Sexta-feira, 12.03.10

 Não chega. No futebol parece que o presente nunca chega. E o passado é demasiado longinquo. Zlatan Ibrahimovic foi a resposta veraneia do Barcelona aos milhões da galáxia de Madrid. Fez história ao tornar-se no primeiro reforço blaugrana a marcar nos quatro primeiros jogos da época. Agora é questionado por tudo e por todos. "Ibradacabra" é, cada vez mais, o jogador mais incompreendido do futebol europeu.

Diz o venerável Arrigo Sacchi que aconselhou pessoalmente Pep Guardiola sobre o negócio que envolvia a troca de Etoo por Ibrahimovic. O italiano terá dito ao catalão que contratava o "melhor jogador individual" do Mundo. E que o seu estilo era totalmente oposto ao que preconizava o então maravilhoso conjunto culé, ainda a festejar o Tri que se tornaria, meses depois, em Hexa. Mesmo assim Guardiola levou avante o seu desejo. E Ibrahimovic chegou a Can Barça rodeado de uma aura pouco habitual naquelas bandas. E não deixou créditos por mãos alheias. Entrou a matar na Liga e rapidamente se colocou na lista dos melhores marcadores. Na Champions também foi fazendo o gosto ao pé. E no confronto directo com o Real Madrid, foi o seu oportunismo que permitiu desequilibrar a contenda. Até então o avançado era tido, por tudo e todos, como uma clara aposta ganha. Os números falavam por si. Hoje o cenário é bem diferente. O Barcelona perdeu gás. Há várias semanas que está furos abaixo da época transacta. E acima de tudo, perdeu a veia goleadora. A equipa sofre quase os mesmos golos do que no ano anterior mas marca muito menos. E entre os melhores marcadores estão os dois extremos, Lionel Messi e Pedro Rodriguez. O sueco? Aparentemente, invísvel.

O pensamento de Sacchi prendia-se com o individualismo de Ibrahimovic.

No entanto a sua quebra de rendimento na equipa blaugrana tem pouco a ver com o habitual registo do avançado sueco. Zlatan integrou-se bem na equipa e os seus números de 2009 confirmam-no. Hoje é vitima da clara descompensação táctica que tem corrompido o estilo jogo fluido dos blaugrana. Todos conhecem a longa carreira do gigante sueco, amante de artes marciais, carros rápidos e sarilhos. E todos sabem que Ibrahimovic não é um ponta-de-lança, apesar da sua imensa estatura. É um falso criativo, um falso segundo avançado, que procura o espaço antes de procurar a bola. Um jogador colectivo que joga melhor na horizontal, em sucessivas trocas de bola, do que verticalmente em direcção às redes. Esse era o perfil do camaronês Samuel Etoo e encaixava como uma luva no jogo de toque vertical de Guardiola. Ao contrário de Etoo - que agora padece do estilo de jogo de Mourinho mais adaptado ao sueco - Zlatan ralentiza o jogo. Procura dar o último passe mais do que aproveitar as oportunidades. Move-se pouco na área, gosta de jogar mais afastado da confusão. É o tipico dianteiro para jogar com companhia, um autêntico Marco van Basten. Também o holandês era letal, mas beneficiava de Ruud Gullit como seu fiel e letal escudeiro. Zlatan joga só. Está isolado entre linhas. E sempre que tenta voltar ao seu local de origem, desequilibra o jogo.

 

Pode ser efeito das lesões, da vontade de inovar ou da simples necessidade de procurar uma alternativa de jogo. A verdade é que, tacticamente, este Barcelona é muito distinto ao da época inaugural do reinado de Guardiola. E Zlatan não é a causa. Antes, a consequência mais directa desta mutação que o prejudica, tanto a ele como à equipa. 

Guardiola mantém uma defesa de presão alta, mas Dani Alves já não utiliza o carril direito a seu belo prazer. E também já não tem Messi para tabelar. O argentino tem-se deslocado, propositadamente, para o eixo central, levando a equipa, muitas vezes, a jogar num 3-4-2-1. Pedro, ou Henry, deslocam-se ao centro (o que justifica os números goleadores do jovem) e acompanham Messi atrás de Zlatan. O meio campo recua uns metros e abre-se mais. Essa inovação tem as suas consequências. Hoje Xavi joga mais longe da área e portanto, mais longe do último passe. Por outro lado, também Iniesta está preso. De movimentos, de espaço. Não acompanha tanto o extremo esquerdo nas movimentações ofensivas e muitas vezes choca com Messi no eixo central. O número 10 perde ao passar ao meio. O seu jogo de regate é positivo em velocidade, com trocas de bolas rápidas com Xavi ou Alves. Este ano Messi arranca do meio e sem espaço, acabando por perder muitas bolas por ter os colegas demasiado longe para o acompanharem. Quando o fazem abrem brechas. Daí saem muitos dos contra-golpes que têm sido letais para o Barcelona. E no meio disso, onde está Zlatan?

Guardiola reserva-lhe o lugar de pivot ofensivo. Joga dentro da área mas de costas para a baliza. A ele pede-se que apanhe as segundas bolas e tabelas do duo ofensivo para quem abre os espaços. O sueco arrasta os centrais consigo e abre caminho a Pedro e Messi. Isso permite-lhe colaborar no jogo ofensivo de forma decisiva mas baixa drasticamente a sua productividade goleadora. É forçado, muitas vezes, a ficar com as sobras. Como se viu em Estugarda. A ideia de Guardiola é representada pelos números. O duo ofensivo atrás do sueco é o mais goleador da equipa. Xavi e Iniesta baixaram o seu ritmo de assistências, por jogar mais atrás, e o jogo dos laterais tornou-se numa das brechas defensivas da equipa. Em lugar do 4-3-3 vertical do ano transacto, onde a equipa atacava e defendia em bloco, reduzindo ao máximo o espaço de jogo, hoje o Barça surge no terreno muito mais estendido. E descompensado. Um 4-3-2-1 de base que rapidamente passa a 3-4-2-1 com a subida dos laterais e o recuo de Busquets ou Touré.

No meio de toda esta mutação táctica, quase imperceptível para os mais distraídos que se fixam apenas que no onze inicial estão os mesmos nomes, é fácil condenar o sueco. A ele foi-lhe atribuido o papel ingrato, um papel que Etoo nunca desempenharia. Talvez por isso a vontade férrea de Guardiola em trocar ambos os jogadores. Ibrahimovic é individualista, é certo. Mas joga muito mais para o colectivo que o sedento camaronês. A equipa ganha em espaço e perde em eficácia. Passa a depender da segunda linha. É a eles, e não ao sueco, quem se deveria pedir responsabilidades na hora de finalizar. Guardiola sabe o que faz e entende que a sua estratégia tem riscos. E também sabe o injusto que é todo este "Zlatan Affair". Afinal, se o Barcelona voltar a vencer a Liga ou a Champions, muito se deverá ao "sueco invisivel".  



Miguel Lourenço Pereira às 07:05 | link do post | comentar

Quinta-feira, 31.12.09

Hoje em dia todos falam no conceito de manager. Mas poucos sabem como a história começou. É preciso andar atrás no tempo até 1945 para encontrar o homem que criou o conceito moderno de Manager. O mesmo homem que transformou o Manchester United na primeira potência do futebol inglês e que teve o condão de criar, ao longo da carreira, três equipas de sonho. Matt Busby é por isso também um dos pais do futebol moderno.

 

Ainda decorria a II Guerra Mundial. No meio das forças britânicas, Matt Busby orientava o treino dado aos militares. Era um veterano do futebol britânico, um dos mais consagrados centrais dos anos 30. Numa das licenças a que teve direito Busby encontrou-se com o seu velho amigo, Louis Rocca. Este era, nem mais nem menos, que um dos directivos do Manchester United e tinha tentado levá-lo para Old Trafford por duas vezes nos anos anteriores. Em ambas Busby preferiu os eternos rivais, primeiro o  Manchester City e logo o Liverpool. Aí forjou uma notável carreira como jogador, depois de ter chegado com 17 desde a sua Escócia natal a Maine Road. Em Liverpool tornou-se capitão de equipa e lider de uma das melhores defesas da época. Forjou amizade com Bob Paisley antes da II Guerra Mundial ter cortado com a sua carreira. Dando início a outra.

 

A amizade que unia Rocca a Busby era tal que aquele logrou convencê-lo a rejeitar o convite do Liverpool que lhe prometia o posto de treinador assim que a guerra terminasse. Com carta branca da direcção, Rocca fez Busby assinar um contrato de cinco anos como Manager. O primeiro da história. O técnico orientava a equipa, decidia os planteis, estruturava as equipas de reservas e formação e tudo isso sem a intromissão da direcção. Nunca ninguém tinha tido tanto poder no futebol. A direcção aceitou todas as exigências e mal terminou a guerra Busby apresentou-se no destroçado Old Trafford, que ajudou a reconstruir. A sua chegada marcou um antes e um depois na história dos "Red Devils". O técnico prometeu levar a equipa a disputar o titulo e logrou-o logo no primeiro ano, tendo perdido para o Liverpool precisamente. Foi sub-campeão nas três épocas seguintes e em 1948 venceu a sua primeira FA Cup levando à loucura os adeptos locais que há décadas que não tinham motivos para festejar. A sua equipa capitaneada por Johnny Carey estava repleta de veteranos de guerra e progressivamente o técnico e o seu inseparável adjunto, Jimmy Murphy, foram lançando jovens da formação. Em 1952 os "Busby Babes" lograram um histórico titulo de campeões. Na equipa já ponteficavam Bill Foulkes, Mark Jones, David Pegg, Jack Blanchflower e o inevitável Duncan Edwards. Ninguém jogava então na "velha Albion" como eles. Em 1956 e 1957 conseguiram um histórico bicampeonato e começaram a etapa final do projecto de Busby: conquistar a Europa.

 

A vida de Busby podia ter acabado naquela tarde de nevoeiro em Munique. A equipa que se preparava para lograr o tricampeonato e quebrar o reinado do Real Madrid da Europa morreu naquele acidente. Os poucos sobreviventes tiveram de ser substituidos progressivamente na equipa e o próprio Busby esteve perto da morte devido aos ferimentos. A direcção do Manchester comunicou-lhe que entendia se preferisse abandonar o projecto. Mas Busby estava mais determinado do que nunca. Apostou em Bobby Charlton, á época suplente de Edwards, um dos malogrados, e à volta dele voltou a construir uma nova equipa. Foi um processo demorado. No entanto as chegas de Nobby Stilles, Dennis Law, John Ashton e Alex Stepney foram compondo o projecto e em 1963 - cinco após o desastre - a equipa voltou aos triunfos vencendo a FA Cup. Dois anos depois, já com um jovem George Best a completar o trio de ases do ataque, a equipa conquistou o seu quinto título sob o comando de Busby. Os "Red Devils" estavam de regresso e dois anos depois, em 1967, voltaram a repetir o triunfo de forma histórica. Estavam lançadas as bases para cumprir um velho sonho. Depois de uma campanha imaculada, o Manchester United chegou à final de Londres como o grande favorito. Mas o rival, o histórico SL Benfica, era respeitado por tudo e todos. Nos minutos antes do jogo a equipa recordou os colegas perdidos em Munique. Mais tarde Charlton diria que sentiu a presença deles à medida que subiam as escadas rumo ao mitico relvado. O jogo terminou empata a 1 mas no prolongamento Best e o jovem Kid desequilibraram a balança. Dez anos depois Munique estava vingado e Busby tornava-se no primeiro técnico a levar um clube inglês ao titulo europeu.

