Azteca mais do que a coroação de Pelé, chegou-se ao final de uma era. O futebol romântico apoiado no 4-2-4 tinha chegado ao seu final da forma mais espectacular possível. Os anos seguintes iam ser marcados pelas revoluções tácticas holandesas e alemãs, o futebol mais físico das equipas britânicas e pela aplicação do 4-3-3 e 4-4-2. Mas então ninguém pensava nisso apesar de já haver um par de sinais. Naquele Verão o Brasil cegou o Mundo com o seu futebol de ataque, baseado no toque e transições rápidas. O golo que fechou o Mundial teve o condão de fazer a bola passar pelos pés dos 11 jogadores no terreno de jogo num exercício de perfeccionismo que não voltou a ser igualado. O escrete canarinho confirmou o Tri, ficou com o troféu mais apreciado e carimbou a letras de ouro um título que muitos duvidavam que seria capaz de lograr.

 

A verdade é que o Brasil chegou fragilizado ao torneio. João Saldanha, o jornalista nomeado seleccionador, tinha sido despedido meses antes. Pelé, entretanto afastado, tinha sido reincorporado e o novo técnico, o ex-jogador Mário Zagallo, tinha de encontrar uma forma de fazer alinhar em campo as estrelas de Santos e Botafogo, as equipas mais em forma no Brasil. Na linha de meio campo alinhou lado a lado o cerebral Gerson e o dinâmico Clodoaldo. Nas alas colocou, bem abertos, os rapidíssimos Jairzinho e Rivelino. Pelé surgia como falso avançado atrás de Tostão, um avançado com instinto matador como poucos teve o país do golo. Com esta linha ofensiva parecia impossível travar o Brasil. Mas havia candidatos igualmente fortes. A Inglaterra surgia, campeã do Mundo, com uma equipa melhorada em relação à sua versão de 66. A finalista vencida, a RF Alemanha, apostava no crescimento de Franz Beckenbauer, o novo patrão da equipa tinha uma arma secreta no ataque: Gerd Muller. Por fim estava a Itália. A campeã da Europa alinhava a sua segunda geração dourada, com Fachetti, Riva e Rivera à cabeça. Os italianos eram os favoritos. E foram-no confirmando, cinicamente, em cada eliminatória.

 

Muitos lembram-se da defesa de Banks impossível a um cabeceamento genial de Pelé. Outros das fintas inesquecíveis do peruano Cubillas. Ou das saídas loucas do guardião uruguaio Mazurkiewicz. A história guardou um leque de jogos inesquecíveis e esqueceu-se dos protestos dos jogadores, forçados a jogar debaixo do calor do meio-dia mexicano para que os adeptos europeus acompanhassem o jogo ao final do dia pela televisão. A Inglaterra sofreu com uma infecção alimentar nas vésperas do duelo contra a RFA. Esteve a vencer por 2-0 mas Alf Ramsey teve medo e tirou Charlton para colocar um terceiro defesa. Os alemães venceram por 3-2 no prolongamento. Noutro jogo dos Quartos a Itália goleou o México por 4-1 deixando para trás o futebol defensivo. O Brasil vergou o Peru e a URSS caiu aos pés do Uruguai. Enquanto o Brasil seguiu implacável rumo à final, a Itália e Alemanha deram um espectáculo como pouco se viu. O jogo foi até prolongamento e terminou em 4-3 a favor da Azzura. Pelo meio, a imagem de Beckenbauer, braço ao ombro por um choque a poucos minutos dos 90, ficará sempre como um ícone da resistência germânica. E da classe do seu líder.  Para muitos ainda é o melhor jogo da história!

