Quarta-feira, 23.01.13

Enquanto a CAN dá os primeiros passos, fica evidente uma triste mas inevitável realidade. África pagou o preço de querer ser igual aos outros, aos que ganham a partir do sistema, aos que valorizam o triunfo sobre o modelo. A péssima qualidade dos jogos iniciais, aliada sobretudo à ausência de algumas das melhores selecções do continente, deixa antever um torneio pobre que não entrará na galeria dos mais memoráveis da competição. Tudo porque o futebol africano esqueceu-se de quem é.

Quando os Camarões surpreenderam o mundo do futebol, no Mundial de Itália 90, ainda não vivíamos num mundo global.

Salvo alguns jornalistas franceses - a France Football criara em 1970 o Ballon D´Or só para o continente - na Europa ninguém sabia ou queria saber do que se passava no "continente negro". Ninguém se importava com a Champions League africana, com a CAN, com o aparecimento de grandes estrelas individuais, treinadores memoráveis e jogos que não ficavam atrás dos mais tensos Boca Juniores vs River Plate ou Barcelona vs Real Madrid. África vivia no seu mundo, ignorada pelos restantes habitantes do planeta, fiel às suas origens.

Não era uma anarquia táctica, como sempre se tentou vender. Os jogadores não tinham a mesma formação que os europeus, é certo, desde cedo focados muito mais no aspecto organizacional, mas os conjuntos estavam tacticamente adaptados à realidade do momento. Em 1986 os marroquinos tinham sido eliminados só por um golo no prolongamento de Lothar Mathaus. Quatro anos antes, a Argélia tinha sido uma das melhores equipas da primeira fase, eliminada pelo pacto germânico entre austríacos e alemães. E na Argentina, em 1978, o perfume do futebol tunisino impressionou todos quanto o viram. Eram potências magrebinas, da escola francesa, com vários jogadores que actuavam na Europa, mas eram também a base de muitos dos clubes mais importantes do continente. Era um dos modelos do futebol africano, perfumado, técnico e organizado, cujo expoente máximo, o Egipto, sempre se portou melhor dentro do que fora de portas.

Os Camarões representavam essa outra África, negra, selvagem, rebelde, anárquica quase ao olho europeu, mas que tinha sido habilmente treinada por europeus durante mais de duas décadas para preparar-se para os grandes momentos. As pessoas lembram-se das celebrações de Roger Milla, repescado com os seus 38 anos depois de ter sido ignorado pelo Mundo quando venceu na década de 70 dois Ballon D´Or, mas não da dureza com que os Camarões derrotaram a Argentina. Ou da segurança táctica do conjunto egípcio. A memória, como em tudo, é bastante selectiva e a imagem que ficou de África, apesar de não distante da real, pecou por incompleta.

 

A Nigéria herdou o papel dos Camarões e deslumbrou nos anos 90.

Em toda a sua anarquia, em todo o seu atraso, como se vendia na Europa, venceram o seu grupo no Mundial de 1994, e acabaram eliminados por uma Itália entregue a Baggio. Depois ganharam uns Jogos Olímpicos batendo o Brasil e a Argentina, antes de humilhar espanhóis e bulgaros e cair diante dos dinamarqueses, depois de uma noite sem dormir a discutir os prémios de jogo, esse sim um mal bem africano.

No final, os experts, chegaram à miraculosa conclusão de que África não tinha um campeão do Mundo porque não tinha processos tácticos avançados, não tinha segurança defensiva e não sabia competir de igual para igual. O problema foi que os africanos começaram a acreditar nisso. A Lei Bosman transformou os clubes em empresas de exportação. Em lugar de bananas, exportavam jogadores em contentores para a Europa. O ASEC Mimosas tornou-se na filial do clube belga Lokeren - que chegou a ter onze jogadores marfilenses nos seus quadros. E como toda a lei de exportação, produz-se o que o cliente pede. E os europeus, que inicialmente se apaixonaram por Milla, por Finidi, por Abedi Pelé ou por Weah (já nem vamos falar de Eusébio, Keita, Ben-Barak ou Fontaine), passaram a pedir Desaillys, Vieiras, Essiens, Drogbas jogadores fisicamente possantes e omnipresentes, mais preocupados no processo destrutivo do que na arte mágica da criação. África dedicou-se a renegar da sua própria natureza.

O seu futebol mudou, as ligas - melhor organizadas, mas mesmo assim a anos luz dos modelos europeus - passaram a estar sob a mira de olheiros de todo o Mundo e quando os seus artesões chegavam à Europa e eram devolvidos à procedência por serem incapazes de passar 90 minutos a correr e pressionar o defesa rival sem ter uma oportunidade de golo, chegou-se à conclusão que o futebol africano estava em crise. Que só produzia jogadores físicos, muitas vezes com idades adulteradas, e que todos os criativos se tinham perdido. Ironia das ironias.

Europa provocou a destruição progressiva da alma do futebol africano com a sua política de compra e venda. A necessidade de viajar para o continente europeu para sobreviver - já nem falamos em enriquecer - transformou a própria natureza do jogador africano, como diria Etoo, necessitado de "trabalhar como um negro para viver como um branco". Os avançados passaram a ser tanques, os médios perderam o toque vagabundo para ganhar porte de milicianos e os defesas deixaram de arrancar da sua posição para explorar o mundo para aprender onde dar sem que o árbitro estivesse atento. O futebol africano transformou-se em pouco mais uma década no que é hoje, a anos luz de distância do que significou, onde todas as equipas se parecem, onde falta ambição criativa e sobra a especulação táctica. Onde o resultado é só o que conta.

 

O problema de África, ao acreditar nos europeus - algo que os sul-americanos tiveram a inteligência de nunca fazer verdadeiramente - foi a sua total dependência. Enquanto as ligas sul-americanas permitem que muitos jogadores possam fazer carreira sem sair de lá, em África a emigração é o único destino possível. As escolas patrocinadas por clubes como o Ajax limitaram-se a recrutar os diamantes em bruto cedo para moldá-los à sua figura antes do tempo. Os restantes estão entregues a empresários que dizem aos treinadores como preparar a próxima leva de contentores. Depois, quando se liga a televisão, agora que o mundo global permite, a CAN parece pobre, parece despromovida de emoção e, sobretudo, de qualidade. E há quem pense que o que se pensou, lá no coração da década de 90, não passou de um enorme erro. Quando o erro esteve, precisamente, em ignorar os 40 anos de futebol africano que havia por detrás.


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Miguel Lourenço Pereira às 19:55 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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