 

A equipa de Manchester estava, no entanto, a terminar um ciclo glorioso. Tinham perdido o titulo desse ano no último jogo para o rival Manchester City e no ano seguinte desiludiu de novo os adeptos ao falhar repetir o triunfo europeu e caseiro. Busby achou que era a hora do adeus e anunciou que se retirava, 24 anos depois de ter entrado pela primeira vez em Old Trafford. Com Charlton, Stilles e Law envelhecidos e com Best a perder-se entre bebidas e mulheres, a equipa desfez-se. Busby foi incapaz de resistir aos pedidos dos adeptos e voltou ao banco em 1971 ajudando a equipa a evitar a despromoção. Que se tornou inevitável no ano seguinte. Era o final de uma era de glória e apesar de Matt Busby se ter mantido na direcção do clube, os "Red Devils" entraram num periodo negro. Até à chegada de outro escocês, avalado pelo próprio Busby que o conheceu pessoalmente num épico jogo europeu do modesto Abardeen. Hoje Alex Ferguson é o único sobrevivente do espirito instaurado por Busby e prepara-se para igualar o veterano treinador em anos à frente do clube que ajudou a reformar. 

 

Matt Bubsy tornou-se rapidamente na maior referência do clube, por encima de qualquer um dos seus jogadores. A sua estátua preside alegremente a entrada do Teatro dos Sonhos e a sua figura é constantemente recordada. Forjou três equipas campeãs de gerações bem distintas e abriu a era de conquistas inglesas na Europa. Acabou a carreira com apenas cinco títulos de campeão mas a forma como soube fazer o clube sobreviver aos constantes sobressaltos tornaram-no numa lenda. As suas disputas constantes com Bill Shankly e Don Revie consolidaram-no como um dos nomes mais amados do futebol inglês. E o primeiro Manager da história foi, provavelmente, também o mais completo.



Miguel Lourenço Pereira às 09:07 | link do post | comentar

Terça-feira, 29.12.09

Numa era em que o Celtic reinava na Escócia a chegada de Jock Wallace a Ibrox Park significou uma inflecção na história do futebol escocês. O Glasgow Rangers superou os fantasmas do passado e o seu mentor tornou-se numa das mais amadas referências do futebol britânico.

 

Jock Wallace foi um modesto guarda-redes de equipas das divisões inferiores e poucos dos seus colegas lhe auguravam um grande futuro quando lhes comunicou que queria ser treinador de futebol. Uma ambição que este filho de Wallyford, nascido em Setembro de 1935, há muito acalentava. Filho de um celebre guarda-redes do Blackpool e Derby County, Jock Wallace não sobreviveu à alargada sombra paternal no terreno de jogo. Mas no banco a conversa foi bem distinta. Em 1966, ano histórico para o futebol britânico, assumiu o posto de jogador-treinador do modestíssimo Berwick Rangers. A equipa militava na terceira divisão da liga escosesa e vivia totalmente no anonimato. Até que o seu veloz 4-4-2 surpreendeu um dia o Glasgow Rangers em pleno Ibrox Park. Era um jogo da Taça da Escócia e Wallace entrava pela primeira no estádio que frequentava em pequeno como adepto. E que aprenderia a venerá-lo como a nenhum outro. Nessa fria tarde de Outono o Berwick venceu por 3-0 aos poderosos Rangers e fez história. Rapidamente o seu nome saltou para as primeiras páginas e no ano seguinte o técnico foi contratado pelo Hearts of Middlothian. A experiência durou pouco mas em Ibrox ninguém esquecera a sua ousadia.

 

Em 1970 o manager dos Rangers, Willie Waddell, ofereceu-lhe o posto de treinador adjunto. Jock Wallace aceitou e tornou-se fundamental na reestruturação de um clube que viva à sombra do rival, o Celtic. A equipa sobreviveu ao drama que se abateu sob o estádio - que provocou a morte a 66 adeptos depois de um golo de último hora ter feito muitos dos que já tinham abandonado o estádio a voltar precipitadamente. No entanto, a meio do ano os distúrbios dos adeptos do Rangers num jogo europeu levaram á demissão de Waddell. A direcção, satisfeita com o trabalho de técnico e olheiro de Wallace, entregaram-lhe a equipa de forma provisional até final de temporada. Uma temporada histórica. O Glasgow Rangers continuou a sua caminhada europeia e venceu em Maio a final da Taça das Taças no Camp Nou diante do Dinamo Moskva. Seria a única vitória europeia da sua história e o nome de Wallace começou a ombrear com o de Jock Stein, o grande mentor do eterno rival. A época seguinte, a primeira de Wallace ao comando do clube a 100%, levou o Rangers a novo triunfo, a Taça da Escócia. Na liga terminaram a apenas dois pontos do Celtic que vencia o seu 9 titulo consecutivo. E último. Na época de 1974-75 o Glasgow Rangers voltou finalmente aos triunfos. Uma temporada de sonho onde os de Ibrox mantiveram a sua invencibilidade ao largo de grande parte da época e acabaram com a malapata que os perseguia. O ano seguinte viu o Celtic retomar o triunfo na prova mas os melhores anos estavam para vir. De 1976 a 1978 o Rangers venceu dois Trebles - Liga, Taça da Liga e Taça da Escócia - mostrando uma superioridade insultante.

 

Subitamente no final da temporada Wallace apresenta a sua demissão para surpresa de todos. Nunca revelou o porquê até à data da sua morte, em 1996, e os adeptos não queriam acreditar. Rumores posteriores falavam em constantes confrontos com Waddell, então director desportivo do clube. Wallace saiu de Ibrox como um dos mais bem sucedidos Managers da história do futebol escocês. Os dois anos seguintes foram passados em Leicester onde transformou uma equipa de segunda divisão numa candidata ao titulo. Levou o Leicester às meias-finais da FA Cup em 1981 e ao quinto posto na liga na primeira época na First Division. Em 1983 não resistiu ao apelo dos adeptos e voltou a pegar no Rangers que durante a sua ausência tinham voltado a cair na classificação. Por então era o Abardeen do jovem Alex Ferguson quem dominava na prova e durante os três anos que esteve em Ibrox o técnico apenas logrou duas Taças da Liga, acabando por sair derrotado de todos os duelos que travou com Ferguson. Despedido em 1986 - precisamente quando o seu novo rival fazia a viagem rumo a Manchester - o técnico ainda foi seduzido pelo calor de Sevilla onde orientou o clube local mas a experiência durou um ano. A doença de parkinson que lhe apoquentava há alguns anos obrigou-o a por um ponto final na carreira. 10 anos depois falecia deixando os adeptos do Rangers em estado de luto.

 

Jock Wallace Jr. marcou um ponto de inflexão fundamental no futebol escocês. O seu estilo de jogo ofensivo e instintivo abriu uma escola que o seu futuro rival, Alex Ferguson, viria a perpetuar. Sob o seu comando o Glasgow Rangers voltou a ser o maior clube da Escócia e ainda hoje em cada Old Firm o seu nome é lembrado com uma tarja em Ibrox, um estádio que nunca o esquecerá.  



Miguel Lourenço Pereira às 16:06 | link do post | comentar

Segunda-feira, 28.12.09

Com o seu mandato chegou ao fim a era gloriosa do Liverpool. Foi o último guardião dos segredos do Boot Room, a sala onde Bill Shankly e os seus ajudantes lançaram as bases da formação mais importante das décadas de 70 e 80. Joe Fagan foi o último guardião da mistica. A sua saída surpreendente após o desastre de Heysel marcou o final de uma era do futebol inglês.

 

Quando Bill Shankly chegou ao Liverpool decidiu transformar uns velhos arrumos numa sala de chá para o corpo técnico. Aí discutia tácticas com o seu conjunto de adjuntos seleccionados a dedo. A mistica do Pool nasceu aí e nessa equipa estava Joe Fagan. O então fisioterapeuta tinha sido um belíssimo lateral esquerdo no Manchester City dos anos 30. A guerra levou-o até às praias da Normandia e nos anos 50 a carreira já tinha terminado. Começou então a etapa como técnico. Primeiro no modesto Rochdale, onde trabalhou como adjunto de Harry Catterick e a partir de 1958 no Liverpool. Quando Fagan chegou ao clube já lá estavam Bob Paisley e Reuben Bennett. A chegada no ano seguinte de Shankly formou a equipa perfeita. Durante a década de 60 Fagan foi um dos fieis seguidores do técnico escocês. Quando este se retirou muitos consideravam que Fagan era o homem certo para o posto mas o técnico e a direcção preferiram o caracter pacato de Paisley. Este aceitou de forma relutante e nomeou imediatamente Fagan como seu braço-direito. E assim a dupla tornou-se na mais bem sucedida da história do futebol inglês. Até ao Verão de 1983. Quando ninguém o esperava, Bob Paisley anunciou o final da sua carreira. E nomeou o seu sucessor: começava a era de Fagan.

 

O técnico herdava uma equipa que conhecia até à medula. Tinha sido figura chava nas contratações de Dalglish, Rush, Barnes e Hansen que permitiram uma tranquila renovação dos heróis dos anos 70. O seu onze tipo era em tudo similar ao do seu antecessor e Fagan limitou-se a continuar a controlar as contas desde o banco. O Liverpool jogava como nenhuma outra equipa e rapidamente assumiu a dianteira do campeonato. Em destaque estava uma descoberta do técnico, o médio dinamarquês Jan Molby que Fagan tinha contratado durante o defeso. Molby foi fundamental na carreira do Liverpool que nesse ano venceu quase todos os troféus possiveis. Arrancou com o Charity Shield, continuou a vencer a Taça da Liga e em Maio sagrou-se, uma vez mais, campeã de Inglaterra. Mas o momento alto estava guardado para depois. Diante da favorita AS Roma de Falcão e Conti e em pleno território inimigo, Fagan dirigiu o Liverpool até à sua 4 Taça dos Campeões Europeus. Um primeiro ano inesquecível que confirmava todo o potencial de Fagan, então já um veterano de 64 anos. 

O ano seguinte acabou por ser diametralmente oposto do que a época anterior. O Liverpool caiu nas meias-finais da FA Cup, e perdeu as finais da Supertaça Europeia e da Taça Intercontinental. Na liga a luta pelo título foi cerrada até ao final mas na última jornada o eterno rival, Everton liderado por Gary Liniker, desiquilibrou as contas e terminou com a hegemonia Red. Por essa altura já estavam todas as cabeças postas em Bruxelas onde o Liverpool ia disputar a sua segunda final consecutiva da Taça dos Campeões diante de outro rival italiano, a Juventus de Platini. Uma tarde que marcou um antes e depois na história do futebol inglês. O desastre de Heysel Park não só acabou com a hegemonia inglesa no futebol. Acabou com o próprio Liverpool.

 

Profundamente afectado pelo desastre que presenciou de forma incrédula, Fagan anunciou de imediato que se ia retirar do futebol. Apesar da direcção lhe ter oferecido um novo contrato por mais duas épocas, Joe Fagan foi inflexível. Ele era o último de uma geração que tinha dominado e controlado o clube por dentro durante 25 anos. Depois dele não havia mais nenhum guardião do Boot Room. Consultado pela direcção recomendou Kenny Dalglish, um dos seus jogadores preferidos, para o posto. O escocês aceitou, sob condição de continuar como jogador. O Liverpool viria a ganhar ainda dois titulos sob o mandato de Dalglish, mas as sensações já não eram as mesmas. Em 1989 o clube entrou numa espiral de auto-destruição que levou à perda do trofeu no último minuto do jogo contra o Arsenal. Começaria uma seca de 20 anos que ainda subsiste. E que Fagan não chegou a ver. Faleceu com 80 anos em 2001, pouco depois de ver o seu nome adicionado ao Hall of Fame onde os seus dois amigos e companheiros de sempre já tinham lugar.

 

Joe Fagan não foi um génio táctico como Shankly nem um tranquilo pastor de homens como Paisley. Mas esteve sempre por detrás de todos os grandes triunfos do clube durante quase três décadas. A sua etapa como técnico ficou marcada por uma das melhores épocas da história do clube. Mas também pelo desastre de Heysel e tudo o que significou. Fagan era o último dos grandes Managers e o seu espirito de gentleman impediu-o de continuar perante um mundo que começava a caminhar perigosamente para o caos absoluto. Anos após ter-se retirado Paisley confessou que nunca tomava uma decisão sem consultar Fagan. Quando lhe comunicaram esta declaração Fagan sorriu e apenas respondeu: "Ali eramos todos um só". E com ele se foi o Boot Room. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:51 | link do post | comentar

Domingo, 27.12.09

O histórico conjunto de Birmingham tem nas suas vitrines uma taça mágica que os adeptos de Villa Park nunca pensaram em lograr. Uma Taça dos Campeões Europeus que não foi ganha por Ron Saunders. Mas apesar disso o seu nome continua a ser o único que os adeptos se lembram dessa era histórica de um dos clubes mais embelmáticos do futebol inglês.