 

Mas a eternidade é matreira e fica com pequenos detalhes. Ainda hoje o México 70 lembra-nos esses dois golos impossíveis que só um génio do nível de Pelé pode ousar em sonhar concretizar. Na fase de grupos, no duelo inaugural com a Checoslováquia, o número 10 brasileiro viu o guardião checo, Viktor, adiantado. Ainda antes do meio campo tentou um remate poderosíssimo que gelou as bancadas durante instantes. A bola roçou o poste e saiu. Injustamente. Uma semana e meia depois, nas Meias-Finais, o Brasil defrontou a equipa que lhes tinha arrebatado a Copa América, dois anos antes, o Uruguai. Num gesto de audácia extrema, Pelé recebe uma bola centrada por Rivelino. Em vez de tentar driblar o guardião uruguaio deixa-a passar, corre à volta do guarda-redes e vai buscá-la ao outro lado para surpresa da defesa Uruguai. Em queda, Pelé remata. A bola cruza toda a área e passa rasa ao poste direito. Não entra. Injustiça. Uma semana depois o número 10 subiu ao mais alto do Azteca e abriu as hostilidades da final. Para trás tinham ficado os seus dois golos mais belos. Que importa que não tivessem entrado.



Miguel Lourenço Pereira às 11:35 | link do post | comentar

Domingo, 28.03.10

A escolha não foi inocente. Desde que Stanley Rous assumiu a presidência da FIFA que tudo estava a ser encaminhado para organizar o primeiro torneio em solo britânico. No ano que comemorava o centenário da instalação definitiva do jogo nas ilhas, a Inglaterra montou um torneio à sua imagem e semelhança. Emotivo, polémico, intenso e com o caminho do título feito à sua medida.

 
Quando ainda não se sabia se o Chile iria organizar o seu torneio já a FIFA anunciava que a Inglaterra organizaria o oitavo Mundial de Futebol. Todos os detalhes estavam a ser cuidados à mínima. A faustuosa cerimónia de abertura, com o discurso real de Isabel II abriu a tónica de uma prova repleta de casos e figuras. E com muita polémica à mistura. Antes do torneio sequer ter arrancado já os africanos se tinham recusado a entrar no esquema de qualificação da FIFA. Rous, um presidente pouco amigo das novas nações africanas, ditou que o vencedor da fase de qualificação africana teria de defrontar um rival asiático. Os africanos recusaram e a Coreia do Norte seguiu assim, pela porta pequena, para a fase final. Dias antes do discurso real o mítico troféu, devolvido pelo Brasil, foi roubado. A Scotland Yard tentou tapar o caso mas foi um cão, Pickles, quem acabou por salvar o organizador do embaraço final. E quando a bola arrancou já ninguém se lembrava do caso mas sim da surpreendente derrota da Itália diante dos norte-coreanos ou de mais uma lesão de Pelé numa fase final. A estrela brasileira lesionou-se no duelo contra a Hungria e só voltou para o jogo final, diante Portugal. O escrete canarinho precisava de vencer para seguir em frente mas encontrou-se com uma marcação defensiva perfeita e um Eusébio inspirado. A vitória por 3-1 dos lusos marcou a primeira fase. A equipa do “Pantera Negra” conquistou o público e tornou-se na grande sensação do torneio, particularmente depois de recuperar de uma desvantagem de 3-0 frente à Coreia do Norte. O duelo das meias-finais, em Liverpool, face à Inglaterra, seria o encontro por excelência do torneio.
 