 

A meio da época 1981/1982 a direcção do Aston Villa anunciou que Ron Saunders se despedia. O motivo invocado foram as divergência entre o técnico e os directivos. Na realidade Saunders estava descontente com a falta de apoio do presidente e a promessa por cumprir de investir no plantel como lhe tinha sido prometido. O clube, detentor então do histórico título de campeão, vagueava pelo sexto posto. Mas estava já nos Quartos de Final da Taça dos Campeões Europeus. Saunders saiu e o seu adjunto, Tony Barton, levou a equipa até ao final da época terminando a liga no oitavo posto mas vencendo a inesquecível final diante do Bayern Munchen em Roterdão. Foi o culminar do trabalho de cinco anos de Saunders num clube que tinha sido o mais bem sucedido do século XIX e que há vários anos vivia em situação complicada. Mas voltemos ao início, a Ron Saunders. Esse mentor de homens cerebral com um instinto ganhador inimaginável. Nascido a Novembro de 1932 en Birkenhead, o jovem começou uma carreira promissora como avançado no Everton em 1951. Foi no entanto no Portsmouth, onde militou seis anos, entre 1958 e 1964, que o dianteiro atingiu o seu momento alto. Mais de 250 jogos que valeram 145 golos para os Pompeys. Depois provou ainda o Watford e o Charlton antes de colocar um ponto final na carreira de jogador. E abrir uma nova etapa da sua carreira como técnico.

 

Começou em 1967 a orientar o modestíssimo Yeovil passando depois pelo Oxford e Norwich City. Foi em East Anglia que começou a mostrar as suas aptidões. Os canaries venceram a Division Two no primeiro ano de Saunders como técnico voltando à elite de onde tinham caído anos antes. O ano seguinte foi brilhante para um clube tão modesto. Saunders levou uma equipa condenada à descida até ao 12 posto na classificação e disputou a sua primeira final, a League Cup em Wembley. O Norwich acabou por perder diante do poderoso Tottenham mas o nome de Saunders estava na boca de todos. Foi o Manchester City quem se antecipou e ofereceu ao técnico um contrato de três anos. Na sua primeira época, e com um conjunto bem longe da forma apresentada no final dos anos 60, terminou em 14 na classificação logrando nova presença na final da League Cup. Uma final amarga já que o Wolverampton Wanderers venceram com um golo nos descontos. Foi então que lhe chegou às mãos uma tentadora oferta do Aston Villa, que então agonizava na segunda liga. Plenos poderes e um largo contrato foram suficientes para conquistar Saunders. Começava a sua etapa mais gloriosa.

 

Em Villa Park o técnico encontrou um conjunto descrente. Mas rapidamente aplicou a sua formúla mágica e começou a mostrar o seu perfil ganhador. O clube garantiu rapidamente a promoção à First Division e chegou à final da League Cup. Pelo terceiro ano consecutivo Saunders marcava presença em Wembley. Desta feita com uma vitória. O ano seguinte foi ainda mais saboroso. Nova vitória na League Cup para Saunders e os seus Villains e no primeiro ano de regresso à elite o quarto posto e a subsequente qualificação europeia. Os dois anos seguintes foram passados sem titulos mas o Aston Villa crescia a olhos vistos. Por duas vezes lutou pelo titulo e por pouco perdeu. O conjunto de Saunders transformou o seu mitico recinto num fortim e em 1980 eram claramente uma das mais fortes equipas do futebol europeu. Numa equipa onde pontificavam Gary Shaw, Tony Morley, Peter White e Jimmy Rimmer, o titulo era a única ambição. Há 71 anos que o Aston Villa não vencia a liga. Era a hora.

A época começou com o Ipswich de Bobby Robson a liderar a prova e o Liverpool de Bob Paisley como rival directo. Mas os Villains rapidamente começaram a trepar na classificação e no Boxing Day já eram lideres. O duelo contra o surpreendente Ipswich durou até ao final da prova mas uma vitória em Suffolk foi determinante para acabar com a malapata final. O Aston Villa era finalmente campeão e Saunders terminava a total reconstrução do clube. Aos festejos seguiram-se as promessas da direcção de contratar Paul Mariner e Trevor Francis que nunca chegaram. O Aston Villa começou mal a época apesar dos progressos europeus. Em Dezembro Saunders fartou-se e lançou um ultimato à direcção. Acabou por demitir-se e apesar da vitória do clube, meses depois em Roterdão, esse seria o final da ressurreição do Aston Villa.

 

Saunders cometeu então o maior dos sacrilégios aos olhos dos seus adeptos. Assinou pelo Birmingham e que acabou por descer de divisão nessa época mas rapidamente voltou à ribaltalta. No entanto em 1986 saiu por problemas com a direcção e assinou pelo terceiro clube das Midlands, o West Bromwich Albion que tinha vindo a tropeçar ao longo da época na tabela final. A equipa acabou por ser despromovida e Saunders foi despedido. Uma derrota amarga que o levou a por um ponto final numa carreira brilhante. Hoje continua a ser uma figura reverenciada em Villa Park, apesar da dupla traição, e o seu nome consta como um dos poucos Managers que conseguiram operar a total transformação de um clube desde a subida de divisão à consagração europeia. Um técnico absolutamente histórico. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:34 | link do post | comentar

Sexta-feira, 25.12.09

"I wanted the Liverpool to be like Napoleon and conquer the bloody world!". Uma das frases mais célebres da história do futebol. Proferida numa truculenta entrevista dada já no final da carreira. Uma das mais brilhantes da história. A vida de um génio. Bill Shankly foi, provavelmente, um dos maiores génios do beautiful game. O que não logrou em titulos conquistou em carisma. E marcou a ferro e fogo o seu nome para toda a posteridade.

 

Quando Bill Shankly faleceu, subitamente vitima de um ataque cardíaco, Liverpool parou. O luto invadiu a cidade muito mais do que ao saber a noticia da morte, no ano antes, de outro famoso da cidade, um tal de John Lennon. Porque os anos 60 em Merseyside resumem-se facilmente a esses dois icones. E o Cavern Club e Anfield Road tornaram-se nos dois templos preferidos dos liverpoolianos. A equipa jogou nessa noite para as provas europeias e goleou. Tal e qual como Shankly esperaria. Dias depois, num jogo para a liga contra o Swansea de John Toshack, uma das suas apostas pessoais, o jovem técnico orientou a sua equipa com o seu velho equipamento Red. Nas bancadas havia gente que chorava. Genuinamente. Tinham perdido o seu pai espiritual, o homem responsável porque hoje o nome Liverpool seja conhecido mundialmente. Foi ele quem inspirou uma geração de adeptos que faziam da Kop um mosaico vivo de emoções. Mandou pintar nas escadas que antecediam o túnel de entrada ao relvado "This is Anfield". E transformou o You´ll Never Walk Alone no grande tema da década. Tudo isso hoje é história e tradição. Mas foi com este escocês, baixo e carrancudo, que tudo começou. Um técnico humanista e profundamente dedicado. Capaz de dizer a um jogador que o seu joelho lesionado não lhe pertencia, pertencia ao clube. Mas também de jogar psicologicamente como ninguém. Na véspera de um jogo decisivo contra o Anderlecth o técnico entrou no balneário e apenas disse aos jogadores "A equipa deles não vale nada, a vitória é vossa sem nenhuma dúvida. Não admito menos que 3-0". No final, quando os jogadores voltavam triunfantes no final dos 90 minutos, Shankly bateu com o boné no chão e disse-lhes com um imenso sorriso "Acabaram de ganhar à melhor equipa da Europa". This was Shankly.

 

O técnico escocês mais truculento da história faz parte de uma geração inesquecível à qual também pertencem Jock Stein e Matt Busby. Amigo pessoal de ambos, Shankly era o tipico treinador com espirito de camaradagem. Do primeiro disse que era o primeiro técnico britânico a entrar para a posteridade. Do segundo, que era o melhor manager da história. E ele? Ele foi mais do que isso. Foi a essência do jogo.

Nascido em Glensbuck, uma pequena aldeia mineira no norte da Escócia, William Shankly começou a carreira como jogador para fugir ao árduo trabalho que ocupava o resto da família. Era modesto como lateral e a melhor parte da sua carreira passou-a no Preston North End onde venceu uma FA Cup. Em 1949, já depois de ter sido internacional pela Escócia, guardou as botas e junto ao seu irmão Bob - que chegou a vencer uma Taça da Escócia com o Dundee Utd - começou a preparar-se para seguir a carreira de técnico. Começou no modesto Carlisle Utd mas rapidamente saiu por desavenças com o presidente. Seguiram-se curtas etapas no Sunderland e no Grismby. O seu estilo paternalista, apesar de exigente, rapidamente o fez popular entre os jogadores. Paralelamente o técnico começou a trabalhar com os sindicatos do meio e com o Labour Party. Durante toda a sua vida foi um sindicalista empenhado e um socialista empedrenido. Um homem que gostava de relembrar as suas pobres raizes e utilizá-las como motivação para os próprios jogadores. Um exemplo sucedeu quando treinou o Huddersfield e contratou um jovem escocês mineiro de 16 anos prometendo aos directores que as 45 mil libras pagas tornar-se-iam em 100 mil se o vendessem. Afinal foram 115 mil, quando o Manchester United o contratou. O jovem chamava-se Dennis Law.

 

Em 1959 o técnico entrou em Anfield Road.

Tinha sido contratado para ressuscitar um colosso que vivia um periodo negro na sua história, tendo caído para a Second Division. Rapidamente Shankly impôs o seu método e revolucionou a instituição. Juntou-se aos veteranos da casa, Paisley, Reuben e Fagan e criou o Boot Room. Uma sala onde todos tomavam chá, falavam de futebol, politica e religião. Todas as tácticas, contratações e dispensas eram analisadas aí, por vezes em sessões que duravam até de madrugada. Shankly ficou conhecido em Anfield por ser o homem que fechava o estádio pela noite e o abria pela manhã. Foi o primeiro a implantar os treinos com peladinhas de 5 e obrigou os jogadores e tomar todas as refeições juntos. Em poucos meses o clube tornara-se numa grande familia e o decrépito Anfield começava a parecer um castelo. Aos bons jogadores que Shankly foi descubrindo nas reservas juntaram-se contratações cirúrgicas como Ian St. John, Thompson ou Yeats provaram ser fundamentais. A equipa subiu imediatamente de divisão e começou a disputar título atrás de título. Quatro anos depois de chegar a equipa voltava a saborear um titulo de campeão finalizando uma metamorfose espectacular. No ano seguinte o Liverpool venceria a FA Cup apesar de ter caído nas meias-finais da Taça dos Campeões com o Inter. Só que a final da década a maioria dos jogadores com quem tinha começado esta aventura estavam já em idade avançada e o Liverpool perdia protagonismo para o Manchester United e o Leeds United. Quando todos pensavam que Shankly estava acabado, ele voltou a operar um milagre.

 

As chegadas certeiras a Anfield de Keevin Keegan, Heighway, Clemence e Toshack deram o sangue novo que os Reds precisavam. Shankly reorganizou a sua equipa à volta do pequeno inglês que voltou a devolver o Liverpool ao mais alto. A equipa terminou a Taça das Cidades com Feiras como semi-finalista em 1971 mas dois anos depois venceu o troféu, o primeiro europeu do clube que mais taças conquistaria na década seguinte. Shankly passou esses anos a moldar o seu Liverpool até atingir a perfeição. A sua equipa de 1973 era uma das mais metódicas e eficazes equipas da história do futebol inglês. Foi então que, subitamente, Bill Shankly anunciou que se retirava. A direcção não quis aceitar a sua resignação mas o homem que dizia sempre que em Liverpool só existiam duas equipas "o Liverpool e as reservas do Liverpool", mostrou-se inflexível. Rapidamente se procurou um substituto. Rumores dizem que Shankly queria que Jack Charlton fosse o seu sucessor mas a versão oficial continua a corroborar a ideia de que foi o próprio técnico que elegeu Bob Paisley, um dos homens fulcrais do Boot Room. A equipa continuou o seu caminho mas o técnico rapidamente se arrependeu da sua decisão. Passava os dias no campo de treinos e os jogadores continuavam a tratá-lo por "Mister", enquanto que a Paisley apenas lhe chamavam "Bob". O segundo lugar final do Liverpool levou a direcção a pedir ao técnico que se afastasse de Anfield, sob a acusação que não estava a dar espaço de manobra ao seu sucessor. Tristemente, o fiel técnico acedeu. E Paisley tornou-se no mais bem sucedido treinador da história do futebol britânico.