No entanto tudo mudou rapidamente. A prova tinha sido desenhada a pensar exclusivamente na consagração do futebol britânico. E se Alf Ramsey tinha tido o mérito de montar um notável onze, onde pontificava Bobby Charlton, a verdade é que a selecção Pross não entusiasmava. Enquanto alemães e soviéticos – eliminando húngaros e uruguaios respectivamente – se mediam numa meia-final equilibrada, os ingleses temiam verdadeiramente o rival por quem ninguém dava nada antes do arranque da prova. O polémico jogo dos Quartos de Final, contra a Argentina, tinha levantado algumas dúvidas no jogo inglês. El Robo del Siglo, como apelidaram os argentinos então, marcou claramente a campanha inglesa. Os argentinos dominavam o jogo quando o árbitro, surpreendentemente, expulsou o capitão albiceleste, António Ratin. O jogador recusou-se a abandonar o relvado e durante largos minutos o jogo foi interrompido enquanto os seus colegas protestavam com a polémica decisão. Foi necessário um membro da polícia para escoltar Ratin para os balneários debaixo dos apupos das bancadas. O golo solitário de Geoff Hurst selou o resultado final mas deixou claro que a armada inglesa era menos poderosa do que parecia. E com Eusébio pela frente, muitos julgavam que os ingleses voltariam a falhar o assalto à final. Até que a FIFA entrou em cena. Reuniu-se com as duas federações e tomou a decisão de transferir o jogo de Liverpool – onde estava Portugal instalado – para o Wembley, sede da equipa inglesa. Tal como quatro anos antes. Os portugueses não reclamaram o suficiente e o jogo transferiu-se obrigando o quadro luso a uma longa viagem enquanto Charlotn e companhia tinham um dia de folga. Foi determinante. O cansaço português e o óptimo exercício táctico dos ingleses ditou um jogo onde Eusébio teve nos pés o empate. Falhou e a Inglaterra estreou-se numa final frente ao público eufórico. Portugal teve de se contentar com o terceiro posto e os nove golos de Eusébio, recorde do torneio.
 
Quase 100 mil pessoas se juntaram, três dias depois, para o duelo mais desejado. Os eternos rivais discutiam o título mundial debaixo do atento olhar de Stanley Rous e a rainha Isabel II. Os alemães, capitaneados por Franz Beckambauer – determinante no jogo das meias-finais – começaram por ter o domínio do jogo. Aos 12 minutos Haller gelou o Wembley com um golpe fulminante sem que Banks pudesse sequer reagir. Ramsey pediu calma aos jogadores e a equipa recompôs-se. Hurst e Peters deram a volta ao marcador. Quando parecia que tudo estava terminado, um livro no último instante deu o empate à RF Alemanha. Os ingleses reclamaram mas, pela primeira vez na história, a final ia para tempo extra. A partir daí o mito supera a realidade. A polémica da bola que não entra, os protestos junto ao fiscal-de-linha do Azerbeijão que hoje dá nome ao estádio nacional e que anos mais tarde responderia apenas com um enigmático “Estalingrad”, e a celebração inglesa. O Mundo do futebol pagava a sua divida para com os fundadores. Com as contas saldadas a Inglaterra nunca mais voltou a pisar uma final de um Mundial.


Miguel Lourenço Pereira às 10:24 | link do post | comentar

Domingo, 21.03.10

Também há 40 anos o Chile sofreu um assustador terramoto. O país tinha sido eleito quatro anos antes como a sede do Mundial de 1962, mas o tremor de terra destruiu todas as infra-estruturas. Num acto de heroísmo o país uniu-se para ter tudo a tempo do início da prova. Logrou-o, mas o Mundial de 1962 ficará sempre para a história pela falta de emoção em campo e pela violência, dentro e fora dos relvados.

 
9,5 na escala de Richter. Números assustadores que levaram a FIFA a ponderar mudar o local da organização de um torneio que voltava, 12 anos depois, à América do Sul. No entanto as autoridades chilenas, lideras pelo incansável Carlos Dittborn, persuadiram Stanley Rous, o novo presidente da FIFA, a garantir que o torneio se realizaria em terras andinas. Durante dois anos o país uniu-se e reconstruiu os cinco estádios destroçados pelo terramoto. E no dia de abertura a gala correu como previsto. O espectáculo, nem por isso. O Mundial de 1962 entrou para os registos históricos como uma das maiores desilusões desportivas de sempre. Estava a nata do futebol Mundial. Mas em figura de corpo-presente. Pelé, lesionado, cedo desapareceu do mapa. O notável Yashin nunca se mostrou à sua altura. A armada inglesa logrou pela primeira vez chegar até às Meias-Finais, mas sempre longe da sua melhor forma. E no meio da contenda, os chilenos conseguiram um histórico terceiro lugar. Graças ao jogo de equipa, erros do arbitro e muita violência à mistura. Inseridos no Grupo 2, junto com Alemanha, Itália e Suiça, os chilenos sabiam que era complicado passar à seguinte fase. No primeiro jogo bateram os suíços por uns claros 3-1 mas o empate entre alemães e italianos obrigava os chilenos a vencer um dos duelos que lhe faltava para seguir em frente. O técnico chileno, Fernando Riera, decidiu motivar os seus jogadores de uma forma particular. Diante dos suíços tinha feito os jogadores comer queijo suíço no balneário. A 2 de Junho os jogadores subiram ao estádio de Santiago para defrontar uma rejuvenescida Itália depois de ter comido um prato de spaghetti.
 