 

Depois de passar os anos a observar jogadores e equipas, Shankly tornou-se na maior lenda viva da cidade. Era o idolo dos adeptos que o paravam na rua e convidavam a tomar chá só para o ouvirem falar do jogo. Em 1981 um leve ataque cardíaco levou-o ao hospital. Os adeptos acudiram às portas do centro médico rezando e cantando o hino do Liverpool horas a fio. Primeiro anunciou-se que Shankly melhorava, mas subitamente a sua condição piorou drasticamente. O técnico acabou por falecer, aos 61 anos num 29 de Setembro. O luto invadiu o futebol britânico e o homem que uma vez disse que o beautiful game era algo mais do que a vida ou a morte subiu ao céu encarnado onde ainda hoje continua a orientar os seus rumo à victória final.   



Miguel Lourenço Pereira às 11:21 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 23.12.09

Foi um dos melhores jogadores escoseses da história. E um dos seus mais brilhantes técnicos. Durante 25 anos viveu as mais distintas experiências mas sempre deixando o seu selo pessoal. Thomas "Tommy" Docherty foi um dos primeiros managers trotamundos numa era onde os técnicos se fidelizavam para a vida num só ninho.

 

Nasceu a 24 de Abril de 1928 e ainda hoje vive na sua Glasgow natal. Desde sempre que sonhou com uma bola de futebol e depois de sobreviver ao temivel desembarque de Anzio voltou a casa com vontade de começar uma carreira profissional depois de se ter revelado como uma das estrelas da selecção militar. Começou no Celtic, o clube dos seus amores, em 1947 mas rapidamente foi transferido para o histórico Preston North End. Aí esteve durante 10 largos anos onde apontou 10 golos em mais de 300 jogos. Disputou em 1954 a final da FA Cup e durante a sua estadia em Inglaterra tornou-se internacional pelo seu país. Chegou às 25 internacionalizações, sendo a última no Mundial de 1958 na Suécia onde foi um dos elementos mais destacados do Scotish Army. Depois de passar três épocas no Arsenal, Tommy Doc, como carinhosamente lhe chamavam, mudou-se para o Chelsea para assumir a função de treinador-jogador. Começou assim uma longa carreira repleta de inesperados desafios. Em Stanford Bridge o técnico herdou uma equipa de primeiro nível mas envelhecida e não evitou a despromoção. No entanto a direcção continuar a confiar nele e durante o ano que passou na Second Division o técnico montou um onze repleto de vários talentos futuros como Terry Venables, Peter Bonetti e Barry Bridges. A equipa subiu de divisão e no primeiro ano de volta aos grandes terminou no quinto posto. Na época seguinte fechou a classificação em terceiro lugar e venceu a League Cup diante do Leicester. A derrota diante do Manchester United, num jogo em que Docherty não contou com os seus melhores jogadores por motivos disciplinares marcou um antes e um depois na sua carreira. A direcção tentou despedi-lo mas os adeptos não o permitiram. O técnico ficou um ano mais onde terminou nas meias-finais da Taça das Feiras e a FA Cup mas acabou a liga a 10 pontos do campeão. Docherty partiu de Stanford Bridge. O seu sucessor, Dave Sexton, aproveitou o labor dos Docherty Diamonds e nesse ano venceu a FA Cup e a Taça das Taças.

 

Depois de rápidas passagens pelo Rochester, Queen`s Park Rangers e Aston Villa onde nunca durou vários meses por problemas com as sucessivas direcções, Tommy Docherty aceitou um desafio pouco habitual nos treinadores britânicos da sua geração: rumar ao estrangeiro.

O seu destino acabou por ser Portugal e mais concretamente o FC Porto. A equipa azul e branca vivia em guerra interna depois da exclusão de José Maria Pedroto pelo presidente Pinto de Magalhães. O técnico aceitou o desafio mas viveu apenas cinco meses na Invicta. Tempo suficiente para reparar em Pavão e deixar saudades entre os jogadores. O problema era, essencialmente, que nessa época o clube azul-e-branco vivia uma grave crise institucional e os técnicos sucediam-se a velocidade de cruzeiro. Rapidamente voltou às ilhas onde assumiu o posto de seleccionador escocês. Em 1972 o Manchester United vivia a crise do final dos Busby Babes e os dirigentes procuravam um sucessor para o mitico técnico depois da má experiência com Frank O´Farrell. A sua escolha foi polémica mas revelou-se acertada. Na primeira época a equipa garantiu a manutenção a duas jornadas do fim mas no ano seguinte acabou despromovida graças a um golo no último minuto de Dennis Law, entretanto ao serviço do rival Manchester City. Foi a oportunidade de ouro para Docherty renovar o envelhecido conjunto de Old Trafford. Gorada a transferência de Pavão, o técnico contratou para o clube vários jovens jogadores como Steve Coppell, Brian Greenhoff e Lou Macari. A equipa subiu rapidamente de divisão e chegou à final da FA Cup, sendo surpreendentemente derrotada pelo Southampton. No ano seguinte voltou a Wembley para desta feita derrotar o todo poderoso Liverpool. 

 

Em 1977 Docherty anunciou que a sua equipa estava disposta a lutar pelo titulo contra o Liverpool. Os red devils tinham amadurecido e apresentavam um conjunto sólido. Mas a divulgação na imprensa de que o técnico mantinha há um ano uma relação extra-conjugal com a mulher de um dos directivos provocou o seu despedimento imediato. Os adeptos protestaram mas a decisão foi irrevogável. Apesar de apenas ter logrado um título, Tommy Doc tornou-se na grande referência em Old Trafford até ao ano da chegada de Alex Ferguson. Depois do abrupto despedimento o técnico tomou o lugar de David Mackay no Derby County onde fez duas épocas tranquilas. Em 1979 aceitou o desafio de voltar ao Queens Park Rangers mas acabou despedido na pré-época por problemas com a mulher de um dos jogadores. Nove dias depois foi readmitido e o jogador que o denunciou dispensado. No final do ano voltou a ser despedido o que levou a sair de novo de Inglaterra, orientando durante dois anos o Sydney Olympic na Austrália. Depois da bem sucedida experiência volta a casa para orientar o Preston North End por um breve periodo, antes de voltar à Austrália. A polémica carreira terminaria quatro anos depois, numa era onde os seus problemas com os directivos impediam os grandes clubes de o contratarem.

 

Docherty era um motivador nato e perito em descobrir jovens jogadores. Apesar dos seus problemas fora dos relvados o terem impedido de atingir outros patamares, as suas largas etapas no Chelsea e Manchester United permitiram analisar o trabalho de um criador de equipas a partir do nada. Curiosamente os louros acabariam recolhidos pelo homem que lhe sucedeu nos dois casos, Dave Sexton. Mas para a história ficou Docherty, um desses técnicos que só podia ter nascido nas verdes ilhas britânicas. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:38 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21.12.09

É curioso que o primeiro grande herói do futebol escocês tenha ficado para a posteridade como um "Lisbon Lion". Uma tarde histórica no estádio do Jamor que terminou o dominio do futebol latino na Europa e abriu uma época em que os britânicos se tornaram infaliveis. 29 anos depois, a sofrer no banco como nunca, o seu coração não resistiu a uma nova alegria histórica. E o imortal Stein sofreu o destino que um dia Shankly anunciou como o único digno para um grande Manager: morrer no banco.

 

Que o primeiro conjunto britânico a vencer a Taça dos Campeões Europeus tenha sido escocês é uma alegria que em Glasgow não tem preço. Jock Stein foi o grande responsável por esse feito e por isso mesmo, ainda hoje, o seu nome é reverenciado até mesmo pelos eternos rivais do Rangers. Um feito que poucos podem almejar. Mas a história tem dessas coisas. E é importante que se conte desde o principio.

O principio de Stein remonta a Burnbank, uma pequena localidade do sul da Escócia, onde nasceu em 1922 Jock Stein. Durante a guerra o jovem serviu na RAF e depois de ter sido desmobilizado, como muitos veteranos, optou por seguir uma carreira profissional como futebolista. Mas depois de muitos anos em clubes modestos, só na etapa final da carreira chegou ao clube dos seus sonhos, o Celtic de Glasgow. Em Celtic Park a comunidade irlandesa a viver em Glasgow deslumbrou-se com a qualidade de passe do médio que em cinco anos jogou 150 encontros. A maior parte deles como capitão de equipa. Em 1953 foi o responsável pelo primeiro titulo do clube em 18 anos. No final de 1956 saiu ovacionado. Voltaria, uma década depois, para completar o trabalho.

 

Em 1960 Stein já tinha arrancado a carreira de treinador no Dunfermline onde esteve quatro anos tranquilos. Depois de se retirar do Celtic esteve um ano como treinador das reservas, sagrando-se campeão. Até que decidiu começar a carreira por sua conta e risco. No modesto Dunfermline fez história e em 1961 venceu a primeira Taça da Escócia da história do clube, precisamente diante do Celtic. No ano seguinte a equipa disputou a Taça das Cidades com Feiras onde eliminou o Everton tendo apenas caído diante do Valencia, futuro vencedor, ao terceiro jogo. Daí saiu para o Hibernian depois de ter rejeitado um convite do Glasgow Rangers. Estava à espera da sua oportunidade no seu amado Celtic. As suas inovadoras tácticas, utilizando os alas da mesma forma que Ramsey começava a aplicar em Inglaterra, levaram o seu novo clube a uma das melhores épocas da sua história. No final do ano recebeu um convite do Celtic e não rejeitou. Estava preparado.

Ao chegar a Celtic Park a equipa vinha de 8 anos de seca de titulos. Rapidamente Stein mudou a estrutura da equipa. Promoveu vários jovens dos juniores e aplicou o seu sistema de forte rigor táctico na utilização de falsos extremos. Meses depois bateu o seu antigo clube Dunfermline na final da Taça da Escócia. Compensado estava o triunfo de 61.

 

No ano seguinte Stein foi implacável. Venceu a Liga Escocesa com um dos maiores avanços pontuais da história da prova impondo-se em todos os duelos directos com os principais rivais ao titulo. Na Europa defrontaram vários rivais que iam caindo a cada viagem ao Celtic Park. Nas meias-finais defrontaram o histórico Liverpool de outro intratável escocês, Bill Shankly. A equipa inglesa venceu apenas pela regra dos golos fora e no final do jogo Stein baixou ao balneário para desejar boa sorte ao compatriota. Este disse-lhe que o Celtic era a melhor equipa do Mundo. Ambos tinham razão. O Liverpool venceria a prova e o Celtic faria história no ano seguinte. Pela primeira vez na história do clube a equipa venceu um Treble. No campeonato repetiu o esmagador triunfo da época passada e a isso acrescentou a vitória na Taça da Escócia. O grande êxito acabou por chegar em Maio. A equipa foi eliminando os vários rivais na Taça dos Campeões Europeus e chegou à primeira final da sua história marcada para o Jamor. Era a primeira vez que uma equipa britânica chegava tão longe na prova. E apesar do Inter se ter adiantado de penalty nessa solarenga tarde, os jogadores do Celtic foram verdadeiros fenómenos. Fieis ao desenho táctico do seu mentor, a equipa deu a voltar ao marcador e acabou por vencer por 2-1. A imprensa coroou a sua histórica exibição como a dos "Lisbon Lions": E assim se fez história de um conjunto que só contava com jovens nascidos na comunidade irlandesa de Glasgow.