O jogo entrou para os anais da história como “A Batalha de Santiago”.
Foi provavelmente um dos confrontos mais violentos da história do desporto. Ken Ashton, o árbitro que anos depois inventaria o conceito de cartões amarelos e vermelhos, mandou dois italianos para os balneários não resistindo à pressão do público e do onze chileno. As cenas de violência em campo foram a partir de aí a imagem de marca da selecção da casa, adepta de um jogo extra-defensivo aproveitando os erros dos rivais. Essa foi a tónica desportiva da prova onde nem o Brasil conseguiu deslumbrar. Os chilenos eliminaram a Itália, perdendo o último jogo com a RFA, e nos Quartos de Final defrontaram os favoritos soviéticos. Tal como nos jogos prévios, Riera fez os jogadores beber vodka no balneário e a equipa mostrou-se sempre superior no terreno de jogo. Dois erros de Lev Yashin condenaram os russos e garantiram ao Chile um histórico lugar nas meias-finais. Frente ao Brasil. O jogo, marcado para a pequena localidade costeira de Viña del Mar, foi então transferido para Santiago, como sucederia quatro anos depois com o Inglaterra-Portugal. Os brasileiros queixaram-se mas a decisão estava tomada. O encontro foi disputado, uma vez mais, debaixo de imensa violência física e verbal. Os jogadores brasileiros iam caindo, vítima das brutais entradas dos rivais. O árbitro expulsou Garrincha, por ripostar, e o chileno Landa por palavras. No entanto o mágico extremo já tinha marcado dois golos que, aliados aos dois tentos de Vavá, qualificaram o Brasil para a sua segunda final consecutiva. O Chile acabaria por bater a Jugoslávia no jogo do Terceiro e Quarto Lugar. Um prémio que valeu um Mundial.
 
Numa prova cinzenta as sucessivas eliminações dos favoritos deixaram uma final surpreendente. A Checoslováquia, que tinha terminado a fase de grupos atrás do Brasil, voltava a encontrar-se com os canarinhos na final. Pelo caminho tinha deixado atrás a modesta Hungria e a Jugoslávia. Liderados por Josef Masopust e com brilhantes actuações do seu número 1, Villian Schrof, os checos ainda conseguiram abrir o marcador na final de Santiago. Mas mesmo sem Garrincha e Pelé o Brasil mostrou-se superior. Os golos de Amarildo, Zito e Vavá – todos com a colaboração do até então imbatível guardião checo – decidiram a prova que nunca deixará grandes saudades.


Miguel Lourenço Pereira às 10:31 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 14.03.10

Até hoje nenhum outro dianteiro se mostrou tão eficaz durante um Mundial. Os 13 golos do francês Just Fontaine deixaram para segundo plano a explosão final do futebol brasileiro num torneio em que o menino Pelé chorou ao ritmo do samba de Garrincha.

 

Pela primeira vez na história a Itália falhava o apuramento para um Mundial de Futebol. A “squadra azzura” tinha caído diante da Irlanda do Norte que se juntava assim à Escócia, Gales e Inglaterra. Pela primeira vez todas as selecções do Reino Unido marcavam presença na prova. Também em estreia estava a União Soviética, onde já pontificavam um jovem Lev Yashin, principal responsável por mais uma eliminação precoce da Inglaterra. Num play-off para apurar o segundo lugar do grupo os ingleses não souberam concretizar as várias oportunidades de golo. Um remate seco do russo Ilyin decidiu a sorte dos Pross num grupo dominado pelo Brasil onde Pelé era ainda um modesto suplente de 17 anos. O “escrete canarinho” avançou para a segunda fase com soviéticos, alemães, galeses, irlandeses, jugoslavos e suecos. Mas a grande estrela da primeira fase do torneio organizado de novo na Europa – desta feita sem polémica à mistura – foi a selecção francesa. Os gauleses, que até então sempre tinham desiludido quando chegavam à fase decisiva da prova, mostraram uma eficácia letal. Num grupo complicado bateram por 7-3 o Paraguai e por 2-1 a Escócia, tropeçando apenas diante da Jugoslávia. Na frente de ataque gaulesa pontificava um homem: Just Fontaine.
 
O goleador não era a estrela da companhia. Raimond Kopa, dianteiro do Stade de Reims que tinha embarcado numa viagem rumo a Madrid, era o foco das atenções. Mas eram os golos do dianteiro nascido em Marrocos que faziam a diferença. Fontaine marcou um hat-trick no jogo inaugural e voltou a beijar as redes nos restantes encontros, entrando com seis golos na segunda fase. Aí o sorteio ditou um duelo acessível para os gauleses frente à Irlanda do Norte. Como era esperado, a equipa francesa ganhou. Por goleada. E com mais dois golos de Fontaine diante de 12 mil pessoas em Norkopin. Enquanto o Brasil ia mostrando dificuldades – só um golo tardio de Pelé quebrou a resistência de Gales – e com a campeã Alemanha a mostrar serviços mínimos, havia já quem apostasse na França como futura campeã. Só que a meia-final diante do Brasil acabou com as esperanças francesas. Vavá abriu o marcador com 2 minutos de jogo para Just Fontaine, quem senão ele, empatar sete minutos depois. O público o Rasunda Stadium colocou-se ao lado dos brasileiros que deslumbravam com o jogo de toque entre Didi, Vavá, Zagallo, Garrincha e Pelé. O jovem avançado do Santos decidiu o jogo praticamente sozinho. Marcou um hat-trick em 20 minutos e deixou o marcador num claro 5-2. O Brasil ia a caminho do seu primeiro Mundial. A França teria de esperar…40 anos.
 
Enquanto suecos e brasileiros se preparavam para disputar a final com mais golos na história da competição (um apaixonante 5-2), o francês Fontaine preparava-se para fazer história. No duelo para o último lugar do pódio, os franceses tinham de defrontar a RF Alemanha. A velha rivalidade veio à tona e o jogo foi dos mais disputados do torneio mais goleador da história. E Fontaine foi a estrela, mais uma vez. Apontou quatro golos – um recorde só batido 36 anos depois pelo russo Oleg Salenko – e somou assim 13 tentos na sua conta pessoal. Superava em dois o recorde prévio do húngaro Czibor. E estabelecia uma marca que, até hoje, ninguém esteve sequer perto de igualar. Além do mais Fontaine tornou-se no primeiro jogador a marcar em todos os jogos da competição algo que só o brasileiro Jairzinho seria capaz de emular. Os franceses saíram de cabeça alta do torneio mas Fontaine nunca chegou ao estatuto de estrela mundial como se imaginava. Quando chegou à Suécia o avançado do Stade de Reims estava já na etapa final da sua carreira. Jogou ainda mais quatro anos antes de se retirar com 121 golos ao serviço do clube. Quando uma recorrente lesão o deixou fora da convocatória gaulesa para os jogos de qualificação para o Mundial do Chile o avançado decidiu parar. Já tinha entrado na história.