 

Em 1968 a equipa voltou a vencer a liga - pelo terceiro ano consecutivo - e a Taça da Liga enquanto que 1969 os levou a outro Treble histórico: Liga, Taça e Taça da Liga. Apesar de na Europa o conjunto não ter logrado repetir o nível exibido em 1967, na Escócia o Celtic era intocável. Até que chegou 1970. A equipa voltou a vencer a Liga - um histórico Tetracampeonato decidido no último dia - e a Taça da Liga e apresentou-se para a sua segunda final europeia. O rival era o praticamente desconhecido Feyennord. Mas desta feita a sorte acompanhou os holandeses e o Celtic perdeu a oportunidade de ser o primeiro conjunto do norte da Europa a lograr dois trofeus. Apesar da derrota europeia a equipa continuou uma série histórica. Nove titulos consecutivos que tornaram o conjunto católico no mais bem sucedido do futebol britânico a nivel doméstico. Apesar da velha equipa de Lisboa se ter desmoronado com o tempo, Stein continuava a mostrar-se intratável. Em 1975 salvou-se por milagre de um acidente de carro e esteve meio ano fora dos bancos. Voltou na época seguinte para conseguir a melhor pontuação lograda por uma equipa escocesa no campeonato. Em 1978, ao vencer o seu 14 titulo pelo Celtic a direcção persuadiu-o a abandonar o cargo. O técnico contava então com 56 anos e a sua saúde estava debilitada pelo acidente sofrido anos antes. O técnico aceitou contrariado e assumiu imediatamente outro cargo, o de técnico do Leeds United. Curiosamente, tal como anos antes tinha sucedido a Brian Clough, o técnico apenas ficou 45 dias em Elland Road. Insatisfeito com o nivel de profissionalismo do clube que anos antes era a inveja do mundo, decidiu voltar à sua Escócia natal e assumir um posto há muito sonhado, o de seleccionador nacional.

 

Ao serviço da selecção logrou a qualificação para o Mundial de Espanha de 1982 onde a equipa não passou da primeira fase, fruto de um empate no último jogo com a URSS. Quatro anos depois, a Escócia voltava a lutar pela qualificação. Num play-off contra a Austrália os escoceses lançaram-se ao ataque desde o primeiro instante e rapidamente decidiram o jogo. Mas perto do apito final a emoção apoderou-se do veterano técnico. Com a mão agarrada ao peito, Stein caiu fulminado no relvado. Um ataque cardíaco tinha levada a vida de um dos mais geniais técnicos da história do futebol. O futebol escocês entrou em luto e apesar de apurada, a Escócia nunca mais voltou à sua era de glória que bebeu com Stein ao leme da sua selecção e do seu clube mais emblemático. Isto apesar de Alex Ferguson, que poucos meses antes da morte de Stein tinha já sido nomeado por este como seu sucessor, ter levado a equipa ao Mundial.

Inovador na preparação dos encontros, Jock Stein era um técnico iminentemente ofensivo e as suas equipas sempre se pautaram por um estilo de jogo de puro ataque. Viveu longos anos sem conhecer a derrota. Um treinador verdadeiramente imortal.



Miguel Lourenço Pereira às 15:28 | link do post | comentar

Sábado, 19.12.09

O Guiness tem-no como um dos 20 treinadores mais bem sucedidos da história do futebol inglês. E não é por acaso. Lawrie McNemeny durante 30 anos foi um técnico audacioso e que nunca descurou um desafio. Mas foi o seu reinado em Southampton que o levou para os livros da história.

 

Foi um jogador mediocre e nunca chegou a profissional. No entanto como técnico parecia conhecer as quatro linhas com a palma das mãos. Nascido em 1936 em Gateshead, Lawrie McNemeny sobreviveu aos duros anos de guerra e tentou uma carreira desportiva que se revelou falhada ao largo dos anos 50. Mas nunca desistiu de estar envolvido no mundo futebolistico que admirava como poucos. Mais tarde comentaria que falhar como jogador lhe permitiu começar mais cedo a preparar-se para técnico. E assim foi. Em 1964, com 28 anos cumpridos, começou a orientar um clube amador do norte de Inglaterra, o Bishop Auckland. Passou então para o Sheffield Wednesday e mais tarde para o Doncaster onde venceu o titulo de campeão da Four Division. Foi então que o Southampton, um histórico que militava na Second Division, decidiu contratá-lo para relançar a equipa. Os Saints estavam na parte baixa da tabela classificativa à chegada de McNemeny. E o técnico fez história. No seu primeiro ano, em 1976, chegou à final da FA Cup. O rival era o todo poderoso Manchester United e poucos davam por uma equipa da segunda divisão contra os Red Devils. Mas os veteranos de McNemeny controlaram o jogo de forma absoluta e num golpe de génio de Bobby Stokes, a sete minutos do fim, decidiu a final. Wembley rendeu-se ao jovem técnico e pela penultima vez uma equipa fora da primeira divisão venceu o trofeu. O sucesso na taça teve consequências no campeonato e a equipa falhou por pouco a subida de divisão. No ano seguinte, no entanto, sagrou-se campeã da Second Division e voltou à elite.

 

Na Premier Division o Southampton rapidamente encontrou o seu sitio e sob as ordens de McNemeny passou os restantes anos da década de 70 na parte alta da tabela. Em 1979 voltaram a uma final, desta feita da League Cup. O rival era o Nottingham Forrest mas desta feita a história esteve do lado do Golias e os campeões europeus de Brian Clough venceram sem contestação. Mesmo assim o Southampton voltou a qualificar-se para a Europa e obteve a sua melhor prestação na Taça UEFA. Com os anos 80 chegou uma nova fornada de jovens talentosos e a equipa voltou a fazer história. Durante 1984 manteve uma impensável disputa com o poderoso Liverpool de Joe Fagan. Até ao final da época McNemeny sonhou com o histórico titulo mas um tropeção contra o Aston Villa a três jogos do fim ditou o destino. O Liverpool foi campeão e o Southampton logrou o melhor resultado da sua história centenária. Foi também o momento ideal de despedida. Consciente que durante uma década o seu trabalho tinha alcançado niveis inigualiveis no mitico The Dell, o já veterano McNemeny decidiu mudar de ares e assinou pelo Sunderland.

 

O clube nortenho tinha acabado de cair na Second Division nesse quente Verão de 1985 e fez de McNemeny o técnico mais bem pago do futebol inglês superando qualquer orçamento dos colegas da Premier Division. Só que o clube estava destroçado, o plantel desfeito e dois anos depois McNemeny saiu pela porta pequena, poucos antes de se consumar a descida do Sunderland à Third Division. A partir daí a sua carreira tomou um rumo descendente. Foi nomeado adjunto de Graham Taylor na selecção de Inglaterra e em 1994 foi nomeado Director Desportivo do seu Southampton. Esteve dois anos tranquilos no posto e em 1997 acabou por ser despedido pela nova direcção. Depois de uma breve passagem como seleccionador da Irlanda do Norte, o homem dos recordes - com o Southampton esteve largos meses sem conhecer o sabor da derrota nas duas primeiras divisões - decidiu deixar o banco de forma permanente passando a trabalhar na televisão como comentador.

 

Apesar de só ter ganho um título de renome o historial de McNemeny está repleto de feitos inesquecíveis. A forma como moldou o Southampton que marcou a segunda metade dos anos 70 tornou-o num dos técnicos mais acarinhados pelo público inglês que passou a ver no The Dell um fortim intransponível. E ainda hoje os Saints recordam aquela tarde em Wembley como a mais bela das suas vidas.



Miguel Lourenço Pereira às 13:39 | link do post | comentar

Quinta-feira, 17.12.09

"Não diria que sou o treinador número 1 mas sim que estou lá bem em cima no topo". E estava mesmo. Ainda hoje a figura de Brian Clough paira sobre o futebol inglês com um mixto de grandeza e incredulidade. Numa era onde a televisão começava a ganhar o seu espaço, Clough tornou-se na primeira figura mediática do jogo. E criou uma lenda à sua volta que nem a lenta decadência pôde travar. Afinal era, pura e simplesmente, inigualável.

Quanto José Mourinho chegou ao Chelsea anunciando que era um treinador "especial" todos os jornais fizeram eco de Brian Clough. Afinal ele tinha sido o único homem que se atrevera a afirmar que era melhor do que qualquer outro. E as estatisticas confirmavam-no. Por duas vezes Clough conseguiu o milagre de fazer de uma modesta equipa de segunda divisão campeões. Com o Derby County criou uma escola de bom futebol que rompeu com a hegemonia de Leeds e Liverpool na prova. E com o Nottingham logrou o que nenhum técnico conseguiu até aos dias de hoje. Talvez por isso o próprio Clough, então ainda vivo, aceitou a comparação com um reparo importante: "somos os dois bem parecidos!", acrescentou.

Assim era o homem que ninguém conseguia domar. Como ele bem explicou essa foi a única razão porque nunca foi eleito seleccionador inglês. Era incontrolável e desesperava qualquer direcção. Deixou os directivos do Leeds uma hora à espera para dar uma entrevista à televisão local antes da sua apresentação. Manteve um largo braço de ferro com a direcção do Derby County, clube que tinha elevado à glória, que eventualmente o levou a ser destituido. Na semana seguinte a pequena localidade de Derby ficou paralizada em sucessivas marchas de apoio a "Cloughie". Assim era ele.

 

Nascido em Mideslborough em Março de 1935, Brian Clough mais do que ser um gentleman dos bancos era um autêntico showman. Como futebolista teve uma carreira promissora no Midlesborough e Sunderland que terminou abruptamente com uma grave lesão no joelho. Para trás tinham ficado as suas duas únicas internacionalizações e 300 golos apontados em 280 encontros disputados. Terminada a carreira nos relvados com 29 anos, o jovem promissor juntou-se a Peter Taylor e assumiu o destino do Hartlepool United. A modesta equipa estava na Division 4 e no primeiro ano o técnico conseguiu a inesperada promoção. As noticias do seu talento correram depressa e o Derby County, então a viver dias dificeis a meio da Division 2 decidiu contratar a dupla. No Baseball Ground Clough começa a operar o seu primeiro milagre. Com uma série de contratações cirúrgicas e uma mudança básica no modelo de treino da equipa, Clough monta um conjunto ganhador liderado no meio campo por Dave Mackay. O Derby manteve a sua performance de mediania no primeiro ano mas na segunda época com Clough ao leme a equipa logrou o titulo e a promoção. Entre os homens de confiança de Clough no relvado estavam as futuras estrelas Kevin Hector, Roy McFarland e John O´Hare. O titulo consagrado com uma série de 22 vitórias consecutivas abriu o livro dos recordes que tardaria mais de uma década em fechar-se. No ano seguinte o Derby County logrou um surpreendente quarto posto, o melhor da história do clube. Mas foi em 1971 que o delirio tomou conta da modesta cidade. A equipa tornou-se uma máquina de futebol e rapidamente chegou ao primeiro posto. A última jornada foi disputada em dois dias distintos. O Derby venceu o temivel Liverpool e ultrapassou o Leeds Utd na classificação por um ponto. Mas isto tinha sido numa Quarta-Feira e o Leeds de Don Revie, o histórico rival de Clough, jogava no Sabado. Peter Taylor decide então levar a equipa de férias para Mallorca, como prémio da boa época realizada. Clough prefere a Sicilia. É de férias que ambos descobrem que o Leeds perdera o último jogo. Sem o imaginarem, tinham sido sagrados campeões.