Miguel Lourenço Pereira às 20:36 | link do post | comentar

Domingo, 07.03.10

Nunca a expressão “campeão moral” teve tanto sentido como naquele Verão suíço. A estabilidade tinha voltado ao Velho Continente e com ela a Taça Jules Rimet. O mundo do futebol esperava tranquilamente a consagração do onze magiar mas a lógica não conhece o relvado e no final a anunciada vitória da Hungria foi apenas uma doce ilusão.

 
O sorteio do torneio tinha ditado que a Hungria ficaria lado a lado com a RF da Alemanha no Grupo B. Os alemães chegavam à Suiça desmoralizados por uma série de más exibições nos amigáveis antes do torneio. Mas com um estratega único no banco. A Hungria era, inquestionavelmente, a melhor equipa do Mundo. Capaz de vergar os ingleses em Wembley pela primeira vez – e devolver o gesto meses depois em Budapeste – os húngaros pareciam estar destinados à glória. Uma equipa formada com o coração do Honved onde pontificavam Ferenc Puskas, Czibor, Hidegkuti e Kocksis e que, pura e simplesmente, parecia invencível. Quando ambas as equipas subiram ao relvado para segundo jogo do grupo B havia poucas dúvidas sobre quem venceria. Eram 4 anos e 29 jogos sem conhecer a derrota para os húngaros. E assim foi. A dianteira magiar destroçou a defesa da RF Alemanha e o resultado final foi claro: 8-3. Foi num 20 de Junho. Mal sabiam os húngaros que não tinha sido um resultado real.
 
A Suiça organizou uma das provas mais inesquecíveis da história dos Mundiais.
Pela primeira vez não houve condicionantes e a nata do futebol juntou-se nos Alpes. Estavam todos os campeões em título, incluindo o Uruguai, o renascido Brasil e também as melhores selecções da Europa. RF Alemanha, Suiça, Áustria, Escócia, Checoslováquia, França, Itália e Inglaterra. Todas atrás da favorita de leste. Pela primeira vez a FIFA conseguiu juntar 16 selecções em quatro grupos de quatro equipas mas com a particularidade de que os dois cabeças-de-serie não jogavam entre si a não ser que houvesse um empate final. A prova ficou marcada por jogos inesquecíveis. E pelo duelo entre alemães e húngaros. Enquanto que a formação orientada por Gustav Sebes foi mostrando o perfume do seu futebol romântico, os alemães começaram a utilizar a esperteza que os converteria nos mais cínicos dos rivais. Depois de ambas as selecções terem vencido o jogo inaugural, Sepp Herberger, seleccionador alemão, decidiu que a RFA tinha de perder o jogo com a Hungria. A decisão era simples. Perder com os húngaros significava disputar o segundo posto do grupo com a Turquia que os alemães já tinham vencido no jogo inaugural. Como consequência da II Guerra Mundial a FIFA tinha suspendido a Alemanha, o que tornava os turcos cabeças de série do grupo. Esta opção permitia também evitar disputar os Quartos de Final contra o Brasil e as Meias-Finais contra o vencedor do Inglaterra-Uruguai. Os húngaros não ligaram ao calendário e inocentemente esmagaram uma Alemanha onde actuaram sete suplentes. A vitória encheu a equipa húngara de moral e deixou uma impressão errada sobre o real poder dos alemães. Os germânicos jogaram e bateram os turcos, qualificando-se como segundos do seu grupo. Esperavam-nos nos Quartos de Final os jugoslavos.
 
A histórica vitória do Uruguai sobre a Inglaterra – que confirmou definitivamente o fim da supremacia britânica no seu próprio jogo – e a Batalha de Berna, onde húngaros e brasileiros chegaram ao confronto físico no túnel de acesso aos balneários depois de um histórico 4-2 no terreno de jogo, marcaram a primeira ronda a eliminar. Longe da ribalta, os alemães venciam por 2-0 a Jugoslávia para depois bater a vizinha Áustria por 6-1 nas meias-finais. Enquanto isso a ilusão húngara continuava. Sem Puskas, lesionado de propósito pelo defesa alemão Liebrich por indicação de Herberger no jogo da fase de grupos, a Hungria superou o renascido Brasil e depois bateu uma das melhores selecções uruguaias. Ambos os jogos terminaram com um histórico 4-2 e reforçaram a condição de favorita dos magiares. E quem se lembrava do enganador jogo da primeira fase não tinha dúvidas em considerar os húngaros campeões. Mas o jogo muitas vezes se perde em ilusões sem fundo.
Herberger montou uma estratégia que se revelou letal para os talentosos magiares, privilegiando uma marcação à zona. E se a Hungria ainda se adiantou por 2-0 no marcador – e marcou um terceiro, mal anulado pelo árbitro britânico William Ling nos minutos finais – a verdade é que a final foi dominada pelo onze liderado por Fritz Walter. Antes do intervalo os alemães empataram. Puskas, lesionado e implacavelmente marcado, não mostrava o seu jogo habitual e o cansaço dos duelos com os rivais sul-americanos começava a passar factura. A seis minutos do fim um golpe de cabeça de Helmut Rahn fazia história. Rasgavam-se os editoriais já escritos com dias de antecedência. Uma das mais belas selecções a pisar um relvado de um Mundial voltava para casa cabisbaixa. A lógica não conhece a cor do relvado, mas vive permanente nas botas dos jogadores germânicos.

 

 



Miguel Lourenço Pereira às 03:09 | link do post | comentar

Domingo, 28.02.10

quem se lembre do Mundial de 1950 simplesmente pelo grito mais silencioso da história do jogo, como se lembrou de escrever o genial Nelson Rodrigues. O golo de Ghiggia definiu um antes e um depois na história do futebol brasileiro. Mas os ingleses terão outra recordação dessa longa e angustiante viagem. Na tarde de 29 de Junho um remate certeiro rasgou o orgulho dos criadores do beautiful game. E mostraram que o futebol tinha crescido e saído de casa dos pais para procurar o seu lugar no Mundo.

O Brasil recebe a festa. Com a Europa destroçada pela II Guerra Mundial era inevitável que o quarto Mundial fosse organizado longe do Velho Continente. Jules Rimet tinha sido forçado a cancelar as edições de 1942 e 1946, e durante os anos da guerra dormiu com o sagrado troféu debaixo da cama. Com a paz chegou a reorganização e sem grandes dificuldades o presidente francês aceitou voltar à América do Sul. O Brasil seria o anfitrião de um torneio que seria também o da sua consagração. Para tal construíram vários estádios novos, incluído o mítico Maracanã, o maior do mundo à época. Os brasileiros queriam um torneio com os melhores e foram fundamentais nas negociações entre a FIFA e a FA inglesa. Depois de 17 anos de afastamento, as federações das ilhas britânicas aceitaram voltar a juntar-se à FIFA. A Inglaterra preparava-se assim para o primeiro Mundial da sua história. E até então ninguém tinha verdadeiramente mostrado ser superior ao onze britânico. Parecia que os brasileiros tinham encontrado um rival à altura. No entanto, tal como em 1930, as longas viagens atrapalharam o projecto de Rimet. O presidente da FIFA abandonou o modelo em play-off e apostou pela criação de quatro grupos de quatro. Mas, como sempre, houve desistências de última hora. A Índia recusou viajar se fosse obrigada a jogar com chuteiras. A Turquia também recusou pagar os elevados gastos. França e Portugal, eliminados, foram convidados pela FIFA e pela CBF a ocupar os seus lugares. Falta de dinheiro e interesse levou ambos os países a rejeitarem o convite. A Itália, num grave processo de reconstrução depois do desastre de Superga, tinha direito a um lugar por ser campeã em titulo. Mas só com Rimet a pagar a viagem de barco do seu bolso - os jogadores recusaram subir a um avião - a Federação aceitou viajar até ao Brasil. Sairia do torneio pela porta pequena. No total havia só 13 selecções para a festa.