O regresso a Inglaterra foi eufórico e a figura de Clough mitificada pela televisão como o novo rosto do futebol inglês. Na época seguinte o clube falhou repetir o titulo devido à ambição de Clough em vencer a Taça dos Campeões Europeus. O Derby foi eliminando todos os rivais até a uma duríssima meia-final contra a Juventus. A equipa saiu injustamente derrotada, com uma histórica péssima arbitragem, e os italianos acabaram por apurar-se. De volta a casa a direcção aproveitou para punir Clough pelos seus consequentes braços-de-ferro e destituiu-o. A má classificaçbo na liga e os constantes artigos criticos e entrevistas dadas pelo técnico foram a desculpa perfeita. Durante uma semana a cidade viveu em rebuliço e quando se anunciou que Mackay tomaria controlo do clube, Clough e Taylor aceitaram a promissora oferta do Brighton. Taylor ficou na costa sul mas Clough acabou por aceitar um presente envenenado: suceder ao seu eterno rival ao comando do Leeds Utd. Foram 44 dias de inferno retratados num livro que se tornou filme e que popularizou ainda mais a figura de Clough. O despedimento anunciado podia ter acabado com a sua carreira. Mas acabou por dar-lhe novo impulso. Sem contrato, Brian Clough aceitou a proposta do Nottingham Forrest, então um clube da parte baixa da tabela da Division II. Taylor voltou a juntar-se ao seu staff técnico e a dupla começou um novo projecto do zero. Um projecto histórico.

 

Em 1977 a equipa venceu a Division 2 de forma categórica e no ano seguinte confirmaram a sua natural superioridade no futebol inglês ao vencer a liga inglesa com sete pontos de avanço sob o Liverpool. O jogo que consagrou Clough como campeão - apenas um de três técnicos a vencer a liga inglesa com dois clubes distintos - seguiu-se a outra histórica vitória, a League Cup ganha ao Liverpool que se viu incapaz de contrariar a eficácia do onze do Forrest. Na época seguinte Clough fez história ao pagar 1 milhão de libras (apesar do técnico ter passado um cheque no valor de 999,999 mil) por Trevor Francis. Era a primeira grande transferência do futebol mundial a atingir tais valores. A opção revelou-se acertada e o dianteiro foi fundamental na campanha europeia do clube. Era o calcanhar de Aquiles do técnico mas a mitica final contra o Malmo confirmou o dedo mágico do técnico. E se parecia que melhor era impossível, em 1980 o Nottingham voltou a vencer o trofeu, frente ao Hamburg SV, tornando-se na única equipa da história do futebol a deter mais Taças dos Campeões que ligas. Nessa época a equipa tinha sido batida pelo Liverpool o que terminou uma histórica série de 42 jogos sem perder, algo que só o Arsenal de Wenger conseguiu superar. Só dez anos depois, em 1988, o técnico voltaria a conhecer o sabor da vitória ao vencer a League Cup. Durante essa década o clube tinha-se establecido a meio da tabela e Clough, cada vez mais afectado pelo alcoolismo, perdera parte do seu encanto. Entrara em conflicto com o seu eterno número 2, Peter Taylor e tornara-se uma persona non grata na maioria dos recintos. Em 1993, depois de 17 anos aos comandos do Nottingham, Clough abandonou o clube e os relvados. Durante anos trabalhou como colaborador de revistas e jornais até que acabou por falecer em 2004.

Clough foi um visionário, um homem que viveu a anos-luz da sua era. Antecipou o poder mediático que rodeia o futebol e a figura do Manager em particular. Bateu todos os seus grandes rivais e mostrou ser perito em transformar modestas equipas em máquinas de ganhar. Sempre jogando bem. Foi um D. Quixote contra o sistema e um idolo para os jogadores que trabalharam com ele. O seu caracter impediu-o de trabalhar em clubes de primeira linha o que provavelmente teria ampliado o seu registo de triunfos. Mas ainda hoje qualquer adepto do futebol sabe que duas Taças dos Campeões com o Nottingham valem bem mais do que quatro ou cinco com um Liverpool. A história tem esse condão, de por cada um no seu sitio. E o de Brian Clough é o Olimpo dos Managers.



Miguel Lourenço Pereira às 12:42 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 15.12.09

Hoje o Manchester City vive dos milhões de sheiks com ambições desmedidas. Mas nem sempre foi assim. O Maine Road chegou a ser a casa do bom futebol inglês, de uma equipa capaz de bater-se com as melhores do mundo. Um onze de citizens comandado com mestria por Joe Mercer, grande dentro e fora das quatro linhas.

 

Foi um dos grandes jogadores ingleses da primeira metade do século. Internacional várias vezes, eleito em 1950 Melhor Jogador do Ano, Joe Mercer era um médio respeitado por tudo e por todos. Durante dez anos comandou o meio campo do Everton. A guerra travou-lhe a carreira mas mesmo assim, em 1946, assinou pelo Arsenal onde disputou alguns dos seus melhores jogos e venceu três ligas e uma FA Cup. Chegou a fazer mais de 400 jogos como profissional antes de retirar-se. Filho de um conceituado futebolista dos anos 20, Mercer decidiu continuar no meio e optou por tornar-se treinador. A experiência como jornalista desportivo não tinha corrido bem e depois de um negócio como merceeiro ter falhado, ser técnico tornou-se no escape óbvio. O seu passado no entanto nunca o deixaria e mesmo quando se sagrou campeão pela única vez, os jornais falavam do "Footballing Grocer".

Entrou a dois dias do inicio da época ao serviço do Sheffield United devido à morte súbita do técnico anterior. A experiência correu mal e a equipa foi despromovida. Aqueles que lhe auguravam um futuro complicado pareciam ter razão. A experiência seguinte correu pior. Tomou controlo do Aston Villa, que seguia em último na Primeira Divisão, e não logrou salvar o exército villain. A derrota no último jogo provocou-lhe um ataque cardíaco. A direcção, sem piedade, aproveitou para despedi-lo. Seria a última vez na sua carreira.

 

Em 1965 Joe Mercer estava ao comando do Manchester City. Um ano de interregno para recuperar forças e um projecto aliciante em Maine Road. Mercer apanhou o conjunto a meio da tabela da segunda divisão e tornou-os campeões no primeiro ano. Com a ajuda de Malcolm Alisson, como adjunto, a equipa logrou a subida de divisão e no primeiro ano entre a elite terminou na parte alta da tabela. Os adeptos do City viviam à sombra do sucesso desportivo dos eternos rivais, os Busby Babes. E em 1968 aconteceu o inesperado. Com o Man Utd concentrado em vencer a sua primeira Taça dos Campeões Europeus, o Manchester City de Mercer dominou a liga. A equipa colocou-se rapidamente no topo da tabela, depois de derrotar Liverpool e Leeds em dois jogos consecutivos no celebre Boxing Day. Liderados pelo duo composto por Summerby e Bell o City mostrou-se intratável e venceu o título. Apenas o segundo da sua centenária história. Um triunfo que elevou Mercer à categoria de génio táctico, particularmente depois de ter dado a reviravolta num jogo electrizante contra o Man Utd de Busby. A equipa celebrou o titulo que não voltaria a vencer desde então. No ano seguinte o Man City cedo se viu afastado do trofeu mas em troca venceu a sua primeira FA Cup em largos anos. Um trofeu fundamental para em Maio de 1970 o clube de Manchester lograr o seu unico titulo europeu, uma mitica final da Taça das Taças contra os polacos do Gronik Zabzre no Prater. Um jogo ganho por 2-1 sem Summerbee mas com um Neil Young em óptima forma. O avançado apontou um golo e sofreu a falta que possibilitou a Francis Lee ampliar a vantagem. Os polacos reduziriam na segunda parte e até ao final o sofrimento dominou o banco do Man City. A vitória deu a Mercer a alegria da sua vida, poucos dias depois de já ter vencido a sua primeira League Cup.

 

Na inicio da década de 70 o City de Mercer continuava a ser uma força de respeito. A equipa lutou pelo titulo contra o Liverpool e Leeds mas voltou a falhar na Europa. A renovação geracional começou a opor os dois técnicos do conjunto. Allison aliou-se então a um grupo de descontentes que queriam um novo rumo para a direcção. Joe Mercer ficou fiel ao quadro directivo de Albert Alexander. Este acabou por ser destituido e o novo grupo de donos do clube imediatamente começou a cortar nos privilegios do técnico. Num dia em que Mercer chegava ao estádio para dar mais um treino, a situação atingiu o limite. O técnico tinha ficado sem o seu lugar de estacionamento entregue a Allison. Decidiu demitir-se no acto quando a equipa ainda estava a disputar o título. A saída enfureceu os adeptos do City mas por essa altura já Mercer tinha assinado um contrato com o Coventry onde estaria até 1974. No final da época foi eleito como seleccionador de transição, para substituir Sir Alf Ramsey. Orientou os Pross durante sete jogos, concedendo apenas uma derrota. A nomeação de Don Revie significou o seu afastamento dos quadros da federação. O ex-técnico do Leeds não suportava a figura de Mercer e anunciou que traria a sua própria equipa. A decisão precipitou o final da carreira de Mercer. O técnico tornou-se director do Coventry City, acabando por se retirar nos anos 80 quando lhe foi diagnostecida a doença de Alzheimer.

 

Mercer não foi um técnico tacticamente inovador e a sua carreira teve vários altos e baixos. Mas a sua etapa como manager do Manchester City faz parte dos anais da história do futebol inglês. Mercer montou um onze sólido onde o vedetismo não tinha lugar. A equipa jogava bom futebol e durante dois anos deixou à sombra o poderoso rival de Manchester. Depois da sua saída o clube nunca mais atingiu o mesmo sucesso e ainda hoje, enquanto esperam uma finta de Robinho ou Adebayor, os adeptos veteranos dos citizens lembrar-se-ão com saudade das danças de Mike Summerbee e os golos de Colin Bell, os Mercer Boys.



Miguel Lourenço Pereira às 13:34 | link do post | comentar

Domingo, 13.12.09

Não há nenhum treinador no Mundo que possa presumir de ter sido o único a sagrar-se campeão mundial com a selecção inglesa. A fundadora do beautiful game. Um título que perseguiu Sir Alf Ramsey durante toda a sua carreira e ofuscou outros elementos brilhantes da carreira de um técnico que ainda hoje é lembrado como um dos grandes gentlemans do futebol.

 

A carreira de Alf Ramsey ficou marcada pelos recordes. Há homens predestinados para a grandeza e ele era certamente um deles. Um génio capaz de sacar o máximo de uma equipa durante 90 minutos. Um pastor de homens à antiga, dedicado com os seus jogadores mas inflexível a partir do momento em que a sua decisão estava tomada. Optar por Geoff Hurst em lugar do demoníaco Jimmy Greaves poderia ter manchado eternamente a sua carreira. Mas ajudou a fazer história. Assim era o tranquilo Ramsey, o primeiro seleccionador inglês promovido ao título de Sir. E que os jogadores conheciam como "The General".

Nascido em Londres no mês de Janeiro de 1920, Alfred Ramsey foi um dos muitos recrutas que a Guerra levou para as areias do deserto africano e logo para as praias da costa francesa. Depois de cinco anos ao serviço da infantaria voltou a Inglaterra para retomar uma velha paixão: o futebol. Começou a actuar como profissional com o Southampton onde esteve cinco anos de bom nível. Defesa direito com um imenso sentido táctico, Ramsey foi transferido em 1949 para o Tottenham Hotspurs. Aí tornou-se na estrela de uma equipa que ficou para a história como a primeira formação a ser campeã da liga no ano seguinte a ser promovida. Por essa época Ramsey era igualmente titular com a selecção inglesa, onde chegou a levar a braçadeira de capitão. O seu último jogo marcou uma era. A derrota por 6-3 com a Hungria no Wembley acabaria com o reinado dos Pross na sua própria casa. E o final do dominio ficticio do futebol inglês. Treze anos depois o domínio seria restaurado. Pelo próprio Ramsey.

 

Ao acabar a carreira como jogador Alf Ramsey declinou entrar no mundo dos negócios, convidado por familiares, e decidiu abraçar a carreira de treinador. O seu primeiro desafio ia chamar-se Ipswich Town. O modesto clube de East Anglia militava então na Terceira Divisão e era um bom ensaio para futuros voos. A história provou estar enganada e logo no primeiro ano Ramsey conseguiu terminar no terceiro posto da liga, bem longe da habitual mediania do conjunto de Suffolk. Uma equipa extremamente ofensiva que acabaria por sagrar-se campeão na época seguinte mas que acabaria por terminar os anos seguintes na metade alta da tabela da segunda divisão. Por essa época o Ipswich era uma temível máquina de fazer golos mas sofria muitos, particularmente em bolas paradas. A equipa passou por um processo de regeneração e em 1961 o onze de Portman Road conseguiu vencer a prova e subir à Primeira Divisão. Ramsey era um técnico sério. Tinha disposto os seus jogadores num 4-4-2 clássico mas com uma variação fundamental. Onde extremos transformavam-se em médios ofensivos para organizar a equipa quando esta não tivesse a posse de bola. O técnico preferia homens que se adaptassem à sua táctica e que colocassem o colectivo como prioridade. Foi com guerreiros como John Wark que o Ipswich fez história.

Depois de uma promoção histórica a equipa entrou de rompante na Primeira Divisão. Uma série de vitórias inesperadas lançaram o Ipswich para o topo da classificação. De onde nunca mais iriam sair. Alguns tropeções sem importânica. E no final o título. Com três pontos de vantagem do Burnley. Histórico. Único. Irrepetível. Dois anos depois a equipa tinha caído de novo no poço. Ramsey já lá não estava.

 

Em 1963, depois de celebrar o título de campeão, Alfred Ramsey foi nomeado seleccionador inglês. O objectivo era preparar a equipa para o Mundial, que se disputaria pela primeira vez em solo inglês, três anos depois. O seleccionador rapidamente montou a sua equipa tipo e manteve-se fiel a ela durante os primeiros anos do seu mandato. Banks, os irmãos Charlton, Greaves, Bobby Moore, Stiles e companhia. Ao ser apresentado, prometeu vencer o Mundial. Ninguém o levou muito a sério. A selecção inglesa vinha de outra debacle no Mundial do Chile e tinha perdido o amor próprio. A sua decisbo de tomar controlo de todas as decisões que rodeavam a selecção levaram-no a ser o primeiro Manager dos Pross. Começava a desenhar-se a formação que iria devolver a glória aos inventores do jogo. Recuperou a táctica ensaiada com sucesso no Ipswich e colocou atrás dos dois pontas de lança dos médios ofensivos móveis, apostando por fazer a bola circular pelo miolo. Isso permitia maior eficácia a defender, dava liberdade ofensiva aos laterais e criava superioridade no meio campo. Quando chegou o Campeonato do Mundo a sua selecção estava bem oleada. A prova começou com um empate cinzento com o Uruguai e os primeiros assobios. A equipa actuava com Greaves e Hunt no ataque e Charlton e Callaghan no apoio. Seguiram-se as vitórias diante de México e França - com Peters e Connelly a estrearem-se pela equipa - e a nos quartos-de-final o choque contra a Argentina. Já com Hurst no lugar do tocado Greaves e com Alan Ball, Nobby Stilles, Bobby Charlton e Martin Peters no apoio à dupla atacante, a Inglaterra bateu os argentinos graças a um golo de Hurst e à auto-expulsão de Ratin. A meia-final com Portugal provou o génio táctico do seleccionador. Depois do 4-3-3 e 4-4-2 sem alas, contra os Magriços a Inglaterra neste desafio foi a força defensiva que fez a diferença. Dois erros do guardião luso deram a Charlton o carimbo ideal para marcar o passaporte para a final. A história tratou de resolver o resto. Ramsey cumpriu a promessa e a Taça Jules Rimet ficou em casa.

 

No final da prova Ramsey foi elevado a Sir, a primeira vez que um técnico de futebol recebia tal distinção. No Europeu que se seguia a selecção inglesa ficaria em terceiro e para o México chegava com altas expectativas. A derrota com o Brasil ficou marcada como um dos grandes jogos da década. Apesar da defesa de Banks o escrete venceu e os ingleses tiveram de defrontar de novo a Alemanha nos Quartos de Final. Aí, e apesar de terem estado à frente do marcador até aos 70 minutos, os alemães tiveram direito à sua desforra com um jogo memorável de Gerd Muller.  O final da prova marcou o fim da aura invencível do técnico que começou a sofrer contestação. A renovação geracional dos campeões do Mundo passou a ser um problema que nem Ramsey logrou resolver. Ao falhar o apuramento para o Euro 72, numa dramática eliminatória com a RF Alemanha, e, dois anos depois, para o Mundial da Alemanha contra a Polónia, Alf Ramsey foi demitido sem honra nem piedade. A critica queixou-se de que as suas tácticas, antes inovadoras, não cabiam num mundo onde o futebol total era a nova moda. Incapaz de encontrar um sucessor digno para Charlton, Moore ou Hurst, a equipa inglesa tinha perdido a sua coerência.

 

Depois de breves passagens pelo Panatinaikhos e Birmingham, em 1978 Alf Ramsey pôs fim à sua carreira como treinador. Vinte e um anos depois acabaria por morrer. Curiosamente tinha sido um ex-técnico do Ipswich, Bobby Robson, o único seleccionador que esteve perto de emular o seu sucesso. Ao morrer Inglaterra reencontrou-se como o seu único treinador campeão do Mundo depois de anos onde a sua figura foi deixada em segundo plano. A sua frieza e dominio tácticos ajudaram a fazer história e o seu espirito visionário mudou para sempre o futebol inglês.



Miguel Lourenço Pereira às 15:56 | link do post | comentar

Sexta-feira, 11.12.09

Depois dos gloriosos anos de Herbert Chapman e antes do longo consulado de Arsene Wenger o Arsenal foi sempre uma equipa à procura da sua identidade. Consegui-o durante uma larga década, altura em que um modesto técnico que só queria ser preparador-fisico ajudou a acabar com uma longa seca de titulos. E deu inicio a outra com a sua partida.

Bertie Mee é um nome desconhecido para a maioria dos adeptos europeus mas para os fãs do Arsenal é uma lenda que ombreia taco a taco com Champan e Wenger no altar dos grandes técnicos da formação londrina. Ao contrário de muitos dos seus rivais da época, Mee era tudo menos o que se podia esperar de um manager de sucesso. Extremamente humilde e desligado do universo das estrelas que começava a dar forma ao futebol inglês, Mee tornou-se treinador do Arsenal por acaso e contra a sua vontade. Obrigou mesmo a direcção a adiccionar uma cláusula ao seu contrato que especificava que podia voltar ao seu posto de fisioterapeuta no final da época se o clube encontrasse um técnico substituto. Mas não, não encontrou. E Mee ficou no banco de Highbury Park durante 10 anos.

 

O técnico tinha sido um modesto jogador do Derby County nos anos 40 e a II Guerra Mundial precipitou o final da sua carreira desportiva. No exército tornou-se fisioterapeuta, posição em que entrou no Arsenal em 1960 depois de breves passagens por outros clubes londrinos. Seis anos depois de chegar a equipa vivia os seus piores momentos. Sem titulos desde 1953 e longe da celebre era de Chapman, a direcção queria sangue novo no banco. Surpreendentemente elegeu o modesto preparado fisico. Mee rejeitou. A direcção insistiu e este acabou por aceitar, exigindo no entanto que Dave Sexton e Don Howie se tornassem nos seus adjuntos. Bertie Mee sabia que tacticamente era um técnico mediano, mas era perito em descobrir e polir novos jogadores. O balneário adorava-o e os adeptos rapidamente se renderam ao seu estilo. O "boring Arsenal" tornou-se numa equipa viva e divertida, especialmente após a sucessiva aposta na formação do clube. Como antes. Como depois.

Com Pat Rice, George Graham, Ray Kennedy, Charlie George e mais tarde Liam Brady, o Arsenal tornou-se numa equipa atractiva, apesar de pouco eficaz. Entre 1968 e 1969 esteve em duas finais da Taça da Liga e em 1970 ganhou a sua única prova europeia até hoje, a Taça das Cidades Com Feiras ao Anderlecth belga. Uma vitória que devolveu o orgulho aos adeptos gunners e que seria a ante-camara da época gloriosa de 1970-1971. Com os seus soldados a postos, Mee apostou numa equipa rejuvenescida e mais eficaz. Durante todo o ano esteve nos postos cimeiros da classificação, ao contrário de épocas anteriores. E, subitamente, saiu disparado em Março ultrapassando Leeds e Liverpool e ganhando o primeiro título em 18 anos. Uma vitória histórica que teve o sabor especial de ter sido lograda em White Hart Lane, nos últimos minutos da derradeira jornada frente ao Tottenham. Uma semana depois, para dar forma à festa, a mesma equipa deu a volta a um marcador desfavorável e bateu por 2-1 o Liverpool em Wembley. O técnico que não queria sê-lo conseguiu um feito ao alcance de muito poucos. Tornou-se imediatamente o idolo de Highbury.

 

O ano seguinte acabou por não corresponder às expectativas. Eliminado precocemente na Taça dos Campeões Europeus, a equipa desde bem cedo perdeu o comboio do título e apesar de ter logrado uma presença na final da FA Cup, acabou por sair derrotada pelo Leeds de Don Revie. A derrota marcou também o fim da era de Mee. Os seus jogadores chave começaram a abandonar a equipa e em 1976 o técnico também decidiu colocar o lugar à disposição depois de ter voltado a falhar o ataque ao titulo. Levava no entanto um recorde de 241 vitórias (algo que só em 2006 Wenger lograria bater) e o coração dos adeptos do Arsenal. A equipa já não apresentava o seu melhor futebol, aquele que tinha perfumado os relvados ingleses desde finais da década de 60, e Mee estava desencantado com a politica da direcção que teimava em não apostar forte no mercado como o técnico solicitava ano atrás ano. A sua saída do Arsenal significou igualmente o final da sua carreira. Ainda colaborou como ajdunto para o seu amigo Graham Taylor no Watford, tendo lançado então o desconhecido John Barnes, mas a sua paixão pelo jogo tinha-se esmorecido e rapidamente decidiu optar pelo tranquilo caminho da reforma. Acabaria por falecer em 2001, depois de ver o seu clube voltar a apresentar o seu mais belo rosto.

Hoje técnicos como Bertie Mee são uma raridade. Homem de um clube só, pôde manter o seu estilo apostando constantemente no futebol de formação, uma realidade que desde então se tornou escola em Highbury Park e que lançou as bases do sucesso de hoje. Sem a genialidade táctica de outros rivais da mesma era, Mee era mais um pastor de homens tranquilo e da mesma forma como chegou ao futebol, assim se despediu. Mas sempre deixando saudades juntos daqueles que vibraram com aquelas tardes debaixo da bancada do relógio. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:30 | link do post | comentar

Quarta-feira, 09.12.09

Poucos homens foram tão amados na história do futebol. O reinado absoluto de Don Revie em Leeds foi uma etapa nuclear na profissionalização do futebol britânico. O seu objectivo era tornar o clube de Yorkshire no Real Madrid de Inglaterra. O seu dominio não foi o mesmo, mas a sua equipa tornou-se no alvo a abater. A história, infelizmente, ficou apenas com os seus aspectos negativos e hoje pouco se lembram da lenda de invencibilidade que o rodeia.

No recente The Damned United - filme que retrata a mês e meio que Brian Clough passou no banco do Leeds Utd - a figura de Don Revie é olhada com um desprezo reverencial. Transformado quase num oficial do exército vermelho, Revie surge como um ogre, capaz de controlar à distância tudo o que o rodeia. A nemesis perfeita de um génio em convulsão. A figura do técnico que marcou a viragem da década do futebol inglês é, por isso mesmo, ainda hoje extremamente confusa. Há os que se recordam dos seus 11 invenciveis, uma equipa inesquecível que se mostrava implacável contra qualquer rival. Há também os que apontam o dedo ao seu consulado falhado ao serviço da selecção inglesa. E por fim paira no ar as suspeitas de corrupção ilicita ao largo dos últimos anos de Revie como técnico. Como o mau sempre parece enturbiar o bom, Don Revie ainda é visto como o brigão do futebol inglês. O técnico do qual nenhum adepto quer ser admirador hoje em dia. O politicamente correcto do futebol diriamos.