O torneio teve lugar no final de Junho, em pleno Inverno tropical. O Brasil era favorito e no primeiro jogo goleou por 4-0 o México. Mas o empate contra a Suiça deixou os brasileiros inquietos pela primeira vez. Era um aviso. No decisivo jogo com a Jugoslávia a vitória por 2-0 garantiu um lugar na final mas deixou no ar muitas dúvidas. O Uruguai, de regresso depois de 20 anos de ausência, beneficiou de ter de disputar só um jogo. A goleada por 8-0 à Bolívia deu tempo aos uruguaios para preparar a segunda fase onde surgiriam muito mais frescos e preparados que os rivais. A Suécia, que batera a Itália de forma surpreendente, e a Espanha de Zarra.

E a Inglaterra? A mesma Inglaterra que um mês antes tinha derrotado por 6-0 a selecção do Resto do Mundo? Depois de uma longa viagem os ingleses chegaram a 20 de Junho ao Rio de Janeiro, onde teriam a sua sede. A época doméstica tinha acabado há mais de um mês e muitos dos ingleses estavam excessivamente confiantes. De tal forma que enviaram uma "outra" selecção numa digressão paralela ao Mundial onde havia alguns jogadores de primeiro nível. O grupo parecia acessível e muitos já se imaginavam a calar o lotado Maracanã. No primeiro jogo, a 25 de Junho, o conjunto inglês dominou e bateu o Chile, no Rio de Janeiro. A vitória da Espanha sobre os Estados Unidos deixava antever um duelo quente entre europeus.

 

Foi já a pensar no encontro com os espanhóis que os ingleses apanharam um avião para Belo Horizonte onde defrontariam os Estados Unidos. Parecia um mero trâmite. De tal forma que a estrela da equipa, Stanley Matthews, ficou na bancada a descansar para o jogo com os espanhóis. Era um jogo desigual, uma equipa de profissionais de primeira linha contra outra de amadores. E no entanto assim é o jogo. Assim foi o “milagre de Belo Horizonte”, como baptizaria depois a imprensa. Aos 20 minutos de jogo já a Inglaterra tinha tido dez claras oportunidades de golo. Mas todas esbarravam nas mãos de Frank Borghi. Os americanos nem tinham tido uma só oportunidade. Até que ao minuto 37 um centro-remate de Walter Bahr encontrou Joe Gaetjens – que era haitiano e acabaria por ser executado pelo governo do Haiti quinze anos depois - que desviou para as redes de Bert Williams. O público entrou em delírio nas bancadas e os jogadores americanos abraçaram-se euforicamente. Billy Wright, o histórico capitão inglês, nem conseguia acreditar. A segunda parte transformou-se num massacre mas, por uma razão ou por outra, a bola parecia fadada a terminar longe das redes americanas. E assim terminou o sonho de superioridade inglês. O Maracanazo. Curiosamente os americanos seriam goleados pelos chilenos (5-2) enquanto que os ingleses voltariam a cair, por 1-0, às mãos dos espanhóis.

A imprensa inglesa tentou justificar a derrota com o clima tropical mas o mito da superioridade britânica tinha-se desfeito como um castelo de cartas. Durante semanas em Inglaterra ninguém parecia acreditar na precoce eliminação e houve mesmo quem pensasse que o título do jornal era um erro e que o jogo tinha acabado 10-0 a favor dos ingleses. A equipa voltou a casa enquanto a prova entrava na fase derradeira e dramática que daria origem a livros e histórias sem fim. O remate de Ghiggia consagrou o segundo bicampeão da história e prolongou a agonia brasileira. Mas nada marcou mais o Mundial do “Maracanazo” do que o semblante derrotado da “Armada Invencível".



Miguel Lourenço Pereira às 15:45 | link do post | comentar

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