 

E no entanto à época, Don Revie era vivido, tratado e reverenciado como um génio. Foi rival directo de três dos maiores treinadores da história do futebol e pode gabar-se de os ter batido a todos. De forma regular. O seu Leeds United foi, na segunda metade dos anos 60 e no principio da década de 70 a alternativa lógica ao duo Liverpool-Manchester United. E se em Londres havia bom futebol nos pés dos jogadores do Arsenal, Chelsea e Tottenham. E se Manchester tinha duas equipas de respeito e um tal de Brian Clough fazia maravilhas com o desconhecido Derby County, a verdade é que era o Leeds quem enchia as capas de jornais. Obra de um só homem.

Don Revie nasceu em Middlesborough - tal como o seu rival Clough - no Verão de 1927. Começou como jogador no Leicester e foi no Sunderland onde atingiu o seu apogeu desportivo. Em 1958, depois de 64 jogos ao serviço dos nortenhos, transferiu-se para o Leeds Utd por valores históricos. Era um avançado de renome, internacional e o responsável pela criação do falso-avançado no futebol inglês, posição durante anos reconhecida como o "Revie Plan". Em 1962, com 36 anos retira-se. O clube convida-o a pegar na equipa que por então penava na Second Division. Começavam os Glory Years.

Em três anos o técnico montou uma equipa ganhadora. Depois de um ano como treinador-jogador, dedicou-se exclusivamente ao aperfeiçoamento táctico do seu 4-2-4 que rapidamente se tornaria em 4-4-2. O Leeds sagrou-se campeão da segunda divisão e no primeiro ano na Division One a equipa terminou no segundo lugar, disputando até à última jornada o titulo com o Manchester United de Matt Busby. As ácidas relações entre ambos técnicos ficariam para a história tal como os duelos de Revie com Shankly, que nesse ano o derrotou na final da FA Cup. A equipa voltou à carga no ano seguinte e voltou a terminar o ano no segundo posto, agora atrás do Liverpool e de novo disputando o trofeu até ao último momento. Os dois anos seguintes foram complicados, com vários jogadores da equipa base de Revie a terminarem a carreira. Era a época de apostar em sangue novo. O treinador montou um meio-campo de ferro com Billy Bremner, Peter Lorrimer, Jack Charlton e Johnny Gilles. Um quarteto que faria história a partir de 1968. Por essa época a equipa já tinha deixado o tradicional azul e amarelo, passando a equipar de branco. Segundo Revie, o Leeds tinha de se tornar no Real Madrid do futebol inglês e nada melhor do que equipar-se como os espanhois.

 

Em 1968 a equipa comemora os dois primeiros trofeus com Revie. Vence a Taça da Liga e a Taça das Cidades com Feiras pela primeira vez. Numa final histórica contra Ferencvaros a equipa desforrou-se da derrota no ano anterior (frente ao Dinamo Zagreb) e antecipou um ano de luxo para o futebol inglês. Duas semanas depois os rivais de Manchester sagravam-se campeões europeus. O ano seguinte foi o da consagração. Com Bremner e Gilles no seu melhor o Leeds proclamou-se finalmente campeão com uma larga vantagem sobre o segundo classificado, o Liverpool de Shankly. A equipa confirmava a sua superioridade e Don Revie era, pela primeira vez, eleito Treinador do Ano. Prémio a um trabalho genial que levou a que, durante uma década, o Leeds nunca tivesse saído dos quatro primeiros. Algo que nenhum outro conjunto inglês logrou. Em 1971 a equipa voltou a disputar o titulo até ao final. Por esta altura começaram as acusações de jogo violento e anti-desportivo que tornaram o clube de Yorkshire no mais odiado do país. A campanha de Clough, Shankly e Busby contra Revie fizeram dele persona non-grata. Mas em Leeds adoravam-no. No mesmo ano a equipa venceu a sua segunda Taça das Cidades com Feiras (diante da Juventus) e voltava à final da FA Cup. Depois de voltar a vencer o trofeu, em 1973 o Leeds conquistou o título da liga pela segunda vez com Revie ao comando. Seria o último trofeu no banco de Elland Road. No Verão o técnico que tinha rejeitado suceder a Matt Busby não resistiu a tomar controlo da selecção inglesa. Os adeptos mostram-se contra a sua nomeação. E Leeds começou a descida aos abismos.

 

Ao serviço de Inglaterra a carreira do homem que tinha vencido por três vezes o prémio de Treinador do Ano começou a sua etapa final. Falhando o apuramento para o Euro 1976, Revie começou a envolver-se em polémicos negócios com empresas onde detinha participações. Uma delas, a Admiral, tornou-se na primeira patrocinadora a ver o seu nome inscrito na camisola dos Pross. Um atento à tradição inglesa que precipitou a sua demissão. Ter falhado o apuramento ao Mundial de 1978, estando várias vezes ausente do país em datas chave da qualificação, foi a gota que transbordou o vaso. Emigrado para os países árabes, Revie assumiu o cargo de seleccionador dos Emirados Arabes Unidos mas novas polémicas à volta de apostas ilegais levaram-no a rescindir o milionário contrato. Voltou amargo para a sua Inglaterra natal onde a sua figura tinha passado para segundo plano. Quando morreu, em 1989, o seu Leeds vivia horas complicadas. Seria campeão cinco anos depois, mas hoje vive na amargura da III Divisão onde caiu depois de entrar em falência.

Em Elland Road todos se lembram ainda do Boss Revie, um técnico que tratava os jogadores como filhos e que forjou uma das mais competitivas equipas da história do futebol. Poucos clubes lograram jogar tantas finais e disputar tantos campeonatos até à última jornada como o seu Leeds. A história preferiu o lado negro de Ron. Os amantes do beautiful game nunca esquecerão o seu sorriso ganhador.



Miguel Lourenço Pereira às 14:43 | link do post | comentar

Sábado, 05.12.09

"É a segunda vez que bato aqui os alemães. A primeira foi em 1944 quando entrei pela cidade montado num tanque do exército no dia da libertação". Com simples e honestas frases como esta, Bob Paisley tornou-se num dos maiores mitos do futebol moderno. É o técnico com mais titulos numa carreira que não durou uma década. Ofuscado pelo forte caracter do seu antecessor, a verdade é que Paisley marcou a era dourada do futebol inglês. E se muitos atribuem a Bill Shankly a paternidade do "espirito Liverpool" a verdade é que foi sob o comando do modesto Paisley que o clube viveu as suas maiores épocas de glória.

 

"Lembro-vos que também tivemos momentos dificeis. Um ano acabamos em segundo!". Um desabafo que explica bem o consulado de Robert "Bob" Paisley em Anfield Road.

Em nove anos como técnico principal Paisley ganhou quase tudo o que havia para ganhar. Faltou-lhe apenas a FA Cup, trofeu maldito que sempre se lhe escapou pelas mãos. É, ainda hoje, o único treinador que conta com 3 Taças dos Campeões Europeus. Em nove épocas ganhou seis ligas inglesas, uma Taça UEFA, três Taças da Liga, cinco Supertaças e uma Supertaça Europeia. Um registo, ainda hoje, inigualado. Ao final, Paisley saiu como chegou. Sem fazer muito ruído, mas sob uma enorme ovação. Sempre reconheceu ter herdado um projecto ganhador e nunca se quis atribuir o mérito do melhor Liverpool da história. Permaneceu fiel ao espirito criado no mitico "Boot Room", a sala que Shankly transformou em salão de chã e tácticas, e que forjou a magia que rodeia, ainda hoje, Anfield Road. Foi o exemplo perfeito de um técnico de causas. Esteve envolvido durante 50 anos no mundo do futebol. Sempre ao serviço do Liverpool. Primeiro como jogador, chegando a capitão de equipa. Mais tarde como membro de várias equipas técnicas. Até ao dia em que Shankly lhe confessou que se retirava. E que o tinha acabado de nomear sucessor. Paisley disse que não ao seu mentor. À direcção. E aos próprios jogadores. Acabou por aceitar, a contragosto, o papel que desempenhou com mestria.

 

Na Primavera de 1939 Bob Paisley entrou pela primeira em Anfiel Road. Para não voltar a sair.

Contava então com 20 anos, um forte sotaque "geordie" e um ar bonacheirão que o tornava simplesmente irresistível. Tornou-se num filho adoptivo da cidade. Demorou sete anos a estrear-se com a camisola vermelha. Durante esse tempo serviu, como tantos outros da sua geração, nas frentes de guerra. No regresso assumiu o seu posto em Anfield e tornou-se decisivo no titulo logrado em 1947. Quatro anos depois era já o capitão indiscutível. E quando em 1954, com 35 anos, decidiu retirar-se, o clube ofereceu-lhe de imediato o posto de fisioterapeuta na equipa técnica. Paisley aceitou de bom grado e começou uma longa e épica aventura. Fez parte de várias equipas técnicas que marcaram a época da decadência dos "Reds". A equipa desceu de divisão e foi aí onde, em 1959, conheceu Bill Shankly. O ousado escocês escolheu Pasley, Joe Fagan e Reuben Bennett como os seus adjuntos. Juntos criaram o célebre "Boot Room" onde se reuniam todos os dias para discutir tácticas, jogadores, rivais e politica. Seria a base do espirito napoleónico do Liverpool de Shankly. Durante os 15 anos seguintes o escocês transformou o clube por completo. Mas em 1974 surpreendeu todos ao anunciar a sua retirada. Tinha deixado a equipa montada para a era de glória que lhe esperava. E precisava de um sucessor. De todos, optou por Paisley, que era o seu oposto. A ideia caiu bem no grupo de jogadores que adoravam Paisley pelo seu espirito de camarada de balneário. Na primeira época a equipa terminou em segundo e muitos questionaram o papel do técnico. Rapidamente iria provar o quão enganados estavam.

 

Em 1976 o Liverpool entrou para a história. Venceu a Liga Inglesa com uma facilidade insultante e conquistou a Taça UEFA de forma autoritária. A equipa acentava ainda na base deixada por Shankly com Keegan e Toshack na frente com um 4-4-2 tipicamente britânico. O jogo passava essencialmente pelos alas com Keegan a recuar no terreno para trabalhar a bola com a dupla de médios centros - Callaghan e Hughes sempre desiquilibrantes. A estes juntavam-se outros nomes chave como Clemence, Heighway e McDermott.  Progressivamente o técnico foi dando o seu cunho pessoal.Chegaram Dalglish e Rush para o ataque, Souness, Lee, Hansen e Kennedy para o meio-campo. E a equipa continuou a fazer história. Em 1977 repetiu o triunfo na liga - o primeiro clube em vários anos a conseguir o bicampeonato - e venceu a sua primeira Taça dos Campeões, numa inesquecível final em Roma. Em 1978 novo triunfo europeu que fez esquecer a derrota na liga diante do Nottingham Forrest. No ano seguinte o Liverpool voltou a ser campeão tal como viria a suceder em 1980, 1982 e 1983. Todas elas sob a orientação de Paisley que em 1981 conquistaria a sua terceira Taça dos Campeões Europeus numa final contra o Real Madrid. Foi a última grande vitória europeia do conjunto "red" sob os comandos de Paisley. O técnico que tinha assistido à tranquila revolução da geração Shankley para aquela que iria - ainda - dominar os anos 80, preparava-se para dizer adeus. Em 1983, quando cumpria o nono ano no banco de Anfield Road, Paisley anunciou que punha um ponto final na carreira. Tal como o seu antecessor, também ele recomendou outro membro do "Boot Room", o seu velho amigo Joe Fagan. A equipa então liderada por Dalglish venceu a liga e Paisley saiu sob ombros. Aceitou um posto como directivo onde esteve na década seguinte até que lhe foi diagnosticada Alzheimer. Lutou oito anos contra a doença, mas esta batalha não a pôde ganhar.

 

Apesar de todos os contras que a história teimou em criar à sua volta, Bob Paisley continua a ser hoje o mais bem sucedido treinador do futebol inglês. Sem um carácter forte como Shnakly mas com um espirito extremamente humilde e pacato, Paisley transformou o Liverpool no mais bem sucedido clube do futebol europeu. Os seus homens pareciam invenciveis sob o seu comando. O seu papel é de tal forma fulcral na história do futebol inglês que basta pensar que sir Alex Ferguson demorou vinte e cinco anos em tentar igualar os feitos que Paisley logrou em nove.



Miguel Lourenço Pereira às 14:34 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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